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Full text of "Depois do terremoto; subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa"








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DEPOIS DO TERREMOTO 

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA 
DOS BAIRROS OCIDENTAIS DE LISBOA 



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ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA 



Q. DE MHTOS SEQUEIRH 

DA ASSOCIAÇÃO DOS ARQUEÓLOGOS PORTUGUESES 



Depois do Terremoto 

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA 
DOS BAIRROS OCIDENTAIS DE LISBOA 



VOLUME IV 




COIMBRA 

Imprensa da Universidade 

1933 



Hò 
V. V 



PREFÁCIO 



Este quarto volume da obra Depois do Terre- 
moto, cujo primeiro saiu em igi6, só agora se 
publica por ra:{ôes de ordem vária, das quais meneio- 
narei apenas aquelas cuja responsabilidade me per- 
tence eque derivaram da escasse:{ absoluta do tempo 
que me é permitido utilizar nestes devaneios literá- 
rio-arqueológicos. 

De há ano e meio para cá que, dada ordem 
para a impressão deste tomo, só muito recentemente 
achei horas, livres e repousadas, para a refundição 
de parte da matéria, para a adição de novas noti- 
cias, colhidas durante este parêntesis, e, sobretudo, 
para novas inculcas respeitantes a actividade fabril 
do século xviii, sem as quais ficaria muito incompleto 
o meu trabalho, visto que neste volume final se trata 



desenvolvidamente do Real Colégio de Manufac- 
turas ideado por Pombal. 

A documentação contida nos muitos centenares 
de massos e de livros da Junta da Administração 
das Fábricas do Reino, deu-me larga contribuição 
para o estudo crítico, artístico, técnico, e histórico 
das oficinas fabris do bairro das Amoreiras^ princi- 
palmente no que dt^ respeito à célebre Fábrica de 
Loiça do Rato, a mais nomeada delas todas. 

Sem a consulta desses milhares de documentos 
nada se pode escrever sobre as nossas indústrias 
setecentistas ; mais ainda, nada se pode avançar a 
di{er sobre a nossa História Económica. O leitor 
achará nestes centos de páginas, escritas sem preo- 
cupações literárias, mais do que as essenciais para 

VI 



florir um pouco o árido terreno trilhado, muitas 
coisas novas, muitas surpresas quanto à técnica dos 
artífices do Rato, quanto à sua produção artística, 
quanto à história movimentada 'de tentativas, de 
êxitos e de falhas da nomeada fábrica pombalina. 
O mesmo se pode di:(er, embora em menor escala, 
quanto às suas irmãs, menos felizes e menos conhe- 
cidas. 

O resto do volume trata do Aqueduto das Aguas 
Livres, da Casa da Agua, historiando a introdução 
da água em Lisboa desde os tempos mais remotos, 
e ainda dos sítios de São João dos Bemcasados, da 
Cru^ das Almas, do Arco do Carvalhão e de Catn- 
polide, com os seus palácios, os seus moradores e 
as suas recordações. Um relato das antigas forti- 

VII 



ficaçÕes^ um lançar de olhos sobre o vale de Alcân- 
tara^ uma evocação do último ataque dos migue- 
listas a Lisboa, fecham o volume. 

O leitor que ainda se letnbrar dos anteriores 
volumes e não estiver arrependido de os ter lido^ 
vire a folha e comece por saber que, em i83S, foi 
posta à venda a Fábrica do Rato cujas faianças lhe 
ornam, talve^^ a mesa de jantar e a banca de tra- 
balho. 



VIII 



CAPITULO I 



Sumário: Chegamos defronte da Fábrica do Rato e diz-se onde 
era a oficina. — Toponímia da rua e seus moradores. — A 
propósito de faianças cita-se a Cerâmica Portuguesa e evo- 
ca-se a figura de José Queirós. — A importância do seu tra- 
balho e a sua rara intuição artística. — A moda das faianças. 

— Uma opinião de Acúrcio das Neves. — O autor pára e tenta 
traçar o quadro retrospectivo da Cerâmica Nacional. — É cha- 
mado a depor o Foral de Lisboa de i5co. — Prova-se que se 
não fabricava faiança no país, nessa data. — As «mállegas» de 
Talavera, Sevilha e Valença. — Inventários reais. — O Regi- 
mento dos Oleiros de 1572. — O que dizem João Brandão e 
Cristóvão Roiz de Oliveira, no Tratado da Abastança e no 
Sumário. — Os Fornos do Moinho de Vento e as providên- 
cias da Câmara contra a extracção de barro do Castelo, da 
calçada do Combro e da Cotovia. — Os oleiros de Santa 
Catarina, Jesus, São Bento e Janelas Verdes. — Faz-se uma 
lista. — Mencionam-se os locais onde se vendia a louça no 
século XVI. — Documentos pintados de faianças quinhentistas. 

— O falso «canudo» de iSSg e a falsa «Escola Cerâmica dos 
Freires de Palmela». — Um parecer que se não justifica quanto 
às peças brazonadas. — Quando começou em Lisboa a fabri- 
car-se faiança. — O oleiro que veio de Talavera. — Uma con- 
fusão esclarecida. — O que se chamava «porcelana» no sé- 
culo xvf. — O arco dos oleiros na recepção de Filipe II em 
1G19 e um romance de Rodrigues Lobo. — O comércio da 
loiça oriental e um presente do Cardial-Rei ao Papa. 

De páginas SgS a 402 do terceiro volume desta obra 
falei no palácio Praia e Monforte e agora voltamos, 
novamente — o leitor e eu — a ocuparmo-nos dele. 

Na parte do edifício que volta ao norte para a cal- 
çada da Fábrica da Louça e nos terrenos (hoje jardins 

VOL. IV i 



do palácio) que lhe ficavam nas trazeiras, até entestar 
com a rua das Amoreiras (antiga dos Arcos das Aguas 
Livres) esteve até i835, instalada a conhecida e nomeada 
Fábrica da Loiça do Rato. O nome que até há pouco 
teve a calçada servia-lhe de atestado, mas a quem peça 
documento comprovativo aqui o dou no presente antjn- 
cio: 

(( Vai á praça no dia 21 de setembro de i835, pela 
quantia de 5.6oo^ooo reis : o edifício em que se acha 
estabelecida: confronta pelo i\ com a muralha da Casa 
da Agua, S com a casa do Conde de Viana, nascente 
com a calçada da fábrica da louça, poente com a rua 
Direita do Arco das Agoas Lii^res; cof7ipõe-se de um 
grande páteo de entrada, tendo no fim um tanque, que 
recebe uma penna de agua do Aqueducto Geral das 
Aguas Livres, armarem de venda, casas de deposito da 
louça, casas das rodas com estufa, casa de pintura, 
outra de moer vidro, tanques de apurar o barro, ca- 
vallariças, palheiro, tojeira, quatro fornos de co^er 
louça e um de fa\er o vidro, mais seis casas para de- 
posito e guarda louça manufacturada, barro e resi- 
dência do Administrador» (i). 



A calçada da Fábrica da Louça foi serventia nas- 
cida com a fábrica. Só em 1801 é que, pela primeira 
vez, surge a designação de calçada da Loiça e, em 
i8o5, a de 7^ua da Fábrica de Loiça. Até ai vejo 
citar-se apenas o Sitio da Fábrica, juntamente com o 



(i) Anúncio publicado no jornal A Revista, de 19 de Setembro 
de i835. Foi-me indicado pelo meu amigo e distinto investigador 
sr. António César Mena Júnior. 



— 3 — 

de Mouserrate e o de Sobre a muralha. Nesse ano 
contava cinco fogos. 

Em i8i3 chamava-se-lhe rua da Calçada da Loiça. 

Morava então aí a família Travassos Valdez. De 
1826 a 1828 residiu igualmente na rua o Principal 
D. António da Câmara; de 1829 a 1884 o conselheiro 
José Joaquim Rodrigues de Bastos. Já então era co- 
nhecida por esse nome. 

D. Francisco de Melo Manuel da Câmara aqui mo- 
rou tambe'm de 1870 a 187 1 e o conselheiro Augusto 
César Cau da Costa em 1874(1). 

Actualmente chama-se a esta serventia calçada 
Bento da Rocha Cabral, em homenagem ao fundador do 
«Instituto» que hoje ocupa um dos prédios da rua (2). 



Esta Fábrica da Louça, que até nem já no nome da 
rua figura, sugerindo ao público a evocação dessa ofi- 
cina industrial do século xviii, foi uma das principais 
senão a principal da Colónia Fabril das Amoreiras 
criada pelo marquês de Pombal e cujos vantajosos re- 
sultados já é supéríluo encarecer. Foi a primeira a esta- 
belecer-se, e a que melhores e mais abundantes frutos 
produziu. 

As faianças do Rato figuram hoje nos museus e nas 
colecções particulares, como peças do maior apreço, 



(i) Róis dos Confessados da freguesia de São Matuede, anos 
citados no texto. 

(2) O "Instituto de Investigação Scientífica Rento da Rocha 
Cabraln foi fundado em 1922 por determinação testamentária 
deste benemérito, sendo encarregado da sua instalação, por idên- 
tica determinação, o Dr. Matias Boleto Ferreira de Mira. Foi 
reconhecido oficialmente por decreto de 11 de Agosto de 1922, 



~ 4 — 

mas durante muito tempo ninguém lhes ligava a menor 
atenção. 

Deve-se, incontestavelmente, a Joaquim de Vascon- 
celos, no norte, e a José Queirós, no sul, a divulgação 
desse gosto e desse culto artísticos. Os coleccionadores 
de arte começaram a interessar-se e a multiplicar-se, 
arranjou-se mercado para as «travessas» e para as 
«terrinas», para as «figuras» e para os «golfinhos»', 
para os «gomis» e para as «bacias de água às mãos». 

A faiança da velha oficina pombalina não estava 
identificada e nas grandes colecções a classificação 
estave por fazer. 

autor da Cerâmica Portuguesa inventariou mar- 
cas, definiu tipos, estabeleceu balisas. Gomo obra de 
iniciação é formidável. 

^- Caiu em erros? Caiu. (.• Confundiu-se algumas 
vezes ? — é certo. 

1 Mas quem não cometeria essas faltas, examinando 
separadamente milhares de peças sem possibilidade de 
as cotejar ; uma hoje, outra amanhã, outra de aí a um 
mês, em Viana, em Lisboa, em Coimbra, à custa de 
um trabalho insano e disperso, fragmentário e isolado ? 

Os erros eram fatais. Eu, que tive, com Alberto de 
Sousa, de identificar e de classificar as faianças da co- 
lecção Ameal — oitocentas peças das mais variadas épo- 
cas e origens, em que pude observar bem a vastidão e 
a dificuldade do problema, vendo como era fácil esta- 
belecer a falsidade de algumas, por comparação, e como 
era difícil classificá-las, isoladamente, — avalio a dificul- 
dade da empresa, de sciência certa. O célebre «ca- 
nudo» datado de 1689 que enganou Queirós e que 
enganaria outros que o vissem, era falso como Judas, 
feito, como outros, por Pereira Cão. 

A importância da Cerâmica Portuguesa creio que 
ninguém a pôs ou porá em dúvida. José Queirós, cujo 



espírito encantador evoco sempre com saudade, amigo 
de verdade, português às direitas, figura pitoresca e 
característica do seu tempo, foi o iniciador. Sem êle 
não seriam possíveis os trabalhos de investigação e de 
análise que hoje honram a nossa literatura neste ramo 
da arqueologia artística, os livros de Quim Martins, do 
Dr. Vergílio Correia, do Dr. Luís de Oliveira, de An- 
tónio Augusto Gonçalves, e ainda agora, recentemente, 
do Dr. Pedro Vitorino, livros que chegaram a conclusões 
definitivas sobre a história da Cerâmica Nacional. Sem 
o seu trabalho de organizador, de divulgador, de entu- 
siasta propagandista, que motivou a exposição das 
faianças da Torrinha, ali defronte de S. Julião, e a 
Exposição do Carmo em 1914, não seriam possíveis as 
fábricas de Campolide, a da rua de Santana, de Leo- 
poldo Baptistini e outras que se estabeleceram à conta 
da moda das faianças nacionais, por êle criada, e que 
não consentia que numa sala de jantar, num salão, 
num quarto ou num escritório, não figurasse um prato, 
uma jarra, um tinteiro ou um gomil de faiança portu- 
guesa. 

No Porto a acção de Joaquim de Vasconcelos, cuja 
lição serviu ao autor da Cerâmica, foi idêntica. José 
Queirós linha uma rara intuição artística. Pegava numa 
peça de loiça e dizia : — «E do Rato» ou — «E de 
Viana». Se lhe preguntassem a razão do asserto, não a 
saberia dizer. Sentia-a apenas. As coisas portuguesas 
falavam-lhe, entendiam-se com êle. 

Ouvi-o, uma vez, defronte de um «bacio de san- 
gria», dizer muito naturalmente : 

— É do Norte. 

— O Queirós, retorqui-lhe eu, mas não vê a faixa 
habitual do Rato. 

— Já lhe disse que era do Norte. 

— Mas . . . 



— Você porá os fiias que quiser, mas êlc é que é do 
Norte. 

E era. 

Se fosse vivo, que alegria teria êle agora, vendo jus- 
tificadas e documentadas a maioria das suas hipóteses, 
dos seus projectos, e dos seus pressentimentos de artista ! 

Queirós nem sequer visionou toda a importância da 
obra que escreveu. Se cie soubesse o que eú hoje sei 
da Fábrica do Rato, pasmaria de si mesmo. O ca- 
rácter variado da produção, os sucessivos ensaios ali 
feitos empastas e em vidrados, a identidade dos artistas 
que lá trabalharam temporariamente e que estiveram 
também noutras oficinas, produzindo idênticas peças com 
marcas e origens diferentes, obrigando mais a investi- 
gações de autoria do que às de fábrica, a te'cnica e a his- 
tória do azulejo setecentista de Lisboa, os inventários 
da fábrica ennumerando peças e preços, toda a história 
artística, técnica e industrial da velha oficina pomba- 
lina, se êle soubesse agora isto, que legítimo orgulho e 
satisfação não sentiria, êle que mal tocara num do- 
cumento e mal roçara pela Torre do Tombo ! 

Ao tratar das faianças, neste meu largo passeio evo- 
cador que me trouxe à calçada da Fábrica da Loiça, 
mal me ficaria que não trouxesse até mim a figura de 
José Queirós. Com ela me acompanho ; com a sua 
amizade e com a sua recordação. 



Aciírcio das Neves escreveu sobre esta Fábrica do 
Rato. O capítulo que lhe dedica no seu conhecido 
livro Noções Económicas Históricas e Administrativas 
sobre a produção e Manufactura das Sedas em Por- 
tuL^al, e particularmente sobre a Real Fabrica do Sn- 



buvbio do Rato e suas atiexas, impresso em Lisboa em 
1827, começa assim : 

<L Par a fazermos alguma ideia da louça que antiga- 
f?ieute se fabricava em Portugal^ veja-se a que ainda 
hoje sai das nossas olarias, e de-se-lhe o desconto do 
muito que ellas se tem aperfeiçoado, depois que temos 
algumas fabricas desta manufactura de melhor quali- 
dade, as quaes nunca entre nós passarão de medíocres; 
e assim mesmo tem origem italiana» (i). 

Pelo desacertado juízo sobre os produtos da época 
que lhe permitia profetizar a sua futura imperfeição, 
pode-se ajuizar sobre o restante desacerto das opiniões 
artísticas do laborioso escritor. As suas críticas me- 
recem, por isso, pouca confiança. O mesmo se não pode 
dizer quanto à parte económica e administrativa dos 
estabelecimentos fabris de que trata o seu livro. Aí é 
seguríssimo, e por isso, só nessa orientação lhe segui- 
remos o escrito, que, aliás, é pouco desenvolvido. 

Foi nos papéis da antiga Junta de Administração 
das Fábricas do Reino (oitocentos volumes e maços, 
acantoados no Arquivo Nacional) que colhi a maioria 
das noticias que aqui dou ao leitor. Sem a sua con- 
sulta, sem mergulhar em cheio dentro dos Inventários, 
das Ordens, das Consultas, dos Requerimentos, dos 
Livros de Contas e dos apontamentos avulsos, é impos- 
sível escrever-se, seriamente, uma linha sobre a história 
económica do século xviii e sobre as indústrias nacio- 
nais, revigoradas umas e criadas outras, pelo esforço 
de Pombal e dos seus, às vezes esquecidos, auxiliares. 

Antes, porém, de entrarmos nessa narração artís- 
tica, técnica e industrial, entendo convir esboçar, a traço 
largo, indicando, sucintamente quanto possível, quais 
as conclusões feitas até hoje e quais as hipóteses dignas 



(1) Páginas aSg a 240. 



— 8 - 

de se manter, no tocante a esse ramo da actividade 
artística portuguesa. 

Perdoe-se a digressão. 



Começou-se a fabricar faiança em Portugal na se- 
gunda metade do século xvi. Anteriormente a esta data 
os nossos oleiros apenas feituravam barros vermelhos, 
lustrados ou vidrados, de vermelho, de verde, de branco 
e ainda de amarelo, seguindo a escola árabe e modifi- 
cando a pouco e pouco as formas tradicionais. 

Já no «Floral de Lisboa», concedido pelo primeiro 
soberano português, se prescreve que os moradores da 
cidade hajam livremente tendas, fornos de pão e de 
ólas(i). 

A primeira data que aparece para estabelecer uma 
balisa de estudo é o último ano do século xv. O «Fo- 
ral de Lisboa» dado por D. Manuel em i5oo não deixa 
dúvidas acerca do seguinte facto: — Nessa data não se 
fabricava faiança no pais. A telha e o tejolo são tri- 
butados nesse documento (verdadeira pauta alfandegá- 
ria) com a di\ima pelo fabrico ou pela entrada por 



(i) Isto de o/cí qucre dizer genericamente wisos de barro, em- 
bora particularmente se refira a certas vasilhas, pequenas, de barro 
vidrado, também conhecidas pelo nome de púcaros. Em caste^ 
lhano ola significa também um certo prato composto de carne de 
vaca ou de carneiro, toucinho, grão e outros adubos. Corres- 
ponde à nossa panela caseira: sopa e coijido. Na linguagem figu- 
rada castelhana, o púcaro — puchero, como eles dizem — entra em 
grande escala. 

Cá de portas a-dentro apenas dou fé dos dizeres populares 
tirar nabos do púcaro e de casa e pucarinho, em que esta vasilha 
entra como símbolo de curiosidade habilidosa e da mais cstieita 
intimidade. 



Foz, e com o direito de sacada pela entrada ou saída 
da cidade. A louça não vidrada, vinda de fora do reino 
por terra, pagava portagem, assim como saindo dele. 
Vinda por /oós pagava dízima, e a do reino, vidrada 
ou não, pagava por entrada ou saída da capital três 
por cento do valor jurado. No capítulo Málega c A:{u- 
lejo, só se taxam as loiças deste género vindas de fora 
do reino por terra ou por foós, com o dirimo adua- 
neiro, sem se considerar o seu fabrico cá, prova evi- 
dente de que êle se não fazia. 

No seguinte capítulo epigrafado Louça diz precisa- 
mente o foral : 

aEhos vizinhos de Lisboa, que mandarem pêra suas 
quintaãs fora da dita cidade, e termo mallega de Va- 
lença ou d'outra qualquer parte, ou azulejos, ou louça 
da terra, ou tejollo para seu serviço, e uso de casa, 
nom pagarão ho dito direito de sacada». 

E no anterior : 

«£' se ha dita mallega e azulejos aportarem, ou 
entrarem em algu outro logar, e porto do Reyno, assi 
do mar, quomo da terra, e hi se pagar seu direita, se 
depois vierem a ha dita Cidade, posto que polia foós 
venham nom se pagara aqui mais direito da entrada 
etc. 



Mallega para os portugueses do século xvi era loiça 
vidrada branca. 

A faiança, pois, não se fabricava em Portugal, em 
i5oo. Vinha-nos de Espanha: — de Valença, de Tala- 
vera, de Sevilha, e recebia-se e tinha-se como coisa de 
grande luxo. 

O Tratado da Magestade, Grandeza e Abastança 
da Cidade de Lisboa (Estatística de Lisboa de i552) 
publicado em iq23 por Gomes de Brito e Vieira da 



— IO 



Silva, que o anotaram eruditamente, diz-nos que de 
Sevilha, Talavera e outras terras de Castela, nos vi- 
nham essas louças cujo comércio anual orçava por 
I i.5oo cruzados. 

Por outro lado nos Inventários das nossas princesas 
figuram peças variadas dessas proveniências. 

No inventário da infanta D. Beatriz, mãe de D. Ma- 
nuel, enfileiram-se entre a loiça de botica; búrneas de 
mallega^ bacios de mal lega de Valença, tau/ores de 
Mallega, panellas de Valença^ craveiro de Valença^ 
potes de Mallega de Castela, altemias e almojias de 
Vallença^ salsinhas e pratos de Mallega de Valença, 
etc. juntamente com arredomas, almotoliasverdes, potes 
de consenti, salsinhas de bordas, bacios de bordas e 
chaõs, abados, alguidares que porventura seriam de 
barro brunido, ou vidrado, nacional. 

Aparecem mmhém, jarras de barro de RodliesQ), 
potes de barro forrados de rergua, o que é uma sur- 
presa, vasos com enxarope de avenca (dignificação ar- 
queológica para o capilé lisboeta) e bacios de pisa, que 
Quim Martins supôs serem oriundos de Pisa mas que 
eram, de-certo, os comesinhos almofarizes de pisar (i). 

A baixela de pau também figura no inventário — 
gamelas, bandejas, escudelas, trinchos, bacias, salsi- 
nhas, saleiros, castiçais e colheres — artefactos que, 
em geral, vinham de Flandres, mas que também já cá 
se fabricavam. 



Os oleiros alfacinhas produziam, como em Coimbra 
e noutras terras do país, loiça vermelha, loiça verde e 
branca vidradas e ainda vermelha vidrada. 



(i) Cerâmica Coimbrã no século XVI, por J. M. Teixeira de 
Carvalho, pág. 120 e seguintes. 



1 1 — 



o Regimento dos oleiros de i62(3, copiado do de 
ib-j-z feito por Nunes de Leão ou de outro qualquer, 
alterado deste, feito no último quartel do século xvi, 
assim o dá a entender (i). Os oleiros de louça ver- 
fjielha fabricavam telhas de água, cântaros, potes, 
quariões, atanores, panelas, asados, almotolias, púca- 
ros, candieiros e outras peças miúdas ; os de loiça 
vidrada verde, panelas, almotolias, tachos, infusas, pra- 
tos, canos para telhados, frigideiras, servidores, mále- 
gas e escudelas da feição de porcelana ; os de loiça 
branca de Talaveira, almofias de boticário e grandes 
de pé, galinheiros (pratos grandes), albarradas, redo- 
mas, boiões e panelas de botica (2). 

Por este documento se vê que, ao acabar o terceiro 
quartel do século, já em Lisboa se fabricava loiça branca 
de Talavera, isto é faiança, imitando as faianças que 
de Castela nos vinham. 

Assim se explica que, em i55i, Cristóvão Rodri- 
gues de Oliveira mencione 206 oleiros no seu Sumário 
das Xotícias de Lisboa, citando além desta verba 16 
telheiros, 22 tejoleiros e 32 ladrilhadores, afora 47 de- 
buxadores e 76 pintores ceramistas (!). 

O Tratado da Magestade, Grandeza e Abastança 
de João Brandão, marca no ano seguinte, na cidade, 
60 fornos de louça assitn de barro como de vidrado 
rendendo em cada ano 10.000 cruzados. Noutro pronto 
menciona 70 tendas e casas em que fa^em louça de 
barro e mais 10 casas de louça vidrada, ocupando na 
sua laboração ao todo 210 pessoas, número que se 



(i) Regimento dos Oleiros de Lisboa, em 1616, copiado de 
outro anterior, publicado de páginas 202 a 210 na obra supra, e já 
publicado também pelo Dr. Vergílio Correia. 

(2) Outro Regimento de Oleiros foi decretado em 31 de Ja- 
neiro de 1797 — Publicação avulsa. 



— 12 



aproxima do que é referido por Cristóvão Roiz de 
Oliveira. 

Outros documentos do século xvi referem-se à pro- 
dução da cerâmica nacional. Em i584 o padre Duarte 
de Sande, no seu caderno de viajante (i) diz, falando 
do monte de S. Gens ... ejn cujas rai\es ha muitas 
olarias que trabalha?!! com muita perfeição loiça de 
barro, por ser o de Lisboa muito bom para tais obras. 



Toda a cumeada de S. Roque até Campolide foi 
também assento de oleiros e olarias. E vai ver-se o 
meu asserto. 

No local onde assentam hoje os prédios do lado 
oriental da rua de D. Pedro V, ficavam, no principio do 
décimo-sétimo século, em correnteza, até São Pedro 
de Alcântara, muitos fornos de louça. 

E o que nos diz o desenho, já inserto no primeiro 
volume deste trabalho, e contido num dos códices da 
«Colecção Pombalina» intitulado: Roteiro da Agoa 
Urre e agoa de Montemor e mais fontes junto a cilas, 
feito por Pêro NuJies Tinoco, architecto de Sua Ma- 
gestade, dedicado ao ilustre Senado da Ca!nara por 
João Nunes Tinoco, architecto de S.S. A. A., flho do 
architeto Pedro Nunes Tinoco, que fe\ o dito roteiro. 
Anno de i6ji. 

A diligência para a introdução da água em Lisboa 
fora feita cinquenta e três anos antes, em 25 de Se- 
tembro de 1618 (2). 



(1) Arquivo Pitoresco, vol. 6°, pág. 72. 

(2) Manuscrito B-5-23 da Colecção Pombalina da Biblioteca 
Nacional. 



K-> -- 



No ponto onde hoje assenta o edifício da Facul- 
dade de Sciências, quando os obreiros, aí por i586 e 
1087, examinavam o terreno para a edificação projec- 
tada do noviciado dos jesuítas, viram ser todo ele cor- 
tado de minas feitas npara a extracção do barro pelos 
oleiros do sitio»^ diz um manuscrito anónimo, que cal- 
culo ter sido escrito entre os anos de 1G20 a 1622(1). 

Ora tudo isto nos está a dizer que, paralelamente 
ao funcionamento dos fornos das olarias na raiz do 
monte de S. Gens, estavam também em laboração 
bastas oficinas na banda ocidental da cidade, como se 
propôs demonstrar José Queirós no seu trabalho Ola- 
rias de Monte Sinaj. 

Esse núcleo de produção cerâmica, espalhado em 
derredor de Santos (por Jesus, São Bento e cercanias), 
ressalta das abundantes indicações cidadãs do «Registo 
Geral de Testamentos», colecção hoje adstrita ao Ar- 
quivo da Torre do Tombo. A menção da residência 
dos oleiros testadores e das testemunhas, quási sempre 
oficiais do mesmo ofício, levam-nos realmente a admitir 
a existência de dois centros de produção apartados um 
do outro. 

Correndo, para outro fim, os Róis dos Confessados 
das freguesias de Santa Catarina e de Santos, depa- 
raram-se-me, no decorrer do século xvii, numerosos 
oleiros e pintores de azulejo residindo nessas paragens. 

A Frontaria de S. Bento — Santos-o- Velho — a 
travessa do Benedito (hoje do Oleiro), os Poiais de 
S. Bento, a rua das Madres e a dos Arciprestes foram 
assento de duradoiras oficinas, algumas das quais per- 
maneceram largos anos na mesma família, como a dos 



(1) Historia da fundação, augmento e progresso da Casa de 
provação da Companhia de Jesus — Capíiulo 8." (Colecção do 
Ministério do Reino — Torre do Tombo). 



- 14- 

Barhosas na Frontaria de S. Bento^ meado o sé- 
culo XVII, a dos Antunes nos Poiais e outras ainda (i). 

A providência municipal (Postura de 1610) proibindo 
a extracção do barro na calçada do Combro, atesta a 
afluência desses artífices na região indicada. O mesmo 
já se tinha determinado quanto à encosta do Castelo, 
por alvará de 16 de Julho de de i563(2). 

Numa escritura existente no Arquivo da Misericór- 
dia de Lisboa, datada de 1726, mencionam-se animas 
casas e quintal que servem de olarias Jnnto ao convento 
do Mocambo». Tudo indicações seguras da existência 
de um largo núcleo ceramista nesta banda da ci- 
dade (3). 

Para a lista dos oleiros lisboetas que tinham ofi- 
cinas e fornos neste lado ocidental de Lisboa, junto aos 
quási duzentos nomes que José Queirós coleccionou 
nas Olarias de Monte Sinaj e aos muitos que o Dr. Ver- 
gilio Correia publicou em igi8 na Atlântida e na «sepa- 
rata» depois vinda a lume, os seguintes : 

— Tinoco, cuja mulher faleceu em 19 de Março de 

1598; 

— Pedro Alvares, cuja mullier faleceu em 8 de Julho 

de 1579; 

— Domingos Fernandes, às Janelas Verdes, falecido em 

27 de Maio de i58i ; 

— Gonçalo Domingos, oleiro, cuja mulher, Joana Mar- 

ques, faleceu (século xvi) ; 



( 1 ) Róis dos Confessados de Santos e de Santa Catarina — 
Róis do século xvii — de iG56 a 1700. 

(a) Elementos para a Historia do Municipio de Lisboa., tomo i, 
pág. 569, e tomo ix, pág. 258. 

(3) O Arquivo da Misericórdia de Lisboa na Exposição Olis- 
siponense de igi4', pelo sr. Victor Ribeiro, pág. 5i. 



— ID — 

— Margarida Fernandes, oleira, às Janelas Verdes, fa- 

lecida em 26 de Janeiro de iSgy; 
■ — Simão Tinoco, às Janelas Verdes, cuja mulher, Inês 
Roiz, faleceu em 3 de Janeiro de i6o3 ; 

— Tinoco, outro ou o mesmo, cuja mulher faleceu em 

12 de Março de 1699; 

— Jorge Fernandes, oleiro, cuja sogra morreu na rua 

Direita em 10 de Dezembro de 1609; 

— O oleiro da rua Direita, cuja mulher, Maria dos Reis, 

morreu em 22 de Dezembro de 1599; 

— Pedro Partucho, oleiro na rua do Pé de Ferro, fa- 

lecido em i5 de Janeiro de 1614; 

— Simão Roiz, oleiro, cuja mulher, Antónia de Moura, 

morreu em 21 de Janeiro de 1614; 

— António João, oleiro, da rua do Olival, falecido em 

i5 de Janeiro de 1617. 

Todos estes óbitos estão registados nos livros de 
Santos-o-Velho. em cujo âmbito havia também uma 
"travessa do Oleiro». 

Na freguesia das Mercês (Santa Catarina) encontrei 
os seguintes : 

— João Garcia, em cuja casa morreu um Luís Meiri- 

rinho, em 21 de Agosto de 1398; 
' — João Benedito, oleiro, sogro de outro, casado com 
Antónia André, falecida em 12 de Setembro de 
i63o; 

— João da Rosa, oleiro de loiça branca em casa de 

Mem Alvares, embargado o seu casamento com 
Leonor Nunes por estar vivo o primeiro marido, 
Jerónimo Mendes, sirgueiro, ausente no Brasil, 
em 8 de Julho de 1601 ; 

— João do Couto, oleiro na rua de São Bento, defronte 

da Horta, falecido em 27 de Abril de 1646; 



— lO — 

— Mem Alvares, oleiro, em cuja casa houve um óbito 

em 28 de Dezembro de 1397; 

— Luís Alvares, ladrilhador aos Fiéis de Deus. Fale- 

cimento de sua mulher Maria Álvares, em 3 de 
Junho de 1394 ; 

— O Oleiro de São Bento. Morte de sua mulher. He- 

lena da Cruz, em 3 de Fevereiro de 1648. 

Nos óbitos desta freguesia, aparece o nome de um 
pintor (de louça 7) João Barques, talvez castelhano, fa- 
lecido em 1-5 de Setembro de 1G45. 

Nos livros de óbitos da freguesia do Loreto, vi, 
também, estes dois assentos : 

— João Roiz, oleiro, morador na rua dos Calafates, fa- 

lecido em 6 de Junho de 1623 ; e 

— Manuel Fernandes, oleiro, falecido em 2Ó de Abril 

de i626, morador na rua do Teixeira. 

A contribuição é pequena, mas aqui fica. 



A loiça nacional e porventura a de Castela, ven- 
dia-se no século xvi, por baixo da «varanda» de umas 
casas no Terreiro do Paço, que encostavam, pela parte 
de trás com a muralha da cidade e que ficavam entre 
o Arco dos Pregos e o do Açougue (1). 

Fazendo referências actuais direi ao leitor que tais 
varandas assentavam entre a rua da Prata e a rua Au- 
gusta, seguindo uma linha obliqua que, principiando no 



(i) As Muralhas da Ribeira de Lisboa, pelo sr. Augusto Vieira 
da Silva, pág. 34. 



— 17 — 

canto da arcada da rua da Prata, se metia, perto do 
Arco, na espessura dos edifícios dos ministérios. 

Quem passa hoje por aquele troço da arcada, junto 
ao posto da Cruz Vermelha, vai exactamente cami- 
nhando pelo local das velhas tendas de louças quinhen- 
tistas. 

As varandas eram sustentadas por esteios de pe- 
dra. Em iSyS chamava-se-lhe : a \^aranda Nova da 
Cidade. Para ela se subia por três escadas : a do lado 
ocidental, que foi tam.bém serventia das casas onde 
poisava a infanta D. Maria ; a do centro, que ia do 
Terreiro do Paço sair-lhe ao meio ; e a do lado oriental, 
que ficava junta ao açougue da carne (i). 

A venda do vidro também era ali feita por perto, 
nos alpendres de uma travessa que estava entre o beco 
do Açougue e a muralha fernandina, isto é, pouco 
mais ou menos, à entrada da rua nova da Princesa, 
para dentro das casas do lado ocidental (2). 

Ainda no século xvn, e até mesmo no século xviii, 
tinham as loiceiras, junto i\s fressureiras, os seus ban- 
cos no Terreiro do Paço, como se vê de diferentes 
posturas municipais, insertas na muito citada obra de 
Freire de Oliveira (3). 

Outro local onde as loiças se mercadejavam era no 
Rossio, na Feira das Martens (têrças-feiras), e dois 
dias antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, como se 
conclui do já citado Regimento dos Oleiros de 1672, 
publicado em 1616, no seu número 17. 

Parece também que, apesar da proibição de lá se 
vender noutro qualquer dia, para o final da centúria, 



(i) vl5 Muralhas da Ribeira de Lisboa^ pág. 38. 

(2) Idem, pág. 04 e seg. 

(3) Elementos para a História do Município de Lisboa, tomo ix, 
pág. 3. 

VOL. IV 2 



— 1» — 

havia aí pouso permanente de vendedores de faiança 
e barro, porque um assento de óbito dos livros de 
Santa Catarina, referido a uma D. Maria de Brito, re- 
gistado em 8 de Novembro de iSgõ, menciona como 
testamenteiro, João de Andrade, morador no Rossio 
antre os loiícciros. 

Mais tarde, outro terreiro de venda foi o largo do 
Carmo, onde se fêz durante muitos anos feira de va- 
silhas de barro para os crentes irem buscar à capela 
dos Terceiros a «água de Santo Alberto», que ali era 
benzida todos os dias 7 de Agosto (i). 



Talvez na «Varanda Nova da Cidade» ou na «Feira 
do Rossio» se encontrassem, então, à venda essas ga- 
lantes infusas e albarradas que figuram nalguns qua- 
dros quinhentistas, línicos documentos da faiança por- 
tuguesa do século XVI. 

O «canudo» datado de iSSg que enganou tantos in- 
vestigadores, levando-os a conclusões erradas, e', como 
vimos, falso ; outras peças, como os pratos de borda 
recortada, a uma cor ou policromos, com cabeças ala- 
das de anjos, que o sr. Dr. Luís de Oliveira supõe do 
se'culo XVI, são, marcadamente, seiscentistas, pela téc- 
nica e pelo caracter ; os pratos, decorados com brazÕes, 
e com legendas denominativas que o mesmo investiga- 
dor atribui, sem fundamento, à «Escola dos Freires de 
Palmela», são dos séculos xvii e até xviii, como daqui 
a pouco provaremos. 

O vaso que figura numa das tábuas do Triplico de 



(i) Sumário de Vária História, por Ribeiro Guimarães, tomo 
IV, pág. 240 e 241. 



— 19 - 

Coimbra, atribuído a um «Mestre do Paraíso» e datada 
de i33i, é uma jarra com açucenas de tipo nacional, 
decorada, policromamente, de filetes e arabescos, e 
assente sobre um disco de barro vermelho como os que 
ainda hoje se usam para o, para mim, detestável, manjar 
branco. A «albarrada» de um quadro do Museu de 
Arte Antiga que figura a «Anunciação», de autor des- 
conhecido, é decorada a uma só côr com as tábuas do 
decálogo e, tem no colo, uma legenda religiosa. 

Outros arabescos, denticulados, filetes, circunferên- 
cias encadeadas, ornamentam-na. As asas são elegan- 
tíssimas, aligeiradas por um ornato de folhagem que 
se revira, passada a maior amplitude. 

O mesmo caracter nacional, marca-a. O artista co- 
piou evidentemente uma «albarrada» que estava vendo. 

(íMas quando se começou, então, a fabricar faiança 
em Lisboa ? 

Quim Martins, no seu magnífico livro A Cerâmica 
Coimbrã no século XVI, onde se reproduzem os dois 
vasos a que fiz referência, crê, com fundadas razões, 
que meada a centúria de quinhentos já se fazia loiça 
branca de Málega em Lisboa e que foi da capital que 
irradiou o fabrico para o resto do país. 

Em Coimbra, até 1576, não se fabricava faiança; 
de 1576 até o fim do século, não está provado que se 
produzisse essa louça ; prova-se que ela se fazia nos 
primeiros anos da centúria seguinte, levada a arte, 
talvez, para lá pelo oleiro Amador Francisco, exami- 
nado em Lisboa em i58i e depois ali estabelecido. 

Este pormenor, e os dizeres do Regirnento, possi- 
velmente de 1572, deixam legitimamente supor que 
em 1570 já se fazia faiança na capital. 

^ Donde viriam o ensinamento e os mestres? 

E o que se vai apurar. 



— 20 — 



Manuel Severim de Faria, o erudito chantre da Sé 
de Évora, escreveu em j625, pelo menos, o que se 
segue, só publicado trinta anos depois: 

(íPoucos anos ha que hum oleiro que veyo de Ta- 
laveiva a Lisboa^ vendo a bondade d-o barro da terra^ 
começou a lavrar louça indrada branca^ não só como 
a de Talaveira ; mas como a da China ; porquê na fer- 
mesura, e perfeição podem competir as perçolanas de 
Lisboa com as do Oriente; e imitando-o outros ofi- 
ciais, cresceu a mercadoria de maneira, q não somente 
está o Reino cheyo desta louça ; mas vai muita de car- 
regação para fora da barraT> (i). 

O que ate' aqui tinha sido confuso por discrepância 
de datas, visto que já em 1619, quando da visita de 
Felipe II a Lisboa, a indústria da faiança estava aqui 
desenvolvida e os oleiros, orgulhosamente, tinham le- 
vantado um arco triunfal cheio de legendas documen- 
tais do seu incremento, e não se explicava esse período 
escrito em i655, passa a ter explicação depois de Quim 
Martins ter aclarado que o manuscrito das Noticias de 
Portugal já estava concluído em 1625 e possivelmente 
anos antes. Assim já se aceita aquele poucos anos ha 
com que começa o período esclarecedor. 

Houve, portanto, um oleiro que veio de Talavera 
para Lisboa, na segunda metade do século xvi, e que 
cá fêz escola. 

Quem seria o artista ? 

Antes de o irmos investigar, duas palavras ainda a 



(i) Noticias de Portugal, por Manuel Severim de Faria — Dis- 
curso i.", pág. 19 da edição de 1740, acrescentada por D. José 
Barbosa. 



— ai — 

propósito do texto transcrito das Noticias de Por- 
tugal. 

CP 

A designação de porcelana foi impropriamente em- 
pregada por Severim de Faria ou será erradamente por 
nós interpretada. Quando no século xvi se dizia por- 
celana, reíeriam-se à forma e não à matéria. Porce- 
lana significava, genericamente, uma vasilha em forma 
de «taça». No Regimento dos Oleiros, de 1572, men- 
cionam-sc escudelas da feição de porcelana, como 
vimos. 

Em documentos quinhentistas surgem «porcelanas 
de vidro», «porcelanas de prata» e fcporcelanas de 
oiro», prova evidente do que se afirma. 

O que o tal oleiro de Talavera, ou vindo de Tala- 
vcra, fabricava, era faiança. A primeira fábrica de por- 
celanas que houve na Europa, foi a de Meissen, na 
Saxónia, fundada em 1709. 

Os portugueses prosapiaram de ser os seus intro- 
dutores na velha Europa. Provam-no João de Barros, 
Nunes do Leão, Frei Nicolau de Oliveira e outros, ci- 
tados pelo sr. D. José Pessanha no seu exactíssimo e 
excelente estudo sobre a porcelana em Portugal, onde 
também se dá a primacia dos segredos do seu fabrico 
a um fradinho, Frei Gaspar da Cruz, que escreveu o 
Tratado em que se cotam muito por esteso as cousas 
da China, cô suas particularidades, e assy de reyno 
dor mui. 

Veja-se e consulte-se esse trabalho que merece todo 
o aplauso de artistas e de historiadores (i). 



(1) ^ Porcelana em Portugal — Primeiras tentativas — No 
Arquivo Histórico, 1.° vol., pág. 20 e segs. 



22 — 



Quando Felipe II de Castela e I de Portugal fez 
a sua entrada em Lisboa, houve, cruel é dizê-lo, brilhan- 
tíssimos festejos. Nos locais por onde havia de passar 
o solene cortejo, ergueram-se vistosos arcos orna- 
mentais. Cada ofício apresentava um desses monu- 
mentos festivos, caprichando em torná-lo o mais lu- 
xuoso que podia ser(i). 

Os oleiros e louceiros fizeram belíssima figura. O 
seu arco, situado em um estreito largo ao fundo da 
Padaria, junto à Misericórdia, era adornado com as 
figuras de Santa Justa e Santa Rufina e achava-se es- 
maltado dos instrumentos próprios do mister, entre os 
quais uma roda, sobre a qual a figura alegórica do topo 
pousava a mão esquerda, ao passo que a direita sus- 
tentava um vaso, por acabar, imitação de porcelana. 

Aos pés dessa figura lia-se a seguinte quadra : 

Aqui monarca excelso e soberano 

Vos oferece a arte peregrina, 

Fabricada no reino luzitano 

O que antes nos vendeu tão caro a China. 

E ainda esta : 

Para demonstração de mór grandeza 
Na perfeição da terra que pisacs, 
Até o barro humilde dá sinais 
De quanto o quiz honrar a natureza ! 



(i) Viagem de El Rey D. Filipe II ao reyno de Portugal, 
por João Baptista Lavanha, pág. 3o. Queirós supôs que o arco 
se ornamentasse de peças cerâmicas. Nenhum documento auto- 
riza a conjectura. 



-- 2J — 

Em um outro quadro via-se uma nau da índia des- 
carregando caixas de porcelana chinesa, outros navios 
carregando a nossa louça e outros ainda saindo, já car- 
regados, a barra do Tejo. 

Sob o quadro lia-se: 

ET NOSTR^ PERERRANT 

como quem diz : «Também as nossas naus as imi- 
tam» (i). 

O nosso bucólico Rodrigues Lobo, em um dos seus 
insonsos romances dedicados à jornada do «Demónio 
do Meio Dia», descreve a máquina ornamental dos olei- 
ros e diz, entre outras variadíssimas quadras : 

Al lado dei templo insigne 

Guyo ministério y orden 

Es honor de Portugal, 

Y espanto de otras naciones. . . 

e também 



Cuentan de naturaleza 

Y arte infinitos primores 

En los vasos de Lisboa 

Que oy llevam por todo ei Orbe (2). 

i Quem dirá que tais versos são do autor da Pri- 
mavera^ do Pastor Desenganado, do Peregrino e da 
graciosíssima Côríe na Aldeia! 



(i) Outro Regimento deste ofício tem a data de i5 de Junho 
de 1669 (Livro 3.° das Cortes — Regimento da Secretaria de Estado 
dos Negócios do Reino). 

(2) La Jornada dei rey D. Filipe II a Portugal — Romance 
xxxiv, incluído na edição de todas as suas obras, datada de 1723. 



— 24 



o comércio das louças orientais era considerável 
em Lisboa. A capital abarrotava de porcelanas chi- 
nesas. Os nossos mercadores não só as vendiam na 
rua Nova dos Ferros e as exportavam, embora não 
em tão larga escala, como os olandeses, mas chegavam 
a ir vendê-las a França, expondo-as aos parisienses na 
feira de Saint Germain(i). 

Ao poeta Scarron não escapou o nosso colorido 
mostruário. Di-lo nos seus versos : 

Menez moi chez les Portugais, 
Nous y verrons à peu de frais 
Les marchandises de la (.ihine 
Nous y verrons de Tambre gris 



Et la porcelaine fine 
De cette contrée divine. 



O cardial D. Henrique enviou ao papa Pio IV um 
presente de porcelanas. Frei Bartolomeu dos Mártires, 
vendo o Papa a comer em baixela de prata, tinha dito: 

— ^Porque não come Vossa Santidade em porcela- 
nas, que he um comer limpo e mui formoso ? 

Ao que o Pontífice respondera : 

— Dizei ao Cardial D. Henrique que as mande, e 
eu comerei nelas. 

E o presente foi enviado para Roma (2). 



(1) Cerâmica Portuguesa, de José Queirós, pág. 27. 

(2) Descrição de Portugal, por Duarte Nunes do Leão, cap. lx 
— De Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga, 
pág. 223. 



^ 25 ™ 

D. Henrique, ao que parece, usava baixela de por- 
celana da índia, como cá lhe chamavam denominan- 
do-a pela procedência e não pela origem e fabrico. Na 
índia não se fazia louça de porcelana. 

Leio n'um apontamento manuscrito que tenho, redi- 
gido há talvez oitenta anos, ter-se encontrado nos entu- 
lhos de umas obras, feitas no paço de Sintra, um prato 
da China da baixela do cardial-rei. Se é verdade, não 
o posso afirmar. 



Uma nota ainda : 

Frei Nicolau de Oliveira, nas suas Grandezas de 
Lisboa^ marca a existência, em Lisboa, em 1620, de 
8 fornos de loiça vidrada, 28 de loiça de Veneza (!), 
49 de tejolo e telha e i3 oleiros de azulejo, produto 
este que também se fabricava nos Fornos de Ve- 
neza (i). 

O que se não explica são os números «47 debuxa- 
dores» e «76 pintores» citados no Sumário de Roiz de 
Oliveira em i55i, quando a faiança, quando muito, es- 
taria em princípio, e tanto mais que o Tratado de João 
Brandão, no ano seguinte, não fala sequer em pintores. 



(1) Grandezas de Lisboa (Livro das), por Frei Nicolau de 
Oliveira. 



CAPITULO II 



Sumário : Em que se conjectura quem seria o oleiro que veio de 
Talavera. — Uma nota sobre Francisco de Matos. — A in- 
fluência oriental na nossa faiança seiscentista, através da 
Olanda. — O empório das porcelanas orientais e as cinquenta 
fábricas de Delft. — Gontraria-se a influência veneziana alvi- 
trada por um investigador. — Peças datadas. — Os tipos da 
faiança portuguesa : «Desenho miúdo», «Tecido Oriental» ou 
«Estrela», «Aranhões», «Barôco», «Malmequer»), «Bagas», 
«Renda», «Arabescos» e «Esponjado». — Citam-se várias pe- 
ças e apontam-se as suas características pelos elementos de- 
corativos apresentados. — A influência das fábricas de Castela 
e da Andaluzia. — As legendas e os brazões. — O que signifi- 
cavam, conforme a sua localização n^s peças. — • A teoria do 
coleccionador Dr. Luís de Oliveira. — As loiças das frascas 
conventuais e as peças de botica. — Ligação entre a decora- 
ção destas peças e o azulejo. — O que eram os malegueiros e 
donde veio este nome. — As peças atribuídas ao século xvi. 
— Como Júpiter dando uma audiência no Olimpo destrói a 
conjectura das obras cerâmicas dos Freires de Palmela, cuja 
Escola não está provado ter existido. 

O oleiro que veio de Talavera, conforme a refe- 
rência de Severim de Faria, foi, segundo crê Joaquim 
Martins Teixeira de Carvalho e o diz na sua Cerâmica 
Coimbrã, o pintor Francisco de Matos. Em i563 assina 
êle na «Bacalhoa» um dos famosos painéis de decora- 
ção mural dos jardins do encantador e arruinado pa- 
lácio dos Albuquerques. 

Supor esses painéis e as outras guarnições cerâ- 
micas da «Bacalhoa», feitas em Portugal, é tão rema- 
tada loucura como atribuir a artistas portugueses, edu- 



— 28 — 

cados cá, os azulejos de Sintra ou os da Sé Velha de 
Coimbra. 

Os azulejos da Bacalhoa são marcadamente de Ta- 
lavera pela técnica e pelo ar, digamos assim, e ainda, 
como muito bem observa Quim Martins, pelos erros 
ortográficos das legendas. Os da Sé Velha de Coim- 
bra são de Sevilha. Eslá provado pela encomenda 
feita por Mestre Olivier de Gand em i5o3 (i), e de 
Sevilha são também os do Paço de Sintra, os que cons- 
tituem o brazão do bispo D. Jorge de Almeida que 
hoje se admira no Museu Machado de Castro, e ainda 
outros. 

Era inadmissível pensar-se que esses trabalhos, que 
revelam uma fase adiantadíssima da arte, se feiíuras- 
sem cá, de repente, sem uma longa aprendizagem e 
sem uma continuidade de escola. 

A hipótese do autor estabelece-se da seguinte forma : 

Afonso de Albuquerque, filho, fêz parte do séquito 
da Imperatriz Isabel, filha do Venturoso, em i526. O 
séquito, ou êle só demorou-se em Sevilha de 3 de Março 
a 6 de Maio desse ano. Encontraria lá o português 
Francisco de Matos, ou melhor, o tal artista, que podia 
bem não ser este, trá-lo-ia consigo, ter-se-iam experi- 
mentado barros portugueses nas mãos do artífice, e de 
tal estudo sairia o busto de Afonso de Albuqurque que 
foi ponto de partida para outras obras. A decoração 
cerâmica da «Bacalhoa» nascera de aí (2). 

Fosse como fosse, o certo é que Francisco de Matos, 



(i) Escritura de 3i de Outubro de i5o3, feita em Sevilha. Os 
azulejadores foram Fernan Martinez Guijarro e seu filho Pedro 
de Herrera. Os azulejos de labores (cuenca) foram vendidos por 
20.000 maravidis (Apilejos Datados, por Vergílio Correia, Lisboa, 
1922, pág. 7 e 8). 

(3) Cerâmica Coimbrã, pág. 223 e 224. 



— -29 — 

castelhano, ou português que fora para Talavera ou 
Sevilha trabalhar c aprender, comoé mais provável, 
desenvolveu em Portugal uma grande actividade, criou 
discípulos que o honraram e, em breves anos, o azu- 
lejo e a faiança tomavam o incremento que se sabe. 

Em 1384 compÕem-se *^^ admiráveis azulejos de São 
Roque, onde a largueza da composição, a justeza do 
desenho e a harmonia do colorido denunciam um artista 
na plena posse das suas faculdades de criador e de 
executor. 

l Acaso se poderá identificar com este pintor de 
azulejos, um Francisco de Matos que, em 20 de De- 
zembro de 1575, casa na freguesia de Santa Catarina, 
com Ana Esteves (i)? 



Ao acabar o século xvi, já os nossos oleiros se acha- 
vam senhores e conhecedores desta delicada arte, tra- 
balhando com perfeição o azulejo e tentando achar a 
forma e o justo sentido decorativo no fabrico e na pin- 
tura da faiança de altar, de cozinha e de botica. Bri- 
lhantes exemplares nos aparecem todavia em museus e 
colecções em que se nota uma feição especialíssima da 
sua intuição artística, bafejada, pouco depois do seu esta- 
belecimento, por uma decisiva influência oriental, vinda, 
quanto a mim, mais provavelmente por imermédio dos 
ceramistas de Delft. 



(2) Livro I de Casamentos da Freguesia de Santa Catarina. 

Não creio que fosse este Matos o oleiro a que diz respeito 
a hipótese de Quim Martins. De i526 à data dos azulejos de São 
Roque vão 38 anos. Uma simples reflexão sobre estas datas põe 
de parte a conjectura. 



- 3o — 

José Queirós contraria esta influência dcs olandeses, 
mas verdade seja que documenta o seu critério apenas 
quanto ao fabrico do azulejo, e nesse ponto acho-me 
de acordo com o seu parecer. A influência de Delft 
deu-se no azulejo, mais tarde. Na loiça de mesa, de 
cozinha, de altar e de botica devia de ter sido inicial, 
ou pelo menos paralela à influência das fábricas de 
Sevilha, de Talavera e de «Puente dei Arzobispo». 

Algumas peças datadas deixam-nos livremente su- 
por que o tipo da louça de Castela e da Andaluzia 
predominou na produção da faiança portuguesa e ante- 
cedeu o período da influência de Delft. 

Por outro lado, algumas peças imperfeitas na forma, 
do tipo a que Queiroz chamou, e bem, desenho miúdo, 
podem levar-nos a conjecturar que esta influência orien- 
tal, vinda da Olanda, precedeu a primeira. 

As duas objecções contraditórias que ficaram for- 
muladas, conduzem-nos, pois, a uma solução que satis- 
faria a dúvida das observações. E que as duas influên- 
cias se deram paralelamente, havendo, então, em Lisboa, 
que foi o centro industrial cerâmico do século xvii (o 
que se acha sobejamente provado) dois grupos de fa- 
bricantes e de decoradores que produziam cada um o 
seu género de faiança : uns imitando mais os caste- 
lhanos de Talavera e da «Puente dei xVrzobispo», ou- 
tros imitando melhor os ceramistas de Delft ou sofrendo 
directamente a influência china. 

A produção olandesa era formidável no meado do 
século. Cerca de cinquenta fábricas trabalhavam em 
Delft, ocupando oito a dez mil artífices. Desde o fim 
do século XV que essa actividade se comprova em 
peças marcadas e datadas. 

Na segunda metade do século xvi as suas faianças 
esmaltadas a verde e a azul sujo, decoradas, por in- 
fluência oriental, de figuras chinas, curtas paisagens, 



01 — 



flores, borboletas, dragões, aliás interpretados à euro- 
peia, e ainda de motivos heráldicos e assuntos mitoló- 
gicos, invadiram os mercados da Europa, evidenciando, 
aparte esse fundo de estilização china, segundo uns 
um influxo italiano, segundo outros um ar alemão. 

Os olandeses foram, no velho continente, os prin- 
cipais dispersadores da porcelana chinesa, embora a 
nós caiba a honra da sua introdução; mas as loiças 
que vinham da índia, pouco saíam do nosso pais em 
comparação com a acção comercial de Amsterdão, 
que foi o verdadeiro entreposto da porcelana orien- 
tal(i). 



(i) O Dr. Luís de Oliveira reedita o parecer do Dr. Joaquim 
de Vasconcelos de que foram os ceramistas de Delft que imi- 
taram os portugueses, baseando-se para isso na informação de 
Havart, que atribuía o começo do fabrico das grandes peças olan- 
desas a ibgG. Este parecer do Dr. Joaquim de Vasconcelos vem 
no prólogo do Catálogo da colecção Moreira Cabral. 

O sr. Dr. Luís de Oliveira insiste pela filiação veneziana, a 
que o levou naturalmente á designação de fornos venezianos, cuja 
existência menciona em Lisboa Frei Nicolau de Oliveira, em 1620. 
Os fornos chamavam-se assim por serem construídos pelo sistema 
veneziano e não por que a loiça seguisse o estilo de Veneza ; 
loiça de Veneza chamava-se à que era produzida nesses fornos. 

Daí nasceu a teoria do ilustre ceramógrafo, que se cansa a 
compendiar elementos documentadores das nossas relações co- 
merciais, políticas e artísticas com a Itália. 

O mesmo se podia fazer quanto a Antuérpia e Amsterdão, 
quanto a França e quanto a Castela, e cada uma dessas listas de 
factos nada provaria, ou provaria tanto como a que se apresenta, o 
que vem a dar na mesma. 

Não está provada a vinda cá de nenhum mestre italiano, nem 
que da ida dos nossos pensionistas a Itália resultasse uma influên- 
cia decisiva nesse ramo da arte. Não creio que imitássemos as 
majólicas italianas directamente, mas apenas por intermédio de 
Espanha, onde, no princípio do século xvi, ceramistas italianos, 
trabalharam, como Nicolau Francesco, em Sevilha. Essa influên- 



— 32 — 

As chincsices nas peças de Delft perduraram pelo 
se'culo XVII fora, e a elas se adicionaram, à roda de ib5o, 
os assuntos bíblicos a destronar as Vénus e os Cupidos 
mitológicos. E então, também, que a pintura de placas 
e de azulejos adquire ali o máximo esplendor, produ- 
zindo-se quadros preciosos com paisagens e interiores 
e os azulejos, cá tão conhecidos e imitados, a que cha- 
mamos «de motivo isolado», a que daqui a pouco nos 
referiremos mais de espaço. 

No século XVIII a indústria estava já em decadên- 
cia. Das 5o fábricas da centúria anterior, só havia 29 
em 1764. 

O nosso tipo de louça desenlio miúdo (o Dr. Luís de 
Oliveira chamou-lhe desenho sintético, sem vantagem 
e com menor expressão) é, quanto a mim, na decora- 
ção, um produto de influência dos barros de Mulheim, 
de Tournay e de Delft, vidrados e esmaltados nesta 
última cidade, nos dois últimos terços de seiscentos. 

Duas peças apenas conheço datadas, ambas de 1660 : 
uma, um prato, tendo no fundo a legenda DNES (de 
Inês?) e uma salva de gomil com frete rebordado ao 
centro, em que Vénus se figura entre uma rica e pro- 
fusa decoração oriental, a azul e côr de vinho, de figuras, 
animais, plantas e flores, ambos da Colecção Ameal, 
dispersada em 192 1. 



cia veio-nos indirectamente. A finura das pastas, os motivos de- 
corativos, os escudos, os brazões, os assuntos mitológicos e reli- 
giosos, o costume de marcar as peças no reverso, são factos e 
circunstâncias observados tanto nas faianças venezianas, como 
nas olandesas. 

Outro facto é citado pelo sr. Dr. Luís de Oliveira para do- 
cumentar a antiguidade do comércio das loiças de Veneza. É 
que na rua Nova dos Fenos, desde o tempo de D. Dinis que tal 
comércio se fazia. Freire de Oliveira, citado por Sua Ex.% não diz 
isso. Quando fala em tal loiça refere-se só ao século xvi. 



— 33 - 

Esta última peça acha-se hoje no Museu de Arte 
Antiga, que guarda nas vitrinas uma grande bacia co- 
berta, ornamentada (espécie de terrina), nos mesmos 
tons, com scenas de interior, jogos de cartas e caçadas ; 
um prato, perfeito de modelagem, esmalte e pintura, 
do mesmo tipo, decorado com um brazão onde avultam 
duas caldeiras enxequetadas; e uma bilha, com o mote 
Real esmaltado num panejamento-bandeira, erguido 
por uma figura nua. Tudo provém da mesma colec- 
ção. 

José Queirós atribui certo prato de um tipo apro- 
ximado deste a que se tem chamado Estrela ou Tecido 
Oriental, ao século xvi; e uma talha, de tipo oriental 
acentuado, ao princípio do século seguinte. Ignoro o 
fundamento das atribuições. 

A decoração destas peças — figuras chinas de cabaia 
e sombrinha, motivos heráldicos, animais, tais como 
coelhos, cães, leões, mochos, veados e gamos, flores e 
plantas estilizadas, paisagens curtas e soltas, aves va- 
riadas — participa um pouco, também, dos elementos 
ornamentais castelhanos, principalmente no que diz 
respeito ao motivo decorativo do centro anversal, com 
que se acrescenta o produto, sem, aliás, perder o seu 
carácter oriental. 

As vezes este tipo aparece associado com outros; 
com a faixa baroca na aba, ou com os rótulos interva- 
lando as pontas prolongadas do tipo Estrela ou Tecido 
Oriental e ainda com os Aranhões. Na colecção do 
sr. dr. Luís de Oliveira há um curioso exemplar que 
participa dos três tipos: — Desenho miúdo, Tecido 
Oriental ou Estrela, e Aranhões. Em peças de loiça 
de botica, também aparece a faixa baroca associada 
ao desenho miúdo, mas o mais vulgar é a decoração 
das faixas, inferior e superior, ser de diamantes, de 
ornato de folhagens ou de filetes verticais, que seme- 
Voi.. IV 3 



Iham canduras. A grega clássica também aparece al- 
gumas vezes. 

Legendas indicativas de propriedade, religiosas ou 
simplesmente sentimentais, decoram nos a miúde, em 
acartouches», tarjas e escudos : — D. Cat.^ de Andrade, 
Charitas, e Amor, por exemplo. Nuns pratos a le- 
genda lê-se na aba, noutros no centro anversal. 

A indicação da propriedade igualmente aparece no 
reverso das peças: — Marques, Leite, Albuquerque, Lo- 
bato, Ribeiro, Teixeira, Vieira, Ataíde, Pigara, D. 
Catarina dè Andrade, — como se vê nas colecções 
Ameal e dr. Luís de Oliveira. Este investigador con- 
sidera estas legendas como assinatura de ceramistas, 
o que nos levava a consentir a hipótese de uma se- 
nhora fabricante ou pintora de faianças, tal como So- 
ror Jacinta da Madre de Deus, cujo nome religioso 
aparece, também, no reverso de outro prato da pri- 
meira destas colecções. 

Tais legendas significavam apenas a propriedade, 
que, noutros casos, se assinalava na frente da peça, por 
este processo ou por meio de brazões, do que há nu- 
merosos exemplares em peças de vários tipos. 

O sr. dr. Luís de Oliveira vai mais longe ainda: 
considera a legenda António da Rocha (Anto da Ro-. 
cha ou Ant." da Rocha) como assinatura de um oleiro. 

Ora, esta legenda aparece num óvulo, sobre a aba, 
formado entre um dos topos dos braços da Cruz, em 
dois pratos de tipo mixto(i), tendo um, ao centro, uma 
dama toucada de «Fontange» segurando na mão uma 
arara que se vê também incluída nos outros três óvulos 



(i) Estes dois pratos têm o ceníro anversal cercado de umg 
faixa — Três contas, Bagas ou Escamas — e a aba dividida pelos 
braços de uma cruz, em óvulos, decorados alternadamente por 
araras e por um tecido de escamas. 



— 35 — 

da aba. No outro, repete-se o elemento decorativo da 
arara nos mesmos pontos. Nas abas de outros dois 
pratos que existiam, como o primeiro dos supra-citados, 
na colecção Ameal, vê-se a mesma legenda, um tendo 
no fundo uma personagem também envolta num manto, 
e outro, do tipo Bagas, Três contas ou Escamas, lendo 
no centro anversal uma dama empunhando uma arara. 

No meu entender este Rocha seria o encomendador, 
o possuidor ou a pessoa à qual foram oferecidos os 
pratos. Não é admissível que o oleiro ou pintor se 
servisse da assinatura como elemento ornamental ou 
dignificador da peça. 

Daqui a pouco voltaremos a este assunto porque 
vale a pena insistir nele. 



As peças conhecidas hoje, além destes pratos, que 
são, em grande número, uns ladeiros e outros covos, aos 
quais os seiscentistas chamavam galinheiros, são bacias 
cobertas, potes de duas, três e quatro asas, altemias, 
talhas, boiÕes e canudos de botica, bilhas e asados, e 
uma ou outra peça miúda. 

A talha com a legenda Não quero nada do Amor, 
ornamentada de Cupidos, íiores, plantas e animais, re- 
produzida na Cerâmica Portuguesa, é um exemplar 
precioso, assim como a bilha com o mote Real sobre 
um panejamento empunhado por uma figura, que se 
encontra no Museu de Arte Antiga, vinda do leilão 
coimbrão de 1921. 

O prato datado de 1660 a que já me referi, de frete 
rebordado ; a salva, do mesmo ge'nero, adornada com 
o brazão dos Barbosas e o prato com o brazão dos 
.Pachecos ; a bacia coberta, de grandes dimensões, tudo 



-36- 

agora nas Janelas Verdes, são peças de grande valor 
artístico e documental. Para enfileirar com estas deve 
ser chamado a capitulo o prato, também reproduzido 
por Queirós e que pertence ao sr. dr. Luís de Oli- 
veira o qual estabelece a transição para o tipo Tecido 
Oriental ou Estrela^ em que, ao centro, se vê uma figura 
de mulher, trajada à moda do século xvii (princípio), 
com um espelho na mão e a legenda VER. 

Esse prato devia de fazer parte de uma série de 
cinco, representando os Cinco Sentidos, imitação ou 
adaptação de um modelo de Delft, de i65o, do cera- 
mista Cornelis Zachstleven, infinitas vezes imitado de- 
pois, embora mais grosseiramente (i). 

Mais um argumento a favor da influência de Delft 
na ornamentação da nossa faiança. 

A decoração principal dos canudos e boiões de bo- 
tica, deste tipo, são figuras, caçadas, animais, flores e 
plantas, acompanhada das diversas faixas a que já se 
fêz referência. As legendas em latim, postas diagonal- 
mente nestas peças, são freqiientes, ornamenlando-se 
diversamente com cordas de volutas (faixa baròca)^ 
com rendas (tipo Renda) ou atravessando-se directa- 
mente sobre o Desenho miúdo, interrompcndo-o. 



Do tipo Desenho miúdo é próximo parente o tipo 
estrelado a que. o sr. dr. Luís de Oliveira chamou 
Tecido Oriental, cujo efeito decorativo resulta das 
hastes de uma estrela ou dos braços, de aspecto duplo, 



( I ) Guide des Amateurs de Porcelaiues, por Augusto Demmin , 
pág. 843. 



- 37 - 

de uma cruz. Deste tipo, por amiúdamento das pontas 
da estrela, deriva-se ainda outro tipo. a que chamei, 
com Alberto Sousa, Malmequer na classificação da co- 
lecção Ameal, e tanto num como noutro intervêm fre- 
quentemente esses outros motivos ornamentais de ca- 
ráter oriental a que Queirós chamou Aranhôes e o 
sr. dr. Luís de Oliveira Símbolos chineses. 

Todos estes elementos aparecem frequentemente 
juntos em várias peças dos séculos xvii e xviii, sendo 
os do tipo, derivado, Malmequer mais comuns desta 
última centúria, ornamentados de Vénus e Cupidos, mais 
frequentemente e quási sempre só a azul. 

Todos eles são bafejados pela influência oriental 
directa ou indirecta, por via olandesa. Muitos pratos 
são cópias evidentes dos de Delft. Vendo as estampas 
26 e 27 da obra do sr. dr. Luís de Oliveira (1), onde 
se reproduzem pratos da China e de Delft desse tipo, 
não nos fica a menor dúvida. 

Um frontal de altar que o Dr. Joaquim de Vascon- 
celos viu ainda numa capela da igreja do Carmo, no 
Porto, apresentava os azulejos de que se compunha 
decorados com desenhos de Tecido oriental e Ara- 
nhões. 

Esses azulejos eram de 1657. Outro frontal, apre- 
sentando as mesmas características, existia na capela 
de uma casa brazonada perto de Nine (2). 

No Prado, fizeram-se pratos deste tipo, assim como 
em Coimbra (3). 



(1) Exposição retrospectiva de Cerâmica Regional em Viana 
do Castelo, no ano de igi5 — Breves Estudos, Porto, 1920. 

(2) Op. cit., pág. io3. 

(3) Op. cit., pág. 108 e 109. 



— 38 — 



O tipo Arauhões reriecte decisivamente a influência 
oriental. Os variados símbolos da loiça chinesa inter- 
pretados com evidentes obliterações pelos artistas por- 
tugueses e olandeses, que não curavam da exactidão 
iconográfica senão do efeito decorativo, aparecem mais 
comummente na aba dos pratos, umas vezes isolados, 
outras associados, cortando-se aquela com as hastes 
irradiadas da composição central. 

A peça que aparece com data mais antiga é um 
prato com um leão dentro de um escudo com elmo e 
paquife. Traz a data de iõ5i. No centro anversal 
dos pratos vêem-se cães, corujas, veados, coelhos, ga- 
mos, mochos, galos, cegonhas, etc. ; brazões com di- 
versas armas, avultando com maior frequência o leão, 
talvez dos Silvas ou dos Castelobrancos (logo se dirá 
porquê), a cruz de Malta, ocartoucbes», rótulos e le- 
gendas, aves variadíssimas, flores estilizadas, figuras 
chinas de cabaia e sombrinha, caras e bustos de mu- 
lher, figuras de caçadores, torres, barcos, anjos alados, 
etc. Um pássaro picando o coração, corações asse- 
teados poisando em livros. Cupidos vendados, um ele- 
fante com palanquim, uma scena de duelo com três 
personagens, são motivos decorativos das peças deste 
tipo. 

Num prato da colecção Ameal, hoje nas Janelas 
Verdes, decorado policromamente, figura-se o Sacrifício 
de Abraão, com a legenda SA.RVAFRI | CIO DEA | 
BRAN. Outro prato que ali se encontra tem, no cen- 
tro, um monograma estranho, em que há um A e por- 
ventura um C que o inclui, formado de uma rabisca da 
primeira letra, dentro de um escudo com paquife. Den- 
tro de uma vitrina, uma caixa de tampa moldada — ou 



-39- 

pequena terrina — apresenta idêntica decoração de 
Aranhões. 



As peças esmaltadas a branco amarelado, sujo, 
apenas com decoração central, chamemos-lhe assim, 
destinavam-se, em geral, a loiça de mesa das Comuni- 
dades. 

Essa decoração, que era em geral a azul e côr 
de vinho, constava do brazão das ordens (Carmelita, 
Franciscana, Dominicana) ou de letreiros de proprie- 
dade. 

Tenho visto muitas peças deste género. Eram das 
frascas conventuais. No Museu de Arte Antiga há 
um prato tendo, na orla do centro anversal, o letreiro 
Soror M." Angélica de S.'^ Rosa, e outro com o dizer 
Refeitório Framengas, associado a um brazão de S. Do- 
mingos. 

Algumas peças, mais apuradas de feitura e mais 
ricas de ornamentação, aparecem assinaladas com no- 
mes de religiosas, como um pratinho Desenho miúdo^ 
que tem inscrito, na orla, no anverso. Soror Cat.^ do 

Sacramento, e um cangirão, que, dentro de uma «car- 
pir 
toúcheo a azul, mostra escrito: ANNA DO ÇACRA. 

(Ana do Sacramento) (i). 

Como já dissemos, estas legendas de propriedade 
também aparecem no reverso. E o caso daquela So- 
ror Jacinta da Madre de Deus, a que já me referi. 



(t) Estas duas peças estão também no Museu de Arte An- 
tiga. 



— 40 



As faianças espanholas, de que o poeta Guerra Jun- 
queiro fêz uma grande colecção, passada depois à posse 
do dr. Aires de Campos, inHuíram, como se apontou 
já, na orientação artística dos wa//e^//eíros portugueses, 
cujas peças a azul e côr de vinho fizeram pensar ao 
autor dos Si??iples que elas definiam bem a sentimen- 
talidade da raça, opinião de poeta, sem dúvida inte- 
ressante, mas longe das razoes que, quanto a mim, 
motivaram essas cores, tão dos nossos pratos, empre- 
gadas apenas no sentido de procurar imitar os Delfts 
orientalizados. 

Já agora cabe aqui dizer que esta expressão ?uale- 
gueiroSf derivada do fabrico de Málegas, deve buscar 
remotamente a sua origem. 

Nos séculos XIV e xv chamava-se mállcga a toda 
a loiça vidrada e espelhante, de reflexos metálicos, fa- 
bricada pelos alfareros de Málaga, centro cerâmico da 
maior importância ao sul de Espanha, onde se fabrica- 
ram preciosas peças hispano-mouriscas, entre elas aquele 
famoso «vaso» de Alhambra que tantos encómios tem 
merecido aos ceramógrafos. 

A ideologia balouçando entre a forma Malga e 
a origem Málaga deu à palavra um sentido duplo 
de vaso ou escudela de loiça e de loiça vidrada, es- 
tendendo-se depois aos seus fabricantes: — os malc- 
gueivos. 

Como já se disse, a inliuência italiana fèz-se sentir 
em Talavera e em Sevilha, pelos artífices italianos que 
ali trabalharam. Cá chegou atenuada. A representa- 
ção mais directa do fabrico e do estilo de Castela e da 
Andaluzia, está no nosso tipo Barôco, marcado pela 
utilização da faixa de volutas nas bases e bocais dos 



— 41 — 

potes, boiões, canudos e talhas, e na aba dos pratos, 
e pela imitação dos motivos ornamentais das faianças 
de Talavera e de Ptiente dei Arzobispo. 

As primeiras, geralmente decoradas a azul c a ama- 
relo, têm como elementos decorativos essenciais — ca- 
beças, bustos, animais, plantas, Hores, brazões e outros 
ornatos heráldicos, «cartouches» e rótulos com le- 
gendas. 

Entre os animais predominam o leão, o veado, o 
mocho, o coelho, e variadas aves. Véem-se ainda 
Cupidos, dragões, caçadores, etc. 

Nas de Puente dei Arzobispo predomina a com- 
binação do azul, amarelo e côr de vinho, esta muita 
vez fazendo os perfis e as outras o cheio, tal como se 
repetiu cá, nos azulejos e nas peças de cozinha, mesa 
e botica, observado, e muito bem, por José Queirós, 
Vergilio Correia, Luís de Oliveira e outros. 

Os motivos ornamentais pouco diferem dos de Ta- 
lavera. Como pouco vulgares aponto o pavão, peixes, 
uma cornucópia, um toiro acometendo um cão, as 
armas dos Carmelitas, a cruz de Calatrava, etc. 

As nossas peças do tipo baraço repetem o estilo 
destas. 

As cabeças e os bustos de mulher dir-se-iam co^ 
piados dos exemplares espanhóis, enroladas as feições 
de tal jeito que lhes dão o aspecto de monstros ou 
de fenómenos de feira. 

Algumas peças datadas que aparecem, servem para 
conjecturar o seu período de produção. Um vaso de 
botica, decorado a azul, traz a data de 164 1, ornamen- 
tando-se com o escudo das quinas ; um pote, também 
a azul, vendo-se, no campo de um escudo, um busto de 
mulher, a de i65i, posta num rótulo; a de 1681 assi- 
nala um pote e uma garrafa, modelados rudemente ; 
ambas as peças ornamentadas com as armas das qui- 



-4^ — 

nas, a azul, sob o clássico esmalte branco-sujo da época ; 
a de 1677 numa garrafa de bôjo, decorada a côr de vi- 
nho (i). 

Em pratos deste tipo aparecem, da mesma forma, 
legendas de propriedade e brazões. Num prato Tecido 
Oriental^ da variante que se apelidou Malmequer, apa- 
rece a data de 1649. O prato decora-se com o escudo 
brazonado dos Silvas ou Castelobrancos. 



Outro tipo pode ainda marcar-se — o das Bagas, — 
a que o sr. dr. Luís de Oliveira chama Três Coutas 
ou Escamas. O carácter vem-lhe da ornaaientação da 
aba ou da orla anvcrsal, formada de grupos de três 
bagas, de efeito piramidal, colocados inversamente. 

O que predomina nas suas decorações são cabeças 
e bustos de mulher, aves e flores estilizadas em jeito 
de penaclios, ao gosto castelhano. O resto são torres, 
barcos, animais, corações asseteados, monogramas, etc. 

Num da colecção Ameal vi um homem fumando 
cachimbo. O ilustre coleccionador dr. Oliveira forma, 
aparte deste, um outro tipo^ — Flores e Penaclios, — 
motivos estes que em geral andam associados às 
Bagas ou aos restos degenerados do tipo Tecido 
Oriental. 

Estas peças são do século xviii e passaram ao azu- 
lejo de composição e de motivo isolado. Do tipo Bagas 
fabricou-se loiça em Coimbra. 

Na colecção do sr. dr. Oliveira, há uma tijela e um 



(1) As quntro primeiras peças vêm reproduzidas na Cerâ- 
mica Portuguesa. A quinta estava na colecção Ameal. 



-4-5- 

cofre pequeno, que Sua Ex/ atribui, não sei com que 
fundamento, ao século xvii. 



O tipo Retida marca-se solidamente por um ornato 
que semelha festões de renda, recortados, guarnecendo 
as bases de vasos de vário tipo, os letreiros em diago- 
nal dos canudos e boiões de botica, e as barras do 
azulejo de composição. 

Nos pratos não há novidade decorativa, salvo umas 
chaves encruzadas que observei num da colecção Ameal, 
um brazão de princesa com as armas de Portugal e 
Aragão, o que Queirós reproduziu na Cerâmica, uma 
ave enleada em ornatos — composição galantíssima — 
num pratinho que foi da colecção de J. C. Geraldes, 
de Viana do Castelo, e quatro peças (uma jarrinha, 
uma caixa de toucador e duas galhetas) na colecção do 
sr. dr. Luís de Oliveira, afora outro prato com uma 
representação do Arcanjo S. iMiguel; e outro, com a 
legenda : Amaral. 

Na igreja de Nossa Senhora de Brotas (distrito de 
Évora) há dois frontais de altar em azulejo onde se 
vêem rendas azuis deste tipo. Formam uma das sec- 
ções das cercaduras. O sr.dr. Vergílio Correia, que esta 
notícia nos dá, cita, a propósito, ter visto em Itália 
pratos de orla rendada (i). 

Azulejos e loiça de mesa e botica, devia tudo pro- 
vir da mesma oficina ou grupo de oficinas. 

Comummente a decoração deste tipo seiscentista é 
a azul e a cor de vinho. 



(i) Aptlejos datados, pág. 36, Lisboa, 1922. 



44 — 



Posterior a csics tipos há ainda o tipo Esponjado. 
Deve ser do século x.viii. Como motivos decorativos, 
empregam-se nele árvores, plantas, Hores, figuras, ani- 
mais e arabescos. Aos azulejos deste tipo feitos no 
fim do se'culo xvui chamavam os artífices: — de pedra 
torta. 

Ainda o sr. dr. Luís de Oliveira pretende criar uma 
nova classificação entre a faiança do século xvii. É o 
tipo Arabescos ou Espirais, assim apelidado pelo ca- 
rácter da ornamentação. Na sua colecção. Sua Ex.^ 
tem um belo prato brazonado (Mendonças ou Fogaças) 
dentro de uma moldura octógona, um boião, de tipo 
arcaico, com quatro medalhões no bojo entre vários 
compartimentos poligonais, e outras peças. 

Tal ornamentação é de carácter oriental, sem a menor 
dúvida, como o coleccionador justificadamente avança 
a dizer (i). O pratinho do iMuseu de Arte Antiga que 
pertenceu a Soror Catarina do Sacramento, deve in- 
cluír-se neste tipo. 



Todas estas peças do século xvii repetiram-se pelo 
século seguinte fora, dificultando excepcionalmente a 
sua atribuição a um período. Os brazões, como mo- 
tivos decorativos de maior efeito, copiaram-se desaba- 
ladamente. Só na colecção Ameal havia oito com o 
leão heráldico, em escudos adornados de paquife e 
elmo. 



(i) Dr. [aiís de Oliveira, op. cit., pág. !o3. 



-45-. 

Evidentemente não escaparam todos ao mesmo pos- 
suidor, posta de parle a hipótese inadmissível de os bra- 
zões representarem a autoria do modelador ou do pintor. 
Nem mesmo nenhum desses pratos se pode atribuir ao 
fabrico quinhentista dos Freires de Palmela, como se 
lhes não podem atribuir os azulejos da Bacalhoa, que 
são de Talavera, os de Sintra, que são sevilhanos ou os 
do palácio Fronteira, que são marcadamente do sé- 
culo XVII e nada têm de comum com os anteriores, 
nem na feitura nem no estilo. 

Quando o sr. dr. Luís de Oliveira diz não ter en- 
contrado entre os apelidos dos oleiros das listas de 
Vergílio Correia e de José Queirós, os que aparecem 
no reverso dos seus pratos e conclui que tais artistas 
eram fidalgos da Escola de Palmela, devia antes con- 
cluir que, se lais nomes lá não estavam, era porque não 
existiram tais oleiros, e se tratava, simplesmente, dos 
donos dos pratos. 

As peças que o mesmo coleccionador apresenta no 
seu trabalho feito por ocasião da Exposição de Viana 
de 191 5, como sendo do século xvi, são da centúria 
posterior. 

No Museu de Arte Antiga expõem-se três dessas 
peças — poisa-jóias, de aba recortada e relevada com 
cabeças de anjo aladas, como se vêem no fundo de 
pratos do tipo Aranhôes. Duas são polícromas, como 
a sua que tem a legenda VAS-COMSELOS, apre- 
sentando uma, no centro anversal, um busto de mu- 
lher, e outra uma figura de homem. A terceira e' 
esmaltada a branco-amarelado tendo, ao centro, um 
brazão, a tinta azul, mais rude do que as três peças 
que o autor também possui e que compõem a estampa 
N.° 3 do seu livro. Em Talavera fizeram-se peças se- 
melhantes. 



^46- 



Os pratos brazonados represenlaram, possivelmente, 
a posse e a encomenda, mas depois nem já isso signi- 
ficavam : — fabricavam-se apenas com o sentido decora- 
tivo, como hoje se fabricam peças de adorno com as 
armas reais ; por ser bonito. 

Nos séculos XVII e xviii, os que se tratavam à lei 
da nobreza, fidalgos e burgueses ricos, serviam-se de 
joiça da China^ ou de Chincheo e ainda de vasilhas de 
estanho que lhes vinham da Flandres, da Alemanha 
e de Castela. 

As faianças, os pratos de AranhÕes, Barôcos, de 
Desenho miúdo e os outros, estavam em cozinhas e cm 
tabernas, nos refeitórios das freiras pobres, como os 
canudos e boiÕes não serviam de jarras, como hoje, e 
se acantoavam em boticas. 

Agora é que as faianças nacionais entraram nas sa- 
las e nas mesas ricas. 

O seu lugar, então, era nas cozinhas e nas alfur- 
jas de beber vinho. 

Um documento simplíssimo, com o dobrado valor 
de não ser directo, derruba num ápice as hipóteses e 
a teoria do sr. dr. Luís de Oliveira, quanto aos pratos 
armoriados da imaginada «Escola dos Freires de Pal- 
mela». 

E um manuscrito — literatura joco-séria — incluído 
numa «Miscelânea» (Códice 2.865 da Biblioteca dos 
Condes de Ameal) em que se figura uma <i Audiên- 
cia q Jiipiter fe:{ no monte Olyjnpoi^. Depois de com- 
parecerem vários artífices e de serem julgados pelas 
queixas feitas contra cies, aparecem os oleiros acusados 
de muitas familias ilustres de q elles lhes sevandijavão 
as suas annas, pondo-lh'as na louça^ as quaes se 2'iam 



--47 — 

pelas tavernas e pedião liS'^ (licença) p.^ ío?7iarem iodos 
os pratos por perdidos cm que visse as suas armas. 
Júpiter lhe dice q não se afrontassem por q anies isto 
lhe servia de credito por mostrar tJiais dominios das 
suas casas. 



CAPÍTULO III 



Sumário: As composições cerâmicas do século xvi que aparecem 
datadas — A propósito do púcaro de Coimbra, da colecção 
de Mestre Gonçalves, faz-se uma digressão sobre púcaros 

— Citam-se vários trabalhos acerca de tal matéria — Pú- 
caros de oiro, de prata, de vidro e de barro — A mania de 
beber água e a de comer púcaros — O vasto assunto dos azu- 
lejos — Enumeram-se os tipos dos azulejos nacionais: Ró- 
tulos e Pendurados, Diamantes ou Jóias, Caixilhos, Laçaria e 
Rosas, Tapete, Folhagens, Jarras, Painéis^ Motivo isolado, 
Caricatura e Grinaldas — Citam-se alguns pintores e as suas 
obras — Azulejos datados — Os variados assuntos tratados nos 
azulejos de figura — Fabricam-se azulejos no Porto e no Juncal 

— Registos, figuras recortadas, cruzes, alminhas e lápides de 
foro — Fica estabelecida uma linha genealógica e cronológica 
no azulejo — Os escultores barristas — Frei Pedro, escultor 
barrista da escola de Alcobaça, em 1676 faz umas figuras para 
um Senhor de Tábua — Interessante documentação — A «louça 
grossa das Olarias» e a «louça fina de Lisboa» — Um parecer 
do bispo do Grão-Pará — Toponímia cerâmica— Em que se 
diz ao leitor onde era o «largo da Cruz do Azulejo». 

Julgo que ficou exuberantemente provado no capí- 
tulo anterior, que antes da segunda metade do séc. xvi 
não se fabricou faiança em Lisboa, e, como Lisboa foi 
o primeiro centro de produção do pais, que se não fa- 
bricou faiança em Portugal. As mais antigas datas 
observadas são i558, i563 e 1684, estas duas, respecti- 
vamente, nos azulejos da Bacalhoa e de S. Roque, assi- 
nados por Matos, e a primeira no famoso piácaro de 
Coimbra da colecção de mestre Gonçalves, hoje no 
Museu Machado de Castro. 

VOL. IV 4 



— 5o — 

De 1592 é datada a composição de azulejos, poli- 
croma, com o brazão de Alcácer do Sal, que se en- 
contra numa fonte desta vila, e de idqS os azulejos de 
jóias ou diamantes^ a azul e amarelo, da igreja lisboeta 
dos Jesuítas. São estas as datas que o século xvi dá 
para a cerâmica portuguesa. 

Daqui é que há que partir para observações e con- 
clusões. 



O púcaro de Coimbra, de barro vermelho, fino, 
delicadíssimo, é uma peça de excepção, ricamente de- 
corada com medalhões, cariátides, máscaras, festões 
embutidos, verdadeira jóia do Renascimento, de rara 
beleza e de interesse documental extraordinário. 

Acerca da utilização de tal peça e da sua origem de 
fabrico tem-se aventado várias hipóteses. 

^* Seria uma peça modelada sobre outra, de prata? 

^ Seria um pijcaro, de luxo, para beber? 

Quim Martins estuda minuciosamente o assunto, na 
sua Cerâmica Coimbrã no século XJ7. Os púcaros 
foram um objecto de luxo. Havia-os de oiro, de prata^ 
de vidro e de barro. 

No inventário da Infanta D. Isabel, mulher de Car- 
los V, aparecem dois púcaros de vidro com asas de 
oiro e uma sobrecopa de oiro esmaltado que serve de 
púcaro^ e na lista das jóias de uma das filhas de D. Ma- 
nuel vem um pratel de prata de levar púcaro^ dou- 
rado^ de dentro efora(i). 

Não sei de que matéria seria o piácaro que serviu 
à Rainha Santa Isabel para nele fazer o milagre de 



(1) Cerâmica Coimbrã no século XVI, por J. M. Teixeira de 
Carvalho, pág. 106. 



— !)! — 

mudar o vinho em água, nem o que D. Pedro de Melo 
deixou cair, na «sala de comer» do paço de Alcáçova de 
Lisboa, diante de D. João II, nem o púcaro por onde 
em Alcácer-Quibir D. Rodrigo de Melo estava bebendo 
quando o pelouro o matou, nem ainda aquele púcaro 
onde a Rainha D. Catarina molhava os dedos quando 
fiava. Aquele, do feitio de urna antiga, em que D. Se- 
bastião bebeu defronte do Cardial Venturino, legado 
do Papa, e que tinha um palmo de alto, era de barro 
de Estremoz. Os outros seriam de prata ou de oiro, 
talvez. 

Na «Taxa dos Oleiros de Coimbra de i573» há 
menção de três géneros de púcaros: Púcaros para be- 
ber com seu alguidarinho para debaixo e testo, pú- 
caros de coruchéu com pé e púcaro para beber, chão, 
sem pé{\). 

Os púcaros de barro honravam-se também com 
irem contados na bagagem das princesas. No Inven- 
tário da Infanta D. Beatriz contam-se 58 púcaros de 
barro, sendo alguns apedrados (2). 

Filipe II quando esteve em Portugal (i58i a 1682) 
mandou encomendar em Estremoz púcaros de barro 
para mandar às infantas (3). 

Camões, falando em certa dama, dizia: chia como_ 
pucarinho novo com água; Gil Vicente Já citara enco- 
miàsticamente esta vasilha, pondo na boca de Branca 
Dias, no Auto da Feira : 

Eu queria ser pucarinha 
pequenina para mel. 

Rodrigues Lobo fala poèticameate, ao lado da talha 
pedrada, num pucarinho de feição. 



(i) Cerâmica Portuguesa, pág. 104. 

(2) Idem, pág. I iG. 

(3) Idem^ pág. 109. 



— D2 — 

Lope de Vega aponta os púcaros e os barros de la 
Maia, numa come'dia anterior a 1600, e Duarte Nunes 
do Leão, na sua Descripção de Portugal, faz o elogio 
do púcaro com todas as redundâncias do estilo do 
seu tempo, encomiando o seu aroma, o seu talho, a 
eterna mocidade dos púcaros de Montemor que não 
envelheciam, bastando que os roçassem, cheios de pe- 
drinhas a esmaltá-los ; a frescura dos do Sardoal, onde 
a água ressumava e por isso esfriava notiwelmente ; os 
de Pombal, de que se fazia grande estima ; e, sobre- 
tudo, os de -Estremoz, de barro tão coado e liso como 
se fosse vidro, cheirosos e saborosos como nenhuns. 

E acaba dizendo : 

«£■ não lie de espantar fazerem os portugueses tanto 
caso da Baxella de simples barro para beberem por- 
que (como deles escreveu Strabão) sam naturalmente 
bebedoures de agua, e por isso buscam vasos da terra 
para que sempre lhes pareça que bebem na mesma fonte. 

O Tratado da Grandeza, Majestade e Abastança 
da cidade de Lisboa, de João Brandão, dá relevo a 
esta predilecção dos bebedores computando, em i552, 
em dois mil cruzados o valor do comércio dos púcaros 
de Estremoz. 

Compreende-se bem que Bellini, que Quevedo e 
que Lope de Vega os cantassem, que em Roma esti- 
vessem nos gabinetes dos Monsenhores e dos Cardiais, 
e nos Museus, que para a índia se mandassem encai- 
xotados e que Francisco Rodrigues Lobo escrevesse, 
na Corte n Aldeia como em pragmática, <^que o beber 
seja sem pressa e com tento, não levantando o púcaro 
quando outrem o tenha na boca». 

Este assunto de púcaros é vastíssimo. D. Carolina 
Michaèlis de Vasconcelos exgotou-o no seu trabalho, 
intitulado Algumas palavras a respeito de Púcaros de 
Portugal, em que, honrosamente para mim, cita um 



— 53 — 

estudo meu, publicado na Atlântida, sob a forma de 
diálogo clássico, que denominei Os Púcaros. E uma 
entrevista imaginosa com um púcaro de cozinha. 

Sobre a Bucarofagia, a ilustre filóloga e romanista 
dá interessantíssimos pormenores. A mania de comer 
pLicaros foi uma praga nos séculos xvii e xviii. Às 
notícias inéditas que dei no meu referido trabalho, 
tiradas da Fénix Renascida, dos Apotegmas, de Supico 
de Morais, das Observações Doutrinais de Curvo Se- 
medo e das Cartas do Cavalheiro de Oliveira, acres- 
cento para a curiosidade dos leitores um Romance de 
Tomás Pinto Brandão, no Pinto Renascido, «feito a 
uma noiva que indo beber água se perturbou, de sorte 
que lhe caiu o púcaro» (i). 

Neste Romance cita-se o famoso Romão, o Romão 
das Olarias que fazia uns púcaros de massa tão del- 
gada «como a dos bolos que se dão nas diferentes festas 
dos Santos fora da terra», como diz o Coronel Fran- 
cisco Coelho de Figueiredo (^2). 

As damas bebiam a água e comiam o púcaro a se- 
guir. E o excesso foi a tanto que o «Regimento Novo 
dos Oleiros», de 21 de Janeiro de 1797, proibia o fa- 
brico dos púcaros de cambraia, e uma postura da câ- 
mara, do mesmo ano, defendia que se fabricassem as 
pastilhas de barro que se vendiam, depois, para os 
substituir e manter o vício. 

Os púcaros da Maia, tão nomeados pelos antigos 
e cujo nome se tem querido fazer derivar de um oleiro 
Maia que tinha a sua oficina à calçada de Agostinho 
de Carvalho, devem antes filiar-se noutra origem. 

Miguel Leitão de Andrade, na Miscelânea, refere-se 



(i) Pinto Renascido, Empenado e Desempenado, pág. 498. 
(2) Volume XIV do Theatro de Manuel de Figueiredo, Anota- 
ções finais. 



-54- 

às Maias como sendo as «galantes da corte», nome que 
lhes davam pelo excessivo ornato do trajo que sugeria 
os excessos sumptuários das festas populares desse 
nome. 

Os púcaros das AJaias ter-se-iam transformado em 
púcaros da Maia. É uma hipótese, que possivelmente 
se poderá justificar. Os oleiros Maias que viveram no 
se'culo XVIII é que não iam denominar os quinhentistas 
barros cortesãos. 

E veio tudo isto a propósito do famoso púcaro, da- 
tado, da colecção de mestre Gonçalves, que se encon- 
trou num sótão de Santa Cruz com restos de outros, 
lampas de coruchéu, e vidros velhos partidos. 

Em resumo : Esta peça excepcional tem de se con- 
siderar à margem dò nosso assunto, visto não se tratar 
de faiança, mas sim de obra de barro vermelho cozido 
e lustrado apenas, embora documente o alto grau de 
aperfeiçoamento dos oleiros ou, pelo menos, de um 
oleiro quinhentista. 



O estudo do azulejo constitui, só de per si, um 
campo vastíssimo de observação. 

Portugal durante os se'culos xvii e xviii inundou se 
de azulejos. Conventos, igrejas e capelas, palácios, 
nos interiores e nas fachadas, revestiram-se de faianças 
brilhantes, de uma grande riqueza decorativa. De norte 
a sul, rara é a povoação onde esse elemento de deco- 
ração construtiva não intervém. 

Os azulejadores do centro cerâmico lisboeta produ- 
ziram quantidades espantosas desses revestimentos, al- 
guns dos quais aparecem, no norte, assinados pelos 
alfacinhas Nicolau de Freitas, António de Oliveira Ber- 



— DD — 

nardes, Bartolomeu Antunes, Policarpo de Oliveira 
Bernnrdes e outros. 

No sul, assinando o revestimento cerâmico da igreja 
da Misericórdia de Olivença, aparece o de Manuel dos 
Santos, que tinha a sua oficina, também, em Lisboa. 
Gabriel dei Barco assina, igualmente, variadas compo- 
sições em templos alentejanos. 

Após um período de decadência, passados os pri- 
meiros oitenta anos do século passado, o azulejo en- 
trou a progredir, a desenvolver-se e a aperfeiçoar-se ; 
e hoje, tornado moda outra vez, entrou de novo a fa- 
bricar-se e a pintar-se em larga escala, utilizado não só 
como simples revestimento de fachadas e de paredes 
interiores, mas como elemento decorativo, adstrito ao, 
chamado, estilo construtivo nacional. 

Já muito se tem escrito sobre a história do azulejo 
português. Depois de Queirós, que alinhou uma série 
de datas, baseando-se em informações e conjecturas de 
Gabriel Pereira, Joaquim de Vasconcelos e João Maria 
Nepomoceno e ainda nas suas próprias observações, o 
Dr. Vergilio Correia no seu trabalho Áiiilejos Datados 
(duas edições), acertando algumas hipóteses, estabele- 
cendo novas classificações e anotando datas e períodos 
de feitura de numerosas guarnições cerâmicas, dilatou 
os horizontes desse ramo da arqueologia artística e 
pôde, com o seu espírito de investigador e o seu bom 
critério, fixar ideias seguras. 

Sabe-se já que os azulejos da Bacalhoa, os do Paço 
de Sintra e os da Sé Velha de Coimbra são, uns de 
Talavera e outros de Sevilha, e que de lá vieram, os 
primeiros já influenciados pela arte dos artífices ita- 
lianos da Renascença. Os de Vila Viçosa, atribuídos 
a 1D70 e tantos, serão italianos — presente do Papa 
Pio V aos Duques, como conjectura José Queirós por 
simples pressentimento — serão de Talavera, como os 



— 56 — 

da Bacalhoa, ou ainda, possivelmente, portugueses (i). 
Os motivos decorativos são máscaras, frutos, armas, 
rótulos, «cartouches», figuras, elementos heráldicos, em 
dois frisos. 

Desse revestimento polícromo estão dois quadros 
no Museu de Arte Antiga, que figuraram em 1867 na 
Exposição de Paris, e que, à volta, o rei D. Luís ofe- 
receu às Janelas Verdes. 

Os azulejos da capela de Garcia de Rezende, no 
Espinheiro (Évora), os da Matriz de Viana de Alvito, 
os da igreja ^de S. João Baptista do Lumiar (verdes e 
brancos, de caixilho), atribuídos, respectivamente, por 
Gabriel Pereira, a i52o, i525 e i552, são posteriores a 
estas datas. 

A data dos do Lumiar está na pia baptismal, o que 
não documenta o período da pintura. Azulejos de cai- 
xilhos desse tipo, íizeram-se pelo século xvii fora. 

De 1647 estão datados, por exemplo, os da capela 
do Penedo em Sintra (2). 

Parte dos revestimentos da igreja da Graça, de Lis- 
boa, são de azulejos polícromos com elementos deco- 
rativos «Renascença» do tipo a que Queirós chamou, 
seguindo Joaquim de Vasconcelos, rótulos e pendu- 
rados. 

Este erudito investigador marca-lhes o período de 
fabrico, de 1570 a i58o; mas Queirós prolonga-o até 
iSgo. 

l Serão também de Talavera ? 

Do fim do se'culo xvi são os azulejos do tipo jóias 
ou diamantes^ da entrada, sob o coro, da igreja de São 
Roque, de Lisboa, e os da sacristia da Casa Pia de 



(i) Consegui vê-los recentemente (no dia 28 de Setembro de 
igSo) e ficou-me a impressão de que o poderiam ser. 
(2) Azulejos Datados, págs. 20 a 26, Lisboa, 1926. 



-57- 

Évora, os primeiros datados de 1596 e os segundos de 

i599- 

Estou em crer que os «ide ornato» datados de i584, 

que decoram a capela de São Roque da primeira destas 

casas religiosas e que Francisco de Matos assina, são 

os mais antigos azulejos provadamente nacionais que 

possuímos. 

É dai que temos que começar a contar, a classi- 
ficar e a metodizar o estudo. 

Duas composições cerâmicas notáveis, reflectindo a 
mesma influência italiana, vinda indirectamente por 
Talavera, apareceram então : a da Capela de Nossa 
Senhora da Vida, que estava na destruída paroquial 
de Santo André e que foi restaurada e trasladada para 
a Biblioteca Nacional em i865, e a da Capela de Santo 
Amaro, sobranceira a Alcântara, ambas polícromas, a 
primeira atribuída a 1600 por Queirós e a segunda a 
1610, pelo mesmo ceramógrafo. 

Nos azulejos da «Senhora da Vida» intervêm dia- 
mantes, como os de São Roque, juntamente com pilas- 
tras arquitecturais ladeando nichos com figuras ; nos 
de «Santo Amaro» pormenores agiológicos, pilastras, 
cariátides, máscaras, figuras, anjos, aves e borboletas, 
e ainda o motivo decorativo das pontas de diamante. 

Por pressentimento, suponho nacionais estas duas 
obras cerâmicas. 

Quanto a mim, a «ponta de diamante» entra já ali 
como assinatura portuguesa, pois julgo ser este elemento 
o primeiro com que os nossos ceramistas caractizaram 
os azulejos do seu fabrico e que define o primeiro tipo 
a classificar. A capela do Convento do Carmo em Co- 
lares, estudada pelo Dr. Vergílio Correia, forra-se em 
1612 deste azulejo de diamantes (i). 



(i) Ajulejos Datados, pág. 11 e 13. 



— 58 — 

Segue-se, eni ordem de antiguidade, o tipo do enxa- 
dresado a branco e azul, ou verde, a que o ilustre Di- 
rector do Museu Machado de Castro chamou, e bem, 
de caixilho, que se féz, pelo menos, em toda a pri- 
meira metade do século xvii. 

Há-os datados de 1617, 1620, 162C), 1647 e abun- 
dam no Alentejo e ao derredor de Lisboa — Póvoa de 
Santo Adrião, F^anhões, Espírito Santo de Bucelas, 
etc, etc. 

O tipo a que José Queirós chamava de tapeie e que 
o Dr. Vergítio Correia chama de laçaria e rosas, que 
precedeu o úpo padrão, pela simplificação do desenho, 
cingindo-se a cada azulejo o desenvolvimento do motivo 
ornamental a azul e amarelo, fabricou-se durante todo 
o século XVII. 

Os mais antigos azulejos que aparecem datados são 
os da capela da Pena (1619), e os mais modernos, de 
1674, na Misericórdia de Torres Novas, o que não 
quere dizer que se não fabricassem ainda posterior- 
mente. 

Esta denominação de laçaria e rosas é já antiga. 
Vem mencionada num manuscrito — Tratado da Cidade 
de Portalegre — feito em 1609, e publicado em 1919 
pelo meu erudito amigo, sr. António Torres de Car- 
valho, em Elvas. Foi do seu conhecimento, denun- 
ciado por Vergílio Correia, que este professor a ado- 
ptou. 

Os azulejos deste tipo resultam da combinação de 
grupos de quatro folhas espalmadas, saídas de um qua- 
drado e de um octógono concêntricos, passando um 
anel branco pelas extremidades superiores das folhas, 
onde elas levemente se envolvem, e por meio do qual 
se faz a ligação com os outros grupos (i). 



(1) Ajiilejos Datados, pág. i5. 



-59- 

Algumas vezes este tipo parece associado com o de 
caixilho nas mesmas decorações cerâmicas, como acon- 
tece na do Penedo (Sintra) c noutros templos. 

O tipo padrão de tapete ou só tapete, fabricou-se 
durante todo o século xvii, como o de laçaria e rosas, 
associado com este ou com o de caixilho, às vezes, 
como na Misericórdia de Torres Novas. 

Variantes destes há o úpo folhagens que se admira 
na igreja de Nossa Senhora de Brotas e na igreja do 
Salvador, em Torres Novas. Em todos estes, mas 
mais logicamente no tapete^ aparecem, nas paredes 
dos templos, quadros embutidos com representações 
humanas, geralmente scenas do agiológio e vasta figu- 
ração bíblica. 

Na capela do Penedo, já citada (1628), há sete qua- 
dros com passos da vida de Santo António e scenas da 
Paixão com intervenção do Santo ; na igreja de São 
Quintino (Sobral de Monte Agraço) um quadro do bap- 
tismo de Cristo, uma Nossa Senhora da Piedade e a 
Adoração da Cruz ; na capela do Corpo Santo, da Ma- 
triz de Vila do Conde (1G22) igualmente se utilizou o 
mesmo processo decorativo ; e na matriz de Souzel, 
fazendo o fundo aos dois altares laterais do arco triun- 
fal, vêem-se também dois quadros embutidos represen- 
tando, a azul e a amarelo, um Nossa Senhora do Ro- 
sário e outro Santa Clara. 

No meado do século xvii o azulejo nacional fortifica 
o seu carácter que em breve vai definir-se, marcada- 
mente, com as grandes composições iconográficas, a 
azul. 

Aparece então o tipo do azulejo de jarras: pilas- 
tras coroadas de vasos enramados de flores, cercando 
golfinhos e torcidos a formar uma moldura interna que 
abrange albarradas floridas com asas de sereias aladas, 
tudo a azul sobre fundo branco. Toda a composição é, 



— 6o — 

em geral, encaixilhada em cordas de flores, em volutas 
ou nestas duas faixas decorativas, como na capela da 
Senhora da Saiide de Montemor (i). 

Das oficinas de Lisboa começaram então a sair, 
no fim do segundo quartel do século, essas estupendas 
guarnições de painéis figurando passos, quadros e sce- 
nas religiosas e profanas que até aí apenas se viam em 
pequenos painéis embutidos em tapete e em laçaria e 
rosas ou fazendo parte de composições de estilo arqui- 
tectónico, como elemento acessório. 

A primeira dessas composições que apareceram 
datadas é a guarnição de uma sala no palácio do Ca- 
Ihariz, em Azeitão, pertença dos senhores duques de 
Palmela, solar construído ou totalmente restaurado no 
segundo quartel de seiscentos. 

Nos quatro painéis que lhe formam o silhar cerâ- 
mico, vê-se, em cada um, ao centro, uma oval com 
figuração bélica cercada de um entresachado de atri- 
butos guerreiros que constituem a maior superfície. 

Na lâmina de uma bisarma ou alabarda, pintada no 
painel que fica entre as janelas, está a data — 1645 — . 
O desenho é incorrecto e mole, e o azul frouxo e des- 
vanecido. 

Noutra sala do mesmo palácio a guarnição cerâ- 
mica, representa uma batalha naval — a de Lepanto ? — 
vendo se no painel que fica entre as janelas, figurando 
o brear de uma nau acostada, a data de 1672, num 
dos caixotes que estão no cais. Nos quadros navais 
vcem-se naus com bandeiras portuguesas, com cruzes 
de Malta, com escudos indeterminados e com barras 
horizontais. 

Outras salas são revestidas com azulejos de assuntos 



(1) Cerâmica Porluguesci^ de José Queirós, pág. 240, e Azu- 
lejos Datados, do Dr. Vergílio Correia, pág. 17. 



— 6i — 

mitológicos, de caça grossa, de caça às abetardas, patos 
bravos, ctc. A «de visitas» guarnece-se de alegorias 
marítimas, como a Coroação de Neptuno, etc. ; a cha- 
mada aSala Grande» com painéis de caça; a «de Jan- 
tar» com azulejos de países; a «de Bilhar» com mito- 
logias ; e a da Biblioteca, com um silhar figurando a 
História de D. Quixote, oculto pelas estantes. 

Alguns quartos, nesta ala do palácio, são também 
decorados com silhares de azulejos, a azul e côr de vi- 
nho, que me pareceram dos mais antigos de todos, 
apresentando o carácter das primitivas faianças de mesa 
e botica. Toda a decoração cerâmica deste solar é do 
se'culo XVII. Os azulejos da capela estão datados de 
1696 e representam a vida de São Francisco. O de- 
senho e' incorrecto e o azul duro. Todavia não são tão 
mal desenhados como os azulejos da igreja de Nossa 
Senhora da Orada em Souzel, que devem ser da mesma 
época ou anteriores (i). 

De 1686 era a guarnição cerâmica da ermida de 
Nossa Senhora do Monte, na quinta da Ramada em 
Frielas, devida ao pintor ceramista António de Oliveira, 
dispersada há anos, na ruína da capela, por sucessivos 
roubos. Era de desenho seguro e correctíssimo e de 
um lindo azul desmaiado. 



(i) A decoração cerâmica desta igreja é seccionada em três 
partes. A primeira é um silhar de leões pintalgados, frutos e flo- 
res em festões. A segunda é constituída por uma série de pai- 
néis com a vida de Nossa Senhora, horrivelmente desenhados. O 
menino Jesus, nas palhas, parece um bicho. A secção superior, 
feita, seguramente por outro artista menos ruim, alude à batalha 
dos Atoleiros e à fundação do templo pelo Condestável, vendo-se 
em todos os quadros Nuno Alvares Pereira, e num deles, em que 
se traja de guerreiro com elmo emplumado, numa tarja, a frase 
Sus a ele, saíndo-lhe da boca, que a lenda diz ser a origem de 
Sousel. Estes azulejos devem ser do meado do século xvii e têm 
relações de parentesco com os da capela do palácio do Calhariz. 



— 62 — 

Dêsle mesmo artista eram os azulejos da igreja 
dos Lóios de Lisboa, datados de 1711 e muitos outros, 

Outro artista, espanhol, chamado Gabriel dei Barco, 
exerceu cá, por esse tempo, a sua actividade. Há e 
havia trabalhos dele, assinados ou seguramente atri- 
buídos, porque o seu estilo é inconfundível, em Santa 
Maria de Óbidos (1693), no palácio do Conde da Ponte, 
ao Calvário (Lisboa) feitos em 1697, nos Lóios de Ar- 
raiolos, em 1691 e 1700, em Santa Iria (1G98), em 
São Tiago de Évora em 1699 ^ ainda na capela-mor 
da igreja da Charneca, na igreja do Asilo da Rua For- 
mosa e na Madre de Deus, de Lisboa. 

Gabriel dei Barco tinha a sua oficina em Lisboa, 
onde viveu e casou nada menos de três vezes (i). 
Desenhava com grande incorrecção, mas pintava com 
um grande sentido decorativo e o seu azul começa a 
graduar-se. 

Um certo ar oriental que se nota nas suas figuras 
e acessórios reflecte já a influencia olandesa. Barco 
compunha inteiramente livre da escola castelhana de 
Talavera e consequentemente do influxo italiano que 
lá perdurava. 

O progresso das oficinas portuguesas vem deste 
período de brilhante actividade. A António de Oli- 
veira e a êle, outros sucederam, como os Bernardes, 
os Freitas e os Antunes, das «Olarias» de Lisboa. 

Portugal sôbrepunha-se à actividade espanhola. No 
azulejo, Talavera e Sevilha começaram a decair. 



(1) Nos registos paroquiais de Santos-o-Velho asscntam-se 
os três casamentos de Gabriel dei Barco, que, como se vê, não 
perdeu ocasião de se ligar com as portuguesas. Em 18 de Abril 
de 1701, já viúvo, segunda vez, de Agostinha das Neves, casava 
nessa igreja paroquial com JVlaria Tereza Baptista, filha de Vnm- 
cisco Baptista e de Maria Smiões. A sua oficina era aqui em 
Santos o-Velho, onde residia. 



— 63 — 

Os assunios bíblicos e mitológicos, os símbolos sa- 
cros, as vidas dos Sanlos padroeiros e dos beatos e 
fundadores (como o Frei António da Conceição— o 
Beato António cm Xabregas, Frei Gonçalo de Lagos, 
e D. Frei Aleixo de Meneses, no convento da Graça 
de Torres Vedras e no de S. Bernardino de Peniche); 
toda a história religiosa ; as fábulas (como em S. Vi- 
cente de Lisboa) ; as scenas de toiradas (Jardim da 
Estrela e Quinta das Areias, em Vila Franca, que 
foram de um palácio de Povos) e as scenas de pica- 
deiro, como na casa n." Sg da Rua de São Bento, 
citada por Queirós ; os assuntos de lavoura, como na 
referida quinta das Areias ; as scenas de interior, jogos, 
cortesanias, danças, e quadros de mesa ; as caçadas e 
pescarias ; os combates navais, marinhas e motivos 
náuticos, como no antigo palácio do pátio das Vacas, 
hoje Museu Agrícola Colonial ; as scenas campestres de 
jogos da bola, merendas, e outros divertimentos de jar- 
dim; as naturezas-mortas (enchidos, peças de caça e de 
capoeira) e as scenas culinárias da matança do porco 
e dos trabalhos de Vatel, como no palácio da Mitra em 
Santo Antão do Tojal, no do Correio-Mor em Loures, 
numa cozinha à Cruz das Almas de que logo fala- 
rei, e no convento de Refojos do Lima ; e as simples 
paisagens com fundos de arquitectura a que então se" 
chamava azulejos de países, como na Matriz de Alco- 
chete e cm muitas salas de palácios, inundaram então 
todo o país, produzidos nas oficinas de Lisboa. 

Do líltimo quartel do se'cuIo xvií ao fim do terceiro 
quartel do século seguinte — cem anos contados, — o 
azulejo alfacinha campeia sem competência, indepen- 
dente e cheio de carácter próprio. 

Outros tipos de azulejo convém também citar. O 
tipo, que podemos chamar de caricatura, fêz-se no sé- 
culo XVII, pintado comummente a azul e côr de vinho. 



— 64 — 

Existiam no Beato António de Xabregas, hojé 
trasladado para a Quinta de São João na estrada de 
Monsanto, propriedade do Dr. Álvaro Franco Teixeira, 
e existem ainda no palácio do Pátio das Vacas e nos 
jardins do Palácio Fronteira em São Domingos de 
Bemfica. 

Estas composições aproveitam, principalmente, os 
animais em acções humanas. O macaco, o gato, o cão 
e o rato são em geral os preferidos. Nos de Xabregas, 
hoje na quinta citada, vêem-se, entre outras scenas cari- 
catas, como a de umas «tourinhas» de canastra, e um 
quadro representando uma visita a um doente sangrado, 
um gato que vai a enforcar acompanhado de ratos, 
um macaco a experimentar uma cabeleira, etc. Nos 
dos jardins do Palácio Fronteira há uma scena musical 
em que uma se'rie de quadrumanos locam vários instru- 
mentos, um rege a orquestra e outro se mostra de 
palmatória em punho. Os do Museu Agrícola Colo- 
nial são também de um pitoresco admirável. 

Outro tipo é o de motivo isolado^ imitação do azu- 
lejo olandês e do que se fabricava em Ruão, repli- 
cando esse estilo. Umas vezes a azul, outras a cor de 
vinho, a composição mostrava-se dentro de um filete 
circular, decorando-se os ângulos com uma cravina ou 
um ornato florido, como alguns que o autor possui e 
que foram da colecção do Dr. João de Sousa Faria e 
Melo, leiloada em 1920. 

Os nossos adornavam se, aos cantos, de um ornato 
trilobado, de uma pinta simples ou de uma cruz com 
pintas intervaladas nos braços (Matriz de Alcochete — 
17 15) e o assunto decorativo eram, em geral, aves, 
coelhos, cães, caçadores, amuletas», embarcações com 
dois latinos, flores estilizadas, etc, repetindo os moti- 
vos empregados na faiança de cozinha, mesa e botica. 

Aparecem também, raras vezes, figuras chinesas, 



— 65 — 

como reminiscência dos elementos decorativos do tipo 
desenho fiiiúdo. A «Casa do Paço», na Figueira da Foz, 
duas salas do Palácio Murça, que depois foram cama- 
ratas do Asilo de Santo António dos Capuchos, o asilo 
das Velhas de Coimbra, na rua da Sofia, contêm nu- 
merosos espécimes destes azulejos. Os da «Casa do 
Paço» são olandeses ; os do asilo coimbrão são por- 
tugueses e extraordinariamente interessantes, reprodu- 
zindo muitos dos azulejos jogos populares, como o ma- 
Iheirão, e outros, scenas de interior e exterior. Estão 
assinados (i). 

No «Senhor Roubado» em Odivelas (1744), apare- 
cem também dêsies azulejos, a que alguns chamam de 
figura avulsa (2). 

Os motivos decorativos dos deste tipo fabricados na 
Olanda são scenas religiosas, paisagens, cavaleiros 
seiscentistas, marinhas com embarcações e moinhos 
típicos, etc. 

Nós, aproveitando a ideologia da decoração, azulejo 
por azulejo, repetimos neles os motivos ornamentais das 
nossas faianças, tais como a renda^ os ornatos das 
peças chamadas de tecido oriental e a técnica dos 
perfis a cor de vinho e dos cheios a azul e amarelo, 
em frontais de altar, como o que se vê no Museu 
de Arte Antiga, nos que foram do mosteiro da Espe- 
rança, e em outros que citamos ao tratar desses tipos 
decorativos. 

Além destas composições largas, algumas de di- 
mensões que exigem um grande fôlego concepcional e 



(i) S. PEDRO I PIN 1 TOR | SOV | EV. 

(2) Nas Francesinhas, mosteiro hoje demolido, havia muitos 
azulejos deste tipo assinados por Garcia Ramires e datados de 
1691. Garcia Ramires devia de ser espanhol, embora trabalhando 
em Lisboa. 

VoL, IV 5 



— 6G - 

uma execução apurada, os nossos azulejadores fabrica- 
ram os lindos quadros de intenção patronal, evocativa 
e religiosa, chamados habitualmente Registos, alguns 
dos quais — como as Adorações do Sanlissiino poli- 
cromos, que se admiram em Évora e em Lisboa — são 
de um efeito ornamental muito de notar. Outros são 
comemorativos, como o do Terremoto, no Monte de 
São Gens, mas a maioria são de invocação religiosa, 
representando a Virgem, santos e santas. 

A figuração que mais predomina é a de São Marçal, 
por ser advogado contra os fogos, a de Santo António 
e a da Senhora da Penha de França. Fizeram-se du- 
rante todo o século XVIII em grande abundância para 
guarnecer fachadas, átrios e patamares, sendo lindos 
os registos polícromos do fim desta centúria, tão fre- 
qiientes nas escadas da Baixa, com as imagens dentro 
de molduras ovais. 

Figuras recortadas em azulejos, polícromas ou só a 
azul, vêem-se tambe'm em vários pre'dios de Lisboa, 
como nos patamares de um na rua de São Boaventura, 
noutro na rua de São Bento, n." 1 14, na quinta de São 
João, do Dr. Álvaro Franco Teixeira, já referida, que 
eram de uma casa do largo do Pelourinho, no palácio 
dos Guiões, na casa D. João V do sr. Jorge de Ávila 
Graça, no Campo Grande; numa fonte em Azeitão, 
e ainda no palácio dos Meios em Vila Franca de 
Xira. 

Cruzes, «alminhas», lápides de foros abundam tam- 
bém pela capital, saídas das oficinas dos azulejadores 
alfacinhas. 

Três decorações cerâmicas notáveis, cerca de Lis- 
boa, são as do Palácio Pombal em Oeiras, as do Paço 
do Patriarca em Santo Antão do Tojal e as do palácio 
Fronteira. 

Estas, feitas no século xvii a maior parte, são de 



-67 - 

uma variedade extraordinária tanto nas paredes do 
solar dos Mascarenhas como nos jardins : cenas de 
batalhas, retratos, figurações simbólicas e alegorias, 
caçadas e pescarias, cariátides e medalhões, ornatos 
e decorações naturalistas, umas polícromas, outras só 
a azul, formando um admirável conjunto. No palácio 
de Santo Antão do Tojal, a escadaria e a cozinha são 
ricamente ornamentadas. Aquela é de um surpreen- 
dente pitoresco, e representa, acompanhando os ba- 
laústres nos lanços e patamares, a azul e amarelo, uma 
série de exemplares da fauna exótica. 

O palácio de Oeiras é outro museu de azulejos, a 
maioria dos quais, emmoldurados policromamente, fo- 
ram feitos no Rato. Ainda a celebrada Quinta dos 
Azulejos, a casa dos Condes da Guarda em Cascais e 
outras muitas residências se adornam de preciosos azu- 
lejos, sem falar em conventos, igrejas e capelas. Em 
volta da capital a sinfonia cerâmica dos revestimentos 
ouve-se apoteòticamente. 

O que é raro e' verem-se composições iconográficas 
deste tomo, pintadas totalmente a um tom de vinho 
quási rosado. São assim os quadros da «Ceia» e do 
«Lava-pés», emmoldurados policromamente na capela- 
-mor da Matriz de Alvor. O efeito é agradabilíssimo. . 

Bom é de notar que não só em Lisboa se fabrica- 
ram azulejos ornamentais. No recente livro do sr. Pe- 
dro Vitorino, Cerâmica Portuense, vem uma nota 
adicional de grande importância, donde consta que em 
Abril de i6o5, o oleiro de Vila Nova (Gaia), Bastião 
Ribeiro, recebeu ^íipboo réis por 908 azulejos (talvez 
frontais) que fez para o «Altar do Pátio», a 5 réis cada 
um. 

Isto parece provar que ao começar o século xvii 
já se fabricavam azulejos no norte. 

No convento de São Francisco de Alcobaça e na 



— 68 — 

igreja dos Milagres (Leiria) vêem-se azulejos fabri- 
cados no Juncal, respectivamente, em 1791 e 1795. 

Depois da acção fabril do Rato o azulejo modifi- 
cou-se e criou-se um novo tipo a que chamarei de gri- 
naldas. É em geral polícromo. Fêz-se até findar o 
primeiro terço do século xix. Muitas das construções 
do final da décima oitava centúria (prédios da baixa) 
têm-nos em rodapés altos e silhares. Na igreja da 
Estrela há lindas variedades deste tipo, em que inter- 
vém o gosto, para não dizer o estilo, Luiz XVI (i). 



Quanto aos «escultores barristas», título de um dos 
capítulos da Cei^vnica de José Queirós, pouco tenho 
a acrescentar, mas esse pouco é interessante. Queirós 
fala nas escolas de Aveiro, Alcobaça, Mafra, nos cen- 
tros produtores da imaginária popular de barro, e nas 



(1) Em geral estas guarnições têm afinidades no desenho e 
na «maneira» com as loiças atribuídas à «Bica do Çapato». São 
os mesmos amarelos torrados, os mesmos ornatos de carácter ve- 
getal que semelham algas, feitos a côr de vinho. Abundam neles 
as molduras ovais coroadas pelo laço Luiz XVI abrigando figuras 
a azul, aves, mascarões e cariátides. O salão da residência ati- 
nente ao Teatro de S. Carlos na rua 16 de Outubro, e que a este 
teatro pertence, assim como a escada e alguns outros gabinetes, 
são guarnecidos de ;izulejos deste tipo, dos mais perfeitos que 
lenho visto. 

Os registos policiemos, onde o amarelo vivo sobressai, que se 
encontram em muitas das escadas pombalinas, simples ou duplos, 
decorando a parede sobre as vergas das portas dos patamares, 
são, na grande maioria, igualmente deste tipo. São vulgares neles 
as imagens dos Santo Antónios, São Marcais, Senhoras da Con- 
ceição e da Penha de França, dentro de ovais engrinaldadas. A 
maneira da composição, o estilo e a côr denunciam uma comum 
autoria de artista ou de oficina. 



- fxj - 

figuras dos Presépios, algumas devidas às mãos artistas 
de Machado de Castro, mas todos os documentos plás- 
ticos citados referem-se ao século xviii, sendo os mais 
antigos as estatuetas dos artistas de Aveiro que figu- 
raram na Exposição realizada nesta cidade em iSgS. 

A placa de barro relevado, atribuída, por palpite, 
à pintora Josefa de Ayala (Josefa de Óbidos) e repre- 
sentando uma sacra-família, é possivelmente do sé- 
culo XVII, mas nada o prova seguramente. O estilo da 
obra até parece contrariar a hipótese. No reverso tem, 
na pasta : No Pinhal de Óbidos. Nem data nem assi- 
natura. No anverso está prateada. 

Do século xvu eram sem dúvida as esculturas, hoje 
perdidas, de que vou dar conhecimento ao leitor, 
feitas em Alcobaça em 1676. Destinavam-se a D. An- 
tónio Alvares da Cunha, Senhor de Tábua, que estava 
então nas Caldas da Rainha, acompanhando nos ba- 
nhos a Infanta D. Maria, filha de D. João IV, como 
cortesão. Os documentos que dão a notícia são três 
cartas escritas por Frei Jerónimo de Saldanha, frade 
bernardo de Alcobaça, ao fidalgo de Tábua descen- 
dente do irmão de Santo António (i). 

A primeira carta diz que as feguras de V. 5." mJ*^ 
tempo ha estão feitas^ e dela se conclui que fora Frei 
Jerónimo o encomendador dos barros, para D. António, 
que fora um Frei Pedro que se encarregara da coze- 
dura, e que o Saldanha tinha ido a Ceiça esquecendo-se 
da ordem e o forno levava dois dias a cozer, tendo 
cada uma das esculturas doze pedaços. 

Pela segunda carta vê-se que D. António Alvares 
da Cunha instava pelas figuras e que Frei Jerónimo se 



(i) Códice manuscrito que foi vendido sob o n.° 2:583 no leilão 
da Livraria do Conde de Ameal, pág. 263, 273 e 274 — datado de 
1G76, O códice pertencera ao arquivo da Casa dos Cunhas. 



— 70 — 

queixa de que não tem quem lhe vá buscar a lenha, 
razão porque a cozedura se não fizera ainda. 

A terceira missiva do frade acusa a recepção de 
3;jí)000 réis com que darei calor a que se ponham as 
figuras em via para irem o mais breve e fala no frade 
que as fez, que era o tal aFrei Pedro», dizendo que a 
cozedura devia ser rápida por as feguras serem de 
barro. 

Evidentemente tratava-se de uma obra dos escul- 
tores tonsurados de Alcobaça que fizeram as figuras 
da Morte de São Bernardo, o sumptuoso Relicário do 
topo da Sacristia e as estátuas da Sala dos Reis. Frei 
Pedro seria um dos escultores dessa impressionante 
scena da Capela de São Bernardo. 

l Que figuras seriam estas cuja demora tanto impa- 
cientava o Senhor da Tábua? ^Imagens religiosas, 
alegorias, divindades mitológicas? 

j Vão lá sabe-lo agora ! 



Ainda antes de entrarmos no estudo da Fábrica do 
Rato, alguns breves parágrafos para fechar este ca- 
pítulo. 

De oficinas, em grande, anteriores à fundação pom- 
balina, não há noticia segura. A fábrica do Gajão em 
Santarém e a do Beato António em Lisboa aparecem- 
nos sob um aspecto lendário. A pequena indústria, 
como hoje se diz, disseminava-se pela capital, acumu- 
lando se principalmente nas «olarias» à freguesia dos 
Anjos e em Santos, a São Bento e às Janelas Verdes. A 
sua produção, chamava se cá em Lisboa a louça grossa 
das olarias, como se vê na verba que diz respeito à 
louça, na conta das Festas de Inauguração da Estátua 



— 71 — 

Equestre em 1775(1). Para os lisboetas o que não 
fosse loiça da China, da carreira da índia, era loiça 
grossa. 

Já na província o criteVio era outro, e aos produtos 
mais apurados da capital chamava-se loiça fina de Lis- 
boa. E assim que aparecem nomeados innte pratos., 
com seus bicos d roda., num inventário feito em Santa- 
rém em 1700 por óbito de D. Ana Oliveira Leite, mu- 
lher de Rodrigo Machado Carvalhal (2). 

D. Frei João de São José Queirós, bispo do Grão 
Pará, fazia a mesma depreciativa opinião das faianças 
e barros do nosso fabrico. 

Escrevendo ao Conde da Ponte dizia assim: «Do 
que V. Ex.^ me diz do conde de Oeiras não há que 
admirar, por ser admirável sempre aquele senhor; mas 
que há-de ser se ele tem um coração onde cabem ter- 
remotos, exércitos, reediíicaçÕes, conspirações alheias, 
castigos, prisões, embaixadas, despachos e providên- 
cias, e o que é mais sem embaraço da respiração. As- 
sentemos que sendo todos de barro damasceno, pare- 
cem poucos de outro mais fino. Tudo ê barro: mas 
um de Exlremo:^ ou do Romão e outro de Saxonia^ (3). 



Ainda o conteúdo do meu úhimo verbete. 

Aparte variadas designações locais inspiradas nesta 



(i) Gabinete Histórico, de Frei Cláudio da Conceição, vo- 
lume XVII, pág. 253. 

(2) Informação do meu amigo -e erudito investigador Fran- 
cisco Nogueira de Brito. 

(3) Memórias do Bispo do Grão Pará, Frei João de S. José 
Queirós, publicadas por Camilo Castelo Branco, pág. 17. 



— 72 - 

indústria, como as olarias, a. rua do mesmo nome, o 
pátio do Tejolo, o Forno do Tejolo, o Forno da Telha 
e várias travessas e becos do Oleiro, espalhadas por 
toda a cidade, umas ainda existentes, outras já desa- 
parecidas, havia, antes de 1755 dois locais conhecidos 
pelos nomes de rua da Crui do A:^ulejo e largo da 
Cru\ do A\iilejo. O primeiro era o nome antigo (i7i5) 
da actual rua dos Navegantes — o primeiro que ela teve ; 
o segundo referia-se a um estreito logradoiro ao fim da 
calçada de Payo de Nabais, comunicando esta serventia 
com a rua de Ana Mendes, que seguia para o norte, e 
com a do Crucijixo que se dirigia para o sul. 

O leitor ao encetar os primeiros passos descendo, 
pelo lado oriental da rua Nova do Carmo, repare, atra- 
vés da terceira ou quarta montra dos Armazéns do 
Chiado, para o interior do estabelecimento. Era aí o 
largo da Cru:{ do Azulejo. 



CAPITULO IV 



Sumário: Principia a fábrica do Rato a funcionar em 1767 — As 
«condições» com o Mestre Tomás Brunetto — Quem era o 
Mestre — Diz-se da sua escassa sabedoria e dos artífices com 
quem se aperfeiçoou — A «blague» do Contra-Mestre José Ve- 
roli que era genro de Brunetto e copeiro de profissão — Ci- 
ta-se o mestre Severino José da Silva — Os desmandos de 
Brunetto — O regulamento da Fábrica — A fábrica de Paulo 
Paulette, rouba oficiais ao Rato — E proibida a importação de 
loiça estrangeira — Exceptua-se a loiça oriental e, mais tarde, 
a inglesa — São expulsos Brunetto e Vcroli — «Condiçõesu 
com o novo Mestre Sebastião Inácio de Almeida, pintor — 
Severino mestre da Roda e do Laboratório — Obras e refor- 
mas apressadas — Abusos na venda da loiça — Mestre Al- 
meida propõe-se ficar coma fábrica — Novo contrato em 1777 

— O Mestre modelador José Baptista de Almeida — Várias 
providências para dar saída à loiça artística — O gosto, a 
moda e o luxo — A opinião de Acúrcio das Neves e o amor 
de Pombal pela fábrica — Os artistas pintores, modela- 
dores e rodeiros que trabalharam no Rato de 1767 a 1779 

— Uma lista valiosa — Comprar loiça no Rato para agra- 
dar a Pombal — Citam-se importantes encomendas e ven- 
das — As baixelas brazonadas do Rato — As encomendas 
para as Ciompanhias Privilegiadas e para os particulares ricos 

— Citam-se algumas peças brazonadas que hoje se conhecem 

— Os Inventários e as listas para leilões documentando toda 
a produção do Rato — Lista das peças fabricadas, nomes, va- 
riantes e preços — Algumas considerações sobre a extensa 
lista — Peças de nomes misteriosos — Alguns leilões em 1770 
e 1771 — Um grande negócio de Veroli — Citam-se algumas 
peças de excepção — Em que se diz a receita da «pasta» 
e do «vidrado» do Rato, neste primeiro período. 

Entremos agora no estudo da Fábrica do Rato. E 
já não é sem tempo. 



-74 — 

As «condições» — como então se chamavam aos 
contratos entre a Direcção da Fábrica das Sedas (fá- 
brica mãe) e os mestres que para cá vinham introduzir 
uma indústria ou modificar e aperfeiçoar qualquer fa- 
brico, foram feitas em i de Agosto de 1767 com Tomás 
Brunelto italiano, que já residia em Lisboa e que su- 
ponho filho ou irmão de um Sansão Vitorino Brunetto 
que nos anos de 1755-1750 era freguês de Santa Cata- 
rina e morava na Orta do Bediot, a São Bento. 

^ Teria Brunelto aprendido cá a sua arte? ^ Teria 
sido artífice- da Fábrica de Santo Amaro que supo- 
nho anterior á do Rato, donde, para esta, viera tam- 
bém o rodeiro Severino José da Silva que em tal ofi- 
cina veio a ser mestre em 1789? 

Não o posso assegurar. O que é certo é que o ita- 
liano não era tão sabedor como a sua categoria de mes- 
tre o podia deixar supor, e o que sabia tinha-o apren- 
dido com o Severino, artífice perito e completo, que, 
mais tarde, expulsou depois de ter aprendido dêlc o 
que pôde. 

Severino José da Silva voltou para Santo Amaro 
em 17C9 ou 1770. Só em x"] ,1 é que o vejo outra vez 
no Rato colaborando com o, então, Mestre Sebastião 
Inácio de Almeida. Em 1792 era Severino Mestre da 
Pintura, o que dá a entender que este nosso operário 
acumulava com a perícia de enformador o mérito de 
pintor. 

Pelas informações da Direcção ao Conde de Oeiras 
prestadas em 27 de Abril de 1770, conclui-se que Bru- 
netto era, além de artista inferior a quem não perten- 
ceriam as peças por ele assinadas, mas, sim ao Seve- 
rino, um sujeito estomagado de génio, com filáucias de 
sabedoria, e atrabiliário na direcção da sua oficina. 
Despedia e admitia operários sem dizer nada à Direc- 
ção, preparava o ambiente para a cultura da intriga, 



— 73 — 

não linha escrita devidamente montada e não cumpria, 
sequer, o contrato no que respeitava á produção fabril 
a que se obrigara (i). 

Entre os operários que admitira estava José Veroli, 
antepassado doi activíssimos livreiros que em Verol 
transformaram o apelido originário, e admitira-o com 
um bom contrato {iq^-ioo réis por mês) porque ele era 
seu genro, casado com a sua filha Maria Felícia. Ve- 
roli ignorava totalmente a arte da faiança, salvo no 
que dizia respeito à louça de copa, visto que para en- 
trar para Contra-Mestre deixara o lugar de copeiro do 
Tenente General Manuel Gomes de Carvalho (2). 

Tomás Bruneito, fizera, além disso, quantiosas des- 
pesas na fábrica com o pretexto de ter descoberto o 
segredo do vidrado, à conta do qual requereu sm 1770 
o pagamento da gratificação que se lhe estipulara de 
cinqíienta moedas de oiro. 

A Direcção não se comoveu. O célebre segredo 
era, no seu entender, indrómina do Mestre porque não 
havia operário que o não soubesse (3). 

Do tempo de Brunetto consta, da documentação 
que vou seguindo, um regulamento interno da oficina, 
feito pela Direcção da Fábrica das Sedas e rubricado 
por Pombal. 

O mestre ficava obrigado a avisar a Contadoria sem- 
pre que se abrisse o forno, para que as peças fossem 
contadas e taxadas de preço, pondo-se de lado as de- 



(i) Livro A de Consultas, pág. 87 v." e 88 — na Torre do 
Tombo. 

(2) Em 14 de Agosto de 1771 a direcção passou a Veroli um 
atestado, a seu pedido, certificando que ele fora despedido de 
Contra-Mestre da Fábrica, por imperícia e não por outro motivo, 
visto tal emprego ser alheio à sua profissão (Livro A de Consul- 
tas^ pág. 232). 

(3) Citada Consulta, pág. 87 v.° a 8S do Livro A. 



feituosas. No fim de cada semana havia de se entregar 
a folha do pessoal com descriminação das ocupações 
de cada operário; e, mensalmente, seria entregue uma 
relação de todos os materiais, peso e quantidades, e 
número de fornadas de loiça chacotada ou vidrada. 

A loiça não se podia vender na fábrica pelo Mes- 
tre, nem entregar, fiada mesmo, com a responsabilidade 
deste. O mestre não podia admitir ou despedir pes- 
soal, nem aum.entar ou diminuir jornais, sem conheci- 
mento da Direcção (i). 

Brunett-o não devia ficar muito contente com este 
regulamento que lhe coartava as liberdades. Devem-se, 
naturalmente filiar nele os incidentes que motivaram a 
sua expulsão da oficina acompanhado do genro. 

Veroli foi estabelecer-se em Belas com outra oficina 
cerâmica, mas dada a sua incapacidade industrial e 
artística não foi de admirar o que sucedeu. Não se 
lhe concederam as isenções e privilégios que preten- 
dia (2) e acabou por abandonar a oficina, aproveitando 
o resto do capital que lhe restava para montar uma 
casa de Pasto no que, creio, se deu muito melhor. 
Nem era de espantar dada a sua anterior ocupação de 
copeiro de casas fidalgas. 

Dois anos antes chegara de Itália outro artífice, de 
nome Paulo Paulette, com um projecto de uma fábrica 
de faianças que haveria — dizia ele — de exceder as 
que vinham do estranjeiro. Pensou o Governo no 
assunto e consentiu no que propunha Paulette por al- 
vará de 28 de Junho de 1769 em que, todavia, se lhe 
punham as condições de ter sempre em exercício qua- 



(1) Citada Consulta, pág. 108 e 108 v.° 

(2) Parecer de 20 de Outubro de 1779 e Resolução de i5 de 
Janeiro de 1780, pág. 124 v.° do Livro 1 de Consultas, n.' 925, e 
pág. 7 v.o do Livro g3[). 



— 77 — 

tro aprendizes portugueses, e de não admitir estran- 
jeiros na fábrica, salvo seus irmãos se quisessem vir 
para Portugal. 

Em troca foram-lhe concedidos vários privilégios 
como o da isenção de contribuições por espaço de dez 
anos(i). 

Por isto se vê que o Governo não aceitava o regime 
dos monopólios. A fábrica do Paulette originou várias 
complicações por que o italiano desinquietava os operá- 
rios do Brunetto, como o fez com os oleiros João Pi- 
nheiro e João Gonçalves, dos melhores que havia no 
Rato, oferecendo-lhes mais dinheiro. Brunetto recla- 
mou, e a Direcção da Fábrica das Sedas propôs ao 
Conde de Oeiras para se acrescentar ao contracto de 
Paulette a proibição de se irem buscar artífices à ofi- 
cina do Rato (2). 



Com uma grande dificuldade lutavam entretanto as 
fábricas, e essa era a da concorrência que lhe faziam 
as loiças estranjeiras : a de Chincheo que abastecia as 
mesas ordinárias, e a olandesa, espécie de faiança de 
que se serviam os burgueses. As casas ricas usavam 
as porcelanas chinesas, vindo também para o nosso 
consumo bastante faiança de Ruão. 

Em vista disto, em 5 de Setembro de 1770, repre- 
sentou a Direcção da Fábrica, à Junta do Comércio, 
solicitando propusesse a El-Rei a proibição da entrada 



(1) Noções Históricas Económicas e Administrativas, por José 
Acúrcio das Neves. 

(2) Livro A de Consultas — Proposta de 25 de Junho de 177c, 
pág. 88 v.o e 86. 



-78- 

de loiça estranjeira excepto a da índia e China (i)^ 
quando conduzida em navios portugueses e a isenção 
de direitos de saída da loiça nacional. 

O alvará de 7 de Novembro desse ano, veio, aten- 
dendo a tais reclamações, dar maior consumo e expan- 
são à nossa produção, recomendando, entretanto, que, 
durante o prazo da proibição, se não aumentasse o 
preço às nossas manufacturas. 

Mais tarde, por outro alvará de 10 de Dezembro de 
1783, foi exceptuada da proibição a loiça amarela in- 
glesa por não poder concorrer com a nacional. Era 
pelo menos esta a razão dada oficialmente. 



Pela expulsão de Brunetto e de Veroli foram con- 
tratados, para Mestre, Sebastião Inácio de Almeida e 
para Contra-Mestre, o oficial-rodeiro Severino José da 
Silva, ficando o primeiro nomeado, tambe'm. Mestre da 
pintura, e o segundo do Laboratório e de toda a obra 
da olaria. As «condições» de admissão têm a data de 
14 de Agosto de 1771 (2). 

Mestre Almeida que seguiu no fabrico as normas 
do seu antecessor — que não é de admirar pela colabo- 
ração de Severino que era e foi chavão da oficina — pro- 
cedeu a várias obras. Conseguiu da Direcção se lhe 
cedesse um anel de água do chafariz do Rato e que os 
galegos tivessem primacia no encher dos barris para 
os gastos da fábrica (3), demoliu as antigas oficinas do 
italiano que se achavam arruinadas, com tanta pressa 



(i) Livro A de Consultas, pág. gS v.° a 94. 

(2) Idem, pág. lyS a 174 v;° 

(3) Parecer de 24 de Abril de 1772. 



— 19- 

que nem esperou pela visita, ordenada, do engenheiro 
Reinaldo Manuel nem pela autorização da Direcção, e 
fêz outros melhoramentos (i). Admitiu operários no- 
vos, como o pintor João Berardi e seu filho António 
Berardi, e ia tão depressa no seu empenho reformador 
e rejuvenescedor que a Direcção teve de o mandar pa- 
rar, ordenando que se despedissem os Berardis e o 
Severino; este não sei porquê. O mestre rodeiro foi 
para a Fábrica de Santo Amaro, que era de Henrique 
Francisco de Andrade & Companhia (2). 

Talvez isso fosse derivado de alguns abusos que 
se praticavam e de que a Direcção tivera conhecimento. 
No Rato vendia-se loiça às ocultas, sem ir ao armazém, 
e o mestre adiantava dinheiro aos operários, etc. (3). 

No mesmo ano (1773) vejo mais operários despe- 
didos — Miguel Gonçalves, Manuel Fialho, Caetano Pi- 
nheiro, António José Tavares, João da Cruz, Manuel 
José, Manuel de Sousa, Francisco Justamente e João 
Lopes — naturalmente por cumplicidade nos tais abu- 
sos das vendas ocultas. 

A ordem da Direcção que os despede tem a data 
de 1 5 de Setembro, e o edital de 29 de Dezembro do 
mesmo ano estabelece que no armazém só se venda 
aos revendedores e na fábrica só a quem comprar de 
120 peças para cima (4), regulando-se miudamente â 
venda da loiça por grosso, na ideia de só se fabricar 
a quantidade precisa para o consumo habitual (6). 



(i) Representação da Direcção de 4 de Agosto ce 1772 e or- 
dem de 9 de Setembro de 1772 — Livro B, fl. 11. 

(2) Resolução de Pombal de 10 de Setembro de 1772 — Li- 
vro B, fl. TO. 

(3) Citado Livro B, pág. 47--19 — Ordem da Direcção de 28 
de Abril de 1773. 

(4) Citado Livro B, pág. 86. 

(5) Idem, pág. 92-93. 



— 8o — 

O administrador da Venda, Francisco da Rosa Ver- 
sas, pediu a demissão, neste período. A Direcção in- 
forma a Junta de que a pessoa competente para o lu- 
gar era António Martins de Sousa, mas como tal 
indivíduo era cunhado do Mestre Sebastião Inácio de 
Almeida não o propunha, tanto mais que este já tinha 
um irmão (José Baptista de Almeida) a fazer os mo- 
delos na fábrica. Afinal nomeou-se o Sousa em lo de 
Junho de 1774 (i). 



Em 1775, o Mestre Almeida fez uma larga petição 
ao Conselheiro Joaquim Inácio da Cruz Sobral, pro- 
pondo se a tomar conia da Fábrica do Rato comprando 
toda a loiça em ser (Soo. 000 peças) pelos preços de 
venda, no valor de dezanove contos de réis. A Direc- 
ção ouvida sobre a proposta informou favoravelmente 
com a condição do Mestre tomar também conta da loiça 
fabricada no tempo de Brunetto, que eram, em arma- 
zém, 16.768 peças no valor de i.i 66^495 réis com o 
abatimento correspondente ao pouco uso, mau gosto e 
qualidade dela, visto o seu, preço ser mais elevado do 
que o da produção do Almeida e atentas as deficiên- 
cias no vidrado e o gosto dos feitios. A loiça do ita- 
liano envelhecera depressa na opinião dos directores. 

Sebastião Inácio de Almeida, oferecia à Direcção, 
5ooí5f)00o réis por ano, do aluguer, durante os primeiros 
cinco anos, obrigando-se a fazer as obras e os consertos 
indispensáveis; solicitava os habituais privilégios; pe- 
dia a liberdade de venda com usufruto de toda a fá- 
brica, armazéns, lojas, etc. ; pedia o exclusivo da ex- 



(1) Citado Livro B, pág. 104 — Representação de i de Junho 
de 1774. 



— 81 — 

tracção do barro dos terrenos do Colégio dos Nobres 
que pagaria pelo preço habitual; e que os privilégios 
a isenções passassem, durante o período de dez anos 
sem nova mercê, a sua mulher e a seu irmão José 
Baptista de Almeida. 

A Direcção apreciou a proposta e informou-a bem, 
excepto no que dizia respeito à isenção dos direitos 
municipais sobre o tojo e outros materiais (5 réis por 
cada 40 molhos), como lenha, sal e areia da Outra- 
-Banda. Quanto à transmissão do privilégio, elogia José 
Baptista de Almeida, a quem chama bom e honrado 
ojicial, eminente na arte de fa\er modelos de bom 
gôsio{\). 

Emquanto se não estudava e resolvia esta proposta 
davam-se providências várias para o desempate da loiça 
que estava em armazém. A novidade da faiança do 
Rato, feita sobre modelos novos e com decorações ou- 
sadas para o meio rotineiro de então, fora recebida 
com estranheza, e todo o patrocínio oíicial e não oficial 
do primeiro ministro fora insuficiente para dar saída 
à produção, estabelecer o gosto e desenvolver a moda 
pela loiça do Rato. 

Os ricos estavam afeitos às porcelanas que lhes 
traziam as naus da carreira da índia; os pobres, afei- 
çoados às velhas loiças fabricadas nos Anjos e nas Ja- 
nelas Verdes. Os fidalgos, se compravam faianças no 
armazém da Fábrica, era para serem agradáveis ao 
Marquês de Pombal. 

Havia em depósito muita loiça em 1776. Um edi- 
tal de 21 de Fevereiro desse ano alterou uma dispo- 
sição antiga, e já permitia que na própria Fábrica se 
vendesse loiça por grosso e por miúdo (2) ; uma ordem 



(i) Livro giy, pág. 173 a ijS v.°. 
(2) Idem, pág. 148 e 149. 

VOL. IV 



— 82 — 

da Direcção, de 22 de Novembro, manda ao mestre fa- 
zer um projecto de redução de pessoal na repartição 
da pintura, pela excessiva despesa que o «quadro» de 
então acarretava à oficina (i); e outro edital da Di- 
recção, de i3 de Março de 1776, manda organizar 60 
lotes de loiça para um leilão a dinheiro de contado (2). 

As finanças, como se vê, estavam depauperadas e a 
loiça não se vendia. 

As «condições!) de 19 de Dezembro de 1777 mar- 
cam a aceitação da proposta de Sebastião Inácio de 
Almeida. • A Junta de Administração das Fábricas 
cometeu-lhe a gerência do estabelecimento fabril, por 
conta própria e pelo prazo de dez anos, com os mes- 
mos privilégios e isenções que tinha, obrigando-se a ter 
sempre seis artífices instruídos e os oficiais e aprendi- 
zes que fossem necessários. Ficava com o edifício gra- 
tuito pelo prazo de cinco anos, recebendo toda a loiça 
e materiais existentes, avaliados em 19.104^1996 réis, 
com a condição de os pagar dentro de dez anos, bem 
como os móveis, avaliados em 492.^840 réis, para os 
entregar no mesmo estado ou pagá-los. 

Aciírcio das Neves, que menciona este contrato, é de 
uma secura injustificável quanto ao resto, calando factos 
que de-certo conhecia e suprimindo informações pre- 
ciosas. Quem o tiver lido somente, arrisca-se aos 
maiores erros, pois lhe fica lícito e lógico supor que Bru- 
netto era o Deus ex-maquina da oficina, ou que Veroli 
fora pintor e o mais que se tem dito aqui. 

Foi essa informação do grave autor das Noções His- 
tóricas, Econojiiicas e Administrativas que enganou 
José Queirós e outros investigadores. 

Tomás Brunetto, emquanto foi mestre (1767-1771), 



(i) Livro B gig, pág. 182. 
(2) Idem, pág. 194. 



— 83 — 

algumas peças assinou, como Mestre e não como autor. 
Eram as que mais perfeitas saíam dos fornos do Rato. 

Os pintores e os modeladores não assinavam. 

Com Sebastião Inácio de Almeida o mesmo decerto 
se deu, só com a diferença de que este era realmente 
«Mestre de pintura». 

Deste período da oficina pombalina do Rato co- 
nheço alguns artistas : 

— Tomás Briineíto, Mestre da Fábrica de 1767 a 1771 ; 

— Sebastião Inácio de Almeida, Mestre da Fábrica e 

da pintura, de 1771 a 1779; 

— José Veroli, Contra-Mestre, de 1767 a 1771 ; 

— Severino José da Silva, Mestre rodeiro, de 1767 a 

1771. Neste ano, Mestre do Laboratório e da 
Olaria. Em 1779, Mestre da Fábrica de Santo 
Amaro. Em 1792, Mestre da pintura no Rato; 

— José Baptista de Almeida, Mestre modelador, de 

1771 a 1779; 

— João (ou José) Pinheiro, oficial de roda, de 1767 a 

1770. Neste ano foi para a fábrica de Paulo Pau- 
lette ; 

— João Gonçalves, oficial de roda, de 1767 a 1770. 

Neste ano foi para a fábrica de Paulo Paulette-; 

— João Berardi, Mestre de pintura, de 1767 a 1770. 

Despedido neste ano. 

— António Berardi, Mestre de pintura, de 1767 a 1770. 

Despedido neste ano. Trabalhou antes e depois, 
em pinturas, nas salas do palácio de Queluz (sa- 
las «do Trono» e «da Música) (i); 

— Manuel José do Nascimento, Mestre fabricante e 

pintor de loiça, em 1779, pelo menos. Em 1783 



(i) História do Palácio Nacional de Qiielu^, por António Cal- 
deira Fires, vol. i, cap. xv, pág. 342 a 345. 



- 84- 

e 1784 trabalhava na fábrica de Queluz de Mr. 
Robillion, que aí funcionou de 1782 a 1787. São 
dêle alguns trabalhos na Sala do Trono e dos 
Embaixadores, no interior do palácio (i). Os 
o Livros da Junta da Administração das Fábricas», 
citam uma petição sua (2) ; 

— Oficiais da roda: José Marques [em 1770); Cândido 

José Coelho (de 1770 a 1778); Joaquim José (em 
1769); Joaquim Baptista (em 1769); António 
Briilein (em 1771 e 1772); Cristóvão José (em 
1769); António de Figueiredo (em 1769); 

— Aprendizes: Miguel Gonçalves (de 1767 a 1772); 

Domingos dos Santos (em 1770) ; Domingos Pe- 
reira (de 1770 a 1779) ; José António Ribeiro (em 
1770); Matias José (de 1767 a 1770); Joaquim 
Primogéneo (em 1779) ; Manuel dos Reis (1779); 
António de Matos ', 

— Oficiais : Manuel Fialho, António José Tavares, 

João da Cru'{, Manuel José, Manuel de Sousa, 
Francisco Justamente e João Lopes, despedidos, 
como se disse, em 1773 ; 

— Criados ou trabalhadores : José Simões, Bernardo 

António e Carlos José de Paiva (3). 

Como se vê pela resenha apresentada, trabalharam, 
neste período da Fábrica, bons artistas rodeiros e mo- 
deladores, como Severino José da Silva, José Baptista 
de Almeida, João Gonçalves, João Pinheiro e outros, 
e pintores como os Berardis, Manuel José do Nasci- 



(i) História do Palácio Nacional ae Qiielu^, vol. i, cap. xv, 
pág. 342 a 345. 

(2) Livro B-gi-, pág. 3i3. Aviso para a Direcção, de i3 de 
Janeiro de 1779. 

(3) Róis dos Confessados da freguesia de São Mamede, anos 
citados no texto. 



— 85 — 

mento, o Severino e os dois mestres Brunetto e Al- 
meida. 

A observação de José Queirós acerca da produção 
do Rato nas duas gerências, chamemo-lhe assim, jus- 
tifica-se plenamente. jSe eram os mesmos artistas, 
quási ! 

Depois de terminada a direcção de Sebastião Inácio 
de Almeida, ocasionada pelo seu falecimento em 1779, 
é que a orientação artística da fábrica mudou. Até aí 
tinha-se perdido dinheiro lutando contra a rotina e 
contra o luxo das porcelanas orientais ; passou depois 
a ganhar-se. 

Como ? Transigindo, passando a fazer loiça co- 
mum, que era o que o povo e a burguesia compravam, 
e leiloando a loiça artística empatada. 

Por morte do Mestre, a oficina do Rato passou 
para a aDirecção da Junta do Comércio», anexada à 
Real Fábrica das Sedas» e assim esteve até acabar. 

Aciírcio das Neves, citando os lucros que começa- 
ram a aparecer, sente-se rejubilar. O que o interes- 
sava, económica e administrativamente, era isso. Que 
a fábrica produzisse pratos finamente pintados, escul- 
turas de admirável esmalte e peças ornamentais pre- 
ciosamente modeladas e coloridas, não lhe tocava lú 
dentro. 

Eram luxos supérfluos e gastos imiteis. 

Sebastião José via o caso de mais alto. A produ- 
ção artística é que o interessava, e, com a sua influên- 
cia e a sua sugestão, emquanto pôde, fêz a propaganda 
do Rato, obrigou a comprar faianças na nova oficina, 
ao rei, à corte, às companhias comerciais, aos poten- 
tados da finança. Fidalgo que quisesse agradar ao Ca- 
beleira era ir encomendar um serviço brazonado ao 
Rato ; burguês dinheiroso ou prelado nacionalista a 
quem conviessem as boas graças do Marquês, não se 



— 86 — 

demorava em ir lá adquirir pratos, tijelas, bebedouros, 
porta-ôlhas, bispotes e cuspideiras. 

Do que se tem avançado a dizer, vão chegar as 
provas. 

* 

Entre a variada documentação compulsada, achei 
o registo das encomendas feitas e das baixelas vendidas, 
neste período, assim como o inventário de todo o gé- 
nero de loiça fabricada. Só isto! Imagine-se. 

Apontemo-las cronologicamente : 

— Baixela vendida a Cristiano PVederico de Veinel. Da 

pintura das armas, 5í585o réis ; 

— Baixela vendida ao Conde de Sampaio, 284 peças. 

280 levaram o brazão. Custou a pintura 11-^^200 
re'is e toda a baixela 3 1^^600 réis. Esta venda 
foi em 6 de Setembro de 1770; 

— Baixela fornecida por ordem do Desembargador Mi- 

guel de Arriaga Brum da Silveira, para o serviço 
do Palácio das Necessidades. 242 peças. Cus- 
taram 29^900 réis ; 

— Para Francisco Xavier de Mendonça, Secretário de 

Estado, i3 bispotes, 2 porta-ôlhas pintados com 
figuras, muitos pratos redondos, compridos, 
etc. (i); 

— Para o mesmo, uma baixela. Tinha pratos redondos, 

compridos, triangulares, quadrados, travessas, 8 
terrinas inglesas, 2 cangalhas (galheteiros), 4 sa- 
ladeiras, 2 terrinas à francesa, chícaras com pi- 
res, etc. Preço da baixela, Sb^S^o réis (2); 

— Para El-Rei, 62 vasos de duas qualidades; 



(i) Livro 241-1.° — Das Vendas, pág. i. 
(2) Idem, idem. 



-87- 

Outra baixela, com armas pintadas, de i32 peças, 
não se mencionando para quem. A pintura das 
armas custou 2í?)44o réis ; 

Para Paulo de Carvalho e Mendonça, uma cesta 
pequena, duas tijelas — imitação da índia — (a 
i5o réis), uma bacia e jarro, uma manteigueira 
em figura de peixe e outra em figura de melão ; 

Para o Geral dos Crúzios, duas cuspideiras chatas 
com cabo, um bebedouro lavrado para pássaros, 
um bispote dos maiores com asa, uma cesta 
grande, e uma tijela, imitação da índia; 

Para Gaspar de Saldanha, três bispotes e uma bai- 
xela composta de 56 peças, sendo o preço de cada 
peça pintada 3o réis, num total de lííõSo réis; 

Outras encomendas menores para os Condes das 
Galveias (tijelas, imitação da índia), para o Bispo 
de Leiria (cestos para garrafas), para o Desem- 
bargador Manuel José da Gama (um repolho), 
para o Marquês de Marialva (um repolho e uma 
cabeça de porco), para a Condessa de Oeiras 
(um melão em pé), para o Conselheiro Joaquim 
Inácio da Cruz (uma cabeça de porco), para o 
Provincial de São Domingos (duas galinhas), para 
o Erário (várias peças), para o Conde de Sam- 
paio (idem), para Gerard Devisme (vasos para 
os seus jardins) e para os Condes de Vila Nova 
(seis pirâmides para o seu jardim) ; 

A. Companhia Geral do Grão Pará e Maranhão^ 
em Maio e Junho de 1770, encomendou loiças 
no valor de 741^55225 réis; 

A Companhia de Pernambuco e Paraíba encomen- 
dou, em 24 de Setembro de 1770, milhares de 
pratos, no valor de 725a^i85 (i). 



(i) Citado livro, folhas seguintes. 



Alguma das peças hoje conhecidas, em poder dos 
coleccionadores e pertença de museus, podem idenlifi- 
car-se com algumas das que acabamos de ennumerar 
englobadas nas encomendas e vendas feitas. As ter- 
rinas, em forma de patos, da colecção do sr. Visconde 
da Asseca, e que foram da família Pombal, podem ter 
pertencido à baixela de Francisco Xavier de Mendonça, 
se não foram de outra para o próprio marquês ; as 
caixas ou porta-ôlhas em forma de galinha, as cabeças 
de porco, os bebedouros lavrados para pássaros, os 
vasos de jardins, tudo são peças ainda hoje conhe- 
cidas. 

As peças brazonadas é que se tornaram raras. Um 
prato de faiança, brazonado, vi uma vez no antigo 
bric-a-brac da rua de São José, pertencente ao fale- 
cido Eleutério. Era, evidentemente, do Rato, pelo es- 
malte e pela pintura. O brazão estava no centro anver- 
sal. Escudo cortado : no primeiro meia águia, coroada, 
de asas abertas; no segundo três faixas. 

Outro prato do Rato, brazonado, possui o dr. Ál- 
varo Teixeira, e um maior, do mesmo tipo, tem-no o 
dr. Jacinto de Magalhães, do Porto. O do dr. Álvaro 
Teixeira tem o, 36 de diâmetro, esmalte branco leve- 
mente anilado, borda recortada e ondulada. O brazão, 
a cor de vinho, está no centro anversal. E cortado, 
tendo no primeiro, cinco bilhetes e, sobre o médio da 
fila superior, uma águia de asas abertas ; no segundo, 
um leão rompante. Como timbre, a águia sobre uma 
das figuras do primeiro. As águias e o leão são a 
cor de vinho, o campo do primeiro a amarelo, e os 
bilhetes e o paquife, feito de dois ramos cruzados em 
baixo pelas hastes, a azul. 



-89- 

Um destes brazões (qualquer dêles não e' portu- 
guês) pode indicar que a peça pertencesse, porventura, 
à baixela de Cristiano Frederico de Veinel, atrás ci- 
tada. 

Outras duas peças, brazonadas, do Rato, encontrei 
em Vizeu ; uma no Museu Grão de Vasco e outra na co- 
lecção particular do seu Director, o sr. Capitão Almeida 
Moreira. São duas travessas oblongas, marcadas com as 
conhecidas iniciais FR e TB, tendo ao centro as armas 
dos Meios (ou Almeidas) e Figueiredos, em pala, so- 
brepujadas de uma coroa de marquês. A cercadura é 
de grinaldas, a azul, entrelaçando o filete da aba. 

Desta baixela, que me disseram ser da casa dos 
Condes de Santa Eulália(?), não encontrei qualquer apon- 
tamento de encomenda ou de venda. 

Chícaras e pires, que tantos fabricou a oficina do 
Rato, não sei da existência de nenhum exemplar. 

Custa crer que desaparecessem todas, mas o que 
é certo é que ninguém me dá fé de uma única peça, 
mesmo incompleta ou mutilada. Dos bispotes direi o 
mesmo. Supunha José Queirós, com graça, que se 
tinham quebrado todos de encontro às pedras das pias. 
Era uma explicação, mas que não aproveita às chíca- 
ras. 



Pelos inventários, relações para lotes dos leilões e 
outros documentos avulsos, respeitantes a este período 
fabril — 1767 a 1779 — doze anos de produção artís- 
tica, pode-se formular a seguinte lista de peças fabri- 
cadas, a algumas das quais acrescentarei, como curio- 
sidade, os preços : 

— Bandejas oitavadas ; 



— 90 — 

Tabolciros ; 

Pratos, com mosteiro ao meio, redondos, quadra- 
dos, triangulares, compridos, oitavados, covos, 
de guardanapo, de roda, de cores ou pintados 
de cores, de meia cozinha, de cozinha com asa, 
recortados, grandes e pequenos, pratinhos ; 

Porta-ôlhas, pintados, com figuras e simples; 

Palanganas (alguidares) de lavar as mãos; 

Terrinas, de relevados, à francesa, à inglesa, com 
figura do cordeiro, de três lotes, furadas para 
junca ;. 

■ Sopeira redonda ; 

Galinhas com cesta e sem cesta; 
•Peças de sopeiras, chatas; 
Saladeiras ; 

■Mostardeiras, com asa e coni colher; 
■CangirÕes de asa retorcida. Eram à moda de Ta- 

lavera ; 
■Chícaras, com pires, sem pires, para chocolate, para 
chá, com asa, e pegadas aos pires ; 

■ Vasos redondos para doce ; 

Tijelas, imitação da índia, com tampas, pintadas de 
azul, pintadas de côr, de ração e de meia ração, 
chatas de lavar o comer, para caldo, com bico ; 

■ Cafeteiras ; 

•Açucareiros, pegados ao prato; 

■Bules finos, para doentes, pintados de côr; 

• Canecas grandes e pequenas ; 

■Saleiros ; 

■Talher de galhetas ; 

■ Cangalhas, sem galhetas, à inglesa ; 
•Melões pequenos, em pé, e deitados; 
■Manteigueiras, em forma de boi, de coelho, de ca- 
brito, de pata, de peixe, de melão; 

■Cabeças de porco (ou javali); 



— 91 — 

Repolhos com seu prato ; 

Jogos de mesa ; 

Mostardeira à francesa; 

Cordeiros grandes ; 

Compoteiras, com armas; 

Bacias de cores, bacios para sangria, bacio e jarra 
em feitio de conciía, bacia para banhos, de go- 
mos, com caixa para lavar; 
■ Almofias ; 

Potes e quartas ; 

Almotolias e medidores de azeite; 
■Panelas para botica; 

Bilhas ; 

• Púcaros ; 

•Talhas com torneira, pequenas, grandes; 
Vasos e copos para banha; 

- Cortilhas (?) ; 
■Frigideiras, de cabo; 
■Placas (?); 

■Bidés com caixa, e comadres; 

• Fonte de água às mãos e jogos de agua às mãos, 

fonte com tampa e chave ; 
•Jogo para pássaros, bebedouros lavrados, de vários 
preços, ninhos para pombas, comedoiro para pás-- 
saros ; 

- Cuspideiras, chatas, com aba, com o feitio de bis- 

potinhos ; 
-Tanque para peixes com seu prato; 

- Escrevaninhas de cores, e caixas de tinteiros; 
-Bocetas e boiôes ; 

-Jarras, jarrinhas, floreiras de três qualidades, peças 
de mangas, manguinhas, jarrinhas para jogo de 
chá, talher para flores, peças de borboletas, jar- 
ras imitação da Saxónia, mangas pequenas, jar- 
ras de gomos, e albarradas ; 



— 92 — 

— Verrinas para copos (?) ; 

— Castiçais, com figuras, de relevados, de pé alto, 

figuras de castiçal ; 

— Bispotes, chatos, com aza, à imitação da índia; 

— Poncheiras, com asa; 

— Quartas para sangrias pintadas de cores ; 

— Cestas pequenas e grandes ; 

— Impada pequena (?) ; 

— Canos para chamine's ; 

— Perfumadores ; 

— Baldes p-ara garrafas, em forma de cesto ; 

— Canoas (?) ; 

— Vasos para jardim ; 

— Figuras, para jardim, de corpos inteiros, de meios 

corpos, de Apolici (Apoios), pintada de cores, de 
lavradeira ; 

— Meios corpos para jardins (plintos) ; 

— Torão (?) de duas figuras ; 

— Meninos de dois tamanhos; 

— Borboletas ; 

— Cães, peixes, cachorros, gatos, leões, bois, coelhos, 

patos e patas de dois tamanhos, cordeiros grandes 
e pequenos, etc. 

l E extensa a lista, extensa e surpreendente de no- 
vidades, não é verdade ? 

Vale, pois, algumas considerações. i 



Entre as numerosas peças citadas de que a Direc- 
ção da Fábrica das Sedas se desejava ver livre, fazendo 
leilões e facilitando vendas, por não ver logo ali o lucro 
diante dos olhos, ansiosa porque os fornos do Rato só 



-93- 

fabricassem loiça comum, pratos e mais pratos, potes 
e quartas, cuja venda eslava assegurada, algumas há 
um tanto ou quanto duvidosas de saber-se o que fos- 
sem, i As cãtioas e as verrinas, para copos ? i As car- 
tilhas e as placas? ^ As impadas e o torão de duas 
figuras ? 

Procurei em Bluteau qualquer explicação e não en- 
contrei. 

Verrinas seriam uma espécie de «cangalhas» para 
copos como hoje ainda usam os vendedores de água ? 

Pelos preços marcados para venda, conclui-se do 
tamanho de algumas das peças. Por exemplo, as «ba- 
cias para banhos» custavam 4íí)8oo re'is. O mesmo 
custava o tanque para peixes da marca maior; o da 
marca mais pequena custava 3ííf)20o réis. A dois pintos 
(960 réis) custavam as «cabeças de porco» e os «me- 
ninos», maiores. Os mais pequenos tiravam-se por 
seis tostões. As figuras de corpos inteiros — os Apo- 
los, os Hércules, os Neptunos — custavam i;37;8oo réis; 
outras mais pequenas a goo e a 400 réis. 

A misteriosa peça que nos inventários se chama 
impada, era do preço de seis tostões. Uma «pata» 
grande tinha o preço de 9G0 réis ; os «cordeiros» gran- 
des, a 720 réis e os pequenos de 320 réis ; um castiçal 
com figuras, 480 réis ; uma jarra imitando Saxe, 200 
réis; as manteigueiras em forma de animais, Soo e 25o 
réis ; um medidor de azeite, iCíôoo réis ; um «repolho» 
com seu prato, i.j?4oo réis. 

Das figuras de animais, os «gatos», por exemplo, 
custavam dois tostões. Os «bidés», com caixa, eram 
a Sítiooo réis. 

No leilão que se realizou em 24 de Maio de 1771, 
foram, entre outras loiças, à praça, para cima de cin- 
quenta destas peças figuradas. Só galos eram vinte. 

Entre a loiça vendida havia uma figura represen- 



— 94- 

tando uma lavradeira, afora outras não especificadas. 
Arrematou tudo o nosso conhecido José Veroli por 
SooíiJjooo réis e foi ele quem fêz a venda, que lhe ren- 
deu 682-':?'o55 réis. 

A fábrica sabia melhor fazer loiça do que negócios, 
ao contrário, exactamente, do antigo copeiro (i). Já 
seis dias antes, Veroli tinha feito negócio semelhante 
no leilão que antecedera este, comprando vinte e três 
placas por 651)700 réis (2). 

Em 1769 vendeu-se 2.i853!!)5oo réis de loiça, e, em 
Março de 1771, em que os tempos já não eram os 
mesmos, a loiça avariada e defeituosa que se vendeu, 
produziu 29953^960 réis, a favor do mestre por conta de 
quem foi vendida. 



De muitas peças, hoje conhecidas, fabricadas no 
Rato e assinadas, não há menção nos Inventários. Não 
admira; eram peças de excepção, peças de oferecer. 

Aquela delicada figurinha de faiança, marcada por 
Brunetto, é das tais a que me refiro. Pertence ao 
dr. Álvaro Teixeira. Representa um Polichinelo, sen- 
tado num tronco, policromado a azul, verde, roxo e 
côr de vinho. Tem treze centímetros de alto. O galo, 
imponente, de excelente modelado, esmaltado a branco 
anilado levemente, e também marcado por Brunetto, 
que pertence ao meu amigo Atonso de Dornelas, está 
nas mesmas condições. 

Outras peças conheço de alto valor artístico, do- 
cumentadoras da perfeição do fabrico do Rato neste 



(1) Livro 241 das Vendas, pág. 107 v.° a 109. 

(2) Idem^ idem. 



— 9^ - 

primeiro período, a que se pode aplicar idêntico cri- 
tério. 

Pelos bric-à-bracs aparecem, de quando em quando, 
exemplares belos de faiança ratinha. No Cristiano, da 
rua de São Bento, estiveram à venda, não há muito, 
uma série de meios-corpos (plintos) para Jardim, e 
em 1927 vi lá, comprado no leilão do Conde dos Oli- 
vais, um busto, marcado por Brunetto (meia figura), 
N.° VI de uma série, representando Sérvio Galba (nome 
que se via em letras relevadas na frente da base; com 
a cabeça coroada de folhagens. 

José Queirós cita na sua Cerâmica outras peças 
excepcionais, como o prato da colecção Asseca, o prato 
relevado da colecção Arroio, as «terrinas» da colecção 
da Academia das Sciências, uma das quais pode estar 
incluída nos «Inventários» na designação de Terrinas 
com figura do cordeiro. Todas estas peças são de sin- 
gular mérito. Queirós, fazendo considerações sobre 
os barros diversos utilizados no Rato, nota nesta ter- 
rina enoutra semelhante, adquirida então pelo sr. Pinho 
da Cunha, uma pasta mais avermelhada. 

O que eu posso afirmar é que o barro era da cerca 
do Colégio dos Nobres (Faculdade de Sciências) e que 
a areia vinha de Coina. Chumbo de capote, estanho 
e sal, constituíam a pasta e o vidrado de toda a faiança 
do Rato nesta época. Mais tarde é que se utilizaram 
outros barros e outras combinações, como a seu tempo 
veremos, a não ser que, excepcionalmente, se empre- 
gasse barro dos Prazeres ou de Rana, mas de tal em- 
prego não ficou nos papéis e livros de contas o mínimo 
vestígio. 

O que é possível, e até provável, é que a produção 
do Rato se confunda por vezes — nas peças não mar- 
cadas pelos mestres — com a da fábrica do Paulette 
na travessa dos Ladrões, a de Santo Amaro ou a de 



-96- 

Robillion em Queluz, contemporâneas da oficina de 
Brunetto e de Almeida. Nas duas primeiras estiveram 
os melhores rodeiros e modeladores do Rato : João 
Gonçalves, João Pinheiro e Severino José da Silva, que 
também pintava ; na última estiveram Manuel José do 
Nascimento e Berardi, dois dos mais hábeis pintores 
que ali trabalharam. 

Mais tarde o mesmo sucedeu com a Bica do Ça- 
pato. Um excelente decorador e pintor trabalhou lon- 
gos anos nas duas oficinas. 

Nada, portanto, mais fácil do que aparecerem pe- 
ças de pasta diferente modeladas igualmente ou seme- 
lhantemente pintadas. No meio industrial de então, 
pequeno como era, neste capítulo da cerâmica, as in- 
vestigações têm de ser mais de autoria do que de ori- 
gem. 



CAPITULO V 



Sumário : Relata-se a gerência do administrador Botelho de Al- 
meida, de 1779 a i8iG — Quem era este sujeito — Lucros da 
Fábrica de 1779 a 1812 — Um projecto de José Joaquim Ter- 
rier — Citam-se outras oficinas cerâmicas — Obras na Fábrica 
do Rato — Falta de lenha e de carvão em 1811 — Artistas 
que trabalharam no Rato, neste período — Oleiros e pintores. 

— Os azulejos do Rato — Citam-se algumas obras aqui feitas 

— O seu «tipo» — As oficinas da Bica do Çapato e do Rato pro- 
duzindo o mesmo azulejo — Entra em scena o Dr. Joaquim 
Rodrigues Milagres — Quem era o Inventor da nova loiça — 
Uma hipótese admissível — Introduz-se na Real Fábrica e 
principiam os ensaios — Favor real que lhe era dispensado — 
Primeiras questões com a Direcção e excessivas despesas 
com o novo Invento — Requere Milagres se lhe trespasse a 
Fábrica — O projecto dos irmãos Raposos, sobrinhos de Bar- 
tolomeu da Costa — Ideia de uma outra loiça fina — Nada se 
resolve — Exames e avaliações à loiça do Dr. Milagres — 
Lucros fictícios e prejuízo real — Outro projecto do nego- 
ciante Luís António da Costa — Botelho de Almeida pede a 
demissão de Administrador da Real Fábrica — Nova discus- 
são sobre a loiça do Milagres — O Procurador Fiscal e 
o Guarda Livros, alheiam-se da questão e o Doutor irri- 
ta-se e reclama para S. A. R. — Uma carta insultuosa e amea- 
çadora — Morrem o Botelho e o Milagres — Cessa a questão 

— O segredo do «pó de pedra ■> que era faiança — Diz-se a 
«receita» ao leitor. 

De 1779 a 1816 administrou a Fábrica do Rato, 
anexada à das Sedas, João Anastácio Botelho de Al- 
meida. 

Vejamos quem era este sujeito. 

O novo administrador era filho de Adrião Botelho 
VoL. IV 7 



-98- 

de Almeida, fidalgo da Casa Real e de sua mulher 
D. Ana Joaquina da Silva, sobrinho de José Botelho 
Moniz da Silva, senhor do morgado de Valverde em 
Óbidos, e do de Vale de Cavalos, cerca de Almeirim, 
e neto de Luís Botelho de Sequeira, Familiar do Santo 
Ofício e Fidalgo de Casa, senhor dos referidos mor- 
gados e de sua mulher D. Isabel Maria Moniz da Silva 
de Carvalhosa (i). Isto quanto à sua família, que mo- 
rava então na próxima rua do Salitre, em casa própria. 

Quanto às razoes que determinaram a sua escolha 
para o lugar é que nada sei. 

l Seria porventura o Botelho de Almeida dado aos 
estudos económicos e às questões industriais ? ^ Ou 
seria nomeado por compadrio e amizade de qualquer 
magnate da Junta do Comércio ou da Direcção da Real 
Fábrica das Sedas ? 



João Anastácio, na opinião de Acúrcio das Neves 
fêz uma boa administração. Este elogio na boca do 
autor das Noções Económicas, Históricas e Admiiiis- 
trativas significa que houve lucros e que se deixaram de 
produzir peças artísticas, enveredando-se pelo fabrico 
da loiça comum. Acúrcio traz a nota desses lucros que 
foram os seguintes : 

Até 3i de Dezembro de 1792 — 2.983í5í;42i réis; 

De I de Janeiro de 1793 a 3o de Junho de 1797 — 
8.i8ií7)544 réis ; 

Desta data a 3o de Junho de 1801 — 8.o79í5í'o22 
réis; 



(1) Informação do meu amigo e condiscípulo sr. Augusto 
Botelho da Costa Veiga, coronel de artilharia e Director actual 
da Biblioteca Nacional. 



— 99 — 

Desta a 3o de Dezembro de 1811 — 2.960^5468 réis; 

E desta ao fim do ano de 1812 — i.427cr'664 réis. 
Total: 19.632ÍM19 réis. 

Depois de 1812, com o Dr. Milagres, veio o caos. O 
sentencioso Acúrcio das Neves, lamentando os prejuí- 
zos que se deram então, diz: «... e não entrarei nestes 
motivos porque poderia ofender vivos e defuntos» (i). 

Lá cauteloso era êle. 



De 1780 a 1807, poucas novidades se podem dar ao 
leitor. A loiça antiga do tempo do Bruneto e do Al- 
meida ia-se vendendo conforme se podia e o que se 
fabricava era a faiança comum e o azulejo. 

O levantamento da proibição da entrada para a loiça 
amarela inglesa, em 1783, fêz mal à Fábrica. Houve 
um momento de desânimo. Talvez, aproveitando-o, é 
que José Joaquim Terrier, requereu em 1724 que se 
lhe transmitisse a fábrica, expondo o seu plano e con- 
dições. A Direcção discutiu o caso, fêz uma consulta 
em 28 de Setembro, mas tudo veio a ficar em nada (2). 

Por essa época já funcionavam no país outras ofi- 
cinas cerâmicas. No Almanaque de 1789 vêm mencio- 
nadas fábricas de loiça fina em Aveiro, em Coimbra, 
na Carnota, no Juncal, na Panasqueira, no Porto, em 
Rio Maior e em Viana. 

Num apontamento manuscrito que possuo, e que nem 
sei já como me veio parar às mãos, talvez dos primei- 
ros trinta anos do século passado, citam-se a loiça in- 
crustada da Amieira e a loiça negra do Crato, e há 



(i) Já citada obra de Acúrcio das Neves. 

(2) Livro 2° de Registos e Consultas, pág. 108 a 109 v.° 



— 100 — 

ainda referência aos azulejos que se fabricavam nas 
Olarias, em Lisboa. 

Nesta cidade funcionavam em 1790 as fábricas de 
Paulette, na Travessa dos Ladrões ; a de Santo Amaro, 
de Henrique Francisco de Andrade & C.*; a do Ro- 
mão «dos Púcaros», às Olarias, na calçada de Agostinho 
de Carvalho. A de Veróli, em Belas e a do Robillion 
em Queluz, já tinham acabado. Depois, até i8i3, fun- 
daram-se mais: a Fábrica da Calçada do Monte; a da 
Travessa da Bela-Vista à Lapa ; a do Castelo Picão ; 
a Re'al Fábrica da Bica do Çapato; a do Largo das 
Olarias ; e a da Travessa do Pe de Ferro, respectiva- 
mente em 1793, 1794, 1794, 1796, 1800 e i8i3. 

Em 1782, continuando-se no empenho de animar 
esta indijstria, foi concedida isenção dos direitos de 
entrada para os géneros e drogas necessárias para a fa- 
bricação de faianças, aos negociantes do Porto João da 
Rocha e João Bento da Rocha que tinham fundado a 
fábrica a que a Carta Régia de 27 de Outubro de 1778 
concedera os habituais privilégios (i). 

O mesmo foi concedido por alvará de 7 de Feve- 
reiro de 1787 a Alexandre Vandelli, para os géneros 
que se destinavam à sua fábrica de pó de pedra, se- 
melhante à de Inglaterra, produtora de cadinhos e va- 
sos para laboratório. Os privilégios concedidos a esta 
oficina eram só extensivos à Beira e ao Minho, obri- 
gando-se o fabricante a tomar e a instruir aprendizes 
e aos demais encargos habituais nas «Condições» im- 
postas pela Junta do Comércio (2). 



(i) Livro gij-B de Decretos e Avisos. Diploma de 14 de Ju- 
nho de 1782, pág. 411 e 412. 

(2) Livro gi8-C de Decretos e Avisos, 69 a 69 v.° 



— 101 — 



João Anastácio Botelho de Almeida, fêz várias re- 
formas de ordem material no estabelecimento fabril do 
Rato. Em 1798 mandou reparar, depois de uma vis- 
toria de técnicos, a casa da olaria que tinha uma pa- 
rede arruinada (i) ; em 1804 promoveu, em nome da 
Real Fábrica das Sedas, uma execução aos herdeiros 
do capitalista José Luís de Brito (dono do actual palá- 
cio Praia e Monforte) por dívidas à Fábrica da Seda, 
execução que foi mandada extinguir por decreto de i5 
de Agosto de i8o5, por ter sido a dívida perdoada a 
requerimento da viúva, D. Helena Vitorina Antónia 
Pinto de Morais Sarmento (2); e em i8ii e 1812, após 
a vistoria do arquitetu Henrique Guilherme de Oliveira 
e do Mestre das Águas-Livres, Teodoro dos Reis, con- 
seguiu se fizessem novas obras na oficina (3). Os seus 
bons serviços como Administrador, não como artista, 
foram galardoados com uma ajuda de custo de i20'í!í)00o 
réis por ano, por ordem da Direcção de 7 de Novembro 
de 1800(4). 



Em 1811 houve em Lisboa uma grande falta de le- 
nha. Era difícil à Fábrica obtê-la para os fornos. Nos 
cais desaparecia toda, mal desembarcava dos batéis que 
a traziam da Outra-banda. Foi necessário a Botelho de 
Almeida alcançar ordem de embargo, com prisão para 



(i) Livro g40 de Registo de Ordens da Direcção, pág. 20. 

(2) Livro g4i idem, nág. 2 v." e 3. 

(3) Idem — Ordem de 28 de Fevereiro de 1812, pág. 35 e 35 v." 

(4) Livro g40 idem, pág. 43 v." e 44. 



— 102 — 



quem a quisesse tomar. Com o carvão foi preciso fa- 
zer o mesmo, e era à força que se ia buscar ao cais 
para acudir à loiça enfornada, sem combustível, para 
se cozer (i). 



Quanto a pessoal, neste período, apenas apurei o 
seguinte : 

O mestre Manuel José do Nascimento, voltou da 
Fábrica de Robillion para aqui. A ordem de 24 de Ou- 
tubro de 1785 permite-lhe que tenha uma junta de bois, 
para fazer carregos de barro e outros, por sua conta 
e com lucro próprio (2). 

Em 1792 foi nomeado Mestre Geral da pintura, o 
nosso já conhecido Severino José da Silva (3). O fa- 
brico do azulejo era dirigido por um operário hábil — 
Francisco de Paula e Oliveira — que desde 1774 estava 
na oficina do Rato. Contra-mestre da olaria foi, em 
1783, José Baptista de Almeida, irmão do falecido mes- 
tre Sebastião de Almeida (4). 

Os Róis dos Confessados deixam de mencionar a 
população fabril do estabelecimento. O Botelho mo- 
rava no Salitre, na casa familiar. Apenas aparecem 
citados o Cândido José Coelho —talvez encarregado, 
olheiro ou vigia — e um galego — tipo pitoresco pela 



(i) Livro g4i de Registo de Ordens — Ordens de 12, 18 e 25 
Janeiro e i3 de Fevereiro de 1811, 25 e 25 v.° 

(2) Livro g3g idem, pág. Sy. Ao mestre Botelho de Almeida 
também foi concedido pela mesma ordem ter duas juntas de bois 
para moer o vidro. 

(3) Livro g4o idem — Ordem de 5 de Outubro de 1792, pág. 17 
e 17 v.° 

(4) Livro g3q idem — Ordem de 28 de Julho de 17S3, pág. 2/ 
e 28. 



io3 — 



certa — a quem chamam o «João das Cores» e que, pos- 
sivelmente, teria a seu cargo a mistura e lote das tintas. 
João das Cores residiu ali desde 1780 a 1786. Em 
1785 e 1780 também aparece o operário José António. 



Das oficinas do Rato saíram muitos dos azulejos 
que guarneceram as fachadas e os interiores da Lisboa 
da reedificação. O palácio Pombal em Oeiras, o do 
Conde da Ceia (anteriormente Rebelos) na rua da Es- 
cola, o dos Alagoas, o dos Guiões, têm decorações 
cerâmicas desta proveniência. Do Rato são também 
os da igreja da Estrela, os da ermida de Nossa Se- 
nhora da Consolação, em Agualva (i), os do pátio da 
Academia de Belas Artes, os da ermida de Monser- 
rate, os da Cruz das Almas e outros a que em breve 
farei referência. 

Francisco de Paula e Oliveira foi o pintor da maio- 
ria deles. Da sua mão são, de certeza, uns azulejos de 
Queluz encomendados pelo príncipe-regente em 1796, 
os dos palácios dos condes de Óbidos, dos duques do 
Cadaval, dos de Lafões, dos viscondes da Anadia, dos 
marqueses de Borba, da ermida da Alfarrobeira, da 
igreja de Santo António da Castanheira e muitos dos 
que foram para o Rio de Janeiro. E êle mesmo quem 
o diz, num documento copiado nos livros da Fábrica 
das Sedas (2). 



(i) Estes azulejos foram fabricados no Rato em 1787 e cus- 
taram, por sinal, i6yí}pS2j réis (Comunicação do falecido acadé- 
mico Vítor Ribeiro â Assembleia Geral dos Arqueólogos Portu- 
gueses, em 3o de Dezembro de igoS). 

(2) Livro 929 de Representações e Consultas — Informação de 
Paula e Oliveira, datada de G de Novembro de 1818. 



— 104 — 

Em 1808(27 de Fevereiro) quando a Fábrica fechou, 
por motivo das anormalidades derivadas da Invasão 
Francesa, estava ele acabando os azulejos para a igreja 
de S. Julião (sacristia). Todo o pessoal deixou a Fá- 
brica excepto êle. Acabada a encomenda, Paula e Oli- 
veira foi para a oficina do José Roiz de Magalhães, à 
Bica do Çapato, onde continuou a pintar azulejos «de 
brutesco» voltando para o Rato, em 1811, quando esta 
Fábrica reabriu, passada a onda invasora. 

Por mais este facto se vê quanto é difícil, sem o 
auxílio documental, fazer atribuições de fabrico, pois o 
Paula e Oliveira pintou azulejos para o Rato e para a 
Bica do Çapato, os quais evidentemente, acusando a 
mesma mão, devem ser semelhantes tendo, aliás, pro- 
cedências diferentes. A moldura polícroma enqua- 
drando painéis de figuras a azul, é característica deste 
fabrico que depois se modificou para o tipo Grinaldas 
a verde, amarelo e azul que tanto abunda nos rodapés 
e silhares das casas pombalinas. 



Quando a Fábrica reabriu em 181 1, julgavam alguns 
que ela iria, emfim, ressarcir-se dos prejuízos derivados 
do largo período convulsionado que o país atravessara. 

Puro engano. Haveria, talvez, boas vontades para 
que tudo assim fosse, mas com o que ninguém contava 
foi que caísse sobre ela a praga de um inventor, mal os 
seus fornos se começaram de novo a aquecer e mal o 
moinho do vidro entrou de trabalhar. 

Joaquim Rodrigues Milagres — inventor de uma nova 
qualidade de louça — título com que se condecorava o 
sujeito, à guisa de indicação profissional, nos próprios 
«Almanaques» do tempo, ]á na fábrica do Castelo Picão 



— io5 — 

tinha feito «infrutíferas experiências» quando surgiu na 
do Rato, vestido com a couraça invulnerável de uma 
protecção descabelada da corte e do próprio soberano, 
que o levava a invocar a miúde a Real Presença e o 
Real agrado, sempre que não sabia o que havia de di- 
zer para justificar os seus desastres. 

Vejamos se se consegue identificar o inventor. 

Doutor se chamava ele a si mesmo, e devia de sê-lo. 

Médico? Bacharel em leis? Não o sei. Naturali- 
dade? Família? A estas duas preguntas aí vai uma 
conjectura minha. 

Suponho o dr. Joaquim Rodrigues Milagres (e não 
Milagros) irmão do fundador (em 1770) da fábrica do 
Juncal José Rodrigues da Silva e Sousa, nascido como 
êsle, no lugar do Senhor dos Milagres, termo e con- 
celho de Leiria, e filhos ambos de Joaquim da Silva e 
netos de José' da Silva. O facto do nome e dos ape- 
lidos, serem, aquele, o do pai e estes o da família e o 
do lugar da naturalidade, assim como a bossa cerâmica 
que seria adquirida por indução é que alicerçam a mi- 
nha suspeita. 

A fábrica do Juncal fechara também pelas invasões 
francesas ; Joaquim Rodrigues ter-se-ia formado em 
Coimbra e teria vindo depois para Lisboa dar largas às 
fantasias de inventor. Ainda mais. O segredo do pó 
de pedra que êle pretendia fabricar estava em Leiria; 
eram os barros da região que se utilizavam no Juncal. 

Logo o provaremos. 



Foi no princípio de 181 1 que o Inventor se ins- 
talou na oficina do Rato, espanejando-se por toda a 
Fábrica, requerendo obras, tudo achando pouco para «a 



— io6 — 

sua nova qualidade de loiça». ^ O pacato Botelho de Al- 
meida andava apavorado com a revolução que se lhe 
armara lá dentro. As amostras da primeira fornada 
não satisfizeram. A Direcção torceu-lhe o nariz (i). 
Milagres certificara-lhe que a fornada custava i85ííí)2oo 
réis e que valia 48o':í)00 réis. O dobro do que dava 
a fornada habitual da Fábrica. 

Os Directores, porém, desconfiados pelas amostras, 
muitas das quais tinham defeitos, só queriam arriscar 
uma opinião vendo o resultado de uma fornada e, por 
isso, chamaram o Doutor a uma conferência em 1 1 de 
Outubro desse ano, para terem conhecimento de onde 
vinha o barro e proceder-se a uma cozedura por conta da 
Fábrica. Milagres disse que só tinha o barro suficiente 
para os ensaios e que demorava ainda mandá-lo vir. 
A Direcção resolveu esperar. Não se convencia com 
duas razões (2). Havia só uma coisa que a atrapalhava : 
era a protecção da Casa Real que cobria o Inventor. 

Por isso, sempre que as suas consultas eram para 
as regiões superiores, torcia-se a falar 7ia excelente louça 
fá verificada na Real Presença e dizia sem grande 
convicção que, conforme informação do Doutor, as ter- 
ras que entravam na composição da loiça, eram de 
fora de Lisboa, de sítios remotos. Tudo isto vem na 
informação prestada ao requerimento de Milagres pe- 
dindo uma quantia diária para meios de transporte. 

Já se vê, veio resolução favorável em data de i3 de 
Fevereiro de 181 2, e a 19 dava-se o despacho com o 
«cumpra-se» da ordem (3). 

Em 22 de Abril a Direcção, representa pela quinta 



(1) Livro g28 de Representações e Consultas, pág. Sg. 

(2) Idem, pág. 62 a 62 v.° — Consulta de 23 de Novembro de 
1811. 

(3) Idem, pág. 68 e 69 — Consulta de 7 de Fevereiro de 1812. 



— 107 — 

vez à Junta do Comércio. Não consegue que o Doutor 
faça ensaios. Fizeram-se obras na Fábrica, deu-se-lhe 
dinheiro, mas lá principiar o fabrico é que não se con- 
seguia. Emquanto não baixasse a Resolução sobre 
o seu requerimento pedindo recompensas adiantadas, 
requerimento que não pôde, por isso, ser bem infor- 
mado, declarava não querer trabalhar. 

Os aflitos Directores dizem mesmo : . . . não po- 
dendo a direcção deixar de sentir que se tenha tratado 
coni tão pouca seriedade um negócio tão ejica\mente 
recomendado por Vossa Alteia Real (i). 



Milagres, talvez receando a atitude da Fábrica das 
Sedas, fêz então uma fornada pequena sem dizer a nin- 
guém de onde viera o barro nem o modo de prepa- 
rá-lo. Tomaram-se nota das despesas, inventariou-se a 
loiça e mandou-se avaliar por três negociantes, Filipe Nu- 
nes, José Joaquim da Rocha e Castro e Tomás Bessone 
que lhe deviam marcar, também, preços de venda(2). 

Por seu turno Botelho de Almeida apresentou uma 
conta de todas as despesas feitas na Fábrica, com a 
nova loiça, e outra de toda a existência da loiça an- 
tiga (3). Nessa altura já se tinham gasto com o novo 
invento i7.355;3í'45i além da mobília, utensílios etc. 
ficando a Direcção autorizada a tirar esta soma do 
Cofre das Aguas Livres, assim como todas as quantias 



(i) Livro g28 de Representações e Consultas, pág. 72 e yS. 

(2) Livro g4i-2° de Ordens — Ordem de 9 de Setembro, 
pág. 38. 

(3) Idem — Ordens de 9, 16 e 23 de Setembro de 1812, pág. 
38 v.o e 39. 



— io8 — 

que, por tal motivo, ainda se tivessem de gastar (i). 
Milagres reclamou da avaliação feita, a que não com- 
parecera a-pesar-de convidado. Os peritos computaram 
o valor da loiça, cuja fornada tinha custado i4o;jT'763 
réis, em S2ítt>i6o réis. Em virtude de reclamação em 
que se pedia a intervenção dos avaliadores da cidade, 
estes vieram e avaliaram-na em ii9.íí>58o réis. Ainda 
havia um prejuízo, que se não teve em linha de coma, 
por se ignorarem as despesas do transporte do barro 
e da sua extracção. A quebra era de i5^/o pelo me- 
nos (2). 

^ Julga o leitor que o Doutor encolheu as garras ? 

Engana-se. [Quando seria legítimo supor que se 
calaria, representa, de novo, superiormente, para que 
o nomeassem Administrador da Real Fábrica dando-se- 
-Ihe a oficina com todas as existências e a quarta parte do 
lucro líquido, e ainda adiantando-se-lhe dois contos de 
réis para a extracção, condução e preparação dos barros. 

A Direcção solicita, então, quási de mãos postas, 
que se houver mais exames, avaliações, etc, se co- 
metam à Junta do Comércio, por que ela não podia 
informar sobre quem a tinha injuriado e agravado de 
palavras. Pelo visto o Inventor estivera a ponto de 
bater no Botelho de Almeida e pusera os Directores 
pelas ruas da amargura. 



Emquanto o Doutor Joaquim Rodrigues Milagres, 
sem se importar com o Botelho nem com o Mestre de 



(i) Livro 92g-2.° de Representações e Consultas — Represen- 
tação da 10 de Setembro de 1812, pá t. i i [ a 112. 

(2) Jdem, pág. 77 v." a 78 v." — Representação de 14 de Ou- 
tubro de i3i2. 



— log — 

oleiros João da Costa(i) ia preparando às ocultas os seus 
barros e continuando a produzir a loiça inferior de que 
se queixava a Direcção, outros inventores estudavam 
lotações de barros com a mira de um dia fazerem 
campo de experiências na «Real Fábrica do Rato». 

No princípio de 1814 uma parçaria de te'cnicos apre- 
sentou à Direcção da Fábrica das Sedas um projecto de 
fabricação de loiça fina que podia concorrer com a 
inglesa. 

Os autores eram dois engenheiros, o Brigadeiro Ri- 
cardo Luís António Raposo e o Sargento-mor de enge- 
nheiros Francisco António Raposo, sobrinhos doTenente 
general Bartolomeu da Costa cujos ensaios e experiên- 
cias no fabrico da porcelana tinham sido notórios. Na 
sua proposta, invocando o nome do tio e a aprendiza- 
gem com êle feita e lamentando a falta de uma boa 
loiça fina que concorresse com a estranjeira, principal- 
mente com a inglesa de que se fazia uma larga impor- 
tação, pediam o seguinte : 

i.° Privilégio do fabrico, por catorze anos; 

2° Exclusivo das barreiras de onde se tirava o 
barro ; 

3.° Que os aparelhos inventados para essa manu- 
factura ficassem pertencendo a ela ; 

4.° Isenção de direitos de carvão e outros materiais 
e livre entrada e saída do reino da loiça fabricada; 

5.° Habituais privilégios para os fabricantes; 

6.^ Direito a recurso imediato para S. A. Real. 

A Direcção da Fábrica, sugestionada por José Acúr- 
cio das Neves, informou excelentemente dispensando 



(1) Livro g2g-2.° de Representações e Consultas — Represen- 
tação de 5 de Agosto de i8i-|. João da Costa era habilíssimo ofi- 
cial. Foi soldado da Guarda Real de Polícia durante a Invasão. 
Readmitiu-se em 1814. 



— lio — 

ensaios e experiências, dada a categoria e os notórios 
conhecimentos técnicos dos ^autores do projecto(i). 

Ignoro os motivos por que não foi por diante o plano 
dos Raposos, i Haveria resistência do Milagres, pondo 
em bateria as suas influências cortezãs ? 

O que sei é que o Brigadeiro Ricardo Luís António 
Raposo pouco depois adoecia e morria, e o irmão par- 
tia para o Rio da Prata, numa comissão de serviço, 
como diriamos hoje. A Real Fábrica, porém, não per- 
deu com o novíssimo invento da tal loiça que imitava 
a porcelana, como ao depois se apurou quando, recem- 
chegado da América se entregou a superintendência da 
oficina a Francisco António Raposo, em i825. 



Sua Alteza Real tendo acordado em fins de 1814 
do «engano ledo e cego» em que o pusera o Milagres, 
mandou ordenar à Direcção que se fizesse uma conta 
corrente das despesas e receitas da famosa loiça. 

Ora a conta foi esta : 

DÉBITO 

Materiais, moveis, manufacturas e uten- 
sílios em I de Janeiro de i8i3 5.680^879 

Despesas com os operários, lenhas, bar- 
ros, etc 4.001Í55089 

Chumbo e estanho em barra 472^^920 

Ordenado do Administrador 320CÍ)0oo 

Renda do edifício que se carrega 2oo;jí)000 

Lucro 323íf)927 

Total 10.998^^815 



(i) Livro 929-2.° de Representações e Consultas, pág. 114 v. 
a 116 v.o — Consulta de 16 de F"evereiro de 1814. 



— III — 

CRÉDITO 

Dinheiro das vendas 6. 107^55)443 

Existência 4.89ií5í>372 

Total 10.998^^81 5 

O peor é que o lucro era fictício e só existia nos 
livros. A existência não valia o que se mencionava. 
Não havia «sonido» e a laboração estava muito dimi- 
nuída (i). 

Nesta altura apareceu um novo compère da peça que 
o Milagres andava representando. Foi o negociante Luís 
António da Costa que se propunha comprar, com ex- 
clusivo, toda a loiça do iiopo invento, todo o suposto 
«pó de pedra» fabricado no Rato, expondo-o ao público 
em duas lojas dos baixos da Inquisição (Rossio) onde 
então estavam uma taberna e um confeiteiro. Pedia 
isenções várias de direitos e de contribuições, exigia 
certificados de autenticidade das peças recebidas por 
meio de um sistema de guias e recibos, comprome- 
tia-se a só vender, devidamente marcadas, as peças 
que estivessem perfeitas, e prometia abrir outras lojas 
de venda. O pior é que, no Rato, o Doutor só fazia uma 
fornada por mês, o que era escasso para tão vasto plano. 
A Direcção desconfiou. O Costa veio com-um segundo 
requerimento com vários esclarecimentos, e o Adminis- 
trador informa que o armazém que tem chega e sobra. 
A Real Resolução, datada do Rio de Janeiro de 24 de 
Julho de 1816 declara que não havia que deferir. O 
«cumpra-se», foi cá posto em 29 de Janeiro de 1817(2), 
quando o Costa já, de-certo, não pensava em desalojar 



(i ) Livro 929 de Representações e Consultas — Representação 
de 21 de Outubro de 1814, pág. 5 v.° a 6 v.** 

(2) Idem, pág. 33 v.^ — Consulta de 9 de Janeiro de 1816. 



112 — 



do Palácio do Rossio o vendedor de vinhos e o con- 
feiteiro. 



Em Juliio de 1816, o Administrador Botelho de Al- 
meida sentindo-se velho, doente, cansado de trinta e 
sete anos de serviço e, sobretudo, farto de aturar 
o Doutor Milagres que lhe invadira a Fábrica e lhe 
tirava, dia a dia, a autoridade, pediu a demissão do 
seu cargo. Tinha amor à oficina. Engeitara o lugar 
de Escrivão do Novo Imposto vago pela morte do seu 
tio Vicente Luís Nobre, mas agora não podia mais. 

Solicita à Direcção que se façam um inventário geral 
e vendas em leilão. 

Botelho de Almeida dizia com uma pontinha de vai- 
dade que a fábrica antiga não devia de acabar. Quanto 
às manufacturas do chamado «pó de pedra», tinham 
os seus dias contados. Dois anos de experiências e 
de prejuízos chegavam, e calcula estes em i2.322^bg/^ 
réis sobre um gasto de i5.22iíí;59i réis. 

A Direcção estava de acordo com o administrador e, 
em i3 de Agosto desse ano, baixou uma. portaria acei- 
tando a demissão do Botelho e mandando fazer exames 
e avaliações ã loiça do 710PO invento (i). 

Quando o dr. Milagres soube que iam fazer-lhe 
avaliações à loiça, deu por paus e por pedras, quei- 
xou-se à Direcção, reclamou e exigiu que a laboração 
não parasse. O guarda-livros começou o balanço e, em- 
quanto êle durava. Milagres requeria mais SooíJfeooo 
réis para a continuação da sua manufactura. O guarda- 



(i) Livro g2g de Representações e Consultas, pág. 72 a 74 v.» 
— Consulta de 3i de Julho de 1816 e Livro i.° de Registo de De- 
cretos e Avisos, pág. 1 19 v.° 



— ii3 - 

-livros, mandado informar, emudeceu. Furioso o Doutor 
com as delongas, mandou, em 21 de Novembro, a casa 
do dr. José Barbosa de Amorim uma carta violenta 
dizendo que se lhe não mandassem logo o dinheiro, aban- 
donaria a Fábrica. A Direcção airapalhou-se com a 
ameaça e por ser caso de interesse régio mandou de- 
positar os 8ooíí>ooo réis no armazém da venda, solici- 
tando à Junta do Comércio fizesse presentes a S. A. R. 
estas delapidações na Real Fazenda (i). 

Nessa altura o prejuízo apurado pelo guarda-livros 
era de 5.2G2íí'495 réis, desde o primeiro de Agosto de 
18 14 a 3o de Setembro de 1816, mesmo deduzindo-se 
as obras e consertos no edifício que importaram em 
2.236ííf68o réis. O Procurador Fiscal mandou que a 
avaliação fosse presente ao Milagres e se intimasse este. 
Milagres respondeu Já ter dado conta, directamente, a 
Sua Alteza Real e que o prejuízo não passava de 
i.9oiíí)368 réis. 

Ouvido de novo o guarda-livros e confrontadas as 
duas contas, ficou apurado o prejuízo de 4.7i8ít>927 
réis. 

O Procurador Fiscal a quem a conta foi ao «visto», 
alvitrou a nomeação de um perito e declarou alhear-se 
do assunto. 

A Direcção ficou, de novo, perplexa. A não ser o 
dr. José António de Sá, todos os outros Directores opi- 
navam que se passasse a Fábrica a um particular. O 
dr. Sá queria que se aperfeiçoasse a manufactura. Os 
lucros viriam depois para indemnizar o Cofre dos su- 
primentos feitos. O que era preciso, no seu entender, 



(i) Livro 929 de Representações e Consultas — Representa- 
ção de 22 de Novembro de 1816, pág. 89 a 91. Livro 20 de Or- 
dens, n.° 941, pág. 5i v.° — Ordens de 3o de Agosto e 6 de Setem- 
bro, mandando ao guarda-livros fazer o balanço. 

VoL. IV 8 



— 1 14 — 

era um mestre hábil e inteligente. E tudo fòi para Sua 
Alteza Real (i). 



Em i3 de Agosto de 1816 faleceu o João Anastácio 
Botelho de Almeida. Pouco mais de um ano lhe so- 
breviveu o Inventor que tanto o arreliara. Joaquim 
Rodrigues Milagres, em 8 de Dezembro de 1817, foi 
dar ao Criador as contas que nunca dera á Direcção da 
Real Fábrica das Sedas (2). 



Saibamos agora o que era o seu famoso invento, o 
seu misterioso pó de pedra. 

Em primeiro lugar : Milagres nunca fabricou pó 
de pedra, o que ela manufacturou foi só faiança. José 
Queirós bem o pressentiu. 

O segredo da pasta cifrava-se no seguinte : mistu- 
rava, em partes iguais, barros de Leiria e de argila 
calcárea de Monsanto, e o vidro era formado por outra 
mistura de seis arrobas de zarcão, sete de areia da 
Quinta dos Arcos (outra-banda), rica em feldspato, e um 
saco de sal. 

A argila de Leiria tinha pouco óxido de ferro. Não 
avermelhava, circunstância esta que foi aproveitada, no 



(1) Livro g2g citado, pág. io6 v.° a iii — Representação de 3 
de Setembro de 1817. 

(2) A viúva do dr. Milagres, D. Ana Doroteia de Campos, re- 
quereu à Direcção a pensão de 400J6000 réis, o que lhe foi defe- 
rido por aviso de 20 de Março de 1818 (Livro g20 de Decretos e 
Avisos, pág. 27 a 27 v.°). 



- ii5 - 

vidrado, pelo Milagres. Para a vinda do barro de Lei- 
ria, o Doutor tinha um comissário lá, chamado Joaquim 
José da Rosa Versas que lho mandava a i23 réis a 
arroba, com comissão na compra (i). 



Não sei de nenhuma peça que se possa com segu- 
rança atribuir ao dr. Milagres. Houve todavia peças 
marcadas como se vê do projecto de Luís António da 
Costa. Mas qual seria a marca ? Os inventários tam- 
bém não nos elucidam sobre o género de peças fabri- 
cadas. 

Emfim, uma total ignorância, a-pesar-de tantas no- 
ticias inéditas que neste capítulo se dão ao leitor. 



(i) Livro g2g citado— Consulta de 23 de Abril de 1819, 
pág. i3o a 149. 



CAPITULO VI 



Sumário : A infeliz administração de Vandelli — Luta entre a Teo- 
ria e a Prática — Mestre e Administrador incompatibilizados 

— Acusações, queixas e intrigas — A «gafe» dos três hemis- 
férios — A Procuradoria Fiscal e a Direcção resolvem o pro- 
blema, ficando tudo na mesma — O negócio do azulejo; diz-se 
qual era e como era — Vários tipos de azulejo feitos na Fábrica 

— Vinda dos barros de Leiria e venda de loiça para essa re- 
gião — O projecto de Mateus Pereira Pacheco — Um adian- 
tamento ao Mestre Paula e Oliveira — Vandelli acusa-o de 
novo — Devassas e inquéritos sem resultado — Dois projectos 
dos negociantes de loiça Inácio Pereira Guimarães e Vicente 
José — O combustível empregado na Fábrica — Ensaios com 
os barros de Cascais feitos por Salvador Luís e Silva Franco 

— Vêm para a fábrica barros de Molelos — O dr. Tomé Roiz 
Sobral e a sua acção na oficina : castigos, abusos do pessoal, 
preços e leilões — Os Armazéns da Fábrica na rua do Arsenal 
e na Rua Bela da Rainha — Perda de fornadas — E a Fábrica 
avisada de que vai vender-se — Susta-se a ordem — Os en- 
saios felizes de Salvador Luis — Renasce a questão Vandelli- 
-Paula e Oliveira — Sai Vandelli da Administração — Recla- 
mação sua — Mais dois pretendentes à Fábrica do Rato — 
Superintendência do brigadeiro Francisco António Raposo, de 
1823 a 1829 — Quesitos postos à Direcção da P'ábrica das 
Sedas — Dividem-se os pareceres — Outro engenho de moer 
vidro — Encomenda para a quinta Real do Rio de Janeiro e 
o busto de D. João VI, feito por Salvader Luís — Intervêm 
os mestres da Aula de Desenho — Abatimentos nas vendas 
e leilões — A administração do brigadeiro Raposo — Outro 
pretendente à oficina do Rato. 

A administração que sucedeu à de Botelho de Al- 
meida, foi ruinosa para a Fábrica. Durou seis anos, 
sendo os primeiros quatro gastos, se pode dizer-se, em 



— 11« — 

lutas internas, intrigas e questiúnculas, reclamações e 
queixas. Um duelo entre o Administrador e o Mestre 
e uma pugna entre estes dois e a Direcção. A ordem 
de 8 de Abril de 1818 nomeara Administrador Alexan- 
dre António Vandelli(i) filho do ilustre botânico Do- 
mingos Vandelli, pessoa dada aos estudos químicos e 
industriais, sócio e guarda-mor da Academia, o qual, 
em tempo, já requerera e tivera privilégio para a ma- 
nufactura de certa loiça à imitação da inglesa. Parecia 
assim ter-se achado pessoa competente para adminis- 
trar e superintender na Fábrica, mas Vandelli era ape- 
nas um teórico e a sua acção falhou absolutamente. 
O leitor vai ver o que se passou. 



O Mestre da fábrica era desde 10 de Novembro de 
1817, o nosso já conhecido Francisco de Paula e Oli- 
veira. Fora ele o sucessor do dr. Milagres com quem 
trabalhara, estando há trinta e cinco anos, com al- 
gumas interrupções, no Rato, como oleiro, e pintor de 
louça e azulejos entrefinos e de grutesco. Era mesmo 
dele o exclusivo do fabrico dos azulejos nesta oficina, 
com o que, ao que parece, auferia bons proventos. A 
sua grande prática de ceramista veio assim a defron- 
tar-se com a enfatuada teoria do Vandelli e como tam- 
bém tinha a sua pontinha de vaidade, o conflito estalou, 
já vamos ver como. 

Por morte do Botelho e do Milagres, a Direcção 
ordenou se fizesse inventário e balanço de toda a 
loiça existente. Arbitrou gratificações aos inventa- 



(i) Livro de Ordens n.° g4i, pág, 59 v.° 



- 119 — 

riantes e mandou proceder a vários melhoramentos e 
obras (i). 

Um requerimento de um tal Mateus Pereira Pa- 
checo que queria comprar, sob certas condições, toda 
a loiça da fábrica, não teve andamento, a-pesar-de ter 
insistido no pedido de a ficar dirigindo com privilégio 
para o fabrico de loiça de um esmalte de ponto mais su- 
bido (2). Era mais uma experiência que a Direcção 
pôs de parte, como tantas outras. 

O Paula e Oliveira pediu então para ser provido 
no lugar de Mestre geral. A Direcção mandou infor- 
mar o Administrador e a luta começou. Vandelli não 
sofria a filáucia do Oliveira. E certo que êle dirigia 
a manufactura do Milagres, mas lá o estar senhor do 
segredo é prenda de que se não podia ufanar porque 
todos na fábrica o sabiam. O que fêz, realmente, foi 
alterar um tanto a receita, empregando, para o vidrado, 
litargírio em vez de zarcão. O teórico Administrador 
gasta abundantes períodos da sua informação sobre a 
influência do fumo na cozedura e sobre a opacidade e 
transparência do esmalte, e ainda sentenciando, como 
mau, o vidrado da faiança do Rato que fendia por ser 
muito grosso e por se desenformarem as peças antes 
de resfriadas. Por tudo isto entendia Vandelli que 
seria necessário fazer ensaios, mas para tal era preciso 
um mestre obediente. Mestre geral e Administrador 
eram entidades incompatíveis dentro da fábrica. Ou 
um ou outro. E o Administrador termina este arrazoado 
por se julgar inútil, visto que o Paula e Oliveira sabe 
tudo . . . depois que lho di\em, acrescentava ironicamente. 



(i) Livro de Ordens — Ordens de 8 de Abril, 6 e i5 de Maio 
de 1818 e 3o de Abril de 1819, pág. 60 a 64 v." 

(2) Livro 920 de Decretos e Avisos — Aviso de 23 de Dezem- 
bro de 1817, pág. i35 a i35 v.° 



" — 120 — 

A informação, porém, continua e é interessante ex 
tratá-la. Lembra que em vez da areia de Coina, que é 
composta de cinco partes de sílica e uma de alumina 
pura, se aproveite a areia do Rio Seco, juntando-lhe 
uma percentagem de alumina. Quanto às argilas (na 
Fábrica, além da de Colégio dos Nobres, usada por 
Brunetto e Sebastião de Almeida, parece que também 
se usaram depois as de Rana e dos Prazeres) alvitra 
que se experimentem os barros de Leiria e da Ericeira. 

Acusa o Oliveira de desdenhar de tudo, e cita como 
exemplo o ter-lhe mandado fazer ensaios da manufac- 
tura da loiça acobreada, à maneira a inglesa, dando-lhe a 
receita e ele não ter feito caso. A catilinária continua. 

Paula e Oliveira é acusado de exorbitar em tudo 
admitindo operários escusados, tanto assim que na Fá- 
brica onde há três oleiros e três aprendizes, contavam-se 
dezasseis trabalhadores. Tinha lá um oficial de avia- 
mento de pintor, que era seu afilhado, e que recebia 240 
réis quando qualquer aprendiz, ganhando metade, fazia 
o mesmo. De quando em quando Vandelli diz barba- 
ridades na ânsia de atacar o Mestre. Ao criticar a 
existência de quatro pintores, declara que a pintura, a 
não ser estampa, em vez de valorizarr a loiça diminuia- 
-Ihe o valor ! ! ! 

Emfim, em seu parecer o Oliveira não ensinava 
os oficiais, não fiscalizava, não trabalhava e era preju- 
dicial à Fábrica (i). 

A Direcção da Fábrica da Seda mandou ouvir sobre 
o caso o Procurador Fiscal que opinou que o Oliveira 
não devia ser provido, continuando a oficina sob a di- 
recção do Administrador. 

Vandelli rejubilou e recrudesceu nos ataques fazendo 



( I ) Livro 929 de Representações e Consultas — Parecer do 
Administrador Alexandre António Vandelli. 



— 121 — 

a biografia do pintor. Já Botelho de Almeida o quisera 
despedir, só se conseguindo manter por empenhos, e 
o Milagres nunca o nomeara mestre a-pesar-dajs suas 
diligências. No' fabrico do azulejo cometia abusos com 
prejuízo da Fábrica. Chama-lhe «hum Pccus iiifiduin 
bdlicosum petiilans decorticaus ! ! ! O sal comprava-o 
a 100 réis o alqueire no Tendeiro ; ele, Administra- 
dor, mandou-o comprar a 6o réis. Já se sabe que disse 
logo que não prestava. O barro, quem lho fornecia era 
um cunhado dele, a i6o réis, quando se podia obter a 
I20 réis, diz gloriosamente Vandelli acabando por ins- 
tar pela demissão do seu lugar (i). 

De novo foi esta catilinária do Vandelli ao Conse- 
lheiro Procurador Fiscal que aprovou o informe, achan- 
do-lhe razão e opinando que se faça consulta, de tudo, à 
Junta do Comércio. 

O dr. José António de Sá, finalmente, confirmando 
os seus anteriores pareceres, opina que se despeça o 
Paula e Oliveira responsabilizando-o pelos seus crimes 
sem fazer caso da sua antiguidade, ouvindo-o, porém, 
previamente e sendo cometido ao guarda-livros o in- 
quérito, que se deve fazer com vista final ao Conse- 
lho Fiscal. Este parecer é datado de 6 de Agosto 
de i8i8. Em 23 de Setembro a Direcção despachou 
que se ouvisse o Paula e Oliveira e deu ordens ver- 
bais ao guarda-livros para informar se as cumpriu di- 
zendo que os dois lugares, o de Mestre e o de Admi- 
nistrador-delegado da Direcção só se podem manter 
havendo entre eles harmonia (2). 

Agora vai o leitor ver o reverso da medalha. 



(i) Livro 929 de Representações e Consultas — Parecer do 
Administrador Alexandre António Vandelli. 

(2) Infortnação de 14 de Setembro de 1818 — Despacho de aS 
de Setembro de 1918 e Parecer do Conselheiro dr. José António 
de Sá — tudo no Livro g2g de Representações e Consultas. 



— 122 — 



O Mesire — sucessor do dr. Milagres e pintor de 
azulejo — enfia então, em contrapartida, as suas acusa- 
ções ao Adminislradcr. Atacaram seu o crédito, defen- 
de-se. 

Vandelli é de uma incúria inconcebível. Não sabe 
administrar. Os seus conhecimentos são os que os ope- 
rários da fábrica lhe ensinaram. Faz charlatanismo 
com a sciência. Quando não sabe o que há-de dizer 
vem com a química à balha. Os operários e traba- 
lhadores não são forçados nas galés. As suas ideias 
são sempre como aquela de abrir um buraco na abó- 
bada do forno e outro na parte oposta à porta de carga, 
a fim de se diminuir o gasto das lenhas. E um teórico 
cheio de imaginações e de ideias figuradas. Vandelli 
não quere mestre na Fábrica pela mesma razão por que 
Milagres não o quis, para passar por sábio sem que 
ninguém lho conteste. Oliveira faz a sua biografia e 
alega os seus serviços encomiando a louça que produz, 
que já não esboroa como a do Milagres, e que não é ava- 
liada por êle mas pelo público pela aceitação que tem. 
Enumera ainda as obras de azulejo que tem feito e não 
dá mais respostas aos discursos teóricos do Adminis- 
trador (que quere ser senhor absoluto da oficina) por- 
que não tem tempo para desperdiçar (2). 

Vandelli requereu se lhe desse vista da informação 
do Oliveira. Foi-lhe deferido. Examinou-a e respon- 
deu. E um novo ataque a que em parte o Mestre dera 
o flanco alegando em seu favor que, para fazer azulejos 



(i) Informação do Paula e Oliveira, datada de 6 de Novem- 
bro de 1818, no mesmo Livto [)2g. 



— 123 — 

de brutesco era preciso saber desenho, história sagrada, 
vidas de santos, botânica, fábulas e história natural e 
animal dos três hemisférios ! Vandelli aproveita esta 
dos três hemisférios e fulmina-lhe a ignorância. Depois 
cita uma sua dívida à Fábrica de i82íf834 réis do ne- 
gócio do azulejo, acusa-o de alterar preços e pede no- 
vannente escusa do seu lugar, tanto mais que eslava 
muito apoquentado com a perigosa moléstia da mãe. 
Ganha, porém, novos alentos e investe, de novo, com 
_o Mestre que não sabia química e que ainda faz pouco 
do dr. Milagres que ao menos era homem de engenho 
e estudioso. A louça que ele fabrica não se vende e 
não presta, e os armazéns estão cheios. Acaba Van- 
delli por propor que se abatam os preços para revenda, 
que se obtenha um armaze'm Junto ao rio, no meio da 
cidade, que se façam, também, abatimentos aos que 
contratarem vendas com a Real Fábrica, e liberdade de 
venda ambulante com atestado da Fábrica para não se 
enganar o público com a inglesa (i). 

O Conselheiro Procurador Fiscal, examinando de 
novo o pleito, opinou que se aproveitassem a sciência 
do Administrador e a prática do Oliveira, isto é que 
tudo ficasse na mesma. A Direcção foi nas mesmas 
águas, visto que Vandelli não tinha prática e que" o 
mestre não era scientiíico. Acúrcio das Neves deu pa- 
recer isolado. Entende que se admita o Oliveira no 
lugar de Mestre (extinto desde lo de Setembro de 1796) 
subordinado ao Administrador, mas que se acabe com 
o negócio do azulejo, comprando-o fiado e vendendo-o 
a dinheiro (2). 

(i) Parecer da Direcção de 16 de Junho de 1818 e Despacho 
de 27 de Janeiro de 1819 — no Livro 929 de Representações e Con- 
sultas. 

(2) Consulta de 23 de Abril [de 1819, até pág. 149 do citado 
Livro g2g. 



124 



Já por duas vezes se falou no negócio do azulejo e 
vou dizer que negócio era esse. O azulejo do Rato era 
de duas qualidades : o ordinário e o grutesco. O mes- 
tre pagava à fábrica o feitio a 800 re'is o milheiro, e 
esta dava o barro, o vidro, as tintas, cozia-o duas ve- 
zes, e pagava-lhe dois réis por cada azulejo. Pela pin- 
tura do chamado pedra torta (esponjado) o Mestre 
dava à Fábrica três réis, quatro réis pelos de faixa or- 
dinária, cinco réis pelo almofadado, sete réis pelo mo- 
saico (padrão) e, pelo grutesco, vinte e cinco réis. Só 
este, vendi-o o Oliveira a cinquenta e sessenta réis 

Era um bom negócio para êle mas péssimo para a 
Fábrica. Qualquer aprendiz trabalhava no de pedra 
torta escusando-se o pagamento que se fazia. Ainda 
por cima o Mestre, devia-os à Fábrica. 

Era contra isto que não estava de acordo o Director 
Acúrcio das Neves (i). 



O barro para as faianças cujo fabrico era dirigido 
por Paula e Oliveira, continuou, como no tempo do Mi- 
lagres, a vir de Leiria, obtido ali pelo comissário Joa- 
quim José da Rosa Versas, comerciante naquela cidade. 

Em Maio de 1818 estavam lá para vir cerca de 
quatrocentas arrobas, das 16.000 do contrato, que saíam 
aqui a 128 réis cada. Ao Versas cabia uma comissão. 



(i) Informação de Vandelli de 2 de Junho de 1818, no citado 
Livro g2g. 



— Í2D — 

Auxiliava-0 na extracção dos barros o juiz de fora da 
Figueira (i). 

Vandelli lembrou à Direcção que se propusesse ao 
comissário levar, para vender em Coimbra, Figueira e 
Leiria alguma loiça da Fábrica, encontrando-se depois 
a conta com a do barro ou cobrando ele a sua comis- 
são nessa loiça a que daria o abatimento habitual de 
50/0(2). 

Foi aceito, pela Direcção, o alvitre. 



Na Fábrica faltava o espaço para se armazenar 
loiça. A faiança, o «pó de pedrai) e o refugo, tinha de 
estar tudo separado principalmente no período dos ba- 
lanços. Quando se propôs o de 1818 havia muita loiça 
armazenada, mas afinal somente se arrolou, para venda, 
a loiça antiga (3). A chamada de «pó de pedra», tam- 
be'm abundava. Nesse mesmo ano Mateus Pereira Pa- 
checo tornou a requerer a compra de toda essa exis- 
tência a troco de ficar depois dirigindo a Fábrica com 
o interesse que se convencionasse, a-fim-de produzir o 
tal esmalte de ponto mais subido em que êle faiava. 

O aviso da Secretaria do Reino de 22 de Dezembro 
mandou informar a pretenção. Mateus Pereira Pacheco 
visitou a fábaica, mas limitou-se a ver e não falou, 
salvo com o mestre Oliveira a quem perguntou quais 
os barros que se empregavam e quais as misturas que 
se faziam. Ofereceu-se para comprar logo loo^ooo 



(i) Informação de Vandelli de 26 de Maio de 18 18 e de 1 de 
Junho de 1818. 

(2) Idem — Informação já citada e Representação de n de 
Maio de 182 1 {Livro g3o, pág. 41). 

(3) Informação do Administrador de 3 Junho de 18 18. 



,— 126 — 

réis de loiça e que do seu interesse se falaria depois. 
O que ele queria era meter-se dentro da Fábrica e ar- 
vorar-se em dr. Milagres. 

A Direcção, sobre a informação do guarda-livros 
que o acompanhou na visita, informou contra e a Re- 
solução Real foi: — Não há que deferir (i). 



Paula e Oliveira, serenado o temporal com o Van- 
delli, tornou em 1819 a requerer a nomeação de Mestre 
e, ao mesmo tempo, um adiantamento de iSo^ooo réis 
por conta do seu ordenado. A dívida dele à fábrica 
orçava, então, por 533íZí'878 réis de adiantamentos e 
do negócio do azulejo. A Direcção dividiu-se nos pa- 
receres mas afinal (êle tinha padrinho) deram-lhe o 
adiantamento pedido para se descontar no vencimento 
que se lhe viesse a estabelecer. Quanto à nomeação 
de Mestre ficou para segundas leituras (2). 

Em 1820 faz-se-lhe ainda novo suprimento de igual 
quantia (3). 



Vandelli, que estivera ausente da administração de- 
pois da luta com o Oliveira, foi restituído ao lugar, por 
aviso de 17 de Fevereiro de 1820(4). Imediatamente 



(i) Livro gsg de Representações e Consultas — Consulta de 
25 de Junho de 1819, pág. i55 a i56 v.° 

(2) Jdem — Consulta de 17 de Novembro de 1819, pág. 162 v." 
a 16^. 

(3) Livro (J20 de Decretos c Avisos — Aviso de 1 1 de Janeiro 
de 1820. 

(4) Idem — Aviso de 17 de Fevereiro de 1820. 



— 127 ~ 

começou contra este o seu trabalho de sapa. Logo em 
17 do mês seguinte fez uma queixa do Mestre à Junta 
do Comércio, acusando-o de roubos e extravios o que 
motivou uma devassa em que nada se provou. Mais 
tarde arranjou-se a deniincia de dois operários fazen- 
do-se-lhe idêntica acusação que, igualmente, se apurou 
não ter fundamento. A atmosfera estava preparada. 

Na manhã de quatro de Outubro, quando o Oliveira 
ia para a Fábrica, os operários insubordinados não o 
deixaram entrar. Vandelli, já se sabe, não apareceu. 

No dia seguinte o Director Pereira Martim, Depu- 
tado da Junta da Administração, foi à oficina, conse- 
guiu serenar os ânimos e pôr lá outra vez o Oliveira. 

O sossego era, porém, aparente. Daí a pouco todo 
o pessoal requeria, por escrito, a expulsão do Mestre 
acusando-o de ignorância, incompetência e falta de zelo. 
A Direcção requereu a S. M. que o caso fosse exami- 
nado pelo Desembargador-Conservador dos Privile- 
giados do Comércio (i). O apiso de 16 de Abril de 
1826, resolveu o assunto despedindo o Paula e Oliveira, 
e o de 7 de Maio de 1822 proibiu a Direcção de no- 
mear outro sem a aprovação do Deputado em Cortes 
Tomé Roiz Sobral (2) que estava nomeado Superinten- 
dente ou Inspector da Fábrica, embora Vandelli per- 
manecesse na administração. 

Bem era precisa qualquer superintendência. A 
Fábrica estava desorganizada, indisciplinada e numa 
manifesta decadência industrial. Até 1820 dera um 
prejuízo de 15.78055^000 réis; em 182 1 gastaram-se em 



(1) Livro Q2g de Representações e Consultas — Representação 
de 6 de Outubro de 1820, pág. 199 a 199 v.° e Livro §20 de De- 
cretos e Avisos — Aviso de 16 de Abril de 1921, pág. 33 v.° 

(2) Livro g3o de Representações e Consultas., pág. 53 v.° a 53 
— Consulta de 22 de Agosto de 1821. 



_ 128 — 

dezanove fornadas 6.o5oí&ooo réis, tendo estas apenas 
valido pouco mais de metade (S.SSõciíiôoi). As vendas 
não passavam de 4.1605^811 réis. O cofre da Fábrica 
das Sedas estava cansado de socorrê-la e a Direcção 
cada vez mais se apegava à ideia de que o reme'dio 
era vendê-la ou passá-la a um particular (i). 



Parece que acudindo a este pensamento apareceram 
então duas propostas-requerimentos : o do fabricante 
portuense Inácio Pereira Guimarães e o do fabricante 
lisboeta Vicente José. 

O primeiro que viera de propósito a Lisboa para 
aqui fundar outra fábrica, pede para que se lhe entre- 
gue a do Rato nas mesmas condições em que a teve 
Sebastião Inácio de Almeida por contrato de 19 de 
Dezembro de 1777; o segundo requere igualmente para 
ser mestre, documentando a sua longa prática de 40 
anos. Esta tem a data de 21 de Janeiro de 1822 e o 
outro de Agosto de 1821. 

O dr. Sobral e Vandelli, ouvidos sobre os dois re- 
querimentos, informaram mal, avançando o primeiro a 
dizer que a entrega da Fábrica ao Vicente José era o 
primeiro passo para a ruína. No indeferimento da pe- 
tição de Pereira Guimarães diz-se que muito há a espe- 
rar da sciêuciã e das virtudes cívicas do Sobral, a 
quem então se chamava o Chaptal português (2). O 



(i) Livro g3o de Representações e Consultas, pág. 53 v." a 38 
— Consulta de 22 de Agosto de 1821. 

(2) Livro 3." n.° g3o — Consulta de 3i de Agosto de 1821, 
de 8 de Outubro de 1821 e de 21 de Janeiro de 1822, pág. 67 a 
67 v.°, 59 v.° a 60 V." e 84 a 85 — Livro gio de Decretos e Avisos 
' — Portaria de 3o de Outubro de 1821, pág. 52. 



— 129 — 

dr. Tomás Roiz Sobral era lente de química em Coim- 
bra e veio para a Fábrica {Portaria de i3 de Março de 
1821) na intenção de remodelar tudo quanto dissesse 
respeito à parte scientífica do fabrico, estudando pre- 
parações de barros e vidrados, etc. Alguma coisa fêz, 
mas foi bem pouco para o que se esperava. 

O combustível empregado nos fornos era mato, que 
se cortava das coutadas nacionais, adicionado de carvão. 
Sobral passou a usar lenha de fachina comio Vandelli 
já tinha proposto, sem resultado, à Direcção (i). Para 
o vidro inventou um engenho de moer que foi cons- 
truído e montado na fábrica pelo mestre das Águas 
Livres em Novembro de 1828, depois de várias tenta- 
tivas inúteis, uma das quais foi a do mecânico António 
Schiappa Pietra que orçou em i5oíí:ooo tal trabalho 
e que, a-pesar-de ser hábil em maquinismos e de ter 
montado alguns nas serralharias de Pernes e Alcobaça, 
parece não se ter entendido com este. Outro engenheiro 
que lá foi não obteve melhor resultado, nem também 
Pedro Celestino Soares, brigadeiro, comandante inte- 
rino de S. Julião da Barra, nomeado por Portaria de 
i3 de Fevereiro de i823 para essa diligência (2). Em 
resumo o engenho nunca chegou a funcionar. 

Para aperfeiçoar a loiça mandou, em 1822, ao ope- 
rário oleiro Salvador Luís, que fora moço e depois 
avaliador da loiça do dr. Milagres, estudar misturas 



(i) Livro 3." ii.° g3o, pág. 84 a 85 — pág. 47 a 47 v.» {Con- 
sultas de 22 de Junho de 1821 e 21 de Janeiro de 1822)- Livro 920 
de Decretos e Avisos — Aviso de 26 de Junho de 1821, pág. 38 v.° 
a 3g. 

(2) Livro gSo de Representações e Consultas — Representações 
de II e 3i de Janeiro de 1823, pág. 127 e 129 v.** — Livro 920 de 
Decretos e Avisos — Portaria de i3 de Fevereiro de 1823, pág. jS 
\.° 676 — Livro Q4i de Ordens — Ordem de 1 5 de Novembro de 
1823, pág. 83 v.° e ordem de 25 4e Fevereiro de ^823, pág. 92 y." 
VoL. IV 91 



— i3o — 

com os barros de Cascais» e chamou o bacharel Fran- 
cisco Tomás da Silva Franco para fazer outros en- 
saios pelos quais lhe conseguiu uma gratificação de 
72;Zí)ooo(i). 

Nesse ano de 1822 também foi nomeado para aju- 
dante da Administração, com o ordenado de 120^^000 
anuais, Francisco António de Albuquerque Sobral, pos- 
sivelmente parente do Superintendente, o que, como 
sabemos, era pecha velha no Rato, desde o tempo de 
Brunetio (2). 

Vandelli, neste período, também quis fazer expe- 
riências com os barros de Molelos e mandou-os vir. 

Tenho entre os meus papéis uma carta-ofício assi- 
nada por Luís de Sequeira Oliva, sem data, dirigida a 
não sei que entidade, para que esta se dignasse mandar 
ao Jiiii de Fora de Tondella para que lhe remetta três 
ou quatro arrobas de barro tal e qual os oleiros de 
Mulellos fabricão os Bulles de chá que sai de hum barro 
preto e lusidio e de aspecto metálico por fora. 



A crise, a-pesar-dos esforços do Sobral, continuava. 

Os inventários acusavam muita loiça defeituosa. Os 
operários desleixavam-se e abusavam, utilizando as ca- 
valgaduras da Fábrica em serviços particulares (3). O 
Inspector teve de prover ás numerosas faltas ; castigou 



(i) Livro 920 de Decretos e Avisos^ pág. 52 v." — Portaria áo 
16 de Novembro de 1821. 

(2) Livro g3o — Consulta Je 2S de Agosto de 1822, pág. 108 
v.o a 109. 

(3) Livro Q4i-2.° de Ordens — Ordens de 18 de Dezembro de 
<8?2 e u de Fevereiro de i823, pág. 88 v.°, 89, 90 e 90 v.° 



— i3i ~ 

os artífices, suspendendo o oficial da roda João Clí- 
maco Ramos, que esteve fora do serviço três meses (i); 
mandou apartar loiça para avaliação e inventário para 
leilão e dar trabalho por empreitada ; autorizou estas 
vendas pagando-se os lotes com títulos da dívida pú- 
blica e cédulas do Montepio (2); determinou o abati- 
mento de 2 % nas vendas feitas na fábrica e seus 
armazéns até loííooo; ordenou várias obras; estabe- 
leceu para a loiça preços iguais aos das fábricas par- 
ticulares (3); organizou um aRegulamento Interno» para 
a Direcção dos trabalhos fabris ; e aumentou salários 
ao pessoal que o merecia, passando, assim, os pintores 
José' Alexandre e Filipe Maria e os oleiros João da 
Costa e José Maria a vencer, respectivamente, 52o, 
340, i!tt)Ooo e 320 réis em vez de 480, 32o, 900 e 280 
réis (4). 

O resto do pessoal da Fábrica era, além do João 
Clímaco Ramos e do Salvador Luís (que era o avalia- 
dor), o apartador Fernando António, o escriturário Fi- 
lipe José dos Santos, o caixeiro Estêvão António, dois 
forneiros e dois oficiais de aviamento. 



(i) Livro g4i-2'' de Ordens, Ordem de 27 de Agosto de 1824, 
pág. 116 e de 26 de Novembro, pág. 120. 

(2) Jdem — Ordens de 7 de Fevereiro 14 de Março de 1823, 
92 v.o — Livro g20 de Decretos e Avisos — Avisos de 12 de Agosto 
e 3 de Outubro de 1823, pág. 92 v." e 97 — Livro g3g, pág. i56 — 
Consulta de 4 de Agosto de i823. 

(3) Ordens de i5 de Janeiro, 18 de Maio e 11 de Julho de 1823, 
pág. 59 v.", 60 v.°, 61, 62, 63, 63 v.", 64, 77 v.», 90 v." e 96 v.», do 
Livro g4i — Livro g20 de Decretos e Avisos — Portaria de 7 de Ja- 
neiro de 1823 pág. 74. 

(4) Livro g20 de Decretos e Avisos — Portaria de i Agosto 
de 1822, pág. 64 v.° e portaria de aS de Junho 1821, pág. 39 v." — 
Ordem de 3 1 de Pçzembro de 1823, pág. 102 do Livro g4i d^ Or- 
dens. 



- l32 — 



Vandelli e Sobral empenharam-se muito em conse- 
guir que a Fábrica tivesse um armazém no centro da 
cidade para venda da loiça. Puseram, as vistas num da 
rua de Arsenal 64 e noutro da rua Bela da Rainha, do 
lado oriental, no quarteirão que virava para o Terreiro 
do Paço, onde se vendiam os diários das Cortes (1824). 
Também pensaram em qualquer loja na Ribeira Velha 
ou na Ribeira Nova, 

A Direcção da Fábrica das Sedas oficiou ao Inten- 
dente Geral das Obras Públicas para facilitar a cedên- 
cia. Em 1822 foi cedido o da rua do Arsenal e em 24 
o da rua Bela da Rainha, que foi o que definitivamente 
ficou para a venda da loiça (i). 



A-pesar-do plano de economias, mandado fazer por 
aviso de 24 de Maio de 1823(2), a crise crescia. A 
perda das «fornadas» era freqiiente. A de 27 de Ja- 
neiro desse ano até se desconfiou que fora propositada 
e teve de se mandar averiguar das suas causas (3). 

Em Abril tinha-se vendido quási toda a loiça e a 
Comissão Directiva da Real Fábrica das Sedas arrumava 
o assunto quando de siíbito aparece um aptso do Cor- 



(i) Livro g20— Aviso da 6 ds Ahril de 1824 e portarias de 
I e 26 de Agosto e 2 Outubro de 1822, pág. 64'%'.°, 67 v.", 68 v." 
e I loj— Livro g3o de Representações e Consultas, pá^. 104 a 104 
v.o, 106 v.", 1 10, 147 e ig5 v.° e 196. 

(2) Idem, pág. 84 v.° — Aviso de 24 de Maio. 

(3) Livro g4i-2.'' de Ordens, pág. 79 e 9-. 



— i3^ — 

f€gédof do Crime do Bairro-Alto para que no dia 17 
de Abril se achasse na Fábrica do Rato o Administra- 
dor, a-fim-de se proceder ao arrolamento de tudo para 
venda. Os da Comissão ficaram abismados (i) porque 
não sabiam que a venda da Fábrica estava resolvida 
por portaria de i5 de Abril. 

Estabeleceu-se o pânico. Todas as informações 
passaram a ser boas. A Comissão Directiva e Van- 
delli esforçaram-se por demonstrar que a líltima for- 
nada da loiça de pó de pedra saíra perfeita pelo auxí- 
lio de hum homem de quem se não fa^ia n outro tempo 
caso algum e enviaram amostras a Sua Alteza Real (2). 

A Consulta de 6 de Agosto rejubila por se ter re- 
solvido conservar de novo a Fábrica e diz que há me- 
lhoria no fabrico, acrescentando estas palavras : — por se 
achar já este ramo de industria elevado já a um grande 
auje{\ 1) (3). 

Tudo isto era fictício e destinava-se a Justificar o 
suprimento de quatro contos pelo Cofre do Real Erá- 
rio que se solicitava e por que se instara em consulta 
de 23 do mesmo mês, alegando a Comissão que o Co- 
fre das Águas Livres Já dera 2.725^5)487 e que era ne- 
cessário e urgente indemnizá-lo (4). 

l Como se dera o milagre de tal ramo de indústria 
se ter elevado a um grande auge, e quem era o artí- 
fice que conseguira tornar perfeita a última fornada ? 

Este operário era o Salvador Luís, moço e avalia- 



(i) Livro g3g de Representações e Consultas^ pág. i34 e pág. 
124 a 125 — Consultas de 18 de Dezembro de 1822 e 16 de Abril 
de 1S23 — Livro 920 de Decretos e Avisos, pág. 76 v..°^e 78. 

(2) idem — Consulta de 9 de Maio de 1823, pág. i36 v.» 

(3) Idem — Consulta de 6 de Agosto de 1S23, pág. 157 v.° e 
Livro g20 de Decretos e Avisos, pág. 92. 

(4) Idem — Consulta de 23 de Agosto de 1828, pág. iSg v." , 



— t34 — 

dor do Milagres, perito e feliz na combinação dos bar- 
ros, e que conseguira com os de Rana e de Cascais 
fazer misturas com o de Leiria que resultaram exce- 
lentes. 

As amostras que a Comissão enviou a Sua Alteza 
Real eram desta fxiistura, e em face delas resolveu-se 
continuar com a manufactura, recomendando-se econo- 
mia ao Administrador(i) e ficando Salvador Luís a di- 
rigir o fabrico da loiça que chamavam de pó de pedra. 



Nesta altura renasceu a questão Vandelli-Paula e 
Oliveira. Em fins de 1828 este reclamou 'contra a si- 
tuação em que se encontrava, expulso da Fábrica. 

A Comissão mandou-se informar por afiso de 19 
de Novembro tal reclamação, e, como demorasse esse 
parecer, o antigo Mestre, em 3o de Janeiro de 1824 
solicitou se lhe apresentassem as devassas feitas quando 
da sua expulsão, para se conhecerem os verdadeiros 
culpados. Queixando-se de que desdeiôde Abril de 1821 
se acha fora do seu lugar, reedita a história já conhe- 
cida, a animadversão do Vandelli, e diz que os seus 
denunciantes foram José António de Araújo, Manuel e 
Francisco Dias Viana e que os cabeças de motim tinham 
sido os caixeiros Filipe José dos Santos, Estêvão Antó- 
nio e o apontador Fernando António. A Direcção in- 
forma bem a pretenção, fala na dívida dos azulejos e 
prescreve-lhe o salário de i!tt>ooo réis, visto nada se 



(i) Livro g4i de Ordens, pág. 89 v.°, 90, 1 18 v.» — Ordem de 
24 de Dezembro de 1822 e 22 de Outubro de 1824 e Livro g20 de 
Decretos e Avisos, pág. 80 — Portaria de i5 de Maio de 1823. 



- i35 — 

ter provado contra o requerente (i). Paula e Oliveira 
acabou por ser reintegrado por ordem de 25 de Abril 
de 1824(2). 

Pouco depois, di portaria de 21 de Julho extingue o 
lugar de Administrador (3). Vandelli reclamou, mas 
nada conseguiu. O lugar de Inspector já também tinha 
acabado por aWso de i3 de Abril (4). 

Depois do aviso de 18 de Junho, a Contadoria en- 
trou a fazer o apuramento de contas, tendo-se achado 
ao Administrador um alcance de i.go8í!l)oi2 réis. Por 
outro aviso de 29 de Julho mandou-se ouvir a Direcção 
sobre as queixas de Vandelli (5). Já cinco meses antes 
esta quisera que o Administrador a informasse miuda- 
mente e mandara fazer um inventário geral com a sua 
presença para que a responsabilidade fosse a quem de 
justiça. 

Vandelli exime se à prova. Deu-se o prazo de oito 
dias e o Inventário fêz-se sem êle, que nem sequer o 
assinou. O prejuízo apurado foi, então, de 28.890^^019 
réis (6). 

Com estes elementos é que a Direcção informou, 
historiando outra vez a falência da sua técnica scien- 
tífica, as perseguições ao Mestre e pondo em relevo o 
carácter de molície, o feitio de denunciante, e a trapa- 



(i) Livro g3g de Representações e Consultas, pág. 186 a i8g 
V.» — Consulta de 3o de Janeiro de 1824 — Livro 920 de Decretos 
e Avisos — Avisos de 19 de Novembro de 1823 e lo de Fevereiro 
de 1824, pág. loi e 106 v.° 

(2) Livro g4i de Ordens, pág. 107 v.° 

(3) Idem, pág. iia v.° 

(4) Livro 920 de Decretos e Avisos — Aviso de 1 3 de Abril, 
pág. iio v.° 

(5) Idem, pág. 11 5. 

(6) Livro g3g de Representações e Consultas — Consulta de 
3o de Janeiro de 1824, pág. 229 v.° a 236. 



— i36 — 

cisse de Alexandre António Vandelli ! Daqui e' que re- 
sultou a extinção do lugar (i). 

Em i3 de Dezembr© ainda Vandelli requereu que o 
eximissem de toda e qualquer responsabilidade. Não 
foi atendido (2). 



Em 1824 apareceram mais dois pretendentes à Fá- 
brica do Rato. Em Maio foi um tal João António Pais 
do Amaral que pretendia ser nomeado Inspector e em 
Setembro, Carlos Maria Biffignandi, que queria ser Ad- 
ministrador. A Direcção mandada informar por apiso 
de 2 de Setembro, só em 17 de Outubro informou e 
mal, lembrando que o pai do requerente Carlos Maria 
Biffignandi, lhe dera que fazer e que este também não 
era de recomendar. A Reai Resolução de 22 de No- 
vembro indeferiu a pretenção(3). 



No princípio de 1825, por apiso de 9 de Fevereiro, 
foi mandada pronunciar-se a Direcção da Fábrica so- 
bre os seguintes quesitos : 

i.° (T Quanto pessoal deve manter-se na Fábrica e 
quais os seus vencimentos ? 



(1) Livro g2g de Representações e Consiillas — Ordens de 20 
de Fevereiro, 28 de Abril e 5 Miiio de 1824, no Livro g4i de Or- 
dens, pág. 104 v.o, io5 V.», 108 v.° 109 V." 

(2) Idem — Ordem de i3 de Dezembro, pág, 104 v." 

(3) Livro 929 de Representações e Consultas — Consulta de 
3 de Novembro de 1824, pág. 236 a 237 v.° 



-i37- 

2.° i Onde se deve empregar acabando a manufac- 
tura ? 

3.° ^ Pode ainda conservar-se a oficina? 

Havemos de concordar que as preguntas estavam 
bastante mal feitas e pessimamente formuladas. 

Os Directores dividiram-se em opiniões. Sales (Joa- 
querie de Sales) era contra o acabar da Fábrica. Um 
estabelecimento novo pede sacrifícios e a Fábrica fora 
útil ao país, onde só se produzia a loiça grossa das ola- 
rias e Mocambo. Em i8i5 as despesas tinham-se equi- 
librado com as receitas e o prejuízo que se calculou 
até 1S14 foi exagerado. Em seu entender deve aper- 
feiçoar-se a loiça e mandar vir de fora, de Inglaterra 
talvez, um mestre hábil. É preciso substituir o actual 
Mestre, fazerem-se quatro fornadas por mês, mandar 
vir perito para os barros, reduzir jornais, avaliar bem 
a loiça e administrar melhor ainda. 

O dr. Francisco José Vieira revolta-se contra o seu 
colega Sales, que sabia do caso há muito tempo e quere 
aparentar ter feito o parecer de improviso. Diz saber 
que o Marquês de Palmela está tratando de aliviar a 
Fábrica da Seda da oficina do Rato. O voto do Sales 
era para dilatar a resolução e ele ter tempo de poder 
dar conta dos serviços a seu cargo que andavam atra- 
zados. E de parecer que a Fábrica acabe, a não ser, 
diz êle, que Sua Majestade queira conserrá-la como 
estabelecimento de caridade. Com o dr. Vieira assina- 
ram este parecer os outros Directores Barbosa de Amo- 
rim e Pereira Martim (i). 



( i ) Livro 927 de Decretos e Avisos — Aviso de 9 de Fevereiro 

de 1825, pág. II v.° e 17 v.*> 



[38 ^ 



Neste ano foi nomeado Superintendente da Fábrica 
o, então, brigadeiro Francisco António Raposo, um dos 
autores do projecto de 1814, sobrinho do Tenente Ge- 
neral Bartolomeu da Costa, que voltara do Rio da 
Prata e a quem se entregaram os destinos dos fornos 
de Brunetto (i). 

Como se vê, foi o parecer do Director Jacquerie 
de Sales o que prevaleceu. A Fábrica ainda havia de 
durar mais dez anos. 

Acúrcio das Neves, em 1826, regozijara-se pela en- 
trega do estabelecimento ao Raposo, em cuja perícia e 
saber confiava e atribui todos os desastres e prejuízos 
às experiências de Milagres, de Vandelli e de Sobral, 
cuja teoria e sciência não fizeram senão mal à Fábrica. 

E também seu parecer que se contrate no estran- 
jeiro um mestre hábil. Desta forma a loiça poderá 
aperfeiçoar-se e dar lucro. Sales entendia que a Fá- 
brica não podia pagar ao Raposo o que a este convi- 
nha, e torce o nariz à continuação da oficina porque 
o tempo é outro. Ele é que era de força. Amorim e 
Rodrigues Ferreira opinaram que se passasse a Fá- 
brica a um particular, deciarando-se fartos de experiên- 
cias (2). 

A-pesar-de tudo o brigadeiro Raposo continuou su- 
perintendendo até 27 de Fevereiro de 1829. Nesta data 
foi nomeado Administrador. Logo se dirá de sua 
acção. 



(1) Livro g42-3.° de Ordens, pág. ig v." 

(2) Livro 929 de Representações e Consultas — Representação 
de 22 de Novembro de 1826, pág. 91 a 92 v." 



— 1^9 — 



l Lembra-se o leitor daquele engenho de moer o 
vidro inventado pelo Sobral que nunca se conseguiu pôr 
a andar ? 

Pois neste ano de 1826 apareceu um qiiidam, João 
Baptista de Andrade, que se propunha por 3ooíí)000 
réis construir outro engenho idêntico para moer o vi- 
dro e as tintas. 

A Direcção, sempre desconfiada com os inventores, 
chamou o Mestre das Águas Livres, que foi examinar 
um moinho idêntico que funcionava na Fábrica da Rua 
da Santíssima Trindade. Achou-o melhor que o do 
Rato (pudera!), mas diz que não valia os Soo.jíooo réis, 
e lembra que se modifique o do Rato para ser movido 
pelo vento, como este, mas que não era preciso a in- 
tervenção do suplicante (i). 



Salvador Luís, o artista que achara a combinação 
feliz das argilas de Leiria com as de Rana e Cascais, 
inchara com a descoberta e ninguém o podia aturar. 

Readmitido por aviso de 7 de Outubro, depois da 
expulsão pela grossaria que fizera (2) em face do pare- 
cer da Direcção, todo êle se pavoneava, alegando que 



(i) Livro 929 de Representações e Consultas — Consulta de 
6 de Maio de 1825, pág, 24 v.°a a 25 v.» — Livro g2i de Decretos 
e Avisos — Aviso de 16 de Março de 1825, pág. 8 v.° 

(2) Idem — Consulta de i de Julho de 1825, pág. Sg v." a 
42 v." 



i^ 140 — 

tinham sido da sua autoria as peças enviadas em 1823 
a D. João VI, para o Rio de Janeiro. Além destas pe- 
ças eram também das suas mãos o busto de D. João VI 
feito em 1824 para ser posto no Anfiteatro de Física 
e Química da Casa da Moeda e que o aviso de 3i de 
Agosto desse ano mandou entregar a Luís da Silva 
Mousinho de Albuquerque, Procurador da Casa da 
Moeda (i). 

Em 1826 houve uma grande encomenda de estátuas, 
grupos, vasos, etc, para adorno da Quinta Real e Im- 
perial da Bela Vista no Rio de Janeiro. Foi esta em 
Abril, e era Aragão Morato quem fazia a encomenda 
por intermédio do negociante Ferreira Garcez e em 
nome do Infante Regente. 

A Direcção da Fábrica afadigou-se logo em que ela 
se executasse com todo o preceito e lembrou que se 
encarregassem os lentes de Desenho e Escultura de 
dirigirem os trabalhos que seriam executados pelos seus 
discípulos. 

Assim se fez e, por aviso de 7 de Novembro, or- 
denou-se ao Director da Aula, João José Ferreira de 
Sousa, a direcção dos desenhos, muito embora o Jac- 
querie de Sales já tivesse cometido essa superintendên- 
cia, em Outubro, ao Professor Faustino José Rodri- 
gues, conforme consta da Representação de 25 desse 
mês (2). 

Quem ainda executou estas peças na Fábrica foi o 



(i) Livro g20 de Decretos e Avisos^ pág. 1 16 v.° e 118— avi- 
sos de 3i de Agosto e t3 de Setembro e ordem de i5 de Setem- 
bro de 1824.. 

(2) Livro 929 de Representações e Consultas — Representa' 
ções de 6 de Setembro e de 25 de Outubro, pág. 85 a 85 v.° e 89 
a 89 v.° e Livro 92/ de Decretos e Avisos — Avisos de 14 de Abril 
e de 7 de Novembro, pág. 35 e 36 v." 



— 141 — 

Salvador Luís. Quando este estabelecimento acabou, 
era êle Mestre da Roda. 

O Paula e Oliveira é que não viu com bons olhos 
a readmissão e a prosperidade do oleiro, e reclamou 
contra ela, alegando, o que era falso, que êle fora ex- 
pulso por um alcance nas contas. A Direcção não lhe 
deu razão. Eram todos bons camaradas como se está 
vendo (i). 



Em 1825, 26 e 27 fizeram-se vários leilões, abaten- 
do-se os preços. Os bules venderam-se a 25 réis e 
doze chícaras a 3o réis. Em vez de dinheiro de con- 
tado recebiam-se títulos de crédito (2). A Fábrica ia 
de mal a pior. O armazém da Rua Bela da Rainha 
fechou no meado de 1828 (3). 

Quando em 1829 o brigadeiro Raposo foi nomeado 
Administrador, mandou-se fazer um inventário geral e 
um apartamento de loiça (4), mas essa administração 
foi sol de pouca dura. O Raposo, que era miguelista, 
não se aguentou nem no balanço político nem no ba- 
lanço da Fábrica, e em i833 saía deixando a oficina 
do Rato em estado deplorável. 



( i) Livro g2g de Representações e Consultas — Consulta de 3o 
de Maio de 1827, pág. 106 v." a 108 v.° e Livro 92/ de Decretos e 
Avisos — Avisos de 29 de Dezembro de 1826 e de 19 de Abril de 
1827, pág. 39 v." e 44. 

(2) Livro g42-3.° de Ordens, pág. 48, i23, i23 v.°, 124 e 137 — 
Ordens de 1825 e Livro 92/ de Decretos e Avisos, pág. 45 v.° — 
Portaria de 1 1 de Maio de 1827. 

(3} Jdem — Portaria de 2 5 de Junho de 1828, pág. ôt v." 

(4) Livro g42 de Ordens, pág. 19 v.^ 



— 142 — 



Em 1826 ainda houvera outra tentativa de trespasse 
da Fábrica. Requerera-a um tal António Mozer. A 
informação mandada prestar por aviso de 9 de Março> 
não animou a Junta a dar-lhe resolução favorável (i). 



(i) Liivrõ (j2i de Decretos e Avisos, pág. 2G v. 



CAPITULO VII 



Sumário : A administração do Brigadeiro Francisco António Ra- 
poso — Experiências infelizes — A Fábrica do Rato em ruína 
— Citam-se as suas instalações — O novo Administrador Tei- 
xeira Girão — Quem era este sujeito — As suas opiniões so- 
bre a Fábrica — Uma aula de Química e outra de Desenho — 
PropÕe-se um professor e um compêndio— A sua receita quanto 
a um novo «^biscoito» — O estado precário da oficina — Obras e 
despesas — Citam-se alguns artífices e empregados — O Mes- 
tre de pintura Joaquim José Guimarães — Sucede na Admi- 
nistração Francisco António Chaves — Reduções de despesas 
e de pessoal — Economias e mais economias — Vai a Fá- 
brica à praça em i835 e acaba o estabelecimento — Ci- 
tam-se algumas fábricas de loiça em Lisboa — As desco- 
bertas de Bartolomeu da Costa, de Drouet e de Brocard — 
José Manso Pereira faz experiências com a «Tabatinga» — 
As peças atribuídas a Bartolomeu da Gosta — O serviço de 
chá da Exposição de Cerâmica do Porto em 1882 — A bai- 
xela da inauguração da estátua equestre — Outra baixela de 
porcelana, alegórica — A loiça do «Ratinho» — Acaba o ca- 
pítulo com uma transcrição da Cerâmica Portuguesa de 
José Queirós. 

A administração do Brigadeiro Raposo, apreciada 
pelo seu sucessor, embora se lhe dê o desconto natural 
devido a inimizade política entre os dois (Raposo era 
miguelista e Girão um liberalão dos quatro costados) 
não devia ter sido famosa. Francisco António Raposo, 
a-pesar-de ter recebido no Terreiro do Trigo (Minis- 
tério do Reino) do Leite de Barros, a quantia de réis 
Sooíiííooo (Girão diz uns poucos de contos) para a ma- 
nufactura do Rato nada fêi com esse dinheiro do qual 



— 144 — 

nunca deu contas a ninguém. A única obra que dei- 
xou foi a Roda do Laboratório para a Casa do Torno 
a-fim-de ocultar os alegados segredos de fabrico que 
nunca existiram. Prometera ensaiar o fabrico da por- 
celana e de loiça semelhante à inglesa que aprendera 
com seu tio o Tenente General Bartolomeu da Costa 
e só fez chícaras que Girão diz serem inferiores às da 
fábrica dos Pinto Basto e uma faiança de que se des- 
pegava o vidrado, estalava com a água quente e até 
itiesmo com o ar frio de uma janela. Emquanto o Bri- 
gadeiro esteve à frente da oficina nunca se fêz o apre- 
goado pó de pedra, nem deixou ^coaduras. Os operá- 
rios, mais antigos e sabedores, despediu-os. 

Quando o Teixeira Girão recebeu dele a Fábrica, 
fêz-se um inventário, após uma série de leilões onde 
se vendeu tudo por baixos preços. O refugo foi todo 
em padiolas para umas casas arruinadas, que perten- 
ciam à Fábrica, na Travessa da Fábrica dos Pentes, 
onde o Teixeira Girão ainda foi salvar algumas peças 
de escasso valor. Nesse inventário, por exemplo, cinco 
bois que deviam lá haver, foram substituídos por uma 
barrica de potassa, uma porção de barro de Leiria e 
dos Prazeres, o armário dos vidros e outras miudezas. 

Nem as formas de gesso que a Fábrica tinha foram 
encontradas. Umas foram dadas pela Direcção extinta, 
outras partidas. 

Tinas, caixas e utensílios tudo estava feito em ca- 
cos. Dentro da oficina, por ruína do telhado, chovia 
como na rua; a parede para a rua do Arco das Aguas 
Livres ameaçava cair ; os soalhos estavam esburaca- 
dos, e foi necessário fazer obras urgentes de reparo e 
consolidação. 

Segundo a Memória de Teixeira Girão (i) a Fá- 



(i) Memória sobre o estado em que se acha a Fábrica da Loiça, 



— 145 — 

brica de Loiça do Rato, tinha casa para a lenha, abe- 
goaria com palheiro, muitos e grandes fornos, casa do 
tôrno e estufa, embora imperfeita, para as formas, tan- 
que de coaduras, enxugadouro, casa da pintura, gabinete 
para guardar peças delicadas, armazém para areia, 
armazém de loiça, estendedouro, sala para aula e la- 
boratório. 

António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira Girão, 
depois Visconde de Vilarinho de S. Romão, era escri- 
tor versado em assuntos económicos, literários e artís- 
ticos. Traduzira o Lutrin de Boileau e escrevera um 
livro sobre a cultura das batatas, outro sobre culiná- 
ria, um tratado sobre os fogões de sala, artigos sobre 
viticultura e umas «Reflexões críticas e artísticas sobre 
a edificação do novo teatro português denominado da 
Glória» (antigo D. Maria II). 

Era um espírito de aptidões complexas. A admi- 
nistração da Fábrica da Loiça apanhara-o de surpresa. 

Pouco lá se demorou, pois no final de i833 partia 
a ocupar o seu novo e honroso emprego^ como êle 
mesmo diz. O emprego era o de Prefeito de Trás- 
-os-Montes. 

As suas opiniões sobre a manufactura do Rato com- 
pendiam-se em dois ofícios por êle dirigidos ao Minis- 
tro do Reino Cândido José Xavier e que por cópia se 
acham apensos a uma consulta da Direcção da Fábrica 
das Sedas (1). O primeiro ofício, datado de 28 de 
i833, vou extractá-lo. 

Começa por confessar ter remorsos de algum dia 
ter dito que se vendesse a Fábrica. Os princípios eco- 



sita no Rato, e melhoramentos que vai tendo — Livro g32-5.° de 
Representações e Consultas, pág. 1 3 a 1 5 v.° 

(i) Livro g32-5.'' de Representações e Consultas, pág. 3 v.", 4 
e u a i3, 

VOL. IV 10 



— 146 — 

nómicos tinham-no enganado. Os fornos acesos não se 
devem vender. Fala na falta de água e sugere que se 
remedeie não dando a particulares a do chafariz do 
Rato. Em seu entender a Fábrica tem sido mal admi- 
nistrada e dai é que vem a sua decadência, a falta de 
barros, de loiças, de formas, e a ruína do edifício. Pre- 
fere que se arraze, mas que não se alugue. 

O segundo ofício, de 18 de Outubro, é em resposta 
à consulia que lhe fizeram sobre o destino a dar à 
oficina. Depois de citar os economistas e de trazer à 
balha o preço das sedas no tempo da Imperatriz Teo- 
dora, e a escolha por Júlio César, num opulento espó- 
lio, apenas de um copo de porcelana transparente, cor 
de flor de pessegueiro, condena a vinda ao país de mes- 
tres estranjeiros que nada ensinam, como aconteceu com 
o alemão Haas, que veio para a Cordoaria e com os Pie- 
iras em Pernes, e entende que a Fábrica se conserve, 
devendo criar-se um laboratório para análise dos bar- 
ros dos arredores, das areias da Coina, do quartzo de 
Sintra, do espato fusível da Serra da Estrela, das ar- 
gilas de Leiria e de Loures, do manganês de Coimbra, 
da pederneira do Cabo de S. Vicente para fabricar 
escamas de cobre, das cinzas para a pintura e esmalte, 
etc. 

É igualmente preciso estabelecer uma aula de quí- 
mica para os operários da Fábrica e rapazes da Casa 
Pia. 

Há no Rato uma boa sala que pode servir, assim 
como há um bom local para laboratório. Lembra que 
está em Lisboa um bom químico francês, que tem o la- 
boratório junto do Jardim de Roberto Ynnes e se chama 
Mr. Lavitte. Fala português e exerce a medicina. 
Talvez se devesse aproveitar para professor dessa 
aula ajustando-se por Goo^íjooo rçis. Pensa que êle 
conseguirá tirar lucros. 



— 147 — 

Teixeira Girão acaba o ofício por se documentar 
perante a Direcção, como tradutor da Química de 
Payen, trabalho que fêz emquanto esteve emigrado 
adicionando-lhe novos conhecimentos das químicas de 
Thompson e Desmarets, e oferece-o a Sua Majestade 
Imperial para uso dos alunos dessa aula, solicitando a 
impressão do manuscrito e a litografia das estampas. 

Os barros que se usavam no Rato — diz êle na sua 
citada Memória — eram o barro vermelho do Cole'gio 
dos Nobres, o dos Prazeres, o de Rana (Cascais) e o 
de Leiria. Ele propunha-se ensaiar um biscoito rijo 
como o bronze que recebia o vidrado e resistia à água, 
ao calor e ao frio. 

A sua receita era : — partes iguais do barro do Co- 
légio dos Nobres e dos Prazeres, a que se juntavam res- 
tos de coadura de pederneira e depois barro de Leiria. 
Dava uma loiça semelhante à inglesa (pó de pedra), finís- 
sima. Teixeira Girão ainda em i833 construiu um 
forno de ensaio que exigia menos calor, mas ignoro se 
chegou a produzir algumas peças do seu invento. O 
que fêz realmente foi um bom tejolo. Não era isso, 
porém, o que se pretendia. 

Os «teóricos» é que foram a desgraça da oficina 
do Rato. 



O estado precário da Fábrica consta da portaria 
de 3 de Setembro de i833 e das ordens de 20 e 23 de 
Agosto de i832(i). O armazém da Rua Bela da Rai- 
nha fechara em Setembro de i83o para liquidar a conta 
do caixeiro Francisco Luís Chaves que fora despedido 



(1) Livro g42 3." de Ordens, pág. 75 v.° e Livro 922 de De- 
cretos e Avisos pág. 5 v." e 6, 



— 148 — 

e que afinal veio a ser readmitido por ordem de 20 de 

Agosto de i833(i). As despesas feitas, antes, em 
obras indispensáveis, subiram a 2.667ítioo réis, sem 
faiar nos tais Sooíí&ooo réis recebidos pelo Raposo no 
Terreiro Público, a que se referira o Teixeira Girão (2). 
O deficit desde i de Fevereiro de 1834 a 3i de 
Outubro, foi de 596^5826 réis do mesmo ano. 



Neste período foi nomeado Mestre Torneiro e dos 
Vidrados e Cozeduras, João Luís Salvador (3) e Cai- 
xeiro de Venda, Manuel Argueles (4). Joaquim José 
Guimarães, em i833, durante a administração de Tei- 
xeira Girão, requereu para ser admitido como Mestre 
e Administrador da Fábrica. Girão informou que ele 
já ali fora pintor, que era já veltio e, na ocasião, desne- 
cessário (5). Foi isto em Setembro de i833. Em Dezem- 
bro, porém, mudou de opinião e informou favoravel- 
mente novo pedido de admissão (6), do que resultou 
ele ser admitido (7). Mais tarde requereu para ser no- 
meado Mestre do desenho e dos padrões de pintura (8). 



(i) Livro g42 de Registo de Ordens — Ordens de 22 de Se- 
tembro de i83o e de 20 de Agosto de i833, pág. 38 v.°, 65 e 65 v." 

(2) Livro g32 de Representações e Consultas — Oficio de de i 
de Outubro de 1834, pág. by. 

(3) Idem, pág. 61 v.* e 62. 

(4) Livro g42 de Ordens — Ordens de 17 de Outubro e 20 de 
Novembro de i833, pág. 67 v.» e 68. 

(3) Livro q32 citado, pág. 9. 

(6) Jdem^ pág. 26 v.» e 27 — Oficio de i3 de Novembro de 
i833 e Livro 922 de Decretos e Avisos, pág. 3. 

(7) Livro g22 de Decretos e Avisos, pág. 10 v," — Portaria de 
8 de Fevereiro de i833.^ 

(8) Idem^ pág. 14. 



-- 14^ — 



Deixando Girão a administração da oficina do Rato, 
foi nomeado para lhe suceder Francisco António Cha- 
ves, que veio a ser o último Administrador, gerindo a 
Fábrica nos anos de i834' e i835. Logo ao princípio 
da sua gerência teve de reduzir despesas e de dispen- 
sar pessoal. Os salários foram reduzidos, mandaram-se 
embora alguns aprendizes e tudo se restringiu ao mí- 
nimo (i). O Mestre Guimarães, pintor a pincel e de 
recorte, preparador das tintas e que centrava as peças 
no tomilho, dando lições diárias na Fábrica (2), veio 
também a ser dispensado. Para o substituir, dando 
lições gratuitas, de desenho de paisagem, muito úteis 
para o fabrico dos azulejos, foi admitido o professor 
Francisco Vasques Martins, por empenho do Duque de 
Bragança (3). 

As economias eram evidentes. X portaria de i5 de 
Novembro de 1834 pede as contas minuciosas da Fábrica 
desde 1 de Agosto de i833 a 3o de Junho de 1834, espe- 
cializando-se o valor dos objectos fabricados, mate'rias 
primas, etc. (4). Já não havia, de há muito, armazém. 
A venda da loiça fazia-se no vão de escada do armazém 
da Fábrica das Sedas (5). Era o princípio do fim. 



(i) Livro g42 de Ordens, pág. 70 e 70 v.° e Livro 922 de De- 
cretos e Avisos^ pág. 45 a 45 v.° — Portaria de 21 de Outubro de 
1834. 

(2) Idem, pág. 69 v.° — Ordem de 14 de Fevereiro de 1834. 

(3) Livro g32 de Representações e Consultas, pág. 38 v.° e 39 
— Oficio de 17 de Março de 1834 e Livro 922 de Decretos e Avi- 
sos — Portaria de 12 de Março de i834, pág. 23 e 23 v.° 

(4) Livro 922 de Decretos e Avisos — Portaria de i5 de No- 
vembro, pág. 38 v." a 39. 

(5) ide?n, pág. 20 e 20 v.° e Livro gS-j de Representações e 
Consultas — Ofício de 24 de Fevereiro de 1S34, pág. 36 v." a 37. 



— iSo — 



Às propostas de arrendamento ou trespasse da Fá- 
brica começam a aparecer. 

Eni Abri! de >835 era a de Inácio António da Silva 
Lisboa ; em Junho do mesmo ano, a de Manuel José 
Coimbra. O convite íeiío no Diário do Governo co- 
meçava a dar resultado (i). 

A portaria de 4 de Setembro manda remeter à 
Comissão o inventário geral do edifício, materiais, 
loiça, máquinas, etc. (2). Pouco depois a Fábrica da 
Loiça era vendida. Nas praças sucessivamente anun- 
ciadas para 19 de Março, 16 de Abril e 21 de Setem- 
bro, achou-se afinal um comprador. 

Era uma vez a oficina de Brunetto, de Severino da 
Silva, de Sebastião Inácio de Almeida, dos Berardis, 
do Nascimento, do Paula e Oliveira, do Salvador Luís 
e de tantos outros artistas (3). 



Outras fábricas funcionavam em Lisboa e no resto 
do país a esse tempo. José Queirós mencionaa uma 
grande quantidade delas. 



(1) Livro 922 de Decretos e Avisos^ pág. 47, 47 v.", 48 e 52 v." 
— Portarias de 20 de Março, de 3 de Abril e de 19 de Junho de 
i835. 

(2) Idem, pág. 56 — Portaria de 4 de Setembro. 

(3) Pelos anúncios insertos na Gaveta de Lisboa e na Revista, 
n.° 264 de 19 de Setembro de i835, vê-se que o arrematante ficaria 
obrigado a conservar a Fábrica em laboração e a receber por in- 
ventário as oficinas, utensílios, etc, ficando responsável por esses 
valores e prestando para isso fiança idónea. Faltando-se a estes 
compromissos seria a Fábrica arrematada de novo. Nada disto 
aconteceu. A Fábrica não funcionou mais. 



— ibl — 

Citarei apenas aqui, para não reeditar o que na Ce- 
râmica Portuguesa ficou dito, algumas notícias disper^ 
sas que guardo nos meus verbetes. 

Os alvarás de 20 de Dezembro de 1778 e 10 de 
Fevereiro de 1794 concederam isenção de direitos de 
saída, à loiça de pó de pedra do Porto que fosse para 
o Brasil. 

O diploma de 20 de Julho de 1807 privilegiou a fá- 
brica de loiça de pó de pedra do Cavaquinho (Porto). 

O aviso de 8 de Janeiro de 1825, mandou informar 
à Direcção da Fábrica das Sedas sobre o requerimento 
de Leandro José da Fonseca para estabelecer uma fá- 
brica de loiça fina(i). 

Um anúncio do Periódico dos Pobres de 2 1 de No- 
vembro de 1827 reclama uma fábrica de loiça fina de 
José António Gonçalves, na Rua de S. Francisco de 
Borja 65, onde se fabricavam moringues de Estremôs. 

A Gaveta de i de Abril de i83o anuncia a venda 
de fogareiros na fábrica de loiça da Travessa do Pé de 
Ferro, n.° i5. 

No Periódico dos Pobres, n.° ig, de 19 de Agosto 
de i833 anuncia-se o arrendamento, com todos os uten- 
sílios necessários, de uma fábrica de loiça fina, na cal- 
çada do Monte. 

Uma Gaveta de i836 reclama a «Companhia Fabril 
de Louça», nas Janelas Verdes. Foi a que depois se 
chamou «Fábrica Constância». 

No Rol dos Confessados de S. Mamede, em i836, 
cita-se uma Casa de Loiça, na rua Nova da Piedade. 
O Diário do Governo, n.° 692, do primeiro semestre 
de 1839, anuncia uma fábrica de loiça nas Trinas. 



(i) Livro 92/ de Decretos e Avisos, pág 3 v.° 



ÍÓ2 — 



Antes de abandonar este assunto, algumas palavras, 
ainda, sobre a porcelana, ensaiada por Bartolomeu da 
Costa e pelo Dr. Manso Pereira, no fim do século xviii. 

As primeiras experiências datam de 1793 e de- 
vem-se a Bartolomeu da Costa, Tenente-General e no- 
tável engenheiro do seu tempo, a quem também se 
deve, segundo consta oficialmente, a fundição da está- 
tua de D. José e a sua colocação no Terreiro do Paço 
por meio de engenhos do seu invento. 

Lendo-se atentamento os documentos publicados 
pelo sr. D. José Pessanha, no Arquivo Hibtóvico{i) e 
as considerações por eles suscitadas ao mesmo distin- 
tíssimo crítico de arte, uma conclusão se tira, quanto 
a mim, e essa é a extrema vaidade do Tenente-Gene- 
ral Bartolomeu da Costa trabalhando obstinadamente 
para que só o seu nome ficasse aureolado da fama que, 
estou convencido, seria justiça dividir por mais alguém. 

Os franceses João Drouet e Pedro Brocard, que tra- 
balharam no Arsenal do Exército em 1764, na monta- 
gem de engenhos de fundição, em que eram peritíssi- 
mos, tendo vindo para Portugal, recomendados por 
Martinho de Melo e Castro ao Marquês de Pombal, 
como os mais hábeis e notáveis mecânicos, então co- 
nhecidos no género, foram obrigados a deixar o nosso 
país para não ofuscar a glória de Bartolomeu da Costa. 

O Tenente-General dizia depois, em uma exposição 
onde relacionava imodestamente os seus serviços, que 
Drouet tinha fugido reconhecendo que os méritos dele 



(1) Tomo I, ic^o"}). A Porcelana em Portugal — Primeiras Ten- 
tativas. 



— i63 — 

éram maiores e adquirindo mais no que viu praciicai" 
do que deixou (sic). 

O próprio Machado de Castro correu o risco de ser 
esquecido entre os cooperadores da factura da estátua 
equestre, tanto Bartolomeu da Costa fêz salientar a sua 
pessoa, amesquinhando os outros. 

Uma publicação anónima do tempo, extractada pelo 
sr. D. José Pessanha no seu interessantíssimo estudo, 
dá a entender que o invento do maravilhoso engenho 
para levar a estátua do lugar da fundição ao Terreiro do 
Paço, fora obra de Drouet, aproveitada pelo engenheiro. 

Dando de barato que esse escrito anónimo fosse de 
algum despeitado a que tenha de dar-se o devido des- 
conto, o certo e' que não repugna acreditar que tal fizesse 
quem, declarando-se abertamente, em documento fir- 
mado pelo próprio punho, descobridor da porcelana, 
não teve ao menos a consciência de mencionar o nome 
do artífice francês, como seu auxiliar, quando é certo 
ter sido Drouet o verdadeiro descobridor da argila re- 
fractária com que êle fabricou as primeiras peças. 

Disso não resta a mínima dúvida. Conta-o inciden- 
talmente o sereníssimo Ratton, nas suas Recordações. 

Andando em viagem pelas províncias, comissionado 
pelo Governo para a descoberta de matéria prima, para 
fabrico de tejolos destinados a um forno de reverbero, 
encontrou-a efectivamente junto ao rio Vouga, perto de 
Aveiro. Com essa argila é que Bartolomeu da Costa 
fêz as suas primeiras experiências. 

De que constaram elas, é o que vamos dizer em 
breves palavras. 

* 

A principal das seis peças que lhe são atribuídas é 
uma medalha em forma de edículo, representando numa 
face o famigerado aparelho da sua duvidosa invenção 



— i54 — 

e na outra a indispensável inscrição comemorando a 
descoberta a que se refere a medalha. O gravador foi 
João de Figueiredo, como tambe'm se lê no exergo do 
reverso. 

Das outras, uma refere-se à descoberta da porce- 
lana, com o seu nome, já se vê, no reverso, e no an- 
verso as armas reais ; outra apresenta no anverso a 
estátua e no reverso uma inscrição comemorativa da 
descoberta da porcelana ; e as outras são pequenas me- 
dalhas ovais com os bustos de D. Maria I, D. José e 
D. Maria I com D. Pedro 111, sendo as figuras brancas 
sobre fundo azulado ou cor de pinhão, havendo actual- 
mente variedades diferentes destas láltimas. 

As três primeiras são mais raras ; a primeira prin- 
cipalmente. 

A descrição minuciosa delas fá-ia o sr. D. José Pes- 
sanha no seu já citado estudo. Para lá remeto o leitor. 



Alguns anos depois outras experiências idênticas se 
fizeram no Brasil, sendo seu autor o Dr. Manso Pereira, 
químico distinto e professor de Humanidades na Baia. 

A argila com que obteve esses resultados, muito 
vulgar no Brasil e chamada pelos indígenas íabatinga, 
dizia êle, ser o verdadeiro kaolino. Constando na corte 
o seu descobrimento, encomendou-se-lhe certa porção 
da tal argila para aqui se fazerem experiências, como 
consta de uma consulta da Junta do Comércio de 5 de 
Setembro de 1793(1). 



(1) Este Dr. Manso Pereira, além destas descobertas, também 
inventara um novo sabão de sebo e azeite de peixe, um novo vi- 
nho extraído da cana de assúcar, uma aguardente de cana feita 



-=- i55 -^ 

Dessas experiências de Manso Pereira, são docu^ 
mentos quatro medalhas, com os bustos de D. João VI, 
D. Pedro 111 e D. Carlota Joaquina, que o sr. D. José' 
Pessanha descreve também miudamente. 

Tanto estas tentativas, como as que depois fêz o 
Dr. Domingos Vandelli no laboratório químico da Uni- 
versidade de Coimbra, não lograram utilizar-se em tra- 
balhos de maior fôlego e ficaram na indústria como 
simples curiosidades. 

Só mais tarde, em 1834, é que um aprendiz da fá- 
brica da Vista Alegre, L. Pereira Capote, descobria 
em Vale Rico, concelho da Feira, o ambicionado kao- 
liuo, na mesma região onde João Drouet já o tinha en- 
contrado. Depois desta data é que a Vista-Alegre co- 
meçou a produzir porcelana. Até aí só fabricara faian- 
ça (i). 



Ainda, sobre a mesma matéria : 

Um serviço de chá que figurou na exposição de Ce- 
râmica do Porto, em 1882, foi Julgado pelo sr. Joaquim 
de Vasconcelos, crítico de arte portuense, como produto 
dos ensaios acima mencionados, pois tudo nele, desde 
a matéria prima às cores, denunciam a obra de um 
principiante (2). 



por meio de cal viva e outra por meio do alcali da bananeira e do 
mangue, e outras empresas demonstrativas de muito saber e de 
muita força de vontade. 

(i) Sete ex mplares de medalhas ainda se mencionam no 
trabalho aludido do sr. D. José Pessanha, cuja origem não está 
definida ainda, podendo atribuir- se a qualquer dos três ensaia- 
dores. 

(2) O serviço compunha-se de seis chícaras e pires, bule, lei- 
teira, açucareiro, manteigueira e tijela, tendo todas elas a mesma 



— i56 — 

O sr. D. José Pessanha entende que tais peças são, 
sem dúvida, resultado dos ensaios de Bartolomeu da 
Costa, realizados, supõe o sr. D. José Pessanha, na 
Fábrica do Rato. De tais ensaios não encontrei o mais 
ligeiro vestígio documental. 

Segundo uma informação dada pelo grande Silva 
Túlio ao Visconde Júlio de Castilho, existiu em tempo 
na posse do Senado da Câmara de Lisboa, uma riquís- 
sima baixela, mandada fazer na China para servimos 
banquetes dados, por ocasião da inauguração da está- 
tua equestre, à magistratura, ao corpo diplomático e ao 
alto comércio. Essa baixela desapareceu, mas quis a 
Fortuna que alguns pratos e peças truncadas, em bela 
mas grossa porcelana, existam por memória, em poder 
de alguns curiosos. Um prato de doce, possui-o o sr. 
Visconde de Castilho; outros, existem no Museu de 
Arte Antiga por oferta de Silva Túlio; muitos em mão 
de vários particulares. 

Toda a baixela deveria ter tido a mesma decora- 
ção : cercadura verde e filetes de oiro na borda leve- 
mente ondulada em gomos, e um festão de rosas e 
folhas em seis apanhados ; na passagem da borda para 
o coro, uma cadeia de elos pretos e doirados ; ao cen 
tro, a estátua equestre toda doirada (i). 



decoração : a figura da Glória, coroada, em um carro triunfal, pu- 
xado por dois pavões verdes. Na mão esquerda sustenta um me- 
dalhão oval com dois bustos-reiratos, lendo-se na moldura, que 
é côr de rosa, os nomes de D. Maria I e D. Pedro III. Com a mão 
direita vai guiando os pavões e nela sustenta ao mesmo tempo 
um sceptro de ouro. O carro é pintado a tinta da China com to- 
ques de ouro e vôa no espaço sobre nuvens azuis. 

A figura veste uma túnica amarela por debaixo de um manto 
côr de rosa. Não creio que esta baixela seja ensaio de Bartolo- 
meu da Costa. 

(i) Arguivo Histórico, tomo i, igoS, pág. 287. 



-i57- 

Uma peça dessa baixela, talvez, ou de outra 
(quem sabe?), apresenta o característico do monarca 
estar vestido como um verdadeiro mandarim, com uma 
fisionomia puramente chinesa, como diz o sr. Joaquim 
de Vasconcelos (i). 



Ao leitor ainda vou dar uma outra novidade velha. 

Em poder de um clérigo de Mafra estavam, há al- 
guns anos, seis pratos de porcelana, cuja descrição, 
aproximadamente, é a seguinte : 

Fundo branco; no centro, a azul, a coroa real la- 
deada por duas figuras, como fazendo-lhe guarda de 
honra, representando dois soldados vestidos com os 
fardamentos do tempo do Conde de Lipe, casaca, tri- 
córnio, etc, com a interessante particularidade de os 
rostos serem, como o de El-Rei D. José, na peça acima 
referida, puramente chineses, tal como os vemos nos 
leques e nos charões. Na cercadura, a azul, um le- 
treiro, em letra de pena, escrito por quem seguramente 
conhecia o nosso alfabeto, não conhecendo entretanto 
a língua. O letreiro, difícil de ler, pela má colocação 
dos espaços, diz o seguinte : 

«Sete barro he outro ounicórnio». 

Tais palavras querem, fora de dúvida, refenr-se, à 
transparência e à boa qualidade do barro. 

Da decoração e do letreiro se conclui, sem grande 
custo, que tal barro foi certamente enviado de cá, para 
a China, no fim do século xviii, a-fim-de ouvir a opi- 
nião dos artífices orientais, que, por gentil admiração 
ou por indicação das autoridades portuguesas ou ainda 



(i) Ao falecido Major Santos Ferreira, que foi bibliotecário 
do Ministério da Guerra, é que devo esta notícia. 



— i58 — 

por conselho de qualquer emissário especial, escreve- 
ram o dístico laudatório. 

l Terá ainda isto alguma ligação com as experiên- 
cias de Bartolomeu da Costa, de Drouet, de Manso 
Pereira, de Vandelli. de Sobral, de Raposo ou de Gi- 
rão ? 

Vejamos agora, o que é importantíssimo, o destino 
dos aludidos pratos. 

Por morte do padre, passaram para a sua gover- 
nanta e desta para as mãos de uma senhora que, por 
seu turno, os vendeu ao conhecido Libório. Este, pouco 
depois, alienou-os. Um curioso antiquário, de apelido 
Vilar, disse, a quem gentilmente me comunicou estas 
noticias, haver um amador de louças que possuía uma 
peça (não prato) com o mesmo letreiro e figuras. Nos 
bric-a-bracs, aparecem, de quando em quando, pratos 
desta baixela. 



Prometi falar na fábrica do Ratinho. Vou cumprir 
a promessa. 

O Ratinho é o nome de uma aristocrática manufac- 
tura de faiança, aninhada que esteve num canto dos 
jardins do palácio Palmela para o lado do Poente. Foi 
aí que, em 1872, o conhecido pintor António Luís de Je- 
sus montou um forno de primitivo sistema, com vigias, 
e, paralelamente, oficinas de roda, de torno e de ma- 
teriais. 

A ideia da fábrica fora sugerida à falecida Duquesa 
de Palmela, espírito requintado de artista, lendo em 
Agosto de 1872, na poética Sintra, a vida do ceramista 
francês Bernardo Palissy. Com o auxílio de outra ar- 
tista, também já falecida, a senhora Condessa de Ficalho, 
deu-se princípio ao trabalho, mal regressadas da vilç^ 



— iBg — 

giatura inspiradora e eis aí a pequeníssima fábrica a 
funcionar. A senliora Duquesa modelava, a senhora 
Condessa de Ficalho escolhia os motivos decorativos e 
cobria-os. O mestre Jesus preparava os esmaltes e o 
Miguel Gomes Correia, da olaria da rua da Imprensa, 
fornecia o barro. Este era todo o pessoal do Ratinho. 

Da sua produção fala, com conhecimento, de causa 
sr. José Queirós no seu citadíssimo e magnifico livro. 
Para evitar a deficiência de um extracto, transcrevo na 
íntegra esse ponto de ^4 Cerâmica Portuguesa : 

Ape\ar da producção do Patinho não ter sido 
grande, a relação podia ser superior á que vamos dar, 
pois que uma das pessoas que nos podiam elucidar mais 
uma pe:{, já não existe — a senhora condessa de Ficalho 
— e a senhora duquesa de Palmella não se lembra de 
todas as peças que ofereceu. Em todo o caso o tnaior 
numero deve estar no pai:{. Aquellas de que ha noticia 
são: um busto da senhora condessa de Ficalho; o jarro 
oferecido ao conde de Brandenburgo ; u?n cão; seis 
pratos, dois dos quaes são de pé (queijeiras) e perten- 
cem á senhora D. Maria de Mello Breyner (Ficalho) 
e quatro á casa Palmella; e um jarro que pertence ao 
sr. Francisco Wan-eller. 

Exceptuados dois exemplares, dos quatro perten- 
centes aos senhores duques de Palmella (uma urna para 
agua e um cangirão) todos que notamos são marcados 
com um pequeno rato e os monogramas das funda- 
doras. 

De todas as peças que conhecemos, teem a prima\ia 
como modelação as polychromia e esmalte : 

Jarro, de elevada asa, forma de pipa, tendo no 
bojo por baixo do bico, uma mascara de satyro, com 
sua expressão de hilariedade, causticante, perfeita- 
mente modelada e colorida. Entre a mascara e a pega, 
dispostas com arte, folhas de hera, symbolo da persis- 



— i6o — 

teticia, que se prendem á superfície, decoradas cofji 
filetes e gregas a toda a altura do vaso. Marcado na 
parte exterior do bico. 

Travessa decorativa, forma octogonal, ornamenta- 
ção em relevo e colorida : um cacho de uvas, que acom- 
panha a borda pela parte inferior da composição, um 
sardão, uma rã e um cacho de nesperas com suas fo- 
lhas. Em volta, na aba, uma cercadura delicadamente 
pintada a tinta amarella, quente, sobre fundo verde, 
manchado e velho, que dá a i?npressão de um i^eludo 
antigo, bordado a oiro, e tudo isto sob um esmalte 
lácteo e brilhante. 

Estes dois exemplares, que estão ao cuidado e esti- 
mação do sr. duque no seu gabinete de trabalho, teem 
a nosso ver, não ?nenos valor, para a historia da Ce- 
râmica Portuguesa, do que etn Erança osproductos de 
Oiron, de que apenas se conhecem duas dúbias de pe- 
ças — se tanto — embora essas faianças datem do prin- 
cipio do século XVI e as do Ratinho contem somente 
trinta e quatro amios{\). 



(i) Cerâmica Portuguesa, pág, o/è. 



CAPITULO VIII 



Sumário: Achamo-nos, o leitor e eu, no Jardim das Amoreiras 

— Apontam-se as quintas em que se recortava aquele terreno 
e os caminhos que as serviam — A classe dos Fabricantes de 
Sedas — E projectado um bairro para ela — Escolhe-se na vi- 
zinhança da Casa da Água — O primitivo piano do engenheiro 
Carlos Mardel — Sua vastidão — Retraimento da iniciativa 
particular — O «Real Colégio das Manufacturas» sonhado por 
Pombal — É ordenado o começo da obra — Aforamento dos 
terrenos — As barracas provisórias de 1755 — Planta-se a 
Praça, de amoreiras — A amoreira do Marquês — O abarra- 
camento dos Carmelitas Calçados — Transfere-se para o 
Carmo a Imagem de Nossa Senhora em 1758 — Origem de 
alguns nomes das ruas bairristas — As travessas da Légua da 
Póvoa, da Lebre, das Bruxas, de S. Francisco Xavier, do Alto 
de S. Francisco, etc. — A Fábrica dos Pentes — Diz-se o 
que lá se fabricava e citam-se os seus mestres — A «tarta- 
ruga do Alentejo» — A Fábrica de Caixas de Cartão e Vernizes 

— Dois incêndios — Trespassa-se a Fábrica dos Pentes e arre- 
mata o fabrico e o contrato do marfim, o Erário Régio — Reín- 
vindicações operárias — Faz-se uma lista dos artífices — Cir 
tam-se os pintores que trabalharam na Fábrica das Caixas, e 
enumeram-se os seus artefactos — As iniciativas de La Croix 

— O atrazo da indústria nacional no século xvin — A Fábrica 
de Cutelaria — Mencionam-se os Mestres e alguns artífices — 
Faz-se uma lista dos artefactos que lá se produziram — A 
Oficina de Ferragem de Cirurgia — Um mestre de fazer lan- 
cetas — Mencionam-se várias outras fábricas semelhantes — 
A Fábrica de Relójios — O génio irrascível de Berthet — Lista 
dos oficiais da oficina — O progresso no tempo de Durand — 
Os relojoeiros que lhe sucederam — Um relójio feito para o 
coleccionador Marquês de Marialva — Mencionam-se alguns 
relójios e alguns relojoeiros — Oficinas em Lisboa, Santarém, 
Maia e Barcelos, e na índia, Brasil e Moçambique — O carri- 
lhão de Alcobaça. 

VOL. IV 11 



— 102 — 

Nunca passo por esta ridente praçazinha ajardinada, 
cercada de prédios de um só andar, frequentada quási 
só dos bairristas que parece olharem desconfiados a 
gente que se atreve a invadir o seu domínio, que me 
não imagine num logradoiro provinciano. Se há jardim 
que, em Lisboa, seja privativo de um bairro, é este ; 
e de aí o seu carácter exclusivista e o seu ar de paca- 
tez ao qual a pouca altura dos prédios, amesquinhados 
ainda pela vasta mole da Casa da Água, lhe ajuda a 
dar o aspecto que nos fere à primeira vista. 

Todo êle, porém, e as casas e ruas que o cercam 
eram quintas e terras de semeadura antes de 1755 e 
antes mesmo de 1759, ano em que o sagaz Conde de 
Oeiras passeou por estas paragens o seu olhar prescru- 
tador e inteligente. Daí, nasceu um plano grandioso. 
Executado êle, nasceu, por seu turno, o bairro, que o 
leitor vai percorrer. 



Eram ali a quinta e casas de Manuel da Cunha Ta- 
pares (i), a quinta do Vestimenteiro e as terras dos pa- 
dres da Congregação do Oratório. Ficavam estes ter- 
renos entalados entre a estrada de Entremuros e a das 
Águas Livres, hoje rua das Amoreiras e rua de Silva 
Carvalho (2). A primeira destas vias de comunicação, 
não seguia toda a diretriz que depois teve. Acabava 
ali por altura do alto de S. Francisco. Depois dobrava 



(1) Não sei quem fosse este sujeito. Algumas indagações que 
fiz nesse sentido, resultaram infrutíferas. 

(2) Hoje já tem outro nome. É Rua de Artilharia N.° i. Se 
ao menos todos os novos nomes fossem postos com critério como 
este, seria menor a confusão que se tem estabelecido. O regimento 
que a denominou é que já não é o n.° i, é o n.° 3. 



— i63 — 

para o sul, vindo sair no mesmo ponto onde agora sai, 
no largo do Rato. Era ela que separava a quinta do 
Tavares das terras dos Congregados. 

O monumental plano de reconstrução da cidade a 
que já, algures, tive de aludir, abria neste local uma 
praça enorme, sobre o quadrado, limitada ao poente 
pelo aqueduto, como melhor se pode ver na planta que 
acompanha o primeiro volume desta obra. 

Para cima das quintas do Tavares e do Vestimen- 
tetro, ainda apartadas pelos dois citados caminhos, até 
entestar com a antiga circunvalação, ficavam duas ou- 
tras quintas : a de Francisco Luís de Lagitar, para o 
lado das Aguas Livres q di do Giiarda-mor, para o lado 
de Entremuros. As casas do Laguar ficavam na es- 
quina para a Cruz das Almas. 



A classe dos Fabricantes de Sedas fora organizada 
já nos Estatutos da Real Fábrica, formando uma espe'- 
cie de Confraria, ou Monte de Piedade, em que se au- 
xiliavam uns aos outros, mantendo entre si obrigações, 
sob a protecção eficaz da Direcção da Fábrica que lhes 
fornecia a crédito, pelos preços mínimos, todos os uten- 
sílios da profissão. Teares, sedas, matizes e desenhos 
tudo fornecia o Estado, por mão da Direcção, descon- 
tando depois o seu custo no preço porque lhe eram 
comprados os produtos do seu trabalho, caso fossem 
dignos de aquisição. No caso contrário, ficaria o artí- 
fice excluído do favor, apreêndendo-se o material que 
fora fornecido. Cada Mestre era obrigado a ter um 
certo número de aprendizes. O tempo de aprendizagem 
era de cinco anos, durante os quais se não poderiam 
ausentar de casa dos Mestres, nem por estes ser despe- 



— 164 — 

didos sem causa justificada. Os Mestres, incorporados 
na Fábrica, podiam ter, em sua casa, de um a quatro 
teares, conforme o seu saber e actividade. A Direc- 
ção da Fábrica estava sujeita à Junta do Comércio, 
e deste modo ligada à Companhiia do Grao-Pará e 
Maranlião e à de Parahiba que proporcionavam a saída 
e consumo dos produtos da Fábrica, de modo que, 
desde o mais modesto aprendiz às mais altas categorias 
da Junta e das Companhias, tudo se achava unido, por 
um interesse mútuo, às prosperidades da nova indús- 
tria (i). 



Destas ideias criadoras de Pombal, foi natural se- 
quência a construção de um bairro para os fabricantes, 
longe do bulício da cidade. 

Alguns desses artífices estavam sem teares. Urgia, 
pois, a construção de casas adequadas ao seu mister. 

O local escolhido foi na vizinhança da Casa da Agua 
e Arcos das Águas Livres, como vimos, e encarregou-se 
o fecundo e notável Engenheiro Carlos Mardel, de gizar 
o plano. Foi este concluído e assinado em 4 de Março 
de lySg e logo em 14 saiu o decreto confirmando-o e 
determinando a sua execução. 

Conforme a letra desse documento, todo o Bairro 
seria exclusivamente para os fabricantes, tendo priori- 
dade na construção das noventa moradias projectadas, 
os proprietários e foreiros do solo, avaliando-se o foro 
pelo que rendia antes de 1755. O aluguel de cada uma 
das casas não podia exceder a quantia de 48íí)00o réis 
anuais e os fabricantes incorporados na Fábrica tinham 



(i) Noções Históricas e Económicas, etc, por Acúrcio das 
Neves, pág. 87 a 92. 



- i65 — 

preferência para ele. O senhorio apenas os podia des- 
pedir no caso de falta de pagamento. 

Por conta da Fábrica haviam de construír-se ses- 
senta moradas de casas com localização determinada : 
nas ruas que faziam frente ao pórtico e arcos das Aguas 
Livres. 

Com referência ao plano de Mardel, diz o citado 
documento : 

<iTomando-se por ora, somente {i\ o terreno que 
confina pelo sul com a rua que corta pela porta se- 
temptrional da quinta de José Ribeiro {2); pelo nas- 
cente com a rua que passa pela quinta dos padres da 
Congregação para S. Sebastião da Pedreira; pelo 
norte com outra rua que corta pela extremidade me- 
ridional da quinta do Vestimenteiro, e delia pelo meio 
das terras, e quinta de Manoel da Cunha lavares; 
e pelo poente pela rua que vem de S. João dos Bem 
Casados para o largo do Mosteiro do Rato; se com- 
prehendem neste terreno, sete ruas que cortão do nas- 
cente ao poente, com seis que cortam de norte a sul e 
nellas 22 quadrados gravides de fnoradas cada hum, e 
i5 pequenos de 8 moradas, que fa\em ao todo 4^2 ha- 
bitações de 4 teares cada huma, edificadas na forma 



(i) Estas palavras parecem indicar, ainda, a intenção de um 
plano mais grandioso. Infelizmente nem este se chegou a executar 
como veremos. 

(2) Esta quinta de José Ribeiro (de Oliveira) escrivão da Te- 
nência Geral da Artilharia e Familiar do Santo Ofício (Carta de 
21 Agosto de 1737 — Processo 42-670) ficava encravada nas terras 
dos Congregados do Oratório. A casa da quinta tinha uma er- 
mida, de Nossa Senhora Mãe de Deus e dos Homens, onde esteve 
a paróquia de S. Mamede, desde 1756 a 1783. A rua em que fala 
o decreto deve ser a serventia conhecida mais tarde pelo beco de 
Santo António e que ia sair a Vale do Pereiro, em frente da tra- 
vessa da Natária. 



— i66 — 

do plano, e por necessária consequência 1888 teares 
grandes ou de maiiies, etc. (i). 

Era extenssíma a área ocupada pelo projectado 
bairro. Nem a quarta parte do terreno marcado no 
decreto se chegou a povoar de casas, muito embora o 
legislador nele desse a entender, bera claramente, a in- 
tenção de o aumentar ainda. 

Servindo-nos dos nomes actuais, ia desde a rua das 
Águas Livres a meio do Parque Eduardo VII, no sen- 
tido poente-nascente. Parece que, mais tarde, em vir- 
tude da falta da iniciativa particular que pouco fêz, se 
resumiu o plano, projectando-se apenas a construção de 
desasseis agrupamentos ou quarteirões, conforme se vê 
de um Plano Geral da Cidade de Lisboa em ij85, 
gravado por Francisco D. Milant, que me foi oferecido, 
em 1908, pelo meu ilustre mestre, o Visconde Júlio de 
Castilho. 

Outra planta, copiada da Colecção das Plantas das 
Freguesias de Lisboa, feitas pelo sargento-mor José 
Monteiro de Carvalho (2) marca novo traçado ao bairro, 
limitando-se talvez a representar os quarteirões já edi- 
ficados no seu tempo ; apenas sete. 

As primeiras moradas de casas, construídas foram 
as sessenta, mencionadas no decreto, as quais custaram 
a quantia de 71.184ÍIÍ601 réis e cujas obras terminaram 
em 1769(3). 



A ideia primitiva, como vimos, era que o bairro se 
destinasse para os artífices da seda. Pouco depois, po- 



(i) Decreto de 14 de Março de 1759. 

(2) Existe essa colecção, no Arquivo da Torre do Tombo. 

(3) Noções Históricas, Económicas, etc, pág. 94. 



— 167 — 

rém, o próprio Marquês chamava-lhe Real Colégio de 
Manufacturas e tornava-se numa verdadeira escola- 
-fabril, acolhendo no seu âmbito outras indústrias que 
Pombal ia introduzindo no nosso país a título de expe- 
riência. Os aprendizes da tal Colónia Fabril, que tra- 
balhavam por conta da Fábrica, principiaram, então, 
vivendo numa verdadeira comunidade, com a sua cozi- 
nha, o seu refeitório, me'dicos e cirurgiões, enfermaria, 
etc, tudo pago pela Direcção. 

O seu trabalho era dirigido pelos contramestres, que 
davam à Fábrica-Mãe conta restricta do procedimento 
e merecimentos dos educandos. 

Algumas dessas novas indústrias que, a seu tempo, 
enumeraremos, progrediram e deram magníficos frutos; 
outras, por imperícia dos mestres, por falta de mercado 
e por outras circunstâncias acabaram com perda para 
o cofre comum. Logo veremos tudo isso. 



Em 22 de Maio desse mesmo ano de lySg, foi ex- 
pedido pelo Ministério do Reino o seguinte aviso com 
a rubrica de el-rei: 

«^Por decreto de 14 de março do corrente anno^ fui 
servido ordenar ao Desembargador Pedro Gonsalves 
Cordeiro Pereira, do meu conselho, que serve de re- 
gedor, mandasse terraplenar a praça imediata aos 
Arcos das Aguas Livres, no sitio do Rato e desimpe- 
dir todo o ??iais terreno em que se hade edijicar o novo 
bairro dos fabricantes de sedas, na forma da planta 
do Tenente- Coronel Engenheiro Carlos Mardel : E 
para que esta minha Real determinação, tenha logo o 
seu devido cumprimento, sou outrosim servido que a 
Junta do Comércio destes Reinos e seus dominios mande 



— i68 — 

fa\er a referida obra pela direcção do sobredito te- 
nente-coronel Engenheiro^ pagando-a do cofre geral 
dos 4^/ú, por empréstimo que hade ser satisfeito pela 
primeira remessa do que vier de qualquer dos Portos 
do Bra\il, a entregar à mesma Junta, por conta da 
Real Fazenda. A sobredita Junta do Comércio o te- 
nha entendido e faça executar» (i). 
A obra não se fez, pois, demorar. 



As freiras trinas do Rato, aproveitaram a ocasião 
e pediram licença para aforar a orla da cerca que en- 
testava com a actual rua das Amoreiras ... que dei^e 
separar a dita casa do referido terreno na conformi- 
dade da planta do ienente-coronel, como reza o do- 
cumento de que me sirvo (2). Foi-lhe concedido o afo- 
ramento com a condição dos enfiteutas dos novos pra- 
zos edificarem na forma da lei, debaixo da mesma uni- 
forme simetria do plano. 



Pelo meio do actual largo, havia então numerosas 
barracas, restos dos asilos provisórios de 1756. Muita 
gente fugiu para este local e proximidades, mais pou- 
pado pelo cataclismo do que a parte populosa da ca- 
pital. Fizeram-se inúmeras barracas e ali ficaram por 
muitos anos, quási até nossos dias. Em 1756, 25. 000 



( 1 ) Livro 6 dos Avisos do Ministério do Reino, existente no 
Arquivo da Torre do Tombo, fl. 98. 

(2) Idem, idem, fl. 97 v.°. 



— 1^9 — 

dos habitantes de Lisboa viviam então na paróquia de 
Santa Isabel. 

Em ai^iso de 12 de Junho de 1758, foi ordenado aos 
inspectores do Bairro-Alto, que não permitissem a cons- 
trução de mais barracas nos terrenos, Já então, desti- 
nados para o novo bairro e fora do alinhamento das 
que já existiam (i). 

Uma dessas barracas abrigou, durante algum tempo, 
os Carmelitas Calçados, do mosteiro do Carmo. Em 
seguida ao terremoto que lhe arruinou a igreja e a 
casa conventual, fugiram para umas barracas ao Campo 
Grande. Quanto tempo aí se demoraram, não sei. 

Passaram depois para outras barracas aqui, junto 
aos arcos das Águas Livres, e ao pé da ermida de 
Monserrate, então ainda por acabar. Aí estiveram até 
1758(2). 

Dois avisos, expedidos pelo Ministério do Reino, 
respectivamente para o Marquês Estribeiro-mor e para 
o Marquês de Tancos, em 26 de Junho desse ano, no- 
ticiam-nos a saída, solene e procissional, dos Carmeli- 
tas, das Amoreiras para uma igreja provisória no mesmo 
largo do Carmo (3). 

Fêz-se a trasladação da Imagem de Nossa Senhora 
do Carmo e conjuntamente a saída dos religiosos, em 
2 do mês seguinte, perante numerosa assistência. Fêz 
a guarda de honra, nas Águas Livres, uma companhia 
de cavalos, no largo do Carmo outra, estacionando uma 
terceira companhia em S. Roque. 

Todas as ruas do percurso — Rato, rua do Colégio 



(i) Livro 5°, idem^ fl. 227 v.° 

(2) As Ruínas do Carmo, por M. J. da Cunha Brandão — Se- 
parata do Boletim da Real Associação dos Arquitectos Civis e Ar- 
queólogos Portugueses. 

(3) Livro 5.° dos Avisos do Ministério do Reino^ fl. 243 v.° 
e 244. 



— 170 — 

dos Nobres, Moinho de Vento, S. Roque, Portas de 
Santa Catarina, travessa das casas do Duque Regedor 
e Carmo — estiveram guarnecidas de tropa. 

Chegada a Imagem ao Carmo, e instalada no tem- 
plo provisório, cantou-se um solene Te-Deum, para o 
que tinham acompanhado o préstito os músicos da 
Santa Igreja Patriarcal, trombetas e timbaleiros(i). 



Em 1762, na praça, na rua de Monserrate que nela 
desembocava e na travessa do lado esquerdo da cal- 
çada da Fábrica da Loiça, havia oitenta barracas, al- 
gumas das quais só foram demolidas em 1848 e ainda 
em 1862, como consta das actas das sessões da Câmara, 
desses anos. Foi uma verdadeira epidemia que custou 
a debelar. 



Em 177 1 foi todo o largo dos Fabricantes, coerente- 
mente, plantado de Amoreiras, semeando-se 33i pés, 
cuja im.portância ascendeu a 725^^)247 réis. O Marquês 
de Pombal quis assistir a essa plantação, dando-se-lhe 
o prazer de semear a primeira árvore. Segundo a tra- 
dição era a que estava entre o chafariz e a porta da 
ermida fazendo encosto a um dos assentos de pedra e 
digo era porque, em sessão da Câmara de 12 de Ja- 
neiro de i863, o vereador Luís de Almeida e Albuquer- 
que, foi autorizado a substituir por olmeiros e oliveiras, 
as amoreiras do largo. Faço justiça ao venerando pe- 



(i) Livro 5° dos Avisos do Ministério do Reino^ fl. 224. 



— 171 — 

dagogo já falecido. Luís de Almeida e Albuquerque 
ignorava certamente que mãos tinham nobilitado uma 
dessas árvores. \ De contrário, nem êle nem a Câmara 
teriam cometido tamanha barbaridade ! 

Espanta-me entretanto essa determinação camarária. 

({Que mal fariam as históricas amoreiras que até aí 
tinham sido cuidadosamente zeladas a ponto de se pa- 
gar a um guarda que as vigiasse ? 

jAlto miste'rio que me não e' dado desvendar I 



Lancemos os olhos sobre as ruas do novo bairro. 

Alguns nomes ferem-nos logo os ouvidos e entra 
comnosco uma comichão de curiosidade, i Que diacho 
quererá dizer isto de Légua da Póvoa com que se en- 
feita uma das travessas, a que vai de Entremuros à 
parte superior do Jardim ? 

É costume dizer-se, tratando de alguma grande ex- 
tensão : é do tamanho da légua da Póvoa. Pelos modos 
a tal légua é maior do que as outras, mas a travessa 
é tão pequena que se não pode explicar pelo dito po- 
pular. 

Aí fica o enigma, para os antiquários-charadistas. 

O que eu posso dizer é que em i833 já ela tinha 
esse nome e que daí para traz não a vi mencionada em 
parte alguma (i). 

A travessa das Bruxas^ nasceu também no mesmo 
ano, em que vejo igualmente mencionar-se, perto dela (2) 



(i) Livros do Lançamento da Décima, no Arquivo do Tribu- 
nal de Contas — freguesia de Santa Isabel — ano de i833. 

(2) Foi-lhe recentemente mudado o nome para Travessadas 
Aguas Livres. 



— 172 — 

o páteo da Cova da Onça, um amontuado de barraca- 
ria velha de que hoje não há vestígios (i). 

l Não sabe o leitor que Bruxas eram essas ? Pois 
eu também não posso informá-lo. Com o mesmo nome 
sei de mais duas serventias, uma a S. Vicente (a actual 
travessa de S. Vicente) e outra à rua Formosa, perto 
da Casa dos Padres da Divina Providência. 

E esta que deve ser a travessa das Bruxas, mencio- 
nada num documento inserto no Dicionário dos Arqui- 
tectos e Engenheiros^ de Sousa Viterbo, como assento 
de um quartel em 1809(2). Nesta, às Amoreiras, não 
havia ainda, nessa data, o actual aquartelamento cuja 
construção se fez muito mais tarde. 

A travessa da Lebre também me deu que pensar, 
mas afinal matei-a ; não a lebre mas a adivinha. 

Em 1810, algumas das propriedades abarracadas 
que aí havia, pertenciam a um tal Domingos Luís 
Lebre. Chamava-se então a travessa das Laranjei- 
ras (3). 

Deu, portanto, o Lebre o seu nome à travessa. A 
Câmara feminizou-a depois ; hoje é da Lebre. 



(i) Vide volume i, pág. 144. Em 1860 e 1861 a travessa das 
Bruxas esteve atravancada de entulhos provenintes de obras fei- 
tas, então, no aqueduto, pela Companhia das Águas. 

(2) Esta Travessa das Bruxas ligava o Bairro-Alto com a 
rua Formosa e Cardais. Os teatinos, em 1741, requereram a sua 
apropriação ao alargamento da igreja dos Caetanos, Era suja, 
íngreme e mal frequentada. Uma casa de uma tal Maria Joa- 
quina que os padres queriam também, era destinada a Jogo da 
Bola e Cartas. Tinha muro de quintal com porta para a serven- 
tia. A Resolução régia foi, em parte, a favor dos Caetanos {Ele- 
mentos para a História do Município de Lisboa, tomo xiv, pág. 2 
a 14. 

(3) Livros do Lançamento e Superintendência da Décima — 
Santa Isabel, 1810. 



-.73- 

As travessas da Fábrica das Sedas, uma às Amo- 
reiras, outra ao Alto de S. Francisco (Edital de 5 de 
Agosto de 1867) e a calçada da Fábrica da Louça, 
estão a dizer de onde lhes veio o nome ; as de S. Fran- 
cisco Xavier e do Alto de S. Francisco, imediatamente 
se denunciam. Resta-nos a travessa da Fábrica dos 
Pentes, e para satisfatoriamente lhe explicarmos o 
nome remontemos outra vez ao século xvni e ao Real 
Colégio de Manufacturas. 



Em 20 de Outubro de 1764, foram celebradas as 
condições com o mestre Gabriel de la Croix, para o 
estabelecimento de uma fábrica de pentes de marfim, 
caixas de papelão e verni^ que ele se propunha di- 
rigir. 

Por essas condições, ou mais propriamente por esse 
contrato, foi-lhe estabelecido o ordenado de 6oo.:íí)ooo 
réis, livres de todos os encargos, e além disso a metade 
dos lucros que desse a Fábrica. Gabriel de la Croix, 
era francês de origem. 

Vinte anos durou a sua administração e diz-nos 
Acúrcio das Neves que ela foi zelosa e justa, com 
grande benefício para a indústria que dirigia e ainda 
para outras. 

Atendendo aos seus bons serviços, concedeu-se-lhe 
uma pensão de 200íí)Ooo réis, por decreto de 8 de Ou- 
tubro de 1768 e, dois anos depois, por alvará de 10 de 
Dezembro foi-lhe transmitida a Fábrica com uso gra- 
tuito, por dez anos, obrigando-se êle a reembolsar a 
Direcção da Fábrica das Sedas de todas as despe- 
sas que tinha feito, e a sujeitar-se à fiscalização da 
mesma. Em troca ficava com o privilégio do fabrico 



— 174 — 

dos artefactos da sua oficina e do comércio da goma- 
-copal (i). 

A-pesar-da sua boa administração, o cofre da Fá- 
brica-Mãe perdeu com esta oficina, até 1772, 10.900^5)899 
réis. 

Não foi mais feliz a filial de Tomar, que ali funcio- 
nava sob a direcção de outro francês, Jorge Re3'nier e 
que fabricava vernizes e caixas de papelão. A Fábrica 
de Lisboa, tivera um desastre: ardera parcialmente na 
noite de 19 para 20 de Julho de 1773, mas a de To- 
mar, essa ficou inteiraniente destruída por outro sinis- 
tro igual em 14 do mês seguinte (2). 

Os dois incêndios causaram a La Croix um grande 
prejuízo. Esta circunstância acumulada com a de ter 
sido iludido no balanço, feito por ocasião da tomadia 
da Fábrica, balanço que apresentou um lucro fictício 
dando à existência um valor que não tinha, originou 
um prejuízo às oficinas que dirigia, computado nas 
contas feitas em 3o de Novembro de 1774, em réis 
27.010^15832, sendo 16.601^416 réis à Fábrica de Cai- 
xas e Vernizes, e 10. 409^5)416 réis â dos Pentes de 
Marfim, quantias estas que ficava devendo à Real Fa- 
zenda pelo seu exercício até 9 de Setembro desse ano. 

A Direcção deu óptima informação à súplica feita 
por La Croix ao Marquês de Pombal, confirmando as 



(i) Noções Históricas, Económicas e Administrativas^ pág. 214 
e 2i5 ; Livro A de Decretos e Avisos — Decreto de 8 de Outubro 
de 1768, pág. i3 e 5o; Livro B, idem, pág. 143 a 146, 149, 164 a 
i65, 174, 189 a 190, 192, 199, 204, 2i5 a 216 e 384; Livro C, idem, 
pág. 19 v.o, 20, 47, 57, 75, 79 V.", 81, 81 v.° e 82. 

(2) Pombal, que estava na Nazaré, logo que teve notícia do 
incêndio, expediu ordem para se adoptarem providências para o 
caso. Fêz-se um plano para a Fábrica dos Vernizes se montar se- 
paradamente da das caixas de cartão {Representações — Livro A, 
pág. 71, 78 e 79 — Representação de 32 de Outubro de 1773). 



— ijS — 

avaliações erradas do inventário citadas por ele, apenas 
ressalvando do seu parecer favorável as solicitações 
que o Mestre fazia respeitantes às despesas feitas para 
o descobrimento da composição dos vernizes e do la- 
cre. Essa informação é datada de 9 de Setembro (i). 

Em 1777 de outra informação da Junta consta um 
activo de 46.o52í!í)646 réis e um passivo de 48.46 ií5:)844 
réis. O maior prejuízo provinha da oficina das caixas 
de papelão que era dispendiosíssima. Tinham pouca 
saída por serem «género de capricho, de muita concor- 
rência e não de primeira necessidade», como alegava 
La Croix. Este solicitou então que lhe aceitassem no- 
vas condições, com prorrogação do privilégio por mais 
dez anos, entrando neles os três que acabavam em 
1780. A venda privativa de todo o marfim, a entrega 
de seis partidas dele, de dois em dois meses, e o pa- 
gamento do seu débito em prestações anuais, eram as 
bases das novas condições que mencionavam também a 
liberdade de êle graduar a produção das caixas e ver- 
nizes, escolher o gosto da obra, e regular, sem imposi- 
siçÕes, a admissão e o número dos aprendizes e ofi- 
ciais. 

A Junta informou bem. La Croix era-lhe simpá- 
tico. O atestado que lhe passou a 12 de Julho de 1780, 
presta homenagem à sua inteligência, zelo, bons servi- 
ços e honrado procedimento (2). 

Por este tempo Gabriel La Croix, retirou-se por 
doença, para a sua pátria, trespassando (como hoje se 
diz) a Fábrica dos Pentes a dois associados, António 



(i) Livro gij B de Decretos e Avisos^ pág. 143 a 146 e 2i5 
a 216. 

(2) Livro g25 de Registo de Consultas — Informação de 12 de 
Dezembro de 1777, pág. 3g a 40 v." e Livro B de Decretos e Avisos 
— Atestado de 12 de Julho de 1780, pág. 334. 



— 176 — 

Martins Bastos e Marcos José de Matos, sob as mes- 
mas condições e com autorização da Junta (i). 

Estes novos concessionários começaram a adminis- 
trar a oficina, mas não foram felizes, a pesar-de serem 
pessoas probas e trabalhadoras na opinião da Junta. 

Os oficiais da Fábrica não os deixaram descansar 
com constantes reclamações. Queixaram-se deles, di- 
zendo que a sua administração era o puro arbítrio, 
tendo os salários diminuídos sem ser por falta de tra- 
balho. Os 45 oficiais e i5 aprendizes que lá trabalha- 
vam em perfeita escravidão (dizem eles) representavam 
200 pessoas, que viviam na miséria. Os queixosos 
apresentam contas e cálculos tendentes a provar o lu- 
cro da oficina, dados esses que a Junta, informando, 
não julgava exactos. As 1.804 arrobas de marfim que 
se laboravam anualmente deviam de dar um lucro de 
mais de seis contos e quinhentos, quantia que ela supôs 
excessiva, não devendo estar certo o cálculo da labora- 
ção visto que diminuirá com o aumento dos direitos na 
entrada do marfim em Espanha. Foi isto em 1787, 
opinando a Junta que, quando se remodelasse a Fá- 
brica, se melhorassem as condições dos operários ; mas 
as reclamações já vinham de 1781 (2). 

Os artífices não desistiram. O benefício conseguido, 
por decreto de 24 de Abril de 1784, da isenção de di- 
reitos de saída para o marfim trabalhado se tornar ex- 
tensivo ao «retrasse» (desperdícios) e para que as cha- 



(1) Livro gi8-C de Decrelos e Avisos, pág. 20 e Sy. A auto- 
rização para o trespasse, deu-se por despacho da Junta de 19 de 
Março de 1780. 

(2) Livro g26 de Registo de Consultas, pág. 5 a 5 v.° — Con- 
sulta de 24 de Janeiro de 1781 e Livro g2~ de Registo de Con- 
sultas, pág. 46 a 5o — Consulta de 22 de Novembro de 1787. Pá- 
gina 55 a 56 v.">, idem — Consulta de 23 de Fevereiro de 1788, 



— Í77 — 

pas curtas e defeituosas pudessem entrar nas Conquistas 
pagando como marfim em bruto, melhorara as condi- 
ções da oficina, mas essa luta constante entre os ope- 
rários e administradores, estragava-lhe os efeitos (i). 

Em Maio de 1787 os oficiais Joaquim António de 
Seixas e Francisco José dos Santos, fizeram nova re- 
clamação para o que se solicitou a informação da Junta, 
em avisos de 21 desse mês, 10 de Outubro e 1 1 de 
Dezembro. 

Parece, pela instância, que havia resistência no dar 
do parecer, verdade seja que o último aviso era um 
tanto descabido, visto que o decreto de 16 de Novem- 
bro desse ano, declarava que o contrato da venda do 
marfim, com a Fábrica dos Pentes, fora arrematado pelo 
Erário Régio, tirando-se ao Bastos e ao Matos (2). 

No ano seguinte, ainda aparece, extemporanea- 
mente, outra instancia de consulta sobre requerimento 
dos operários da oficina, ao que a Junta respondeu que 
em face do decreto do ano anterior, tal assunto estava 
fora da sua alçada (3). O que os penteeiros queriam 
era constituír-se em corporação como os Mestres de 
largo de lavor da Real Fábrica das Sedas. Era a rein- 
vindicação operária do tempo. 

As dívidas dos administradores ao tempo da arre- 
matação pelo Erário, eram de 36.4475^911 (4). 



(i) Livro g26 de Registo de Consultas, pág. 83 a 83 v.°— Con- 
sulta de 7 de Janeiro de 17S4 e Livro C de Decretos e Avisos^ pág. 20» 

(2) Livro C de Decretos e Avisos, pág. 75, 79 a 81 v." 86, e 
Livro gig-i.° de Registo de Decretos.^ pág. 9 — Aviso de 7 de Ja- 
neiro de 1790. 

(3) Livro 927 de Representações e Consultas — Consulta de 
23 de Janeiro de 1788, pág. 55 a 56 v.» 

(4) Livro grg-i." de Registo de Decretos, pág. 9. 

VoL. IV 12 



— i'^È 



A Fábrica dos Pentes estava instalada nas casas, 
então n.°^ 49 a 5o e depois nas n.°* 49 a 52 do Bairro 
dos Fabricantes, naquela rua que, seguindo a direcção 
Norte-Sul, vai desembocar ao meio da praça, e hoje no 
nome a rememora. 

Os Róis dos Confessados da Freguesia de Santa 
Isabel que de vez em quando chamam Gabriel da Cru^ 
a La Croix, mencionam, em 1765, na oficina, os ofi- 
ciais João Lalau, João Pomier, Filipe Lamite e Antó- 
nio Rustier, e os aprendizes Manuel Roiz Pereira, José 
da Silva, F^austino José, Bernardo António, José Rufo 
e Domingos Roiz Pereira (que ainda lá estavam em 
1767), Manuel Reis, e António dei Rio. 

A mulher de La Croix, Antónia Daly, figura no Rol 
de 1767, com o oficial Rustier e os novos aprendizes 
Manuel António, Joaquim José, Fulgêncio José e Mi- 
guel Francisco que também se mencionam no ano se- 
guinte com mais estes : Manuel de Jesus, Francisco 
Tomás, Teodósio José, António José, Francisco José, 
Joaquim Henriques, António da Costa, João Guilherme, 
Benedito Sennin, José Joaquim, João Francisco e Fran- 
cisco Ricardo. 

Em 68, citam-se La Croix e 87 aprendizes inomi- 
nados, e, em 70, o mesmo com 32. Em 71, os Róis 
citam La Croix, sua mulher, Gabriel, filho menor, 3 
criados, os oficiais José Rufo e Manuel Roiz Pereira e 
25 aprendizes; e em 72, 6 aprendizes e 46 operários 
entre os quais dois estranjeiros, Sebastião Varonis e 
Pedro Varonis. 



— 179 — 



Na oficina de La Croix, fabricavam-se os seguintes 
artefactos : 

Pentes de marfim, de todas as sortes, e ainda de 
tartaruga (i) ; 

Bolas do dito para taco e bilhar; 

Facas de cortar papel e tirar pós; 

Colheres e garfos de marfim; 

Chapas de marfim aparelhadas para pentes; 

«Retrasse» e desperdícios de marfim; 

Caixas de cartão de todas as qualidades; 

Garrafas de vernizes de todas as sortes (2). 

O marfim para os pentes vinha do Brasil e de An- 
gola. Nos Livros da Junta da Administração das Fá- 
bricas, existentes na Torre do Tombo, registam-se nu- 
merosas ordens e avisos referentes a estas remessas. 

Desde 27 de Novembro de 1771 ao fim de 1772 vie- 
ram para a Fábrica 6.o5o pontas de marfim. Isto dá 
a medida da actividade fabril da oficina do Bairro das 
Amoreiras (3). 

A produção da Fábrica devia de ter sido enorme. 

Ale'm dos artefactos citados também nela se manu^ 
facturavam cabos de sinetes. Possuo um de evidente 
fabrico nacional e que sem grande erro se poderá atri- 
buir a esta oficina. Os pentes que anteriormente se 



(i) Os juízes do ofício de penteeiros queixaram-se, em Abril 
de 1777, à Junta do Comércio que La Croix fabricava pentes de 
tartaruga que eram privilégio deles. Foram atendidos {Parecer 
de 10 de Abril de 1777) ~ Livro gij-B de Decretos e Avisos, pág. 
2i5 a 216. 

(2) Livro A de Decretos e Avisos, pág. 100. 

(3) Idem, pág. 114, 114 v.", ii5, n5 v.» 128 v.", etc. — Avisos 
de 20 de Junho, 2 de Dezembro e 12, i3 e 19 de Dezembro de 1771. 



— iSo — 

vendiam no pais, vinham de Itália, de Espanha e de 
França, excepto os de corno que eram cá produzidos 
rudemente. No alvará de 24 de Março de 1764, sobre 
fardamentos, marcava-se entre outros acessórios para 
os soldados, «um pente da matéria vulgarmente cha- 
mada tartaruga do Alentejo)-) com ^s >< Vs ^^ palmo; 
O eufemismo e' gracioso. 

Em 1834, tinha uma fábrica de pentes, na rua Nova 
do Almada, n.° 61, um tal João José' de Sousa que 
anunciava na Gaveta n.° 18 daquele ano, «um novo 
gosto de Pentes Constitucionais». Talvez fosse ante- 
passado do famoso penteeiro do Pote das Almas, imor- 
talizado por Ramalho Ortigão, nas Farpas. 

Do fabrico antigo de pentes diz a Estatística de 
i552, publicada com o título deTratado da Magestade, 
Grandeia e Abastança, que havia na capital, então, seis 
tendas onde se faziam pentes, ocupando doze pessoas. 
Em Cristóvão Roiz de Oliveira lê-se: Carpinteiros que 
fa\em pentes, oito. 



A indijstria do Lacre, foi tambe'm cá introduzida por 
La Croix. Em 1781 erigia-se perto de Lisboa, ao que 
parece, outra oficina para este fabrico, tendo sido o 
privilegiado o Capitão José Gomes da Cruz, que o re- 
querera à Junta em Fevereiro desse ano(i). 

Nos primeiros anos do século xix, Matias da Cunha 
Ferreira tinha, no Rato, outra fábrica cujos produtos 
se vendiam na loja do Batalha, ao Chiado, a 1^600 e 
a 1ÍÍ&200 réis o arrátel (2). 

(i) Livro 925-2." de Representações e Consultas ~ Consulta 
de 23 de Fevereiro de 1781, pág. 16 e Registo de Manifestos n.° g3g 
— Real Resolução de 6 de Março de 1781. 

(2) Volume III desta obra, pág. 389. 



— i8i — 

Em 1814, havia outra fábrica na rua dos Remédios, 
ao Chafariz de Dentro (i). 

Deve-se igualmente a La Croix a introdução do fa- 
brico das bijuterias e a utilização dos «tornos ahos» 
manuais. Até aí só se utilizavão os «tornos de pé» (2). 

Para o fabrico das bijuterias, proposto por ele à 
Direcção das Fábricas, vieram de fora um mestre la- 
vrante e um ourives bijuteiro que trabalharam na fá- 
brica das Caixas. 

Conforme a sua proposta, esses mestres ensinaram 
em seis anos, seis aprendizes, formando um novo esta- 
belecimento de caixas do oiro em várias cores e de 
prata para tabaco e relójios, cadeias para relójios, de- 
dais para senhoras e outras galantarias pertencentes ao 
ofício, que cá se não faziam. La Croix orçava a des- 
pesa a fazer em 10.000 cruzados. Da produção desta 
oficina não consta nada nos muitos documentos que 
consultei, o que me leva a crer que apenas foi esboçada 
ou que não teve grande progresso, talvez pela excessiva 
despesa que acarretava(3). 

Como se vê por este relato, foi La Croix um espí- 
rito cheio de iniciativa, um artífice trabalhador e infa- 
tigável a quem os nossos inexperientes operários muito, 
deveram. Pena é que não chegassem até nós outros 
dados para a sua biografia (4). 



(1) Anúncio na Gaveta de 25 de Agosto de 1814. 

(2) Noções Históricas, Económicas e Administrativas, pág. 2 1 7. 

(3) Livro A de Representações e Consultas — Representação 
da La Croix à Direcção de 10 de Setembro de 1773, pág. 80 a 8r. 

(4) Sousa Viterbo, menciona, num artigo publicado no Diá- 
rio de Noticias, que num dos Avisos do Ministério do Reino (co- 
lecção da Torre do Tombo) aparece uma queixa feita por La 
Croix contra um tal Francisco Patrício, 



l82 



La Croix que tomara, como vimos, a Fábrica de 
Caixas de Carlão e Vernizes nas condições que cons- 
tam da consulta de 12 de Dezembro de 1777, passou-a 
em 1784 a José Francisco dei Cuôco, com autorização 
dada pela Real Resolução de 28 de Abril desse ano, 
sobre informação obtida da Junta em 22 do mesmo 
mês(i). 

Del Cuôco, que já trabalhava na oficina, era napo- 
litano e estivera em Madrid trabalhando para o rei 
Carlos III, como pintor de esmalte (2). 

A Fábrica que estivera em decadência tinha feito 
progressos. Só em 1783 produzira 604 caixas finas, 
27.340 entrefinas e 839 bandejas pintadas e enverni- 
zadas (3). Para as caixas e bandejas empregava-se a 
«goma jatubá», ou goma-copal, que dei Cuôco conse- 
guira dissolver e que a Junta da Administração das 
Fábricas do Reino encomendava à Companhia do Grão 
Pará e Maranhão (4). 

Aparecem frequentemente, pelos bric-a-bracs e entre 
as colecções particulares, artefactos desta oficina. As 
Caixas eram em geral, redondas, ovaladas ou elípticas, 
pintadas frequentemente de azul sobre que apareciam 



( 1 ) Livro Q28'2.° de Representações e Consultas, pág. 5, 5 v.°, 
83, 91 v.° e 92 e Livro C de Decretos e Avisos, pág. 19 v." O con- 
trato do trespasse fêz-se no tabelião Escopezzi (escritura de i3 
de Outubro de 1/84). 

(2) Memórias de Cirilo Volkmar Machado. Artigo consagrado 
ao pintor Joaquim Marques, falecido em Lisboa em 21 de Maio de 
1822. Está sepultado em S. José. 

(3) Livro g'2.6-2.° de Representações e Consultas, pág. 91 v.° 
e 92. 

(4) Livro gi6-A de Decretos e Avisos, pág. 70 v,° 



— i83 — 

paisagens e figuras. Bandejas axaroadas e pintadas, 
encontram-se algumas lindas. Possuo uma que atri- 
buo, com segurança, à oficina de dei Cuôco, oval, que 
apresenta no fundo uma composição — «O Triunfo de 
Aujitrite» — pintada por um verdadeiro artista. Dese- 
nho seguro e coloração admirável. É um quadro. Ou- 
tras decoram-se com paisagens e flores. Tenho visto 
muitas que devem ser do espólio da antiga fábrica de 
La Croix. 

Trabalharam lá excelentes artistas. Um deles, se- 
gundo o testemunho de Cirilo Volkmar Machado, foi o 
nosso Joaquim Marques, amigo de Pillement, pintor 
de seges e de bandejas, especialista, segundo este seu 
biógrafo, em paisagens «de uma botânica imaginária» e 
autor de alguns quadros que hoje têm cotação no mer- 
cado (i). Suponho que será da mão dele a bandeja a 
que fiz referência. 

Volkmar Machado cita outros artistas que, como Joa- 
quim Marques, foram aprendizes nas Amoreiras. Este 
esteve lá a trabalhar quinze anos, sendo cinco como 
aprendiz. Miguel Francisco dei Cuôco, filho do Mestre 
foi um deles. Os outros foram um tal Florindo, João 
Lopes, Sebastião Clemente Schiappa Pietra, Manuel 
dos Santos Freitas, José Pereira e Luís António. 

Manuel dos Santos Freitas era bom artista mas teve 
um grave defeito : ser amigo dos franceses. Esteve 
preso por isso, e acabou por ser degredado para Africa, 
por fazer saúdes a Napoleão quando estava preso no 
Limoeiro. 

Luís António, era da família dos Chinas. Era neto 



(i) No leilão Ameal, de 1924, em Coimbra venderam-se dois 
quadros de scenas campesinas, deste autor, medindo um 0,37X0,60 
e outro 0,63 X 0,87. Ambos estavam assinados, e este datado de 
1794. Alcançaram elevados preços. 



-i84- 

do pintor de esmalte Alexandre Geraldes que o De- 
zembargador Metelo de Sousa e Meneses trouxe con- 
sigo quando veio da embaixada da China. Di-lo Vol- 
kmar. 

Na oficina de dei Cuôco, segundo o mesmo infor- 
mador, esteve como mestre de desenho um tal Mr. Ge- 
rarde, tendo também ali trabalhado um pintor, de nome 
Carobene que era bom mas que lá se demorou pouco(i). 

As bandejas da Fábrica das Amoreiras eram de 
ferro, cobre e madeira axaroada. Também lá se axa- 
roavam móveis diversos (2). 

Aparecem também, às vezes, nas lojas de antigui- 
dades, caixas de sola, pintadas. São produtos de uma 
fábrica que se erigtu em Lisboa em 1782(3). 

Del Cuôco, em 1785, por alvará de 21 de Setem- 
bro, teve prorrogação de privilégios por mais dez anos, 
sobre consulta da Junta de 26 de Agosto que lhe foi 
inteiramente favorável (4). Ignoro quando a oficina 
acabou. 



Foram numerosas as fábricas que no tempo de Pom- 
bal e por iniciativa conjunta, dele, da Junta do Comér- 
cio e da Direcção da Real Fábrica das Sedas, se cria- 
ram e se anexaram a esta última instituição fabril, que 
era, por assim dizer, a Fábrica-Mãe, centro dessa irra- 



(1) Citadas Memórias de Cirilo Volkmar Machado. 

(2) Livro gSi de Registo de Atestações — Alvará de 27 de Ju- 
lho de 1778, pá. i3o. 

(3) Idem — Alvará de 19 de Abril de 1782 criando a fábrica, 
pág. 162. 

(4) Livro (j3g de Registo de Manifestos, pág. 12; Livro gzj-S." 
de Registo de Consultas, pág. 9 ; e Livro C de Decretos e Avisos, 
pág. 47. 



— i85 — 

diação industrial. Algumas dessas novas fábricas ins- 
talaram-se no bairro dos Fabricantes, outras, fora dele 
e outras ainda fora de Lisboa. Estudá-las hemos se- 
gundo esta ordem. 

RatoHy seguro crítico da sua época, espírito lúcido 
e recto cujas Recordações constituem um dos manuais 
do investigador da época Pombalina, pÕe-nos ao facto, 
em poucas palavras, do nosso atrazo industrial. 

Os chapéus bragueses, os panos de Guimarães, as 
ferragens grosseiras do Minho e as saragoças, consti- 
tuíam a nossa produção. Tudo o mais vinha de fora (i). 

Com a criação da Junta do Comércio e a fundação 
do bairro dos Fabricantes deu-se o primeiro impulso a 
esse ramo de actividade em que o próprio Ratton tam- 
bém, e corajosamente, cooperou. 



A primeira fábrica anexada foi a de Cutelaria que 
principiou em 1764 por contrato celebrado com o mes- 
tre francês Jacques Duioit e com sua mulher Isabel 
Francisca Dutoit, em i de Junho desse ano. A êle 
competia a direcção da oficina; a ela a venda dos pro- 
dutos manufacturados, por conta da Direcção da Fá- 
brica das Sedas, obrigando Dutoit a ensinar o ofício 
aos aprendizes (2). O francês, porém, nunca satisfez 
a esta condição. Para temperar o aço fechava-se em 
um compartimento às escondidas e nada ensinava, 
ameaçando retirar-se para a sua terra sempre que a 
Direcção lhe falava no cumprimento das suas obriga- 



(i) Recordações, § 35. 

(2) A propriedade onde se instíilaram era a que então tinha o 
n." 48 na Praça dos Fabricantes, 



— i86 — 

ções. Resolveu-se, pois, representar ao Marquês de 
Pombal comunicando-lhe a teimosia do Duloit, e assim 
se fêz em lo de Maio de 1769, sendo imediatamente o 
assunto resolvido pela prisão do fabricante, à ordem 
do Conservador da Fábrica, Bento de Barros Lima. 

No Tronco, amansaram-se-lhe as iras. Prometeu 
ensinar os aprendizes e lá saiu sob fiança, a assumir 
novamente a direcção da oficina. Dois anos depois 
morreu e a sua viiáva foi para França, depois da Direc- 
ção lhe conceder uma ajuda de custo para a viagem, 
em atenção aos progressos da Fábrica (i). 

Passou então a dirigir a Cutelaria António João 
Baptista Charlier por novo contrato feito em i de Junho 
de 1771, sendo-lhe mais tarde transmitida a propriedade 
dela, com uso gratuito do edifício, em 17 de Outubro 
de 1777. Charlier servia há dez anos, sendo cinco como 
Mestre desde a morte de Dutoit. Os móveis, utensílios, 
materiais e manufacturas, [obrigava-se Charlier a pa- 
gá-los, em prestações, no prazo de dez anos, ficando a 
dirigir, independentemente, a oficina que poderia mu- 
dar para qualquer outro sítio, fazer obras, gozar as 
casais gratuitas por um ano, admitir aprendizes, etc. O 
inventário e a avaliação por peritos da existência fo- 
ram concluídos em 4 de Outubro de 1777(2). 

O facto deste estabelecimento ter dado de perda 
cerca de catorze contos de réis (i3.7i8íi!í»i68 re'is) não 
quere dizer que tal empresa fosse prejudicial; pelo 
contrário. Deu oficiais habilíssimos que se espalharam 
no reino e do que resultou o aperfeiçoamento da pró- 



(i) Livro A de Registo dé Estatutos, pág. 67 a 68 v.° e 1 18 a 
118 v.° — Decreto de 2 de Junho de 1769, ordem de soltura de 5 
de Maio de 1769, aviso de 23 de Maio de 1769 e consulta de 17 de 
Maio de 1771. 

(2) Livro B de Decretos e Avisos, pág. 22S a 242. 



— 187 — 

pria cutelaria minhota. O Estado perdeu nessa oca 
sião, mas veio a ganhar mais tarde com os lucros par- 
ticulares e com o engrandecimento da indústria, o que 
semelhantemente sucedeu com outras fábricas. 

Foi contramestre da Fábrica, nomeado por ordem 
da Direcção de 7 de Julho de 1769, Joaquim Nunes 
Carnide, sendo Dutoit obrigado, à força, a ensínar-lhe 
a têmpera do aço. Em 1781 o Mestre da oficina era 
João Peixoto, aprovado por caria da Direcção de 3i de 
Julho desse ano(i). 

Do inventário feito por ocasião da entrega da Fá- 
brica a Charlier, em 4 de Outubro de 1777, ficamos 
sabendo que nesta oficina pombalina se fabricavam os 
seguintes artefactos : 

Facas ; 

Navalhas ; 

Canivetes ; 

Tesouras ; 

Raspadeiras ; 

Garfos ; 

Instrumentos cirúrgicos. 

As facas facturavam-se com os respectivos cabos 
que eram de pau, chamado Sebastião da Arruda, de 
lixa verde, de madre pérola, de ébano, de pau santo, 
de prata, de prata com fios de madre pérola, de oiro 
com entrecanas e botão. As facas de mesa, algumas 
tinham argola lisa ou lavrada, de prata ou de latão. 

Aparecem facas com cabo esmaltado, outras guar- 
necidas de latão com os bicos escondidos, e ainda facas 
do «toiletíe», facas «curvas», facas «de ofício», facas 
«de cozinha» e facas «de cabeleireiro». 

As navalhas eram «de barba», «de algibeira», «de 
mola», «de enxertar», e «com sacarrolhas» o que, como 



(i) Livro A de Registo de Estatutos, pág. i3i y.o 



— i88 — 

se vê, não é novidade moderna. Citam-se algumas com 
fio de prata e uma «com fôIha de oiro e folha de aço, e 
cabo de madrepérola», que devia ser objecto luxuoso 
pois tem a avaliação de i6ííooo réis. Os cabos eram 
de chifre, de tartaruga, de barba de baleia, de pau 
«Sebastião d'Arruda)), de pau santo e de prata. 

Canivetes, fabricavam-se «à francesa» e «à inglesa», 
com cabos de pau, de tartaruga, de marfim e de ágata. 

As «tesouras» eram também «à francesa» e «à in- 
glesa» ordinárias, para cabelo, lavradas, grandes, de 
costura, de unhas, para cortar papel, para cortar seda 
e para fábricas de panos. Não faltava onde escolher. 

De «raspadeiras» não se mencionam variedades. 

Os «garfos» eram de aço e de prata, uns «à inglesa» 
com cabo de tartaruga, outros com cabo de ébano, de 
marfim, de tartaruga, e de prata com a argola do es- 
tilo. 

O fabrico dos «instrumentos cirúrgicos» era já con- 
siderável, então. A oficina de Dutoit e de Gharlier 
(creio ser isto uma absoluta novidade para os leitores) 
produzia : Arvores de Trépano com quatorze peças, 
Fórceps, Facas para a extracção da pedra (operação 
da talha), «Litotons» ou «litotoens» com cabo de tar- 
taruga, designação que deveria corresponder aos Lito- 
tritores de agora, Tesouras, Saca-balas, Pinças para 
polipios (sicj, «Fresquinos» (que não acerto com o que 
fosse). Botões de crista (?), Pinças para o cabelo, «Spe- 
culum Oris» (será «Speculum Auris», para exame dos 
ouvidos?). Ferros vários para partos, «Pé de Veado» 
para os dentes (ferro de extracções ; taltez o pied de 
Biche, francês), Levantadores, Facas semi-curvas, Es- 
pátulas, Ferros de cauterizar. Tenazes, Serrotes (para 
serragem de ossos), «Gorgeretes» (?), «Kataters» (al- 
gálias de prata), Alçapremas (garrochins ?), Agulhas 
de laquear, entre-costais e para o nariz, Postumeiros 



- i89 - 

(para abrir póstemas ?~), Tenta-canulas, Folhas de vistu- 
rins (sicj lisas ou com botão e cabo de tartaruga, Cabos 
e canudos de Trocates, com ou sem colheres, Goivas, 
e Lancetas(i). 

O inventário acusa uma grande quantidade de lan- 
ceias (i.ooo). Este número só é excedido pelo das 
navalhas de barba, que eram i.3oo. 

Alguns dos instrumentos cirúrgicos, cuja relação é 
interessante, até scientificamente, vendia-os a Fábrica 
em estojos de lixa-verde, como por exemplo as lancetas 
e as agulhas, e ainda as árvores de Trépano. 

Acondicionam-se igualmente em estojos de lixa, os 
tallieres, navalhas, tesouras, facas, etc. Alguns desses 
estojos tinham charneiras e guarnições de prata. To- 
dos nós conhecemos esse tipo de estojos forrados de 
veludo agaloado de oiro, e ainda por aí aparecem com 
frequência nas lojas de antiguidades. Para outros arte- 
factos, como facas, navalhas, tesouras, usavam-se, tam- 
bém, bainhas de lixa. Algumas destas aparecem no 
inventário, mencionadas com charneiras e botões de 
prata e oiro. 

Outro artefacto fabricado na oficina das Amoreiras 
eram «cabos de chaves inglesas», que, segundo creio, 
eram ferros de extrair dentes. 

Tal é o material que nos fornece o Inventário de 4 
de Outubro de 1777(2). 



(1) As observações feitas à lista dos instrumentos cirúrgicos, 
derivam de esclarecimentos que me foram dados pelo meu ilustre 
amigo e confrade Dr. Xavier da Costa. 

(2) Livro gij-B de Decretos e Avisos^ pág. 228, 23o a 241, e 
283 a 284. 



igo 



No LijTe desVentes faites par Mv. e Madame Dittoit 
des ourrages de coutelerie (n." 283-A da Colecção da 
Junta da Adminislração das Fábricas do Reino) lê-se : iin 
instrument en acier à deiix boutspor netoyer les dentes, 

l Seria esta peça a que o Inventário chama pc de 
peado ? Se é assim ficou mal incluída na lista dos ins- 
trumentos cirúrgicos. 

No século XVI, cá em Portugal e Castela, limpa- 
vam-se os dentes com penas de galinhas, como se vê 
no noticioso Jorge Ferreira de Vasconcelos (Comédia 
Ulissipo). 

Fica assim prestada homenagem a esses antepas- 
sados da nossa comezinha escova de dentes. 

No mesmo livro escriturado em francês por Ma- 
dame Dutoit que o fecha em i de Julho de 1777, por 
morte de seu marido, para entrega da oficina a Char- 
lier, aparecem ainda na descriminação das vendas — iin 
pair de ci^eanx à la Potíipadour uny avec son agrafe 
et son etuit de verí poly, iin Pelican en bois et en fer^ 
iin instrument à la Garanjot, e une trousse à la Garan- 
jot composta de tesouras de incisão, pinças, agulhas, 
estiletes, uma espátula, sonda canelada, sonda para 
fístulas e sonda «a la poitrine». Suponho que Garan- 
jot seja o nome de um cirurgião francês, que denomi- 
nasse tais instrumentos no seu conjunto e isoladamente. 
A trousse custava, por sinal, 19^^200 réis. 

Os materiais que se usavam na Fábrica, eram o 
ferro que vinha de Biscaia, o aço sueco, limas ingle- 
sas, carvão de pedra, azeite, mós de pedra, tartaruga 
etc. (i). 



(i) Livro g36 da Colecção da Junta. 



- igi - 



As lanceias nunca se produzirana capazes no pri- 
meiro período da oficina e vendiam-se caríssimas, a 
ponto de os cirurgiões reclamarem ao Mestre Ghar- 
lier, em 1772, e de este expor o caso superiormente, 
com o parecer de que se lhe deviam diminuir os pre- 
ços de 5o %, tanto mais que era o único produto que 
não sofrera ainda qualquer abatimento (i). Em vista 
da sua inferior qualidade, fizeram-se em 1778 novas 
condições com um Mestre cutileiro, perito no fabrico, 
chamado Raimundo António dos Santos. 

Este sujeito era natural de Coimbra e estivera em 
França aperfeiçoando-se em várias fábricas. Pelas con- 
dições estabelecidas, obrigava-se a ensinar dois apren- 
dizes e a mandar vir de fora os oficiais que precisasse, 
assim como as matérias primas, podendo instalar a 
fábrica em Lisboa onde entendesse. Cedeu-se-lhe, por 
empréstimo, 240^75000 réis e autorizou-se Charlier a ce- 
der-lhe, igualmente, da sua oficina o que necessitasse (2). 

Já em 1773 se mandara vir de Itália, a requisição 
do Mestre da Fábrica de Ferragens de Cirurgia, por 
ordem de el-rei e de Pombal, aço Efans, pau santo, 
tartaruga e marfim (3). 

Tenho notícia de mais as seguintes oficinas de cuti- 
laria : — a de Manuel Fernandes, erecta por alvará de 
16 de Dezembro de 1778; outra de Charlier, que dei- 
xara a Fábrica das Amoreiras, por alvará de 1 1 de 
Fevereiro de 1779; a de António José Ferreira, por 



( 1 ) Livro g36 da Colecção da Junta. 

(2) Livro giy-B de Decretos e Avisos^ pág. 283 a 284 — Infor^ 
mação da Junta de 12 de Agosto de 1778. 

(3) Livro g3g de Representações e Consultas^ pág. i. 



— i92 — 

alvará de i3 de Maio de 1782; a de Estácio Ribeiro 
por alvará de 27 de Novembro do mesmo ano ; e a de 
António Ribeiro, por alvará de 29 de Agôslo de 1786 (i). 

Os Róis dos Confessados da Freguesia de Santa 
Isabel^ citam alguns nomes dos artistas que trabalha- 
ram na fábrica pombalina de Cutelaria, que se insta- 
lara nas casas n.°^ 47 a 48 do Bairro dos Fabricantes. 
O nome do primeiro mestre aparece sucessivamente 
alterado. Ora e' Dutuoy ora Dutuit, ora Dutuá, ora 
Dutuil. 

Em 1765 como aprendizes mencionam-se Estácio 
Ribeiro que, como vimos, saiu para montar uma fá- 
brica, António José de Oliveira, Joaquim José, Domin- 
gos da Costa, António José' de Albuquerque, Joaquim 
José Ferreira, Diogo Pinheiro e Raimundo António dos 
Santos que veio a ser o mestre da Ferragem de Cirur- 
gia. Em 1766 aparece mencionado o mestre e sua mu- 
lher Isabel PVancisca, os aprendizes já citados e mais 
José da Silva. Em 1767, os mesmos e mais os oficiais 
António João Baptista Charlier, Honoré Lambert e 
Hubert Joseph, além de José Lourenço, João Peixoto 
(que foi mestre em 1781), Francisco Caetano, António 
Roiz Iria e Tomé do Nascimento. Em 1770 além de 
Dutoit, da mulher e de Charlier, só se mencionam i5 
aprendizes. Em 1771, já falecido Dutoit, cita-se a viúva, 
o Charlier, Estácio Ribeiro, Domingos da Costa, e 5 
operários e 8 aprendizes sem designação especial ; e, 
em 72, só 9 aprendizes, o Estácio e o Charlier (2). 



(1) Livro (j5i de Atestações, de 10 de Novembro de lyjS ao 
fim de 1786. 

(2) Róis dos Confessados da Freguesia de Santa Isabel, anos 
citados no texto. 



— 193 — 



Outra Fábrica, a de Relójios, estabeleceu-se, tam- 
bém, no, então, prédio n.° 67 a 68 da Praça, em 1765. 
O seu primeiro Mestre foi Cláudio Berthet, sujeito que 
deu que fazer, pelo seu feitio estomagado, a toda a Di- 
recção em peso. Viera de Espanha por motivos idên- 
ticos aos que o levaram de cá — as contínuas e irri- 
tantes desordens que promovia. Como, porém, vinha 
com fama de bom relojoeiro receberam-no de braços 
abertos e firmaram com êle o Contrato de i3 de Março 
de 1765, para dirigir a oficina. 

Não saiu o negócio tão bom como parecia, porque Ber- 
thet era só especialista tm pêndulas, isto é, em relójios 
de parede ou de mesa. Os de algibeira, que eram pro- 
duto de maior consumo e os que mais urgiam no nosso 
mercado, não os fabricava, e os aprendizes, embora 
fossem bastantes, não lucraram muito com as suas li- 
ções. 

Quis o acaso que Berthet adoecesse e se tornasse 
necessária a admissão de um contramestre. O desgra- 
çado Jacinto Manuel de Sousa que a Direcção nomeou 
para esse cargo, não tardou muito que não apanhasse 
uma bofetada do irrascível artífice, acompanhada de 
tais epítetos que a sua situação ali dentro se tornou 
insustentável. Berthet foi preso e esteve no Limoeiro 
até 10 de Abril. A desordem fora em Fevereiro de 
1770. Com estes sucessos ficou a Fábrica paralizada 
perto de dois meses (1). 



(i) Livro A de Estatutos e Decretos^ pág. 80 v.°, 81 e 8. 
VoL. IV i3 



- 194 



Em Maio de 1770, trespassou-se a oficina a um pa- 
trício de Cláudio Berihet, ciiamado António Durand 
que se obrigou a pagar, em três prestações, no prazo 
de oito anos, o valor de todo o conteúdo do estabele- 
cimento fabril e a ensinar os aprendizes, sustentando- 
-Ihe a Direcção os primeiros vinte e cinco por tempo 
de quatro anos. 

A-pesar-de tudo isto e do uso gratuito da Fábrica, 
pelos mesmos oito anos, poucos resultados deu, sendo 
o prejuízo de 25.3o6íf)424 re'is(i). 

António Durand, em 1776, requereu a Pombal a 
modificação das condições do seu contrato. A sua prin- 
cipal alegação era que, ensinando Berthet aos apren- 
dizes durante os três anos da sua direcção, apenas o 
fabrico de relójios de parede e de mesa, a Junta tinha- 
-Ihes passado cartas de oficiais de toda a obra, faltan- 
do-lhes esse período para os dez que os habilitaria 
para artífices de relójios de algibeira. Pedia à Junta 
que lhe abonasse as comedorias aos aprendizes por 
mais três anos e que não passasse «cartas» nessas con- 
dições. Os membros da Junta não lhe acharam razão 
por quanto isso redundava no prejuízo de ter-se de ali- 
mentar os aprendizes por mais dos dez anos do con- 
trato. 

Durand, pretendia o novo privilégio com sobrevi- 
vência no seu filho, pro"ibição de entrada no país dos 
relójios estranjeiros, obrigatoriedade de exame aos re- 
lojoeiros de loja aberta, mudança da sua oficina, dando- 



(i) O contrato de trespasse fora prorrogado por oito anos, 
por despacho de 14 de Dezembro de 1775. 



— igS — 

-se-lhe a importância do aluguel que para ela se cori- 
seguisse e uma tença de 2oOvj^ooo réis. A Junta informa 
bem excepto no que respeitava à proibição de entrada 
dos relójios e ao exame alvitrado para os relojoei- 
ros (i). 

No ano seguinte Durand, solicitou a Pombal o em- 
préstimo de dois contos de réis pela obrigação de dí- 
vida que tinha por artefactos vendidos a Domingos 
Jorge Ferreira e a Joaquim António Alberto, proprietá- 
rios da nau «S. Francisco de Paula, Santa Eulália e 
Almas» que se esperava em Agosto de 1776. O pe- 
dido foi feito em Fevereiro. A Junta informou bem da 
pessoa de Durand, do seu zelo, competência e bons 
serviços, mas achou arriscado o empréstimo (2). 

Mais tarde, em 1781, tornou a pedir a tença de 
200í5f)000 réis, com sobrevivência para sua mulher e 
para os seus três filhos a quem êle ensinara também 
o fabrico de relójios. A informação foi boa, pore'm a 
Junta, lembrava que o dinheiro não saísse dos seus co- 
fres que já não chegavam para tantas despesas (3). 

Quando Durand tomou a oficina, tinha havido ou- 
tros pretendentes — os oficiais Joaquim José Pires e Ja- 
cinto Manuel de Sousa, associados para esse efeito. 

Ás condições que apresentaram, a Junta preferiu as 
de Durand que importavam o dispêndio anual de réis 
i.2422í)Ooo, ao passo que as deles levavam esse gasto 
a 1.478CÍ1000 réis. Com a oficina, em tempo de Ber- 
thet, a despesa fora de 3.363;3^200 réis anuais (4). 



(i) Livro B de Decretos e Avisos — Informação de 19 de Maio 
de 1775 e de 28 de Fevereiro de 1776, pág. 87, i55 a iSg, 161, 192 
a 193. 

(2) Idem, ibidem. 

(3) Livro g26 de Representações e Consultas, pág. 8 v.° e 9 — 
Informação de 16 de Fevereiro de 17S1. 

(4) Livro giõ-A de Decretos e Avisos, pág. 90 a 91 v." 



— 196 — 

Quando Durand tomou conta da Fábrica havia ali 
grandes quantidades de relójios feitos e considerável 
número de peças, pêndulas, molas, movimentos, etc. 

Durand deu notável progresso ao fabrico, tendo ma- 
nufacturado alguns relójios de «ideias novas» e aumen- 
tando extraordinariamente as vendas (i). 

Na oficina, no Bairro dos Fabricantes, os Róis de 
Confessados, mencionam de 1766 a 1772, os seguintes 
artífices : 

— Cláudio Berlhet, com seus filhos, e sua mulher Joana 

Berthet, de 1766 a 1770. Em 1770 faleceu ele; 

— António Durand, em 1771 e 1772, com sua mulher 

Isabel Durand, suas filhas Catarina e Maria e 
seus filhos Angelo e João. O terceiro filho não 
aparece mencionado ; 

— Henrique Ludovico, oficial, de 1766 a 1769; 

— Bernardo Vicente Lavinha, oficial, idem ; 

— Joaquim José Ferreira, oficial, idem; 

— Anastácio José, oficial, idem; 

— João Caetano Martins, oficial, de 1767 a 1770; 

— José Vital, oficial; 

— Pedro Perada, oficial ; 

— Tomás F^ilipe, oficial ; 

— João Roiz, oficial ; 

— Nicolau Ugote, oficial, de 1768 a 1771 ; 

— Joaquim Francisco Bigot, oficial, de 1768 a 1771 ; 

— Francisco Guilhobert, oficial, de 1768 a 1771; 

— Pedro Rozani, ou Bugóni, oficial, de 1768 a 1772; 

— Bernardo José de Sousa, oficial, de 1768 a 1772; 

— António Lopes, oficial, de 1768 a 1772; 

— Francisco Miranda, oficial, de 1768 a 1772; 



(i) Citada ÍM/ormjfão da Junta de 19 de Maio de 1775, pág. i55 
a 159 do Livro B de Decretos e Avisos. 



— 197 — 

— Joaquim Pedro, oficial, de 1768 a 1772; 

— Joaquim Manuel Roiz, oficial, de 1768 a 1772; 

— José Ferreira Santiago, oficial, de 1768 a 1772; 

— Luís José de Almeida, oficial, de 1768 a 1772; 

— João Jácome Brunieri, oficial, em 1771(1). 

Em 1772, além de Durand e da família, havia na 
oficina 24 operários^e 4 aprendizes; em 1771, 25; e em 
177, 24. 

* 

Nos papéis e livros da Junta, encontro notícia de 
ter o Marquês de Marialva, grande coleccionador de 
relójios, no dizer de Beckford, comprado a Berthet 
um relójio de parede por ôgcs&ôoo réis. Nas contas 
aparece esta verba entre as dívidas à Fábrica. A Di- 
recção notificou-o ao Marquês que declarou ter pago 
ao Mestre o relójio. Como este (1774) já tinha fale- 
cido e o filho estava ausente, a Direcção resolveu que 
essa quantia entrasse nos «ganhos e perdas» (2). 

Em 1785, o capitão de uma nau, surta no Tejo, 
comprou na Fábrica das Amoreiras, vários relójios fa- 
bricados por António Durand, no valor de 1.670^5100 
réis (3). 



Muitos aprendizes e oficiais desta oficina Pomba- 
lina, estabeleceram-se depois por conta própria, em 
Portugal, na índia, no Brasil e até em Moçambique 



( 1 ) Róis dos confessados da Freguesia de Santa Isabel, anos 
citados no texto. 

(2) Livro B de Decretos, etc. — Ordem de 26 de Janeiro de 
1774, pág. i55 a iGi e 192 a 193. 

(3) Livro <j23 de Registos de Avisos da Junta, pág. i3. 



- 198 - 

onde um dos filhos do Mestre conseguiu montar uma 
fábrica que lhe mereceu uma tença de 2oo3í)00o réis (i). 

O alvará de 21 de Junho de 1785 concedeu ficença 
para José da Silva Mafra, erigir uma fábrica de peças 
de relógios (2). 

Um Mr. Durand, que talvez fosse um outro filho de 
António Durand, tinha em 1785 uma fábrica de relójios 
na rua da Madalena (3). 

Nos «bric-a-bracs» aparecem às vezes à venda reló- 
jios portugueses. Lembro-me de um exemplar notá- 
vel que esteve numa relojoaria da rua do Oiro, do 
lado oriental, quási junto ao Rossio, que era fabrico da 
oficina pombalina do bairro dos Fabricantes, o qual mar- 
cava os dias, as luas, as estações, etc. 

Num «bric-a-brac» do largo de S. Roque que já não 
existe, esteve em 1918, um relójio de pesos, de caixa 
grosseiramente acharoada, tendo gravados no mostra- 
dor, ao alto: Manoel da Costa o fe:{aos Cap.°^ (Capu- 
chos) em jy28. No mesmo estabelecimento, outro re- 
lójio de mesa, tinha, também, gravado no mostrador : 
Dar Silencio. 

José Francisco Leite era outro fabricante cujo nome 
se lia em abreviatura num relójio de pesos que se ven- 
deu num leilão da rua de Santo Antão 76, 2.°, em i de 
Novembro de 1920. 

Em Santarém também houve fabrico de relójios. 
O relójio da torre da igreja matriz de Alcanena lê-se, 
gravado no mostrador amarelo: Ant.° Jo^é Fer.^ ^ fo^ 
em Santarém na era de ijg2{4). 



(i) Real Resolução de 21 de Novembro de 1791. 

(2) Livro gSi de Atestações, pág. 262. 

(3) Gaveta de 2 de Agosto de 1785 — Anúncio. 

(4) Azulejos Datados — 1/ série — pelo Dr. Vergílio Correia 
pág. II. 



— 199 — 

Em Barcelos e na Maia houve igualmente fabrico 
de pêndulas e oficinas de serralheiros de relójios de 
caixa alta. Num, sob os ponteiros, lê-se a assinatura 
de Lourenço Gomes Namaia. Este relójio está na 
Câmara Municipal de Aveiro (i). Na «casa da Ponti- 
nha», em Estarreja, da herança de Francisco Barbosa 
Sotomaior, está outro assinado pelo mesmo Lourenço 
Gomes na Maia. 

Este fabricante era bisavô de um médico por- 
tuense do mesmo apelido, professor no Porto em 

1921(2)- 

De António Francisco Silva é o relójio de mostra- 
dor de cobre, que está na casa da Espinheira, conce- 
lho de Vila do Conde, pertencente à mesma herança. 
Está assinado com os dois primeiros nomes em abre- 
viatura. 

Vi outro relójio, num leilão na Póvoa de Varzim, 
em 20 de Novembro de 192 1, estilo inglês, que tinha 
no mostrador, gravadas, dentro de uma oval, e entre- 
laçadas, as letras J. A e P. e por baixo o n.° 3. Era 
de evidente fabrico nacional. 

Numa loja de relojoeiro da rua do Souto em Braga 
vi, também, em 1917 um relógio de mesa em cujo mos- 
trador se lia : Jo^é Franc.^ de /Ir." (Araújo) fés em 
Barcellos no anno de 1774^ 

No relójio carrilhão de Alcobaça está a seguinte 
marca — Veyga Condeixa — que parece referir-se ao 
nome do fabricante e ao local do fabrico. 

Outros nomes haverá a colher. A lista é escassa, 
mas foi o que pude achar nos meus verbetes. 



(i) Informação do pintor sr. Alberto Sousa. 
(2) Informação do sr. Conde de Azevedo. 



CAPITULO IX 



Sumário: Continua-se a matéria do capítulo antecedente — Uma 
digressão a propósito de relójios — De Frei João da Comenda 
a Cláudio Berthet — O príncipe D.Teodósio fabricante de 
relójios — Citam-se vários relójios e relojoeiros — Fábricas 
de Serralheria em Lisboa e Pernes — Os Schiappas-Pietras 

— Progressos destas oficinas — Diz-se o que lá se fabricava — 
Encomendas importantes — Um trono-jaula para el-rei D. José, 
mandado fazer por Pombal — Fábrica de Limas em Alcân- 
tara — Diz-se o que se fabricava nestas oficinas — A Fábrica 
de Botões e a dj objectos de estanho de Guilianetti — Re- 
clamações dos latoeiros — As abotoaduras setecentistas — Bo- 
tões de estanho, casquinha e prata — Citam-se algumas ofi- 
cinas metalúrgicas da época — A Fábrica de Fundição de 
Metais — Manufacturas propostas para a sua importação ser 
proibida — Leiloa-se a Fábrica — Uma tapeçaria encomen- 
dada pelo Conselheiro Sobral — Outra fábrica em Estremes 

— Outra vez a Oficina de charões, vernizes e caixas — Suas 
vicissitudes — A Aula de Estuque e Desenho — Seus discípulos 
e aprendizes — Reclamação contra os estucadores, não habili- 
tados — Uma lista de fábricas pombalinas privilegiadas — Os 
documentos da «Junta da Administração das Fábricas» e a 
História da Indústria Portuguesa. 



Uma digressão a propósito : 

O primeiro relojoeiro português de que existe me- 
mória foi um fradinho de Leça da Palmeira, francis- 
cano da província da Piedade que viveu nos fins do 
se'culo XV. Chamava-se Frei João da Comenda. Fêz 
nada menos do que trese relójios : nove para os con- 
ventos da sua província, dois para a ordem de S. Je- 



— 202 — 

rónimo (Espinheiro e Pêra Longa) e outro para um 
convento cujo nome ignoro (i). 

Camilo Castelo Branco no seu livro Capar em mi- 
nas, refere a lenda do relójio de Leça. Duzentos anos 
depois de falecer o frade, regulava ainda e pedia um 
pater-nosier por alma do artífice. 

Em tempo de D. João III há memória e notícia de 
um João Gonçalves, exímio relojoeiro que construiu o 
grande instrumento de sombras inventado por Pêro 
Nunes. D. João de Castro menciona-o no seu Roteiro. 

O Sumário das Noticias de Lisboa, de Cristóvão 
Rodrigues de Oliveira, indica quatro serralheiros de 
relójios, em Lisboa, no seu tempo (i55i). 

O Tratado da Grandeza, Majestade e Abastança, 
de João Brandão (i552) menciona quatro tendas de 
fabrico de relójios e ao principiar o século seguinte 
Frei Nicolau de Oliveira (2) acusa a existência, na ca- 
pital, de três relojoeiros de sol e três de ferro. 

Os fabricantes de relójios, quinhentistas, eram ao 
mesmo tempo fabricantes de instrumentos náuticos. 

Nos Róis das Despesas da Rainha D. Catarina figu- 
ram relójios de areia, de marfim, de aço com caixa de 
vidro, etc. O príncipe D. Teodósio, que era dado às 
matemáticas, cntretinha-se a construir relójios. Um 
dos que fabricou, quando dava horas representava um 
aparato bélico. Tal relójio mereceu um epigrama 
latino feito em Évora pelo Padre Manuel Luís, em 
1680. 

Estas notas que são tiradas da Vida do Principe 
D. Teodósio e dos estudos de Sousa Viterbo, Arte e 



(i) História Seráfica, de Frei Manuel da Esperança, tomo 11, 
pág. 464 a 483. 

(2) Livro das Grandezas de Lisboa, pág. iS3 da edição de 
[804. 



— 2o3 — 

Indústrias Metálicas em Portugal e Arte e Artistas 
em Portugal^ completam-se ainda transcrevendo os 
nomes de vários serralheiros e torneiros de relójios, 
alenaães, franceses e portugueses nos séculos xvi e xvii. 

Na Cronografia de Manuel de Figueiredo, publi- 
cada em i6o3, vem incluído um «Tratado de Relógios». 

D. Francisco Manuel de Melo nos Apólogos Dialo- 
togais põe os relójios das Chagas e de Belas a dialo- 
gar no «Caldeireiro» onde estavam a concertar. Falam 
que se fartam : — do relójio da Sé que sofria mil enfer- 
midades, de coisas e casos da corte, dos mentirosos 
que vão ao Alto das Chagas, da cor das horas, etc, 
chegando à conclusão de que era melhor ser relójio do 
que cónego de S. Tomé, por que ao menos se podia 
atirar com as horas à cara de cada um. 

A propósito do relójio da Sé e da sua «madorna 
mortal», como diz D. Francisco Manuel, acrescentarei 
que em 1628 não tinha mostrador capaz, o que levou o 
Deão e Cabido da Sé, a pedir ao Senado esse e outros 
consertos. O Senado respondeu que isso era com o 
serralheiro da cidade e com o cidadão que ganhava 
23;3í>6oo réis por ano para cuidar dêle(i). 

Nos princípios do século xvii, havia em Coimbra 
um serralheiro de obra fina que trabalhava em relojoa- 
ria e em instrumentos matemáticos. Chamava-se este 
artista António Nunes (2). Seu contemporâneo foi em 
Évora um Francisco Fernandes que fabricara o relójio 
dos quartos da Sé, durante o episcopado de D. Ale- 
xandre de Bragança. Frei Francisco de Jesus foi outro 
frade relojoeiro, autor do relójio do convento do Bu- 
çaco que o Governo em i836 mandou tirar de lá. 



(1) Elementos para a História do Município de Lisboa, vol. iii, 
pág- 280 e 281. 

(2) Arte e Artistas em Portugal^ por Sousa Viterbo, pág. 37. 



— 2o4 — 

l Onde parará hoje ? 

João Spencer, era relojoeiro na rua Nova, em Lis- 
boa, em 1745. Tinha a oficina instalada num café que 
nessa data pertencia a Maria Spencer, sua parenta tal- 
vez (i). 

Acabou-se a digressão. Voltemos às fábricas. 



Para o fabrico delicado dos teares de meias tor- 
nou-se mister à Direcção da Fábrica das Sedas, con- 
tratar um serralheiro hábil. Foi escolhido o genovês 
Pedro Schiappa Pieira e esta foi a origem de uma fá- 
brica de serralharia estabelecida por condições de 16 
de Dezembro de 1765 e instalada na parte oriental do 
próprio edifício da Fábrica, onde estivera a tinturaria (2). 

A Serralharia esteve, em 1764, na casa n.° 5i da 
Praça dos Fabricantes. Em 1765 morava lá Pedro 
Schiappa Pietra, sua mulher Clara, seu irmão João 
Baptista, e o oficial João Baptista Bocalandro. 

Em 1766 já se não menciona a Fábrica, por a ter 
absorvido a oficina de La Croix que ocupava os n.°49 
e 5o da mesma Praça. Em 1771, vejo mencionados 
Del Cuôco, os Pietras, e 17 oficiais e aprendizes (Rol 
dos Confessados da Freguesia de S. Mamede). 

Pedro Schiappa e seu irmão João Baptista que ele 
chamara para cá, tomaram conta do estabelecimento, 
de que ficaram sendo Mestres, obrigando-se a fabricar 



(1) Anúncio na Gaveta de 24 de Junho de ly^S. 

(2) A oficina de Schiappa Pietra esteve primeiro em i85 nas 
casas n.» 5i do Bairro dos Fabricantes, que depois foram acres- 
centar a oficina dos Pentes de Marfim, de Gabriel da La Groix 
[Róis dos Confessados da Freguesia de Santa Isabel). 



20 



5 — 



nele a maior quantidade de ferragens e a ensinar um 
certo número de aprendizes que a Direcção lhes indi- 
caria e aos quais tinham de dar loo re'is diários du- 
rante os seis anos de ensino(i). 

Com referência à partilha dos lucros, vencimentos 
dos Mestres e ingerência e fiscalização da Direcção, no 
funcionamento da nova oficina, recalcitraram os Schiap- 
pas recusando-se a assinar o contrato. Fêz-se, por isso, 
outro que também não lhes agradou, a-pesar-de se lhes 
conceder, a cada um, a pensão de 20oíf500o réis com 
sobrevivência para suas mulheres. 

Por fim lá se acomodaram, não sem novas recla- 
mações àcêrca de dinheiro, do que resultou afinal um 
grande prejuízo para os cofres da Fábrica-Mãe, visto 
que os lucros foram todos para eles. 

Como na oficina se consumissem muitas limas, lem- 
brou-se a atenta e vigilante Direcção de montar uma 
Fábrica de Limas e assim se fez. 

Veio da Irlanda um mestre, chamado Mateus Wal- 
ker, vencendo 433;jí>ooo réis de ordenado e moradia 
para sua família. A Fábrica estabeleceu-se em Alcân- 
tara, na quinta do Loureiro, depois de estar algum 
tempo anexa a de Serralharia. Como Walcker não en- 
tendesse o português e não quisesse encarregar-se se- 
não da fabricação de limas, foi nomeado em 1770, para 
feitor da Fábrica de Alcântara, Pedro Schiappa, com 
109^500 réis anuais que não mereceu, pois delegou 
toda a vigilância no irlandês e só pensava em receber 
o dinheiro. 



(i) O decreto de 8 de Outubro de 17G8 concedeu 200^000 
réis de tença, pelos bons serviços prestados na Fábrica, a João 
Baptista e a Pedro Schiappa Pietra^ com sobrevivência a suas 
respectivas mulheres Clara Schiappa Pietra e Gertrudes Clara do 
Sacramento {Livro A de Registo dos Estatutos^ Alvarás e Decre- 
tos, pág. i3). 



— 2o6 — 

A-pesar-da Direcção reconhecer esses defeitos em 
Pedro Schiappa, tais empenhos ele moveu, que conse- 
guiu fugir da tutela da Fábrica das Sedas, montando 
em Pernes, em uma quinta dos jesuítas expulsos, outra 
fábrica do mesmo género (i). Isto foi aí por 1772. 

Seu irmão João Baptista ficou a dirigir a serralha- 
ria de Lisboa, para fabrico de teares e obras congé- 
neres, por sua própria conta, sujeitando-se à inspecção 
da Direcção com os compromissos costumados. O con- 
trato fora firmado em 22 de Maio e confirmado por 
alvará de 10 de Junho de 1772(2). 

A fábrica de Pernes progrediu mais do que esta e 
as suas manufacturas chegaram a um elevado grau de 
perfeição, para o que muito concorreram os sucessivos 
empréstimos com que foi auxiliada. Por ocasião das 
invasões francesas sofreu muito, ficando completamente 
arrazada em i8io(3). 

A João Baptista Schiappa Pietra, sucedeu na Ad- 
ministração da Serralharia de Lisboa, um seu compa- 
triota Luís Bachelay, cujos descendentes, até há pouco, 



(1) O domínio directo da quinta ficou pertencendo à Real 
Fábrica das Sedas e o domínio útil, com o fôro de 240í?>ooo réis 
anuais e laudénio de vintena, a Pedro Schiappa Pietra que se obri- 
gou, por contrato confirmado pelo alvará de iode Junho de 1772, 
a dirigir o estabelecimento, sob a inspecção da Real Fábrica. O 
fôro foi-lhe perdoado nos primeiros quatro anos e fêz-se-lhe ainda 
o empréstimo de 4.000^000 réis a fazer dentro de dez anos. 

Igualmente se lhe isentou de direitos o material para a Fá- 
brica, pelo mesmo prazo. Era assim que, no tempo de Pombal, 
se fomentava e animava a indústria do país. 

(2) Duas vezes foram prorrogadas as liberdades e isenções 
concedidas a João Schiappa; a primeira, por mais cinco anos em 
1779 e a segunda, pelo mesmo prazo, em 1785. 

(3) Em 182 1 renovou-se o aforamento das casas desta Fá- 
brica a favor de António Schiappa, filho do fundador, com redu • 
ção do fôro primitivo. 



— 'lo-] — 

pela sua perícia e esforço, honraram a indústria na- 
cional. 

Dos aprendizes e oficiais de Schiappa e de Bachelay, 
saíram bons artífices que se espalharam pelo país com- 
pensando assim o Estado da perda inicial com as fá- 
bricas primitivas (i). 



Por um ^Inventário feito, e que está transcrito nos 
Livros dos Registos da Junta de Administração das Fá- 
bricas do Reino, e pelos Livros da Venda da Real Fá- 
brica de Serralharia (2) ficamos sabendo que nesta ofi- 
cina se fabricavam os seguintes artefactos : 

Ferragem de latão e ferro para móveis, fechaduras, 
trincos, fechos, tranquetas, machas-fêmeas, parafusos, 
molas, botões de latão e ferro para prender nos caixi- 
lhos das vidraças, aldrabas, roldanas, fogareiros de 
ferro, perfumadores de latão e ferro, pás, tenazes, ver- 
rumas, formões, plainas, e enchós, artefactos estes con- 
siderados como obra grossa. 

Como obra fina faziam-se : 

Teares de meias, tornos, esquadros, níveis e com- 
passos, porta-lápis, balanças romanas, prensas para 
selos, tesouras para tosquiar panos, pentes de cardar 
lã e engenhos de assar carne. 

A serralharia pombalina fornecia todos os produtos 
do seu fabrico para as outras fábricas. A das Meias 



(i) Houve também outra serralharia, no termo de Alcanede, 
no sítio dos «Olhos de Agua», comarca de Santarém, fundada em 
1798 pelo negociante António Joaquim de Araújo Soares a qual 
sofreu muito com as invasões francesas. Um irmão do fundador, 
Francisco de Paula Araújo Soares, restaurou-a, depois, em 1816. 

(2) Livro Q16-A de Decretos e Avisos, pág. i23 a 127 e Livro 
277 de Vendas., n.°' i33 e 134. 



— 2oH — 

e das Sedas, a dos Botões e das Caixas, a dos Pentes, 
a das Fitas, a dos Relójios, a da Fundição, a da Cute- 
laria, etc, abasteceram-se aqui das ferragens de toda 
a espe'cie de que necessitavam para a sua montagem. 
O Real Colégio dos Nobres, e muitos particulares, 
como os Cruzes Sobrais, fizeram lá numerosas enco- 
mendas. 

Uma (ffábrica de ferro» que se montou em Angola, 
abasteceu-se nela também. Foram para lá cinco mo 
delos de diversas máquinas. Emj 1770 para o José Fran 
cisco da Cruz Alagôa, fabricou uma bomba com des- 
tino ao jardim da quinta de Carcavelos que importou, 
por sinal em 885f)Ooo réis. A encomenda para o Co- 
légio dos Nobres importou em 325í&540 réis, o que dá 
ideia do seu volume. Para a Companhia do Grão Pará 
e Maranhão também se manufacturou um moinho ; e 
para o conselheiro Joaquim Inácio da Cruz Sobral, 
alguns faróis. Por cima da porta da Fábrica, estava 
também um farol que importara em loSííSgo réis. 

A obra mais importante que aqui se fêz foi, sem dú- 
vida, um trono para sua Magestade Fidilissima ! ! Ao 
leitor há de intrigar este trono feito de ferro e latão, em 
chapa e em fio, no qual trabalharam, durante 48 dias, 
27 operários, gastando-se na obra nada menos de réis 
i.oi2ííí)q4o. Dirigiram-na os dois Pietras (Pedro Antó- 
nio e João Baptista) que venceram o salário de líííiioo 
réis diários. Foi isto em 1770. A explicação vou dá-la 
agora. Este trono, não era propriamente um trono, 
era uma gaiola. Depois daquele conhecido atentado de 
Vila Viçosa contra o rei D. José, o Marquês de Pom- 
bal, pensou em perservar a fidelíssima pessoa do sobe- 
rano, encerrando-o numa máquina gradeada. Se bem 
o pensou, melhor o fêz, e encomendou aos Pietras a 
feitura dessa gaiola disfarçada em trono régio, para que 
se não podesse repetir a paulada do João de Sousa, que 



— 'iog — 

diziam ter sido o autor da agressão de Vila Viçosa, 
dando, ao mesmo tempo, várias providências sobre a 
admissão e escolha de pessoas ao beija-mão. 

Esta farça do rei enjaulado é digna dos dois; do rei 
e do ministro (i). 



Dos Livros a que me tenho reportado consta a erec- 
ção de mais as serralharias seguintes : 

— De António da Silva, em 3o de Agosto de 1780; 

— De Nicolau Maria Palácio, em 21 de Janeiro de 1782; 

— De Manuel de Bastos, em 2 de Abril de 1784, 20 

de Maio de 1785 e 16 de Maio de 1786; 

— De N... (obras de ferro, brocas, sovelas e fivelas), 

em 18 de Agosto de 1784; 

— De Caetano Francisco Veloso, em 27 de Julho de 

1785; 

— De Pedro Schiappa Pietra, em 26 de Abril de 1786; e 

— De José Francisco Cabrita, em 12 de Maio de 1786. 

Outras fábricas congéneres se erigiram também : 

— Bijuterias^ de José Joaquim Lobo, em 3o de Agosto 

de 1780 ; 

— Charneií^as e Fivelas, de Isidoro José Ferreira, em 

3i de Janeiro de 1783; de Luís Geraldes, em 4 
de Junho de 1783 ; de Fernando José Louran, em 
24 de Novembro de 1783 ; de António Ferreira 
Lopes, em i5 de Novembro de 1784; 

— Quinquilharias (fundição), de Matias Ribeiro, em ig 

(i) Manuscrito que possuo intitulado: História Politica e 
Económica do Reinado do Senhor Rei D. José. Foi da Colecção 
Ameal. 

VoL. IV 14 



— :2iô — 

de Fevereiro de 1781 ; de José Maria, em 21 de 
Janeiro de 1782 ; de José Pedro, em 4 de Feve- 
reiro de 1785;, de Domingos José Soares, em 7 
de Novembro de 1785 e de Manuel Henriques, 
em 17 de Julho de 1786: 
Obras vasadas de metal, de latoeiro e toriieiro, de 
Hipólito Gandolfi, em 29 de Julho de 1782, de 
Veríssimo Francisco de Paula, em 23 de Julho 
de 1783 ; de António Pereira da Silva, em 27 de 
Outubro de 1783 ; de José Joaquim Silvestre, em 
19 de Janeiro de 1784, de José Anastácio Pereira 
de Melo, em 12 de Janeiro de 1785 ; de João Ma- 
nuel de Novais (que também torneava marfim), 
em i5 de Abril de 1785; do latoeiro Carlos Joa- 
quim de Campos, na mesma data, e do torneiro 
de instrumentos músicos e outras miudezas Antó- 
nio José Haupt, cm i de Junho de 1785(1). 



Outra fábrica que, no seu tempo, logrou ver os seus 
produtos largamente procurados foi a de Botões a qual 
teve como primeiro mestre a Pedro André Guilhobel, 
ajustado por intermédio do relojoeiro Berthet. 

Como em tudo em que se metia Berthet havia desa- 
venças, Guilhobel foi preso antes de chegar cá, por 
denúncia dos oficiais de que se acompanhava. Conse- 
guindo fugir, cá veio ter em Setembro de 1768, mas 
já a fábrica se achava instalada na propriedade n.° 67 
do Bairro dos Fabricantes, junto à dos Charões, da 
parte dos Arciprestes, sob a direcção de um mestre 



(1) Livro g5i-B de Atestações, desde 10 de Novembro de 1775 
até o fim de 1786. 



— 21Í — 

italiano, Bartolomeu Orsini e de sua mulher Teresa 
Orsini que apareceram em Portugal em busca de tra- 
balho (i). 

O nosso país era então procuradíssimo por todos 
os artífices holandeses, franceses, Italianos e ingleses 
que sabiam ao certo achar aqui bom acolhimento. 

Dessa migração produtora e fecunda resultou a for- 
mação deste grandioso bloco industrial que se melho- 
res resultados não deu foi devido a dois grandes males: 
à sistemática destruição da obra de Pombal, feita no 
tempo de D. Maria I, e depois, as invasões francesas e 
à longa guerra peninsular. 

Mas voltemos à Fábrica de Botões. 

Já, em 1760, João Francisco Lecor, antepassado do 
Barão da Laguna Carlos Frederico Lecor, francês de 
origem e português de nascimento, apresentara à Junta 
de Comércio, moldes e amostras de botões de metal 
muito semelhantes aos que nos vinham de fora, ro- 
gando, ao mesmo tempo licença para fabricá-los inde- 
pendentemente de outra passada pelo grémio dos La- 
toeiros. Nesse mesmo género de trabalhos, um portu- 
guês, João Correia, montou um estabelecimento de 
fivelas, botões, molduras e mais obras de estanho, pouco 
mais ou menos pelo mesmo tempo, e Jácome António 
Gulianetti, italiano domiciliado em Lisboa, estabelecera 
igualmente uma manufactura de candieiros de estanho 
de que então se fazia grande uso. 

Tanto Giulianetti como João Correia viram, porém, 
dificultadas as suas empresas por impedimentos postos 
pelos oficiais de picheleiro os quais, alegando não esta- 
rem os novos fabricantes incorporados no seu grémio 
lhe moveram processo. Chegaram até a prender o Cor- 
reia e a quebrar-lhe todas as formas que encontraram 



(i) Livro B de Decretos e Avisos^ pág. i25 a 126. 



— úii — 

na loja. Providenciou a Junta do Comércio, mandando 
inquirir do que se fabricava nas oficinas dos reclaman- 
tes. Viu a razão que assistia aos artífices presos e 
apoiou-lhes as pretenções, em consulta de 19 de Janeiro 
de 1761, ponderando ao Senado da Gamara que não 
se incomodassem os fabricantes que tivessem licença 
sua para manufacturar os candieiros estanho^ moldu- 
ras, ponteiras, botões e mais quinquilharia de estanho. 
Libertaram-se também de direitos internos as referidas 
obras. 

A-pesar-de tudo Giulianetii ainda foi perseguido e 
condenado pelo Juizo da Almotaçaria em 8c!rooo réis 
de multa, com apreensão de todo o material da oficina. 
Desagravou-o a Real Resolução de 6 de Maio de 1761. 
Seguidamente o decreto de 7 de Maio, mandou anular 
a sentença, repreender o Almotacé e entregar tudo 
quanto fora apreendido. 

As reclamações dos picheleiros e l^toeiros continua- 
ram, mas sem resultado. A cada um que surgia, cor- 
respondia imediatamente uma resolução desfavorável, 
o que os não impediu que reclamassem dez vezes até 
o ano de 1825. j Já era tenacidade (i) ! 



' Fêz-se o contrato com Bartolomeu Orsini, aprovado 
pela Rtsolução Régia de 3o de Agosto de 17G6, ficando 



(i) Um aviso régio de 3 de Agosto de 1785, manda consultar 
sobre a petição dos Procuradores e Mestres fabricantes de botões 
(pág. 45 do Livro C de Decretos e Avisos). A pág. 55 e 55 v.° do 
mesmo livro vem o alvará dando-lhes prorogação por mais cinco 
anos dos privilégios e isenções do anterior diploma {decreto de 17 
de Outubro de 1785). 



— 2l3 — 

a fábrica anexa à das Sedas e ficando o italiano por 
Mestre e Administrador dela, pelo espaço de dez anos. 
Arbitrou-se-lhe o vencimento de mil réis diários e à 
sua mulher seiscentos réis, e concedeu-se-lhe metade 
dos lucros líquidos que ela tivesse. 

Cada um dos aprendizes venceria 120 réis para 
sustento, obrigando-se Orsini a ensiná-los, fabricando 
toda a sorte de botões de metal que então se usavam 
e se viessem a usar. Também igualmente se compro- 
meteu a mandar vir de Itália seu filho, Manuel Orsini, 
se o admitissem como oficial da Fábrica. Manuel Or- 
sini veio efectivamente, e tornou-se muito hábil como 
debuxador e dourador. 

A Direcção foi obrigada a indemnizar Pedro André 
Guilhobel pelos prejuizos sofridos com a vinda do Or- 
sini, com a pensão de oitocentos réis diários. 

Por morte do Orsini ficou a substituí-lo na Fábrica 
que não ganhou com a troca, porque Guilhobel não 
linha os méritos do seu antecessor. Em Dezembro de 
1771 autorizaram-no a montar os cilindros para as cha- 
pas dos botões, nas Casas do Tesouro da Casa de Bra- 
gança, por não haver sítio melhor (1). Mais tarde foi 
obrigado a retirar-se por despacho da Direcção de 8 de 
Janeiro de 1773. Ele mesmo solicitou a licença para 
ir para Itália, depois de três anos de administração im- 
profícua (2). 



(i) Livro A de Decretos e Avisos, pág. 14S. 

(2) Em 1767 os Róis dos Confessados da Freguesia de S. Ma- 
mede, marcam na propriedade n.»' 53 a 54, onde estava esta ofi- 
cina, os seguintes moradores : Bartolomeu Orsini, Teresa Orsini, 
e os aprendizes Manuel Fernandes, João Pedro, Filipe Neri, Ana- 
cleto Elias, Angelo António, José António, Francisco Joaquim, 
Januário José, Manuel José, Francisco de Paula e Joaquim José. 
Em 1768 aparece o Orsini, Manuel Orsini (filho) e 16 aprendizes, 
um dos quais se chamava Francisco Fusquilli. Em 1770, na Fá- 



— 214 — 

Ficou seu filho Francisco Agostinho a dirigi-la e 
logo mostrou os seus méritos. Durante a sua direcção 
foram notabilissimos os progressos da oficina, que por 
alvará de 20 de Agosto de 1774, lhe foi trespassada 
com as costumadas condições (i). 

A-pesar-de tudo, deu de perda ao Estado io.75oíi?>359 
réis, quantia que não foi, aliás, dispendida esterilmente. 
É certo que a Fábrica acabou, mas como outras, dei- 
xou raizes que brotaram mais tarde. 

Desta Fábrica foi contra-mestre dos botões e Mestre 
do cunho, Luís José de Almeida, nomeado em 5 de 
Outubro de 1768 com 800 réis diários. Em 1771 foi 
nomeado (despacho de 18 de Outubro) para Mestre dos 
botões, Manuel Fernandes do Avelar(2). . 

No Armazém de Venda havia, em 1772, 2.298 abo- 
toaduras. O empate era considerável. Os operários 
da oficina eram vinte. Não havia ainda aparelhos para 
fabricar o que o consumo exigia, sendo para isso pre- 
ciso que se gastasse um conto por mês para manufac- 
turar 720 abotoaduras prateadas ou doiradas. Torna- 
va-se preciso, para a vida da indústria, uma produção 
de 17.280 abotoaduras. A moda exigia constantemente 
lavores novos. Este balanço e estas observações feitas 
pela Direcção da Fábrica das Sedas foram presentes a 
Pombal em 4 de Dezembro de 1772(3). 

Cada abotoadura de prata, completa, custava 3ví)2oo 
réis e de casquinha 800 réis (4). 

Na Fábrica manufacturavam-se : abotoaduras doi- 



brica estavam Pedro Andrino, Francisco Oberti, Manuel Orsini e 
16 aprendizes, e em 1771, André Guilhobel, Francisco Agostinho, 
seu filho, Manuel Orsini, i aprendiz e i3 operários, 
(i) Livro B de Decretos e Avisos, pág. 129 a i35. 

(2) Livro A idem. 

(3) Livro B idem, pág. i5 a 17. 

(4) Livro A idem, pág. i63 v,° 



— 2ID — 

radas de água, doiradas a folha, sôbredoiradas e la- 
vradas, de prata lavrada para casaca e para vestia, de 
metal (lavradas e lisas), prateadas lisas ou lavradas, de 
latão lavrado ou liso, de estanho (para casaca e para 
vestia), e de ouro fino, completas, as quais custavam 
48íiy)Ooo réis(i). 

Uma ordem da Direcção, que dá a entender qual- 
quer demora nos fabricos, prescreve que as encomendas 
para El-Rei, para o paço. Secretários de Estado ou da 
Corte e Companhias Gerais do Comércio, sejam ime- 
diatamente satisfeitas, avisando a Fábrica a Direcção. 

Quem a assina é Jacquerie de Sales em lo de Março 
de 1773 (2). 

Em 1780 fundou, com as obrigações e os privilégios 
habituais dados pela Junta, uma fábrica de marcas de 
osso para botões de casquinha, um tal Casimiro da 
Silva (3). A casquinha de prata fabricava-se, em 1787, 
na oficina de António dos Santos, em Lisboa. Era 
tambe'm privilegiada. Fora erecta em 8 de Outubro 
de 1784(4). 

De outras fábricas de botões, tenho conhecimento. 
Enfileiro aqui os nomes dos fabricantes e as datas dos 
alvarás que lhes privilegiaram as oficinas. 

— Botões de casquinha : Pedro António Correia, em 
18 de Agosto de 1780; João Pedro, na mesma 
data ; Pedro Pires dos Santos, José da Costa e 
Manuel da Costa, todos em 20 de Novembro de 



( 1 ) Livro 404 de Entrada e Saída de Manifestos da Real Fá- 
brica dos Botões. 

(2) Idem. 

(3) Livro B idem, pág. 339, 344, 346, 35o — Concessão de 25 
de Setembro de 1780. A falta de botões no mercado era grande. 

(4) Livro g2y-3.'' de Registo de Consultas, pág. 44 v.° e 45. 



— 2l6 — 

1780; António Multipliciano da Silva, em 3o de 
Janeiro de 1781 ; Manuel dos Santos Carvalho, 
em 19 de Janeiro de 1781; José Conrado, em 7 
de Fevereiro de 1781 ; José Justino Henriques, 
em 19 de Fevereiro de 1781 ; José de Sousa Go- 
mes, em i5 de Junho de 1781 ; Manuel da Costa 
Pinto e Francisco Joaquim da Cruz, em 26 de 
Agosto de 1782; Lúcia Maria, viúva de José Al 
vares, em 7 de Agosto de 1786; Henrique José 
Álvares, em 1 1 de Outubro de 1784; 
— Botões bordados: António Currat, em i de Setem- 
bro de 1783 (tinha também fábrica de lentejoi- 
las) ; Domingos Fantoni Ansaldi, em 19 de Se- 
tembro de 1783; José Pedro Duarte, em 6 de 
Agosto de 1784 e Jácome Zille, em 6 de Abril 
de 1785(1). 

José Fernandes Chaves teve, no Porto, em 1781, 
uma fábrica de botões de unha, à qual foram conce- 
didos os privilégios habituais. A Fábrica era em Gol- 
pelhares, tendo-lhe sido estabelecidos os preços para 
os botões de casaca e de vestia, pretos ou policromos : 
de 36o a 280 réis e de 38o a 280 réis em grossas par- 
tidas. Em pequenas porções, variavam de 370 a 400 
réis (2). 

Paulo José da Rocha era o fabricante de botões 
para a tropa. Fazia-os mais baratos do que nas outras 
fábricas. Tinha ensinado muitos oficiais e aprendizes. 
O mostruário que ele mandou à Junta deu origem a 
uma boa informação para a concessão do privilégio, em 



(i) Livro q5i de Atestados, desde 10 de Novembro de 177530 
fim de 1786. 

(2) Livro g26 de Representações e Consitltas — Real Resolu- 
ção de 14 de Dezembro de 1781 — pág. 3y a 3-j v." Livro B de De- 
cretos e Avisos — Alvará de <j de Outubro de 177G. 



— 217 — 

1781. Os botões eram de estanho, e ele era obrigado 
a entregá-los no Arsenal Real do Exe'rcilo(i). 

De outras indústrias metálicas há notícia por esta 
época, como a de pratear latão fundido^ de Francisco 
Leite Pereira, que se propunha instalá-la na Fundi- 
ção (2) ; a de charneiras, de Luís Joaquim Sicard (3) ; 
a de folhetas para cravação de pedras^ fundada por 
Augusto Ludovice Thime que quis instalar-se no Bairro 
dos Fabricantes (4) ; a de leiítejoilas, de Margarida Jo- 
sefa Vitória (5)4 a de chumbo de niunição, de Rey- 
nier (6) ; a de pór aço nos espelhos, de um tal Ghira(7); 
a de ourives com embutidos de pedras finas e outras 
peças de ornato, de José Luís da Silva (8) 3 a de bom- 
bas e engenhos de bron\e e ferro, de Manuel António 
da Costa (9) ; a de ligas de fio de oiro e prata e de len- 
tejoilas de cores, do francês Razuret, e outras porven- 
tura (10). 



(i) Livro g-JÔ de Representações e Consultas — Informação de 
2 de Março de 1781 — pág. iS, e Livro B de Decretos e Avisos — 
Informação de 19 de Abril de 1776, pág. 19^. 

O Tratado da Grandeza, Majestade e Abastança de Lisboa, 
diz (pág. 218) : Tem a cidade tre^emtas molheres que não tê outro 
oficio senão fa^er botões e por elle guanhão muito dinheiro. 

Cristóvam Roiz de Oliveira^ menciona, em i55i, cento e no- 
venta e seis botoeiras. 

(2) Livro g25-i.° idem — Consulta de 8 de Março de 1776. 

(3) idem, pág. 46- A Livro li de Decretos e Avisos, pág. 33 1 a 
333 — Alvará de 7 de Junho de 1780. 

(4) Idem, pág. 71 e 72 — Consulta de i5 de Junho de 177S. 

(5) Idem, pág. 127 — Consulta de 20 de Novembro de 1779. 

(6) Idem, pág. 90 a 90 v,», 1784 

(7) Livro de Registo de ^Lmifestos, pág. i3, v.°, 1786. 

(8) Idem. 

(9) Livro B de Decretos e Avisos, pág. 394 — i78t. 

(10) Livro i.° de Registo de Consultas, pág. 92 v.° a 93 — Con 
$ulla de iS de Fevereiro de 1779. 



— 2Ii 



A Fábrica da Fundição de Metais, é outra da série 
do Bairro das Amoreiras. 

Celebraram-se as primeiras condições para ela em 
I de Agosto de 1767, com o Mestre Júlio Gatti, man- 
tuano. Foi contramestre seu filho André Gatti que, 
mais tarde, despedido o pai, em 1777, ficou à frente 
da oficina celebrando novas condições em i3 de Ou- 
tubro desse ano(i). A sua montagem foi dispen- 
diosíssima porque importou a construção de um edifício 
especial provido de forno e utensílios próprios. Não 
admira, por isso, que a perda fosse considerável: — mais 
de dezasseis contos de réis. As obras foram, porém, 
excelentes e a indústria veio a difundir-se por todo o 
país. 

Os sinos da Basílica da Estrela foram fabricados 
aqui. 

Gatti, mandou vir de Florença, para modelos, doze 
candieiros de latão, de vários feitios, artefacto de grande 
consumo no nosso pais (2). Daí resultou uma certa mo- 
dificação nos clássicos tipos nacionais. 



André Gatti, tomou conta da Fábrica e desenvol- 
veu-a. A razão por que foi despedido o pai, ignoro-a. 



(i) Livro B de Decretos e Avisos^ pág. 1S4, 190, 242 a 25i e 
ordem da Direcção de 26 de Setembro de 1777 no Livro g3g de 
Registo de Ordens, pág. 2. 

(2) Livro A de Decretos e Avisos, pág. i52 v.* e i53, 



— 219 — 

Só sei que lhe penhoraram uns sinos que a Direcção 
teve de vender (i). 

Em 1779 foi solicitado por André Gatti a isenção 
de direitos para as suas manufacturas. A Direcção da 
Fábrica das Sedas não o atendeu (2). Já lhe compen- 
sara o esforço a Junta do Comércio na sua consulta 
de i3 de Julho de 1772 em que propunha a proibição 
de vários artefactos que já cá se fabricavam com per- 
feição. A essa consulta estavam apensos quatro mapas 
que constituíam uma prova consoladora das aptidões 
dos nossos artífices e um notável elogio à obra do Mar- 
quês do Pombal. Os géneros cuja importação devia 
de ser proibida, faziam parte do mapa primeiro e eram 
os seguintes : 

Ferragens para papeleiras e para carruagens; bacias 
de arame, acabadas ; castiçais ; campainhas ; púcaros ; 
guarnições para chapéu de sol; verónicas e crucifixos; 
escudetes de latão, machas-fêmeas, argolas e colheres; 
garfos e cabos de faca ; castões de bengala, estribos e 
fivelas ; perfumadores, candieiros, ferros de engomar, 
dirandelas (sic) e lôda a obra de iatoeiro com excep- 
ção de balanças. 

A maioria destes objectos fabricava-se na oficina 
de André Gatti. 

Igualmente se deviam proibir : pratos de estanho, 
bacias, ferros, bules, tinteiros, fivelas, botões, seringas, 
garfos, cabos de faca, castiçais, talheres, tijelas, ga- 
Ihetas, cruzes, torneiras, crucifixos e toda a demais 
obra de picheleiro. Tesouras, canivetes, espevitadores, 
navalhas, ferros de cirurgia, facas de mesa, alicates, 



(i) Livro 923 de Registo de Consultas, pág. 99 a 99 — Con 
sulta de 7 de Maio de 1779. 

(2) Livro g8g de Registo de Manifestos, pág. 5 v." a 6 — Rçai 
Resolução de 14 de Maio de 1779. 



— 220 — 

ferros para anatomia e mais obras de cuteleiro que se 
fabricavam na oficina de Charlier, da qual já tratamos. 
Todas as obras de serralheiro: fechaduras, estribos, 
cabeções, ferragens para caixas e para portas, saca- 
-rôlhas, chaves, machas-fêmeas, freios, esporas, berim- 
baus e fuzis, de que tínhamos magníficos oficiais. E 
ainda todas as obras de ferreiro, como machados, en- 
xadas, foices e martelos. 

No mapa segundo que continha os géneros sobre 
cuja proibição de importação houvera discordância en- 
tre os membros da Junta, elogiavam-se os nossos es- 
pingardeiros, cujas oficinas de há muito eram conhe- 
cidas como de primeira ordem, sendo as armas objecto 
de um grande consumo não só no pais como em Africa 
e no Brasil. 

Falamos acidentalmente, quando tratamos da Fá- 
brica da Loiça, das obras executadas no Arsenal do 
Exército em 1764, por João Drouet e Pedro Brocard, 
artífices franceses de grande mérito ; falamos também 
do tenente-general Bartolomeu da Costa. A estes três 
nomes ligados à indústria da Fundição de Metais, há 
a juntar ainda o do capitão Mateus António, mais vul- 
garmente conhecido pelo Capitão das Bombas. Este 
sujeito que nem sequer sabia ler, manufacturou obras 
perfeitíssimas de fundição e de serralharia, na sua ofi- 
cina na rua do Tesouro Velho. Aciárcio das Neves 
chama-lhe um portento da indústria {i). 



Segundo o Livro 4o3 da Entrada e Saída de Ma- 
nufacturas da Real Fábrica dos Metais (1772), na ofi- 



(1) Noções Históricas, Económicas e Adminislrativas, pàg.2bj 
a 275. 



— 221 — 

oina de fundição das Amoreiras, fabricavam-se os se- 
guintes artefactos : 

— Fivelas de cortinas, para caixilhos, de francalete, de 

cabeçada, de testas de cavalo, de çapatos, para 
arreios e meias fivelas ; 

— Campainhas de porta e de relójios, castiçais de ban- 

queta, castiçais de mesa, palmatórias, candieiros 
de latão de 2, 3 e 4 luzes, tesouras de candieiro, 
dirandelas grandes e pequenas, lisas e ordinárias, 
guarda-tesouras e peças de relójios ; 

— Artefactos para guarnição de arreios (pregos de pas- 

sadores, rosetas grandes e pequenas, cantos e ma- 
çanetas de seges, argolas lisas e lavradas, testas 
de cavalo prateadas, caixilhos para vidros de se- 
ges, pregos de ponta, passadores, e estribos ; 

— Guarnições de cómodas e papeleiras (douradas, à 

francesa, com figuras, e à inglesa), escudetes, fe- 
chos de armário, carrancas, asas de papeleira, 
asas com argolas e corpos de fechadura ; 

— Colheres de latão, garfos, e cabos de faca de latão; 

— Almofarizes de bronze, chaves e torneiras de bronze, 

chombergas douradas para chaves e caldeiras de 
estanho ; 

— Sinos (quando foi do inventário havia na Fábrica 

626), limas (434), grosas (108) e brocas (4). 

Entre os materiais, apareceram no inventário, la- 
tão, cobre, estanho, fio de ferro, goma-laca, formas e 
várias ferramentas. 

A forma grande para os sinos, que havia nesta ofi- 
cina e que custou por sinal 416^5^140 réis, fora feita pelo 
Mestre-pedreiro Bento Silvestre Fernandes. 

Este inventário fêz-se em 4 de Outubro de 1777, 
tendo o Gatti passado recibo em 17 do mesmo mês e 



— 222 — 

ano(i). Foi nesta altura que o Mestre requereu para 
ficar com a Fábrica, por mais dez anos, com os habi- 
tuais privilégios pagando a existência a prazo, man- 
tendo por cinco anos os aprendizes e podendo mandar 
vir de fora os seus oficiais (2). 

Os Róis dos Confessados em 1771 dizem-nos que na 
Fábrica da Fundição, eram moradores Júlio Gatti, Ma- 
dalena Gatti, sua mulher, André Gatti e 7 aprendizes. 
Em 1772, menciona-se só Júlio Gatti, os oficiais Cus- 
tódio da Silva, José Inácio e António José dos Santos, 
e 2 aprendizes. 



A Fábrica de Fundição de Bronze e outros metais, 
acabou em 1787, como se vê do seguinte anúncio da 
Gaieta de Lisboa : 

Nos dias 12 e 14 de Setembro se hade arrematar 
na praça das Amoreiras tudo o que pertence á fabrica 
de fundição de bron{e e mais metais nesse género (3). 



(i) Livro B de Decretos e Avisos, pág. 245 a 25i. 

(2) Idem, pág. 842 a 244. A informação é datada de i3 de 
Outubro de 1777. 

(3) Gaveta de 8 de Setembro de 1797 — Suplemento. 

No século XVI, há lembrança de duas Fundições de artilharia 
junto às Portas da Cru^, mandadas fazer por D, Manuel, e de 
outra a Cata-que-farás, onde depois foi o Forte de S. Paulo (Re- 
molares) que quási chegou a nossos dias. Mais tarde (em tempo 
de D. João III, talvez) mandou-se construir outra Fundição (às 
F*errarias) ao oriente do Campo de Santa Clara, e ainda depois, 
outras em Santa Engrácia, a de Cima e a de Baixo (Arsenal do 
Exército, hoje) que foi chamada «Fundição dos Castelhanos, e 
ardeu em 1726, tendo-a D. João V restaurado e melhorado. A 
Fundição de Cima, chamava se «Fundição da Coroa de Portugal». 
Mais miudamente se pode ver este assunto nas notas de Gomes de 



— 223 



Mais duas fábricas houve ainda no Bairro : — a das 
Tapeçarias e a dos Charões. 



Brito e Vieira da Silva ao Tratado, Grandeza e Abastança da Ci- 
dade de Lisboa, a pág. 1G2 a 164. 

A pág. i85, descrevem-se os Alma^ens das Armas onde se 
fundia artilharia e fabricavam armas brancas, corpos de couraça, 
sinos, munições, espingardas, lanças, etc. 

Quanto a artífices que trabalhavam em metal, os dois do- 
cumentos que há do século xvi, este e o Sumário das Noticias de 
Lisboa, dão os seguintes números : 

No Tratado No Sumário 

Adargueiros 8 i3 

Anzoleiros 5o 20 

Arcabuzeiros e espingardeiros 8 3 

Fundidores de artilharia 5o - 

Baínheiros e cutileiros i3o 5i 

Espadeiros i3o - 

Bate-fôlhas 20 14 

Caldeireiros 40 43 

Couraceiros 20 - 

Ferreiros - 129 

Freeiros 60 24 

Fundidores 12 - 

Lanceiros - 8 

Picheleiros 120 42 

Serralheiros 220 93 

O Tratado cita ainda três tendas «onde se funde arame e fa- 
zem almofarizes». 

Sousa Viterbo, no seu precioso estudo sobre A armaria em 
Portugal, catalogou muitos nomes de artífices, a maioria dos quais 
trabalharam e exerceram a sua actividade em Lisboa, Barcarena, 
Porto, Évora, Tavira e Santarém. Com os nomes mencionavam-se 
vários pormenores biográficos de baínheiros, couraceiros, armei- 
ros, barbeiros de espadas, hasteeiros, besteiros, arcabuzeiros, es- 
pingardeiros, alfagemes, viroteiros, bate-fôlhas, coronheiros, etc, 
muitos dos quais eram biscainhos. 



— 224 — 

Dos quinze tapeceiros que havia em Lisboa em 1620 
só restava a memória (i) e a Direcção da Fábrica das 
Sedas entendeu dever contratar com João Gonçalves 
— artífice nacional — o estabelecimento de uma nova 
oficina. Foram celebradas as costumadas condições em 
I de Julho de 1771, mas a Fábrica, ao que parece, já 
funcionava porque, em 10 de Maio, a Direcção da Fá- 
brica das Sedas pedia à Junta do Comércio para for- 
necer oitenta arráteis de lás de várias cores e, não 
sendo possível, pelo menos vinte, para a oficina poder 
iniciar a sua produção de tapeçarias à imitação das que 
se faziam em França (2). As cláusulas foram as habi- 
tuais : uso gratuito do edifício durante cinco anos, pa- 
gamento do valor dos materiais em cinco prestações, 
ensino obrigatório de aprendizes, etc. (3). 

Em 1775 o Mestre requereu se lhe dessem metade 
das lãs já pedidas, para manufacturar uma alcatifa 
para Joaquim Inácio da Cruz Sobral. Isto em Abril. 
Em Maio, pede mais linha grossa, e diz que «a alcatifa 
do senhor Conselheiro» já passa de meio (4). 

A ordeíJi da Junta do Comércio de 22 de Dezem- 
bro de 1777 escusa João Gonçalves do exercício do seu 
lugar pela pouca utilidade que resulta para a Real Fa- 
zenda da continuação do seu emprego. Outra, de 27 
de Janeiro de 1778 manda tirar da folha os oficiais 



(1) Em i552, marca o Tratado da Grandeza, Magestade e 
Abastança, a existência em Lisboa de três casas de Tapeceiros, 
ocupando seis homens, afora quatro onde se corregiam tapetes. 

Cristóvam Rodrigues de Oliveira em i55i cita só quatro tece- 
lões de tapetes. 

(2) Livro A de Decretos e Avisos, pág. 118 — Documento da- 
tado de 10 de Maio de 1771. 

(3) Idem, pág. 254 a 256. 

(4) Livro de Representações à Direcção — Documentos da- 
tados de 26 Abril e 19 de Junho de 1775, pág. 41 e 43. 



— 22? — 

Justiniano Diniz e Domingos José, do dia 25 em diante. 
Os aprendizes foram também suprimidos e na Tintu- 
raria escusaram-se vários cargos (i). 

A Fábrica, a-pesar-de algumas obras bem acabadas 
no dizer de Acúrcio das Neves, acabou de inanição, 
tendo sido transmitida ao Gonçalves por novas condi- 
ções^ datadas de 28 de Janeiro de 1778. A perda foi 
de 2.873í?'3oi réis. 

Mais feliz do que esta oficina foi a de Tavira fun- 
dada em 1776, por um francês, Pedro Leonardo Mer- 
goux, associado com Teotónio Pedro Heitor. Em 1779 
íêz-se-lhe um empréstimo de seis contos, dos quais os 
dois associados solicitaram dois em Agosto. Sobre esse 
pedido houve uma consulta da Direcção de 23 de Agosto 
e o decreto de 20 de Janeiro de 1780(2). 

Foi nesta Fábrica de Tavira que se manufacturaram 
as tapeçarias de uma das capelas do Palácio Real de 
Mafra. Mais tarde veio a cair também, tendo ainda 
assim deixado alguns aprendizes em estado de produ- 
zir como foram Pedro Tavares de Brito, Tapeceiro da 
Real Casa de Bragança e almoxarife de Mafra, e José 
da Esperança Freire, Fiel do Tesouro do Palácio das 
Necessidades. 

Posteriormente um tal Francisco Mailhol fundou, 
em 1793, uma fábrica de alcatifas em Estremôs, mas 
pouco ou nenhum resultado deu. 

Da nossa indústria de Tapeçaria vivem ainda como 
relíquias, em poder de coleccionadores, alguns velhos, 
mas preciosos, tapetes ou, melhor, bordados de Arraio- 
los que antigamente se usavam para mantear arcas ou 
revestir paredes. 



(1) Livro g3g do Registo de Ordens, pág. 7. 

(2) Livro i.° de Requerimentos e Consultas, pág. 116. 

YOL. IV i5 



— 226 — 

Da Fábrica das Amoreiras não conheço nenhum. 

l Onde parará a alcatifa de Joaquim Inácio da Cruz 
Sobral que o mestre João Gonçalves feiturou com tanto 
desvelo? 

Dos Livros de Registo das folhas dos oficiais e 
aprendizes da Real Fábrica da Tapeçaria (n,° 908 da 
colecção) consta que, em 1772, os aprendizes eram João 
Pereira, Justino Diniz, Manuel Francisco, Caetano Al- 
berto, João Pacheco, José Vítor, Luís Miguel e José 
Cândido; em 1773, os mesmos mais Manuel Luís e 
e Domingos José e menos José Vítor e João Pacheco. 

João Pereira desaparece em Abril de [773 e os ou- 
tros mantêem-se. Em 1777, vejo só dois aprendizes 
(o Diniz e o Domingos José). Quem assina o ponto 
dos aprendizes é o Mestre João Gonçalves. O Livro 
acaba em Agosto desse ano. 

A Fábrica da Tapeçaria ocupava a casa n.° 33 da 
Praça dos Fabricantes. 



A Fábrica de Charões teve também pouco êxito. 
Esteve instalada junto da Fábrica dos Pentes, na tra- 
vessa que hoje tem este nome, no bairro novo dos Fa- 
bricantes. Como as outras acabou com perda, aliás, 
pequena, pois não chegou a 7005^000 réis. 

Foi seu primeiro mestre um alemão, chamado José 
Ridler que em 1774 aparecera em Lisboa estimulado 
pelo bom acolhimento que cá tinham os operários es- 
tranjeiros. Dizia-se perito em dourar ferragens de 
latão e acharoar madeira, cobre e barro, acabando por 
solicitar um empréstimo para se estabelecer por sua 
conta. Pensou a Direcção da Real Fábrica sobre o 
caso e resolveu estabelecer a Fábrica por sua conta, 



— 227 — 

ficando Ridler a dirigi-la, o que se fez por contrato, 
aprovado por despacho de i de Junho daquele ano. 

A Direcção deu-lhe casas, mas como estas não ti- 
nham sol nem quintal para o enxugo dos vernizes, 
escolheu-se outro chão na quinta dos Arciprestes dos 
padres das Necessidades e que linha sido por eles afo- 
rado a um sujeito que lá começara com uma obra que 
estava embargada. Orçou-se a despesa em iSoí&ooo 
réis de bemfeitorias, cedendo os padres o terreno logo 
que se resolvesse o pleito (i). 

Em 1777, o mestre Ridler foi despedido e intimado 
a desembaraçar as casas em que habitava «por se re- 
conhecer a pouca utilidade que resulta do seu prés- 
timo», diz a ordem de 26 de Setembro desse ano, de 
onde consta a escusa de Gatti e de Charlier a que já 
fizemos referência (2). 

Em 22 de Setembro de 1778, Ridler entregou à 
Direcção todo o material e utensílios, desanimado com 
o desastre, e foi José Francisco dei Cuôco, o sucessor 
de Gabriel de La Croix na administração da Fábrica 
dos Pentes, quem levou o fabrico dos acharoados a uma 
notável perfeição. 

Depois, veio D. Maria I, veio o Marquês de Ponte 
de Lima, veio tudo aquilo que o destino aprouve man- 
dar, como escárneo, depois do Marquês de Pombal ; 
e a Fábrica de Charões foi votada ao ostracismo, como 
o foi a dos Pentes, a de Cutelaria, a de Tapeçarias, a 
de Fundição e as restantes. Toda a obra grandiosa do 
primeiro ministro de D. José, foi quási metida a ridí- 
culo. O que preocupava o primeiro ministro de D. Ma- 



(i) Livro B de Decretos e Avisos^ pág. i25 a 126. Documento 
datado de 22 de Junho de 1774. 

(2) Livro g3g de Registo de Ordens, pág. 2. 



— 228 — 

ria I era a obra do Erário Régio e as cores das fitas 
das condecorações das ordens militares. ; Isso sim 1 
j Isso é que era importante ! As reformas do Sebastião 
José (como então se dizia achincalhando-lhe a nobreza) 
cheiravam a progresso e ao democratismo das ideias 
modernas, j Fora com elas ! 



Falta ainda falar na Aula de Estuque e Desenho que 
funcionou nas Amoreiras sob a direcção do italiano João 
Grossi, contratado pela Real Fábrica em 1764, com 
o ordenado de 6ooí5í)OOo réis(i). Começou a trabalhar 
em 28 de Agosto desse ano com os quinze discípulos 
que marcava o contrato, mas pouco resultado deu, 
a-pesar-de se ordenar, por alvará de 23 de Dezembro 
de 1771, que nenhum artífice do género pudesse ser 
encarregado de obras sem ter aprendido na Aula de 
Estuque. A aula foi extinta por ordem da Junta de 
Administração das Fábricas, de 6 de Outubro de 1777, 
mas Grossi continuou a leccionar particularmente, em- 
bora subvencionado, ainda, pela Junta. 

Não foi por falta de zelo da Direcção que a Aula 
acabou com o prejuízo de 1 5. 4963^475 (2). A ordem 
de 21 de Novembro de 1770 manda dar a Grossi uma 



(1) A Aula estava instalada nas casas n.*" 3i a 32 da Praça 
dos Fabricantes. Em 1765 já o Rol menciona o João Grosy (sic). 
Em 1766 mencionam-se, com ele, os aprendizes Francisco Solano, 
António Pedro e João Paulo ; em 1767 o Grosy e a mulher D. Rosa 
Bernardes, e os aprendizes do ano anterior, mais Afonso Gonçal- 
ves; e em 1771 os mesmos de 1766. 

(2) Noções Históricas e Económicas, e Administrativas, já ci- 
tadas, pág. 212 a 21 3. 



— 229 — 

nota dos discípulos e aprendizes, outra de quantos aca- 
baram o estudo e por que razão os que acabaram conti- 
nuavam lá(i), mostrando interessar-se pelo seu pro- 
gresso. Alguns discípulos da Aula conseguiram nome. 
Francisco José da Costa, Manuel Francisco e Francisco 
dos Santos, discípulos de Grossi, tiveram carta de Mes- 
tres-estucadores habilitados, assim como Paulo Botelho 
e Manuel José de Oliveira que com o italiano tinham 
também trabalhado (2). 

O alvará de 23 de Dezembro de 1771 que proíbe 
aos pedreiros, carpinteiros e moldureiros, tomar conta 
de obras de estuque sem ser examinados ou ensinados 
na Inspecção da Real Fábrica das Sedas (3) não dava 
o resultado desejado. Um aviso da Junta do Comércio 
de 3 de Janeiro do ano seguinte, chama a atenção para 
o alvará e propõe que nele se incluam os estucadores 
de que se não fazia menção e que eram os principais 
infractores (4). Em 1825, 1826 e 1828 as reclamações 
continuaram. A consulta de 20 de Abril de 1826 lembra 
que se multem os que trabalham de estucadores sem 
estar aprovados (5); o aviso de 7 de Setembro do ano 
seguinte volta a gritar o alerta a favor do cumprimento 
do alvará de 177 í (6) e ainda xiradi portaria de 9 de 
Abril de 1828 ordena à Direcção que fiscalize êss£ 
cumprimento, lembrando-lhe que só estucadores podem 
fazer obra de estuque (7). 



(i) Livro A de Decretos e Avisos, pág. 100 v.° 

(2) Livro B idem, pág Sy, 44, ó6, 6S e 72. Anos de 1773 e 
1775. 

(3) Gabinete Histórico^ de Frei Cláudio da Conceição, vol. vii 
pág. 25 a 26. 

(-l) Livro A de Decretos e Avisos, pág. 159 v." e 160. 
(5) Livro ^21-3." de Decretos e Avisos, pág. i5 v.° e 20. 
(ô) Idem, pág. 32 v.° 
(7) Livro g2i-3.° de Decretos e Avisos, pág. 61. 



— 23o — 

Era bradar contra o vento. A verdadeira Aula fora 
e era ainda a reedificação de Lisboa. Nesse trabalho 
portentoso é que se criaram bons engenhos e hábeis 
operários. 



Outras fábricas, derivadas destas e originárias do 
Real Colégio de Manufacturas, se estabeleceram por 
todo o Portugal. A Fábrica de Chapéus, na vila de 
Pombal, que muito deveu à iniciativa de Jácome Rat- 
ton e onde trabalharam muitos artistas estranjeiros, 
como os franceses Mr. Sauvage, Guilherme Fournol, 
Alberto Jacquerie de Salles, Batista Alexís e Gabriel 
Milliet; e a Fábrica de Fiação em Tomar fundada por 
Noel Le Maiire, onde também entraram Edmundo Car- 
los Binet, Timóteo Lecussan Verdier, Jácome Ratton 
e F^elix Clamouse Paliart, foram as duas que mais se 
desenvolveram e melhores frutos deram. 

Ainda se devem citar outras outras : 

— Fábrica de Panos em Portalegre, sobre a qual Pina 

Manique lançou as vistas ; 

— Fábrica de Estampar baetilhas e tlanelas em Azeitão 

erecta por Raimundo Pinto de Carvalho em 1788 ; 

— Fábrica de Rendas lavradas no tear, erecta por Cris- 

tóvão Razuret em 1783; 

— Fábrica de Guarnições Adamascadas, erecta no Porto 

em 1781 por Francisco de Oliveira Ribeiro; 

— Fábrica de Lanifícios de Lordélo, erecta em 1781 

por Domingos Martins Gonçalves e Francisco 
Xavier de Arantes ; 

— Fábrica de Estamparia de. Cristóvão Temply ; 

— Fábrica de Minas de Ferro (sic), no Pôrlo, erecta 

por Domingos Martins Gonçalves ; 



— 23l - 

Fábricas de Estamparia de tecidos de linho e algo- 
dão, uma fundada por Jeremias Mahony e Bento 
Lauretano em 1778, outra por Joaquim José da 
da Silva, outra de chitas, por Silvestre Luís Dias, 
na Orla Navia em 1781 e outra ainda por Cris- 
tiano Marolf em Coina ; 

Fábrica de Chapéus Finos, fundada em 1778- 1782 
por Manuel José Ferreira Grelho ; 

Fábrica de Cambraias e Luvaria, erecta por Joa- 
quim Tacinário, em 1778-1782; 

Fábrica de Agua-Forte, erecta por Manuel Negri, 
em 1782 ; 

Fábrica de Atanados e Marroquins, fundada em 
1780; 

Fábrica de Estampar Papéis, fundada por Manuel 
Henriques, em 1781, e que depois foi de Manuel 
Esteves, em 1788 ; 

Fábrica de Verdete, fundada em 1780; 

Fábrica de Vidro, de Guilherme Stephens ; 

Fábrica de Será, de João Baptista Fontana, em 1777 ; 

Fábrica de Galões de Linho, fundada por António 
José da Silva, em 1778; 

Fábrica de Tinturaria, fundada por João António 
em 1778; 

Fábricas de Chapéus Finos, fundadas, uma por José 
da Silva, outra por Nicolau Tog e outra por An- 
tónio José Lobo, todas em 1778; 

Fábrica de Lentejoilas e palhetas, na rua do Sali- 
tre, fundada em 1778 por Cipriano Lopes de An- 
drade ; 

Fábrica de Estamparia na Orta Navia, de Bento José 
Pacheco ; 

Fábrica de Vinagres, em Braço de Prata, em 1787; 

Fábrica de Papel em S. Paio, cerca de Guimarães, fun- 
dada em 1787 por António Alvares Ribeiro Lima ; 



— 232 — 

— Fábrica de Frocos dos Carlos, de Leonardo Luís, 

Inocêncio José e Francisco Luís, em 1776; 

— Fábrica de Limas; 

— Fábrica de Algodão, de Locatelli ; 

— Fábrica de Festões, em Sacave'm, em 1779, de Gui- 

lherme Mac-Cornich ; 

— Fábrica de Estamparia de Alcobaça, Já decadente 

em 1779; 

— Fábrica de Vidros, na Flor da Murta, em Lisboa ; 

— Fábrica de Grude, de Francisco Pedroso de Melo, 

eni 1780 ; 

— Fábrica de Archotes, de José Castilho, em 1780; 

- — Laboratório Químico de Godfroy Siziler, em 1784; 

— Fábrica de Cartas de Jogar, de Lourenço Solésio ; 

— Fábrica de Cerveja, de Estêvam Larcher, em 1784; 

— Fábrica de Cintas e Camurças fundada por António 

Ferreira Cristóvão em 1782; 

— Fábrica de Branquearia, em Torres Novas; 

— Fábrica de Vidros, de Sebastião de Castro Lemos, 

no Covo ; 

— Fábrica de Estamparia e Tinturaria de Chitas, dos 

Bellons, no Porto ; 

— Fábrica de Festões e Toalhas Adamascadas, no 

Porto, em 1787 ; 

— Fábrica de Pelicas, de Querele (?), 1786-1787; 

— Fábrica de Sola, em Cela (Alcobaça) erecta por José 

Tomás Uheco, em 1786; 

— Fábrica de Papel em Sintra, erecta em 1791. 

Estas e outras, citadas neste e no anterior capítulo, 
passam nos livros da Junta da Administração das Fá- 
bricas e da anterior Direcção da Fábrica das Sedas, 
em requerimentos e consultas, avisos, decretos e or- 
dens, quási sempre à roda do mesmo motivo : a solici- 
tação de privilégios. 



— 233 — 

A história das Indústrias Portuguesas, a história 
económica de Portugal está ainda por fazer. Um dos 
seus tomos mais interessantes será o que estudar o pe- 
ríodo pombalino, e ningue'm o poderá escrever sem 
arcar com o trabalho da consulta dos mil e tantos mas- 
sos e volumes desta colecção do Arquivo Nacional. 



CAPITULO X 



Sumário : A capela de Nossa Senhora de Monserrate — Sua fun- 
dação — Gitam-se dois alvarás régios — Faz-se a trasladação 
para a nova ermida — Algumas palavras sobre a Irmandade — 
Sua constituição e compromissos — Os fabricantes de largo 
e de estreito — Descreve-se o templo minuciosamente — Os 
seus belos azulejos — Obras antigas e festividades diversas — 
A primitiva Feira — A Princesa da Beira e a criação dos bichos 
de seda — O arraial e romaria dos Prazeres — Sua origem 
— É transferido para Campo de Ourique e depois para as 
Amoreiras — Notícias sobre a romaria dos Prazeres — A feira 
das Amoreiras — Transcreve-se uma descrição de Júlio César 
Machado — As barracas das figuras de sêra — Descreve-se 
uma — Os teatros — A barraca dos Dallots — Algumas notas 
sobre estes comediantes — Para onde passou a Feira — Modi- 
fica-se o bairro — Uma vista de olhos pela antiga Colónia 
Fabril — O registo de azulejos da rua das Amoreiras — Um 
teatro bairrista — A toponímia da rua e dos pontos próximos. 



Estamos outra vez na praça dos Fabricantes. 

No vão do arco médio, dos nove que a limitam pelo 
poente, fica a capela dos Fabricantes, dedicada a Nossa 
Seniiora de Monserrate. 

E a Seniiora de Monserrate uma das imagens mais 
populares e queridas em toda a região Pirenaica. 

Com a vinda de alguns fabricantes franceses, des- 
sas paragens para a Real Fábrica das Sedas, alastrou-se 
de entre eles para toda a comunidade dos artífices da 
Colónia Fabril das Amoreiras esse culto e essa devo- 
ção, que aliás já eram antigas em Portugal. 

Era da invocação de Nossa Senhora de Monserratç 



— 236 — 

o Colégio dos Órfãos, fundado pela Rainha D. Brites, 
mãi de D. Diniz, «e também o foi o seu sucedâneo» Co- 
légio dos Meninos Órfãos fundado pela Rainha D. Ca- 
tarina, à Mouraria, em 1549(1). De Nossa Senhora de 
Monserrate era a ermida do Palácio da Flor da Murta 
na rua de S. Bento e uma das capelas da igreja de 
S. Bento da Saúde. Ao Poço dos Negros havia, no 
meado do século xviii, outra ermida de Monserrate. 

Gil Vicente, no Triunfo do biverno, põe na boca 
do piloto 

acudi ali 

Que a nau vai sossobrando. .. 
O virgem de Monserrate 
Livra-nos deste rebate 
Pelo teu precioso manto. 

Os artífices sericícolas, afervorados em tal ideia, 
construíram no alto de S. Francisco uma simples bar- 
raca de madeira, onde uma imagem da Senhora (tra- 
zida talvez por algum operário das cercanias de S. Jean 
de Luz) foi logo posta ao culto, nascendo ao mesmo 
tempo a ideia de se impetrar licença para a edificação, 
no largo dos Fabricantes, de um templo condigno. 

Assim se pensou e assim se fêz. Autorizada a cons- 
trução da ermida, puseram mãos à obra, e em 1768 
estava esta concluída. 

Requereram então os irmãos e devotos, para que 
El Rei lhes fizesse mercê do chão onde a ermida estava 
fundada, a-fim-de fazerem a trasladação da imagem e 
de celebrar a missa dominical. El-Rei, por alvará de 
17 de Junho de 1768, fêz-lhe a mercê pedida, dando-lhe 
posse e inteiro domínio do chão, no vão do quinto arco 
para o lado da estrada, das casas da sacristia e mais 



(1) História dos Estabelecimentos Literários, Scientificos e 
Artísticos, por José Silvestre Ribeiro, pág. 85. 



— 287 — 

dependências (i). Seguidamente, a 11 de Agosto, bai- 
xou outro alvayá régio declarando a ermida isenta, 
para os efeitos do culto, da jurisdição do juízo eclesiás- 
tico e independente de qualquer paróquia em cuja área 
estivesse. Alcançada esta concessão valiosíssima, a 
irmandade dos Fabricantes mandou benzer a ermida, 
fêz-se a trasladação da arruinada barraca para o novo 
templo em 14 desse mês, e a quinze festejou-se sole- 
nemente a Assunção de Nossa Senhora (2), assistindo 
El Rei D. José e a Rainha. 



A irmandade era constituída, ao princípio, unica- 
mente pelos fabricantes, chamados de largo. Em 1772, 
pore'm, os artífices de estreito requereram também a 
sua admissão apresentando seis condições de entrada, 
das quais destaco as seguintes : 

Que houvesse na mesa seis mestres da sua especia- 
lidade, sendo alternados os lugares de Juiz e de Pro- 
curador pelos fabricantes de largo e de estreito; 

Que se lhe cedesse a casa de Despacho para as suas 
reuniões e eleições ; e 

Que se lhe concedessem os mesmos privilégios que 
aos artífices de largo. 

Ficariam assim todos os colaboradores da Colónia 
Fabril debaixo do patrocínio da Mãi de Deus, alcan- 
çando o aumento do te?nporal das suas manufacturas 
e do espiritual das suas almas (3). 



(1) Impresso avulso que possuo, mandado imprimir em 1887 
pela Irmandade. 

(2) Impresso avulso, mandado distribuir pela Irmandade e de 
que possuo um exemplar. 

(3) Livro dos Termos de ij/2, no cartório da Ermida, 



— 238 — 

Foi discutido, entre os de largo^ o requerimento e 
aceito com prazer, salvo no que dizia respeito ao lugar 
de Juiz, que por andar em pessoas estranhas e de ca- 
tegoria não podia ser partilhado entre as duas corpo- 
rações. 

Esse lugar foi desempenhado sempre efectivamente 
por sujeitos grados. Do princípio da Irmandade até 
1776 exerceu-o Joaquim Inácio da Cruz Sobral; em 
1777, Domingos de Gamboa e Liz ; de 1778 a 1779, 
D. Duarte de Sousa Coutinho; em 1780, Luís José de 
Brito; em 1781, Maurício José Cremer Wanzeller; de 
1782 a 1797, o Dr. Francisco António Marques Giraldes 
Cardoso de Andrade; de 1798 a 1819, o Desembarga- 
dor João José de Faria Guião; e em 1826, seu irmão, 
o Dr. Joaquim José Guião. Muitos deles eram bair- 
ristas, nossos conhecidos (i). 

Entre os Livros dos Termos da Irmandade acha-se 
um em que se cita um ofício dirigido pela corporação a 
Pombal, em 1773, no qual se roga não sejam aceitos 
nas fábricas e oficinas os operários ou aprendizes que 
não mostrem fazer parte da Irmandade. Este pedido 
foi deferido, tendo o favorável despacho a data de 29 
de Janeiro desse ano (2). O ser irmão de Nossa Se- 
nhora de Monserrate era, pois, obrigatório para todos 
os membros daquela colónia industrial. 

O primeiro Compromisso da Irmandade tem a data 
de 12 de Setembro de 17(33. 

O facto de a ermida estar privilegiada e isenta, por 
mercê régia, da jurisdição eclesiástica, deu lugar, pos- 
teriormente, a variadas questiúnculas com as paróquias 
vizinhas. A Real Capela era, para os priores de Santa 



(i) Livro das eleições da mesa, no mesmo cartório. 
(2) Livro dos Termos n." i, pág. 9 v.° idem. 



— 239 '- 

Isabel e S. Mamede, um sorvedoiro de prováveis re- 
ceitas paroquiais e guerreavam-na por isso. 

A conta dos festejos a Santo António realizados em 
Monserrate em 182 1 pelos devotos dessa imagem (que 
se venerava na capela de António Rodrigues Gil, em 
S. Bento) houve mosquitos por cordas entre o Pároco 
de Santa Isabel, que se julgava lesado nos seus inte- 
resses, e a Irmandade, que se defendia com o Real Pri- 
vilégio. Como esta questão, encontram-se vestígios de 
muitas outras no Arquivo da Irmandade (i). 



Exteriormente a ermida das Amoreiras nada tem 
de notável. E de uma vulgar simplicidade ; frontaria 
sobrepujada de frontão, porta única de entrada, e, sobre 
ela, o janelão do coro. No frontão uma fresta em forma 
de quadrifólio. Ao alto uma cruz singela. 

Para a parte posterior, tem um corpo saliente, res- 
saltando a três metros do chão e amparado em ca- 
chorros, no lugar correspondente ao altar-mór. Aos 
lados, dois corpos adjacentes, o da Sacristia e Casa 
de Despacho à esquerda, e, à direita, umas casas abar- 
racadas. 

A meio do corpo saliente, está uma cruz de azulejos 
do Rato, tendo na base a data de 1787. Do lado do sul 
fica a torre sineira, com quatro ventanas, sobrepujada 
de cruz. 

A entrada para a Sacristia faz-se por uma porta, 
num estreito edículo lateral, pelo lado do Jardim das 
Amoreiras. 



(1) Livro das Conferências, ano de 1821, fl. 17 e 18 v.", no 
Arquivo da Ermida. 



240 — 



Vejamo-la, agora, interiormente. Tem cena origi- 
nalidade. 

O corpo da ermida é oitavado, separando-o uma 
teia da capela-mór. Em toda a volta, um rodapé com 
dois metros de alto, todo recortado, poisa sobre o ali- 
sare marmoreado, em que o amarelo^predomina. Lindos 
azulejos do período primário da Fábri:a do Rato, de 
uma bela coloração azul e em puro estilo do século xviii. 

Alternando com as pilastras vêem-se molduras ovais 
interceptadas pelos ornatos da composição, em quatro 
pontos. Dentro dessas molduras estão representadas 
as seguintes alegorias : 

Entrando do lado direito : Uma escarpada rocha 
no meio do oceano e sobre ela uma oliveira. No espaço, 
voando, uma pomba com um ramo no bico. 

Na fita ondulante, o seguinte dístico: 

ÚNICA NAUFRÁGIO SUPEREST. 

Do mesmo lado, sob a Tribuna : Uma torre firmada 
num rochedo. Sobre esta, uma águia que olha para 
outra r.ve, que se representa voando por terra. Fundo 
de paisagem. Na fita : 

VIS FORTIOR ARCtT. 



E ainda: Paisagem: no primeiro plano, à esquerda, 
uma rocha, da qual nasce uma vara em que se enleia 
uma videira de cachos pendentes. No espaço, o sol, e 
na fita : 

INTACTA PLACET. 



— 241 — 

Na capela-mor, do lado da Sacristia: Uma estrela 
fulgurante de raios e entre elas o sol. Na fita: 

NOLI ME TANGERE. 

Do outro lado da capela-mor : Paisagem e casas 
no primeiro plano. No espaço o sol e o Arco-íris. Na 
fita: 

SOLIS OPVS. 

Sob o púlpito : Uma serpente enroscando-se num 
tronco de árvore. A parte superior da composição e 
o dístico da fita estão ocultos por um armário com 
promessas de cera. Sendo o assunto igual ao que se 
vê em um dos painéis da ermida da Cruz das Almas, 
deve ler-se na fita : 

INIMICITIAS PONAM. 

A entrada, do lado esquerdo: Sobre fundo de pa'í- 
sagem, uma pirâmide. Na fita : 

UMBRA PRQCVL. 

Tal é a interessante decoração do rodapé de azu- 
lejos. 



As paredes e tecto da ermida são estucados. Neste, 
composto de apainelados que convergem, em cúpula, 
para o painel central, oitavado, onde está uma pin- 
tura de Nossa Senhora de Monserrate, do pincel de 
Pedro Alexandrino, vêem-se diferentes alegorias e or- 
natos. Aquelas são, um espelho (espelho de justiça), 
Voi.. IV i6 



— 242 — 

uma torre (lôrre de marfim)^ um anel (/dia misteriosa)^ 
uma estrela (estrela da manhã), um poço (poço de sa- 
bedoria), duas árvores, que não sei o que representem, 
e uma outra alegoria que me não foi possível destrin- 
çar o que fosse. Três dos apainelados são ocupados 
pelos ornatos, em dois dos quais vi, num, o sol e, 
em outro^ a lua. 

No apainelado, cuja base assenta sobre o arco do 
cruzeiro, estão pintadas as armas reais do tempo de 
D. José I. 

O tecto da capela-mor é estucado tambe'm, vendo-se 
no fecho da abóbada um ornato em forma de quadri- 
fólio, dentro do qual estão pintadas umas cabeças de 
anjo voando em redor de um sol. 

O tecto sobre o coro é igualmente a estuque, sem 
pinturas. Este assenta sobre um arco tríplice. 



O altar-mor, de Nossa Senhora de Monserrate, tem 
a imagem da Senhora. Aos lados, duas portas ; sobre 
elas um nicho e, superior a estes, duas frestas. Nos ni- 
chos estão as imagens de Santa Bárbara e Santo An- 
tónio. 

A porta do lado do Evangelho dá para uma escada 
de serventia do altar-mor. Fronteiras uma à outra 
ficam as portas da sacristia e de arrecadação, de onde 
há acesso, por uma escada de caracol, à torre sineira 
e, por outra escada, à tribuna. Sobre as duas portas 
rasgam-se janelas. 

No corpo da ermida temos, do lado do Evangelho 
o altar do Santíssimo, onde estão as imagens de S. José 
e da Senhora do Monte do Carmo, depois um armário 
com promessaij de cera e, seguidamente, o altar da Se- 
nhora da Atalaia e do Mártir S. Sebastião. 



— 243 — 

Do lado da epístola, fronteiro ao do Santíssimo, 
está o altar de Nossa Senhora das Dores, com uma 
imagem de Cristo Crucificado e sob ele o Senhor Morto, 
e o altar de Nossa Senhora da Conceição. 

Deste lado fica, à altura da Casa de Despacho, uma 
tribuna fronteira ao púlpito, 

A entrada para o coro faz-se por uma escada de 
caracol à esquerda do guarda-vento. 

Na sacristia existem alguns péssimos quadros a 
óleo, um Santo António Preto (Santo António de 
Noto)(i) e, dentro de uma maquineta, um lenço de al- 
godão estampado com a imagem de Nossa Senhora de 
Monserrate, com o menino ao colo, sendo ambas as 
figuras de cor preta. Esse lenço — disseram-me — foi 
trazido com a imagem pelos fabricantes franceses e 
data da primitiva da capela. 

Sobre a sacristia fica a Casa de Despacho, onde 
há mais quatro quadros a óleo, sem valor algum. Numa 
moldura oval vêem- se pintadas, também, as armas reais 
da época pombalina. 



(i) Santo António de Noto era uma das imagens levadas nos 
andores da procissão anual do Terço de Jesus que os negros fa- 
ziam em Lisboa. O ci'devant Duque de Chatelet, a págs. 187 a 188 
do primeiro volume do seu Voyage eu Portugal declara ter wisto 
essa procissão, que lhe pareceu um dos espectáculos mais curiosos 
que tinha presenciado. Não figurava na procissão um único branco. 

Notou ele que as mulheres, que em grande número assistiam 
ao seu desfile, nas ruas e nas janelas, espirravam a miúde. Intri- 
gou-o esta persistência de espirros e, preguntando a uma das 
damas, explicou ela que o atchim era uma maneira de elas tro- 
çarem dos pretos, por se dizer que nunca espirravam. É a pri- 
meira vez que encontro explicação — verdade que seja que bas- 
tante extravagante — a esta costumeira. Por isso a deixo aqui 
consignada. 



— -244 



Nos Livros da Receita e Despesa da Infiandade 
encontrei a nota da compra dos sinos. Tendo sido rou- 
bados os primitivos, encomendaram dois novos à Fábrica 
de Fundição de Júlio Gatti, em 1776, os quais custaram 
cento e dezasseis mil e tanto. Outro sino foi feito por 
José' Amado em 1792(1). Apenas um deles, o maior, 
é ligeiramente ornamentado : cinta inferior lavrada e no 
dorso três palmas. Os novos sinos foram inaugurados 
em i3 de Julho de 1776(2). 



No arquivo da ermida encontrei referências a obras 
importantes no templo, em 1821 e em 1878. Em 1821 
foi quási uma reedificação. Os segundos restauros obri- 
garam a ermida a estar fechada durante meses. 

A irmandade tem hoje reduzidos rendimentos. As 
casas anexas ao templo e outras que possuía, que 
ainda em 1842 renderam 372í5f)Ooo réis, foram vendidas 
há cerca de catorze anos. 



(i) Livro de Receita e Despesa da Irmandade e Livro dos 
Termos de iyj6, pág. 16, no Arquivo da Ermida. 

(2) Aqui há anos, um fiscal do Caminho de Ferro, chamado 
Ferreira, escondeu no manto da Senhora de Monserrate uma por- 
ção de jóias que furtara num comboio a umas senhoras da nossa 
primeira sociedade. Preso o criminoso e descuberto o roubo, veio 
a provar-se que as jóias eram falsas. Por pouco o ladrão não fica 
roubado. 



— 245 — 



Na ermida, além da festa principal, em dia da Se- 
nhora de Agosto, em que a irmandade fazia imponentes 
ceremónias religiosas, realizavam-se ainda outras festi- 
vidades religiosas e cedia-se o templo aos festeiros 
estranhos à casa. 

Em 1776 fêz-se aqui uma solene procissão de preces 
pelas melhoras de El-Rei. Foi em 28 de Novembro. E 
já a 6 de Outubro se tinha festivamente celebrado a 
colocação do Sacrário no altar do Santíssimo. 

Quando foi do nascimento do Príncipe da Beira, em 
1793, os fabricantes de sedas custearam uma solene 
missa cantada e Te-Deum, orando, em acção de graças 
pelo fausto acontecimento, o Dr. Frei José Maria de 
Sant'Ana(i). 

Santo António de Noto, hoje mutilado e desampa- 
rado de devotos, tinha anualmente a sua festividade, e 
aqui vinham também os devotos do Senhor Jesus dos 
Aflitos, até 182 1. Neste ano, solicitada pelos mesmos 
autorização da irmandade para aí celebrarem a festa 
costumada, foi-lhes negada, em razão das turras havidas 
com a paróquia de Santa Isabel. Nesse ano venera-' 
va-se a imagem em um oratório da rua do Moinho de 
Vento (2). 

Nas festas da Semana Santa de 1881 ainda a irman- 
dade gastou cerca de 752f)Ooo réis. 



(1) Gaveta de Lisboa de 14 de Junho de 1793. 

(2) Livro das Conferências da Irmandade, ano de 1821, no 
Cartório da Ermida. 



— 246 — 



Domingo do Espírito Santo, costumava haver festa 
e arraial na praça das Amoreiras, o qual durava três 
dias e quási todos os anos os devotos do Senhor Jesus 
da Agonia vinham aqui festejar a sua imagem e feirar, 
revertendo para a irmandade um terço dos rendimentos 
gerais que se obtinham. Essa festa e feira realiza- 
vam-se no dia da segunda oitava da Páscoa do Espirito 
Santo(i). 

Foi esta a primitiva feira das Amoreiras, a que se 
reuniu mais tarde, engrandecendo-a, o arraiai e feira 
dos Prazeres. A multidão que, mesmo antes da reunião 
desta, ali afluía, era notável, chegando a ser proibida 
em 1837 pelo dano que os festeiros e feirantes faziam 
nas amoreiras do Largo, a pesar da tropa que policiava 
o local (2) e dos guardas do município que zelavam es- 
pecialmente as árvores e se achavam instalados, por 
sinal, em uma casa à entrada dos arcos, de que a Câ- 
mara pedira o usufruto ao seu proprietário Geraldo 
Braamcamp, em 1842(3). 

A entrada no Aqueduto das Águas e no Depósito 
foi também proibida aos festeiros, emquanto durasse a 
feira, no ano de 1837 (4). 

Com referência às amoreiras do Largo, peço licença 
para abrir um pequeno parêntesis (5). 



(i) A Irmandade recebia parte desse rendimento com a cláu- 
sula de cuidar e zelar pelas amoreiras do Largo. 

(2) Em i8_i4 policiavam-na nove soldados e um cabo. 

(3) Sinopse dos Principais Actos Administrativos da Câmara 
Municipal, ano de 1842. 

(4) Idem, idem, ano de iSBj. 

(5) Em 1844 foram aqui plantadas mais 32 amoreiras (Si- 
nopse). 



-247 — 



No Arquivo de Nossa Senhora de Monserrate en- 
contrei dois curiosos documentos. Nada menos do que 
duas cartas, datadas, respectivamente, de 5 de Junho 
de i8o5 e de 3o de Abril de 1807, em que a Princesa 
Nossa Senhora, estando em Mafra, rogava à Irmandade 
lhe destinasse um quarteirão de amoreiras para os 
seus moços de ordens irem lá, todas as manhas, colher 
a folha para a criação de bichos que mantinha em Que- 
luz. A primeira carta é assinada pelo Conde de Cava^ 
leiros e a segunda pelo Conde de Peniche (i). 

As amoreiras pertenciam à Irmandade. Em 1810 
estavam muito reduzidas, razão porque José António 
de Sá, Director do Novo Estabelecimento de Fiação e 
Torcido de Seda, se dirigiu ao Juiz da Irmandade inqui- 
rindo do motivo de tal diminuição. O Juiz, que era o 
Desembargador João José Guião, respondeu ao afec- 
tado zelo dos Procuradores da Fábrica das Sedas, fa- 
zendo-lhe notar que a Irmandade tinha o título de Real, 
em termos ásperos e secos. 

i Que teria uma coisa com outra ! 



Por anúncio de 23 de Abril de i85i foi transferida 
para o largo das Amoreiras a feira e arraial dos Pra- 
zeres, que, no ano anterior, por edital do. 21 de Março, 
fora Já mudada, sem resultado, para Campo de Ouri- 
que. 



(i) A Irmandade também fabricava seda por sua conta. As 
despesas com tal fabrico montaram, em 1775, a 131^940 réis. 



— 248 — 

Saibamos as origens desta romaria, uma das mais 
pitorescas e movimentadas de Lisboa. 

A lenda diz que, meado o século xvi, aparecera uma 
imagem da Senhora sobre uma fonte, razão porque se 
ficou a chamar ao local do aparecimento a aFonte 
Santa». O Conde da Ilha do Príncipe, que tinha ali 
uma casa e quinta, levou a imagem para o seu oratório, 
mas ela, miraculosamente, voltou ao local onde apare- 
cera e ali se lhe fêz uma capela. 

A Senhora disse a uma menina que fosse noticiar 
aos pais que lhe chamassem «dos Prazeres» e ali lhe 
dessem culto. O Conde da Ilha deu o terreno para o 
templo. 

A imagem era de alabastro fino, lavrada, pintada e 
doirada por diante, e, pelas costas, embranco(i). 

Quando foi da peste de i5g8, escolheu-se a quinta 
dos Condes da Ilha para «Casa de Saúde». 

Frei Luís de Sousa diz, referindo-se a essa calami- 
dade : 

« Tanto q se declarou foi primei?'o conselho deputai' 
quinta grande e ca{as sobre a ribeira de Alcântara 
sitio alto e lavado dos ventos^ para enfermaria dos 
feridos»^ etc, 

E diz mais : que de 25 de Outubro de iSyS a 8 de 
Setembro do ano seguinte, entraram na Casa de Saúde 
20.227 atacados, saindo sãos í3.86i. Os restantes mor- 
reram (2). 

Acabada a epidemia, a Câmara, que tomara por 
arrendamento a quinta, em vista dos danos que so- 
frera com a utilização, e da perda que houvera do seu 
rendimento para o proprietário, convencionou com este 



(i) Sumário de Vária História, de Ribeiro Guimarãis, lôm. iii, 
pág. 147 a 148. 

(2) História de S. Domingos, vol. i, pág. 488. 



— 249 — 

dar-lhe o juro anual de 2ooíff)ooo réis pela Folha da Fa- 
zenda da cidade, aforando-lh'a a seguir pelo foro anual 
de 6o;Ty?ooo réis com a natureza de fateusim perpe'tuo, 
que só terminaria quando a quinta se tornasse neces- 
sária para o mesmo fim. Por morte de Francisco Luís 
Carneiro, sucessor do foreiro, obtiveram os seus her- 
deiros permissão do Senado para a divisão da proprie- 
dade (i). Uma dessas divisões, de que em i833 era 
proprietário o Conde de Lumiares, descendente dos 
Condes da Ilha (casas nobres arruinadas, cerca, ermida, 
etc), é que serviu para nela se instalar o Cemitério 
Ocidental, tendo o Governo adquirido o terreno sem 
consentimento nem consulta da Câmara, que era a di- 
recta senhoria. 

Em i835 (Abril) quis a Câmara reivindicar o foro 
e laudémio da quinta, terminando a questão em Outu- 
bro pelo encargo que lhe foi feito, pelo Governo, da Ins- 
pecção dos Cemitérios (2). 

A planta do Cemite'rio dos Prazeres foi aprovada, 
pela Câmara, em Novembro de i838. Em 1839 ^^^ 
aprovada a proposta para o arborizar e comprar alfaias 
e objectos de culto a-fim-da ermida poder servir nos 
actos fúnebres (3). A capela que lá vemos hoje foi 
inaugurada em 6 de Novembro de 1869. 

Junto à casa dos Condes da Ilha, havia barracaria 
abundante, que nos séculos xvii e xviii era conhecida 
por Pátio dos Prazeres (4). Em 1625 era um verda- 
deiro recolhimento de vadios (5). 

(i) Elementos para a História do Município de Lisboa^ vol. i, 
pág. 497> vol. u, pág. 525. 

(2) Arquivo Municipal e Sinopse dos Principais Actos Admi- 
nistrativos, etc. 

(3) Arquivo Municipal de Lisboa. 

(4) Róis dos Confessados da Freguesia de Santos. 

(5) Elementos para a História do Município de Lisboa, vol.ia, 
pág. i83, 225 e 226. 



— 25o — 

Em 1673, no palácio, moraram os Condes, e com 
eles mais 19 pessoas; em 1700, Manuel Pereira Cou- 
tinho; em 1716, D. Guiomar da Silva; e, em 1768, 
outra vez os Lumiares, D. Carlos Carneiro e a Condessa 
D. Juliana Xavier (i). 

Em 1S17, o palácio estava arruinado. Pertencia à 
Condessa D. Maria do Resgate, e o administrador da 
casa, Desembargador Giraldes Quelhas, anunciava-o 
para arrendar juntamente com uma pedreira e a 
quinta (2). 



Por causa dessa mesma peste de iSgS, se não foi 
de outra anterior, os moradores de Santos fizeram um 
voto à Senhora dos Prazeres, de ir em romaria à sua 
ermida, para que ela os livrasse de tamanho mal. 

Em 1626 o anónimo autor da Descrição Métrica de 
Lisboa informa-nos : 

Logo junto a dos Prazeres 
cuja festa se celebra 
o dia logo primeiro 
(que é) depois da Pascoela, 

E neste mesmo lugar 

se vê de quem quer que chega 

uma Casa de Saúde 

o (ou) por melhor de Misérias (3). 

A ermida velha ainda lá estava no princípio do sé- 
culo passado, apresentando às devoções dos fiéis a ima- 
gem da Senhora, que, segundo o Padre Carvalho da 



(1) Róis dos Confessados da Freguesia de Santos. 

(2) Gaveta de Lisboa de i de Setembro de 18 19. 

(3) Relação em que se trata e faj uma breve descrição, etc. 



— 25l — 

Costa, ao contrário do que afirma Ribeiro Guimarães, 
era de roca e tinha dois palmos de altura (i). Ao prin- 
cipiar o século xviii vivia ali um ermitão, sucessor de 
outro (Frei Lucas da Ressurreição) religioso eremita de 
Santo Agostinho, que ali morreu, sendo sepultado na 
própria ermida. 

A este templo deixou o cirurgião Amador Alvares, 
por seu testamento, um cális que o contraste da cidade 
dizia ter 6;2íooo réis de peso e de feitio. Foi entregue 
à Câmara por Maria Teixeira e a Câmara mandou-o 
entregar ao Tesoureiro da cidade, Agostinho Franco (2). 

E é o que sei sobre a Quinta dos Prazeres (3). 

Todos os domingos era o sítio da capela muito con- 
corrido de devotos, cujo número crescia extraordina- 
riamente no domingo e segunda-feira depois da oitava 
da Páscoa (4). Lisboa celebrava no arraial a abertura 
das sestas e celebrava-o ruidosamente. Dentro da larga 
cerca da ermida assentava arraiais a romaria. Todas 
as irmandades, clérigos e irmãos do Santíssimo da fre- 
guesia de Santos aí iam em procissão, de cruzes alça- 
das, cantar uma missa solene na devota ermida (5). 

Quando se instalou o Cemitério dos Prazeres na 
quinta dos Condes da Ilha, passou a festividade pagã 



(1) Corografia Portuguesa^ edição de 1707, terceiro volume, 
pág. 53 1 a 532. 

(2) Elementos para a História do Mnnicipio de Lisboa, vol. 11, 
pág. 426. Assento da Vereação de 29 de Outubro de 1618. 

(3) Quanto à história do Cemitério Ocidental, alguma coisa 
sei, mas não é esta a oportunidade de o referir. (Apenas deixo con- 
signado aqui que, no primeiro lêrço do século xix, os cemitérios 
que existiam na capital eram o das Mercês, o do Hospital^ o da 
Graça ou dos Padecentes, o dos Soldados, a Campo de Ourique, 
e o da Ajuda, no casal de Pedro Teixeira, 

(4) Dicionário do Padre Luís Cardoso, vol. 20 Informação do 
prior de Santa Isabel, Padre Felisberto Leitão de Carvalho. 

(5) Corografia Portuguesa, já citada, pág. 53 1 a 532. 



— 252 

a fazer-se fora dos muros do campo sagrado. Isto, 
como vimos, até i85i. Depois da mudança para as 
Amoreiras, continuou o povo a ir ali, seguindo a tra- 
dição e desprezando o edital da Câmara. Os folguedos 
do arraial começaram, porém, a exceder os limites da 
decência. Raro era o ano em que não havia excessos 
graves, e os protestos contra a condescendência muni- 
cipal principiaram a esboçar-se. Em iSyS, por exem- 
plo, houve mosquitos por cordas no arraial. Interveio 
a guarda de cavalaria. O povo resistiu e ouviram-se 
morras aos soldados, o que deu em resultado prancha- 
das abundantes, alguns feridos, muitos desmaios e de- 
zassete prisões. 

De ano para ano cresciam as desordens e os desa- 
catos, até que, em 1893, a autoridade proibiu, de vez 
e rigorosamente, a alegre romaria junto dos muros do 
Cemitério, hoje substituída pela Quinta de Belas, onde 
o Senhor da Serra serve de pretexto a três dias de fo- 
lia pagã. 



A feira das Amoreiras foi um dos mais populares 
e característicos divertimentos do seu tempo. Nada 
que se parecesse com a Feira de Agosto e com o Par- 
que Mayer. Muito pior e muito melhor do que elas. 
Menos luxuosa mas mais alegre, mais portuguesa, mais 
colorida. 

Por entre as barracas dos quinquilheiros e das quei- 
jadeiras, das quitandas que vendiam bilhas e morin- 
gues, testos e pucarinhos de barro, dos pim-pam-puns 
numerosos, passeavam imponentes os soldados da po- 
lícia, de farda escura, calça branca engomada, com a 
mão ameaçadora no punho do terçado de copos ama- 
relos. 



— 253 — 

Eram muitas as barracas de comida onde a sardinha 
chiava no azeite loiro e fervente, e imensas as locandas 
que vendiam nozes, figos e castanhas do Maranhão. 

Só mais tarde apareceram os teatros e as figuras 
de sêra, os extraordinários fenómenos e outras rari- 
dades que agora abundam. 

Ouçamos o delicioso «humorista» Júlio César Ma- 
chado descrevendo a feira num dos seus impagáveis 
folhetins. E êle quem fala. 



«Na formosa praça das Amoreiras, que tem a forma 
de um quadrilongo, com um chafariz no meio, servido 
por aromáticos galegos, estão assentadas as barracas 
pela forma seguinte: Entra-se, e no prolongamento da 
rua que dá acesso à praça estão colocadas as casas de 
pasto, onde se serve o bom peixe frito, saladas, iscas, 
mexilhão e outras iguarias de alta fragância. Isto é do 
lado do poente. 

«Por detrás, e do mesmo lado, estão as barracas 
dos arlequins, figuras de cera, ratas-sábias, burro inte- 
ligente, etc. e estridentes miásicas, tambores, pífanos 
e realejos. 

«Do lado do oriente, estão as quinquilharias, brin- 
quedos de crianças, presentes para senhoras e outras 
preciosidades retrospectivas e da indústria actual. 

«No topo da praça (norte), as barracas das queija- 
deiras com as apetitosas queijadas de Cintra, licores, 
cervejas, neve, gelados onde se reúne o monde élégant, 
barraca do Lima a plein chie. Os lados oriental e norte 
pertencem à bôa sociedade, o ocidente às classes po- 
pulares e de estômago vasio». 

Entre as figuras de cera, diz Luís de Araújo no seu 



— 2^4 — 

livro Coisas Portuguesas (impresso em 1872), havia os 
quadros do Filho Pródigo, coisa verdadeiramente rara. 

O primeiro quadro ou grupo representava, à es- 
querda, o filho pródigo em pé, toilette de viagem, ves- 
tindo galantemente à época, bolsa de viagem a tiracolo, 
frack, etc, estendendo o braço para raceber de seu 
pai uma carteira com notas de banco. O pai trajava 
robe de chambre de seda, chinelas, camisa de cambraia. 
Á direita estava o guarda-livros, escrevendo no livro- 
-mestre. Ao fundo, uma senhora vestida pelo último 
figurino, com cuia e merinaque . . . 

No segundo grupo, estava o filho pródigo e mais 
três com ele, cada um com sua dama, vestidas galan- 
temente, sentados todos à roda de uma mesa cheia de 
iguarias, flores, cristais, vinhos, etc. 

No terceiro grupo, aparecia o filho pródigo vestido 
de guardador de porcos no Alentejo, tendo o patrão ao 
pé com um ar muito malcriado. 

No quarto grupo, o filho aparecia já encanecido ; ao 
fundo via-se o velho ancião de robe de chambre^ ele 
esfarrapado e o irmão mais velho, todo chie e com 
jóias. E os homens gritavam à porta das barracas: 

i j Agora vão ver os senhores o grande Napoleão, 
a grande Imperatriz, o grande Padre Santo, o grande 
Garibaldi, o grande namoro de D. Inês de Castro! ! 



Dos teatros da feira, foi o dos irmãos Dallots o mais 
notável. Carlos Dallot morreu, não há muito (em 6 
de Dezembro de 1916). José, o outro irmão, morrera 
em Santarém em 1906(1). 



(i) Carlos Dallot morreu na Travessa do Guarda-Jóias, à 
Ajuda. O seu último teatro, em Lisboa, foi no pátio do Tejôlo. 
Deixou viúva D. Maria da Graça Dallot, e órfãos quatro filhos. 



— 255 — 

j Que vida a destes dois homens ! Saídos de Ver- 
sailles para correr mundo, com uma troiipe de ginastas, 
vieram parar a Portugal em mil oitocentos e quarenta 
e dois ou três, começando a trabalhar no circo (antiga 
praça) do Salitre, a dar saltos mortais, depois no Campo 
de Sant'Ana e mais tarde no primeiro Circo Price. Em 
1845 estavam no Circo Madrid. Com este partiram, em 
totirnée^ para Espanha, de onde passaram a Inglaterra, 
voltando novamente, depois, a Portugal que correram 
de sul a norte, representando ora o João o Coria-Mar 
e o Veterano da Liberdade ora o Ressonar sem Dor- 
mir e outras comédias ingénuas, entremeadas com as 
habilidades do célebre cavalo elástico a que êle cha- 
mava O Mosca e com as graçolas e as truanices do 
Joaquim Confeiteiro, o que foi, durante muito tempo, 
o palhaço preferido do Teatro Infantil das Amoreiras, 
Fazendo a «parada» do Teatro, gritava para o público : 

— j E entrar, meus senhores, é entrar ! j Já está cá 
a senhora Marquesa de Viana (i) ! 



(1) Assim mo garantiram. O sr. Conde de Mafra, meu ilustre 
amigo, nas suas Memórias, encantadoras de lêr-se, e que, ainda 
bem, foram publicadas, diz a págs. 77, referindo-se à Marquesa de 
Viana, que conhecera pobre e alcachinada, acompanhada sempre 
pela mulata Dorinda, que ela frequentava de verão a Feira de Be- 
lém. Lembra-se de a ter visto (em Agosto de 1876) abancada 
com a mulata na barraca da Lima «das queijadas» a beber água 
nevada, e de ter ouvido o galeguito do botequim, ao som do piano 
de manivela, chamar a mesma frase de chamariz: — «j Entrem 
minhas senhoras 1 Entrem que já cá está a senhora Marquesa de 
Viana». 

l Ter-se-ia fixado o «reclamo» como agora se diz ? 

O ilustre professor que trata os mortos e os vivos, com uma 
bondade de enternecer desculpando sempre as faltas, as fraquesas 
e os ridículos, conta também, dentro do mesmo assunto, que a 
elegante, adulada e riquíssima Marquesa vivia então em Pedrou- 
ços com duas filhas solteiras, uma das quais costumava dizer que 



— -256 — 

De feira em feira, de barraca em barraca, foram 
parar, há anos, ao Dafundo. Carlos Dallot constituíra 
numerosa família, e ela foi depois a sua companhia 
teatral. Actrizes e actores eram quási todos do seu 
sangue. ; As filhas representavam os grandes papéis 
dramáticos, os netos e netas formavam a troupe in- 
fantil ! 

j Pobre Dallot! j Por onde pararão hoje, dispersas, 
as tábuas da tua barraca das Amoreiras ! 



Em i865 fêz-se a feira na Patriarcal Queimada e 
em 1866 também. Depois passou novamente para as 
Amoreiras. Em 1868 requereram os feirantes para 
armar as barracas, não neste sítio, que era acanhado 
para o desenvolvimento que a feira estava tomando e 
porque não consentiam que se armassem fora do largo, 
mas na praça de D. Luís, ao Aterro, ou no largo da 
Patriarcal, onde já fora. A Câmara indeferiu-lhes a 
petição (i). 

Fêz-se a feira no sítio da Torrinha mais tarde, mas 
como o local era solitário e arredio, passaram a Be- 
lém, depois a Alcântara e depois outra vez à Torri- 
nha. 

i Mas que diferença de então ! Se não fosse a Tor- 
rinha, os barraqueiros não conheceriam o sítio. 



no tempo do pai, fora uma vez tanta gente jantar â quinta em dia 
de festa que tiveram de matar um boi, e, como não chegasse 
ainda, de matar mais meio. 

(i) Resolvido em sessão da Câmara de 27 de Maio de 1868. 



— 257 



De 1860 a i863 esteve este sítio atravessado de en- 
tulhos, junto ao Reservatório, e à entrada da «Légua 
da Póvoa» (i). 

Em i863, como Já ficou dito, foram substituídas as 
amoreiras por olmeiros e oliveiras ; mudou-se o cha- 
fariz que estava no meio da praça; ajardinou-se esta. 

Nos prédios bairristas levantaram-se andares ; fize- 
ram-se palacetes modernos. ; Tudo mudou ! 

Tanto é ainda assim o cunho pombalino e o ar fa- 
bril da antiga Colónia das Amoreiras, que há-de custar 
a tirar-lho. 



Uma ligeira vista de olhos pelo bairro: 
Alguns dos prédios dos antigos fabricantes ainda 
têm a antiga numeração, a tinta azul num azulejo branco. 
No prédio n.° 36, na face norte da praça, há um re- 
gisto de azulejo, com decoração a azul, representando, 
em uma moldura rectangular, um Santo António sobre 
um fundo de paisagem onde se vê, à direita, uma ca- 
pela. Em baixo, numa cartoiíche: 

P. N. A. V. PELAS ALMAS. 

Na travessa da Fábrica da Seda, 41-1.°, há uma 
igreja do rito Darbisla, denominada Salão Evangélico. 
Ali se reúnem os seus adeptos todos os domingos, às 
onze horas, para celebrarem a Santa Ceia, havendo à 



(i) Arquivo municipal, anos de 1860, pág. 209; ano de 186 1, 
pág. 752; ano de i863, pág. iSog. 

VOL. IV 17 



— 258 — 

tarde pregação do Evangelho que se repete às quartas 
feiras à mesma hora. 

Nesta mesma serventia, tornejando para a antiga 
travessa da Légua da Póvoa, fica a Escola de Equi- 
tação que foi do meu amigo D. José Manuel da Cunha 
e Meneses, há pouco falecido, o qual a herdara de seu 
pai, fidalgo da Casa Lumiares, do mesmo nome e ape- 
lidos. 

Neste arruamento há um bairro operário. Tem um 
terreiro à frente, com muro para a travessa. 

Das antigas fábricas resta uma oficina de tinturaria 
na travessa da Fábrica dos Pentes. 



Não quero deixar de mencionar um lindo registo de 
azulejos, existente no prédio n."^ 44 a 46 da rua das 
Amoreiras. 

CompÕe-se de três painéis. Dois ladeando a janela 
central do primeiro pavimento, e o terceiro, sob ela, 
ligando-se pelos cantos aos primeiros. E interessantís- 
sima a sua decoração : — molduras com ornatos amare- 
los sobre fundo verde e a pintura central a azul. 

Nos painéis de cima estão representadas, em um 
a Epifania, com o dístico : 

VIRGEM PURA E ESCLARECIDA 
SOIS MÃE DO AVTOR DA VIDA. 

E no outro a Fuga para o Egito, com o dístico : 

VIRGEM PURA E IMACVLADA 
PELOS ANJOS SOIS GUIADA. 



— 259 — 

No painel inferior, dentro de uma cartoiíche e entre 
as imagens de Santo António e S. Pedro, lê-se : 

RVA 
NOVA DO PAINEL 
DE JESVS M.'* JOSÉ 

Este letreiro seria talvez significativo da intenção 
do proprietário, de que a rua ficasse com aquela de- 
nominação. Isso mesmo se deu, com resultado, em 
outras serventias. A travessa do Monte do Carmo foi 
assim chamada em razão do registo que ainda hoje lá 
está no palacete Sacavém. 

Há anos, o proprietário da casa 'ou qualquer seu 
mandatário permitiu que se colocasse sobre o registo 
a chapa de uma Companhia de Seguros. Recentemente 
foi emendada a tolice. O painel, que chegou a nomear 
a rua, está de novo livre. 



No n.° 38 da rua das Amoreiras morreu, em 7 de 
Julho de 1919, o grande dramaturgo Marcelino Mes- 
quita. 



Houve aqui no sítio, em 1848, um teatro bairrista, 
chamado «Recreio Familiar». Os n.°^ 6 e 7 da Re- 
vista Teatral desse ano dão noticia de espectáculos, 
num dos quais, a 28 de Outubro, se representaram 
uma farça e o drama «O Sonho ou o flagelo do Re- 
morso». A «Castanheira», célebre farça da época, 
também ali subiu à scena. O ensaiador era o actor 
do Condes, José António da Silva. 



— 26o — 



A actual rua das Amoreiras, que vai do Rato até o 
Campolide moderno, artéria desigual, forma-se de vá- 
rios troços que outrora tiveram diferentes designações. 

Apurei as seguintes : 

— Azinhaga do Rato para Campolide, em 1730; 

— Rua do Rato para Campolide, em 1742 ; 

— Rua do Chafari\ de Pau para o Rato, em 1756, 

1760, 1764 a 1765, 1768 e 1772 a 1779; 

— Rua do Rato para as Aguas-Livres, em 1761 a 1778 ; 

— Rua do Rato para a Praça Nova, em 1762 ; 

— Rua das Aguas-Livres, ao Rato, em 1769 a 1770, 

abaixo ou acima do Carvalhão, em 1771 e 1783 ; 

— Rua do Rato até S. João dos Bemcasados, em 1780 ; 

— Rua do Arco das Aguas-Livres, em 1797 a 1804; 

— Rua do Arco das Águas- Livres e Bemcasados, em 

i8o5. 

Em 1809 separa-se a tua do Arco das Aguas-Li- 
vres da dos Bemcasados. 

Aparecem também a rua de Jesus Maria José (do 
Arco até S. João) ou travessa, em 1766 a 1759, 1761 
a 1764 e 1782. 

Em 1760 também se nomeia rua do Chafari^ que 
vai de S. João dos Bemcasados, e, em 1786, rua do 
Rato até S. João. 

Outros locais nomeiam-se separadamente : 

— A Cova da Onça, aparece de 1772 a 1786; 

— Sobre a Muralha, de 1780 a 1796 e Telheiro dos 

Pobres, em. 1769; 

— Monserrate, de 1786 a 1796; 



— 201 — 

— Aguas-Ltpres, em 1787; 

— Barraca do Peixeiro, jimto à Muralha^ em 1804; 

— Alto da Casa da Agua, em 1 8 1 1 ; 

— Alio, ou por Cima, da Muralha, de 1807 a 181 o; 

— Pátio da Cova da Onça, em 1844 e 1845; 

— Junto às Aguas Livres, de 1783 a 1789; 

— Junto à Fábrica da Louça, em 1797. 

Tudo isto que era escassamente povoado (a rua do 
Rato para Campolide tinha, em 1742, só sete fogos) 
foi, com o terremoto, inundado de moradores. 

Só a quinta do Tavares, que era então de José Xa- 
vier Carneiro Zagalo, tinha, em 1869, oitenta e cinco 
fogos. Num deles morava o proprietário com os seus 
cinco filhos. 

Em 1806 e 1807, na rua das Águas-Livres moravam 
o Dr. Manuel José de Arriaga, Sebastião José de 
Arriaga, a família Metzner, os guarda-damas António 
e Francisco Pereira de Miranda e o Laguar ; e, em 
i832, Caetano Alberto Pereira de Azambuja e João 
Torcato de Dornelas. 

De 1787 1789, numa «abegoaria» junto aos Arcos, 
moravam trese galegos. O Telheiro dos Pobres tinha 
dez fogos. 

Tudo isto era, pois, um aglomerado de barracas, 
telheiros e cobertos. A seguir à cerca das Freiras do 
Rato ficava a quinta, chamada do Fetal, que se for- 
mara de parte dessa propriedade e que tornejava para 
S. João dos Bemcasados no sítio onde está hoje o pré- 
dio de um só pavimento fronteiro ao palácio dos Ana- 
dias(i). 



(1) Róis dos Confessados da Freguesia de S, Mamede, anos 
referidos no texto. 



— 202 — 

A casa mais antiga da rua era a que, subindo, re- 
via à esquerda, logo depois do Arco. Ainda iiá pouco 
tinha os batentes das janelas de abrir para fora, gi- 
rando em gonzos de madeira. Hoje está já moderni- 
zada. 



CAPITULO XI 



Sumário: De Entremuros à rua de Artilharia i — Variadas desi- 
gnações deste local — O «vasadouro» de lyo — Um concerto 
instrumental e vocal numa «casa de pasto» — Outras quintas 
— O Páteo do Geraldes — Descreve-se a casa actual e o an- 
tigo convento dos Oratorianos— A ermida, as imponentes cha- 
minés, o palácio e suas dependências — Informação do Padre 
Manuel Portal — Volta-se ao Rato e à quinta de D. Elena — 
A invasão dos foragidos da cidade em lySS — Uma povoação 
de barracas — Luxo e miséria — Os que habitaram a quinta 
de D. Elena — Procissões, penitências e preces — O pavor 
dos terremotos em ij55 e 1756 — O trágico-pitoresco do lo- 
cal — As duas quintas dos Padres Queníais — Os seus mora- 
dores ilustres em 1756 — Barracas opulentas — Os oratórios 
e o culto — Visitas e embaixadas ao Cardial Patriarca aqui 
abarracado — Instalam-se na quinta a Relação Patriarcal e o 
Senado da ,Câmara — E vendida a casa e quinta dos Pa- 
dres Quentais — Compra-as o Desembargador Bartolomeu 
José Nunes Cardoso Geraldes de Andrade — Diz-se quem era 
o comprador e fala-se na sua família. 

O sítio de Entremuros, nome derivado da próxima 
quinta de Entremuros (cliamada depois «do Judeu» e, 
mais modernamente «dos Oleados») contava, em 1763, 
vime e dois fogos, e compunlia-se não só do arrua- 
mento ainda mal delineado, senão das terras próximas, 
como a referida quinta «do Judeu», a de Manuel da 
Cunha Tavares que lhe ficava ao poente e a dos Pa- 
dres Quentais, ou «dos Arciprestes» para o sul. 

Em 1768 começou a chamar-se-lhe rua. Em 177 1 
acumulam-se as designações de Arciprestes e Entre- 
muros, aplicando-se esta somente ao troço norte da 



— 264 — 

serventia, e, sete anos depois, opera-se a junção, pas- 
sando o arruamento a citar-se com o nome de rua dos 
Arciprestes e FMtremiiros para, em 1796, passar a rua 
direita dos Arciprestes, em 1806, a estrada de Entre- 
muros de Campolide ou rua da Estrada Antiga (i) ou 
ainda de Entremuros de Campolide e Arciprestes : de- 
pois rua de Entremuros, mais recentemente i^ua de 
Silva Carvalho, e, em 191 1, rua de Artilharia 1(2). 
A fúria denominadora não ficará por aqui. 



Em tempos mais afastados era este um dos sítios 
escolhidos pelo Senado da Câmara para «vasadoiro 
pijblico» : ((no ca?ninho que vai da porta do carro da 
quinta dos padres do Oratório de S. Filipe Nerj até 
sair a Campolider), diziam os vereadores no assento de 
18 de Novembro de 171 5 (3). 



Ao tempo em que escreveu o Padre Carvalho da 
Costa (17 10) havia uma quinta dos Arciprestes, com 
uma capelinha (que era então de Salvador Luís) dentro 
da área da paróquia dos Anjos, mas não devia ser 
esta a propriedade a que o cle'rigo se refere. O nome 



(i) Já assim também lhe chamavam em 1790, como se vê dos 
Livros do Lançamento da Décima desse ano. 

(2) Resolução municipal, numa das sessões de Agosto de igi i. 
Os nomes restantes citam-se no Róis dos Confessados da freguesia 
de S. Mamede e de Santa Isabel. 

(3) Elementos para a História do Municipio de Lisboa, t. ix, 
pág. 116. 



— 265 — 

de Arciprestes derivou-se de dois ciprestes que ladia- 
vam a porta de entrada na estrada de Entremuros (i). 
Depois chamou-se dos Qiientais e hoje do Geraldes {2). 
Em 1758 chamavam-lhe Quinta de Entremuros, nos 
assentos paroquiais de S. Sebastião da Pedreira. 



Um anúncio da Gazeia de Lisboa de 1787, dá-nos, 
sobre este local uma divertida e substancial noticia. 

Ei-la: 

« Efn uma quinta em que ha pouco se estabeleceu 
uma casa de pasto na rua dos Arciprestes^ onde cha- 
mam as Amoreiras^ para cima das Aguas Lipres, ha- 
verá d noite um grande concerto instrumental evocai. 
Todos os passeios estarão iluminados e se acharão ali 
vários refrescos e diferentes qualidades de Jiambres. 
A primeira noite d'este divertimento, será amanhã, 4 
do corrente (Agosto 1787), principiará ás 7 horas e 
acabará ás 11 e continuará nos sábados e segundas- 
feiras. Pessoas de capote ou com libré não serão 
admitidas {3). 

O suplemento da Gaveta de 4 de Agosto, noticia 
ter sido adiada a festa, para quando se anunciasse no- 
vamente. 

Parece ter falhado a tentativa. Se chegou a dar 
espectáculos, foram poucos. Ainda vinham longe os 



(i) Descrição do Padre Manuel Portal intitulada História da 
Ruína, etc, transcrita a pág. 720 e 721 da obra do falecido geó- 
logo e investigador Francisco Luís Pereira de Sousa. 

(2) Corografia do Padre António Carvalho da Costa, t. ni, 
freguesia dos Anjos. 

(3) Suplemento à Gas[eia de Lisboa de 3 de Agosto de 1787. 



— 266 — 

tempos da Floresta Egípcia e do Tivoli da Flor da 
Murta. 

Esta quinta devia ser a antiga propriedade de Ma- 
nuel da Cunha Tavares que, em 1766, era coniiecida 
pelo nome de Casal do Tarares, depois pelo de Casal 
Novo e posteriormente pelo de Casal ou Quinta do 
Mineiro. Nela moraram, sucessivamente, desde 1867 
a 1876, os Condes de Penamacor, Eduard Warburgo, 
Jorge Torlades 0'Neill e os Barões de Almeida (i). 



Do lado direito da rua de Entremuros, ao fundo de 
um caminho que se abre em frente da travessa da Fá- 
brica dos Pentes, fica o Páteo do Geraldes. Dentro do 
páteo — a fachada principal voltada ao poente — o pa- 
lácio. 

Entremos no terreiro. Eu digo ao leitor o que se 
via há poucos anos ainda. A casa dos Geraldes, sacri- 
ficada ao desenvolvimento urbano vai-se derruindo aos 
poucos. As altas chamine's cónicas que eram tanto da 
fisionomia do sitio, já lá foram ; o resto irá indo. Um 
renque de nove janelas enfrenta a entrada a que se 
chegava entrando pelo caminho a que me referi aberto 
na meia-laranja decorada nos extremos, antigamente, 
no alto do muro, por duas esferas de pedra que caíram 
com o terremoto. A janela do centro é de sacada, so- 
bre o portão de cantaria e ao alto fica o brazão do Ge- 
raldes que substituiu o dos Congregados do Oratório. 
A direita fica a capela, com uma porta, janelão do coro 
por cima, frontão estreito e arco de sineira, sendo o 
páteo, fechado por este lado por um muro que vai do 



(i) É a quinta cuja casa tem hoje o número ii5 de policia. 



— 267 — 

templo às cocheiras, as quais formam, a um dos lados 
do porrão o corpo poente do páteo. A ermida era de 
abóbada de estuque, e tinha as paredes azulejadas, 
coro, dois altares de telha doirada no corpo um de 
Santo António, à direita, e outro de Nossa Senhora à 
esquerda. O altar-mor, também de talha, fora feito 
pelo Padre José Pinto. Na sacristia, pequena, havia, 
encaixilhado, um painel de Nossa Senhora da Sole- 
dade. A ermida servia há pouco tempo de arrecadação 
de mobília. As imagens, alfaias e azulejos foram para 
uma capela aldeã, dos seus proprietários, cerca da 
Anadia. Esta informação deu-ma aqui há dez ou doze 
anos, a caseira que ali residia há muito tempo. 

Do lado norte do páteo era o lagar, depois estábulo 
de vacas. Está tudo arruinado. No terreiro passseia- 
vam, ainda há pouco, vacas e galinhas, e estacionavam 
carruagens e carroças. 

No páteo interior ou saguão, vê-se na parede fron- 
teira à entrada, isolado na empena, um relógio de sol. 
Sobre um alpendre de madeira, apainelado, a cair de 
podre, vêem-se de novo as armas dos Geraldes. Ante- 
riormente o brazão dos Congregados ficava na empena 
fronteira ao corredor de acesso ao páteo entre ornatos 
de estuques coloridos, sendo colorido também esse la- 
vor heráldico. 

Não conheci o palácio interiormente. O Padre Ma- 
nuel Portal, transcrito pelo falecido engenheiro Pereira 
de Sousa na sua monumental obra O Terremoto de 
JjSS, a cuja descrição tenho ido roubando tudo o que 
diz respeito a residência dos Oratorianos antes de ser 
transformada em palácio fidalgo, faz um relato curioso 
de todo o edifício. A escada de acesso ao primeiro 
pavimento era azulejada assim como um corredor que 
se lhe seguia. Lá dentro, no primeiro pavimento, ha- 
via refeitório e ante-refeitório, barbearia, uma casa 



— 268 — 

chamada a Casa Grande», de abóbada, que comunicava 
com uma varanda de pedra para onde dava também o 
refeitório que era guarnecido de azulejos. A varanda 
tinha grades de ferro, firmados em pilares de mármore 
da Arrábida, poiais e azulejos com a vida de S. Filipe 
Néri. Numa das paredes via-se um revestimento cerâ- 
mico completo e nele pintado uma imagem de Nossa 
Senhora do Rosário. Jasmineiros envolviam as grades. 
No pavimento de cima, servidos pela escada azule- 
jada, com tecto de estuque, onde se via um painel de 
S. Lourenço, eram os cubículos (vinte e dois) de pa- 
redes e tectos engessados, pintados pelo tal Padre José 
Pinto. A roda dos corredores estava a Via-Sacra, em 
painéis mandados vir de Roma pelo referido clérigo. 

Numa casa grande instalava-se o jogo do «truque do 
taco» (bilhar), e noutra uma suficiente livraria. Acho 
delicioso este suficiente. 

O terremoto abriu uma fenda na parede da parte 
do páteo e caíram algumas pedras do cunhal que iam 
matando o atafoneiro que estava a dar de beber às 
bestas. Alguns cubículos ficaram arruinados. Os livros 
caíram das estantes ao chão. A parede da «casa do 
taco» aluiu também e ficou em risco de desabar. A 
ermida como a sacristia, a casa grande e o Refeitório, 
também sofreram danos consideráveis. 

Eugénio dos Santos de Carvalho foi ver os estragos 
no palácio e disse que era necessário apeá-lo quási todo, 
embora se pudesse remediar com «linhas de ferro». 
A-pesar-disso os Congregados do Oratório foi aqui que 
se recolheram fugidos do convento do Santo Espírito 
da Pedreira, abarracando-se no terreiro e na quinta. 

O celeiro que ladeia o páteo pelo norte, está uma 
ruína de há muito para cá. No cunhal que olha para 
a Penitenciária via-se, há pouco ainda, o rombo feito 
por uma granada na manhã de 4 de Outubro. Para o 



— 269 — 

lado do Parque Eduardo VII, onde se acastelavam as 
barracas da Feira de Agosto e hoje se vai esboçando 
o Parque, ficava o largo terraço a que o Padre Manuel 
Portal se referia, o Pombal, e as duas enormes chami- 
nés que solenemente esperaram tanto tempo o camar- 
telo municipal. Todo o palácio está condenado. A 
cidade moderna esmagou-o, para passar. 



A págs. 383 do terceiro volume escrevi a propósito 
da moderna «Praça do Brasil» : 

«Depois de 1755 desabou sobre o Rato uma ava- 
lanche de foragidos». 

Cabe-me agora aqui acrescentar mais algumas notas 
elucidativas sobre essa invasão que alastrou por todo 
este arrabalde. 

Diz-nos o Padre Portal, abençoadamente loquás ; 
que aqui se armou logo um mercado de ortaliças, fru- 
tas e todos os demais comestíveis, abriram-se dois açou- 
gues, lojas numerosas de todo o género de comércio, 
mercadores, capelistas, ourives, tudo em tendas e bar- 
racas improvisadas, estendendo-se pela rua da Fábrica 
das Sedas fora, da cerca dos jesuítas até ao Noviciado 
(como quem diz, do chafariz do Rato até à Faculdade 
de Ciências) alastrando ainda até o campo da Cotovia 
(praça do Rio de Janeiro). Era como que uma rua de 
acampamento. Pela actual rua do Sol acima, o mesmo. 
Chamavam-lhe, então, «estrada do Rato para a Boa- 
-Morte». 

Aí chegaram a haver barracas luxuosas. A do Mar- 
quês do Louriçal era quási um palácio. Custara — di- 
zia-se — trinta ou quarenta mil cruzados, A do «De- 
sembargo do Paço», feita de tabique era toda pintada 



— 270 — 

com gi^ande acêo e perfeição, e a da «Mesa da Cons- 
ciência» era \asia, fabricada com bela ideia e de muito 
mellior cómodo do que tinha dantes. As lojas também 
aqui não faltavam, em correnteza pela serventia acima. 
Parecia até que havia rnais mercadores do que antes 
do primeiro de Novembro. 

A miséria dos primeiros dias sucedera, a pouco e 
pouco, uma estranha e nova erupção de luxo. Er- 
guiam-se barracas sumptuosas com panos de raz e te- 
cidos caros, de mais de um pavimento e com adornos 
exteriores ; os vestidos lustravam-se de galas e atavios; 
estadeavam-se coches; as mulheres cobriam-se de sedas 
e de jóias. Os mercadores, que só vendiam a dinheiro, 
encheram-se e os novos direitos pagavam-se na Alfân- 
dega como se a tremenda calamidade não tivesse asso- 
lado a cidade. Os mendigos que por coisa alguma 
terem foram os únicos que coisa alguma tinham per- 
dido, infestavam todo este subiárbio com lamentações, 
fazendo o seu estendal de misérias. Este espectáculo 
e o das constantes procissões de penitência em seguida 
aos, também, constantes abalos, é que perturbavam 
esse ambiente de luxo desafiante. Foram imensos esses 
cortejos de desagravo que seriam risíveis pela exibição 
dos penitentes se não se representassem dentro de uma 
atmosfera de tragédia, feita de espíritos apavorados 
pelas profecias e pelo receio da ira divina. Os jejuns, 
as confissões e as penitências, disciplinadas pelas pas- 
torais do Cardial Patriarca D. José Manuel, tinham 
entrado na agenda da população de Lisboa. 

Vinte e cinco mil dos seus habitantes viviam então 
na nova paróquia de Santa Isabel. 



— 271 — 



Um dos locais escolhidos pelos fugitivos das ruínas 
fumegantes, fora, neste sítio, a quinta de D. Elena a 
que já me referi. Ficava esta propriedade ao norte do 
actual largo entre a antiga «calçada da Fábrica de 
Louça» e o primeiro troço da rua de Alexandre Her- 
culano, alargando para cima até entestar com a quinta 
dos padres do Oratório, deixando para o poente a de 
Manuel da Cunha Tavares e para o nascente a azi- 
nhaga de Vale de Pereiro. O limite sul formava-lho o 
Salitre ate' esta azinhaga. A esse tempo já pertencia, 
como vimos, aos Oratorianos, e projectava-se cortá-la 
por uma rua que fosse do Rato ter à entrada da quinta 
dos do Oratório a que davam o nome de «quinta dos 
Ciprestes» ou «dos Arciprestes» à conta de duas destas 
árvores que ladeavam, fazendo sentinela, a referida en- 
trada. A planta estava feita, El-Rei já dera a indis- 
pensável licença e os Quentais pensavam no negócio 
dos aforamentos. Com o terremoto e a invasão, todos 
os projectos caíram por terra. Os espavoridos lisboe- 
tas, invadindo-a, na ânsia da instalação provisória, der- 
rubaram-lhe os muros de pedra solta que a cercavam 
e vá de aproveitar para lume e construção as cepas e 
o tronco das oliveiras. 

A quinta era só plantada de vinha e olival. Em 
vista disto os oratorianos resolveram arrancar tudo, 
roçar o terreno, trocando o rendimento agrícola pelos 
possíveis aluguéis e futuros aforamentos. Nos princí- 
pios de 1756 subia a duzentos o niímero das barracas 
de pano e tabique que infestavam a quinta, havendo 
algumas de sobrado e lojas. 

Os que ali se abrigavam eram gente miúda, em ge- 
ral, avultando as barracas do beneficiado António da 



— 272 — 

Costa Couto, de João Viegas Machado e de José dos 
Reis e Silva. Os religiosos franciscanos, a Ordem 
Terceira e o Hospício da Terra Santa, tambe'm aqui se 
albergaram. O alto de S. Francisco, ainda hoje no 
nome de uma travessa do bairro das Amoreiras, reme- 
mora essa estadia. Ê a «travessa de S. Francisco de 
Sales» chamada anteriormente «dos Arciprestes». 

Até Janeiro os oratorianos quantia alguma exigi- 
giram aos povoadores da quinta ; depois começaram a 
fazer contratos provisórios, com obrigação de despejo 
por ocasião dos aforamentos quando a nova rua se ras- 
gasse. 

Durante esse calamitoso período da vida lisboeta, 
este espaçado arrabalde do Rato foi teatro de infinitos 
espectáculos. Não bastava o movimento derivado da 
deslocação para tais paragens de muitos Tribunais (a 
«Relação Patriarcal» estava na Fábrica das Sedas e o 
«Senado da Câmara» esteve na quinta dos Qucntais); 
não bastava a vinda para a barracaria do Vale de Pe- 
reiro do regimento de Olivença, ainda havia quási dia- 
riamente as procissões de penitência, missas, sermões 
e outros actos religiosos. Na quinta de D. Elena fa- 
zia-se uma via-sacra em derredor da propriedade, com 
estações junto às cruzes que se arvoravam em várias 
barracas, e nela ia sempre um religioso franciscano, 
imitando Cristo com um pesado madeiro às costas. 

Estas penitências eram espectáculo de todas as ho- 
ras. Os franciscanos aqui abarracados davam cons- 
tantes exemplos de disciplinas e de mortificações. 

As procissões não paravam de organizar-se. Em 
Setembro de 1756 amiudaram-se com a vinda de novos 
abalos. Em 21 desse mesmo mês saiu uma da igreja 
do Rato. Já o Comissário dos Terceiros de S. Fran- 
cisco, que ia descalço, com cadeias aos pés e amar- 
rado com cordas, estava em Santa Isabel e ainda a 



— 273 — 

cauda do préstito, por S. Bento abaixo, estava no Poço 
dos Negros. Prègaram-se quatro sermões em sítios 
diferentes. Muitos dos penitentes iam com cadeias, 
cordas e pesos aos ombros. 

Em 24 saiu outra procissão dos franciscanos da 
quinta de D. Elena. O Dr. Melgaço ia descalço, com 
uma coroa de cordas na cabeça. Outros levavam cru- 
zes às costas e pesadas pedras. No dia 29 saiu do con- 
vento do Rato novo préstito de penitência. O Comis- 
sário dos Terceiros de S. Domingos, no meio do povo 
que gritava e chorava ia, também, amarrado com cor- 
das e grilhões, uma corda à cinta que um preto segu- 
rava como se o levasse preso, e uma coroa de silvas 
na cabeça. A rua de S. Bento alastrava de gente e os 
sermões foram constantes. 

A procissão de Nossa Senhora Mãi dos Homens, 
na ermida de Vale do Pereiro, realizada em 10 de Ou- 
tubro, formou-se e seguiu o seu termo debaixo de chuva 
torrencial. A fé crescia com o pavor. Quando a i3 de 
Outubro um furacão passou pela Ribeira de Alcântara, 
o povo julgou que era o fim do mundo. Bastava o 
grito de um desmaio, uma borborinha insignificante 
para o pânico se estabelecer, como no dia 17 de Outu- 
bro, sucedeu em S. Roque. 

O abalo que se sentiu na noite de 25, foi uma tra- 
gédia neste recanto da cidade, cheio de abarracados e 
de apavorados. 

A quinta de D. Elena (a que em 1787 se chamava de 
D. André (i\ e de Dentro pelos oratorianos), a quinta 
grande de fora, o casal do Pay Silva, ao norte desta 
onde estava abarracado o regimento da Armada, eram 



(i) Livro gzS de Avisos da Junta da Administração das Fá- 
bricas do Reino e obras das Aguas-Livres — Aviso de ig de Abril 
de 1787. 

VOL. IV 18 



— 274 — 

um mar de barracas, nova cidade improvisada que cus- 
tou a ter fim. 



Segundo a indicação do padre oratoriano Manuel 
Portal a propriedade dividia-se em quinta de fora ^ mais 
vasta, formada de algumas colinas e vales, e a í/e den- 
tro, mais plana, que uma tinha porta para o caminho de 
Santa Marta e outra para o dos Ciprestes, que é actual 
entrada do pátio do Geraldes. Muitos dos eclesiásti- 
cos que estiveram primitivamente na de fora, passa- 
ram para a de dentro que tinha água e era mais có- 
moda. 

O Cardial Patriarca, D. José Manuel, escapara ao 
terremoto no palácio dos Nizas onde habitava. Sobre 
a cama onde estava caiu parte de uma parede. Seis 
criados morreram na derrocada da casa. Quando che- 
gou a esta quinta, vinha numa cadeirinha, muito com- 
balido do abalo que sofrera. Instalou-se numa barraca 
qualquer. Só depois é que passou para a quinta de 
dentro para uma barraca grande de madeira com um 
oratório atinente. A barraca forrara-se de panos de 
arras, como a dos condes de Aveiras e as das Mar- 
quesas de Niza e de Tancos que aqui estiveram reco- 
lhidas. Havia outras barracas para os criados do Pa- 
triarca, capelães e para a Relação Patriarcal. Em bar- 
racas de campanha estiveram sempre o Principal Faro 
e o Conde de Aveiras, filho. A barraca de D. Tereza 
de Meneses, também era armada de panos de arras e 
tinha vidraças e havia nela copa, cozinha, quartos, etc. 
Outras havia ainda na quinta de dentro, como a do 
Padre Inácio Baleia que depois se mudou para a quinta 
de D. Elena. 

Na quinta de fora estiveram abarracadas as freiras 



— 275 — 

do Rato que depois se passaram para a de dentro^ ten- 
do-se erguido uma barraca para as quarenta foragidas 
e noutra edificação de madeira estavam os Quentais, 
tendo erguido também um oratório, com o painel da 
Senliora da Soledade que estava na sacristia do seu 
convento, na banqueta um Cristo crucificado que ali 
fora pôr uma noite a sr.* D. Tereza de Meneses, e as 
imagens de Santo António, S. Filipe Néri, Nossa Se- 
nhora da Assunção e Senhora Sant'Ana. Ali estive- 
ram oito meses os oratorianos, passando então para o 
convento indo instalar-se, de princípio, na adega, jul- 
gada sítio mais seguro. 

Neste oratório da quinta de dentro realizaram-se nu- 
merosas cerimónias cultuais. As missas, preces, prá- 
ticas, sermões, confissões, eram constantes. Uma vez 
que estava pregando o célebre Padre Teodoro de Al- 
meida, deu-se um abalo de terra. O Padre Alberto 
dos Reis, o carmelita Frei Salvador, o Padre Inácio 
Baleia, e outros, pregaram também várias vezes A 
festa da Senhora das Dores fêz-se com grande luzi- 
mento, armando-se o oratório de veludos e damascos 
vermelhos franjados de oiro. 

No oratório-barraca do Cardial Patriarca, para onde 
o prelado tinha uma tribuna de vidraças, fêz-se a festa 
de S. José, no seu dia. Estava armada de telas de 
oiro e prata. O Reverendo Padre Francisco Manuel, 
irmão do Cardial, cantou missa. Vieram os miísicos 
da capela do Paço de Santo Antão do Tojal ; cantaram 
a Marquesa de Niza e D. Luísa de Meneses, e houve, à 
tarde, um Té-Deum. No mesmo oratório rezavam-se, 
o Terço e a Ladainha. 

As freiras do Rato festejaram, na sua barraca, o 
Patriarca trino S. João da Mata. A Marquesa de Tan- 
cos, também nela festejou S. Sebastião, cuja imagem 
se recobriu de jóias. Armou-se ricamente o oratório e 



— 276 — 

pregou o carmelita Frei Salvador, tendo assistido o Pa- 
triarca e muitos fidalgos. As freiras do Rato, em 6 de 
Setembro foram para o seu mosteiro, ainda arruinado, 
conduzindo-se, a-pesar-de ser tão perto, nas carruagens 
do Patriarca. Recolheram menos duas que faleceram 
na barraca e foram a enterrar ao convento. 

Também em Setembro de 1756, a Relação Patriar- 
cal se mudou para a rua da Atalaia, juntamente com a 
«Câmara» que estava noutra barraca fora da quinta. 

Nas barracas onde viviam, nasceu uma filha à Mar- 
quesa de Niza que foi baptisada pelo Cardial D. José 
Manuel no seu oratório, e faleceu em 25 de Outubro 
uma filha do Conde de Aveiras, depositando o cadá- 
ver, que foi a enterrar ao convento de Jesus, no ora- 
tório dos Congregados. 

A estadia aqui de D.José Manuel, animava o local. 
Era o Marquês de Baxi, embaixador de França, que 
veio duas vezes, e de uma com a embaixatriz, cumpri- 
mentar e tratar com o prelado; era o Conde de Oei- 
ras, o grande Sebastião José, que a toda a parte ia ; 
eram os embaixadores de Castela, conde de Aranda e 
conde de Macedo e Taboada, o primeiro dos quais 
morara no palácio dos Aveiros a S. Sebastião da Pe- 
dreira que ardeu quando lá estava, e o segundo, numa 
barraca junto à mesma casa incendiada e derruída, era 
o sobrinho do Cardial Cursini que vinha trazer a um 
prelado nosso, o barrete de cardial ; era o novo Car- 
dial Saldanha ; e eram os novos mitrados que vinham 
fazer a colação e receber a profissão da fé. 

Um ar de festa, havia, pois, de quando em quando, 
nestas paragens. Quando foi da elevação ao cardina- 
lato do Principal Saldanha, puseram luminárias em 
todas as barracas, três noites consecutivas. 

O Cardial D. José Manuel, que tinha alugado na 
Junqueira o palácio de Diogo de Mendonça Corte Real, 



— 277 — 

que fora Secretário de Estado, deixou a barraca da 
quinta dos Quentais em 8 de Novembro de 1756. 

A pouco e pouco o sítio foi-se abandonando. A po- 
pulação aquietava-se. Hoje não resta desse exôdo, se 
não a lembrança do indisciplinado bairro, agitado de 
gritos medrosos, de ladainhas e orações, e de procis- 
sões de penitência. 

O convento dos Quentais, pouco depois dos aconte- 
cimentos que referimos, mudou de dono e de nome. 



À roda de 1775 foi o casarão e a quinta dos Arci- 
prestes, vendidos pelos padres do Oratório. Tudo leva 
a crer que o comprador fosse o Desembargador Barto- 
lomeu José Nunes Cardoso Geraldes de Andrade. 

Fêz-lhe obras importantes. Rasgou as janelas con- 
ventuais, alindou as fachadas, retocou e concertou os 
interiores. O brazão religioso da Ordem foi substi- 
tuído pelo leão heráldico dos Geraldes, a ermida re- 
conslruiu-se e, em 1779, já lá se achava residindo o 
Desembargador e sua família, com trinta e seis criadps 
e escravos (i). 

Saibamos quem era o novo proprietário. 



Os Geraldes eram gente limpa e fidalga que deu 
magistrados à Rainha D. Maria I, sujeitos estes que 
foram escolhidos, com outros, para rever o famoso pro- 



(i) Nos anos de 1777 e 1778, morava toda a família Geraldes 
na rua da Cruz dos Poiais (Rol dos Confessados). 



cesso dos Távoras. Remontavam deste modo a sua 
ascendência. 

Fernando Afonso Geraldes, licenciado em leis, ca- 
sara com Mécia Afonso e tivera a Bartolomeu Nunes 
Cardoso. Este consorciou-se com Catarina Nunes Moa- 
cha (filha de Gonçalo Vaz Nunes e de Catarina Afonso) 
e foram pais de Fernando (ou Fernão) Afonso Geral- 
des de Andrade, Desembargador da Casa da Suplica- 
ção, Conselheiro da Fazenda, Cavaleiro de Cristo, Fi- 
dalgo da Casa Real e Familiar do Santo Ofício (i). 

Morou este Desembargador em Idanha-a-Nova e alú 
casou com uma sua prima direita, D. Brites Maria de 
Andrade e Couto, filha do Capitao-mor da Idanha Fran- 
cisco Marques Geraldes e de sua mulher Francisca Nu- 
nes Moacha. O Capitão-mor era filho de outro Fran- 
cisco Marques Geraldes e de Maria Nunes, e neto de 
Manuel Marques Geraldes e de Maria Nunes de An- 
drade, descendente (dizem) dos Andrades Calvos, de 
Monsanto. 

De Fernando Afonso Alves de Andrade e de Brites 
Maria de Andrade, nasceram, entre outros, quatro 
filhos : Francisco António Marques Geraldes que mor- 
reu sendo deputado do Santo Ofício (2) deixando viúva 
D. Francisca de Paula Ximenes ; Bartolomeu José Nu- 
nes Cardoso Geraldes de Andrade, Desembargador da 
Casa da Suplicação, Fidalgo da Casa Real e Familiar 
do Santo Ofício (3) ; Fernando Afonso Geraldes de 
Andrade, também Desembargador ; e José Francisco 
Marques Geraldes que foi militar. 



(i) Processo 4-69 — Carta de 6 de Maio de lyiS. Torre do 
Tombo. 

(2) /ie»z, 91-1556 de Franciscos. 

(3) Idem, 5-94 de Bartolomeus — Carta de 3 de Outubro de 
1754. 



— 279 — 



Bartolomeu Geraldes casou, em 1768(1) com D. Inês 
de Vera Barba de Meneses, de Leiria, filha de Gonçalo 
Barba Alardo e de D. Ana Joaquina Lourença de Car- 
valho e Meneses, de Guimarães, da casa dos Senhores 
de Abadines e Negrelos. Seu avô paterno era o dis- 
tinto fidalgo leiriense Luís Barba Correia Alardo. 

Do casamento do Desembargador com D. Inês de 
Vera, nasceram vários filhos: Fernando Afonso, Gon- 
çalo Afonso, Bartolomeu Jacinto, Francisco António e 
Maria José. Os Róis dos Confessados apenas mencio- 
nam estes. 

Tais eram os proprietários da notável residência de 
Entremuros, cuja história vamos continuar no capítulo 
seguinte. 



(i) Processo 5-94. — A habilitação da noiva para o casamento 
tem a data de 21 de Junho de 1768. 



( 2So a) 




CAPITULO XII 



Sumário: CompÕe-se a lista dos moradores do Palácio dos Ge- 
raldes — Uma reclamação da proprietária da quinta — Conti- 
nua a história da casa — As reuniões de Miguel do Canto — 
Mora no «Geraldes» o Marechal Duque de Saldanha— Os seus 
serões — D. António da Costa, descreve o 19 de Maio — Os 
últimos inquilinos — Notáveis moradores de Entremuros — 
Os Palácios Balsemão — Costa e Silva e outros e a «Casa de 
Saúde» — Mais gente notável — O leilão do Conde de Rhode 

— O Quartel de Artilharia — O achado de um brazão — Pro- 
mete-se estudar logo o assunto — A casa e quinta do Guarda- 
-mor — O casal Monte-Almeida e as quintas que o formaram 

— Os comícios da Torrinha e a oFeira de Agosto» — A céle- 
bre questão do Parque Eduardo VII — Esboça-se o seu início 
e desiste-se de contá-la — As obras do Parque, o 5 de Outu- 
bro... e o resto — O «Sebastianismo» dos lisboetas — As 
obras actuaip, os pavilhões, o lago e a «Estufa fria» — O ódio 
à árvore. 



O palácio nascido do cenóbio campesino dos Ora- 
torianos, passou então, a pouco e pouco, a chamar-se 
«do Geraldes». 

Em 1780 encontro lá como hóspeda D. Ana Joa- 
quina de Vilhena e lá permaneceu seis anos, e, em 
1788 residia lá também, Luís Barba Alardo de Pina, 
cunhado do Desembargador (i). 

Falecido Bartolomeu Geraldes em 1789, a viúva 
continuou a residir no palácio com a restante família, 



(i) Róis dos Confessados da Freguesia de S. Mamede, anos 
citados. 



— 282 — 

embora de i8o5 por diante estivesse instalada, apenas, 
em parte do grande edifício. 

Em iSio, diz o Livro da Décima^ estavam devolu- 
tas as duas lojas e quatro andares cu quartos. Tinham 
então os n.°^ 79 a 8i. A parte do palácio com os 
n."^ 82 a 85 era a que habitava a viúva, com três cria- 
dos e uma besta. Estava avaliada em 294^15060 re'is. 
A casa pagava, ao todo, de foro i i^i^o réis, a Má- 
ximo de Melo, ao Hospital de S. Lázaro e aos frades 
Lóios (i). Da parle rústica da propriedade sei o se- 
guinte : 

Em Junho de 1799, D. Inês de Vera representou, 
perante o Conselho da Fazenda do Colégio dos No- 
bres, que estava sendo vítima de contínuas desordens 
e incursões da soldadesca na sua quinta. Enchiam-lha 
de entulhos, serviam-se da água do seu poço, e nao 
contentes até a esbulhavam apossando-se de terrenos, 
como fora em 1784 para continuarem o quartel do 
Vale do Pereiro e em 1798 para alargamento do mesmo. 
Pedia, pois, ao Colégio que, em compensação de tais 
prejuízos, lhe cedesse o casal chamado Quinta Cor- 
tada^ pelo facto de o ser pela estrada nova de Vale do 
Pereiro. Foi-lhe deferida a pretenção por decreto de 
25 do mesmo m.ês e ano (2). 



Em parte do palácio esteve instalada de i8i3 a 
18180 Colégio de Nossa Senhora da Conceição, de que 



(i) Livro do Lançamento e Superintendência da Décima da 
Freguesia de Santa Isabel, ano de i8io. 

(2) Livro do Conselho da Fa3[enda do Colégio dos Nobres , na 
Torre do Tombo. 



— 283 - 

era reitor o Padre Nicolau de Sousa Ferreira Tolen- 
tino que em 1802 vejo nomeado Capelão do Regimento 
de Cavalaria de Évora (i), e vice-reitor Francisco Pe- 
reira Homem. Um anúncio da Gaveta de 10 de Agosto 
de 1804 elucida que este estabelecimento «dava educa- 
ção cristã e civil, por um plano de economia, à moci- 
dade portuguesa», sendo a mesada de i6íí)Ooo réis. 
Mais tarde anunciou que era de 122/5800 réis. Neste 
ano, ao que parece, estava instalada noutra casa da 
mesma rua. Mudouse depois para S. Sebastião da 
Pedreira, e em Dezembro de 1825 tornou a vir para 
Eniremuros(2). 

Em 181 5 tinha 3i alunos, tudo gente de boas famílias. 

Entre eles vejo mencionados nos Róis dos Confes- 
sados alguns que se notabilizaram, como João Carlos 
de Oliveira Pimentel e Nuno José Severo de Mendonça. 
D. António do Carmo Barba de Meneses e Bartolomeu 
Geraldes, filhos-famílias que também ali estudaram. 

Em 1817 realizou-se no Colégio uma festa à Ima- 
culada Conceição, padroeira da casa. Foram prega- 
dores, os padres João dos Santos F^erreira e António 
do Espírito Santo (3). Em 1819, mudou-se o Colégio, 
outra vez, para nova casa na mesma rua (4). 



Até 1823 esteve parte da casa devoluta. Nesse ano 
foi habitar o palácio D. José Sebastião de Saldanha e 



(i) Gaveta de Lisboa de 16 de Abril de 1802. 

(2) Idem^ de 26 de Junho de 1820, 10 de Setembro de i8to, 
n." 3oo de 1825 e 3i de Julho de i8i3. 

(3) Idem, de 21 de Agosto de 1817 — Anúncio. 

(4) Rol dos Confessados da Freguesia de Santa Isabel, anos 
referidos. 



— 284 — 

Daun com sua mulher D. Leonor Manuel de Vilhena 
e numerosa prole. Em i83i, já viúva D. Leonor, ha- 
bitava-o com os seus onze filhos. De 1829 a i83i tam- 
bém aí residiu D. António Manuel de Vilhena e, neste 
último ano, a Condessa da Louza, D. Francisca. 

Já em 1817, habitara parte do casarão, outro Vi- 
lhena, D. Salvador Manuel, senhor de Pancas, que 
pagava, por sinal, 45o;Sí>ooo réis de renda. A quinta 
andava então arrendada a um tal Marçal José', pela 
décima parte desta quantia (1). 



Em 3 de Agosto de i83i, vem anunciada no Z)íano 
do Governo a venda, em hasta pública, de toda a pro- 
priedade, e, em i836, aparece este novo anúncio: 

« Quem qiii^^er arrendar por um ou tnais annos toda 
a casa nobre da quinta dos Arciprestes ou do Geraldes, 
adiante da casa dos GirÔes ao Rato, compostas de ca- 
sas altas e baixas, com óptimas acomodações, ermida, 
bons paíeos, cocheiras, cavalariça, palheiro, grandes 
co^^inhas, dois bons quintais e agua ao pé, fale com 
Theotonio da Costa, na rua da Alegria» (2). 

Arrendou a casa o Marquês de Penalva, mas tam- 
bém pouco se demorou lá. Em 1841 vejo um novo 
anúncio pedindo inquilino (3). 



(i) Livros do Lançamento da Décima, anos de iSzS a 1834. 

(2) Anúncio n.° 78, do Diário de 2 de Abril de i836. No Pe- 
riódico dos Pobres de 8 de Abril de i835, anuncia-se também o 
arrendamento deste palácio. 

(3) Anúncio n.° 11, do Diário de 23 de Novembro de 1841. 



2»D — 



João José Vaz Preto Geraldes e sua mulher D. Joana 
Carlota Geraldes de Bourbon, estiveram morando no 
seu palácio, da Páscoa de 1844 ^ de 1845, voltando 
outra vez a ser mencionados em 1848. Nesse inter- 
regno de três anos foram os inquilinos, D. Isabel "da 
Silva Ataíde, viúva do Fidalgo do Canto, com os seus 
filhos Miguel e Francisco. Miguel do Canto, falecida 
sua mãe continuou a residir no palácio e aí deu ani- 
madas reuniões de palestra onde iam habitualmente 
Garrett, Carlos Bento da Silva, José Estêvam e outros. 
Estas agradabilíssimas cavaqueiras são lembradas com 
saudade por Bulhão Pato, no primeiro volume das suas 
Memórias. Miguel do Canto, diz o poeta, era um im- 
pagável conversador. 



De 1864 a 1871, o Conselheiro Joaquim José Mar- 
ques Caldeira, morou aqui e, em 1867, °^ Condes de 
Farrobo, o Conde de Tavarede e a Condessa de Prado 
e Silva ocupavam todo o andar nobre. E um nunca 
acabar de pessoas gradas a nobilitar o velho cenóbio 
dos padres Quentais. 



Em 1869 tinha o palácio um ilustríssimo inquilino, 
nada menos do que o marechal duque de Saldanha, o 
prestigioso militar e político, cuja estátua campeia agora 
na praça do seu nome. 

Foram cheios de vida, de cor e de animação para 
a velha moradia suburbana, os dias em que aí residiu 



-~ -286 - 

o marechal. Aquelas paredes vetustas puderam então 
ver todos os bélicos episódios da sua vida, e ouviram 
alternadamente o tilintar guerreiro das espadas no 19 
de Maio e no 5 de Dezembro de 1869, e o ranger per- 
fumado das sedas das elegantes da época nos aristocrá- 
ticos bailes e saraus de 6 de Janeiro, 3 e 24 de Feve- 
reiro de 1870. 

A bisbilhotice retrospectiva, é pouco menos de ino- 
cente. Espreitemos pois pela janela do passado. 



A reunião de 24 de Fevereiro foi das mais faladas 
no seu tempo. J Que lhaneza de trato! ; Que genti- 
leza a dos donos da casa ! O duque com os seus se- 
tenta e nove anos nunca se sentava, atendia a todos, 
falava gentilmente com as senhoras, afàvelmente com os 
homens. A senhora duquesa, de setim branco, com 
túnica de setim roxo franjada de oiro, fazia nobremente 
as honras da casa. O corpo diplomático, a nobreza e 
o exército, mais de seiscentas pessoas, onde estavam 
representados todos os apelidos dos nobiliários do reino, 
percorriam deslumbrados os salões. 

Sobre o bufete, um magnífico aparelho de prata, bri- 
lhava à luz suave das velas dos lustres. O serviço foi 
ininterrupto e os sumptuosos vestuários das Condessas 
de Farrobo, de Penamacor e de Tavarede, das Viscon- 
dessas de Barcelinhos e de Balsemão, da Baronesa da 
Regaleira e das senhoras D. Maria e D. Amélia Ribeiro 
Neves, foram o assunto das conversas, nos centros 
elegantes, durante os dias seguintes. De todas estas 
senhoras apenas vivia, há pouco, creio eu, a senhora 
Viscondessa de Balsemão. Que saudades ! 

O baile durou até de madrugada. Já clareava quando 



— 287 — 

as carruagens, apertadas no pátio, começaram rodando 
para a cidade adormecida. 



Ouçamos D. António da Costa, descrever, agora, o 
episódio do 19 de Maio, ali naquele mesmo teatro de 
elegâncias e de galanteria: 

... «Batem as onze horas da noite de 18 em casa 
do marechal no pateo do Geraldes a Entremuros. Da 
duquesa se despedem as ultimas visitas que ali foram 
passar o serão. Ficam ainda o sr. Visconde de Paço 
de Lumiar e seu irmão António. 

— «Onze horas I Não vou dormir quási nada, dizia 
o marechal (n'um corredor contíguo), a rir-se e a esfre- 
gar as mãos. 

«Onze e meia. Retiram aquelles dois cavalheiros 
e os duques recolhem-se. 

«Foi só deitar a cabeça no travesseiro e pegar no 
sono mais tranquillo que pode ter um general depois 
de ganha uma batalha, contava a duquesa no dia se- 
guinte. Acordei-o á uma hora, como me recomendou 
e estava dormindo com o mesmo socêgo. Acordando 
e lembrando-se do motivo porque a duquesa o desper- 
tara logo se vestiu. 

«Aquela hora penetravam no Castelo de S. Jorge, 
duzentos populares dirigidos pelo sr. major Estêvam 
da Costa de Sousa Pimentel (hoje barão de Pomari- 
nho) sob a inspiração do sr. conde de Peniche (mar- 
quês de Angeja) ; apossavam-se do castelo e o batalhão 
5 de caçadores conduzidos pelos capitães Monteiro e 
Pina Vidal encaminhava-se para o palácio do duque. 
Acabavam de chegar ali duzentos soldados de artilha- 
ria 3, comandados pelo seu antigo capitão Lapa. Ve- 



— 288 — 

jamos o que se passava em casa do marechal e nas 
imediações à mesma hora, O sr. Visconde de Pinheiro, 
preparava-se com a tranquilidade com que estaria se 
fosse para uma soirée auxiliado por suas simpáticas 
filhas. 

((Igualmente tranquilo se apresentava o grupo dos 
ajudantes a quem o sangue frio do general se comuni- 
cava sempre. Como acontece quási sempre quando se 
procuram objectos em ocasião urgente, uma parte de- 
les não aparecia, a-pesar-de ter o marechal por guarda 
roupa, naquele momento a gentil condessa de Farrôbo 
que sorria ao ver o pai lamentar-se também sorrindo, 
de que a duquesa lhe desse uma chicara de chá com 
tão pouco leite ; e por entre estas cenas parecia lem- 
brar tudo menos que o marechal tinha à porta dois 
corpos sublevados podendo ser surpreendido de ins- 
tante a instante por uma divisão e que o pateo do Ge- 
raldes estava situado entre duas estradas nos flancos e 
fronteira a outra, o que em termo popular mas expres- 
sivo, quer dizer encurralado. Disseram ao marechal 
que ao menos fosse para o largo do Rato, emquanto 
não chegasse o regimento que faltava. Riu-se e conti- 
nuou a tomar o chá com leite. 

«Quando chegou a infanteria 7, comandada pelo ca- 
pitão Barros, o marechal marchou para a Ajuda. 

«O que depois se passou é bem conhecido e dis- 
pensa-me o relatá-lo. A brigada que estacionava no 
largo da Ajuda, reuniu-se-lhe (infanteria i, 2.° esqua- 
drão de lanceiros e uma bataria de artilharia, embora 
ocupasse aquele largo por ordem do ministério da 
Guerra. 

«Disparadas ai desgraçadamente as carabinas de 
artilharia á ordem do capitão Mendonça e Brito foram 
respondidas por um pelotão de caçadores 5, o que oca- 
sionou a morte de um cabo e três soldados e feriu di- 



( 288 a ) 




£ < .1" 



-; O -O 






- 289- 

versos. A divisão junta na praça do Comércio ainda 
chegou a marchar para Beiem, a despeito da resposta 
concihadora de el-rei, ao telegrama enviado pelo mi- 
nistro da guerra Lobo de Aviia. Voltou para traz a 
meio do caminho por nova ordem de el-rei sabedor 
do facto. Regressou da Ajuda o duque de Loulé de- 
clarando ao ministe'rio que el-rei o exonerara e encar- 
regara o duque de Saldanha de formar gabinete» (i). 



Com a saída do marechal do páteo do Geraldes, o 
palácio recaiu na mudez habitual das casas desertas. 

Seguiram -se muitos e variados inquilinos, tantos que 
a lista seria fastidiosa. 

Pertence hoje o desamparado palácio à sr.* con- 
dessa de Foz de Arouce que o herdou de seu pai o 
sr. marquês da Graciosa, Fernando Afonso Geraldes 
de Andrade Barba, neto do Desembargador Bartolo- 
meu José Geraldes Cardoso de Andrade (2). 

E continuemos. 



Subindo a rua do lado esquerdo fica-nos, primeiro, 
à esquina da Travessa da Fábrica dos Pentes, um pré- 
dio com os números de polícia 40 a 45, onde mal se 



(i) História do Marechal Saldanha, Lisboa 1879, págs. 5 16 a 
5i8. 

(2) Por morte do Desembargador, houve na paroquial de 
S. Mamede solenes exéquias por sua alma, em atenção aos mui- 
tos benefícios que havia feito à igreja. O Desembargador era juiz 
perpétuo da Irmandade do Santíssimo Sacramento (Cartório de 
igreja de S. Mamede). 

VOL. IV ig 



— 290 — 

pode perceber a casa antiga que era, em 1766, resi- 
dência de D. António do Carmo Barba de Meneses (i). 
A família destes apelidos ainda em 1849 morava neste 
arruamento. D. Antónia Barba de Meneses, viúva, é 
citada nos Róis das Décimas desde 1818 até essa data. 
A esquina para a Légua da Póvoa, era nessas casas 
nobres de João Baptista Veloso, onde morou desde 1764 
a 1791, um D. António de Noronha (2). Seguem-se, 
depois, entremeadas de casaria modesta, os palacetes 
seguintes: 

I.** O que tem os n."" loi a io3, e que possui um pa- 
vilhão isolado do corpo principal. Foi habita- 
ção, de 1860 e tantos a 1875, do Visconde do 
Pinheiro (Ximenes de Azevedo) e, neste ano e 
no seguinte, dos condes da Louza ; 

2.° No que tem o n." 109, morou, em 1867 e 1868 a 
viscondessa de Vila Nova de Souto de El-Rei ; 
em 1870 e 1871, a família Melo Queirós; em 
1872, José de Albuquerque d'Orey; depois D. An- 
tónio Sanches de Chatillon ; e, em 1874,0. An- 
tónia de Portugal da Silveira ; 

3.° A propriedade com os n.°^ 121 a 128, à qual per- 
tence o portão que dá ingresso à quinta de que 
já falamos, e onde residiu o conde de Penama- 
cor ; 

4.° A casa dos viscondes de Balsemão, com os actuais 
números i35 a 137. Foi residência, nos primei- 
ros anos do século passado, da sr.* viscondessa 
D. Catarina. Aqui faleceram os últimos viscon- 
des Luís Pinto de Sousa Coutinho Guedes Bran- 
dão Alvo Perestrelo e D. Henriqueta Teles da 



(1) Livro do Lançamento da Décima, ano de 1766. 

(2) Idem, ano de 1770. 



— 291 — 

Silva, da casa de Penalva, em vida dos quais se 
deram aqui agradáveis reuniões. Em 1802 houve 
nesta residência uma festa grande. Foi em 29 
de Maio. Os convidados tiveram o prazer de 
ouvir a Catalani (i) ; 

5.° A casa com os números i3g e 141. Nesta mora- 
ram em 1875 os viscondes da Abrançalha; 

6.*^ O grande prédio, com os n.°^ i-jb e 177, junto ao 
portão do quartel de artilharia, que foi do con- 
selheiro Joaquim da Costa e Silva e onde este 
indivíduo residiu de 1806 a 1821. Anteriormente 
linha aí morado o nfiinistro da Suécia (desde 
1802) e antes deste ainda o infeliz ministro Lu- 
cas de Seabra da Silva, nos anos de 1793 a 

1797- 

Num Diário do Governo, de i835, anuncia-se a 
venda desta propriedade. Estava avaliada em 1 1 .540Í&000 
réis e ia à praça para satisfação das dívidas com que o 
Conselheiro Costa e Silva deixara onerada a sua viúva. 
Quem agenciava a venda era um tal Roberto Lucas. 
A praça realizou-se em 18 de Setembro desse ano. 

Em 1842 surge novo anúncio no Diário que parece 
referir-se a esta propriedade. Todavia não posso afir- 
má-lo. Já em 1841 outros dois anúncios me desnor- 
tearam marcando dia para a venda do referido prédio. 
Decididamente só vendo os títulos da casa — o que me 
não foi possível — se conseguiria fazer a identifica- 
ção (2). 

Em 1868 morava nela o ministro da Prússia. Creio 
que só aí se demorou esse ano. Houve obras depois e, 



(i) «Junor, embaixador em Lisboa», artigo de Tinop, na Ilus- 
tração Portuguesa do Século. 

(2) Anúncio n.° i5 do Diário n.° 88 de 1 5 de Abril de 1842. 



— 292 — 

em 1874 inaugurava-se a Casa de Saúde^ fundada pelo 
médico militar Dr. Mira Franco e dirigida mais tarde 
pelo ilustre clínico José António Serrano. Aí esteve 
convalescente o grande Camilo e aí fui eu, algumas 
vezes, visitar outro internado, meu tio João de Matos, 
falecido tuberculoso em 1897(1). 



Com a alteração dos números das portas é difícil 
fazer hoje a identificação desses prédios, e acertá-los 
com os aniíncios da Ga\eta e do Diário. 

l Que casas seriam umas, cuja venda se anuncia em 
i836 e 1839, com dois andares, ermida, quintal ajardi- 
nado, cocheiras e cavalariças (2) ? 

O conde de Rhode, Enviado Extraordinário e Mi- 
nistro Plenipotenciário de Sua Majestade o Rei da Priis- 
sia, morava, em 1796, neste arruamento. 

A Gaieia de Lisboa de 12, 29 e 3i de Março 
desse ano, anunciava a venda de vários objectos e a 
última o leilão de todos os seus móveis e mais recheio 
de casa, por motivo da sua retirada desta corte. 

Tenho notícia de alguns notáveis moradores deste 
arruamento, mas nada sei acerca das casas de que fo- 
ram inquilinos. 

Aqui os ponho devidamente relacionados : 

— José de Oliveira Abreu e Lima, capitão de mar e 
guerra, de 1764 a 1768; 



(i) Nesta casa também residiu alguns anos o Conselheiro Ge- 
neral Morais de Almeida, o pai Morais professor que foi de meia 
Lisboa. 

(2) Anúncios de 14 de Julho de iS36 e de 3 de Agosto de 
1839. 



- 293 — 

— Luís Diogo Lobo de Ávila, de 1770 a 1772; 

— O Tenente General D. Fernando da Gosta Ataíde 

e Teive, no alto da rua, de 1792 a 1795 ; 

— O bispo de Pinhel, de 1796 a 1797; 

— O barão de Alverca, de 1796 a 1797; 

— O notável político Diogo de Mendonça Gôrte-Real, 

de 1797 a 1806 ; 

— O bispo da Guarda, de 1798 a i8i3 ; 

— D. António Inácio da Silveira, de 1797 a 1806; 

— D. Diogo da Câmara, em 1779; 

— O Desembargador Manuel José de Arriaga, em 1809; 

— Faustino José Lopes Nogueira de Figueiredo, sua 

mulher D. Francisca Xavier de Sá, seus filhos 
Bernardo (o marquês de Sá da Bandeira), Antó- 
nio, Francisco, Aires, Estêvam, Maria Augusta e 
Maria Efigénia, seu irmão o reverendo António 
Joaquim Nogueira de Figueiredo, o reverendo 
Jaime 0'Connor e Manuel e Eduardo Godinho 
Cabral de Sá, hóspedes, de 181 1 a i8i3; 

— Frederico, Barão de Menssol, em i8i3; 

— A Marquesa de Alorna e Condessa de Oyenharsen, 

em i83o. 

Em 1770 residiram também em Entremuros as fa- 
mílias Valucci Mauson e Portavales(i). 



Passada a Casa de Saúde, segue-se o portão do 
quartel de Campolide, e dentro do Terreiro, o edifício. 
A sua construção data de i863, mas só se ultimou em 



(i) Rol dos Confessados da Freguesia de S. Mamede, anos 
referidos. 



— 294 — 

i868. Destinava-se ao 4." Regimento de Cavalaria. Ela- 
borou-se a planta e escolhido o local pediu-se à Câmara 
o alargamento da rua, para dar mais fácil passagem às 
batarias. O local foi vistorisado e a Câmara oficiou ao 
Ministério da Guerra declarando que as obras a fazer 
para esse fim, deviam ser custeadas pelo Estado, re- 
servando-se só para a Câmara o calcetamento da rua 
e a construção do cano geral. O Ministério da Guerra 
conformou-se, como consta do ofício de 14 de Julho do 
mesmo ano, e a obra começou a fazer-se. 

A obra da estrada em que a Câmara já pensara em 
i863 é que ficou em projecto (i). 

Em 1869, em sessão de 17 de Agosto, o vereador 
Pinto Basto apresentou a resposta ao ofício, de 21 do 
outro mês, do coronel de engenheiros, João Maria Feijó, 
dirigido ao Ministério da Guerra e que por este tinha 
sido enviado à Câmara. Esse documento ficou sobre 
a mesa e o negócio não teve mais resolução, até 1879 
em que outro vereador, Teófilo Ferreira, em sessão de 
4 de Fevereiro propôs que se alargasse [a rua, expro- 
príando-se parte da parada do quartel e uns terrenos 
pertencentes ao sr. Margiochi. A Câmara resolveu que 
se oficiasse ao Governo e em 10 desse mês foi a infor- 
mar à Repartição Técnica. O que se passou não sei, 
o caso c que nada se fêz. 



Quando, em 1909, se procedia, na parada deste 
quartel ao assentamento de uns alicerces para umas 
novas edificações para as batarias, encontraram os tra- 
balhadores, a um metro do solo, grande porção de pe- 



(i) Arquivo Municipal de Lisboa, iS63, págs.1208, iS45e 1492, 



— 295 — 

dras, ao que parece, restos de um portal e de uma 
coluna. Entre elas apareceu um escudo de armas, es- 
culpido em mármore da Arrábida, com o brazão dos 
Rebelos. Servia então de comandante do Regimento 
o, então tenenie-coronel, Nobre da Veiga, que oficiou 
imediatamente para a Associação dos Arqueólogos, 
instalada no Museu do Carmo, oferecendo a pedra alu- 
dida. Comissionado pela mesa da Assembleia Geral 
fui ao quartel examinar o achado e proceder à sua con- 
dução para o museu, em 3 de Junho, e lá se encontra 
hoje, a meio da nave principal da ruína. 

A pedra de armas tem as seguintes singularidades: 
Na face posterior dentro de um enquadrado lê-se a se- 
guinte inscrição : 

LOVADO SEIA 

o santíssimo 

SACRAMENTO 

i632 

No topo superior (plinto) ao centro de um remate 
deteriorado vê-se, embebido na espessura da pedra, o 
troço inicial de um fuste cilíndrico, que parece deveria 
ser a haste de uma cruz que encimaria talvez, o escudo. 
Por não se observarem em toda a volta da pedra sinais 
de garras ou pegas de qualquer natureza, conjecturo 
que esse brazão fazia parte de. um monumento-padrão, 
ou campearia isolado sobre o portão cujos restos se 
encontraram conjuntamente. 

Morou, é certo, na rua de Entremuros, nos anos 
de 1785 a 1786, um Manuel Rebelo Falhares, mas a 
sua pouca permanência no local e em casa de aluguel 
não me deixa admitir a possibilidade de tal moradia se 
relacionar com o facto. 

l De onde viria o curioso brazão de armas ? 



— 296 — 

Logo ao tratarmos da Cruz das Almas, talvez o 
problema se aclare um pouco. 

Todo aquele terreno onde está o quartel e a parada 
era antes do terremoto e foi-o ainda por muito tempo, 
a quinta do Guarda-mór, cujas casas ainda hoje se 
vêem, rompendo o muro, adiante do portão daquele 
aquartelamento. Chamava-se assim em razão do seu 
proprietário Lourenço Dias de Campos, cavaleiro da 
ordem de S. Tiago, ter sido guarda-mór da Relação 
do Rio de Janeiro. 

Aí morava êle em 1783, ano em que servia de tes- 
temunha na habilitação para o Santo Oficio do seu vizi- 
nho o Desembargador Joaquim José de Abreu Guião (i). 

Em 1765 trazi-as arrendadas por 2ooí!íooo réis a 
D. Francisco de Melo e, em 1820, por 34o3í'ooo réis a 
Gonçalo Barba Correia Alardo, sogro do Desembarga- 
dor Geraldes, que ali morava com um cavalo, uma 
besta e dois criados (2). Provavelmente iria para ai 
residir por ficar perto da filha, porque a casa solarenga 
dos Alardos, em Lisboa, era em Alcântara, naquele 
largo onde se inicia a moderna rua Tenente Valadim. 
Lá está no cunhal, o brazão com as armas dos seus 
apelidos. 

Num terreno que confina com o do quartel, há uma 
edificação no gosto designado por cJialet, onde morou 
em 1916 o ministro de Espanha em Lisboa. O go- 
verno espanhol pensou até em adquiri-la, o que final- 
mente não fêz, comprando posteriormente o palácio de 
Palhavã. 



(i) Processo 19:239 de Joaquins, na Torre do Tombo. 
(2) Livro do Lançamedto da Decima — Superintendência de 
Santa Isabel^ anos de 1765 e de 1810. 



— 297 — 

Essa propriedade pertencia ao industrial José An- 
tónio de Castro dono das cocheiras de carros fúnebres 
que havia na rua de Santo Antão (hoje Eugénio dos 
Santos) onde está agora o Teatro Politeama. Por he- 
ranças sucessivas passou até que veio à posse do con- 
selheiro Marçal Pacheco. Foi este antigo parlamentar 
que mandou demolir o prédio antigo e edificou o mo- 
derno. 



Os terrenos hoje reunidos sob o nome de Casal 
Monte-Almeida e cuja aquisição pela Câmara, para 
construção do Parque Eduardo VII, tanta demanda tem 
custado, eram ainda, ao começar o século xix um agre- 
gado de quintas fidalgas ; umas, de rendimento e ou- 
tras de regalo. 

Entre a azinhaga da Torrinha e a rua de Entremu- 
ros espalmavam-se as quintas do Geraldes e do Fora- 
dor, as terras dos Congregados do Oratório e lá, ao 
topo, limitada pela velha estrada da circunvalação, a 
quinta dos Jesuítas de Campolide. Dela diz o infor- 
mador do diligente Padre Luís Cardoso que vindo pela 
estrada que liga o largo de S. Sebastião da Pedreira, 
com Campolide: aha n''esta parte hunia boa quinta que 
é dos padres de Companhia. Tem lagar de aceite e 
moinhos de vento (o que prefa:{ 20 que ha n'este sitio) 
afora muitas atenhas de tre^ rodas cada Ufna{i). 

Logo veremos do seu destino. 

Para lá da azinhaga até S. Sebastião da Pedreira, 
entre a circunvalação e Vale do Pereiro, ficavam as 



(i) Informação do prior desta freguesia, Urbano José de Meio 
Pinto da Silva, para o Dicionário Manuscrito do Padre Luís Car- 
doso, existente na Torre do Tombo. 



- 298- 

terras do Poceiro, as casas e quinta do Malheiro e as 
quintas das Lagens, do Dr. José de Sousa Monteiro, 
da Torrinha e de Manuel de Jesus e, entestando com 
a rua de S. Sebastião, para lá ainda destes terrenos, 
a quinta de João Galvão Castelo Branco e a cerca do 
hospício dos Agostinhos Descalços: isto em 1755. 

A quinta da Tor^rinha assim cliamada peio édiculo 
oitavado que lá campeava, serviu há anos de local para 
comícios e manifestações populares que depois a Ro- 
tunda lhe usurpou. Em 19 de Maio de 1889 houve aí 
uma dessas reuniões que acabou triste. Deram-se tu- 
multos, ferimentos e prisões, sendo o comício dissol- 
vido por ordem do comissário de polícia. 

Depois parte da quinta e grande porção das terras 
contíguas foram aproveitadas para assento das barracas 
da Feira de Agosto que durante alguns anos reflectiu 
pàlidamente o esplendor da notável «Feira Franca» 
do Centenário da índia. Tudo coisas muito próximas 
para historiar devidamente, mas que a seu tempo me- 
recem largo comentário. 



Possuo na minha pasta de trechos de jornais, nu- 
merosos artigos de combate, de polémica, extractos de 
sessões camarárias, uma infinidade de documentos, em- 
fim, referentes à demanda que se degladiou entre o 
Município e Carlos Eugénio de Almeida, dono daqueles 
vastos tratos de terreno, onde se projectava a constru- 
ção do parque Eduardo VII, outrora parque da Liber- 
dade. A fúria denominadora é tão grande que ainda 
as coisas estão em projecto e já se lhe muda o nome. 

; O que fará depois ! . . . 

Lendo atentamente todos esses documentos muitos 



— 299 — 

deles apaixonados ; discursos violentos de vereadores, 
tricas judiciais de advogados, requerimentos cheios de 
sofismas, artigos recheados de alçapões Jurídicos, che- 
guei à conclusão de que é, por ora, impossível histo- 
riar devidamente os factos, 

O Casal «Monte-Almeida» valia pouquíssimo aqui 
há quarenta anos. O proprietário anterior, endivida- 
ra-se com a Fazenda Nacional em contribuições conse- 
cutivas e a propriedade foi à praça, ou por outra, o 
seu rendimento, para pagamento das mesmas contri- 
buições. Arrematou-o pela quantia de 5o.'J^ooo réis, o 
sr. Eugénio de Almeida, durante o prazo de sessenta 
e sete anos, vindo, mais tarde a adquiri-lo pelo preço 
de doze contos de réis. 

Conveio depois à Câmara expropriar parte do Ca- 
sal para prolongamento da Avenida e, de acordo com 
o seu proprietário, foram nomeados dois peritos, um 
de cada parte, para a respectiva avaliação. Não con- 
cordando com o valor da primeira vistoria José Maria 
Eugénio recorreu para os tribunais. Foi decedida a 
contenda a favor da Câmara, sendo tal sentença repe- 
tida em consequência de nova impugnação do mesmo 
senhor. Recebido depois o preço da avaliação, tomou 
o município posse do Casal mas daqui por diante é 
que a questão se embrulha de tal modo que não há 
meio de destrinçá-la e explicá-la satisfatoriamente. O 
proprietário tomou outra vez posse do Parque (em 1 1 
de Agosto de 1904), a Câmara protestou, declarando 
ilegal tal posse, e insurgiu se contra a exorbitante quan- 
tia de seiscentos contos exigida pelo dono dos terrenos 
que, por seu turno, alegou mil factos comprovativos da 
legalidade da sentença que lhe conferia tal posse e para 
se fortificar e, no seu pleno direito adquiriu todos os 
direitos dos numerosos rendeiros dos seus setenta e 
cinco mil metros quadrados de terreno. 



— 3oo — 

O estado da questão nunca foi conhecido do grande 
piíblico, embora a simplificasse grandemente a inter- 
venção da Sociedade Propaganda de Portugal que 
resolveu encetar negociações por sua conta, anciosa de 
ver removida tanta dificuldade e de dotar finalmente a 
cidade com um parque moderno (i). 

Há cerca de quinze anos que, do lado da nova 
avenida António Augusto de Aguiar, se iniciaram os 
trabalhos de construção. Organizaram-se viveiros de 
árvores e plantações diversas, mas o trabalho foi sem- 
pre vagaroso. 

Os terrenos sotopostos à Rotunda continuam incul- 
tos e abandonados ; nos meses de Agosto e Setembro 
animava-os a feira com a ingresia dos barraqueiros e 
dos foliões, em 5 de Outubro de 1910, alvoroçou-o o 
estrépito dos canhões, o rodar dos armões municiados 
descendo de Entremuros à Torrinha, que já lá vai, os 
gritos dos feridos, as imprecações dos combatentes e, 
finalmente, o clangôr e o entusiasmo da vitória. Tudo 
isso passou, tudo isso terá muito que contar ! E ou- 
tras, e outras revoluções. 

i Ideais diversos, vaidades, vinganças, sacrifícios! 

As terras do Casal Monte-Almeida, que o sangue já 
tem manchado, que a desilusão já tem enegrecido, 
mercê da sua situação na moderna cidade, darão en- 
sanchas a um grosso volume de memórias... daqui a 
uns cem anos. 

Por hora e' cedo. 



(i) O sr. Henrique Monteiro de Mendonça, opulento africa- 
nista, também ali proprietário, ofereceu à Câmara, grande porção 
de terrenos, para a construção do Parque, em troca apenas de al- 
guns materiais da demolição de uma propriedade urbana. Por 
preços mínimos também vendeu os seus terrenos o sr. Marques da 
Graciosa, proprietário do palácio e quinta do Geraldes. 



— 3oi — 



Durante anos arrastou-se a questão do Parque, mesmo 
depois de solucionada a primitiva questão. O problema 
urbano estava de pé, e diziam uns que o Parque não 
se fazia porque não havia compradores para os terre- 
nos, e outros que os terrenos se não compravam por 
que não se fazia o Parque. Neste lisonjeiro estado 
chegou a questão até há pouco. O público, paciente 
e resignado, entretinha-se a ler nos jornais de maior 
tiragem artigos prenhes de ideias e de alvitres e a ir 
aos domingos feriais, primaveris, para ali, com a sua 
eterna fé sebástica, dizendo uns para os outros : 

— Aqui é que vai ficar o palácio das Exposições. 

— Olha, além, constroi-se um «Belvedere». 

— Acolá ficam os lagos. 

— Daquele lado, as estufas. 

E contentavam-se com isto, assentando-se, depois, 
a merendar em cima dos torrões incultos. 



De há pouco tempo para cá, a Câmara, deitou os 
olhos misericordiosos para o Parque in nomine. 

Abriu-se um lago em ponto que não julgo de louvar, 
construiu-se uma linda Estufa-fria, coberta, onde há 
deslumbrantes exemplares botânicos e grutas idílicas, 
demoliu-se parte do Geraldes, os arruamentos parados 
avançaram, montaram-se — o que foi de péssimo gosto 
— os pavilhões que serviram na Exposição do Rio de 
Janeiro, mas ainda não vi que se pensasse na arbo- 
rização. Decididamente as vereações embirram com 
as árvores. Na praça dos Restauradores, tiraram-nas, 



— 3o2 — 

para que o sol nos batesse bem em cheio e se podes- 
sem examinar nitidamente as belezas arquitectónicas do 
ex-Eden Teatro. 

l Porque será e de onde virá este ódio à árvore ? 

Um Parque sem árvores, num país de verãos ar- 
dentes, é como um chapéu de sol, fechado. Pode ser 
muito bonito, mas não presta nada. 



CAPITULO XIII 



Sumário : Elogio da água — O que das águas de Lisboa disseram 
Duarte Nunes do Lião, Luís Mendes e Marinho de Azevedo 

— Propriedades milagrosas e medicinais da água do chafariz 
de El-Rei — As vozes e os rostos das mulheres de Lis- 
boa — As supostas Termas e o Aqueduto'romano — Noti- 
ciam-se as sucessivas descobertas do Reservatório da rua da 
Prata — O que há de verdade sobre a matéria — As Con- 
servas da Água já aproveitadas pelos engenheiros pombalinos 

— A Baixa no tempo da dominação romana — As galerias do 
Rossio e do Arco do Marquês de Alegrete — O nome pri- 
mitivo do chafariz de El-Rei — Aumenta a população e falta 
a água — Os cercos de u85 e iSyS — A sede dos sitiados — 
D. João II e os chafarizes — O poço do Rossio em tempo de 
D. Manuel — Os projectos para a condução da água do cha- 
fariz de Andaluz — Brigas junto às fontes públicas — A pos- 
tura das Bicas em i55i — Gomo se abastecia de água a Lis- 
boa quinhentista — Relação de todos os poços e chafarizes 
em i552, segundo o Tratado da Magestade, Grandeza e Abas- 
tança da Cidade de Lisboa, escrito por João Brandão — 
Fornecem-se ao leitor indicações topográficas de todos esses 
mananciais de água. 

nA ágoa (diz Duarte Nunes do Lião) he o elemento 
mais poderoso de todos os outros, porque comparada 
ao fogo, ella o apaga e extingue : comparada á terra, 
ella he a que toma em si, e a deporá. Ao ar sobe, e o 
domina e vai nelle a criar nuvees com que rega as ter- 
ras, e obra as neves, pedra e geada, e ainda estaa mais 
alta confonne aos que lhe dão assento no ceo Cr/stal- 
linoi (i). 



(i) Descrição do Reino de Portugal, edição de 1785, pag. 64. 



— 3o4 — 

Já Píndaro lhe chamara a inais excelente cousa de 
todas as cousas, e Strabão, referindo-se particularmente 
às águas da Luzitânia encareceu-as sobremodo, cele- 
brando os portugueses desse tempo como famosos be- 
bedores de água. 

Duarte Nunes, fonte copiosíssima onde bebi estas 
notícias, faz um largo elogio da bondade das nossas 
águas e, depois de mencionar várias nascentes medici- 
nais, refere-se às linfas de Alfama que borbotavam do 
chão, com uma suave quentura, e às do chafariz de 
El-Rei de quem diz : o qual tempòr e salubridade pa- 
rece que causa algum pequeno vieiro de enxofre per 
que aquenta temperadamente. E acrescenta : E assi 
se vê quando se co^e que deixa na vasilha hum polme 
entribranco e que se desfa^ em póo. Por esta bran- 
dura^ e tepor que tem as mulheres curiosas de seus ca- 
rões se lávão com ella, e as de fora mandão bus- 
car (i). 

Os nossos clássicos extasiam-se sempre que falam 
nas águas deste chafariz. Luís Mendes de Vasconcelos 
repete os elogios de Duarte Nunes e a elas atribue não 
só os bons carões das moças alfamistas senão as boas 
vozes lisboetas que docemente ecoavam aos seus ou- 
vidos clássicos (2). 

Damião de Góis, na sua descrição latina de Lisboa 
e Jorge Braunio, no Theatru?n Urbium, ajoelham-se 
diante dele, e delas. 

O capitão Luís Marinho de Azevedo, autor de uma 
famosa monografia alfacinha, diz que, das muitas pro- 
priedades de tais águas, ^diúa delias he persevar dos 
catarros ; e serrações do peito que causão outras^ não 



(i) Descrição do Reino de Portugal, já citada, pág. 69. 
(2) Do sitio de Lisboa — Diálogos, por Luís Mendes de Vas- 
concelos, págs. i5o a i5i. Edição de i8o3. 



— 3o5 — 

fazendo abalos aos forasteiros, qiie vindo a Lisboa a 
bebem logov (i). 

Foi fiado nesta creditosa informação que Calisto 
Elói de Silos e Benevides de Barbuda, o impagável 
herói de A Queda de um Anjo do grande Camilo, apa- 
nhou aquela formidável cólica que o fez duvidar da 
seriedade do seu clássico. Desejoso de amaciar a voz, 
e desencatarroar-se para as lutas tribunícias, bebeu 
dela à tripa-fôrra sem ter reparado que o seriíssimo 
Marinho de Azevedo, explicara um pouco antes que 
sendo suave no gosto, o não é nos efeitos, porque lhe 
atribuem os médicos a destemperança do Ji gado que 
muitas pessoas padecem {2). 

Nos Relójios Falantes, pÕe D. Francisco Manuel 
de Melo na boca (ou na corda) do relójio da aldeia di- 
rigindo-se ao das Chagas : 

iíPor isso tu cá vens, porque és mentiroso: di{ que. 
a verdade na lingua dos que a não faliam, é como a 
agua do chafariz de El-Ref que por correr por canos 
de enxofre sempre fa\ mal ao figado)^i2>). 

O mesmo autor estabelece, na Visita das Fontes, 
o seguinte diálogo entre a Fonte Nova do Terreiro do 
Paço e a Fonte Velha do Rossio: 

— F. N. : O! Senhor tio? Sentai-vos para aqui 
que muitas ve^es me lembra ouvir falar em vós, a meu 
pai o Senhor Dom Chafari^ de El-Rei. 

— F. V. : Deus lhe perdoi que tantos anos serviu a 
esta cidade com tão ruim galardão que já mais lhe 
acudiram com um ladrilho velho. São pagas do mundo. 

Das boas vozes causadas pela água citada, também 



(i) Fundação, Antiguidades e Grandezas da niuy insigne Ci- 
dade de Lisboa, pág. 1 1 1. 

(2) Descrição do Reino de Portugal, edição já citada, pág. 1 10. 

(3) Apólogos Dialogais, vol. i, pág. 46 (edição de 1900). 
VoL. IV 20 



— 3o6 — 

faz eco Marinho de Azevedo. As magnificas vozes das 
mulheres alfacinhas e dos cantores da Real Capela e 
das religiosas dos mosteiros da cidade, atribue-as ele 
ao maravilhoso chafariz (i), cuja água também dava 
aos rostos das moças do seu bairro ((hiima ahntra en- 
graçada e côr natural tam encarnada^ que não neces- 
sita de unturas, nem confeiçoênSy com que ellas se en- 
velhecem antes de tempoyy (2). 

O leitor que fôr hoje a Alfama e vir os hediondos 
carões que por lá pululam, há-de desconfiar da inte- 
gridade das faculdades mentais deste escritor, j Pois 
no tempo dele viam-se, por lá, alvuras engraçadas ! 

j Muito mudam as coisas deste mundo ! 

A bondade das águas de Lisboa, tão apregoada foi 
que, no Tratado da conservação da saúde dos povos (edi- 
ção de Paris de 17S6) arranja-se uma etimologia para 
Lisboa, bastantemente extravagante. ; Diz o seu autor 
que tal termo provém de Lix, que em latim quer di- 
zer «água» (!) e de bona que significa «boa», vindo 
assim o composto a querar dizer água boa! 

jE até onde pode chegar a fantasia de um filólogo! 



Basta agora de classicismos e vamos ao que mais 
importa. 

Datam do tempo da dominação romana as tentati- 
vas de abastecer de água o burgo lisboeta. A fonte 
da Agua Livre conhecida sem dúvida já nesse tempo 



(i) Era esta talvez a razão da abundância de cantores de ofí- 
cio que então havia em Lisboa. O Tratado da Majestade, Gran- 
deza e Abastança de i552, dá notícia de i5o, nada menos. 

(2) Fundação, Antiguidades e Grandezas, já citada, pág. m. 



— 3o7 — 

viria trazer às termas e às piscinas da acrópole romana 
a sonorosa Imfa fugitiva de que nos fala o poeta. 

Construíram os enviados dos Ce'sares, os munícipes 
romanos, os cônsules ou os Aitgustais (Caio Heio Pritmo, 
talvez) um aqueduto para esse fim. No século xvii 
ainda havia dele abundantes vestígios, autenticados pe- 
los relatórios dos engenheiros e arquitectos lisboetas 
no tempo dos Filipes. Leonardo Turriano viu-o e me- 
diu os seus quarenta palmos no sítio de Palhavã. Os 
Tinocos e os Frias referem-se a êle também. A exis- 
tência de tal monumento não admite, pois, diávida. 

Veremos logo, mais de espaço, essas referências. 

Quando, aqui há sessenta anos, se quis reparar a 
canalização da rua do ayxo do Marquês de Alegrete, 
encontraram-se, às primeiras investidas das picaretas, 
grossas abóbadas de tejôlo. Foi pena não ter algum 
entendido feito o exame dos materiais dessa construção. 

Arrombadas as abóbadas viram-se galerias em di- 
ferentes direcções e água por todos os lados. 

^ Seria acaso um ramal do velho aqueduto? ; Vão 
lá prová-lo agora! 

Carlos Ribeiro, o eminente geólogo, quando, em 
i863, como membro da comissão nomeada para dar 
o seu parecer, acerca do abastecimento da Capital, 
procedia a estudos da sua especialidade, viu, perto da 
Amadora, entre os sítios chamados da Gargantada e 
do Almarjão, um aqueduto de construção evidente- 
mente romana. Esse aqueduto parece ter sido edifi- 
cado paralelamente ao actual, dois ou três metros mais 
abaixo. Os lanços de parede e de canalização, que 
ainda existiam então, eram feitos de argamassa e de 
fragmentos de tejôlo de fábrica romana (i). 



(i) Memória sobre o abastecimento de Lisboa com águas de 
nascente e de rio, pág. 17. 



— 3o8 



As discutidas, mas não estudadas, Termas da rua 
da Prata, cujo conhecimento geral remonta ao ano de 
1770, tem-se atribuído £0s tempos de Tibério e de Tra- 
jano, não sei com que fundamento. 

A sua história, pouco mais ou menos, é esta : Em 
1770 ao fazer-se o alicerce para uma casa do comer- 
ciante Manuel José Ribeiro, na rua da Prata, deu-se 
com o depósito subterrâneo. Um tal Joaquim Ferreira 
fêz dele um desenho e planta. No ano seguinte foram 
descobertas as «Termas dos Cassios« a que Castilho faz 
larga referência na Lisboa Antiga^ tendo D. Tomás 
Caetano do Bem, escrito uma Memória na qual se fa- 
zem alusões ao depósito da rua da Prata. Em 1780 
Frei José do Sacramento, monge de Alcobaça, escre- 
veu outra Memória acompanhada de um desenho sobre 
a segunda descoberta feita em 1778 ao abrir-se o cano 
geral da rua. Frei José, como bom sucessor de Frei 
Bernardo de Brito, enramou de patranhas o seu parto 
literário-arqueológico, e o depósito passou ao ouvido 
público como Termas Romanas atribuídas ao tempo 
de Tibério ou de Trajano. 

Em i833 deram os alfacinhas pela terceira vez com 
o vasto reservatório da rua da Prata, ou melhor, pela 
quarta vez, como logo se dirá, pelo facto de se ter sui- 
cidado, lançando-se a um poço existente numa das esca- 
das da rua, um galego desiludido da vida. O suicídio 
de um filho da Galiza é sempre um facto notável pela 
raridade, mas aquele deu que falar para mais de um 
mês. E foi o caso que, tentando-se procurar o cadá- 
ver, recorrendo-se ao esgotamento do poço por meio 
de bombas, não houve meio de o secar. Pelo contrário 
a água parece que crescia, e o único resultado obtido 



— 3o9 — 

em tais diligências foi o de espalhar-se naquele local 
uma infinidade de mosquitos, a qual foi atribuída pelo 
povo a castigo de Deus, por se ter tentado penetrar o 
misteVio da morte de um galego. Desanimados com o 
insucesso, mas aguilhoados pela curiosidade, um dos 
pesquizadores, mais atrevido, resolveu-se a descer pela 
boca do poço. jMal sucedida empresa! Daí a ins- 
tantes o homem era puxado para cima mais morto do 
que vivo. Ansiosamente interrogado pelos circunstan- 
tes, apenas soube dizer que lá em baixo não se via 
senão água. — j Aquilo e' um mar subterrâneo ! 

Pouco depois veio o cólera^ e houve quem propa- 
lasse que a mosquitaria represada no reservatório fora 
a causa da epidemia. 
. O acontecimento esqueceu. 

Em 1859, fêz-se quinta descoberta. Francisco Mar- 
tins de Andrade e José Valentim de Freitas — o bene- 
ditino José' Valentim da Biblioteca Nacional — fizeram 
um minucioso relatório acompanhado de desenhos que 
está no masso Y-i-45 da Biblioteca. Um dos desenhos 
é de um pedaço de mármore veado de azul ; outro 
muito imperfeito, é do engenheiro Joaquim Júlio Pe- 
reira de Carvalho, que lá desceu com José Valen- 
tim, dessa vez. O teatino D. Tomás Caetano do Bem 
supunha que as «Termas dos Cássios» e este reserva- 
tório, eram a mesma obra romana e que o aqueduto 
que as alimentava era a galeria que se rompia numa 
das dependências do antigo castelo de S. Jorge. 

Nesse mesmo ano (iSSg) o geómetra Francisco de 
Almeida e Silva fêz uma planta das «Conservas da 
Água» que ofereceu ao mestre Geral da Câmara Mu- 
nicipal António dos Santos, aproveitando elementos de 
outra que já existia, ao tempo, na Repartição Técnica 
das Obras Públicas, sinalandoos a azul. Nessa planta 
vêem-se quatro secções do Reservatório, tiradas em 



— 3io — 

sentidos diversos, concluindo-se da observação do de- 
senho que as «Conservas» não foram totalmente explo- 
radas. 

Aí por 1840 e tantos, quando a Câmara Municipal 
pôs a concurso a empreitada da canalização dos esgo- 
tos os operários do empreiteiro Mantas a quem cou- 
bera aquela área, deram também com a suposta obra 
romana. Houve a pasmaceira habitual. O empreiteiro 
expôs à Câmara o sucedido e esta procedeu. Alargado 
o buraco feito ocasionalmente pelos alviões dos traba- 
lhadores, desceram lá a baixo alguns mais animosos e 
propuseram-se a navegar numa canoa naquele estuário 
subterrâneo. A viagem foi uma mera curiosidade. Não 
se fizeram medições, não se examinou o material, nem 
sequer se observou a direcção das galerias ali conver- 
gentes. 

Em 1906, por motivo dos habituais desarranjos na 
canalização do Alviela, pôs-se outra vez à vista o «Re- 
servatório» e, em 1909, se não estou em erro, o meu 
amigo e ilustre escritor Rocha Martins, depois de 
uma viajem por essas galerias escreveu sobre elas um 
artigo muito curioso na antiga Ilustração Portuguesa, 
Pena foi que se não fizesse acompanhar por alguns en- 
tendidos que completassem com dados científicos as 
suas observações meramente literárias. 



Posto isto reíiita-se um pouco. 

A construção de que se trata, a-pesar-de tantas des- 
cobertas, fora conhecida já pelos engenheiros pombali- 
nos da reedificação de Lisboa. Prova disso: o apro- 
veitamento — não ocasional, mas nitidamente calculado 
— do reservatório para alimentação dos numerosos po- 



- 3ii — 

. ços abertos por essa ocasião, nas escadas, pátios e 
saguões dos prédios então construídos. 

As abóbadas das galerias devem até ser de cons- 
trução pombalina, feita por ocasião dos entulhamentos 
da cidade baixa. Se o não são — e isso só se pode ave- 
riguar pelo aparelho e pela construção — deviam de 
ficar, anteriormente a 1755, quási ao nível do solo o 
que não é de crer. Em qualquer das hipóteses a cons- 
trução não foi primitivamente feita para o fim a que 
hoje se destina. A orientação das nascentes que apa- 
rentemente a abasteciam dão a entender isso mesmo. 
Tais veios de água devem derivar das nascentes que 
alimentaram muitos banhos, poços e bicas, que existiam 
na cidade baixa antes do terremoto e que então tive- 
ram os seus cursos desviados pela destruição dos mes- 
mos. Os «banhos dos Judeus», na Gibitaria, os poços 
da Foteia, os banhos do Morraz, a Fonte da Frol e 
outros, estavam nestas condições e deviam ser alimen- 
tados pelas «Conservas» da rua da Prata, dada a sua 
vizinhança com o reservatório. 

Os restos desta construção não têm o menor ca- 
rácter de Termas. Aquele ponto da Baixa, no período 
da dominação romana, eram terrenos alagadiços que 
depois se enlodaram cobrindo-se de sedimentos arras- 
tados pelas águas. Em 1220 o esteiro do Tejo adel- 
gaçara-se e corria apenas pela Calcetaria e Crucifixo, 
como um regueirão sobre que se arqueavam pontes de 
madeira, uma no Rossio e outras duas até à Ribeira : 
a dos Paus e a do Morra\. Para prova disto basta dizer 
que a igreja da Madalena já existia em 1 164, a de S. Ni- 
colau foi mandada erigir de novo em 1280, em 1200 er- 
guia-se já a de S. Julião e Santa Justa em 1173 (i). 



(1) As Muralhas da Ribeira de Lisboa, pelo engenheiro e ilus- 
tre arqueólogo, sr. Augusto Vieira da Silva. 



— 3l2 — 

Depois destas considerações custa crer na existência 
de umas Termas Romanas na rua da Prata, à babugem 
da água. 



Sob o solo do Rossio escondem-se, igualmente, dois 
enormes depósitos ou poços que vão ter a galerias 
onde a água corre abundantemente, vinda do Norte, 
isto é, dos lados de Valverde (Avenida da Liberdade) 
e de Arroios. Essas galerias são, como as da rua do 
Arco do Marquês de Alegrete, abobadadas, i Serão um 
vestígio do aqueduto romano que da Agua Libera vi- 
nha por Palhavã (onde o viu Turriano) até à acrópole 
romana que descaia do Castelo para a Madalena? Os 
açoriamentos, e também os sismos, tê-lo iam escondido 
aos poucos. Os engenheiros pombalinos aproveitaram, 
como vimos, esse lençol de água subterrâneo e fize- 
ram-no poço comum dos prédios edificados então. 

A lápide encontrada na escada do prédio n." 85 da 
rua dos Retrozeiros, em que se lê a dedicatória a Es- 
culápio de certa obra e a sua oferta ao Município pelos 
Augustais Lúcio Fábio Dáphno e Marco Afrânio Eupo- 
rião foi, quanto a mim, deslocada do seu antigo lugar 
e colocada ali por ocasião da construção do prédio, 
embora não seja impossível identificá-la com a obra 
monumental a que me estou referindo. 

A vasta mãi de água subterrânea, ao sopé do monte 
urbano dos Césares, ponto de convergência de inú- 
meras galerias abobadadas, está exigindo uma minu- 
ciosa visita de indivíduos competentes que esclareçam 
a sua verdadeira significação e atestem a sua origem e 
aniigiiidade. 



— 3i3 



Da Água Livre, fonte antiquíssima, encontrei men- 
ção num documento do século xiii — uma inquirição do 
reinado de D. Afonso III, das muitas cujo conhecimento 
se deve a João Pedro Ribeiro. Aí se lê que os frades 
de S.Vicente possuíam entre outros bens, neste local, 
uma granja com dois casais: — et in Agua libera unam 
grangiam cum duobos casalibus(i). 

Seria essa talvez a fonte mai que abastecia pelo 
aqueduto monumental, a colónia romana de Felecitas 
Júlia. 



Vieram depois os árabes ; mais tarde os cristãos. 
O pequeno burgo acastelado, escassíssima porção da 
área actual de Lisboa, abastecia-se das fontes certa- 
mente construídas por êssesdominadores nas muitas 
nascentes da moirisca Alfama (2). 

Em 1220 já existia, reformado talvez, o chafariz 
chamado, ao tempo, da Praça ou de S. João da Praça 
dos Canos o qual, segundo a opinião do Visconde 
de Castilho era, nem mais nem menos do que o cha- 



(i) Boletim n." 4 da Associação dos Arqueólogos Portugueses, 
ano de 1901, pág. 34. 

(2) Ao pé da Mãi da Água Velha, em Carenque, existe um 
paredão, conhecido pelo Muro dos Mcuros, feito com notável so- 
lidez, que certamente, na opinião autorizada de Carlos Ribeiro 
{Memória eh., pág. 17), servir de represa às águas da ribeira, a 
montante da qual se deveriam juntar grandes massas de água, 
aproveitadas ou para abastecimento da cidade ou para fertilização 
dos plainos de Bemfica e Porcalhota. Era obra evidentemente 
moirisca. 



— 3 14 — 

fariy^ de El-Rei, apelidado, depois, assim, por alguns res- 
tauros ou total reformação que nele fizesse El-Rei 
D. Dinis (i). 

Onde este rei punha a mão saía obra grande e logo 
a alcunhavam de real. 

Um pergaminho do Arquivo do Cabido de Lisboa 
recentemente recolhido à Torre do Tombo, datado de 
Coimbra de lo de Outubro de i3o8, refere-se a deter- 
minados privilégios concedidos ao clero pelo rei-lavra- 
dor, isentando-o de qualquer contribuição jt'í2ra a Fonte 
que o dito Senhor mandara construir na cidade de 
Lisboa. 

^ Referir-se-á este documento à reformação do cha- 
fariz de S. João da Praça dos Canos ? 

Estou em crer que sim. 



Mas a cidade crescia e a sua população extravasa 
para fora da estreita cerca torrejada. Acantoavam-se 
os moiros onde depois se chamou a Moiraria ; viviam 
os Judeus, no outeiro fronteiro da Pedreira, que mais 
tarde D. Dinis doaria ao genovês Manuel Pessanha. A 
contingência de um cerco obrigando essa população 
dispersa a recolher-se a dentro das muralhas traria 
em resultado um grandíssimo perigo : — a sede ! 

Foi o que sucedeu em iSyS, reinando em Portugal 
o infeliz D. Fernando. Sitiada Lisboa pelas hostes de 
Castela, recolhidos à pressa, num angustioso abandono 
de seus lares, os povos de extra-muros, entrou de faltar 
a água. A seca foi tal que, diz Fernão Lopes, secavom 
da augua o chafarii delRei, a-pesar-de ser uma fre- 



{i) A Ribeira de Lisboa, pág. ibi. 



— 3i5 — 

jnosa fonte abastada de grande avondança daiigua que 
continuamente corre (i). 

A sede era o terror de todos os sitiados. Quando 
em 1 185 Lisboa caiu nas mãos dos soldados de D. Afonso 
Henriques e dos cruzados alemães e ingleses, foi a 
sede um dos motivos dessa vitória* Erant cnimiamQ) 
pene consuinpti foris gladio^ intus inedia panis et aquae 
diz a História de S. Vicente, citada por Marinho de 
Azevedo (2). 



Serviu de ensinamento o cerco de iSy?. Arreceado 
de futuras investidas castelhanas mandou D. Fernando 
alargar a cinta das muralhas e, certamente, prover de 
água em maior abundância o novo terreno anexado ao 
burgo. O chafariz de El-Rei e o dos Cavalos^ ou de 
Dentro mal chegavam para os habitantes que ficavam 
dentro da cerca antiga (3). 



(i) Crónica de El Rei D. Fernando, pág. 66, vol. 11, edição 
de 189^ 

(2) Fundação, Antiguidade e Grandeza da mui insigne Ci- 
dade de Lisboa — Livro 4°, pág. 238. 

(3) É também dessa época o chafariz dos Cíjvíj/o5 assim cha- 
mado por causa de um bucéfalo de arame ou de bronze de onde 
jorrava a água. 

Em 13-/3 os castelhanos quiseram levá-los, mas os nossos 
precaveram-se e tiraram-nos (Citada Crónica de D. Fernando, 
vol. II, pág. 58. 

A designação «dos Cavalos» para os chafarizes estendia-se 
a. outras terras. Em Évora, no século xiv, havia um chafari:^ dos 
cavalos. Daqui infiro que o nome lhes vinha de se destinarem a 
bebedouros de cavalos e não porque quaisquer cavalos, em pedra 
ou arame, os ornamentassem. A água deste chafariz lisboeta en- 
gordava as cavalgaduras, diz Marinho de Azevedo. A lenda dos 
cavalos generalizou-se. É o delírio de justificar etimologias, por 
figuração. 



— 3i6 — 

Fêz-se, pois, a obra ; quando o castelhano veio, 
outra vez, encontrou Lisboa defendida e parece que 
abastecida de água por que nem Fernão Lopes nem 
D. Fernando de Meneses (i) se referem mais do que 
às fomes padecidas. Com respeito à falta de água, 
nem uma palavra. 



D, João II, em 1487, mandou fazer um encanamento 
do chafariz de El-Rei até o mar para fornecimento de 
água aos batéis da Ribeira (2). Parece que este mo- 
narca se interessava verdadeiramente por tal assunto 
e acho curioso vê-lo preocupado em saber qual o nas- 
cimento da água do egrégio chafariz e contentíssimo 
depois por ver que tinha acertado nas suas previ- 
sões (3). O chafariz dos Cavalos também lhe mereceu 
a régia atenção e saindo de Lisboa, para Almeirim, em 
1494, deixou encarregado o procurador da cidade Pêro 
Vaz de Castelo Branco de zelar por certas obras que 
ordenara se fizessem. Queria El-Rei que a água se 
repartisse por bicas onde só se deviam encher os cân- 
taros das moças, deixando o tanque para serventia dos 
açacais e proibindo que as bestas lá bebessem. Tudo 
isto tinha em vista conservar a rua limpa para a pro- 
cissão dos pescadores de Alfama (4). 



(1) Vida e Acções de El-Rei D. João I, edição de 1677. 

(2) Memórias sobre chafarizes, por Veloso de Andrade, pág. 
io5 — Carta régia de 16 de Setembro de 1487. 

(3) Elementos para a História do Município de Lisboa^ por 
E. Freire de Oliveira, vol. 11, pág. 420 — Car/í7 de 2 de Maio de 
1494. 

(4) Esta procissão era uma festa pagã a S. Pêro Gonçalves 
Telmo, tão pagã que o arcebispo de Lisboa, D. Fernando de Me- 



-3i7- 

A Gamara não concordou com tais determinações 
e dilatou a obra, pondo inconvenientes. D. João II deu 
o cavaco com a desobediência do Senado. O escriba 
da carta régia para os Vereadores traduziu, nos se- 
guintes termos, o descontentamento do rei: ... a não 
ser que pós queiraes obras como é costume aos oficiaes 
da cidade que embargavam as bemfciiorias que alguém 
qui^^esse fa^er. 

Não sei se a obra se fêz. F^l-Rei tinha deixado, nas 
mãos de um tal Rui Lobo, ioo;jf500o réis para essa obra. 
Pediu-lhos a Câmara, mas Rui Lobo respondeu que 
escreveria a Sua Alteza e não os deu(i). 



Tem-se dito que El-Rei D. Manuel diligenciou con- 
duzir a Lisboa a Água Livre. Nenhum documento au- 
toriza tal afirmação. O que o monarca felicíssimo pro- 
moveu ou patrocinou foi a condução da água para o 
chafariz novo do Rocio e a obra do chafariz de Santos. 



neses, a proibiu em i556. Os pescadores ficaram sentidíssimos e 
como se desse o caso de se avariar no Tejo uma nau da índia, 
capitaneada por um filho do arcebispo, logo propalaram ter sido 
castigo divino. A festa começava na véspera por uma romaria 
às hortas de Xabregas em que levavam o Santo, indo os pesca- 
dores com os melhores fatos, cheios de cadeias de oiro, com mui- 
tos tangeres e bailes. Ali passavam a tarde, comendo e bebendo 
voltando depois à cidade todos armados de capelas e coroados 
de coentros verdes. 

Descreve esta festa, Diogo do Couto na Vida de D. Paulo de 
Lima Pereira, págs. 8 a lo. 

(!) Citados £^/ew2e»i/os,vol. II, pág. 421. — Assento da Câmara 
de 28 de Maio de 1494. 



— 3i8 — 

Daí talvez a confusão, como o supõe com autoridade o 
sr. Freire de Oliveira (i). 

Data essa tentativa do ano de i5i3. O aumento 
crescente da população começava a sentir-se nas cons- 
tantes sedes que padecia. Beber água tornou-se quási 
uma necessidade luxuosa. 

Tornava-se pois mister socorrer a cidade com a 
água dos arredores, e pôs-se a vista no chafariz subur- 
bano de Andaluz ou de Andalu{es, como vejo escrito 
na caria do soberano ao Senado em lò de Novembro 
de i5i3. 

Este chafariz foi feito no ano de 1374, conforme 
dizia um padrão que lá existia ainda em 1840. 

Luís Mendes de Vasconcelos também chama ao 
sítio Andalu'{es{2) o que contraria um pouco a etimo- 
logia que lhe forja Frei Lucas de Santa Catarina, con- 
tinuador de Frei Luís de Sousa na História de S. Do- 
mingos (3). Diz este que tal nome se lhe pôs por ser- 
vir de passagem para o lugar de Nossa Senhora da 
Ln^. Não deve ser assim; a grafia acima escrita, pÕe 
de lado a engenhosa habilidade do domínico ; mas va- 
mos ao que importa. 

A iniciativa da obra deve-se, sem dúvida, ao Se- 
nado. Foi ele que enviou a El-Rei os projectos da 
obra — as ??iostras que êviaste^ diz D. Manuel na carta 
referida. 

O soberano ficou agradado da diligência municipal 
e cometeu-lhe a escolha do projecto, manifestando ao 
mesmo tempo o desejo que tinha de falar com o oficial 



(i) Citada obra, vol. ir, pág. 420. É na carta régia de 2C de 
Agosto de 1498 (vol. i, pág. 38 1 dos Elementos) que o monarca 
diz à Câmara : E da obra do chafari^ de Samtos me pra^ muyto. 

(2) Do sitio de Lisboa, pág. 228. 

(3) Vol. V, Livro /.°, pág. 234. Edição de 1866. 



— 3i9 — 

que o fizera: fa\eo logo cá vir e traga a ?fiesma pin- 
tura, escreve D. Manuel. 

Está-se a ver o interesse e a curiosidade do rei. 

Houve demora na execução da obra por que apa- 
rece outra carta régia estranhando-a, tanto mais que 
já havia dinheiro para ela. Hy ha já dr.° p.'^ fsso — 
comenta o soberano, mandando que João Fogaça (tal- 
vez o autor do 'ç>vo]ç.z\.o) faaça poer maão na dita obra{\). 



De D. João III, diz o sr. Freire de Oliveira, refe- 
rindo-se à lacuna que o seu reinado fêz neste momen- 
toso e grave assunto: ... (^entendia (o monarca) sem 
duvida, de que o que o povo mais precisava, não era 
agua, era fogo em que se purificasse e deu lhe as fo- 
gueiras do Santo Oficio {2). 

A água escasseava cada vez mais. Mau grado as 
obras feitas em iSiy, no chafariz de El-Rei, por Lopo 
de Albuquerque, proprietário das casas que lhe ficavam 
sotopostas, e em i54i, por conta do Senado, depois 
de compradas tais moradias aos herdeiros do fidalgo, 
as suas seis bicas não chegavam ao consumo da ci- 
dade (3). 

Tanta era a afluência de negros e moiros, moços 
e criados que as bulhas eram constantes. 

Entendeu a Câmara, e bem, publicar uma postura 



(1) Elementos para a História do Municipio de Lishoa. vol.. 11 
pág. 417 a 418. 

(2) Idem^ pág. 418. 

(3) A Ribeira de Lisboa do Visconde de Castilho, pág. i63 
e i6q. 



— 32o — 

para regular a serventia das bicas, e publicou-a em 
i65i(2). 

Assim ficaram ordenadas as bicas: 

Na primeira, enchiam os pretos forros e cativos, mu- 
latos e índios ; 

Na segunda, os moiros das galés e, acabada a agoada, 
os da primeira bica ; 

Na terceira e quarta, os homens e moças brancas ; 

Na quinta, as mulheres pretas ; 

Na sexta, as mulheres e moças brancas. 

Aos que infrigissem a postura cabia a multa de 
2.'3Ç)00o réis e três dias de cadeia, sendo brancos, e sendo 
de cor seriam logo açoitados com baraço e pregão em 
derredor do chafariz. 



O curiosíssimo Tratado da Majestade, Grandeza 
e Abastança da Cidade de Lisboa, escrito em i562, 
por João Brandão, dá-nos uma relação dos poços e cha- 
farizes de Lisboa, nessa data. Eram eles os seguintes : 

i.° — O chafarii de El-Rei, chamado antigamente da 
Praça ou de S. João da Praça dos Canos e 
a que já nos referimos. 

2.° — O poço das casas do Tesoireiro da Cidade que 
ficava por detrás do chafariz de El-Rei e onde, 
então, a água se vendia aos potes. 

3.° — O poço das casas do Conde de Linhares que 



(i) i4 Ribeira de Lisboa, já citada. 



— 321 — 

ficava numa das lojas do palácio que depois 
foi do Conde de Coculim e hoje é o armazém 
de ferro do sr. Sommer ík C.^ Dessa casa 
ainda iioje existe um resto da fachada e um 
cunhal armorejado com as armas dos Masca- 
renhas fazendo esquina para o Arxo de Jesus 
— uma das antigas portas da cerca moura. 
Aí se vendia água muito fria e de excelente 
qualidade. 

O poço dos baixos das casas de Francisco Cor- 
reia, a que o tombo de iSyS chama Fonte nora 
da Porta do Mar e que em 162 5, na «Dili- 
gência que se fez aos muros e portas da cerca 
da cidade» aparece com o nome de Chafari^ 
da Preguiça (i). 

O poço das casas do Conde de Portalegre^ no 
Haver do Peso à entrada da rua da Ferraria, 
onde se vendia igualmente muito boa água. 
Este poço parece ser o mesmo que se men- 
ciona, em outro ponto, como na rua da Con- 
feitaria (que era a antiga Ferraria) entre o 
largo do Açougue e o Peloirinho Velho, da 
banda do Sul. Só esta indicação não confere 
porque o Haver do Peso ficava e' certo à en- 
trada da rua (tornejando para o Peloirinho) 
mas do lado do Norte. — Todas as casas da 
Ferraria tinham poços nas lojas, informa o 
documento a que me vou referindo. 



(i) A cerca moura de Lisboa, por A. Vieira da Silva, pág. 33 
e 34. Os peritos encarregados da «diligência-) de 1625, alvitraram 
que se tapasse este chafariz {Elementos para a História do Mu- 
nicípio de Lisboa, tomo iii, pág. 170). 

Voi- IV 21 



— 322 — 

6.° — Quatro poços na rua Nora (dos Ferros). Não 
os identitica o Tratado. 

7." — O poço da Fótea, chamado anteriormente (1299) 
Poça da Fotreya. Ficava pela parte norte 
da rua nova dos Mercadores ou dos Fert^os, 
num escasso largo que com ela comunicava 
pela travessa da Fótea, a oriente da antiga 
paróquia da Conceição a qual ficava fronteira 
ao arco dos Barretes. Este poço e mais ou- 
tros dois que ao construir-se a igreja referida 
ficaram dentro dela — um deles num saguão 
junto à sacristia — eram alimentados pelas ter- 
mas romanas (?) que também serviam para 
prover os banhos dos Judeus da rua da Gibi- 
taria a qual corria por detrás do largo do 
poço da Fótea paralelamente à rua Nova(i). 
Quando foi do terremoto, diz o pároco da 
Conceição informando o padre Luís Cardo- 
so (2), lançou este poço de si toda a água que 
continha e alguns peixes, e os poços que esta- 
vam dentro da igreja ficaram razos com a 
terra pela elevação que esta tomou. Nisto 
há-de haver um pouco de fantasia da parte 
do prior, que era o padre Brás José Rebelo 
Leite. 

O poço da Fótea que tinha quinze passos 
de largo e trinta de redondo, ficava onde hoje 
corre a rua de S. Julião, entre a rua da Prin- 



(i) Dicionário Manuscrito^ já referido, tomo 11, freguesia da 
Conceição, 

(2) As Muralhas da Ribeira de Lisboa, já citados, págs. 154 
a i55. 



— 323 — 

cesa e a rua da Prata, encostado à fachada 
dos prédios do lado sul. 

.° — O chafari\ da rua Nopa, chamado, depois do 
século XVII, chafariy dos Cavalos, e que tam- 
bém foi conhecido por chafari\ de Nossa Se- 
nhora de Oliveira (em 1340) e por Fonte de 
Santa Maria de Oliveira (1470). Os cavalos 
de arame, que a lenda diz terem sido levados 
pelos castelhanos depois do cerco de i373, 
eram os que estavam no chafariz de Dentro ao 
qual se refere Fernão Lopes e não a outro. 

Chamou-se o chafariz, de Nossa Senhora 
ou de Santa Maria de Oliveira por ficar por 
baixo do adro deste templo cuja porta dava 
para o adro de S. Julião com acesso pela rua 
das Esteiras (i). Ficava, fazendo as referên- 
rências actuais, este chafariz a meio da rua 
S. Julião defronte da porta da actual ermida, 
entre as ruas do Ouro e Augusta. 

Esta água de pouca utilidade seria para os 
lisboetas sequiosos. O Tratado informa que 
ela servia para os fornos de cal e para as 
obras de alvenaria que se faziam ao tempo. 

Os viajantes venesianos Trom e Lippo- 
mani quando pasmam diante da abundância 
de água do chafariz dos Cavalos dizendo que 
da boca dos cavalos corria tanta agoa que 
formava corrente a modo de ribeiro {2)^ re- 
ferem-se evidentemente ao chafariz da rua 
Nova, pois ao outro já, desde i373, lhe 'falta- 
vam os cavalos de arame. Tal informação 



{i) As muralhas da Ribeira de Lisboa, pág. 66 a 70. 
(2) O Panorama, vol. vii, pág. 82. 



— 324 — 

esclarece muito o caso, porquanto prova que 
o artifício das bicas do chafariz de Dentro foi 
repetido no da rua Nova, motivando lhe fosse 
dada a velha denominação daquele. 

Fica assim explicada a confusão, que mo- 
tivou numerosas referências erróneas ao no 
me dos dois chafarizes (i). 

9.° — A fonte Junto aos Paços da Ribeira. Não sei 
se será possível ideniiíicar esta com a Fonte 
da Frol (ou da Flor) que ficava e' certo Junto 
de dependências do Paço e que ainda existia 
em i685 pelo menos. Q que admira, a ser 
assim, é não vir mencionada na relação com 
o seu bem-soante nome. A não ser ela, por 
que razão não a incluiria o autor desse traba- 
lho entre as outras, mencionando, aliás, ma- 
nanciais de menor importância ? 

A Fonte da Frol — que já tinha este nome 
em 1498, ficava entre as antigas Casas de Ceuta 
e o Arco dos Pregos. Nesse ano D. Manuel 
determinou «para nobre^a^ honra e proveito 
da [cidade e dos moradores dela» se dessem 



(1) Junto ao chafariz dos Cavalos em duas das colunas- 
esteios da rua Nova «como estátuas do agravo e do castigo» estavam 
duas cabeças lavradas aludindo ao clérigo e à sua concubina que 
D. Pedro-o-Cru, mandara enforcar. Noutra coluna estava uma 
cabeça de mulher e um macaco de pedra, aludindo ao facto de 
certo mouro ter-se desamarrado do cepo e ido até S. Domingos 
buscar uma mulher com tão desenvolta lascívia que ela serviu de 
corpo de delito. Estas lendas, contou-as em 1770 e tantos, ao 
Bispo do Grão Para, um tal Agostinho Domingos que tinha mais 
de oitenta anos e fora caixeiro na Rua Nova. O Bispo refcre-as 
nas suas Memórias, publicadas por Camilo Castelo Branco, a 
págs. 124 e 125. 



— 325 — 

de foro os chãos fora do muro da Ribeira 
(Campo do Conselho) onde os seus anteces- 
sores não tinham deixado fazer edificações, 
para neles se construirem casas e lojas de 
proporções marcadas. Como a fonte ficava 
em meio dessas construções, foi igualmente 
determinado que a edificação levantada nesse 
local tivesse só o sobrado, ficando o pavimento 
te'rreo aberto entre os esteios que o suporta- 
vam e lhe davam serventia (i). 

Quem entrar hoje na rua Augusta, dez pas- 
sos dados depois de passar o arco, pelo leito 
da rua, está, pouco mais ou menos, no sítio 
da Fonte do Frol. 

10.° — O poço junto aos Tanoeiros. Os «Tanoeiros» 
eram o nome porque era conhecido o local 
onde assenta hoje o largo do Peloirinho. 

II." — O poço ao arco de Manuel Córte-Real. Este 
arco ficava no fim da actual rua do Arsenal, 
metido dentro dos prédios do último quartei- 
rão do lado norte. 

12." — O poço junto ao postigo que ia para os Márti- 
res. Este postigo ficava no ponto onde hoje 
termina a travessa do Cotovelo, ao Corpo 
Santo. 

i3.° — O poço do Conselho que ficava junto ao do pos- 
tigo dos Mártires. 



{\) As Muralhas da Ribeira de Lisboa, pelo sr. engenheiro 
Augusto Vieira da Sfiva, págs. 32 a 33. 



— 326 — 

14-° • — T7'és poços a Cata-que-farás, passando a igreja 
de S. Pedro Gonçalves Telmo. Estes poços 
— diz o Tratado — tinham aparelho de lavar 
roupa. Em 1755 a denominação de Cata-que- 
-farás^ resumia-se a uma travessa que rodava 
à volta da «Calçadinha da Paciência» no fundo 
da actual rua das Elôres(i). 

15." — O poço do Borratem. Este chegou até nossos 
dias e dele se faz mais larga menção adiante; 

16.*' — O poço do Rossio que no princípio do século xvii 
se chamava do Milagre; e 

17.° — O Poço do Chão de que o Tratado diz que 
hé grande e de muita agoa, e pelas logeas 
pegadas há muitos poços dagoa. 

Além destes havia numerosos poços para baixo do 
Cata-que-farás, onde todas as casas os tinham, o que 
tambe'm acontecia no sítio das Fangas da Farinha (2). 

Na rua do Morra\ (a Calcetaria de 1755) que é o 
liltimo troço poente da nossa rua de S. Julião havia uns 
banhos em 1449, os quais deviam ficar situados, na 
opinião do sr. Vieira da Silva, na sua muito citada obra, 
à entrada da rua do Oiro. Esses banhos desaparece- 



(1) Em Évora havia um «poço de cata-quc-fívás, e um sítio 
assim chamado, em pleno século xiv. Creio que tal nome se de- 
rivaria de alcunha, construída à maneira de outros apodos ebo- 
renses como o de Bem-na-busca aplicado a um moiro. Não sei 
porquê, pressinto, atrás desta designação local, um filho do Islam. 

(2) Estatística de Lisboa de i552, pág. 44 v.» a 35 v.", impresso 
agora cem o título de Tratado da Majestade, Grandeza e Abas- 
tança da Cidade de Lisboa. 



— 327 — 

ram quando em 1004 se mandou alargar a rua dos For- 
nos do Moy^ra'{{\). Esta rua rompia-se ao princípio, 
do lado norte, do referido troço da actual rua de S. Ju- 
lião e, obliquando e cortando em diagonal a rua do Cru- 
cifixo, ia sair à do Almada ali por altura do «Ferin», 
onde se abria eniáo o beco do Crucifixo. 

Em 1498, foi também demolida por ordem do rei 
D. Manuel, uma fonte junto à muralha na porta do 
Açougue da Ribeira., para construção de uns sobra- 
dos sobre esteios de pedra destinados a talhos. Na 
mesma ocasião foi mandada correger a Fonte da Frol 
de que já se falou (2). A porta do Açougue ficava ao 
princípio da rua da Princesa ; do lado do Terreiro do 
Paço, já se vê. 

De outro poço, nos dá também notícia o sr. Vieira 
da Silva; era um que ficava entre a Correaria, e o beco 
do Tintes, como quem diz no actual largo dos Tor- 
neros. 

Cristóvam Rodrigues de Oliveira enumera entre as 
ruas da capital as do poço do Bor ratem e do poço do 
Ceitil (Santa Justa) a do /'oco da Foteia (S. Julião), a 
do Poço do Chão e o beco do Poço dos Namorados 
(S. Nicolau). Por trás de S. Domingos, Tinoco, em 
i65o, marca o Poço do Milagre., que era o do Rossio. 

No convento da Trindade, havia um velho poço a 
que se refere a pág. 358 do primeiro volume da Lis- 
boa, o mestre Júlio de Castilho. 

Na relação do Tratado da Majestade, Grandeia e 
Abastança não se mencionam, também, o chafari\ de 
Santos, construído ou reformado em 1498, o Poço do 



{i) As Muralhas da Ribeira de Lisboa, pág. 186. 
{2) Idan, págs. 39 a 40 e i36 a 157. 



— 328 — 

Chapu:^ que já em 1487 existia junto às portas de Santa 
Catarina (i), e os chafarizes de Arroios e de Andalu^, 
velhos mananciais alfacinhas. 



(i) O Arquivo da Misericórdia de Lisboa, na Exposição Olis- 
siponense de ir)i4, poi Vítor Ribeiro, pág. 55. 



CAPITULO XIV 



Sumário ; Um projecto quinhentista de condução de água — O 
poeta narrador de 1626 — Os chafarizes dos Cavalos e de El- 
-Rei e a Bica do Çapato — Os vendedores ambulantes no sé- 
culo XVI — Moiros, negros e galegos — O projecto imaginoso 
de Francisco de Olanda — Analisa-se o desenho da Fonte dos 
Elefantes — A sede em Lisboa em i5i6 — Procissões rogati- 
vas — Diligências para a condução da Água Livre no reinado 
de D. Sebastião — Lançamento de imposições sobre a carne 
e o vinho — A condução da água de Andaluz para o Rossio 

— Os preços da água em lõii — Propõe-se o Senado trazer 
a Lisboa a Agua Livre — As ideias do primeiro Filipe a este 
respeito — Exames e vistorias — O Roteiro da Água Livre 
de Pêro Nunes Tinoco — Medições até o Moinho de Vento 

— Outros exames — Curiosos desenhos de Tinoco — O por- 
tal da quinta dos Apóstolos, o Noviciado da Cotovia e os 
Fornos da Louça — Prosseguem as diligências da Câmara — 
Como o monarca intruso dificultava a obra, parecendo pa- 
trociná-la — Visita de El-Rei à Água-Livre — Continua o 
duelo entre a Câmara e o Soberano — O «papel» de Leonardo 
Turriano — Os quatro projectos do Aqueduto — Onde se fala 
no aqueduto romano e na fonte de Santo André — Ordena 
El-Rei uma nova vistoria — Continua o chafariz de El-Rei a 
dessedentar a cidade. 

Exactamente quando João Brandão estava relacio- 
nando os poços e chafarizes de Lisboa, projectava o 
Senado da Câmara trazer até as casas de Francisco 
Correia, em que já falamos, por meio de canos, a água 
do velho chafariz de El-Rei, e aí fazer dois chafarizes 
honrados, como êle dizia, para aproveitamento dos so- 
bejos que se desperdiçavam no Tejo. 

O projecto parece que englobava a ideia de levar 



— 33o — 

a água até Cata-que-farás, fazendo-se, por isso, tenção 
de proibir que as mulheres lavassem no tanque do cha- 
fariz, como até aí faziam. 

Este tanque foi depois mandado demolir por D, Ma- 
nuel. 

Tal obra só, porém, se veio a executar em 1640. 

Dela resultou o chamado Chafari:^ da Praia{\). 



De todos esses chafarizes e poços, se exceptuarmos 
os, já nossos conhecidos, de El-Rei, dos Cavalos e dos 
Paus, poucos ficariam dignos de tal nome. Uns eram 
particulares, outros escassíssimos da água que em ge- 
ral era péssima. A cidade sofria, ao mesmo tempo, a 
sede e os vendilhões de água, e a-pesar-de todos os elo- 
gios de Marinho de Azevedo, Mendes de Vasconcelos 
e outros clássicos, não se conformava a ver, de lábios 
sequiosos, os lindos carões das moças que se banha- 
vam com a do chafariz de El-Rei, ou a gordura dos 
cavalos que bebiam no chafariz de Dentro (2). 

Aquele historiógrafo. poeta que descreveu em verso 
as belezas da capital, em 1626, reza assim a propósito 
dos chafarizes : 

Do dos Cavalos, diz : 

Um chafariz mui fermoso 
de águas mui claras e belas 
adiante está, que sem falta 
leva excesso às da Beira. 



(j) Livro 1° do Provimento da Agua, fl. 42 a 45, no Arquivo 
da Câmara Municipal de Lisboa. 

(2; Marinho de Azevedo, no seu citado livro, dá curso à no- 
ticia de que a água do chafariz de Dentro engordava os cavalos 
que a bebiam (pág. 112). 



— 33i — 

É tão formosa, tão pu,ra, 
e de tanta proeminência 
que, por mais que ande no mar 
corrupção nunca entra n'ella. 

Da bica do Sapato, escreve : 

Logo a bica do Sapato 
se segue n'uma horta fresca, 
cujas cristalinas águas 
competem c'o'a Pimenteira. 

E do chafariz de El-Rei : 

Logo a mui pouca distância 
grandemente nos recreia 
um chafariz de El-Rei 
com tantas bocas abertas ; 

onde negros aguadeiros, 
tantos negros, tantas negras, 
galegos, cabras, ratinhos 
a quarta de água sustenta (i). 



Meado o século xvi, ainda a venda de água em Lis- 
boa era feita por alguns dos moiros da Lisboa prè-ma- 
rítima ; mas os vendilhões que predominavam e que 
por fim os substituíram completamente, eram os ne- 
gros e as negras, muito mais tarde depois substituídos, 
por sua vez, pelos cidadãos de Tuy. Ao açacal suce- 
deu o negro ; ao negro sucedeu o galego. 

Na linguagem popular ficaram os conhecidos pro- 



(i) Relação em que se trata e fa^ uma breve descrição dos 
arredores mais chegados à cidade de Lisboa, 1626. Autor anónimo. 



— 332 — 

lóquios trabalhar como um moiro ou como um negro 
e carregar como um gulego atestando a sucessiva in- 
fluência e passagem destas três raças de trabalhadores 
infatigáveis. 

Pela cidade, galgando as suas tortuosas e mal cal- 
çadas ruas, andavam mil negras vendendo a água ás 
quartas, gritando o seu pregão característico: — Agua 
.fria ! Agua fria ! 

Cinquenta mulheres brancas andavam também, mas 
só na Ribeira, com a mesma mercancia, e vinte açacais 
moiros e ainda cinco homens, conduzindo em carretas 
as quartas, e potes, completavam o número dos vende- 
dores ambulantes em i552(i). 

Cristóvão Roíz de Oliveira menciona no seu Su- 
mário das Noticias de Lisboa, escrevendo um ano an- 
tes (em i55i), sessenta e cinco ribeirinhos que anda- 
vam na venda da água. 



Um dos concorrentes à execução do projecto da con- 
dução da Água Livre para Lisboa foi — quem o diria! 
— esse elegante artista chamado Francisco de Olanda. 
O seu imaginoso projecto não seria talvez compreen- 
dido, e chocaria pela estranheza. O seu escrito Da Fá- 
brica que falece a cidade de Lisboa^ feito em iSyi, 
curioso sob muitos pontos de vista, ilustra-se com um 
capitulo intitulado Wágua Lii^re a que correspondem 
dois desenhos. Um e outros, vamos analisa-los pela 
edição do Archivo Espanol de Arte f Arqueologia de 



(i) Já citada Estatística manuscrita da Biblioteca Nacional, 
agora impressa com o título Tratado da Magestade, Abastança e 
Grandeza da Cidade de Lisboa. 



— 333 — 

1929, feita pelo Dr. Vergílio Correia, embora prepa- 
rada por Alberto Correia, como se diz no frontespício 
e se explica no prólogo. O original do singular traba- 
lho do iluminador quinhentista, esteve na Livraria do 
Conde do Redondo, onde o abade de Castro o viu(i) 
e está hoje na Biblioteca da Ajuda, onde Alberto Cor- 
reia o compulsou, copiou e fotografou (2). 

Francisco de Olanda depois de, na linguagem pito- 
resca da sua época, lamentar que Lisboa «oude todos 
bebé agoa não te maisqhú estreito chafari\para tanta 
gente, e outro para os cavalos», quando outras cidades, 
como Roma, Cartago, Mérida, Segóvia têm aquedutos 
de arcarias e grandes condutos de água ; depois de citar 
o aqueduto da Agua de Prata, feito por ael-rev vosso 
avô» (o escrito e' dirigido a D. Sebastião), aconselha o 
soberano a imitá-lo, trazendo a Lisboa a Agua Livre. 
E acrescenta «^ de duas légoas delia trouxerão os Ro- 
mãos a ella, por condutos debaxo da terra sotterra- 
nhos, furado inuytos montes e com muyto gasto e tra- 
balho, não sendo Lisboa sua, afora outras agoas q 
trouxerão a ella tambê muy de porposito como se quere 
e elles fa^ião as taes obras». 

Francisco de Olanda conheceu e viu, pois, o aque- 
duto romano e não só o aqueduto mas a obra de re- 
presa e captação feita em Belas, como se vê ainda do 
seguinte período : lE ali etre duas penedias asperis- 
simas de dois tnõtes fi:{eram híímuro larguissimo e forte, 
q lhe represava a agoa de hfi vale e hua lagoa ou es- 
tanque e q di{C que traiiaÕ por seu passatempo galé e 



(i) Vida de Francisco de Olanda, pelo Abade de Castro. 

(2) O ilustre investigador Dr. Joaquim de Vasconcelos já pu- 
blicara este trabalho no n.° 6 da Arqueologia Artística, mas sem 
a reprodução dos desenhos que o ilustram. Freire de Oliveira 
transcreveu-o a pág, 23 1 do volume x dos Elementos. 



— 334 — 

bateis, como se ve hoge e dia 7ia parede e sitio q era 
possiveh. 

No desenho vê-se realmente a represa, com o muro, 
e a lagoa onde navega um batel. Este pormenor é que 
deve ser filho da imaginação viva do iluminador. A 
direita avista-se também um castelo, e à esquerda e ao 
fundo as tais penedias ásperas. 

Francisco de Olanda acaba o capitulo, dizendo : aE 
ganhe l\ A. esta hôrra da fa\er este beneficio a Lfs- 
boa (ou lha faça fa:{er) de restituir esta fôte de Agoa 
Livre q assi se chama, a esta cidade q morre de sede, 
e não lhe dão agua. Da qual obra eu fii a el Rey 
vosso avó hil desegno q el Rej muito desejou fa^er antes 
de sua morte, e o infante dõ Lufs me dixe que dese- 
java tra^ersse esta agoa á Ribeira para a tomare as 
nãos da índia, siquer por hã dos elefantesi». 

Por este documento entrevemos o infante D. Luís, o 
conquistador de Túnis, interessado também na obra e 
tentado pela imaginação ardente do artista. Trazer-se 
a água ao Rossio e á Ribeira em fontes decoradas com 
elefantes devia de encantar D. Sebastião. 

A Lembrança da fonte dagoa livre traiida ao Ros- 
sio, corresponde um desenho que ocupa a parte média 
inferior de uma página. A fonte era constituída por 
quatro elefantes em pé, à volta de uma pilastra lavrada, 
que lançavam água, pelas trombas erguidas, em um 
espelho da fonte, quadrado, de cantos arredondados e 
salientes, bandado de pedraria lavrada. Sobre a pilas- 
tra vê-se a figura de Lisboa, tendo na cabeça a coroa 
mural e sobre esta uma urna que entorna água. Lis- 
boa segura nos braços o casco de uma nau, e sobre os 
seus ombros poisam dois corvos, um em cada, batendo 
as asas sob a água que cai da urna. 

A fonte para a Ribeira das Naus era mais simples : 
um espelho circular e, ao centro, sobre um pedestal, 



~ 335 — 

um elefante sustentando um palanquim com um cor- 
naca no dorso, e jorrando água pela tromba. 

Em Paris, no tempo de Napoleão, projectou-se uma 
ofonte do Elefante», no local da Bastilha, entre o Ar- 
senal e o Canal de S. Martinho. Os fundamentos fo- 
ram lançados em 1810. O elefante devia de ser de 
bronze, transportando o palanquim às costas, e o pe- 
destal de pedra. O seu modelo, feito de barro, existe 
ainda (ij. 

* 

Francisco de Olanda escreveu em 1571 : a . . . esta 
cidade q morre de sede-». Já em 1 5 16 se morria à mín- 
gua de água, e em Março, ainda, fora ainda do período 
da estiagem, faziam, em Lisboa, procissões rogativas 
os alfacinhas sequiosos. D. Manuel, em uma carta di- 
rigida ã Câmara a 24 desse mês, ordenava essas pro- 
cissões «HcTS quaes muyto devotadamente se peça a 
Nosso Senhor que queira dar agoa e niso se lembrar 
do seu povoD (2). 

* 

Durante o curto reinado de D. Sebastião íizeram-se 
algumas diligências para abastecer de água a capital 
sequiosa. 

Em Agosto de 1573 realizava-se a repetição de 
uma vistoria à fonte da Água Livre, e em 3 de Março 
de 1674 escrevia o monarca ao Senado da Câmara con- 
sultando-a sobre a maneira de obter capitais para tão 
larga empresa e inquirindo sobre a quantia que seria 
provável gastar-se. 



(1) Panorama, vol. v, págs. 401 a 402. 

(2) Elementos para a História do Município de Lisboa, tomo 1 
lág. 448 — Carta Régia de 24 de Março de i5i6. 



— 336 — 

Nicolau de FVias (de uma família de engenheiros e 
arquitectos notáveis) foi um dos que verificou a fonte 
da Água Livre, por ordem do Senado, interessadíssimo 
sempre em tão grande melhoramento. Achou um anel 
de água <ido tamanho de um circulo cujo diâmetro era 
a duodécima parte de um palmo de cinco em rarai>, 
medida esta aprovada, nesse tempo, como certa e infa- 
Uvel no dizer do próprio Nicolau de Frias. Tal certi- 
dão iraz a data de i588 (23 de Junho) e serviu como 
documento em um pleito entre os frades de S. Fran- 
cisco e os de Santo Eloi, do Porto (i). Nada, porém, 
se fez de positivo. 

* 

Era uso antiquíssimo o lançamento de impostos 
para a feitura de obras de utilidade citadina. Já D. De- 
nis o fizera para a construção de uma fonte em Lisboa, 
que bem podia ser o chafariz depois chamado da Praça 
e mais tarde de El-Rei, como o supõe o sr. Visconde 
de Castilho (2). Fortificada nesse exemplo e noutros, 
resolveu a Câmara lançar um real em cada arrátel de 
carne e dois em cada canada de vinho, para a condu- 
ção para a cidade da água do poço de João de Góis, 
nascente de magnífica água situada em uma proprie- 
dade riástica, à Bemposta. Foi isto em iSgy, já sob a 
dominação felipinna(3). 

(i) Elementos para a História do Município de Lisboa^ vol. 2.° 
págs. 418 a 419. 

(2) A Ribeira de Lisboa, pág. i63. 

(3) Houve outro projecto de trazer a água ao Rossio vinda 
do chafariz de Andaluz, nos primeiros anos do século, como se vê 
das cartas régias, à Câmara, datadas de i5io e de i5i5 e de uma 
escritura feita em 3 de Setembro de 024 entre a Câmara e o De- 
sembargador Fernão Martins e sua mulher Felipa Mendes, donos 
da quinta onde estava o poço de que se abastecia aquele chafariz 
(citados Elementos, vol. xvii, pág. 25o a 253 e vol. 11, pág. 417). 



- 337 - 

O dinheiro que sobejasse da imposição seria desti- 
nado, consoante a letra do alvará de 4 de Novembro 
de 1589, ao pagamento dos danos feitos nas terras por 
onde passasse a água e a um depósito, à ordem do 
presidente e oficiais da Câmara, para outras despesas 
de utilidade pijblica(i). 

Tomou a fonte, o Senado, para trazer a água ao 
Rossio, sem fazer ajuste prévio com o dono, tendo como 
fundamento a avaliação, feita em 28 de Outubro de 
1590, a qual fora de um conto de réis. Trouxe-lhe essa 
imprevidência graves demandas e litígios, movidos pe- 
los herdeiros do primeiro dono, as quais só se resol- 
veram por alvará de 2 de Maio de 1597, alvará que 
obrigou os herdeiros a vender o foro ao Senado por 
2o8íí!Ooo réis. 

Findo o litígio, começou-se a obra, que andava po- 
sitivamente enguiçada, pois o pedreiro que a dirigia 
cometeu tais erros, que teve de se desmanchar tudo e 
fazer-se de novo, à custa dele (2). 

Mais tarde, ainda a ágoa de João de Góis foi mo- 
tivo de questões que vieram a derimir-se no Limoeiro. 

Foi o caso que começando ela a correr fracamente no 
chafariz e investigando-se a causa de tal diminuição, se 
veio a apurar que António de Foios Pereira, sobrinho 
do Secretário de Estado Mendo de Foios Pereira, que 
morava defronte da igreja do Socorro, a distraía do seu 
natural curso, para a aproveitar na rega de um jardim 
que possuía. 

Identicamente se descobriu que os cónegos Estêvão 
e Francisco de Barros amanhavam uma horta com a 
mesma água. Resultado : os cónegos foram repreen- 



(i)- Citados Elementos, tomo 2.°, pág. 63. 
(2) Foi a isso obrigado por sentença de 9 de Março de 1606 
do Juiz Conservador da Câmara, Dr. Jorge Pinto de Mesquita. 
VoL. IV 22 



— 338 — 

didos e o sobrinho do Sccretiírio de Pastado para a en- 
xovia (i). 

Este chafariz foi demolido em 9 de Julho de 1786, 
ficando a água que o abastecia a correr na rua de S. Vi- 
cente. Em i836 mudou-se daqui para a Carreirinha do 
Socorro, demoh"ndo-se o arco que lá havia, por onde 
ia a água para o Rossio (2). 



O ano de 1698 fornece-nos alguns dados para este 
assunto. Senão, vejamos : 

Escasseava também a água do chafariz de El-Rei, 
distraída por diversos particulares, com quem a Câ- 
mara teve de sustentar demandas e quesilentas questões. 
Era um nunca acabar de razões pró e contra. Já em 
1541 tinha havido um litígio com os herdeiros de Lopo 
de Albuquerque. Desta vez o litigante era um certo 
Luís de Carvalho, possuidor de umas casas, com poço, 
pegadas ao chafariz. 

Para contrabalançar esses roubos que lhe eram fei- 
tos, tomou o Senado posse do poço das casas de um 
Francisco de Sousa de Meneses e encanou-lhe a água 
para o chafariz (3). 

* 

O preço da água era excessivo então, e tão explo- 
rado estava sendo o povo pela ganância dos vendilhões 

(1) Resolução de 2 5 de Novembro de 1707. 

(2) Citados Elementos^ tomo 2.", págs. 83 a 84. No fim do 
século XVI morava no Rossio, numas casas sobre o chafariz, mes- 
tre André de Rezende, onde dava lições ao Infante D. Duarte [Ar- 
quivo Histórico, pág. 827 - Vida do Mestre André de Resende). 

(3) Estes Sousas Meneses eram antepassados dos Duques da 
Terceira. A casa é aquela onde nasceu e morreu o Duque-Mare- 
chal {A Ribeira de Lisboa, pág. 171). 



- 339 - 

que o Senado viu-se obrigado, em iGii, a publicar 
uma postura reguladora de preços deste e de outros 
géneros. 

Com referência a água foram estas as determina- 
ções : 

«Um pote de agoa do chafariz de El-Rey, da me- 
dida, da cidade, na freguezia da Sé, Magdalena, S. Ni- 
colau, Rua Nova, S. João da Praça, valerá 6 réis; 

«E sendo cargas de agoa, da maneira que se agora 
costuma, nas mesmas freguezias, 16 réis, sendo do 
chafariz de El Rey ou dos Cavalos de Alfama. 

«Na freguesia de S. Martinho, S. Mamede, Santa 
Justa, S. Christovam, Poço do Chão, Rocio, até á cal- 
çada de Payo de Nabaes, valerá o pote de agoa pela 
maneira sobredita, da marca da cidade ; e sendo nestes 
limites valerá a carga de 4 quartas 20 reis, e sendo 
fora dos muros valerá o dito pote de agoa i5 reis, e 
sendo nestes limites valerá a carga de agoa de 4 quartas 
20 reis» (i). 

* 

Durante o período da reunião das coroas de Portugal 
e de Castela trabalhou afincadamente o Senado em pro- 
ver a necessidade que a falta de água trazia à capital. 
Foi homérico o seu trabalho e, se não logrou o êxito 
que merecia, foi porque os Filipes, sob uma aparente 
boa vontade e um falso interesse, apenas patrocinavam 
os preparativos monetários com o fim ijnico de os dis- 
trair na devida ocasião. O que os monarcas caste- 
lhanos queriam era que se entesoirassem capitais para 
a obra, fazendo ouvidos de mercador quando o Senado, 
com habilidade despremiada, lhe exigia garantias para 
a futura e exclusiva aplicação desse dinheiro. 



(1) Citados Elementos, tomo x, pág. 222. 



— 340 — 

o leitor verá, na sequência das diligências que vou 
enumerar, a verdade destas considerações. 



Começam no mesmo ano de 1618 as providências 
sobre o assunto. 

A primeira de que tenho notícia é uma caria regia 
de i3 de Fevereiro em que o soberano intruso declara 
aceitar a pretenção do Município com referência à im- 
posição do Real de Água. Kncontro nesse documento 
uma cláusula curiosa, e e' ela, que teria primacia sobre 
a obra da água livre a obra a fazer no retábulo da 
capela do Mártir S. Vicente ; isto e', depois de se re- 
parar (ou estragar!) o retábulo, é que se trataria da 
condução da água(i). 

Por várias vezes, nesse mesmo ano, se vistorizou a 
fonte de Garenque. Em 3 de Setembro, por exemplo, 
foi lá o Presidente do Senado, João Furtado de Men- 
donça, acompanhado por engenheiros arquitectos e ou- 
tros indivíduos competentes. Depois de maduro e mi- 
nucioso exame, resolveu a Vereação, no assento de 1 1 
do mesmo mês, que se trouxesse a água provisoria- 
mente, por canos de madeira, os quais já ficariam ser- 
vindo de modelo para obra de pedra e cal, lançando-se 
para este fim um real na carne e dois no vinho, como 
já ficara determinado de antemão. Tornava-se mister 
apressar a obra, ajuntar materiais e dinheiro e, como a 
imposição não chegasse talvez para tudo, pediu-se per- 
missão a El-Rei para a Câmara poder vender alguns 
juros e para que se pudessem fazer sumariamente as 



(i) Citados Elementos, tomo n, pág. 410. 



— 341 — 

avaliações dos terrenos a expropriar. Tudo isto se im- 
petrou em consulta de 16 de Setembro (i). 

O Viso-Rei Marquês de Alenquer foi tambe'm, por 
duas vezes, visitar a fonte da Agua Livre (2). 



A 25 de Setembro fêz-se novo exame. A êle foram 
o Presidente da Câmara ; os Drs. João de Frias Sala- 
zar e Gil Eanes da Silveira, vereadores; Pedro Borges, 
Procurador da Câmara ; Pedro Alvares e Francisco da 
Veiga, Procuradores dos Mesteres; João de Sousa Pe- 
reira, vereador das obras da cidade, e Rodrigo Ho- 
mem, escrivão das ditas obras. 

Já então estavam abertos os cavoucos novos. 

Além dos funcionários da Câmara estiveram tam- 
be'm presentes : João Baptista Lavanha, cosmógrafo e 
cronista-mór ; Leonardo Turriano, engenheiro-mór ; 
Teodósio de Frias, Luís de Frias e Pêro Nunes Ti- 
noco, arquitectos; Miguel Francisco e Manuel Coresma, 
medidores ; José Francisco e Domingos Roiz, pedreiros 
e carpinteiros; e Cristóvão Baltazar, latoeiro(3). 



(i) As avaliações, conforme os desejos do Senado, deveriam 
ser feitas por um louvado, um síndico da Câmara e um terceiro 
para desempate. Para a obra se fazer sem maiores dificuldades 
pedia-se outrossim para se guardar e acatar o Regimento dos ca- 
nos da prata, em Évora (vol. 2." da citada obra, págs. 421 a 423)- 

(2) Elementos para a História do Município de Lisboa, tomo 11, 
pág. 423. 

(3) Em 1G18, em Lisboa, foi impresso por Jorge Rodrigues, 
um folheto intitulado: Declaração sobre a matéria da água para 
esta cidade de Lisboa por servir Sua Magestade a quem promete 
outros maiores em serviço de Deus e seu, e do bem comum das 
Republicas do Mundo. O autor era Baltazar de Sousa de Alber- 
garia, e a obra era dedicada ao Vicc-Kei Marquês de Alenquer. 

Inocêncio diz nunca ter visto qualquer exemplar. 



— 042 — 

F^oi Pêro Nunes Tinoco, o arquitecto, quem fêz o 
roteiro e a medição de todo o projectado aqueduto, 
concluindo-a em 2 de Outubro desse ano(i). 

Desse roteiro que se conserva manuscrito na Biblio- 
teca Nacional, extrairei algumas curiosíssimas notas (2). 



Diz Tinoco, que em todo o percurso se não atraves- 
savam fazendas, nem pomares, nem vinhas, nem ca- 
sas. Toda a obra se fazia por terrenos lavradios até 
os Moinhos de Vento, sítio que se destinava para a 
Mãi de Agua e de onde se haviam de repartir as águas 
para as fontes que se construíssem na cidade. Além 
do mais, traria enorme vantagem o facto de se apro- 
veitar a pedra que havia, solta e a monte, em todo o 
caminho, não só para a obra como para os proprietá- 
rios que nisso recebiam grande benefício tornando-lhes 
aptos para cultura muitos dos terrenos obstruídos por 
ela (3). 

Depois de várias considerações sobre tal matéria, 
segue-se, no manuscrito aludido, a medição do aque- 
duto, compreendendo noventa e cinco medições par- 



(i) Pêro Nunes Tinoco morava então na rua do Carvalho ao 
Bairro Alto. Ali faleceu, em 20 de Março de 161 8, sua mulher 
Maria Ribeira (Livro dos Óbitos da Freguesia de Santa Catarina). 

(2) Idem, pág. 64 e segts. 

(3) Roteiro da Agua Livre e Agua de Montemor e mais fon- 
tes junto a elas, por Pêro Nunes Tinoco, arquitecto de Sua Ma- 
jestade, em 29 de Setembro de i6ig; — e à margem, ao lado: 
Dedicado ao ilustre Senado da Câmara por João Nunes Tinoco, 
arquitecto de Sua Alteza, filho do arquitecto Pêro Nunes Tinoco 
que fez o á\lo Roteiro — Ano de iG;i. Manuscrito B.-5-22 da Co- 
leção l'ombalina. Parece manuscrito para a imprensa. 



- 343 - 

ciais deste a Agua Livre até á conserva da água, no 
Moinho de Vento. 

Interessa-nos especialmente a parte final do aponta- 
mento, isto é, as últimas cinco medições que se refe- 
rem à parte do aqueduto, que atravessava a cidade. 

Vou transcrevê-las : 

90.^ — ... E da dita estaca até o cunhal das casas que 
ficam defronte de S. João dos Bemcasados, 
aonde está uma cruz (sicj, tem de comprido 
até a estaca que fica posta ao valado, ao pé 
de uma oliveira 1:043 palmos e tem de cor- 
renteza 3 palmos e 7 dedos; 

91.^ — ... e do cunhal das casas que tem a cruz, junto 
a S. João dos Bemcasados, indo-se continuando 
até o muro dos Padres da Companhia, donde 
se divide em trez caminhos, um para o Moi- 
nho de Vento, outro para a Anunciada, outro 
para São Bento e Alcântara, tem de compri- 
mento 2:770 palmos e em todo elle hade ir o 
aqueduto somente no vale em baixo, etc. ; 

92.^ — E deste logar donde se dividem os caminhos 
ditos hade ir continuamente pelo vallado do 
olival que fica da parte do sul junto á quinta 
e cerca de Francisco Soares e hade ir conti- 
nuando pela sua cerca até o canto das suas 
casas, que tem de comprido até os marcos 
fixes que foram postos na calçada, 1:341 pal- 
mos ; 

93.* — E do dito cunhal de Francisco Soares indo con- 
tinuando o aqueduto pelo longo da estrada 
pelo vallado de terra que fica defronte do edi- 



— 344 — 

ficio dos padres da Companhia, até o cunhal 
da cerca de Gil Eanes lem de comprimento 
2:o3o pahnos e se lhe deu de correnteza do 
muro dos padres da Companhia donde se di- 
vide a estrada até o dito cunhal, 21 palmos; 

94.* — E do dito cunhal indo como carro pelo meio 
da rua até ás casas do Presado á coiceira da 
sua porta, tem de comprido 698 palmos e tem 
de correnteza a que o dito aqueduto traz até 
o dito logar ; 

9^.* — E das casas do Prezado até as casas onde se 
hade fazer a conserva ou casa da agoa, con- 
forme se mostra no perfil assinalado com a 
lettra O, tem de comprido S70 palmos, a qual 
terra a rodeia quatro ruas e fica livre para 
todas as partes e não se mostra na planta (1). 



No mesmo manuscrito encontram-se ainda notícias 
e relações de outros trabalhos da mesma natureza. 
Entre elas aponto as seguintes : 

Observação da quantidade de água, feita na fonte da 
agoa livre, por Theodosio de Parias, cm 4 de Agosto 
de 1618 com assistência do Dr. João de Farias Sala- 
zar, vereador do pelouro das obras. Esta diligen- 
cia fez-se por instrução do Viso-Rei iVIarquês de Alen- 
quer (2); 



(i) Citado manuscrito da Coloção Pombalina da Biblioteca 
Nacional — B.Ó-22, págs. 77 a ■]<). 
(2) Idem, pág. 109. 



— 345 — 

Diligência e desenho do caminho de condução da água 
de FanhÕes até Lisboa, do lugar onde se deveria 
encontrar com a da Agua Livre ; 

Relação dos anéis de água encontrados nas diferentes 
fontes observadas, para juntar à de Carenque ; 

Orçamentos diversos ; 

E, principalmente, um outro Roteiro em que avulta 
como mais interessante uma se'rie de desenhos à pena, 
devidos certamente a Tinoco, servindo de elucidação 
à marcação das cotas de nível no percurso do aque- 
duto. E datado de 1625. 

Esses desenhos, feitos em meia dúzia de traços, 
simples esboços imperfeitos, são contudo excelentes 
como documentação local. A fachada principal do edi- 
fício do Noviciado da Cotovia, a-pesar-da imperfeição 
evidente do desenho, dá, confrontada com estampas 
posteriores, uma garantia segura da fidelidade dos ou- 
tros esboços. 

Um deles, representando um portal a que o texto 
se refere, vem a denunciar-nos a existência de tal aber- 
tura ornamental no muro da quinta do Noviciado. No 
texto, entremeado, chama-se-lhe quinta dos Apóstolos. 

Esse portal ficava exactamente no sítio onde hoje 
está o Chafariz do Rato, no ângulo dos jardins do Pa- 
lácio Palmela (i). 

No primeiro volume desta obra reproduzem-se os 
dois desenhos. Os pontos de referência das medições 
são quási os mesmos do primeiro roteiro: S. João dos 
Bemcasados, muro da quinta dos Apóstolos, casas e 
quinta de André Soares (da Cotovia), cunhal de D. Gil 



(1) Ignoro em que data foi demolido o portão monumental 
da quinta dos Jesuítas. Ao principiar o século xviii já, porém, não 
existia. 



— 34*5 — 

Eanes e casas de Gonçalo Vaz Coutinho, Junto a S. Pe- 
dro de Alcântara. 

Quási ao fim do caminho projectado, passado o 
cunhal de Gil Eanes, isto é, na rua de D, Pedro V, 
vê-se o barracão vasto dos fornos de louça, também já 
reproduzido nesta obra. 



D. Filipe II atendeu em parte às pretenções da Câ- 
mara, mas como não queria o assunto resolvido rapi- 
damente, mandou fazer averiguações mais claras acerca 
da quantidade de água e da despesa a fazer com a obra, 
conferindo-se os novos exames com os que já tinham 
sido feitos ultimamente e com os que se fizeram em 
tempo do Arquiduque Alberto, sendo Presidente da Câ- 
mara D. Pedro de Almeida. Com referência ao pedido 
da venda dos juros, consentiu nela e indicou para pro- 
ceder às novas vistorias o seu muito afeiçoado Lava- 
nha(i). 

Propôs-se a Câmara a fazer o que El-Rei lhe orde- 
nara lançando pregão para a venda da imposição do 
real da carne e dos dois reais no vinho, quando o Viso- 
-Rei Marquês de Alenquer se m.anifestou contra o pre- 
gão. 

A razão apresentada pelo Viso-Rei era a repugnância 
com que o povo recebera o imposto. Embaraçada a 
Câmara com mais esta demora, escreveu ao Marquês 
pedindo-lhe que mais não tolhesse o assunto e escre- 
vesse a El-Rei, para que o povo não tomasse por des- 
cuido da sua parte a dilacção da obra (2). 



(1) Elementos para a História do Município da Cidade de 
Lisboa, tomo 11, ppg^. 424 a 42o. 

(2) Idem, pág. 434. 



— 347 — 

A carta da Câmara, datada de 29 de Fevereiro de 
1619, ficou sem resposta. Depois meteu-se de permeio 
a viagem triunfal do monarca castelhano, e o povo, os 
ministros e a própria Câmara não pensaram mais senão 
nas festas a fazer á chegada do usurpador. 

Em vez de medições e vistorias nas fontes, faziam-se 
consuhas nos regimentos antigos das recepções festi- 
vas ; e a cidade, embora morresse à sede de água, gas- 
tava rios de dinheiro em arcos triunfais, iluminações, 
bailes e colgaduras, bandeiras e insígnias ! 

Sempre o mesmo, o nosso Ze Povinho! Miserável 
mas ridente! Faminto, mas folião; e mais propenso 
a estoirar de riso do que a rebentar de fome ! 



Durante a sua estada em Lisboa, foi D. Filipe ver 
a fonte da Agua Livre no dia 17 de Setembro de 1619. 
Devia essa deferência ao Senado, la para Sintra e 
aproveitou apear-se a meio do caminho com o seu in- 
separável Lavanha. Mostrou-lhe este a nascente, elu- 
cidou-o quanto à quantidade da água e, por simples 
formalismo oficial, fêz-se uma medição na presença de 
El-Rei. Conta-o êle mesmo na sua conhecida descri- 
ção da viagem régia. 



Passados os festejos, e sobre eles boa porção de 
tempo, entendeu a Câmara fazer novamente lembrada 
a obra da condução da água. Serviu de pretexto o 
facto do engenheiro Turriano ter ido mostrar a El-Rei, 
como seu, um projecto em que também tinham colo- 
borado Lavanha e outros. Escreveu por isso a Câmara 



— 348 — 

prevenindo o soberano da manha de Turriano, em 23 
de Julho de 1620(1), e logo, datada de 28, recebeu carta 
de D. Felipe rogando-lhe tratasse de obter o dinheiro 
indispensável para a construção do aqueduto. Este 
ponto é que interessava particularmente o soberano. 

Exultou a Câmara, e escreveu Jubilosa para Madrid 
noticiando quem ia, sem demora, tratar do assunto com 
o Marquês de Alenquer. 



Em 3 de Setembro reuniram-se os vereadores e de- 
liberam que, para se levar a obra a efeito, conforme os 
desejos de El-Rei, era necessário o seguinte : 

i." — Que se lhe desse jurisdição para avaliar as ex- 
propriações sumariamente, pagando-se tudo 
pelo seu justo valor, sem isenção de espécie 
alguma para as pessoas eclesiásticas ou ordens 
mendicantes ; 

2." — Que se não pudesse distrair para outros fins o 
dinheiro da imposição, fazendo-se tudo con- 
forme o regimento da água de Prata, em Évora ; 

3.° — Que se pudessem vender juros, sobre as rendas 
a pagar da mesma imposição, de 16 a 20 o mi- 
lhar, e se pudesse tomar de empréstimo o di- 
nheiro que fosse necessário na melhor oca- 
sião (2). 

Assentou a Câmara nisto e mandou-o dizer a El- 
-Rei, acompanhando a carta de vários documentos ten- 



(1) Citados Elementos, tomo 11, págs. 363 a 5G4. 
(3) Idem, pág. 566 e 567, 



— ^49 — 

dentes a demonstrar quão grande perigo haveria em 
dar-se começo ao aqueduto sem as provisões que so- 
licitava (i). 

Andavam avisadamente os vereadores, pondo-se a 
salvo da ganância do monarca, que na primeira ocasião 
mandaria distrair o dinheiro da imposição, e precaven- 
do-se contra os litígios, reclamações e excomunhões, 
dos desembargadores, eclesiásticos, frades, cavaleiros 
de Malta e mais indivíduos privilegiados (2). 

D. Felipe, que só especulava com a grande neces- 
sidade de que sofria a capital, fez ouvidos de merca- 
dor às solicitações do Senado, e, a 17 do mesmo mês, 
mandou, pela segunda vez, lançar o pregão da obra, 
sem mais explicações. 

Não estiveram os vereadores pelos ajustes e bem o 
fizeram sentir em outra carta dirigida a El-Rei em 
24 (3). 

Chegada o mês de Setembro, a 22, surge nova mis- 
siva régia martelando na necessidade de haver dinheiro 
junto para tão grande obra — imporlava-se êle bem com 
a obra ! — e mandando fazer nova vistoria poi^ pessoas 
inteligentes para ver se a água diminuía no verão (4). 

Finalmente, a 6 de Outubro, aparece ainda outra 
carta enviando conjuntamente um papel de Leonardo 
Turriano, para a Câmara o ver e analisar, enviando- 
-Ihe depois o seu parecer acerca do traçado escolhido, 
dos três que o engenheiro apresentava. Fala também 
na necessidade de se examinar certa nascente, perto 
de Sintra, de que Turriano lhe falara. Acerca das pro- 
visões pedidas, nem uma palavra (5). 



(i) Citados Elementos^ tomo 11, págs. 568 a 570. 

(2) Carta de 4 de Setembro de 1620. 

(3) Citados Elementos^ tomo x, pág. 572. 

(4) Idem, pág. 573. 

(5) Idem^ pág. 574. 



35o 



O papel de Leonardo Turriano é muitíssimo inte- 
ressante e merece ser transcrito. Eis o que diz o en- 
genheiro (i) ; 

«Senhor! Leonardo Turriano diz que para condu- 
zir a Agoa Livre a esta cidade e a diferentes partes 
delia juntamente com as mais que se lhe agregam, ha 
quatro caminhos e pareceres, os quaes começam cerca 
da estrada de Bemfica, como se ve na planta. 

«O primeiro colorido de amarello, com as letras 
DD, atravessa treze vales e cinco minas, com o com- 
primento de quatro léguas e meia ; custará um milhão 
e tirando-ihe os sobre-arcos do valle de Noudel e de 
Alcântara, passando a agoa por repuxos, custará sete 
centos mil cruzados. 

«O segundo caminho e projecto, colorido de casta- 
nho, com as letras BB, vai mais baixo do que o pri- 
meiro até Sete-Rios, passando só três vales, um grande 
e dois pequenos ; vai por Palhavã, entrando na mina 
cem palmos abaixo de S. Sebastião da Pedreira, e 
atravessando as terras de Campolide e Cotovia, acaba 
na esquina de S. Roque á superfície da teira, á dis- 
tancia de quatro léguas e três quartos : custará quatro- 
centos mil cruzados. 

«O terceiro caminho da estrada de Bemfica, colo- 
rido de azul com as lettras CC, vai sempre continuando 
pela superfície da dita estrada até Sete-Rios e de ali 
se levanta sobre arcos de 3o palmos, na mesma es- 
trada em Palhavã, até entrar na mina de S. Sebastião 
da Pedreira, seguindo o caminho do segundo projecto, 



(i) Este documento está escrito em castelhano. Dou-o ao 
leitor traduzido para maior simplicidade de leitura. 



— JDl — 

até chegar a S. Roque, á distancia de quatro léguas 
pouco mais ; custará cento e cincoenta mil cruzados 
por cano pequeno e por cano grande outro tanto. 

«Todos estes trez caminhos, por irem mui baixos, 
não podem dar agoa senão até S. Roque e não a ou- 
tra parte da cidade. 

«O quarto e ultimo caminho é pelo aqiieducio antigo 
dos romanos, o qual por vir mais alto dez palmos que 
o da estrada, pode dar agoa a ambas as portas da ci- 
dade, a S. Roque e sobre a porta de Sa)ito André, como 
deu antigamente, pois terá quantidade bastante para 
ellas(i). 

«Este caminho não é tão bem recebido como o da 
estrada, pois atravessa muitas quintas principaes e de 
pessoas poderosas, podendo-se presumir que se apro- 
veitarão desta agoa e que sempre haverá pleitos e pe- 
sadellos por causa d'ella ; e para evitar este inconve- 
niente parece que levantando dez palmos mais os arcos 
de Palhavã, sobre os trinta (como ficou dito) se conse- 
gue o mesmo fim ; comtudo para evitar despezas de 
arcos e de tempo e algumas dificuldades que pode cau- 
sar a estreiteza da mesma estrada em alguns pontos 
parecem menores os inconvenientes do cano velho, por 
ir alto sem mais nenhum arco que os da estrada ainda 
que passe por fazendas alheias. D'estes últimos pare- 
ceres por serem os melhores V. M. deve escolher o 
que melhor parecer e juntamente qual dos dois canos, 
se o pequeno, se o grande em que pode andar uma 
pessoa por cima d'elle, pela muita diferença de des- 
peza. Em Madrid em 26 de Setembro de 1620» (2). 



(() O citado manuscrito B.-5-22 (onde se inclui o Roteiro da 
Agua Livre) dá -nos informação de que Pêro Nunes Tinoco tam- 
bém vira o Aqueduto e que até pensara em o aproveitar. 

(2) Citados Elementos, tomo 11, pág. 574. 



— 352 — 

É de crer que o Senado não tomasse resolução al- 
guma com referência aos projectos de Turriano (em 
que Lavanha também coloborara) sem que lhe desse 
satisfação aos seus instantes pedidos. 

D. F^elipe ainda chegou a escrever outra carta (em 
20 de Outubro) ordenando nova vistoria, mas agora 
cabia a vez à Câmara de fazer ouvidos de mercador. 

A cidade ainda tinha muito que padecer e voltava 
as suas vistas compadecidas para o chafariz de El-Rei, 
que se estafava em matar-lhe a sede desde o século xiii. 

Abençoado chafariz! 



CAPITULO XV 



Sumário : Condução da água de Cheias — Compra-a o Senado — 
Litígio entre a Câmara e os herdeiros do vendedor — Con- 
dução da água ao Terreiro do Paço — Preços da água no sé- 
culo XVII — Desordens nos chafarizes — A fonte do Salgado — 
É destraída a água das fontes públicas da Horta-Navia, Anjos 
e Samaritana —Demandas enfadonhas — A bica dos Olhos de 
Água — Os banhos do cirurgião Guilherme e o Enviado de 
Inglaterra — Apresenta um projecto para levar a água ao 
Bairro Alto, um António de Miranda — Malogro da primeira 
experiência — O projecto de Teófilo Dupineaul — Sua demo- 
rada análise — O parecer do Síndico e dos Procuradores da Câ- 
mara — Onde se mostra por que tal projecto não foi avante 
— Turva-se a água do Chafariz de El-Rei — Dcscobrem-se-lhe 
duas novas nascentes — Seca o chafariz do Rocio — Um ve- 
dor de águas, Visiense, em Lisboa — Entaipa-se a porta da 
ermida da Água-Livre — A fraude das quartas de barro — 
Postura municipal — Desavêemse os oleiros e os aguadeiros — 
\0 projecto de António Júlio de La Pomarée — A sede de Lis- 
boa ! — Aproxima-se a obra — Repartem-se por Cláudio Gor- 
gel e por D. João V os elogios devidos aos propugnadores e 
iniciadores da obra das Águas Livres — Opinião dos vereado- 
res e procuradores acerca do tributo a lançar-se — Orçamen- 
tos e cálculos. 



Chegado o ano de i623, Pêro Nunes Tinoco e Teo- 
dósio de Frias, respectivamente, arquitectos de El-Rei 
e do Senado, foram com o medidor Manuel Quaresma, 
com o mestre das obras da cidade Miguel de Oliveira 
e com o latoeiro Cristóvan^ Paltasar, fazer as medi- 

VOL. IV 33 



— 354 — 

ções de uma nascente, junto às casas e horta do Dr. Pe- 
dro Barbosa, no lugar de Cheias (i). 

A-pesar-de fazerem a observação no tempo de maior 
seca (em 26 de Julho) encontraram nove anéis de água 
e probabilidades de aumento aié trese desde, o mo- 
mento em que se fizesse uma ligeira obra que deixaram 
mencionada na relaça'o manuscrita a que me cinjo. Em 
sua opinião, era da máxima conveniência o aproveita- 
mento da nascente, cuja água se poderia trazer ao Ter- 
reiro do Paço sem prejuízo da obra da Agua Livre que 
ficaria reservada ao abastecimento do Bairro Alto (2). 

Oito anos depois, reflectindo maduramente em tal 
matéria, resolveu a Câmara adquirir a nascente por- 
quanto a falta de água se tornava cada vez mais sen- 
sível. Com essa água se poderiam abastecer os projec- 
tados chafarizes do Terreiro do Paço, Pelourinho Ve- 
lho e S. Paulo deixando a água de Belas para desse- 
dentar o Bairro-Alto de S. Roque, conforme a opinião 
dos peritos (3). 

Pertencia enfão a nascente a Diogo Soares, Secre- 
tário do Conselho de Estado em Madrid, por lh'a ter 
trazido, em dote, sua mulher D. Mariana de Sá, filha 
do Dr. Pedro Barbosa. Diogo Soares era cunhado do 
tristemente célebre Miguel de Vasconcelos, e daí pro- 
vinha a sua maior importância e fazenda (4). 

No assento da Vereação de 27 de Março de i633, 
resolveu-se fazer a compra da água por 12.000 cruzados 



(i) Este Pedro Barbosa fora Corregedor da Corte e Desem- 
bargador da Casa da Suplicação. 

(2) Citado manuscrito da Colecção Pombalina B-5-22, pá. 77 
a 79 — Notícia incluída no Roteiro da Agua Livre. 

(3) Assento da Vereação de 8 de Janeiro de i633. Citados 
Eletnentos. 

(4) Citados Elementos, tomo ui, pág. 55 1, 



— 355 — 

ou fossem 240íÇ)Ooo réis de Juro assentes no Real de 
Água, com a condição de se dar passagem ao aque- 
duto pela quinta e terras dos vendedores, sem outro 
prémio., Por seu turno a Câmara reservaria 3.ooo cru- 
zados anuais para a obra, sendo metade por conta da 
Fazenda da cidade e outra metade pelo Real de Agua(i). 

Parecia o negócio de mão cheia. O cónego Pedro 
Barbosa de Sá, cunhado de Diogo Soares, assoprado 
naturalmente por Miguel de Vasconcelos, não largava 
o assunto que era do máximo interesse para o seu cons- 
tituinte, e a transacção fêz-se em 14 de Abril, sendo teste- 
munha da escritura, por parte do Senado, o Dr. Diogo 
da Cunha. 

A Cai'ta Régia de i5 de Junho de i633 aprovou e 
confirmou a compra, dispensando ao mesmo tempo a 
Câmara do pagamento da sisa de 2405Í000 réis (2). 
Isso não a impediu de solicitar, mês e meio depois, a 
3o de Agosto, permissão para vender juros até 12.000 
cruzados, para pagamento integral a Diogo Soares. A 
liquidação fêz-se pouco depois. 

Quarenta anos mais tarde é que o Senado da Câ- 
mara percebeu que tinha sido ludibriado em toda a 
linha. A água não valia nem a décima parte do preço 
que tinham dado por ela, e ainda por cima era impos- 
sível levá-la aos pontos onde se tencionavam construir os 
chafarizes de que já fiz menção. Descoberta a fraude, 
deu-se o litígio entre a Câmara e os herdeiros de Diogo 
Soares. 

Em 1682 vejo uma consulta a El-Rei rogando-lhe 
a resolução do pleito que se eternizava nos tribunais 
por influências dos contrários, no dizer dos vereadores. 
A Câmara julgava-se com direito a uma indemnização; 



(i) Citados Elementos, pág. 553. 
(2) Idem^ pág. 5yO. 



— 356 — 

alegavam os herdeiros de Diogo Soares que tudo s'e 
tinha feito legalmente (i). 

Resultado : A Câmara ficou sem o dinheiro e a ci- 
dade continuou sem água. 

João Baptista Domingues — biógrafo do infante D.Teo- 
dósio — atribui a este prin:ipe, na sua conhecida obra, 
a intenção de trazer a Lisboa a água de Belas. E re- 
mata a notícia, dizendo: 

Queira Deus que^ como vemos quasi completo este 
intento deste grande principe, vejamos satisfeitos, in- 
teiramente os mais. Domingues escreveu já no sé- 
culo XVIII quando a obra da Agua Livre estava a fa- 
zer-se (2). 



Voltemos um pouco atrás. 

Em i636, reunidos os Vereadores, em 21 de Ja- 
neiro, assentaram em fazer mealheiro dos sobejos do 
Real de Água, para todas as obras que se relacionas- 
sem com o abastecimento de água da cidade. O tesou- 
reiro Agostinho Franco ficaria encarregado da arreca- 
dação dessas sobras que eram preciosas (3), mas só 
em i655 é que vejo nota de se terem utilizado. Sai- 
bamos como. 

Vinha de longe o enipenho de trazer a água ali ao 
pé do Paço Real, no chamado Terreiro do Paço. Apa- 
receu um dia um tal Bartolomeu de Sousa que se pro- 
pôs realizar esse antigo desejo, e a Câmara prometeu-Ihe 
5ooííí)00o réis de prémio e um ofício lucrativo se tal 



(i) Chdi Aos Elementos, tomo vi.i, págs. 453-454 -^ Co«5m//íi 
de II de Setembro de 1682. ^ 

(2) Idcm^ pág. 11 1. 

(3) Idem^ tônip iv, pág. 172. 



— 357 — 

conseguisse. Não sei oomo nem quando a obra se fez, 
mas o facto é que o assento da Vereação de 23 de Ja- 
neiro de i655, consigna o cumprimento da promessa 
o que dá a entender que ele conseguira pôr a água a 
correr naquele local. Deram-lhe os 5oo.'33!5000 réis e o 
ofício ficou para quando houvesse lugar (i). 

Não foi a obra muito durável. Em 1672 por esta- 
rem os canos todos rotos, parou a água de correr. 
Teve a Câmara de mandar consertá-los à sua custa. 
Participando a D. Pedro II a conclusão da obra, pe- 
de-lhe que ordene o pagamento dessa despesa à Fa- 
zenda da cidade, pelo cofre dos Soo. 000 cruzados do 
clero que de há muito se não aplicavam a pontes e 
fontes, que era o seu destino (2). Era esta d. fonte nova 
do Terreiro do Paço que aparece no extraordinário 
Diálogo das Fontes de D. Francisco Manuel de Melo. 



Tantas canseiras, tantos trabalhos da Câmara para 
afinal, em tão largo espaço de tempo conseguir apenas 
uma fonte a mais 1 E triste ! 

Em 1668, mandou-se publicar uma tabela de preços 
para a água. Vendia-se caríssima. A consulta de 7 de 
Agosto desse ano (em pleno verão) expõe a El-Rei as 
causas que motivaram essa deliberação. 

Publicadas as taxas, lavrou indignação nos arraiais 
dos vendilhões. No chafariz de Santa Catarina (que 
aparece nomeado aqui pela primeira vez) partiram-se 
centenares de quartas de barro em sinal de protesto ; 



(1) Citados Elementos, tomo v, pág. So/. 

(2) Idem, tomo vi, pág. 446 e tomo vii, pág. SSg. 



— 358 — 

foram presos dois aguadeiros (Domingos Roiz e Bento 
Gonçalves) e houve um charivari medonho. 

Mandou-se devassar. Os presos foram açoitados e 
condenados, e a revolta ficou por ali(i). 



Em 1675, pediram ao Senado os religiosos da Pe- 
nha de França para fazer uma fonte pública no adro 
da igreja do seu convento. Foi a obra orçamentada e 
julgada útil, dando para ela o Senado, como consta da 
consulta de 23 de Agosto desse ano, a ajuda de 40íJ)000 
réis. 

Mais nenhum documento encontrei que autenticasse 
a efectivação desta obra. 



Em 1684 adquiriu a Câmara uma fonte que estava 
nas casas de certo Diogo da Costa Salgado, por detrás 
do chafariz de Dentro, a-fim-de fazer um chafariz da 
parte de fora do postigo. A fome tinha oito anéis de 
água, e o preço foi de 2o.'Ty-ooo réis de juro, a 20 o mi- 
lhar, sobre as rendas da cidade (2). Se a obra se che- 
gou a fazer não posso informar o leitor, pois nada en- 
contro no inextimável repositório de documentos muni- 
cipais a que me vou cingindo. O que encontro por 
esta época, com lamentável frequência, são demandas 
e litígios enfadonhos, entre a Câmara e particulares, 



(i) Citados Elementos, tomo vii, pág. 5g-6o — Resolução Ré- 
gia de 8 de Agosto de 16G8. 

(2) Idem, tomo viii, pág. 524. 



- 359 - 

acerca da distracção de águas da cidade em proveito 
das hortas e dos jardins de vários sujeitos. 

Talvez não seja desarrazoado meter o bedelho nes- 
sas questiúnculas. Vamos a isso ! 



Em 1660, António de Andrade de Gamboa, dono 
da quinta da Horta Navia, à ribeira de Alcântara, ca- 
nalizara, para uma horta, parte da água da fonte que 
ali havia e que desde tempos imemoriais estava de 
posse da Câmara. Bramaram contra a extorsão os 
moradores do sítio. Mandou-se-lhe repor a água. O 
Gamboa não obedeceu sacrificando ao bem-crescer das 
couves o seu sossego pessoal. Exasperou-se a Câmara 
e tirou-lhe a água à força (i). 

Já em tempo de El-Rei D. Manuel se dera um facto 
semelhante. O povo de Santos e de Alcântara recla- 
mou ferozmente e a água foi também defendida das 
hortaliças sequiosas (2). 

Em 167 1, um tal Domingos Monteiro distraiu, para 
dois poços que tinha numa horta aos Anjos, a água da 
fonte que ali se tinha descoberto, há pouco, por sinal 
de grande eficácia para os achaques de pedra (3). 

Seis anos mais tarde, um mal intencionado, cons- 
truiu um muro sobre o cano que vinha de Cheias, na 
quinta que fora de António Cavide. Como tal pro- 
priedade se achava sequestrada, a Câmara pediu pro- 



(1) Citados Elementos, tomo vi, pág. 197— Consulta de i8 
de Agosto de 1660. 

(2) Idem, idem. 

(3) Idem, tomo vii, pág. 3 e 4 — Consulta de 8 de Agosto de 
1671. , 



— 36o — 

vidências a El-Rei, na impossibilidade de obrigar o 
dono, que não existia, a reparar o dano(i). 

A água do aqueduto que passava pela horta do 
Mouco, em Xabregas, era distraída também, em 1694, 
por diferentes particulares, diminuindo notavelmente 
na fonte da Samaritana para onde corria (2). 

Para finalizar, temos, em 17 14, a formidanda ques- 
tão da bica dos Olhos de Agua, na rua de Salvador 
Correia de Sá (depois calçada de S. João Nepomoceno 
e hoje rua Caetelo Branco Saraiva) cuja água vinha do 
monte de Santa Catarina. E o caso foi este : 

Morava, achegado ã fonte, um cirurgião inglês, de 
nome Guilherme, que, por descobrir na linfa de Santa 
Catarina propriedades medicinais ou por pretender fazer 
fortuna com elas ou por ambas as coisas — o que é mais 
provável — a canalizou para dentro da habitação, abas- 
tecendo um grande tanque onde tomava e dava banhos(3). 

Queixaram-se os moradores do sítio da diminuição 
que padecia a água, primeiro a êle, que não fêz caso, 
depois à Câmara. Esta interveio, notificou ao cirur- 
gião que não impedisse a água, e, como êle não obede- 
cesse, foram lá os alvenéis na intenção de escangalhar 
aquilo tudo. Resistiu ainda o inglês não com razões 



(i) Citados Elementos, tomo v.ii, págs. 207-208. 

(2) Idem, tomo ix, pág. 365. Esta fonte da Samaritana datava 
de i5o8, época em que a Rainha D. Leonor mandou construir o 
Paço de Xabiegas. A fonte ficava encostada ao Paço {Arquivo 
Pitoresco, vol. v, pág. 3o3). 

(3) O Aquilégio Medicinal refere a lenda de que a água desta 
bica colhida antes de nascer o Sol, curava a inflamação dos olhos. 
Um francês que então residia em Lisboa, vendia-a em frascos, 
com lucro notável, tanta era a fama. Daqui o nome da bica. A 
fonte ficava no antigo sítio das Portas do Pó. A calçada da Bica 
Grande e da Bica Pequena, dão a entender que as fontes eram 
duas. [Arquivo Pitoresco, vol. v, pág. 266.) 



— 36i — 

mas com toda a sorte de impropérios e de insultos, e 
os alvenéis retiraram deixando em paz mestre Guilherme 
porque o Enviado especial de Inglaterra ia lá tomar 
banhos e dava-se bem com êies. 

A Câmara teve de engulir em seco os palavrões do 
cirurgião para bem da diplomacia, mas logo que S. Ex.* 
deixou de mergulhar no tanque do cirurgião, mandou 
dar cabo dele (i). 

Ponto final. 

* 



António de Miranda (quem seria?) fêz, em i( 
uma petição à Câmara oferecendo-se para levar ao 
Bairro Alto, então o mais falto de água, a água das 
fontes da cidade baixa sem se valer de rodas, noras ou 
qualquer engenho que em poucos anos se quebre, gaste e 
desmanche., exc. Juntamente apresenta um desenho «de 
perfil» do projectado aqueduto, sem que dele se dedu- 
zisse a maneira fantasiosa como a água se elevava 
para -ser distribuída (2). 

Ouvidos os técnicos sobre tal matéria, puseram em 
dúvida a eficácia do processo oculto de elevar o líquido, 
e acharam que se tornava mister ouvir o seu autor. 
Emitiram este parecer Mateus do Couto, Erancisco 
Pimentel e o padre João Duarte (3). 

Inquiriu-se do preço de uma experiência prévia, por 
Resolução Régia de 14 de Julho desse ano, e António 
de Miranda, pelo seu próprio punho, avaliou-a em 
3ooítf)00o réis. Outra Resolução de 23 do mês seguinte, 
ordena se faça a experiência aludida. O silêncio dos 



(i) Elementos para a História do Município da Cidade de 
Lisboa, tomo u, págs. 69-72. 

(2) Idem, tomo x, pág. 36-37. 

(3) Idem, idem, pág. 38. O parecer é datado de 8 de Julho. 



— 362 — 

documentos daqui por diante indica o malogro da ex- 
periência (i). 



Onze anos mais tarde foi apresentada à Câmara 
uma nova proposta. Subscrevia-a um francês, Teófilo 
Dupineaut que se intitulava fidalgo e não sei que mais. 

Propunha-se Dupineaut trazer para a cidade, pon- 
do os a correr nos chafarizes de S. Roque, Esperança, 
S. Paulo, Terreiro do Paço e S. José, por canos de 
repuxo, sem aquedutos nem arcos, nada menos de qua- 
renta anéis de água (2). 

A despesa de tal obra orçava por um milhão de 
cruzados. Foi isto em 1699. 

Não tinha a Câmara dinheiro para pagar cada anel 
de água na cidade baixa e alta, respectivameute por 
20.000 e 40.000 cruzados e Dupineaut viu-se obrigado 
a modificar a sua proposta no ano seguinte, ficando 
toda a despesa à sua custa, inclusivamente a da venda 
da própria água em quartas e pipas, em casas parti- 
culares. Os preços da venda seriam 10 e i5 réis con- 
soante os bairros e distâncias e constituiriam para o 
proponente um privilégio por tempo de dez anos, de- 
pois dos quais deixaria vinte anéis de água nos alu- 
didos cinco chafarizes que a Câmara construísse. 



(i) António de Miranda, caso o seu invento desse resultado, 
pedia 12^000 réis por mês emquanto vivesse e depois para sua 
mulher, pagos pela Junta do Comércio, e ainda mais 3^ooo réis 
para cada um dos seus filhos, pela féria da Ribaira das Naus e o 
ofício, para ele, de Corrector do Número de Lisboa — Consulta da 
Câmara de i3 de Fevereiro de 168I Elementos, tomo x, pág. 39. 

(2) Apostila de 14 de Agosto de 1699 — Citada obra, tomo xi, 
pág. 8 e segs. * 



— 363 — 
Da proposta constavam ainda as seguintes cláusu- 



las 



i.'^ — Que dos chafarizes lhe ficariam pertencendo os 
sobejos ; 

2.^ — Que falecendo ele, passariam para seus herdeiros 
todos os privilégios, direitos e obrigaçõeà ; 

3.* — Que havendo necessidade de tomar algumas águas 
particulares as tomaria de arrendamento pelos 
preços porque estavam ; 

4.* — Que, querendoo o Senado, se obrigaria também 
a fazer a limpeza das ruas e a promover a 
sua iluminação e a estabelecer serviços de po- 
licia e de incêndios ; e 

b.^ — Que não pagaria sisa de tudo o que comprasse 
para a obra. 

Foram mandados ouvir sobre o projecto, o Síndico 
e os Procuradores da Câmara e dos Mesteres. O Sín- 
dico achou tudo bem, e só declarou dever pôr-se de 
reserva a quarta condição ou cláusula até que se visse 
o resultado prático das restantes propostas. 

O procurador Manuel Jorge, mostra-se desconfiado 
da pobreza do francês e leva a sua desconfiança a ponto 
de recear perigos políticos na execução da obra, por 
causa do aqueduto ter princípio ao pé da Torre da 
Pólvora e ele tencionar fazer minas nesse local. 

A água que Dupineaut queria trazer à cidade era a 
da quinta da Pimenteira. 

Em 20 de Setembro dejyoo, fêz-se uma minuta de 
contrato nos termos da proposta e foram novamente 
ouvidas as mesmas entidades. 

O parecer do Síndico foi idêntico, excepto no que 
dizia respeito à tomadia das águas particulares. Fêz-se, 
por isso, outra modificação. 



- 364 — 

Dupineaut no novo contrato, depois de declarar que 
o bem público deve prevalecer ao bem particular, chega 
a afirmar que emquanto se não tomarem as águas par- 
ticulares nunca se conseguirá abastecer de água a ca- 
pital. Receando o malogro do negócio agarrou-se à 
última tábua e pediu ao Senado lhe arrendasse o Real 
de Agua para poder, com tal rendimento, pagar as perdas 
e danos das tomadias a que se visse obrigado. 

Reflectiram os Vereadores, e o Síndico foi^convidado 
a dar mais uma vez a sua opinião que resultou desfa- 
vorável para o proponente. Em seu entender o pedido 
era impossível de ser atendido sem uma expressa de- 
terminação de El-Rei. 

Voltou à carga Dupineaut alegando desejar apenas 
o arrendamento por dez anos depois do qual a água 
ficaria a correr em S. Roque, até a quantidade pre- 
cisa, sem dispêndio algum do Senado. O preço que 
dava pelo arrendamento era de vinte e dois contos de 
réis por ano. Caso a água só corresse no Rato, com- 
prometer-se-ia, mediante fiança, a pô-la em S. Roque. 

O francês ia diminuindo a olhos vistos a grandeza 
do projecto. Primeiro falava em quarenta anéis de água 
em cinco chafarizes ; cingiu-se depois a vinte anéis em 
S. Roque ; agora já admite a hipótese de a água só 
correr no Rato. 

O Senado andava desconfiado com Dupineaut e pa- 
rece que linha razão (i). 

Em 10 de Novembro em Consulta dessa data, assen- 
taram os vereadores, no seguinte : 

— Que desde o momento em que ele, Dupineaut, pu- 
sesse a correr quatro anéis de água da Pimenteira em 
S. Roque se lhe desse 3oo.ooo cruzados, conforme a 
sua primeira proposta, não se lhe arrendando o Real 



(i) Citados Elementos, tomo xi, págs. 8-26. 



— 365 — 

de Agua, que lhe renderia menos do que isso e ficando 
êle sem direito algum à mesma água(i). 

Os Procuradores também disseram da sua justiça. 
Manuel Jorge era de opinião que se lhe concedesse 
tudo porque estava convencido ser o maior desejo dele 
livrar-se de fazer a obra. Miguel de Freitas Correia, 
procurador de Dupineaut, veio logo em sua defesa, 
num longo arrazoado, e depois de increpar o Senado 
pelas desconfianças que manifestava, lembrava a El-Rei, 
concedesse mais cinco anos de privilégio ao seu consti-' 
tuinte para venda da água ao povo da cidade. 

Pelo despacho de 2 de Dezembro foi atendido este 
pedido, com excepção da venda de água da Pimenteira 
em que não se buliria senão depois de a fazer correr 
em S. Roque. 

Quem tinha razão era o procurador Manuel Jorge. 
O que Dupineaut mais desejava, nestas alturas, era 
Jivrar-se da camisa de onze varas que impensadamente 
tinha vestido. K o projecto ficou em nada como o de 
António de Miranda. 



Desesperava a Câmara, e muito mais o povo, de ver 
em Lisboa a já lendária Água Livre e o pior é que o 
próprio chafariz de El-Rei já andava a fazer partidas 
às guelas alfacinhas. \ Até êle, o fiel chafariz do Rei 
Lavrador! 

Em 1699, escasseava lá a água, e a que corria era 
turva e suja. Fizeram-se pesquizas ; achou-se barro e 
entulho a esmo e — surpresa consoladora ! — mais duas 
nascentes perdidas que logo se canalizaram. Não sei 



(1) Citados Elementos^ tomo xi, págs, 4Õ-53. 



- 366 — 

se alguém disse que fora milagre a sujidade que de- 
nunciara a abundância (i). 

Em 1703 tornou a turvar-se a água. Foram lá à 
procura de mais nascentes, mas desta vez só acharam 
entulho. 



O chafariz do Rossio quási que secou em Agosto 
de 1707. Já vimos atrás como António de Foios Pe- 
reira, pagou com a prisão o ser causa de tal seca. Fm 
1730 tornou à secar (2). O assento da Vereação de 27 
de Junho de 1718, proibe que se lavem bestas e seges 
nos chafarizes de Dentro e da Aguada, sob pena de pe- 
sadas multas (3). 



Chegado o ano de 1719, fêz-se nova visita à fonte de 
Carenque e não sei que mais se fizesse do que mandar 
tapar, de pedra e cal, a porta da ermida que lá havia, 
por o templo estar imundo servindo para usos profanos 
e indecentes. Esta ermida era consagrada ao Arcanjo 
S. Gabriel (4). 

Talvez a essa visita já tivesse ido um vedor de 
águas, que fora chamado de Viseu, onde residia, para 
examinar todos os pontos dos arredores onde se sus- 
peitasse da existência do precioso líquido (5) e quem 



( i)- Elementos para a História do Município de Lisboa, tomo x, 
pág. 181-184. 

(2) Di-lo, num comentário cómico, o Folheto de ambas as 
Lisboas, redigido por Fernando Tavares Mascarenhas de Távora. 

(3) Citados Elementos, tomo xi, pág. 279. 

(4) Idem, tomo xiv, pág. io8. 

(3) Idem, tomo ix, pág. 348 — Carta do Secretário de Estado 
Bartolomeu de Sousa Mexia, à Câmara, em 19 de Julho de 1719. 



— 367 — 

sabe se não se lembrariam igualmente de convidar 
para a tal diligência, a mulher de um negociante de 
Baiona, que então residia em Lisboa, criatura cujos 
olhos de lince não só viam a água a trinta e quarenta 
braças de profundidade como divisavam claramente a 
formação do «chilo» nos intestinos e a circulação do 
sangue. Esta faculdade de extrema visão anulava-se 
por ocasião das luas. D. João V, que diz a obra de 
onde isto extraiu, se serviu algumas vezes dos seus 
olhos, fêz-lhe mercê do tratamento de «Dona» e con- 
cedeu o hábito de Cristo à pessoa com quem casasse (i). 



A questão da capacidade das quartas de água, preo- 
cupou também o Município lisbonense, em 1724. O 
povo que bebia pouca e má água, era ainda por cima 
roubado no tamanho das vasilhas que iam diminuindo 
a olhos vistos. Os oleiros auxiliavam assim os agua- 
deiros. Era mister providenciar e foi o que fêz a Câ- 
mara, no assento de i de Agosto desse ano, determi- 
nando que as quartas «cangalheiras» não tivessem menos 
de um almude, devendo por isso ser marcadas na Câ-. 
mara, sob pena de dez mil réis de multa e dez dias de 
cadeia, pela primeira vez. Pela segunda vez multa do- 
brada e pela terceira, privança do ofício (2). 

Desavieram-se desde então os oleiros e os aguadei- 
ros. 

Em 1726, na Fonte Santa, vieram às mãos na tarde 
de 20 de Setembro, esmurraram-se a valer, e tais dis- 



(i) Description de la ville de Lisbonne, Paris, ijSo, pág. 49 
a 54. 

(3) Citados Elementos, tomo xii, pág- 35. 



— 368 — 

túrbios fizeram que daí por diante vigiaram sempre a 
Fonte dois quadrilheiros (i). 



Estava prestes a chegar o princípio da monumental 
obra qne ainda hoje tanto nos beneficia. 

Em 1728, outro projecto se esboça para a condução 
da Agua Livre a Lisboa. Subscrevia-o António Júlio 
de La Pomarée, francês de nação ; mas nada se fêz que 
eu saiba (2). 

Urgia mais do que nunca a vinda da água messiâ- 
nica e abençoada. Lisboa para beber água tinha que 
padecer fome. Uma quarta de água custava sesenta 
réis e mais (3). 

Como se conseguiu a realização de sonho doirado 
de tantos anos, vai sabê-lo o leitor. 



Cláudio Gorgel do Amaral e El-Rei D. João V fo- 
ram a alma da grandiosa obra das Águas Livres. 

O sr. Eduardo Freire de Oliveira, no seu magnífico 
estudo que tenho ido seguindo, subtrai o nome do 
monarca magnânimo a este elogio, reunindo no dili- 
gente procurador da cidade a larga cópia de merecidos 
louvores. Não concordo. 

D. João V empenhou-se, de alma e coração, neste 
soberbo empreendimento, embora movido por outros 



(1) Citados Elementos, tomo x, pág. 86-87. 

(2) Idem, idem, pág. 1 54. 

(3) Ideni^ idem, pág. 228. 



— 369- 

sentimentos que não agitariam, talvez, Gorgel do Ama- 
ral. Este pugnava pelo bem público, pela utilidade 
manifesta do urgente melhoramento, sem nenhuma 
ideia de vaidade a deslumbrá-lo. O quinto João, pelo 
contrário, dedicara-se à obra porque era grande e pro- 
metedora de lhe glorificar o régio nome. Sem a per- 
tinácia de Gorgel nada se faria, mas sem o auxilio do 
entusiasmado soberano também a obra não iria avante. 
Tal glória, mesmo assim aquinhoada, dá ainda so- 
bejos com que possam entretecer-se coroas a outros 
auxiliares da obra. 



Saibamos como germinou a ideia do Aqueduto. 

Em 1728, Cláudio Gorgel propôs, perante o Senado 
de Lisboa Ocidental, que se estudasse mais uma vez 
tão inadiável assunto, e logo a seguir o decreto de 2 de 
Dezembro desse ano manda, ao Senado, indique os 
meios para se iniciarem e custearem os trabalhos. 

Vai agora ver-se como El-Rei se interessava por 
isto. 

Passaram-se mais de dois meses sem que os verea- 
dores dessem sinal de si. Estranhou D. João V a de- 
mora. Em 23 de Janeiro do ano seguinte expede, pelo 
Secretário de Estado Diogo de Mendonça Corte Real, 
uma nova carta ao vereador Jorge Freire de Andrade, 
dando o prazo de quinze dias para a consulta dese- 
jada. Houve ainda dilacção. Só a 3o de Março subiu 
ao Paço esse documento em que mais uma vez se 
aponta a necessidade urgente da condução da água(i). 

;É concludente ou não, esta pressa do monarca? 



( i) Elementos para a História do Município de Lisboa, tora o x, 
pág. 221. 

voL. IV 24 



Creio bem que a demora seria motivada pela gra- 
vidade da matéria, que se não poderia discutir e expor 
de afogadilho, mas o desejo da sua rápida resolução 
demonstra bem o interesse curioso de D. João V. 



Foi acompanhada a consulta dos pareceres dos Ofi- 
ciais da Câmara. Vamos ouvir as suas opiniões. 

Gorgel do Amaral dizia que, para a obra, deveria 
contribuir todo o país e lembra, como matéria tributá- 
vel, o pão, o vinho, o bacalhau e o ferro ; Manuel Pes- 
tana de Vasconcelos, opinava que todos deveriam con- 
correr proporcionalmente às suas posses ; António Pe- 
gado de Lima, entendia ser cedo ainda para discutir os 
impostos a lançar sem se saber em quanto importava a 
obra; Jerónimo da Costa de Almeida, julgava que o 
melhor seria tributar o sal por se tornar menos opres- 
sivo para o povo e dar suficiente rendimento, po- 
dendo-se também, caso fosse preciso, tributar a ma- 
deira das caixas de açiícar do Brasil, o azeite e o 
ferro(i) ; António Pereira de Viveiros era de opinião que 
se lançassem os impostos sobre o azeite, carne, vinho 
e trigo, declarando discordar de Pestana de Vasconcelos 
com referência à tributação proporcional (2) ; e Jorge 
Freire de Andrade, não emitindo opinião sobre os im- 
postos, limitava-se a declarar a obra muito necessária (3). 



(i) Segundo uma nota deste vereador o sal poderia render 
por ano 3õ.38i^6oo réis. Opina também acerca das taxas a impor 
no vinho, azeite ou ferro, pondo fora da tributação o pão e a 
carne por estarem já muito carregados. 

(2) Dizia ele : « Tanto custa a pagar muito o rico como pouco 
o pobre». 

(3) Os Procuradores dos Mesteres (que eram quatro), convi- 



-371- 



Por desvacho de 4 de Abril, mandou El-Rei fazer 
nova consulta em que se especificassem os rendimentos 
dos diferentes tributos propostos, e, efectivamente, com 
data de 14 de Maio subiu à régia atenção o solicitado 
documento (i). 

Analisemo-lo, pois : 

Jorge Freire de Andrade, declara reconsiderar no 
que primeiramente dissera, por ser difícil saber a quan- 
tidade de ferro e bacalhau produzido no reino (sicj, e 
propõe as seguintes taxas : um tostão por moio de trigo, 
meio tostão por moio de cevada, milho e centeio, três 
réis em cada arrátel de arroz, manteiga e queijo, qua- 
renta réis em cada alqueire de sal, o que tudo rende- 
ria 14.000 cruzados e 128CÍ&000 réis. Lembra também 
que se acrescente a multa aos transgressores das pos- 
turas do pão. 

Manuel Pestana de Vasconcelos, permanece na 
mesma ideia de que todos contribuíssem na medida 
das suas posses, e propõe que os ricos pagassem 600 
réis, os remediados 240 réis e os pobres 120 réis, o 
que produziria, segundo um cálculo exarado num mapa 
que apresenta, a quantia anual de 640.000 cruzados e 
68íC)Ooo réis. 

António Pegado de Lima, propõe imposições no vi- 
nho e na carne, as quais em 17 12 tinham rendido 74 



dados também a dizer da sua justiça, limitaram-se a fazer um 
panegírico laudatório do monarca, declarando apenas que a obra 
se deveria avaliar primeiro antes da discussão dos tributos, e que 
acima das suas opiniões estava a resolução de El-Rei em que con- 
fiavam cegamente. 

(i) Citados Elementos, tomo x, pág. 242. 



— :372 — 

Contos, como se poderia melhor examinar nos papéis 
da Junta dos Três Estados que era a sua administra- 
dora. 

José' Soares de Azevedo, entendia que o tributo de- 
veria ser só lançado em Lisboa e, no que respeitava à 
mercadoria a tributar, apontava o trigo que se vendia 
no Terreiro. Um vintém em cada alqueire de trigo e 
dez réis em cada um dos outros grãos, deveriam pro- 
duzir 1 35.000 cruzados por ano, proíbindo-se a venda 
fora do Terreiro. Este vereador alarga-se em várias 
considerações tendentes a justificar a sua proposta e 
propõe também um regulamento para a arrecadação 
do tributo, acabando por lembrar que, tornando-se pre- 
ciso maior rendimento, se podia recorrer à taxa de dois 
réis em cada canada de vinho o que daria, por ano, 
mais 36.000 cruzados. 

Gorgel do Amaral, opina que se lancem quatro réis 
em cada arrátel de carne e seis réis em cada canada 
de vinho. Isto produziria sessenta contos anuais que 
lhe pareciam suficientes para a obra, finda a qual en- 
tendia deveriam acabar os impostos. Para a conserva- 
ção do Aqueduto propõe se imponham dois vinténs 
em cada alqueire de sal, e lembra ainda o aproveita- 
mento da nascente de Vale de Lobos para engrossar 
a da Água Livre. 

António Pereira de Viveiros, sem especificar taxas, 
declara apenas que as imposições se devem fazer em 
outros géneros que não sejam os comestíveis por estes 
se acharem já muito sobrecarregados. 

Os Procuradores dos Mesteres, depois de tecerem 
a El-Rei um novo elogio, disseram que a cidade de 
Lisboa deveria contribuir mais do que as outras terras 
do reino, visto serem os alfacinhas os mais directamente 
beneficiados, sendo certo também de que pagarão o 
imposto com satisfação (!) ^or ser tal obra do Real 



— 373 — 

agrado do soberano. Parecia-lhes bem o que dissera 
o vereador Pestana, acerca da tributação proporcional, 
e acabam por declarar achar feio o nome de tributo. 
Ponto final. 



O despacho régio à consulta^ deixava ao arbítrio da 
Câmara a escolha dos géneros e do imposto, e mandava 
fazer a obra com brevidade (i). 

O que se passou depois, não sei ; o facto é que o 
decreto de 1 6 de Setembro de 1729 aprovou finalmente 
os seguintes impostos: 

6 réis em cada canada de vinho ; 

5 réis em cada arrátel de carne ; 
10 réis em cada canada de azeite ; 
60 réis em cada alqueire de sal ; e 
5o réis em cada pano de palha. 

Tudo isto, conforme os cálculos previamente feitos, 
devia render trezentos mil cruzados anuais (2). 

O decreto prescrevia ainda que a obra se não desse 
por contrato, cláusula esta que foi logo infringida, 
porque o imposto diminuiu sensivelmente de ano para 
ano (3). 

Em 1782 foi arrematado o imposto na carne e no 
vinho, e assim se procedeu sempre, vindo tal infracção 
a ser legalizada por resolução de 3 de Dezembro de 



(i) Tem a data de 20 de Julho de 1749 — Citada obra, tomo x, 
pág. 280-282. 

(2) Idem, idem. 

(3) Em 1780 rendeu 35.409^000 réis; em 1731, 31.848Í&000 
réis; e em 1732, 18.362^)5000 réis. 



— 374 — 

1735. O arrendatário em 1732 foi António Pires Mon- 
ção, negociante abastado, e o preço da arrematação 
foi de 8.i55í5!)000 réis(i). 



Para a superintendência da obra foi nomeado, pelo 
mesmo decreto^ o vereador Soares de Azevedo; para 
Procurador dela, Gorgel do Amaral ; para Tesoureiro, 
Manuel Soares de Carvalho e Silva, e para Escrivão 
Francisco Ramos de Miranda (2). 

O clero, mal acostumado com as isenções habi- 
tuais que o privilegiavam desde tempos remotos, ten- 
tou ainda eximir-se ao pagamento do tributo. Para 
isso resolveu, como melhor meio, aterrar a Câmara, o 
Soberano e o Povo com a interdição do reino. 

Falhou a esperteza. D. João V se muito prezava o 
clero, se muito venerava a Cúria, se muito amava as 
ordens religiosas, prezava, venerava e amava muito mais 
o princípio da sua autoridade. Deu disso abundantes 
provas. O papão da interdição, em vez de o assustar, 
exasperou-o, e mandou, pelo seu Secretário de Estado, 
intimar imediatamente o Patriarca a cessar tais amea- 
ças, sob pena de ser desterrado. E o clero pagou o 
tributo (3). 

Esta feição do carácter de D. João V salva muita 
vez a sua memória das durezas da crítica. 

Adiante. 



(i) Elementos para a História do Município de Lisboa^ tomo x, 
pág. 412. 

(2) Idem, págs. 289-292. 

(3) Idem^ pág. 370-374. 



CAPITULO XVI 



Sumário : Sai o decreto mandando começar a obra — Isenta-se a 
Câmara do pagamento das sisas — Principiam os trabalhos 

— Os protestos do clero e o princípio da autoridade régia — 
Funda-se a primeira Sociedade de pedreiros construtores — 
Várias irregularidades — O prior de São Nicolau dirigindo as 
obras — Empréstimos e dívidas — Pareceres técnicos acerca 
da matéria dos canos — Abusos e reclamações — O projec- 
tado Aqueduto Monumental de São Pedro de Alcântara e a 
«Mãe de Agua» — Expropriações neste local — Um soneto ao 
chafariz — O que era o Sequeiro de São Roque — Vicissitudes 
passadas da actual Alameda — A história de uma grade e os 
suicídios — Adiantam-se os trabalhos das Águas Livres — 
Informações do Mercúrio Histórico de Lisboa — Concorrência 
do povo à Senhora de Santana e a Campolide — Outras So- 
ciedades de Pedreiros — Questões várias — Custo total da 
obra — Verbas extravagantes incluídas na conta do Aqueduto 

— Em que mãos esteve a administração da obra — Apon- 
tam-se os técnicos que a dirigiram. 

O alvará de 12 de Maio de lySi mandou princi- 
piar a obra, e continha diversas disposições tendentes 
a remover dificuldades e a obstar a empecilhos embar- 
gosos. Muito embora as terras que o aqueduto atra- 
vessasse fossem de pessoas privilegiadas, far-se-iam 
nelas as obras que fossem necessárias, ficando todos os 
proprietários obrigados a dar passagem às águas, fos- 
sem embora clérigos, desembargadores, fidalgos, etc. 
Todas as avaliações se faziam breve e sumariamente, 
intervindo nelas o Síndico da Câmara, um louvado por 
parte dos interessados e outro, no caso de discordância, 
para desempate. Era isto exactamente o que a Câmara 



— 376 — 

pretendia e que nunca conseguiu, como vimos, em tempo 
dos Felipes. 

O regimento usado foi o da ágoa de prata da ci- 
dade de Évora (i). 



Para conveniência da obra, quis a Câmara adquirir 
por compra a quinta da Fonte Santa. Como, porém, 
a assustasse a sisa a pagar, requereu a El-Rei a dis- 
pensa de tal pagamento em consulta de 8 de Outubro 
de lySi. Em 14 de Janeiro do ano seguinte foi defe- 
rido o seu pedido, tornando-se extensiva tal isenção a 
todas as compras que, para o mesmo fim, se fizes- 
sem (2). 



Principiaram os trabalhos em 16 de Agosto de 1732. 

Já então estava à testa das obras, por parte do Se- 
nado, Caetano de Brito Figueiredo que substituirá o 
vereador Soares de Azevedo por decreto de 7 de Agosto. 
A frente da direcção dos trabalhos de construção estava 
o arquitecto António Canevari. 

Pouco lá se demorou. Ao fim de sete meses foi 
despedido, e a razão disso fora não ter dado aos arcos 
a altura necessária (3). Substituíram-no José' da Silva 
Pais e Manuel da Maia e, depois. Custódio Vieira. 



( i) Elementos para a História do Município de Lisboa, tomo x, 
pág. 370-374. 

(2) Idem, pág. 379-380 e 573. Uma portaria de i3 de Novem- 
bro de 1734, expedida pelo Conselho da Fazenda, isentou a palha 
do tributo que se lhe havia lançado a favor das Águas Livres, 
por dificuldades na cobrança que, por vezes, era vexatória. 

(3) Citados Elementos, tomo xiii, nota à pág. 170. 



- 377 — 

Foi este engenheiro quem nfiodificou o plano primi- 
tivo aumentando o vão dos arcos na ribeira de Alcân- 
tara. Na traça anteriormente estudada os vãos eram 
de catorze palmos, tendo os acrescentamentos chegado 
a mais de cem. Fundados nesta circunstância, os mes- 
tres pedreiros da obra, solicitaram a alteração das escri- 
turas, principalmente da de 7 de Maio de 1784 (em 
que se consignava o não pagamento dos vãos como obra 
feita) em virtude do grande dispêndio das cambotas 
e dos simples (i). 

A solução desta questão arrastou-se anos. Foi final- 
mente desatendida a pretensão dos mestres, no decreto 
de 22 de Dezembro de 1746, a que adiante me refiro. 



A generalidade do imposto lançado para a obra 
acendeu os mais extraordinários protestos da parte do 
clero. Habituado a não pagar coisa alguma, doeu-se 
por se ver atingido. Num códice da Colecção Pomba- 
lina da Biblioteca Nacional, está incluído um Parecer 
Anónimo sobre tal Tributo, sumamente curioso, pelas 
razões especiosas aduzidas. O protestante arrepela-se, 
pasmado de se não ter pedido licença a Roma para se 
tributar o clero como era costume em Portugal. Não 
lhe bastando cingir-se ao direito consuetudinário, e 
apontando, como escandaloso, o benefício concedido ao 



(i) A primeira escritura teve a data de 1 1 de Julho de 173 1 ; 
a segunda, de 4 de Agosto de 1782; a terceira, de i de Agosto de 
de 1733; a quarta, de 7 de Maio de 1734; e a quinta, de 7 de Ou- 
tubro de 1736 em virtude do decreto de 21 de Agosto de 1736. O 
segundo decreto para o estabelecimento do preço das avaliações 
é de 28 de Setembro do mesmo ano. 



— 378 — 

Bairro-Alto que era o único que iria usufruir a regalia 
de ter água, diz : 

iíSempre tive pj^ mim que a uíilidad.^ q resultava 
da agoa vir ao bayrro alto não era comua por q este 
bayrro a respJ° de toda a cid.^ e mJ° mais o seu termo, 
era como hum dedo a respJ° de todo o corpo, e como 
não pode, nem deve todo o corpo ser vexado e padecer 
p.'^ que passe tJielhor hum dedo, iamhem não deve p.^ me- 
lhor cómodo do ba/rro-alto, vexarse toda a cid.^ e seu 
termo com hum tributo tão grave)^. 

E mais adiante : 

« Utilidade conma será, — mas o eclesiástico tem 
despegas só elle para a utilidade do secular, como o 
ornato das egrejas, pobreza, templos, etou 

O imposto ofendia a imunidade eclesiástica. A-pe- 
sar-de tudo, porém, o clero pagou-o. 

O rei era D. João V que antes de ser escravo de 
Roma, como se diz, era escravo da dignidade real(i). 



O primeiro passo dado para a obra foi a organiza- 
ção de uma Sociedade de vinte pedreiros para a qual 
cada um contribuiu com quatrocentos mil réis. 

Eis os seus nomes : 

Domingos Martins da Silva Lobo, José da Costa 
Negreiros, Manuel da Costa Negreiros, Alberto Cae- 
tano, João de Sousa, Pedro da Silva, Domingos da 



(i) Códice 641, pág. 26-27. O parecer está datado de 9 de 
Dezembro de 1723. 



— 379 — 

Silva, Domingos Francisco, José Gomes, José da Costa 
Travassos, Miguel Rodrigues da Silva, António Luiz, 
José da Cunha, Francisco dos Santos, José da Silva, 
João da Costa, António Baptista, António Gomes, João 
da Silva e Inácio da Costa. Servia de Tesoureiro o 
societário João da Costa e de escrivão deste Luiz An- 
tónio. A entrada das quotas fêz-se em 8 de Setembro 
de 1732. 

Como o capital era pouco, foi entregue à Sociedade, 
pelo Governo, quarenta mil cruzados provenientes da 
cobrança do imposto, mas Já antes disso tinha a mesma 
recebido outros socorros pecuniários como, por exem- 
plo, o de i3.i58íí)i94 réis (recebidos, em 1732, por duas 
vezes, em 22 de Março e 27 de Setembro), e de se 
ter determinado, por decreto de 21 de Agosto de 1736, 
se lhe pagasse toda a obra feita, recebendo no i.° de 
cada mês quatro mil cruzados do novo cofre, quantia 
esta que seria depois descontada nas medições seguin- 
tes (i). 

O primeiro mestre da Sociedade foi José da Costa 
Negreiros. 



O período inicial das obras, que eu marco até 1736, 
não deu o resultado que se esperava. Contavam os 
oficiais da Câmara, pelo menos Gorgel, que os traba- 
lhos durassem seis anos. Julgando isso é que votara 
o diligente procurador da cidade em tão pesado tributo. 

Em vista das demoras havidas propôs êle, nesse 
ano, que se tirassem da imposição, um real na carne 
e outro no vinho para reverterem a favor da limpeza 



(i) Memória sobre Cha/ari!(es, por José Sérgio Veloso de 
Andrade, pág. 320-325. 



— 38o — 

da cidade, podendo-se, sem que a obra perigasse com 
isso, tirar mais dois reais em cada género para alívio do 
povo. O cofre tinha já recebido um milhão de cruzados 
e apenas trezentos mil se tinham gasto. Com esse aba- 
timento sempre haveria de produzir os oitenta mil cru- 
zados anuais, que era o suficiente para se ir custeando 
a obra. 

As demoras provinham do seguinte : 

Os dois engenheiros, Pais e Manuel da Maia, esta- 
vam quasi postos de parte. Dirigiam a obra in no- 
mine. Quem verdadeiramente superintendia nela, era 
— não se espante o leitor — o Padre João Antunes 
Monteiro, prior de S. Nicolau, i Um padre a dirigir 
as obras, parece blague, i não e' verdade ? Pois era 
assim mesmo, e o pior e' que o prior, além de não per- 
ceber coisa alguma daquela regedoria, faltava com uma 
inconsciência í( que só as suas virtudes desculpavamy) {i) 
a todos os pontos da escritura. 

Não se tinham feito as medições ; deviam-se salá- 
rios, e, ainda por cima, subiam a cem mil cruzados os 
empréstimos, por êle feitos, sem autorização de espécie 
alguma (2). 

Era preciso acudir à obra. ; Aquilo estava num 
caos ! 



Entre as instruções pelas quais se tinha de gover- 
nar a obra algumas havia que eram letra morta. Os 
pagamentos deviam ser feitos no i.° de cada mês aos 



(i) Gorgel do Amaral na sua informação, sobre o estado das 
Obras, chama-lhe virtuoso : — ... «a-pesar-de ser pessoa virtuosa». 

(2) Citados Elementos, tomo xiii, pág. 165-172 — Consulta da 
Câmara de 7 de Fevereiro de 1736. 



- ^8i - 

empreiteiros, e as medições no fim dos meses, afora 
outras de seis em seis meses, completamente indepen- 
dentes das primeiras. Nada disso se praticava. A qua- 
lidade de materiais cuja apreciação estava a cargo de 
Custódio Vieira e de Rodrigo F^ranco e dos que por- 
ventura fossem nomeados, era escolhida pelo prior ou 
por outro qualquer de igual competência. Passava-se 
isto em 1736(1). 

Em 1737 foi Cláudio Gorgel nomeado Superinten- 
dente das Obras, no impedimento de quem, então, ser- 
via tal lugar, substituindo-o no lugar de Procurador o 
Juiz do Crime da Ribeira, Manuel António de Jesus e 
Castro (2). j Bela nomeação foi essa ! 



Chegado o ano de 1738, como o Senado não tivesse 
pago as expropriações feitas, por dificuldades na sua 
avaliação e ainda por outros motivos, apareceu o alvará 
de 23 de Outubro, pasando esses encargos para a «Junta 
das Obras» e ao mesmo tempo regulando a forma como 
se haviam de comprar os terrenos e proceder às avalia- 
ções de um modo rápido e justo. Ficou, pois, neste 
ponto, revogado o outro alvará de 12 de Maio de 
1731 (3). 



Uma interessante Colecção de Memorias Histori- 
ricas e Principais Instruções e Ordens de Sua Mages- 



(i) Citados Elementos, pág, 219. 

(2) Idem, idem. 

(3) Colecção de Memorias Históricas^ citadas no texto, pág. i3 
e segs. 



— 382 — 

tade para a construção do famoso Aqueduto das Aguas 
Livres, existente na Biblioteca Nacional, insere o pare- 
cer dos engenheiros, arquitectos e cirurgiões, acerca da 
mate'ria de que haviam de ser feitos os canos de con- 
dução 4a água. Opinaram que fossem de ferro fun- 
dido os Drs. José Roiz de Abreu, João Machado de 
Brito e Jorge da Mata Guião e os te'cnicos sargentos- 
-mores José Sanches da Silva e Carlos Mardel. O 
único que discordou de tal parecer foi o padre Manuel 
de Campos, consultado não sei a que título, o qual 
trata sempre o aqueduto, por aqueduto interino. Em 
sua opinião, a matéria empregada devia ser o chumbo 
e apontava, como argumento, os belos resultados obtidos 
pela canalização de chumbo feita para o convento novo 
dos Capuchinhos italianos. A favor dos canos de pedra 
não votou ninguém (i). 



De outras duas magnas questões nos faz referência 
a mesma curiosa Colecção, e eu refiro-as ao leitor. 

Foi a primeira motivada pela tentativa feita pelos 
padres da Congregação do Oratório de Nossa Senhora 
das Necessidades, de tomar duas telhas de água do 
Aqueduto para o seu abastecimento. Ao espalhar-se 
em Lisboa tal notícia, ateou-se pelo povo, e com razão, 
um fogo de revolta. 

l Pois então o aqueduto tinha-lhe custado tanto sacri- 
fício e iam agora os Congregados roubar-lhe a água ? 

Não podia ser, e não foi. 

Imediatamente subiram representações da Casa dos 



(i) Citada Colecção de Memorias Históricas^ pag, 29-55 — Có- 
dice 4~6 da Biblioteca Nacional. 



— 383- 

Vinte e Quatro a todos quantos podiam interferir a 
seu favor: a El-Rei, ao Senado e à Junta das Águas 
Livres. Tal privilégio era inadmissível. Os padres se 
quisessem água fossem buscá-la à Pimenteira ou à 
quinta do Sargento-mór. O próprio D. João V se quis 
água no paço e nas reais cozinhas comprara-a, à sua 
custa, ao contratador do ramo da regatia, José Luiz da 
Cruz, que lha vendeu (do poço que possuía às Cruzes 
da Sé) por Soojfcooo réis(i). 

Os Vinie e Quatro foram atendidos, e os padres das 
Necessidades ficaram sem as duas telhas de água que 
andavam cobiçando (2). 



(i) Esta história da compra da água a José Luiz da Cruz tem 
sua graça. As casas e o poço foram avaliados por ordem de El- 
-Rei, e o valor arbitrado pelos peritos fora de 3oOví?ooo réis a que 
El-Rei generosamente acrescentara mais Sooííooo réis, porque o 
contratador tinha tudo empenhado. Fez António Canevari (o en- 
genheiro italiano que iniciara as obras do aqueduto) a condução 
destas águas para o Paço da Ribeira, encanando-as ali em oito sí- 
tios diversos e pouco depois morre o vendedor das casas do poço. 

Solicitou a sua viúva, a El-Rei, a permanência nas casas que 
já lhe não pertenciam, e o monarca concedeu-lha. Falecida esta, 
requereu uma filha sua que lhe deixassem continuar a habitar as 
casas onde nascera e onde morrera sua mãe. Foi mandado infor- 
mar o Procurador da Fazenda Rodrigo de Oliveira Zagalo, que se 
mostrou indignado com tal requerimento, dizendo que as casas já 
pertenciam a outros e que não devia nem podia haver contempla- 
ção alguma com a requerente, visto que seu pai em vez de pagar, 
com os 8oo«Sí>ooo réis que recebera, as suas dívidas, gastara-os im- 
pensadamente, e que sua mãe já residira nas mesmas casas, de 
cuja posse os verdadeiros proprietários estavam despojados. O 
Dr. Zagalo termina assim a sua informação: 

a Se hei-de di^er o que puramente entendo, como sou obrigado^ 
digo que não posso pôr termo à Real Grandeza de Sua Mages- 
tade mas que há-de ser dando do que fôr seu e não do alheio, por- 
que para isso não é necessário ser Rei». 

i Nobres e magníficas palavras! Foi isto em 1742. 

(2) Citada Colecção de Memórias, Históricas, pág. 56-70, 



384 — 



A outra questão, a que se refere a aludida Colec- 
ção, originara-se na reclamação dos empreiteiros da 
obra, sobre o pagamento de certas medições duvi- 
dosas. 

Diziam os mestres a El-Rei que, aos mil e trezentos 
operários que trabalhavam no aqueduto, se deviam trinta 
semanas de salários, por causa da Junta das Águas 
Livres, lhes não querer pagar, por cheios, os vãos dos 
arcos da Ribeira de Alcântara com o fundamento de 
não por terem mais dos trinta palmos estipulados no 
primitivo contrato, nem tão-pouco as cambotas, obras 
estas em que se tinha gasto muito dinheiro e muito 
tempo, e que não estavam delineadas no primitivo plano. 
Foi ouvida a Junta, correram vários tempos, e final- 
mente El-Rei, cingindo-se à letra do contrato, indeferiu 
a reclamação por decreto de 22 de Dezembro de 1746(1). 



Uma das primeiras deliberações da Junta de Ad- 
ministração foi a construção de uma Mãe de Agua em 
São Roque, no terreno superior ao sequeiro que, nesse 
tempo, servia de vasadoiro de lixo e de imundícies (2). 

Esse terreno que fora de Fernão Pais, cidadão do 
Porto e fundador da ermida de Nossa Senhora da 



(i) Citada Colecção de Memórias Históuicas. pág. 20-29. 

(2) Em uma consulta da Câmara, realizada em i75i,vê-se 
que esse vasadoiro foi, ou supôs-se ser, a causa de uma epidemia 
que lavrou no bairro de São José e sítio do Condes, por esse 
tempo (Citados Elementos, tomo xv, pág. 229). 



( 38.1 a ) 




— 385 — 

Glória, no século xvi, passou, por compra, para a posse 
da Câmara em 1732. Aí é que deveria fazer-se o re- 
servatório para abastecimento dos Bairros Altos e um 
chafariz junto a êle. A água iria por um aqueduto 
colossal de arcarias (atravessando o vale de Valverde) 
cujos pegões assentariam onde hoje corre a Avenida 
da Liberdade. Para início dos trabalhos a fazer, com- 
praram-se, entre outras propriedades, as seguintes : 

— Casas em São Pedro de Alcântara que eram da tes- 

tamentária de Manuel Teixeira de Carvalho, por 
ô.oooífcooo réis \ 

— Terreno para o chafariz, depósito e muralha, com- 

prado a D. José de Portugal, por 4.000Í56000 
réis (i). 

De toda a obra projectada apenas se fez a muralha 
para suporte do terreno onde deveria assentar a Mãe 
de Agua, e um chafariz provisório que depois foi trans- 
ferido para a próxima rua das Taipas e, posteriormente, 
para o topo da calçada da Glória. Este, que ainda 
existe, íicou só com duas bicas. O de São Pedro de 
Alcântara, o antigo, tinha cinco (2). 

A-propósito deste chafariz, inaugurado em 8 de 
Setembro de 1704, conheço eu um soneto, celebran- 
do-o, que principia assim : 

/ Es torre, és baluarte ou és penedo I 

O soneto é péssimo e, à-parte este verso, nada mais 
diz que nos elucide. Por isso o não transcrevo (3). 
Metade dos sobejos deste chafariz foram concedidos 



(1) Citados Elementos, tomo xin, pág. 458-459. 

(2) Idem, idem. 

(3) Manuscrito M-3-40 da Biblioteca Nacional, 

VOL. IV 25 



^ 38é — 

ao Hospital Real dos Expostos, por Real Resolução de 
4 de Janeiro de 1784, dada sobre parecer favorável da 
Junta da Administração das Fábricas e Obras das Aguas 
Livres (i). 

Esta mesma Junta deu ordem, em 18 de Julho de 
1786 para se prenderem os ribeirinhos que entulhasem 
o terreno destinado ao novo chafariz (2). 



O depósito de água em São Pedro de Alcântara 
que a parte oriental da cidade esperava ansiosamente, 
pois dali lhe havia de vir, pelo aqueduto projectado, 
a desejada água, não havia meio de se principiar. O 
povo reclamou. Na sua Represe?itação a El-Rei dizia 
■ — referindo-se à multidão que corria ao Rato para 
se abastecer — que não poucas ve\es por se levar a água 
se derramava o sangue (ò). 



O sequeiro inferior de São Roque, malograda a 
obra, voltou a servir de vasadoiro. Para lá se deitavam 
os cavalos mortos e todo o lixo do arrabalde. 

A famosa arcaria do aqueduto atravessando o vale 
de Valverde foi sonho que ainda se não desvaneceu, 
embora hoje se fantasie com outro fim. Os visioná- 
rios alfacinhas quebrado aquele encanto, há pouco, já 



(i) Livro g3g de Registo de Manifestos, pág. 17 v.° 

(2) Livro g40 de Registo de Ordens. 

(3) Citada Colecção de Memorias Históricas, no Códice 4/6 
da Colecção Pombalina (Biblioteca Nacional). 



— 387 - 

encontraram outro onde trabalham as suas ardentes 
imaginações : — a ponte sobre o Tejo. 

No quadro a óleo representando a cidade, existente 
actualmente na Academia de Belas-Artes, vê-se indi- 
cado, nas proximidades do Moinho de Vento, um aque- 
duto em arcarias. Vimos que o seu autor devia conhe- 
cer o sítio, i Ter-se-ia efectivamente começado a cons- 
truir o aqueduto ? 

Que a sua menção no quadro fosse simples fantasia 
do artista não o quero crer. Para a sua indicação cor- 
responder a mera autenticação de algum projecto de 
então, grita a cronologia, pois o pintor executou o qua- 
dro muito antes desses trabalhos, em pleno século xvii. 

Explique-se o caso de qualquer das formas ; o facto 
é que a arcaria lá está, bem nítida, na tela que foi do 
Noviciado da Cotovia. 

Voltemos ao sequeiro. 



Em princípios do século xix, fazia-se, ainda, no local 
onde hoje é a Alameda, uma feira, ou arraial, organi- 
zada pela Irmandade do Senhor Jesus, que já em 17 12 
aí se celebrava. Chegado o ano de 182 1 vejo men- 
cionada a sua proibição. O lucro era pouco, e o local 
estava por tal forma atravancado de pedregulhos e ma- 
deiramentos que mal se podia transitar por lá. Junto 
da primitiva muralha trabalhavam uns cordoeiros (i) 
O mau cheiro do local, resultante da decomposição das 
cavalgaduras mortas que para ali se atiravam, afastava 



(i) Informação do Corregedor do Bairro-Alto em 1821, ex- 
tractada no belo livro de Tinop Lisboa de Outros Tempos^ vol. 11, 
pág. 76-77. 



— 38^ — 

de todo a concorrência que se resumia à garotada bair- 
rista, muito embora já em 1808 um tal José da Cunha 
Lemos tivesse requerido, sem resultado, para cultivar 
o terreno da muralha (i). 

Dou aqui ao leitor um aspecto do local nos primei- 
ros quinze anos do século xix, devido à infatigável pena 
do gravador Luís Gonzaga Pereira o qual passou parte 
da sua acidentada vida documentando em desenhos 
vários aspectos da sua querida Lisboa (2). Neste de- 
senho observa-se, à direita, a torre ou cúpula da Casa 
da Água, distinguindo-se igualmente a igreja e o recolhi- 
mento de São Pedro de Alcântara, e outras casas do 
alinhamento, assim como a velha muralha e parte do 
terreno do antigo sequeiro de São Roque. Na parte 
inferior, do lado esquerdo, estão indicadas algumas 
casas do Bairro da Glória. 



A Real Fábrica da Seda, possuía aqui um terreno 
junto à muralha do chafariz para as Taipas que, em 
182 1, esteve arrendado a Manuel José Alvares da 
Cunha por 14^400 réis anuais, e, depois, por este ter 
sido despejado, a José Alves da Cunha. Em 1826 Ma- 
nuel José Rodrigues da Costa Guimarães requeria o 
seu arrendamento e, no ano seguinte, Estêvam Rodri- 
gues de Oliveira, solicitava-o também para a sua fá- 



(i) Aviso da Regência do Reino, do mesmo ano — Idem, idem. 

(2) Este desenho é um dos cento e um contidos em um álbum 
de Luiz Gonzaga Pereira, que pertenceu ao sr. J. J. Ascençao 
Valdez e hoje está na valiosíssima colecção olissiponense do sr. 
Augusto Vieira da Silva. 



-389- 

brica de Oleados (i), que Já fora do Alvares da Cunha 
em 1816. 

Em i83o tendo-se aquartelado perto do palácio Lu- 
dovice a Guarda Real de Policia, os oficiais deste 
corpo promoveram a arborização da Alameda (2) e o 
local começou a civilizar-se. Chamava-se-lhe então a 
«Horta do Corpo de Polícia» (3). 

No Jardim de Baixo houve depois um Labirinto. 
Tudo isso já lá vai. No sítio onde se perdiam os nos- 
sos avós achamos hoje o lago, as estátuas e aquelas 
palmeiras, em forma de vassouras, que são horríveis. 

O parapeito de alvenaria que defendia a Alameda 
foi depois substituído por um gradeamento de ferro, 
por sinal, até que parte dele, veio do palácio da Inqui- 
sição do Rossio. Estava a grade bem conservada e 
aproveitaram-na. O resto fêz-se de novo (4). 

O alfacinha que hoje se encosta ao gradearnento da 
Alameda para ver o lago — que era o da quinta de Bem- 
posta — ou o feiíssimo monumento a Eduardo José 
Coelho, mal suspeita sequer que lhe estão servindo de 
apoio as grades do Tribunal do Santo-Ofício. As ou- 
tras grades que correm sobre a muralha têm história, 
também. 



( 1 ) Livro g20 de Decretos e Avisos da Direcção da Real Fá- 
brica da Seda, pág. 45 e Livro g2i-3.° de Decretos e Avisos — 
Aviso de 14 de Fevereiro de 1821 ; portaria de ib de Agosto de 
1821 ; aviso de 14 de Junho de 1826; e portaria de 22 de Novem- 
bro de 1S27, pág. 29 v.% 34 V.» e 53 v.° Esse terreno foi depois 
reivindicado pela Câmara em i836 {Sinopse dos Principais Actos 
Administrativos da Câmara Municipal de Lisboa, i836, pág. 10). 

(2) Citados Elementos, tomo xiit, pág. 461-462. 

(3) Anuncia-se o seu aluguel, na Crónica Constitucional de 
19 de Agosto de i833. 

(4) Manuscrito Y-5-io da Biblioteca Nacional, intitulado Ano 
Histórico e Noticioso, pág. 437. 



— 390 — 

Foram os fregueses de São José, quem, por mão do 
vereador Aires de Sá, em i852, solicitaram à Câmara a 
colocação de uma grade na muralha. Numa das ses- 
sões de Junho a Câmara votou contra a ideia (i) i Que 
tinham os paroquianos de São José' com isso, inquirir- 
-se-á? Tinham. Eram frequentes os suicídios da mu- 
ralha abaixo e os corpos iam cair na área da freguesia. 
Noutra sessão de 23 de Julho de i856 voltou a ideia 
da grade, de novo, a aparecer; na de 22 de Setembro 
do mesmo ano, aprecia-se uma repj^esentação dos Admi- 
nistradores dos Bairros, pedindo-a para defender os sui- 
cidas dos seus propósitos; e na 7 de Julho de 1857, 
Aires de Sá, torna a insistir por ela, e propõe até que 
se feche ao público a Alameda (2). Nada porém se fêz, 
a-pesar-da proposta de Vaz Rans feita na sessão de 12 
de Janeiro de 1860. 

Em 1861 renasceu a questão com um ofício do Go- 
vernador Civil, chamando a atenção do Município para 
o caso. Severo de Carvalho, vereador, propõe então 
de novo a colocação da grade, numa sessão de 1 5 de 
Julho. Os suicídios continuavam, e a imprensa bramava 
contra a imprevidência municipal. A vereação entendia 
que a grade tirava avista e que não evitava os crimes; 
e a-pesar-de nova proposta do vereador Frescata, em 
26 de Agosto, continuou tudo como dantes (3). 

Em i863 vejo anúncios pondo em arrematação a 
feitura do gradeamento, em 23 de Abril e 4 de Maio (4) ; 
em 1864 (já ela estava feita) o vereador César de Al- 



(i) Sinopse dos Principais Actos Administrativos da Câmara 
Municipal de Lisboa, ano de i852, pág. 33, 43 e iii. 

(2) Annais do Municipio de Lisboa, i856-i857,pág. 5í<, G7 e 99. 

(3) Arquivo Municipal de Lisboa, 1S61, pág. 497, 543, 618, 
649-651, 706, 710 e 802. 

(4) Idem, 1862, pág. 863 e 1107, e i863, pág. 1379, i388 e 1397. 



— 391 — 

meida propõe que se reconsidere sobre a resolução 
tomada, e outro vereador, Lopes dos Anjos, lembra que 
seja colocada no Jardim da Praça das Flores. Apro- 
va-se isto. 

Em 17 de Abril deste ano dá-se, porém, um suicí- 
dio que os jornais comentaram largamente e que hor- 
rorizou a cidade, e é o mesmo Lopes dos Anjos quem 
volta, na sessão de 2 de Maio, com a proposta da grade. 
A entrada para o Jardim de Baixo foi vedada ao pú- 
blico. Na sessão de 12 do mesmo mês foi afinal resol- 
vido o assentamento da grade sobre um guarda-chapim 
de cantaria, arbitrando-se 4boítpooo réis para o trabalho 
que devia ser feito pelo pelouro das obras. Como so- 
brassem 90 metros, foi este excesso mandado colocar 
no Jardim da Praça das Flores. Em 16 de Outubro 
de 1864 estava concluída a obra em São Pedro de Al- 
cântara e reabria-se o jardim ao público. Tinham-se 
gasto i.626íí)7oo réis. 

A sentinela da Guarda Repubhcana que ali estava 
para evitar os suicídios, retirou a seguir. O que é certo 
é que ninguém mais se atirou da muralha abaixo (i). 
E a Praça das Flores ficou sem grade. 

Em 1839 a Câmara estava acabando uma estátua 
para ser aqui colocada, e em 1840 resolveu transportar 
para este jardim a Casa de Regalo que estava no Jar- 
dim do Regedor (2). 

Em 1846 embargou-se um barracão que aqui se 
estava a edificar (3). 



(i) Arquivo Municipal de Lisboa, 1864, pág. 1773, 1788, 1795, 
1828-1829, 1837, 1844, 1909, 2000, 20o3-2004 e 2019. 

(2) Sinopse dos Principais Actos Administrativos, 1840, pág. 26, 
e 1839, pág. 34. 

(3) Idem, pág. 25. 



— 392 — 

Os velhos do Asilo da Mendicidade, alugavam as 
cadeiras da Alameda, em i85i(i). 

A entrada do público fazia-se por uma cancela do 
lado do Norte e por outra do lado do Sul que só se 
abria aos domingos, havendo um horário especial para 
verão e inverno. O pessoal do Jardim e Alameda era 
um fiel, um porteiro e um guarda. Isto em i85ò, ano 
este em que também ali se pregaram seis bancos au- 
mentados, depois, em 1862, porque na noite de 17 para 
18 de Setembro deste ano arrancaram onze (2). Era 
uma façanha comum dos notívagos avariados da Lisboa 
desse tempo. Do Rossio arrancaram-nos por duas ve- 
zes no ano seguinte. 

Encostadas à muralha para o lado das Taipas, fica- 
vam nessa e'poca umas barracas miseráveis, montes de 
lixo e entulho. Esses terrenos pertenciam aos condes 
de Lumiares. O vereador José Tedeschi, em 2 de Ja- 
neiro de 1860, propôs a expropriação de tais barracas, 
e na sessão de 9 de Fevereiro a remoção do entulho 
para o lado da Glória e a compra dos terrenos ao conde. 

Foi resolvida a expropriação em 8 de Março e au- 
torizada para ela a verba de 970^6960 réis. 

A escritura com o conde de Lumiares fêz-se em 14 
de Junho de 1861, quando já na Alameda tocavam as 
bandas regimentais pelas tardes encalmadas (3). Em 
i863 a Câmara reconstruiu neste jardim uma estufa de 
abrigo (4). 

Em 1870 e tantos houve uma tentativa para animar 



( 1 ) Sinopse dos Principais A ctos Administrativos, 1 85 1 , pág. 1 5 
e 19. 

(2) Anuais do Municipio de Lisboa, iSSS-iSSg, pág. 355, 386 
e 507 e Arquivo Municipal, pág. 1140 de 1812. 

(3) Arquivo Municipal, 1860, pág. 4, 12, 5o, 76 e 114 e 1861, 
pág. 497, 545, 618, 649, 65i, 706, 710 e 802. 

(4) Idem, 1S64, pág. 1717 — Relaiório de 1862-1863. 



- 393- 

o local. As quintas-feiras tocava uma música no coreto 
e a iluminação aumentava-se. O público, porém, não 
concorreu de forma a tirar à Alameda o aspecto de um 
arraial triste. A ideia falhara. 

O Jardim de Baixo ornamentou-se então com uma 
cascata e com os bustos de Minerva, Ulisses, Ve'nus, 
Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama e Camões. 
O Município misturou, assim, os Heróis com os Deuses. 

Um artigo do Occidente de 1881, referindo-se à ilu- 
minação do Passeio, chama-lhe delicadamente discreta. 
Não se pode ser mais elegante nem mais eloquente. 



Voltemos às Águas Livres. Em 1740 iam as obras 
adiantadas. Trabalhavam nelas mais de quinhentos 
operários. 

O documento coevo de onde tiro esta notícia diz- 
-nos também que muita gente da corte ia a divertir-se 
naquele sitio (Campolide e Senhora de Santana) no 
qual se acham Já algumas casas de pasto (i). E deviam 
de fazer bom negócio. 

Foi dessas «casas de pasto» que nasceu a Horta da 
Rahicha e o costume dominical da salada e do peixe frito 
sob os arcos do Aqueduto. 

O Mercúrio Histórico de Lisboa de 20 de Julho de 
1743 — o jornal manuscrito de Luiz Montez Matoso, de 
que possuo um exemplar — diz nas suas notícias de 
Lisboa : 

((Ante-Iiontem cahiu de hum pegam das obras das 
Aguas Livres da Ribr.'^ de Alcântara hum official de 



(i) Citados Elementos, tomo xiv, pág. 33 1-346. 



-- 394 — 

pedre/ro que se fei em pedaços antes de chegar ao 
chanij por encontrar huma pedra que subia para o fe- 
cho de hum arcoy>. 

O Mercúrio de i6 de Maio de 1744, noticia: 

« Com brevidade se fechará o arco grande da Ri- 
bejra de Alcântara do Aqueduto das Agoas Livres e 
passaria a ágoa a correr junto de Pavolide (sic) donde 
a cidade se proverá já de mais pertoy>. 

E o número de 26 de Setembro do mesmo ano: 

(.íAs Agoas Livres podendo já correr em Campo- 
lide empidirão as Religiosas Trinas do mesmo sitio q 
junto da sua cerca se Ji\esse luun tanque sem que lhes 
desse um aunei de ágoa p.^ a s." covinha, e por esta causa 
a não teremos tam brev.'"'^ como se cuydava ta?7i perto 
desta cidades). 

Em 3 de Outubro de 1744, escreve-se : 

<íNão obstante o embargo que as Religiosas Trinas 
punham se fabricou junto ao seu Mostevro de Campo- 
lide hum grande tanque de madejra e amaiihan hade 
começar a correr nelle a agoa livre que vam pelo aque- 
ducto que até ali está acabado de que se proveram os 
Bajrros desta Cidade mais ve\inhosn. 

O de 17 de Outubro do mesmo ano, exara: 

ííHe tam excessivo o gosto que o povo desta Corte 
tem mostrado com a chegada da Agoa Liin-e a Cam- 
polide que todos os dias concorrem a ve-la correr hum 
inmuneravel concurso. No Domingo passado se ajjirma 
que for ão aquelle sitio mais de ôífpooo pessoas>y. 



— SgS — 

Eis o que diz a imprensa da época. 

A curiosidade na capital era justificada, tanto mais 
que em i8 de Fevereiro desse ano se tinha desmoronado 
toda a fachada do seu querido e fiel «chafariz de El- 
Rei», tendo morrido na derrocada dezoito pessoas e 
ficado feridas muitas mais. Era terça-feira de Entrudo e 
o desastre deu-se das sete para as oito horas da manhã. 
A varanda das casas do marquês de Angeja e um 
arco da cantaria das obras que o Senado ali estava a 
fazer desabaram estrondosamente (i). Daí resultou uma 
longa demanda entre o Senado e o Angeja e menos al- 
guns centos de quartas de água para os sequiosos. 

Foi à hora das Ave-Marias no chafariz provisório 
das Amoreiras, em 3 de Outubro de 1744 que a água 
correu pela primeira vez (2). 

Em 1762 já se queixavam a El-Rei os moradores 
de Lisboa da demora na conclusão da obra da Água 
Livre, mostrando-lhe a sede que a cidade padecia. A 
maior parte dos chafarizes estavam ainda apenas pro- 
jectados ; o «Castelo da Água» de São Pedro de Alcân- 
tara não se acabava, e os sequiosos bradavam (3), 



A primeira «Sociedade dos vinte pedreiros» dissol- 
veu-se em 1770, ficando credora à Junta de Adminis- 
tração das Águas Livres de perto de cinquenta contos 



(i) Mercúrio de Lisboa, de 29 de Fevereiro de 1744. 

(2) Demonstração Histórica da Freguesia dos Mártires, por 
Frei Apolinário da Conceição, pág. 177-178. Frei Apolinário chama 
a este chafariz, jPor/a/iV (!). 

(3) Sumario de Varia Historia, por Ribeiro Guimarães, t. iii, 
pág. 187-188. 



- 396 - 

de réis, quantia esta que veio a liquidar-se, após o aviso 
de 4 de Dezembro de 1775. Dos primitivos sócios a 
maioria morrera. Uma escritura, feita em 1764, con- 
solidara a situação dos herdeiros dos falecidos, estipu- 
lando-se nela que, por morte de qualquer dos novos 
sócios, as mulheres e filhos ficassem na Sociedade de- 
vidamente interessados. Esta estipulação preconizada 
pelo sócio Francisco Gomes da Silva, intriguista e ma- 
licioso na opinião da «Junta», deu origem, alguns anos 
decorridos, ao facto extravagante de se acharem dentro 
do grupo societário, cle'rigos, religiosos e mulheres 
que nada percebiam dos assuntos ali tratados. Quando 
se fêz nova escritura repetiu-se a estipulação e a situa- 
ção, que a Junta chamava monstruosa, continuou, a-pe- 
sar-dos protestos dos sócios a valer contra os ociosos 
e parasitas que os exploravam. 

A sociedade organizada pela escritura de 18 de Se- 
tembro de 1772, compusera-se de treze mestres pedrei- 
ros: — António Baptista Garro, Manuel Caetano Freire, 
Manuel José da Silva, Bernardino da Costa Calheiros, 
João de Abreu, Manuel Francisco, Francisco Alves 
Lobo, Tomé Alvares, Manuel da Silva, José Gomes, 
Pedro Gomes da Silva e Joaquim José dos Reis. 

Todo o material de trabalho da Sociedade anterior 
fora tomado por esta, por avaliação. 

Em 1783 a Junta propôs a abolição da Sociedade 
existente, fazendo-se nova conta, indemnizando os par- 
ticulares que haviam feito contratos com ela, e re- 
servando-se o direito de resolver quaisquer dúvidas 
que aparecessem com base no que dispunha o decreto 
de 14 de Dezembro de 1772(1). Nestes termos a abo- 



( I ) Livre g26 de Representações e Consultas^ da Colecção da 
Junta de Administração das Fábricas do Reino, no Arquivo Na- 
cional — Representação de 1 1 de Agosto de 1783, pág. 81-81 v.° 



lição da Sociedade fêz-se pela Real Resolução de 1 3 de 
Agosto de 1783, e feitas as contas viu-se ter havido 
um saldo a seu favor de 80.692^^)893 réis, em vez das 
irregularidades e dos descaminhos que o sócio Manuel 
da Silva denunciara em 1780. 

Este Manuel da Silva tinha sido Pagador das Obras 
e queria entrar de novo na Sociedade com este cargo 
então exercido pelo Joaquim José' dos Reis. A sua 
queixa a Junta deu a pior informação, dizendo que as 
acusações eram infundadas, que não havia alcances e 
que tudo se devia atribuir ao seu feitio. Era um 07'- 
giilhoso perturbador da tranquilidade social. A pró- 
pria acusação aos padres, não tinha fundamento (i). 

Fundou-se ainda uma terceira e última sociedade 
por escritura de 16 de Janeiro de 1784, feita nas «notas« 
do Tabelião Eusébio José Pereira de Carvalho e Aguiar. 
Eram quatro os sócios (Joaquim José dos Reis, Tomé 
Alvares, Luiz António da Silva Coelho e Bernardino 
António da Silva) e durou até 1799, ano em que aca- 
baram, de vez, todos os principais trabalhos do Aque- 
duto (2). 

Em 1786 os mestres empreiteiros, invocando a ca- 
restia dos materiais e da mão de obra, requereram 
para que o preço da braça de parede, paga a 4íí!4oo réis, 
fosse elevado. A Junta achou justa a pretensão, depois 
de ouvidos os técnicos, embora informe que os Mestres 
nada disseram quando os materiais e a mão de obra 



(i) Livro g26 de Representações e Consultas — Consulta de 
7 de Maio de 1781, pág. 23. 

(2) Memórias sobre Chafarijes^ de Veloso de Andrade, pág. 320- 
■■325. A admissão destes sócios foi aprovada por Real Resolução 
de 6 de Dezembro de 1783. Livro g3g de Manifestos, pág. 11 e 
Livro gj8-C de Decretos e Avisos — Aviso de i de Setembro de 
1783, pág. 17-17 v." 



-398- 

estiveram mais baratos do que se tinha calculado para 
a fixação do preço. O apíso de 12 de Dezembro de 
1786 elevou para cinco mil re'is o preço da braça de 
parede, aumentando-se também a quantia a pagar para 
equivalente porção de abóbada de tejolo(i). 



Para a construção do Aqueduto foram expropriados 
muitos prédios urbanos e muitos terrenos. De entre 
essas expropriações aponto, por nos interessarem mais 
de perto, as seguintes : 

— Uma porção de terreno da quinta do conde de Ana- 

dia (15.272 palmos quadrados) a São João dos 
Bencasados ; 
■ — Um olival no sítio do Rato, que era de João Antó- 
nio de Paiva como testamenteiro de Manuel da 
Silva ; 

— Outra terra do mesmo, no mesmo local; 

— Um terreno com 887 braças quadradas, no sítio das 

Amoreiras, que era de José Xavier Carneiro Za- 
galo e Melo, a-fim-de se construir nele a Casa da 
Água ; e 

— Uma porção de terra pertencente à cerca das freiras 

do Rato (2). 



( 1 ) Livro 926 de Representações e Consultas — Consulta de 
i5 de Setembro de 1786, pág. 22-23 e Livro g2'j, idem — Consulta 
de 9 de Dezembro de 1786 e 16 de Abril de 1788, pág. 32-33 v.° e 
63 v.°-64.3 

(2) Livro gi8-C de Decretos e Avisos — Aviso de i de Setem- 
bro de 1783. 



— ^99 — 

Estas e outras expropriações importaram em cerca 
de noventa e dois contos de réis. 

A despesa total da obra orçou por treze milhões 
de cruzados b.b6i.gSi^6oo réis). Deste dinheiro, po- 
rém, sairam verbas com destinos diversos, como, por 
exemplo, para a Fábrica das Sedas, para a Fábrica da 
Louça, para o Senado da Câmara, para o Erário, para 
a Intendência Geral da Policia e até para o próprio 
Tesouro. Outras saídas de capital aparecem-nos do- 
cumentando factos interessantes como o preço do cha- 
fariz do Loreto que custou vinte e cinco contos de réis. 

O Neptuno deste chafariz, devido ao cinzel de Ma- 
chado de Castro, foi pago com a quantia de 2015^000 
réis e a Anfitrite do das Janelas Verdes com 6ooí5í)000 
réis. 

Outras quantias, incluídas no custo do Aqueduto, 
tiveram destinos um tanto ou quanto extravagantes. 

jTrinta e tantos contos foram para fardamentos dos 
cocheiros e criados da Casa Real 1 

Na relação das medições pagas com referência ao 
ano de 1768, aparece uma verba para a construção de 
uma casa em Carnaxide para a mulher que dera de 
mamar a um dos infantes, e na relação das despesas 
de 1800 a i835, inclui-se outra, de perto de cinco con- 
tos, dispendida nas obras da Patriarcal, com o fim de 
se aproveitar uma nascente de água(i). 

Tudo isto nos diz o palreiro Veloso de Andrade. 



(i) Com essa nascente projectava-se fazer um chafariz na rua 
de São Marçal. Afinal apenas se fez um poço o qual ainda existe 
na terceira travessa que desemboca, a contar de cima, na rua da 
Procissão. Só mais tarde é que se fez o reservatório que está no 
largo. 



40O — 



Até 1738 foi o Senado quem superintendeu nas obras. 

Em 23 de Outubro deste ano, foi criada a «Junta 
de Administração» a que já nos temos referido. A ela 
compelia também a arrecadação dos impostos. 

Por ahará de 1 3 de Julho de 1777 foi abolida, como 
se disse em seu lugar, a Direcção da Fábrica das Sedas. 
Criou-se para substituí-la a «Junta de Administração 
das Fábricas e Obras das Águas Livres». Durou tal 
Junta até 1788, e, por decreto de 5 de Junho desse ano, 
foi extinta e substituída por uma Direcção (i). O lugar 
de Inspector das Águas Livres, criado depois, foi ex- 
tinto por decreto de 27 de Julho de 1820(2). 



Ainda duas palavras sobre os arquitectos que diri- 
giam a obra. 

Além de Canevari, José da Silva Pais, Manuel da 
Maia e Custódio Vieira, superintenderam tecnicamente 
nela os engenheiros Rodrigo Franco, Carlos Mardel, 
Miguel Ângelo Blasco, Reinaldo Manuel dos Santos e 
Francisco António Ferreira, Este foi nomeado em 1791 
em substituição de Reinaldo Manuel que tinha fale- 
cido (3). 

Miguel Ângelo Blasco que foi também arquitecto do 



(i) Memoria sobre Chafari:^es etc, pág. 33 1. 

(2) Livro 920 de Avisos — Aviso à Direcção da Fábrica das 
Sedas, de i3 de Abril de 1824, pág. 82 v."-83. 

(3) Livro \.° de Ordens, pág. 14 v." 



— 401 — 

Mosteiro da Batalha, substituiu Mardel, por decreto de 
9 de Setembro de 1763 (i). 

Rodrigo Franco que vejo mencionado como capitao- 
-engeniieiro nuns documentos, aparece-me noutros tra- 
tado como simples medidor de obras. Nesta qualidade 
e neste cargo foi substituído, por decreto de 14 de xMaio 
de 1764, pelo Inspector das Aguas Livres, Teotónio 
Caetano da Gosta (2). No século xviii não estavam bem 
definidas e nomeadas as várias categorias, neste género 
de cargos. Mestres-pedreiros, arquitectos, medidores, 
engenheiros, eram designações classificativas que se 
substituíam comummente. 

A João Pedro Ludovice, atribui Ratton o plano do 
Aqueduto ou, pelo menos, de parte dele. E lapso de 
memória do infatigável e curioso autor das Recorda- 
ções. O risco da obra é devido aos lápis de Manuel da 
Maia e de Custódio Vieira. Pagou-se, por êle, a quan- 
tia de 796^^940 réis. 

O projecto do primeiro seguiu-se desde a nascente 
até o Monte das Três Cruzes. Daqui por diante o tra- 
çado é de Custódio Vieira, pois não foi aceita a ideia, 
de Manuel da Maia, de se furar o monte de Campo- 
lide (3). 

Em 182Ô, o arquitecto da cidade Malaquias Ferreira 
Leal requereu o seu provimento no lugar de arqui- 



(1) Livro V dos Avisos do Ministério do Reino, na colecção 
existente no Arquivo Nacional. 

(2) Livro V dos Avisos do Ministério do Reino. Rodrigo 
Franco morava, então, no alto da rua da Rosa. 

(3) Colecção de Memorias Históricas das Principais Instru- 
ções e Ordens de Sua Magestade para a construção do Famoso 
Aqueduto das Aguas Livres, pág. i3 e seg. 

O Dr. Inácio Barbosa Machado escreveu, também, um Tra- 
tado Histórico e Juridico do Aqueduto de Lisboa. 

voL. IV a6 



— 402 — 

tecto das obras das Águas Livres (i). Ignoro se foi 
provido. 

Sousa Viterbo no seu valiosíssimo Diccionario de 
Engenheiros e Arquitectos poucos dados biográficos 
nos dá deste arquitecto. 

E, por hoje, basta. 



(i) Livro g2i-3.'* de Decretos e Avisos, pág. 5o v." 



CAPITULO XVII 



SuMÁRi j : Descrevem-se o Aqueduto e a «Casa da Água» nas Amo- 
reiras — As antigas e modernas inscrições do Arco Grande 
das Amoreiras — Conclui-se a Casa da Água — Enumeram-se 
as várias galerias abastecedoras dos chafarizes — Notas sobre 
as fontes do Bairro — A pedinchice dos «sobejos» — A «Junta» 
tentando defender a água dos apetites particulares — O povo 
pede que se distribua a água por novas fontes — Medições, 
vistorias e estudos — Começa a acentuar-se a falta de água 

— Providências municipais — Uma «partida» do Valverde 
para acudir à seca do chafariz do Loreto — Várias leis, edi- 
tais, posturas e providências diversas sobre aguadeiros chafa- 
rizes, preço da água, etc. — A Câmara Municipal herda o le- 
gado da Junta das Águas Livres — Os últimos retoques no 
Aqueduto — A estiagem de i833 — O corte das Águas lavres 

— Boatos terroristas — Medidas adoptadas pelo Governo — 
Novas estiagens em 1834, 1839 e 184O — Continuação da falta 
de água. 

O Aqueduto das Águas Livres tem o comprimento 
total de i8.6o5 metros, ou sejam cêrca de dezenove 
quilómetros, desde a Casa da Agua, no Rato, ate' o 
olival do Santíssimo, em Canecas. Juntando-lhe, po- 
rém, todos os ramais, antigos e modernos, obtem-se 
a extensão total de 48.036 metros aos quais, acrescen- 
tando-se, ainda, as galerias de distribuição dentro da 
cidade, prefaz o comprimento de 59.838 metros ou se- 
jam perto de doze léguas. 

Em toda a sua extensão possui cento trinta e sete 
clarabóias, algumas de grandes dimensões, com portas 
e frestas guarnecidas de rede para resguardo. 

Os túneis têm o comprimento de 4.660 metros, e o 



— 404 — 

restante do Aqueduto é em parte construído à flor da 
terra e assente sobre pontes de cantaria as quais con- 
têm cento e nove arcos de diferentes alturas. 

O Aqueduto que é alimentado por diferentes aque 
dutos parciais, quási todos posteriores a êle (são vinte 
e sete), parte da primeira clarabóia, situada a dois qui- 
lómetros de Belas, comummente chamada a Mãe de 
Agua Velha. E ai que nasce a fonte da Água Livre. 

Posteriormente foram as águas conduzidas até o 
olival do Santíssimo que assenta em uma encosta ao 
poente de Canecas onde se juntam com as dos aque- 
dutos de Paço da Bomba e Vale de Mouro. Entram 
depois na clarabóia das Três Aguas e, reunindo-se em 
seguida com as dos aquedutos das Carvalheiras, dos 
Salgueiros e dos Frades Marianos, entram depois nas 
Pontes Grandes sobre a margem direita da ribeira de 
Carenque. 

Vencida uma diferença de nível de dois metros e 
meio, o Aqueduto é descoberto até entrar na Mãe de 
Agua Nova, na margem oposta da Ribeira. Aqui se 
juntam estas águas com as que vêm da Mãe de Agua 
Velha, ao fundo do Salto-Grande. Depois o Aqueduto 
segue recebendo diversas nascentes até avistar Caren- 
que e, encontrando depois a Casa da Agua do Aque- 
duto de Qiielu\^ desvia-se para o lado da Porcalhota^ 
encosta-se ao outeiro de São Bra^ (onde recebe as 
águas do aqueduto deste nome), segue pela estrada até 
a ermida de Santo António, saltando sobre a ribeira 
Busca Fragoso e continua na mesma encosta até o 
Calharií. Depois prolonga-se pela frente do convento 
de São Domingos de Benfica até o monte das Três 
Cruzes e à porta da Sar afina, e passa à ribeira de 
Alcântara onde se encontra a parte da obra mais im- 
portante. 

A ribeira é atravessada, no comprimento de 941 



— 40^ — 

metros, sobre 35 arcos, um dos quais, chamado o Atxo 
Grande, tem 62 metros de altura por SS^jy de aber- 
tura. Os arcos extremos são de volta inteira e os 14 
centrais em ogiva, sendo tudo encimado por uma espa- 
çosa galeria adornada de torreões para arejamento. 

Atravessada a ribeira segue o aqueduto pela estrada 
da circunvalação^ passa sobre o arco do Carvalhão, 
e, correndo ao longo de Campo de Ourique, depois de 
passar por um subterrâneo na rua de São João dos 
Bencasados, atravessa as Amoreiras sobre um belís- 
simo arco ornamental, contorna o jardim pelo poente 
e sul, e vem acabar na Casa da Agua. 

A galeria do aqueduto tem 2"',88 de Alto, desde o 
pavimento ao fecho da abóbada, havendo de cada lado 
uma caleira de lagedo de o'",33 de fundo circular, e ao 
meio um passeio com o'",66 de largura (i). 



As antigas inscrições do arco monumental das Amo- 
reiras que foram mandadas picar pelo Marquês de 
Pombal por aviso de 20 de Março de 1773, eram as 
seguintes (2) : 

uSuperatis difficultatibus Pacatis Opinionum dissi- 
duo Agua Liberae in Urbem Triwnphalis ingresso. 
An. Dom. MDCCXXXXVIlh, o que traduzida diz: 

«No ano de 1748 depois de vencidas as dificuldades 



(1) Consulte-se para maior esclarecimento desta matéria o 
minucioso Veloso de Andrade, na sua Memoria sobre Chafarizes. 

(2) A pág. 76 e 77 do códice 4-j6 da Colecção Pombalina, da 
Biblioteca Nacional, diz-se erradamente que estas inscrições fo- 
ram picadas em 1783. 



— 40^ — 

e apaziguadas as discórdias de opinião, tiveram as Aguas 
Livres o seu ingresso triunfal na cidade». 

E, do lado do Rato : 

dAquas Liberas per dua saecula desideratos, regjiant 
Joanne V, Pio, Foelice, Magnaniino, complanatis prae- 
ruptis, divisque praeforatis, niidei'iginte annorum per- 
tinaci labore, per circuitum novem niille passuum, ore 
publico, et conimuni gáudio in Urbem invexit Senatus 
Populus que Ulisbonensis. An. Dn. MDCCXXXXVIII» 
ou seja : 

«No ano de 1748, reinando o Piedoso, Feliz e Mag- 
nânimo D. João V, o Senado e o Povo Lisbonense, à 
custa do mesmo povo, e comum satisfação dele, intro- 
duziu na cidade as Aguas Livres, desejadas pelo espaço 
de dois 'séculos, e isto por meio de um trabalho, du- 
rante vinte anos, era arrazar, desfazer e furar os ou- 
teiros na redondeza de nove mil passos». 

As que as substituíram em estilo menos simples e 
mais grandíloquo, e que ainda lá estão, são: 
Do lado do Rato : 

«Reinando D. João V o Maior dos Reis, o Bem 
Publico de Portugal, foram introduzidos na cidade 
por aquedutos solidissimos que ham-de durar eterna- 
mente, e que formam um giro de nove mil passos, 
águas saluberrimas, fa^endo-se esta obra com tolerável 
despega publica, e sincero aplauso de todos. Anno de 
17 4S da Era de ChristO)). 

Do lado de São João dos Bencasados : 

«£). João V, Rei de Portugal, Justo, Piedoso, Au- 



— 40? — 

gusto, Feli^ Pai da Pátria^ posta empai ^ Lusitânia 
com valor e gloria^ robustecida com riqiie\as^ ou para 
melhor di\er^ vencida a própria naiure\a^ fe\ condu- 
zir a Lisboa aguas perenes no breve espaço de ig anos^ 
e com o menor possivel dispêndio dos cabedaes públicos 
concluiu-se a obra \immensa. O Senado e o Povo de 
Lisboa^ em signal de gratidão, para com este óptimo 
Priíicipe, consagraram este monumento. Anno de 1^48 
da Era de Cliristo^K 

Estas, sim, ficaram menos verdadeiras mas mais 
monumentais. Nem o Óptimo faltou. 



A Casa da Água às Amoreiras, vasta mole de pe- 
dra, de cujo terraço se avista quási toda a cidade, é 
de feitio quadrangular, com amplíssimas janelas em 
roda e 5™, 14 de espessura de parede. Na parte infe- 
rior tem uma vasta bacia ou tanque, com 28'",6 de com- 
prido por 24°',4 de largo e 7 metros de alto com a 
capacidade de 5.5oo metros cúbicos. 

Em volta há um largo passeio, por três dos lados, 
com uma varanda. No outro lado fica a cascata, por 
onde a água se despenha saindo da boca de um golfi- 
nho que ressalta da parede sob a figura de Neptuno. 

A parte superior da edificação é coberta com uma 
abóbada de tejolo, cerrada pelo terraço gradeado, de 
que já falamos. 

Este reservatório esteve por acabar ate' 1834. Em 
1822 a Direcção das Águas Livres solicitou às Cortes 
a sua conclusão, mas só dois anos depois se fez o or- 
çamento. Por portaria de 26 de Julho desse ano che- 
gou-se a mandar executar a obra, mas só em i3 de 
Agosto de i833, sendo Ministro das Obras Públicas o 



— 4o8 — 

visconde de Vilarinho de São Romão se concluiu, final- 
mente, a Casa da Agua na qual se gastaram, por sinal, 
i3.732í!&095 réis (i). 



Deste reservatório partem diferentes galerias que 
abastecem alguns dos chafarizes da cidade; outras saem 
do aqueduto antes que êle entre na Casa da Água. A 
galeria do Loreto, que vai pelas praças do Brasil e do 
Rio de Janeiro, São Pedro de Alcântara, Loreto e São 
Carlos, e a Galeria da Esperança, que acompanha esta 
no primeiro lanço, e vai depois atravessar a rua do 
Arco e mais abaixo a de São Bento, em frente às Cortes, 
pertencem às primeiras ; a galeria do Campo de San- 
tana e a das Necessidades pertencem às segundas. A do 
Campo de Santana sai do aqueduto àquem do Arco do 
Carvalhão, dentro da quinta dos herdeiros da condessa 
da Anadia, e vai alimentar, por si e pelos seus ramais, os 
chafarizes do Campo de Santana, da Cruz doTaboado, 
do Rêgo, o Hospital de S. José e duas fontes particula- 
res. Antigamente dava água aos chafarizes do Campo de 
Santana, do Campo Pequeno e Intendente, bica do Des- 
terro, fontes das quintas do Seabra e da Bemposta. A 
galeria das Necessidades sai do aqueduto, em frente do 
reservatório de Campo de Ourique, em direcção à Boa- 
-Morte, e tem quatro ramais, um para a Estrela, outro 
para as Janelas Verdes e dois para o palácio das Ne- 



(i) O plano feito pela Administração da Real Fábrica das 
Sedas e Obras das Águas Livres, foi aprovado por portaria de 2 
de Outubro de i833, estando as obras orçadas em i.o38^ooo réis. 

As portarias de 24 de Dezembro de iS33, 28 de Agosto e 
e de 2 de Setembro de 1834 é que determinaram a conclusão da 
obra {Livro 920, pág. 64-64 v.° e Livro 922, pág. 8). 



— 409 — 

Cessidades. Hoje alimenta o chafariz das Janelas Verdes, 
o das Necessidades, o lavadouro do chafariz das Terras, 
o antigo Palácio Real e suas cavalariças, o quartel da 
Cova da Moura, a Legação Inglesa e mais três casas 
particulares. 

A galena do Loreto dá água actualmente para o 
chafariz da rua Formosa, para a Academia das Ciên- 
cias e para doze particulares. A entrada da rua de 
D. Pedro V há uma casa quadrada, chamada a Pia do 
Penalva^ de onde parte uma galeria em degraus até o 
antigo chafariz e clarabóia da Cotovia, e outra que, 
em sentido oposto, leva água ao chafariz da rua For- 
mosa. A partir de São Pedro de Alcântara até à Cal- 
çada da Glória é o aqueduto muito alto e muito largo, 
mas depois estreita sensivelmente. No largo da Trin- 
dade havia uma pia de onde partiam ramais para os 
chafarizes do Carmo e da rua António Maria Cardoso. 
Essa pia está hoje inutilizada, sendo o abastecimento 
feito pelo encanamento geral. 

A galeria da Esperança, cuja obra mais impor- 
tante é o Arco de São Bento, junto às Cortes, abastece 
unicamente o chafariz daquele nome e o da rua do Arco, 
afora uma casa particular. 

Isto quanto às obras antigas, executadas durante- a 
construção do Aqueduto Joanino, chamemos-lhe assim.. 
Quanto às obras modernas da Companhia, falaremos 
depois (i). 



Algumas notas sobre os chafarizes do bairro. 
Chafari\ das Amoreiras. Foi o primeiro onde cor- 
reu a água. Os sobejos iam para o tanque das lava- 



(i) Memoria sobre as Aguas de Lisboa, por A. Pinto de Mi- 
randa Montenegro, pág. 63 a 70. 



'— 4^0 — • 

deiras na rua das Águas Livres, e daí para cerca das 
Freiras do Rato, depois do Asilo de Nossa Senhora 
da Conceição, e agora da Assistência Pública. 

Chafa7H\ do Rato. Foi construído em 1794, sendo 
os sobejos concedidos, por alvará de 26 de Agosto 
desse ano, a Manuel Caetano de Sousa. Hoje perten- 
cem à casa Palmela (i). 

Chafarii da Rua do Arco. ¥o\ mandado fazer por 
ordem de 12 de Junho de i8o5, pela Direcção das 
Aguas Livres. Por Resolução de 14 de Agosto de 1807 
e título de posse de 10 de Julho de 181 1 foram conce- 
didos os sobejos, em partes iguais, a D. Genoveva dos 
Anjos Alexandrina (avó materna de Alexandre Her- 
culano) e a José Ramos da Fonseca. A primeira con- 
cessão foi feita por motivo de expropriações de que 
D. Genoveva não fora indemnizada (2). 

Chafari\ da Cotovia. Este chafariz era antiga- 
mente situado ao topo do Passeio Público, na Praça da 
Alegria de Baixo. Foi em 1840 mudado para a Coto- 
via de Cima. 

Chafarii da Praça das Flores. Foi também man- 
dado fazer pela Direcção das Aguas Livres. Fica em 
um pequeno largo, ao fundo da rua de Monte Olivete. 

Bica das Aíi:uas Livres. É a última no distrito do 
bairro. Foi feita em 181 1 (3). 

Chafari:{ da Cru^ das Almas. Foi feito por aviso 
de 27 de Junho de 1823. A vistoria realizada para 
escolha do terreno, em 23 de Março, foi o brigadeiro 
Duarte José Fava, Intendente das Obras Públicas e os 
arquitectos Joaquim Marques de Abreu e Manuel Cae- 
tano da Silva Gaião, e ainda o mestre Manuel António. 



( i ) Memorias sobre Chafarizes, por Veloso de Andrade, pág.3. 

(2) Idem, pág. 6 e 86. 

(3) Idem, pág. 328-329. 



— 411 - 

O sítio escolhido foi Junto ao muro da quinta da con- 
dessa da Anadia na estrada que vai da Cruz das Almas 
para o Arco do Carvalhão (i). 

Do chafari\ de São Pedro de Alcântara^ já atrás 
falámos. 



Além da casa Palmela e do antigo mosteiro das 
Freiras do Rato, recebiam sobejos de águas, no bairro, 
a ex-Escola Politécnica (antigo Colégio dos Nobres), a 
Imprensa Nacional e a Casa da Praia e Monforte, pro- 
prietária do velho edifício da Fábrica da Loiça. Os 
sobejos que foram concedidos a D. Genoveva dos Anjos 
Alexandrina, passaram ao conhecido íloricultor Frede- 
rico Daupias, dono dos antigos terrenos juntos ao cha- 
fariz da rua do Arco. Recentemente foram vendidos 
pelos seus herdeiros. 

Os sobejos dos chafarizes foram causa de muitos 
protestos, de muitos favoritismos e de muitas calúnias. 

Pombal foi vítima, também, de acusações à conta de 
usufruir a água que sobejava dos chafarizes da rua For- 
mosa e das Janelas Verdes, e ainda dos benefícios 
ilegais que tivera numa sua quinta com a obra da Ri- 
beira de Alcântara. 

O célebre Coxo das Aguas Livres que teve, depois, 
com o Marquês, uma demanda à conta do «Casal do 
Calhau Ventoso», em 1780, propalava em Lisboa que 
Pombal se apropriara dos sobejos para o seu palácio 
familiar, ao tempo que certo ministro dizia a toda a 
gente que o poderoso Cabeleira íizera um encanamento 
subterrâneo do chafariz das Janelas Verdes para a outra 



(i) Livro 920 da Colecção da Junta, pág. 82 v.°-83 — Aviso de 
27 de Junho de 1823. 



— 4i'i — 

sua casa (o actual Museu de Arte Antiga) de que ele 
entrara na posse — o que era certíssimo — sem dispen- 
der um real(i). 

Pombal, numa carta parece que dirigida ao filho, 
justifica-se dizendo que não existe tal encanamento de 
contrabando, e que, quanto aos sobejos do chafariz da 
Rua Formosa, que a mais ninguém serviam, lhe tinham 
sido concedidos por diploma régio, a troco da cedência, 
por êle feita, de duas casas com seus quintalôes para 
o chafariz se construir, tão necessário que era àquele 
bairro. Do Coxo das Aguas Liares a cujas imposturas 
ninguém dava crédito, dizia ter hum terrível e acanhado 
caracter (2). 

A Junta das Aguas Livres, onde Pombal tinha um 
grande amigo e servidor -o chefe das obras Estêvão 
Pinto de Morais — fêz o que pôde para que o caso não 
fosse demasiado escandaloso. Os descaminhos denun- 
ciados pelo Coxo tinham merecido uma devassa, ini- 
ciada pelo desembargador Luiz Estanislau da Silva 
Lobo e concluída pelo corregedor Manuel José da 
Gama e Oliveira. A Junta, sendo ouvida, opinou que 
tendo falecido a maioria dos empreiteiros da obra da 
Rua Formosa e estando os que restavam empenhados 
nas urgentes obras do aqueduto, seria prejudicial a 
chamada destes à responsabilidade imediata dos delitos 
que lhes implicaria a prisão. Se tal se fizesse contra os 
empreiteiros da obra da Ribeira de Alcântara, para- 
riam os trabalhos dos aquedutos parciais que se esta- 
vam construindo. A obra da Ribeira custara i5.4o8í5í)044 



(i) Num manuscrito que possuo — Historia Politica e Eco- 
nómica do reinado do Senhor Rei D. José 1 — vem mui claramente 
referida a extravagante e rara compra deste palácio. 

(2) Códice 6y8 da Colecção Pombalina da Biblioteca Nacio- 
nal, pág. 162-164. A copiada carta está datada de 3o de Março 
de 177 1. Há outras cópias nos códices 668 e 6g5. 



— 4'3 — 

réis ; o custo das outras ignorava-se totalmente. E a 
Junta inquere : 

— i Como se hão-de fazer sequestros aos benefi- 
ciados pelos descaminhos se se ignoram os quantita- 
tivos dos benefícios ? 

A única solução seria a de medir as obras reali- 
zadas. 

Assente, após grande discussão em que os magis- 
trados da Junta foram ouvidos sobre a competência 
no julgamento da causa, dado que havia nela jurisdição 
criminal, foi-lhe, finalmente, cometido o encargo, no- 
meando-se relator o Dr. Manuel José da Gama e Oli- 
veira. Como nessa altura o gigante já tivesse caído 
(1779), os julgadores foram severos e o sequestro fêz-se 
aos bens do Pombal. Aos dos outros beneficiados, 
como era necessário iazer medições, e o caso não in 
teressava à política do momento, não se chegaram a 
efectivar. Pelo menos não encontrei vestígios de que 
se tivessem feito (1). 



A série de requerimentos pedindo os sobejos dos 
chafarizes, enfileira-se de 1778 por diante. Os corpos 
directivos que superintenderam nas Aguas Livres eram 
constantemente assediados daqueles «empenhos» que 
Ratton considerava como um dos defeitos portugueses. 

Ainda as fontes não estavam feitas, ainda elas se 
projectavam, já apareciam vizinhos a solicitar os so- 
bejos. Sucedeu isto com os dos chafarizes de Buenos 
A&es e de São Sebastião da Pedreira. Os primeiros 
foram solicitados por José Street de Arriaga Brum da 



(1) Livro g25 de Representações e Consultas, pág. 93-94 v."- 
Consultas de 22 de Fevereiro, 3 e 20 de Março de 1779. 



— 414 — 

Silveira, em 1788, e, em 1786, por D. Mariana Joa- 
quina de Vilhena Coutinho, proprietária de umas casas 
a São Francisco de Paula por cima do Olival. Foi 
esta a beneficiada., quando a fonte se fêz em 1791 (no 
local primitivo de que foi mudada em 1812), por alvará 
de 22 de Março de 1786(1). 

Os de São Sebastião da Pedreira, concederam-se, 
por alvará de 4 de Junho de 1788, ao senhor de» 
Murça, Manuel José' Guedes de Miranda (2). O risco 
do chafariz de Buenos Aires fora feito por Reinaldo 
Manuel em 1785(3). 

Das sobras do chafariz do Loreto beneficiaram, em 
partes iguais, Joaquim Pedro Quintela e António Ro- 
drigues de Oliveira que, em 1782, andavam ali edifi- 
cando prédios (4); das do Carmo^ Francisco Hígino 
Dias Pereira e Anselmo José da Cruz, em 1783(5); 
do das Janelas Verdes^ Maurício José Cremer Wan- 
zeller que tinha um prédio junto dele e as freiras de 
Santo Alberto, por alvarás de 23 de Dezembro de 1782 
e 12 de Dezembro de 1783(6); do de São Pedro de 



(1) Livro C de Decretos e Avisos, pág. 58-58 v." e 81 ; Livro 
927 de Representações e Consultas — Consulta de 22 de Fevereiro 
de 1788; e Livro 926, pág. 56 v.°-57, idem — Consulta de 3o de 
de Julho 1783, pág. 72 v.°-73. 

(2) Memoria sobre Chafari^^es, já citada. 

(3) Livro g23 de Registo de Avisos da Junta, pág. 1 1. 

(4) Livro C de Decretos e Avisos, pág. 3o v.» e Livro 926 de 
Representações e Consultas — Consultas de i3 e 26 de Agosto e 2 
de Outubro de 1782, pág. 5i v.° e 54 v." 

(5) Livro C idem, pág. 4 v.° — Alvarás de 12 de Agosto e 
e 19 de Dezembro de 1783, pág. 4 v.", 10 v.®-ii ; e Livro g26,idem 
— Consultas de i3 de Julho e 22 de Fevereiro de 1783, pág. 60 e 
62 v.° 

(6) Livro C, idem, pág. 10 v.° — Alvará de 12 de Dezembro 
de 1783 e Livro g26, idem — Consulta de 8 de Agosto de 1783, 
pág. 74-74 v.° e Livro B de Decretos e Avisos, pág. 434-435. 



— 41^ — 

Alcântara, que serviam para regas às árvores do Pas- 
seio Público, o Hospital dos Expostos, da Misericórdia, 
passando aquele arvoredo a ter de se contentar com 
os sobejos do chafariz da Alegria, em 1784(1); do de 
Benfica, o Desembargador Manuel Inácio de Moura, 
por alvará de 19 de Julho de 1786(2); do das Ne- 
cessidades, os conventos do Sacramento e do Livra- 
mento(3); do das Amoreiras, as freiras do Rato (4); 
etc, etc. 

A Junta ao princípio ainda quis obstar a esta pe- 
dinchice das ordens religiosas. Quando as Freiras do 
Rato fizeram o pedido em 1780, ainda a legaram na 
informação prestada que D. João V se quisera ter água 
no Paço a comprara, e à implorativa das dominicanas 
do Sacramento, ainda obtemperaram que se tinham 
sede fossem de noite ao tanque do largo de Alcântara 
que servia o Regimento de Cavalaria. 

Nada conseguiu. Os conventos não cessaram de 
pedir. Eram os Bernardos, em 1782, que solicitavam 



(i) Livro g26, idem, pág. iii v." — Consulta de 20 de Dezem- 
bro de 1784. 

(2) Livro r)3g de Registo de Manifestos — Real Resolução de 
19 de Dezembro de 1779; Livro C de Decretos e Avisos — Alvará 
de 19 de Julho de 1786, pág. 61 v.''-62 ; Livro g.'5 de Representa- 
ções e Consultas = Consulta de 17 de Novembro 1779, pág. 1 16 v.°- 
-117. 

(3) Livro 925 de Representações e Consultas — Consulta de 
7 de Agosto de 1778, pág. iii v.°-ii2 e Livro gaõ, idem — Con- 
sulta de 2 de Dezembro de 1783, pág. 79-80 v.° O tanque do 
largo de Alcântara, que recebia os sobejos do chafariz das Neces- 
sidades foi concluído por ordem de 8 de Novembro de 1780 [Li- 
vro g3g de Registo de Manifestos^ pág. 20 v."). 

(4) Livro g25-I de Representações e Consultas, pág. (46-146 
v." — Consulta de 1 1 de Maio de 1780. Em 1789 as freiras do 
Rato queixavam-se de sede [Livro gig de Registo de Decretos, 
pág. 9 v."). 



— 4^^ — 

um bocadinho do aqueduto da Esperança (i) ; eram os 
Terceiros de São Francisco que tinham comprado uma 
fonte e que queriam introduzir a água no aqueduto, 
para a captar depois, como já tinham pedido e conse- 
guido os Congregados do Oratório, e foram outras e 
outros por aí fora (2). 

Ainda em 1826 faziam semelhante rogo as freiras 
da Encarnação. Custou a acabar-lhes com a lamúria. 

Veloso de Andrade, menciona, na sua citadíssima 
obra, os edifícios públicos que tiveram a mercê de so- 
bejos e o benefício da dádiva de anéis de água. Um 
dos beneficiados foi a Imprensa Régia a requerimento 
do Administrador Aires da Costa, em 1811 (3). 

Poucos faziam como o Gerard Devisme em São Do- 
mingos de Benfica. Descobrira-se ali, junto .1 quinta 
deste francês, uma nascente em 1784. Devisme obteve 
o consentimento para a canalizar e meter no aqueduto 
à sua custa, ficando a usufruír-lhe os sobejos na inver- 
nia, e mais tarde construiu o chafariz que lá está. Me- 
recidamente foi-lhe dado um anel de água (4). 



(i) Livro g26 de Representações e Consultas — Consulta de 
6 de Maio de 1782, pág. 42-42 v.° 

(2) Idem — Consultas de 26 e 3o de Janeiro de 1784, pág. 84 
e 84 v." e Livro C de Decretos e Avisos — Alvará de 22 de Março 
de 1784, pág. 17 v/ e 18. 

(3) Livro giS de Representações e Consultas — Consulta de 
27 de Março de 181 1, pág. 5i v.°-53 v.» 

(4) Livro C de Decretos e Avisos, pág. 74-74 v.° — Alvará de 
27 de Março de 1787 e Livro g2f) de Representações e Consultas 
Consulta de 27 de Agosto de 1784 pág. io5-io6 e Livro 927, idem 
— Consulta de 24 de Janeiro de 1785, pág. 4 v.°-5 e Livro g3q de 
Registo de Manifestos, pág. 14 1 5 — Reais Resoluções de 3i de 
Agosto de 1784 e 21 de Abril de 1787. 



— 41? — 



A falta de fontes públicas, no último quartel do sé- 
culo xviii, deu margem a numerosas reclamações. 

Correndo os livros da Junta vejo uma consulta de 
3 de Abril de 1778, referida a uma representação do 
Juiz do Povo reclamando a construção do chafariz do 
Campo de Santana (i), cuja falta obrigava os morado- 
res desse local a ir buscar o precioso líquido à fonte 
de sete bicas do alto do Passeio Público; vejo os povos 
de Carnide (1781), Loures ( 1791) e Carnaxide (1784) a 
pedir água aflitivamente, como mais tarde a pediram 
os de Sacavém (1822), Telheiras e Lumiar (1826) e 
como ainda a pediam os moradores do bairro de São 
Paulo (1821); vejo ordens e aj>isos para buscas, visto- 
rias e medições, ao Casal do Peixoto, Campo de Ou- 
rique (1782), à quinta do Colégio dos Nobres, pouco 
depois, à quinta de D. Elena, hoje de D. André, ao 
Rato (1787), a São João dos Bencasados, Campolide e 
Cruz das Almas (i823) e ainda a efectivação de vários 
estudos para a introdução de mais nascentes no aque- 
duto, já em 1782 (2). 

Em 1822 a Junta propunha o mirífico remédio de 
se transportar, de noite, a água de uns chafarizes para 
outros, para equilibrar a desproporção da concorrência 
a cada um. 

i Imagine-se a que soluções conduzia a sede (3) ! 

(i) Livro g25 de Representações e Consultas — Consulta de 
3 de Abril de 1778. 

(2) Livro Q2I da mesma Colecção da Junta, pág. 24 v.°, 29 e 
43 V.»; Livro gzo, idem, pág. 34-36 v.», 79 v."-8o v.° 109 v.°-iio; 
Livro g20, idem, pág. 71 v."; Livro gaS, idem, pág. 4-5 ; e Livro 
g3g, idem, pág. 3i3 v.°, 24 e 26v.° 

(3) Livro g20, idem — Portaria de 4 de Setembro de 1822, 
pág. 68. 

VOL. IV 27 



4i8 



A-pesar-da grandiosidade da obra a que o terre- 
moto de 1755 fêz pouco estrago — apenas a destruição 
de três torreões das galerias, e avarias, facilmente re- 
paráveis, nalguns arcos (i) — a-pesar-de todos os sacri- 
fícios feitos em levar a cabo esse monumento que me- 
receu louvores dos próprios detractores sistemáticos das 
coisas portuguesas (2), a cidade nunca chegou a saber 
o que fosse abundância de água. Lisboa, com a en- 
trada das águas do aqueduto ficou livre, é certo, da 
penúria antiga, pois oitocentos e dez mil litros por 
dia chegavam para as reduzidas exigências de então. 
Possuir uma «pena» de água era um luxo árabe. Em 
muitas casas havia poços, e todos se iam contentando. 

Com o aumento progressivo da população tudo 
mudou, e algumas dezenas de anos depois entrou a 
água a escassear em quantidade e a crescer em preço. 

Para obviar a isto, mandava a Câmara buscar bar- 
caças de água à Fonte da Pipa, e cada barril de vinte 
e cinco litros disputava-se a murro desenganado. Nos 
chafarizes havia continuadas lutas, entre galegos e 
criados particulares, à conta da primacia em encher os 
barris nas bicas apenas gotejantes. 

Trinta anéis de água era já pouquíssimo para a po- 



(i) Foi Carlos Mardel quem dirigiu os consertos, tendo sido 
os canos desentulhados desde a nascente até o Ralo. Maior dano 
fêz ao Aqueduto o temporal que caiu sobre Lisboa em 28 de Ou- 
tubro de 1758, tendo ficado os canos arrombados {Memoria so- 
bre Chafarizes , pág. 327). 

(2) O autor anónimo da Voyage en Portugal (1796) depois 
de dizer mal de tudo, faz honrosa excepção para o Aqueduto, di- 
zendo : 11 faut honneur aux regne de ce Prince et aux architectes 
qui en dirigérent la consiruction. E ainda: 11 reunit la tnagnifi- 
cence e la beauté à la hardiesse et à la solidité de 1'éxéciition. 



— 419 — 

pulação de Lisboa (i) e episódios picarescos entremea- 
vam esses combates, como aquele a que se refere o co- 
ronel Francisco Coelho de Figueiredo, à conta da 
escassez da água livre que parecia presa. O coronel 
lembrando com agradecimento a memória do Conde 
de Linhares por êsie ter improvisado uma fonte no Pe- 
lourinho, com dois buracos na parede e cinco lages no 
chão, dá-nos a noção exacta da aflição sequiosa da 
cidade onde até a Bica dos Olhos cegara — diz êle — de 
gota serena. E a contar-nos o episódio do Valverde, 
todo êle se consola ao recordá-lo. 

O Valverde era um celebrão, popular em Lisboa. 
Havia muito que o chafariz do Loreto não deitava uma 
pinga. ^ De que se há-de êle lembrar? De organizar 
um cortejo divertido. Arranja quatro galegos, conven- 
ce-os a transportá-lo numa padiola e, lendo na mão um 
archote aceso, arrebanha com a sua oratória quantos 
aguadeiros topa no caminho e leva-os em procissão, de 
barris às costas, até o Chiado, onde os cidadãos de Tuy 
os vasaram no tanque do Neptuno. A farsada foi ce- 
lebrada com risos, palmas e ditos. Foi um aconteci- 
mento em Lisboa (2). 



Há numerosos editais, decretos, leis e providências 
municipais, sobre aguadeiros, lutas de chafarizes, pre- 
ços da água, etc. O Repertório das Leis Extrava- 
gantes, codificou os diplomas de 1767, 1777, 1780, 1790, 
1802, 1807 ^ 181 1. Dois editais de 11 e 19 de Julho 



(i) O anel corresponde a oito penas que por seu turno corres- 
pondem a 3.3o8 litros. 

(2) Teatro de Manuel de Figueiredo, tomo 14.°, pág. 604 e 6i3. 



— 420 — 

de 1780 referem-se a queixas contra os vendedores, re- 
gulando os preços do barril; o de i3 de Agosto de 
1794 provê à disciplina da gente de barril, subordi- 
nando-a aos capatazes e à Inspecção dos Incêndios, e 
regulando também os preços ; o de ig de Janeiro de 
1807 proíbe as lavagens nos chafarizes e tanques; o 
de 18 de Março regula a capacidade das vasilhas de 
venda, impondo multas aos infractores; e o de 17 de 
Setembro de 1802 trata também dos preços e das con- 
dições de venda. 

De 14 de Outubro de 1809 e 10 do mesmo mês de 
1817, há ainda dois outros editais que se referem a 
água, mas não propriamente daquela de que tratamos. 
São providências sobre o água vai que felizmente já 
se foi. 

A Câmara Municipal herdou da Junta das Águas 
Livres a superintendência sobre o aqueduto, chafarizes, 
etc, até a entregar às Companhias exploradoras do 
abastecimento e venda de água. 

Em 1843 proibiu-se a entrada, na Mãe de Agua do 
Rato, para evitar que os visitantes sujassem a água ali 
reservada. São muitas as providências municipais acerca 
de tal matéria. A Sinopse (i835 a i852), os Anuais 
(i856 a 1839) e o Archivo Municipal (de 1860 em 
diante) estão cheias delas. 



Os últimos retoques na obra iniciada por D. João V 
e Gorgel do Amaral ficaram por dar até 1824. Um 
decreto de 6 de Agosto deste ano é que a mandou 
completar, alvitrando-se para o custeio dela, a quantia 
de vime contos anuais paga pelo cofre do Terreiro. 

Até Agosto de i833 tudo foi muito bem, mas desta 



— 421 — 

data em diante entrou o subsídio a escassear, e a obra 
ficou de novo estacionária. 

Em Maio de i834, ordenou D. Maria II que o Te- 
souro Público e o cofre do Terreiro, contribuíssem com 
um conto de réis por mês para a sua conclusão, mas 
como os encargos do cofre do Terreiro fossem muitos, 
atrasaram-se de novo os pagamentos e tornou-se im- 
possível a continuação da obra. Por fim ficou o Te- 
souro Público com o encargo todo, por portaria do 
Ministério do Reino de i8 de Agosto de i835(i). 



No ano de i833 a estiagem foi aterradora. Ainda 
por cima, a proximidade do desenlace das campanhas 
liberais e o cerco da capital vieram complicar a situa- 
ção. O boato do corte das Aguas Livres correra — 
que o Governo as mandava cortar para obstar a que 
os realistas as envenenassem (!), e o pavor entrou em 
Lisboa. Ordenou-se a mobilização de barcaças para 
ir buscar água à Outra-Banda, e era nos cais que os 
galegos iam encher os barris. Carros com pipas atra- 
vessavam as ruas e franqueavam-se ao público os po- 
ços particulares. As providências contra os abusos dos 
aguadeiros, vigilância dos capatazes, qualidade e preço 
da água, abundaram então. 

A Crónica Constitucional daquele ano, transcreve 
a miúde tais posturas e editais e, nos números de 7, 
9, 10 e 12 de Setembro, publica listas dos poços exis- 
tentes nos diferentes bairros. Os liberais andavam 
aterrados e sequiosos. 

O ano seguinte, de i834, foi igualmente escasso de 



(i) Memoria sobre Chafarizes, já citada, pág. 33 1 e seg. 



— 422 — 

água. Em Setembro viu-se a Câmara obrigada a man- 
dar colocar carros com pipas nos largos de Santos, 
Patriarcal e Socorro, e barcos nos cais de Belém, de- 
terminando que os aguadeiros só pudessem encher os 
barris nos chafarizes de El-Rei, de Dentro, e da Praia. 
A mesma escassez houve nos anos de iSSg e 1840. 
A resolução do problema ainda vinha longe. 



CAPITULO XVIII 



Sumário : Ainda a falta de Agua — As ideas de Estêvão Cabral 
em 1791 — O exército dos aguadeiros — Francisco Sodré apre- 
senta, em 1823, o seu fantasioso projecto de abastecimento 
de água em carros de bois — Segundo projecto do General 
António Bacon — Terceiro projecto de Francisco Martins 
em 1847 — Um dilúvio de propostas e de planos — Abrem-se 
concursos para o abastecimento de água — Várias leis e 
providências — Quarto projecto de Duarte Cardoso de Sá, 

— Cria-se em i855 a Companhia das Águas — Citam-se 
as dificuldades que teve de vencer — Anulação do primeiro 
contrato — Faz-se segundo contrato em tXíiy — Iniciam-se 
os trabalhos — Traçado do canal do Alviela e orçamento 
da obra — Sua inauguração na cerca dos Barbadinhos 
em 1880 — A célebre questão da passagem dos Arcos das 
Águas Livres — Castilho defende a proibição — Os suicídios 
e os lendários crimes de Diogo Alves — Fecha-se a passagem 

— Destino de algumas figuras de pedra dos chafarizes — 
Apontamento final sobre a falta de água — Comissões, estudos, 
decretos e questões — ^Resolver-se-á o problema? 

Ainda o mesmo assunto. 

Já em 1791, Estêvão Cabral, na memória por ele 
subscrita e incluída nas Memorias da Real Academia 
das Sciencias, expondo a necessidade de se utilizar a 
piscina da Casa da Água para repouso da que for con- 
sumida em Lisboa a-fim-de a limpar das impurezas que 
comummente a acompanhavam, faz sentir a escassez 
de tão desejado líquido. Para a remediar alvitrava o 
autor que se fizesse descer o pavimento do depósito 
das Amoreiras ao nível dos aquedutos existentes e se 
reservassem ali os sobejos do inverno. Nada disto se fêz. 



— 424 — 

Em 1802, à conta de várias queixas contra os agua- 
deiros, saiu o edital de 17 de Setembro a que já se fez 
referência, prescrevendo multas para aqueles que não 
acudissem ao chamamento dos cidadãos, para os que 
fossem achados a dormir sobre o barril, etc. Ficava- 
-Ihes sendo defezo encher o barril fora do chafariz a 
que estavam dados, obrigando-os a entrar na bicha, 
visto que o privilégio de encher a qualquer hora só 
pertencia aos capatazes — que eram sempre galegos 
velhos e experimentados. Os barris deviam andar 
todos marcados para diferençar os que servissem a 
água do Poço os quais só podiam ir às bicas depois de 
muito bem lavados na presença do capataz, munido 
sempre da vara respeitável que era insígnia do seu 
cargo. No caso de haver fogo perto do mar, eram os 
galegos obrigados a despir-se e a ir encher os barris, 
metendo-se à água. Os barris marcados com AP (água 
de poço) vendiam-se a quinze réis, e os que tinham 
ACH (água do chafariz), a vinte réis. A elevação dos 
preços e o despotismo dos aguadeiros, mal chegava o 
verão, motivaram o rigoroso e curioso edital {i). 



Em 1822 eram vinte e quatro os chafarizes, com 
oitenta torneiras e vinte bicas. A água a-pesar-disso 
faltava. Os galegos ocupados no mister de aguadei- 
ros orçavam por 3. Soo. Os chafarizes com mais mo- 
vimento eram, pela sua ordem: o de El-Rei, com 352 
aguadeiros; o do Carmo, com 278; o do Loreto, com 
252 ; o da Alegria, com 232 ; o de Dentro, com 229; o 



(1) Impresso avulso, Lisboa, 1S02. O ei/Va/ está assinado por 
Francisco de Mendonça Arrais e Melo. 



— 42^ — 

da Praia, com 212 ; o da rua Formosa, com 2o5 ; e os 
do Campo de Santana e São Pedro de Alcântara, com 
200(1). 

Murphy, calcula em trinta mil o número dos galegos 
residentes em Lisboa, dos cinquenta mil que diz haver 
em Portugal. Outro autor vai mais além, e diz que 
em Portugal haverá oitenta mil, dos quais quarenta 
mil na capital (2). 

Balby é menos exagerado. Orça em catorze mil os 
cidadãos de Tuy que infestavam Lisboa em 1820. E 
ainda este autor quem nos informa que o barril da 
ordenança devia levar dezoito canadas muito embora 
os aguadeiros os vendessem roubados, com quatro e 
seis canadas a menos (3). 



Chegados ao ano de 1823 vemos aparecer o pri- 
meiro projecto de distribuição de água aos habitantes 
da cidade, A comodidade, tornada hábito, ia-se mos- 
trando insatisfeita, e a idea do transporte, da água aos 
domicílios entrou a ocupar muita cabeça engenhosa. 

Este primeiro projecto, subscreveu-o um tal Fran- 
cisco Sodré, o qual se propunha a organizar uma com- 
panhia para tal fim. Requereu a El-Rei a aprovação 
do seu plano e, sendo este remetido ao Senado para 
consulta, foi, depois de breve discussão, indeferido. 

Causará, de-certo, espanto à primeira vista a indi- 
ferença dos camaristas a um projecto de utilidade e que 
demais a mais incluía, nas suas vantajosas propostas, 



(i) Essai Statistique, de Balby, tomo 11, pág. 176-177. 

{2) Voyage en Lisbone en ijg6. 

(3) Essai Statistique, de Balby, já citado. 



— 426 — 

a de auxiliar a extinção dos incêndios por meio de 
bombas e de outros engenhos ; mas já vamos ver como 
o Senado andou avisadamente. 

Os meios propostos para acalmar a ira das chamas 
dão idea suficiente das razoes que motivaram o inde- 
ferimento das pretensões do Sodré. 

i Pasmará o leitor quando eu lhe disser que o auxílio 
rápido para a extinção dos fogos com que se pretendia 
substituir o barril do aguadeiro, era o transporte das 
bombas em carros de bois ! 

Em cada chafariz deveria haver, segundo o imagi- 
noso plano, oito carros com pipas, guarnecidos por dois 
homens, cada um com barris de vinte canadas, um carro 
com uma bomba, outro com sacos de areia e ainda 
outro com utensílios diversos, tudo puxado a bois. 

i Ora onze carros, puxado cada um a uma junta de 
bois, dava, pelos vinte e quatro chafarizes então exis- 
tentes, a espantosa totalidade de 284 carros e 568 ru- 
minantes ! j Era um deUrio de grandeza e de veloci- 
dade ! 

Este projecto, a ser aceito, era a sentença de indi- 
gência contra os 3.464 aguadeiros da capital. 

Chegou ainda a ser ouvido, neste caso, o Inspector 
dos Incêndios; mas, como não podia deixar de ser, opi- 
nou que a pretensão de Sodré fosse indeferida. 



Em 1845 apareceu novo projecto; mas desta vez 
mais sério e reflectido. Foi seu autor o General Antó- 
nio Bacon, como representante do engenheiro hidráu- 
lico inglês F^rederico Braiihloaite (!). A companhia que 
se propunham organizar tinha por fim não só o abas- 
tecimento de água nos domicílios, como também a ins- 



— 427 — 

talação da iluminação a gás, aproveitando as escava- 
ções que se haviam de fazer, a montagem do serviço 
de incêndios, com material e pessoal adestrado e dis- 
ciplinado para esse fim, e o encargo dos serviços da 
limpeza das ruas e higiene da cidade. 

Era uma reforma completa. 

No seu projecto, Bacon, mostra-se inimigo irrecon- 
ciliável dos galegos. Cobre-os de impropérios e expro- 
ba-lhes as péssimas qualidades, lamentando que uma 
cidade tenha as suas goelas à mercê dos cidadãos de Tuy. 

Não há dúvida de que a colónia galaica abusava muita 
vez das prolongadas estiagens para a organização dos 
seus peciílios. Anos houve, como no de 1802, em que 
foi necessário pôr um dique aos preços dos barris de 
água que chegaram a atingir cifras respeitáveis ; mas 
lá que eles ganhassem a sua vida à nossa custa, como 
ainda hoje, não podia o General levar-lhes a mal. Ele 
era também um estranjeiro que vinha para cá na idea 
de ganhar e de enriquecer. 

Voltemos, porém, ao projecto. 

Bacon calculou logo as dificuldades com que teria 
de defrontar-se o seu plano e, por isso, oferecia, como 
garantia, um documento do engenheiro inglês Mr. Car- 
loshay riquíssimo negociante de ferro, o primeiro' tal- 
vez do Reino Unido. Este documento era um depósito 
de cinquenta mil libras esterlinas que ele faria, nas 
mãos do Governo, caso fosse aceito o projecto. 

Consultada a Câmara, declarou esta não poder for- 
mar o seu juízo sobre o assunto, sem que Bacon escla- 
recesse melhor as suas pretensões com referência à 
proporção em que seriam tributados os consumidores 
e, ao mesmo tempo, deixava bem patente o seu ressen- 
timento por se projectar usurpar os seus encargos com 
respeito à higiene da cidade e limpeza das ruas. j Es- 
tranha sensibilidade ! 



— 428 — 

Para contentar e entreter o general, ainda se no- 
meou uma comissão de cinco membros, em sessão de 
22 de P^evereiro do ano seguinte, a-fim-de tratar com 
êle as condições da proposta, mas, já se vê, ficou tudo 
como dantes; a Câmara com as velhas prerogativas da 
sujidade das ruas, Bacon com o seu projecto e Mr. Car- 
loshay com as suas cinquenta mil libras esterlinas. 



O terceiro projecto apareceu dois anos depois, em 
1847, subscrito por um tal Francisco Martins, a que o 
conhecido engenheiro Pezerat fêz uma memória adicio- 
nal em 24 de Julho desse ano. Não foi aceito. 

Depois amiiidaram-se as propostas. De 1847 a 1849 
foi um dilúvio de projectos e de planos, resolvendo o 
Governo, atrapalhado com tão variadas iniciativas, abrir 
concurso público que veio no Diário com data de 18 
de Agosto de 1849. [Caso extraordinário! ficou de- 
serto, mas as propostas continuaram com tal insistência 
que foi nomeada uma comissão com o fim de aprecia- 
das. Essa comissão deu o seu parecer em 28 de Ju- 
nho de i85o, considerando como mais vantajosa a pro- 
posta apresentada pela firma Frederico Braithloaite 
& Filhos. Chegou a fazer-se um projecto de contrato. 

Não se ultimou por reclamações dos outros con- 
correntes que se julgaram lesados. 

Em i832, saiu o decreto de 22 de Dezembro abrindo 
novo concurso para abastecimento da capital, mas a 
imprensa fêz um barulho medonho contra algumas das 
bases apresentadas e tudo ficou em nada. \ Sempre a 
maldita política (i) 1 



(i) Memoria sobre as Aguas de Lisboa, por A. Pinto de Mi- 
randa Montenegro, pág. 48-33. 



429 



Finalmente a lei de 2? de Julho de i855 autorizou 
o Governo a contratar o abastecimento de águas da 
capital e a sua distribuição aos domicílios, sendo ouvida 
a Câmara e a secção administrativa do Conselho de 
Estado. 

Em i3 de Agosto fêz-se um contrato provisório com 
Duarte Meddlicot, Tomaz Runball e outros, que se obri- 
garam a fornecer, pelo preço máximo de dez réis, 
5.922.000 canadas de água para chafarizes e usos do- 
me'sticos, além da que fosse necessária para os gastos 
do município (i). 

Ao concurso realizado em 27 de Setembro do mesmo 
ano, apareceram três propostas, as quais foram de 
Duarte Cardoso de Sá, de Duarte Meddlicot e de uma 
sociedade formada por Alberto Carlos de Cerqueira 
Faria, João Pedro da Costa Coimbra e Jacinto da Silva 
Falcão. O Governo aceitou esta líltima por lhe parecer 
mais vantajosa. Aprovou-a o decreto de 28 de Janeiro 
de i856(2). Depois surgiram dúvidas, os proponentes 
tentaram fazer alterações ao seu plano, vindo o con- 
trato somente a realizar-se dois anos depois, em 29de 
Setembro de i858, sendo aprovado por decreto de 3o 
do mesmo mês e ano. 

Em 1859 fizeram-se obras na Casa da Agua e arcos 
das Amoreiras as quais encheram de entulhos as ruas 
próximas. 



(i) Memoria sobre as Aguas de Lisboa^ pag. 71-72. 

(2) Em i856, o major de engenheiros José Carlos Conrado de 
Ghelmicki foi encarregado pelo Governo de levantar a planta do 
Aqueduto. . 



43o — 



Começaram logo os estudos acerca das águas a 
aproveitar para a execução do seu plano. 

Pezerat, que então era engenheiro da Câmara, fez 
uma proposta de aproveitamento de diferentes águas 
para o abastecimento da cidade, mas como ela exigia 
duplas tubagens e não oferecia água certa nem sufi- 
ciente, foi rejeitada. 

Veio então, convidado pela Companhia, o distinto 
engenheiro francês Mary, uma notabilidade indiscutí- 
vel. Procedeu a diferentes estudos, com uma certa 
pressa, e acabou por propor a construção de um aque- 
duto aproveitando as nascentes da Mata, fundando-se 
mais do que na sua ciência, nas medições feitas ante- 
riormente pelo capitão Rola. Carlos Ribeiro, consul- 
tado sobre o assunto, pronunciou-se abertamente contra 
lai projecto e tal traçado no seu valioso relatório(i), mas 
a empresa, subjugada pela fama de que Mary vinha 
precedido, não fêz grande caso dos conselhos desse 
autêntico sábio que foi Carlos Ribeiro, e mandou exe- 
cutar o projecto do engenheiro francês. 

As obras feitas foram as seguintes : -^ Aqueduto da 
Maia e o seu ramal do Bronco, os sifões da Porca- 
Ihola e da Penha de França ; os reservatórios do Pom- 
bal, 'do Arco da Penha de França, da Patriarcal e 
da Verónica, e a canalização dentro da cidade. 

Os anos de í85o e i8õi foram de grande seca, fal- 
tando muitos dias a água em Lisboa. 

Todas estas obras, verificou-se^depois, não podiam 
produzir nem metade da água (ii.Soo metros cúbicos 



(i) Memoria sobre o abastecimento de Lisboa, com aguas de 
Nascente e de Rio, etc, por Carlos Ribeiro. 



— 43i — 

diários) a que a empresa se tinha obrigado. Em vista 
disto foi-liie exigido, por portaria de 20 de Dezembro 
de 1862, que declarasse os recursos que possuía para, 
no prazo de quatro anos, obter a quantidade de água 
ajustada. 

Em 27 de Janeiro do ano seguinte fêz a empresa 
uma proposta para novas obras, e cm 3i de Julho pe- 
diu mais seis meses para elaborar os respectivos pro- 
jectos. Nada foi aceito, e o Governo comunicou à em- 
presa que se no prazo referido não fossem presentes 
os projectos e orçamentos daquelas obras, lhe imporia 
a multa mensal de oito contos de réis, durante seis me- 
ses, findos os quais lhe seria rescindido o contrato. 

A empresa ainda renovou a proposta em 21 do 
mesmo mês, pedindo uma prorrogação de prazo, mas 
uma comissão, nomeada pelo Governo para a examinar, 
declarou que tal proposta não podia ser aceita, pois a 
Companhia nem mesmo podia contar com as águas do 
aqueduto da Mata, que estavam embargadas judicial- 
mente. 

Como a estiagem se anunciava ameaçadora, saiu o 
decreto de 8 de Agosto de i8ò3, mandando proceder 
a expropriação de todas as águas e obras que a Com- 
panhia havia levado a cabo, sendo a rescisão do con- 
trato feita, por decreto de 28 de Junho, depois de com- 
plicadas questões judiciais. 

Assim acabou a primeira Companhia das Águas (i). 



Em execução da portaria de 25 de Junho de 1864, 
o engenheiro Nunes de Aguiar tomou posse de todas 



(i) Citada Memoria das Aguas de Lisboa, por A. Pinto de 
Miranda Montenegro, pág. 80-82. 



— 4^2 — 

essas águas, obras e materiais, a-fim-de as entregar ao 
Município, consoante a letra do contrato, ficando o 
mesmo engenheiro encarregado dos estudos, projectos 
e orçamentos para abastecimento da cidade. 

Posta de parte a Câmara para a administração da 
herança da Companhia, hesitou o Governo em tomar 
tal encargo ou em fazer novo contrato. A Câmara 
optava pela primeira resolução, mas o Conselho de Mi- 
nistros pusera-a de parte. Quando o Município resol- 
veu aceitar tal administração depois de novo convite do 
Governo apareceu a proposta de uma outra Compa- 
nhia, à frente da qual estava o activo e inteligennte 
Dr. Carlos Zeferino Pinto Coelho e, depois de nova 
consulta, foi lavrado o contrato provisório de 27 de 
Abril de 1867 com a nova empresa, que só veio a cons- 
tituír-se em 2 de Abril do ano seguinte, sendo-lhe, em 
1 1 do mesmo mês, entregue pelo engenheiro Aguiar 
tudo de que tomara posse em nome do Governo. 



Durante a administração do Governo fizeram-se 
algumas obras, a mais importante das quais foi a con- 
clusão do aqueduto da Buraca. Dispenderam-se nelas 
cerca de cento e vinte nove contos de réis, sendo perto 
de quarenta e cinco empregados em reparar os innú- 
meros defeitos das canalizações, mandadas fazer pela 
primeira Companhia. 



Formada a segunda empresa, apresentou esta à 
aprovação do Governo o projecto já elaborado para o 
levantamento das águas orientais. Tendo terminado a 



( 432 a> 




— 433 — 

pendência com o Município, acerca do excedente destas 
águas, e sendo aprovado o supradito projecto, começa- 
ram logo os trabalhos construíndo-se o reservatório da 
Praia e fazendo-se a condução das águas para o da 
Verónica, que foi alargado. Em 1869 estava esta obra 
concluída. Esclarecidos depois com o Governo alguns 
pontos do contrato, mandou-se vir de França o hidro- 
-geólogo francês Richard que, após diferentes pesquisas, 
apresentou um projecto em i de Julho de 1869, àcêrca 
do aproveitamento das águas altas e baixas que obser- 
vara nas proximidades de Lisboa. 

Em 23 de Abril já a Companhia tinha apresentado 
ao Governo o projecto das obras do Alviela e pedido, 
ao mesmo tempo, permissão para elaborar novos planos, 
o que o Governo autorizou ^ov portaria de 10 de Agosto, 
prorrogando o prazo dado por mais um ano. 

Postos de parte dois planos apresentados por enge- 
nheiros seus, a Companhia mandou elaborar em pro- 
jecto o plano de Richard, vendo o bom resultado de 
algumas sondagens feitas, e apresentou-o em 25 de 
Abril de 1870. 

Finalmente, ^ov portaria de 18 de Agosto do ano 
seguinte, mandou o Governo começar a construção do' 
canal do Alviela, sendo por outra portaria de 3 de Ou- 
tubro resolvida uma reclamação da Companhia àcêrca 
da secção que deveria ter o canal de abastecimento. 

Iniciou-se a construção do canal em 28 de Dezem- 
bro, na ilha do Grilo em Xabregas. 

Não ficaram, pore'm, removidas e esclarecidas todas 
as dúvidas e dificuldades. O Governo mandou suspen- 
der as obras dos encanamentos particulares, em 1873, 
e a Companhia entendeu dever paralisar os seus traba- 
lhos. Houve, em 1874, uma sensível baixa de águas 
que obrigou a suspender-se parte do abastecimento da 
cidade, e o Governo viu-se obrigado a impor uma multa, 
voL. IV a8 



— 434 — 

à Companhia, de cinco comos de réis {portaria de i3 
de Agosto de 1874) por cada mês de demora no cum- 
primento das obrigações contraídas. Recorreu-se ao 
Tribunal Arbitral, em Setembro desse ano, e sendo a 
a Companhia absolvida da multa, continuaram os tra- 
balhos do Alviela e reservatório dos Barbadinhos. 

Ainda houve protestos e questões, mas a-pesar-disso 
e das cheias de 1876 e 1877, concluíram-se as obras 
em 1880(1). 

Em 3 de Outubro desse ano foi inaugurada a entrada 
em Lisboa das águas do Alviela, benzidas solenemente 
pelo arcebispo de Lacedemónia. Depois da ceremónia 
religiosa, El-Rei D. Luiz, perante a numerosa assistên- 
cia que enchia o vasto recinto, galhardamente orna- 
mentado, levantou a adufa do sifão )unto ao grande 
reservatório da chegada e, pouco depois, começaram a 
correr nos canos gerais as desejadas águas. 

Das ceremónias oficiais, do profuso banquete que 
o bom Ferrari forneceu, dos vivas e dos foguetes e do 
enorme entusiasmo dos assistentes, dão larga notícia os 
jornais do tempo. A eles remeto o leitor. 



Tratei, e muito superficialmente, apenas a parte his- 
tórica do assunto. Muito havia a dizer acerca da parte 
técnica e descritiva, mas essa não tem cabimento neste 
livro onde, mesmo o que deixei escrito já representa 
talvez uma larga divagação, mas não me despedirei 
das Aguas Livres^ sem falar dos suicídios dos arcos 
da ribeira de Alcântara ou dos pretensos crimes do 



(i) Memoria sobre as Aguas de Lisboa, já citada, pág. io3- 
.ii3." 



— 435 — 

famigerado e tristemente célebre Diogo Alves, como a 
opinião do povo queria que fossem. Vamos ao caso. 

Aí por 1839, começou a cidade a andar alvoroçada 
com o frequente aparecimento de cadáveres sob os 
arcos grandes da ribeira de Alcântara. Raro era o dia 
em que isso não sucedia. A opinião geral era que se 
tratava de suicídios, mas pouco depois tomou novo 
curso, e a crença de que tais sucessos se não deveriam 
atribuir a suicídios, mas sim a crimes sucessivos, entrou 
a dominar o espírito da pacata Lisboa. O criminoso 
apontava-se : — era Diogo Alves. 

O povo que facilmente aceita tudo o que o impres- 
sione, sempre propenso a coroar de lendas trágicas os 
acontecimentos inexplicáveis, tanto se arreigou a esta 
idea que ainda hoje a vemos campear, embora nada 
haja que a Justifique. 

Da sentença de Diogo Alves nada consta com refe- 
rência aos falados crimes dos Arcos das Aguas Livres. 

Fosse como fosse, suicídios ou crimes, o facto é 
que tais sucessos lograram levantar uma campanha 
contra a livre passagem pela galeria superior dos Ar- 
cos, com que se encurtava o caminho, dos çaloios de 
Belas e de Queluz, para a cidade. A frente dessa 
campanha esteve Castilho, o grande Castilho, nas co- 
lunas da Revista Universal Lisbonense. Uma corpo- 
ração oficial coadjuvou-o eficazmente. Foi a Junta de 
Paróquia de São Sebastião da Pedreira. 



Em Junho de iSSg, já tinham chegado a setenta e 
e seis os suicídios nos Arcos. Nos primeiros dias desse 
mês haviam-se verificado mais três desses trágicos 
casos, e a benemérita Junta Paroquial representou à 



— 4^6 — 

Gamara, lembrando a colocação de um gradeamento 
de ferro que vedasse a passagem às arremetidas dos 
desesperados da vida. Mandou a Câmara fazer o orça- 
mento, mas como a quantia de 13.217ÍÍ016 réis se jul- 
gasse excessiva, foi a lembrança posta de parte, limi- 
tando-se a Câmara a pedir ao Governo Civil que ali 
mandasse colocar um guarda para vigilância. Também 
isto se não conseguiu. 

Em 1844, finalmente, fechou-se a passagem com 
cancelas de ferro. Até 1847 ^^^ ^^ mecheu mais no 
assunto. Neste ano, Manuel Gomes de Miranda, como 
Procurador dos habitantes de Bemfica e do Calhariz 
protestou contra a vedação, pelo muito transtorno que 
isso causava a essas povoações. A Câmara mandou 
informar o vereador João Coelho de Abreu e este ca- 
marista, numa judiciosa exposição, aconselhou a que a 
passagem continuasse fechada. Foi isto em Janeiro de 
1848. 

Passados três anos sobre a proibição, acumularam-se 
de tal forma as reclamações que a Câmara por edital 
de 17 de Setembro de i85i, determinou atender em 
parte os reclamantes, abrindo a passagem, do nascer do 
sol às Ave-Marias. A Junta Paroquial de São Sebas- 
tião melindrou-se e requereu, de novo, o encerramento 
da passagem que veio a realizar-se no ano seguinte, a 
repetidas instâncias daquela corporação, e com o auxi- 
lio do vereador Geraldes Barba. A sessão da Câmara 
em que resolveu o definitivo encerramento da galeria 
dos Arcos, foi a de 12 de Agosto de i852(i). 

E acabou-se. 



( i ) Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa — Sinopses e 
extractos das sessões da Camará, anos de i835-i852. 



— 43? 



Algumas notas ainda : 

Em Novembro de 1846 foram concedidas à Câmara 
seis figuras de pedra que estavam em depósito na Re- 
partição das Aguas Livres. Parte delas ainda lá fica- 
ram e foram depois para o Jardim da «Casa da Água» 
das Amoreiras. São, uma Verdade, dois Tritões, duas 
Sereias e duas Carra7icas{\). 

Talvez devessem pertencer à estupenda concepção 
do chafariz projectado para o Campo de Santana em 
1788 e que não chegou a levar-se a cabo. A esse monu- 
mento pertenciam o Tc/o e o Douro que estiveram no 
Passeio Público e hoje estão na Avenida da Liberdade, 
outras quatro figuras que adornavam os lagos do Pas- 
seio, os quatro golfinhos que ornam o chafariz de Be- 
lém e as carrancas que serviram para o de Alcântara. 

O Téjo e o Douro foram esculpidos por Alexandre 
Gomes, assim como os Tritões e as Sereias, no fim 
do século xviii e acabados cerca de 1844 pelo escultor 
João Gregório Viegas (2). 

Em 18S1 a Câmara cedeu a estátua do Neptuno 
que estava no antigo chafariz do Loreto e se empres- 
tara à Associação dos Arqueólogos, para ser colocada 
no reservatório da Calçada dos Barbadinhos (3). 

A Vcjius do chafariz das Janelas Verdes foi feita 
pelo escultor António Machado (/j). A entrada do Pas- 



(i) Arquivo, etc, ano de 1845. 

(2) Elementos para a Historia do Município de Lisboa, tomo 11, 
nota de pág. Si-Sg. 

(3) Secção Há guarenta anos, do Diário de Noticias de 20 de 
Agosto de 1921. 

(4) Elementos, citada nota do tomo 11. 



— 438 — 

seio dos Arcos, está, horrorosamente mutilada, sem o 
braço que devia empunhar a espada, a estátua de um 
guerreiro romano que, na sinistra, sustenta um escudo 
com as quinas. Aos pe's tem um troféu feito de um 
tambor, bandeiras, espadas, etc. Deve ser a falada 
estátua do cinzel de Alexandre Giusti a que Veloso de 
Andrade se refere. 

O guarda do Depósito das Águas da calçada da 
Quintinha, aponta-a, enfaticamente, aos visitantes como 
sendo a real Jigura do senhor pai do senhor D. José I. 

j Oh eruditismo dos cicerones ! 



Nestes últimos anos lem-se sentido sensivelmente, 
mal chega o verão, a falta de água. Se não fora o 
reservatório da rua da Prata, ter-se-iam deixado de 
regar, nalguns verãos, as ruas e os jardins. 

Tendo em atenção caso tão importante, por jt^or/a- 
ria de 25 de Julho de igi3 o, então titular da pasta do 
Fomento, engenheiro sr. António Maria da Silva, no- 
meou uma comissão para proceder ao estudo de tão 
momentoso assunto. Tal comissão, apresentou, a seu 
tempo, um belo relatório, subscrito pelos srs. Ramos 
da Costa, António Parreira, Rodrigues Simões, Antó- 
nio Torres, Santos Lucas, Paulo Chofat e Artur Cohen. 

Nesse documento propõem-se cinco soluções, tendo 
a primeira quatro variantes e a segunda três. 

As referidas soluções foram estas : 

I.* Abastecimento com águas de nascente; 2.^ com 
águas do Tejo ; 3.* com águas de drenagem ; 4.^ com 
albufeiras ; e 5.° com águas artesianas. 

Não cabe aqui o extracto das considerações feitas 
pela comissão acerca de cada um dos projectos. Direi 



— 4^9 — 

apenas que tal relatório se conclui por propor, como 
obra mais urgente, o aumento de secção do canal do 
Alviela, deixando à escolha do Governo qualquer das 
soluções apresentadas para remediar a escassez de água 
das nascentes durante os meses de verão. 

Essas obras de aumento da secção do Alviela esta- 
vam então orçadas, pela Companhia das Aguas, em 
duzentos e quarenta contos de réis ; hoje deverão custar 
vinte a trinta vezes mais. 

Esta momentosa questão em que se têm degladiado 
tanta vez a Câmara e a Companhia das Águas, mere- 
ceu do actual Governo dois decretos (Novembro de 
1932) em que se estabelecem as bases do abastecimento 
de águas à cidade, e se prevêem as hipóteses de ser 
feito novo contrato com a Companhia concessionária, 
ser resgatada a concessão ou passar-se a outra enti- 
dade o encargo de nos dar de beber e de nos lavar. 

,; Ficará resolvido o problema ? 

E difícil responder. 

O que há de absolutamente certo é que a água não 
chega e ainda por cima é má. 

Quanto ao mais é tudo duvidoso. 



CAPITULO XIX 



Sumário : São João dos Bemcasados — Refere-se a história da fun- 
dação da ermida de Nossa Senhora da Boa Sentença — A 
promessa de um soldado de Alcácer-Quibir — As nove invoca- 
ções de Nossa Senhora — Funda-se a ermida do Cabeço do 
Alperche — A imagem de São João Baptista — Em que se 
procura a razão do nome de São João dos Bemcasados — 
Pede-se auxílio a Diogo de Paiva de Andrade e aD. Francisco 
Manuel de Melo — O «assento» da Câmara de i385 contra a 
barriguice de casados. — A quem pertencia a capela no sé- 
culo xvin — Dois esboços topográficos — É demolido o tem- 
plozinho — A casa nobre dos Anadias — Serve de hospeda- 
gem ao infantinho D. Carlos — Notas biográficas deste prín- 
cipe — Frequentes visitas régias a São João dos Bemcasados 

— Invocam-se as figuras do «César polvilheiro» e da «Mulher 
do cavalo branco» — Passa a casa ao Secretário de Estado 
Aires de Sá e Melo — Reside lá D. Joana Perpétua de Bra- 
gança — Notas biográficas desta fidalga — O seu sumptuoso 
e festejado casamento — As dívidas do Marquês de Cascais 

— Arde o palacete de São João dos Bemcasados em 1780 — 
Hospeda-se D. Joana Perpétua no convento do Rato — Morre 
em 1785 — A sua notável correspondência com D. João Carlos 
de Bragança — Precioso repositório de notícias do tempo — 
Outros hóspedes reais em São João dos Bemcasados — Algu- 
mas palavras sobre os Anadias — Alojam-se no palacete um 
general francês em 1808 e os generais ingleses em 1811 — 
Obras em 1S21 e i83o — Outros moradores — A moderna 
capela da casa Anadia — Enumeram-se os seus quadros e 
imagens. 

Estamos diante de São João dos Bemcasados. 

Aqui há cinquenta anos ainda era sítio arredio e 
campesino e, há pouco mais do dobro, aconselhava se 
como excelente paragem para os anémicos, uma ver- 



~ 442 — 

dadeira estação de cura pelo ar lavado e puro, como 
hoje se aconselham Belas ou Canecas. Prová-lo-emos 
a seu tempo. 

A primeira vez que vejo mencionado graficamente 
este local é ao começar do décimo sétimo século. 

Anteriormente a 1618 não encontrei vestígios de 
tal designação que, em meu entender, deve remontar 
de mais longe, pelo menos do terceiro quartel do sé- 
culo anterior. E vou tentar demonstrá-lo. 



Entre os soldados do luzido mas escasso exército 
com que D. Sebastião se propunha a lançar as bases 
de um sonhado império africano, contava-se um ar- 
tífice lisboeta, de nome António Simões, oficial de 
doirador, que trocara, em serviço do seu aventuroso 
monarca, o pincel doirado com que lustrava imagens e 
altares pelo arcabuz pesado dos peÕes da jornada de 
Alcácer. 

Sucedeu-lhe o que a centenas de soldados aconte- 
ceu também. No meio do desbarato total, cercado 
de nuvens de moiros, cego pelo fumo e pela cólera, 
mil vezes defrontando a morte, o artífice alfacinha viu-se 
perdido e tão perto do fim que, acordando-lhe no cora- 
ção a ideia de Nossa Senhora, prometeu, entre o es- 
trugir da arcabuzada, fazer-lhe nada menos do que nove 
imagens com diferentes invocações. ] Original e com- 
plicada promessa ! António Simões, livre de tão grande 
aperto e escapo do cativeiro, mal chegou à sua amada 
Lisboa começou a cumprir a promessa, iniciando a fei- 
tura das imagens o que nos dá a entender que o artí- 
fice, além de doirador era também «imaginário» ou 
santeiro como hoje se diz. 



-443 - 

A oitava imagem que saiu das suas mãos devotas 
foi a de Nossa Senhora da Penha de França, invoca- 
ção castelhana que lhe foi sugerida pelo famoso pa- 
dre-mestre Inácio Martins, o mestre Inácio da Car- 
tilha. 

Desejou António Simões construir para esta. Senhora 
uma ermida especial, afervorado em amor súbito por 
ela, e entrou a procurar sitio apropriado para a sua 
construção, pondo-a entrementes, ao culto dos fiéis, na 
ermida da Vitória, Juntamente com uma outra imagem 
de São João Baptista. 

Enjeitado, ignoro porquê, o sítio de Vale de Ca- 
valinhos e acertando o Simões de ver o pitoresco local 
do cabeço do Alperche que era de um Afonso de Tor- 
res de Magalhães, tanto lhe agradou o alto, a cavaleiro 
da cidade, que logo entrou em tratos com o proprie- 
tário que estava por sinal sofrendo nessa ocasião de 
uma impertinente dor de cólica. 

l Mas o que terá isto com São João dos Bemcasados ? 
preguntará certamente o leitor. Já vamos ver como 
tudo se liga estreitamente. 

Deixou o Simões a imagem do São João Baptista 
em casa de Afonso de Torres, como penhor (diz o 
cronista desta história) e foi com ele ver de perto e 
com atenção o sítio do Alperche. Aconteceu — estas 
coisas aconteciam sempre quando eram precisas — que 
D. Constança de Aguiar, mãe do fidalgo se apegou à 
imagem da Nossa Senhora da nova invocação para que 
lhe curasse o filho, Já desiludido de melhorias. Afonso 
de Torres afervorou-se em pedidos com sua mãe e ce- 
deu o terreno, de que era proprietário, para a constru- 
ção do templo em troca da sua cólica. 

A ermida construíu-se e o fidalgo guareceu. 

Foi lançada a primeira pedra do templozinho, em 
têrça-feira , dia de Nossa Senhora da Encarnação de 



— 444 — 

1 597 (O? assistindo à ceremónia o padre Inácio, o Simões 
e Afonso de Torres, sendo a Senhora trasladada da 
ermida da Vitória na tarde de lo de Maio do ano se- 
guinte. 

Construíuse a ermida e depois a igreja que a subs- 
tituiu com esmolas dos fiéis, doando-a mais tarde An- 
tónio Simões, aos eremitas da Graça. E lioje o con- 
vento de Nossa Senhora da Penha de França (2). 

l E a imagem de São João Baptista ? 



Viu-se o doirador e santeiro bastante embaraçado 
para colocar as suas oito imagens em templos que lhe 
fossem apropriados. Ao concluir a nona que deno- 
minara de Nossa Senhora da Boa Sentença deliberou 
construir-lhe, como à anterior, casa própria e escolher 
para tal fim um sítio arredio, saiidável e magnifica- 
mente situado em pleno arrabalde de Campolide. De 
quem era isso então, não o pude apurar, e apenas sei 
que em maior antiguidade passava ali perto a linha 
que limitava a vetusta e vasta freguesia dos Mártires, 
cuja marcação fora feita, em 1476, por Gomes de Paiva 
e Luiz Anes, vigários, para esse fim comissionados pelo 
Cardial D. Jorge da Costa (3). 



(i) Corografia Portuguesa, pelo Padre António Carvalho da 
Costa, pág. 420-421 do terceiro volume, e Santuário Mariano, 1. 1, 
pág. 144-157. 

(2) Na pedra fundamental da ermida encontravam-se escritas 
as palavras Jesus, Maria e Avante, que mais de uma vez têm apa- 
recido gravadas em diversos locais. Vide sobre este assunto o 
que diz o autor da Lisboa Antiga, pág. 28-29 do terceiro volume 
do Bairro Alto. 

(3) Demonstração Histórica, por Frei Apolinário da Concei- 
ção, pág. 175 e segs. — Edição de 1750. 



— 445 — 

Fêz-se a ermida em i58i, antes que tivesse casa 
«Nossa Senhora da Penha» e para lá foi a imagem 
acompanhada pela de São João Baptista que servira 
de penhor em casa de Afonso de Torres e estivera 
com aquela na ermida da Vitória. Ora aqui começa 
a embrulhada. 

^ Seria a imagem de São João, uma das nove fabri- 
cadas por António Simões? Se assim é não cumprira 
êle integralmente a promessa feita nos campos de Al- 
cácer. 

l Seria ela alguma antiga imagem da devoção do 
doirador ? Parece-me mais provável esta hipótese. Que 
era dele não deve haver dúvida, pois se assim não fora 
a não utilizara como penhor. Fosse como fosse, o certo 
é que o nome de São João prevaleceu ao da Senhora 
da Boa Sentença e a ermida, construída para ela ficou-se 
chamando de São João — de São João dos Bemcasados 
— a não ser que tal nome já existisse no local do tem- 
plozinho de António Simões. 

l Mas dos Bemcasados, 'porquê ? Eis, outro pro- 
blema. 



Em 1626 o, mil vezes citado, autor da Descripção 
métrica de Lisboa, escreve referindo-se à ermida : 

São João dos Bemcasados 
Esta hermida se frequenta 
de poucos por que é de poucos 
Devendo ser todos delia 

o que dá a entender ainda o pouco povoado que era 
o local e a distância a que ficava da cidade, não per- 
mitindo o concurso de povo que ela merecia. 

Assaltou-me, ao obter estas notícias, uma curiosi- 



— 446 — 

dade enorme de explicar esta invocação da imagem de 
São João. j São João dos Bemcasados ! i Pois não é 
tão interessante esta denominação ? 



Lancei-me logo em inculcas. 

No Casamento Perfeito de Diogo de Paiva de An- 
drade (sobrinho) não me admirei de cousa alguma en- 
contrar sobre o assunto. Diogo de Paiva, aferrado a 
sentenças latinas e a escritores gregos, quando cita 
algum exemplo ou faz uma referência é sempre com as 
vistas nos filósofos de outras eras e pondo em foco as 
Cornélias, os Odoaldos e os Temistocles, quando não 
traz à balha, Vénus, Saturno, Juno e toda a mitologia 
em peso. O que muito me espantou foi D. Francisco 
Manuel que era um galante, um mundano, que detes- 
tava toda essa máquina de erudição, como êle próprio 
o dizia (i), e escrevia com frequentes alusões a factos, 
costumeiras e coisas do seu tempo, ter emmudecido em 
tal matéria. A sua deliciosa e pitoresca Carta de Guia 
de Casados, nem ao de leve, deixa suspeitar a existên- 
cia desse patrono dos matrimónios felizes, habitando 
uma ermidinha às abas da cidade. 

Bem se podia o povo de Lisboa apegar a tão ca- 
seiro santo. 

Desde tempos antigos que os mal casados abunda- 
vam na capital. Houve tempos de tanto desaforo que 
se tornou mister estatuírem-se penas para tão maus 
procedimentos. 

O assento da Câmara, cujas resoluções foramconfir- 
madas por carta do mestre de Aviz, dada em Santarém 



(i) Carta de Guia de Casados —Edição de 1827, 



— 447 — 

em 3 de Novembro de i385, arbitrou graves multas 
contra a barriguice de casados pecado t?iui proviço e 
i?iui usado em esta cidade^ diziam os munícipes (i). 

Na igreja de São Francisco do Porto, havia uma 
irmandade de «São Francisco dos Bemcasados» que 
figurava antigamente em todas as procissões de quarta- 
-feira de cinzas. Em Elvas existiu também uma capela 
de «Santa Maria dos Bemcasados» (2). 

Há, decerto, neste apodo invocativo uma qualquer 
justificação e entre as três invocações uma relação es- 
treita. Qual é ela, é que eu ignoro. O Espelho de 
Casados do Dr. João de Barros, permaneceu tão mudo 
às minhas interrogações, como a Carta de Guia e o 
Casamento Perfeito^ e como o Regimento de Casados, 
folheto publicado em 1773. O São João dos Bemca- 
sados continua impenetrável. 

Carvalho da Costa, na sua Corografia, chama a este 
ponto arrabaldino : «... o logar de S. João dos Bem- 
casados onde está hua ermida de S. João Baptista com 
N. SenJiora da Bòa Sentença, image?n milagrosa cuja 
igreja he sujeita a Malíay){3). 

Parece, por esta forma de dizer, que não foi o tem- 
plo que baptizou o local, mas que, exactamente, se d.eu 
o contrário. 



(i) As penalidades eram estas: Para homem casado que 
tivesse barregã, a multa de cinquenta libras, à primeira vez; à 
segunda, cem libras, e à terceira, privança na administração de 
todos os bens. Para a mulher, vinte e oito libras de multa, pela 
primeira infracção, e, pela segunda, degredada com pregão na ci- 
dade e termo {Memorias para a Vida de ElRey D. João I, por 
José Soares da Silva — Documento Sy, tomo iv, pág. 359-371. 

(2) Notas Historico-Militares da guerra velha até á Invasão 
Francesa, publicadas por A. Tomaz Pires, pág. gg — Colecção do 
«Correio Elvense» e Teatro das antiguidades de Elvas, por Aires 
Varela, pág. 73-74 — Edição do mesmo jornal. 

(3) Volume iir, pág. 42g. 



-448- 



Tanto a quinta de São João como as propriedades 
que lhe eram contíguas pagavam o dizimo à paróquia 
dos Mártires desde tempos remotos (i). 

Em 1762 já a maior porção da quinta tinha outros 
senhorios e o resto fraccionara-se em quintalões e lo- 
gradoiros de novas edificações locais. A volta de 1884 
foi a ermida de São João, demolida, utilizando-se o 
seu entulho nos alicerces de novas casas. A razão da 
demolição foi, naturalmente, o facto dela estar impe- 
çando a rua do seu nome, saindo fora do moderno ali- 
nhamento (2), podendo também ser para alargamento 
do palácio contíguo. 

Do destino das duas imagens de António Simões, 
nada sei. 

Não logrei topar com descrição do templozinho, 
fosse ela qual fosse. Ao laborioso Gonzaga Pereira 
não sobrou o tempo para, em 1840, fixar pelo seu lápis 
fiel, as ermidas e capelinhas da cidade, de sorte que 
nem o seu aspecto exterior me é permitido esboçar 
aqui. 

O sítio exacto onde a ermida ficava é que chegou 
ao meu conhecimento por informação do erudito e in- 
cansável investigador que foi o general Brito Rebelo, 
corroborada pela indicação fornecida pela planta de 
1807, do engenheiro Fava. 



(1) Demonstração Histórica do Templo de Nossa Senhora 
dos Mártires, por Frei Apolinário da Conceição, pág. ij5 e segs. 

(2) Esta ermida, diz o Padre Luiz Cardoso, pertencia à ordem 
de Malta. Algumas diligências que Hz na Torre do Tombo, para 
apurar, nessa fonte, alguma indicação, resultaram infrutíferas. 

A fachada da ermida ficava voltada ao nascente. 



— 449 — 

Ficava ao princípio da actual rua de São João dos 
Bemcasados, indo das Amoreiras, ressaltando do alinha- 
mento da fachada da casa nobre dos Anadias. 

A indicação topográfica das plantas pombalinas é 
bastante confusa, dando idea de haver no local um beco 
sem saída, todo cheio de recantos, ao fundo esquerdo 
do qual parece assentar o templo. 

Essas casas nobres dos Anadias que hoje tornejam 
para a rua das Amoreiras, ostentando a meio do fron- 
tão do corpo central o brazão dos Sás(i), têm larga e 
nobilíssima história. Vou contá-la. 



Tudo isso era muito diferente do que é hoje. 

A capela suburbana pertencia no primeiro quartel 
do se'culo XVIII às casas e quinta do mesmo nome de 
São João, que eram dos herdeiros de um Gonçalo 
de Almeida, cavaleiro de Malta, senhor da Casa da 
Cavalaria em São Pedro do Sul, irmão de Manuel An- 
tónio de Almeida, um dos valentes batalhadores da 
Nau Pilar no Cabo Matapan(2). 

Neto de Gonçalo de Almeida, foi Manuel de Sousa 
de Almeida, governador e alcaide-mór de Alfaiates na 
guerra da Restauração, que, enviuvando de D. Brites 
Pereira, casou segunda vez com D. Violante Engrácia 
de Sá, filha de Aires de Sá e Melo e de sua mulher 



(i) Campo enxequetado de prata e azul de seis peças em 
faixa, tendo a meio um peloirinho de prata. Timbre : Um 
búfalo de sua côr enxequetado de prata com uma argola nas 
ventas. 

(2) Summario de Varia Historia, por Ribeiro Guimarães, t. i, 
pág. 17 (Manuscrito do capitão Lourenço Ribeiro Soares). 
voL. IV 29 



— 4^0 — 

Isabel de Melo, senhora da Casa da Anadia, da qual 
teve geração (i). 

Desta ligação é que de-certo reverteu para a Casa 
Anadia o palacete de São João dos Bemcasados. 



Oulro palácio próximo, no portal de São João dos 
Bemcasados, pertencia ao começar esse século a D. Jaime 
de Melo, terceiro Duque de Cadaval, quinto Marquês 
de Ferreira, sexto Conde de Tentúgal, do Conselho de 
Estado e da Guerra, Estribeiro-mór dos reis D. Pedro II 
e João V, e muitas coisas mais. Naturalmente não 
serviriam de moradia à nobre família que possuía além 
do seu palácio do Rossio, a vasta e luxuosa residência 
de Pedroiços, onde passava o verão e onde dava des- 
lumbrantes festas com fidalga frequência. 

Por morte do Duque D. Jaime, em 29 de Maio de 
1749, íicou tal casa a seu filho D. Nuno Alvares Pereira 
de Melo havido em D. Maria Antónia Josefa de Leão 
Pelegrin (filha de Francisco Leão Pelegrin e de sua 
mulher D. Maria Antónia de Sotomaior) na constância 
do seu primeiro matrimónio com D. Luísa, viúva de 
seu irmão D. Luís Ambrósio de Melo, e filha de El- 
-Rei D. Pedro II. Foi um dos dezoito filhos ilegítimos 
que o Duque teve. 

D. Nuno nascera em i5 de Fevereiro de 1720. Foi 
Doutor em Teologia, Deputado da Santa Inquisição e 
da Mesa da Consciência e Ordens, Cavaleiro Professo 
na Ordem de Cristo, Familiar do Santo Ofício, e do 



(i) Nobiliários manuscritos de Rangel de Macedo, Manso de 
Lima e outros, na Biblioteca Nacional. 



— 4^1 — 

Conselho de Sua Magestade(i). j Ou não fosse êle 
filho de quem era ! 

O palacete de São João dos Bemcasados andaria 
talvez arrendado ou seria temporária residência, pela 
poética solidão do local, de alguma das senhoras a quem 
D. Jaime honrava com o seu afecto. Tudo simples con- 
jecturas. 

De 1757 a 1764 aqui morou D. Nuno (2). E de pre- 
ver que já anteriormente lá residisse, visto que em 1756 
fundou a ermida da Cruz das Almas, pegada a este 
palacete. 



De 1730 a 1732, teve o solar dos Anadias um no- 
tável inquilino : o Infantinho D. Carlos, filho do quinto 
João e da Rainha D. Maria Ana de Áustria. 



O Infante era uma criaturinha de'bi[, olheirenta e 
triste. Sofria horrorosamente de asma e por esta razão, 
durante a sua curta e apagada vida, andou sempre de 
um lado para outro, a conselho dos médicos da Real 
Câmara, a-fim-de ver se a mudança de ares lograva 
aliviá-lo de tal sofrimento. Ora estava em Lisboa, ora 
nas Caldas da Rainha, ora em Cascais a tomar banhos, 
residindo nesta vila em casa do Marquês que lhe era 
muito afeiçoado, ao que parece, assim como sua esposa, 



(i) Habilitações para familiares do Santo Oficio — Processo 
2-35 de Nunes. 

(2) Livros da Superintendência da Decima de Santa Isabel, 
anos citados, e Róis dos Confessados desta freguesia. 



— 4^2 — 

D. Joana Perpétua de Bragança, irmã do Duque de 
Lafões, D. Pedro. 

Em Lisboa, que eu saiba, teve três residências: no 
Palácio Real, na quinta do Malheiro, a que depois me 
referirei, e aqui no palacete de São João dos Bemca- 
sados. 

Diz a Gaveta de Lisboa de 28 de Setembro de 1730: 

Sexta-feira da semana passada, foi a Rainha Nossa 
Senhora, com a prince:{a, o senhor infante D. Pedro e a 
Senhora Infanta D. Francisca, ao sitio de S. João dos 
Bemcasados, onde se achava o principe Nosso Senhor, 
e 77ietendo-se o Senhor infante D. Carlos em uma sege 
de campo, com a Rainha Nossa Senhora ; e montando 
as ?nais pessoas reaes foram ver a quinta dos Padrões 
da Companhia de Jesus, no sitio de Campolide. 

A Gaieía de 16 de Fevereiro do ano seguinte in- 
forma também : 

Na segunda feira, foi a Rainha Nossa Senhora com 
a Senhora Princeia ao Com'ento das Religiosas Tri- 
nas de Nossa Setihora dos Remédios de Campolide e 
de ali a S. João dos Bemcasados visitar o infante 
D. Carlos. 

Assim falava o Carnet Mondain do século xviii. 

Certamente estas visitas se teriam repetido mais 
vezes. O solitário local, dominando uma boa porção 
da cidade, lavado de puríssimos ares, devia de ser, a 
miúde, frequentado pelos coches e cavaleiros das reais 
comitivas. 

D. Maria Ana de Áustria vinha buscar o infante a 
passear à Tapada ou visitá-lo simplesmente. De quando 
em quando entraria a Rainha, que tão mal casada era, 



-4^^ - 

na ermida vizinha a fazer oração a «São João» ou a 
«Nossa Senhora da Boa Sentença». D. João V viria 
menos vezes. Preferia o caminho do Arco do Cego à 
estrada de Campolide. 

De 1782 em diante nada encontro que justifique a 
estada aqui do Infantinho. Em Setembro desse ano 
estava em Cascais (i). Depois entrou a piorar e mor- 
ria no Paço da Ribeira em 3o de Março de lySõ com 
vinte anos incompletos, pois nascera em Junho de 1716, 
sendo baptizado solenemente a 7 desse mês na Real 
Capela (2). 

D. António Caetano de Sousa, na Historia Genea- 
lógica da Casa Real (3)^ diz-nos a propósito do Infan- 
tinho : que escrevia com muita curiosidado e aceio. 

No tocante a outras prendas, informa-nos de que 
tocava viola com muita dextre\a. O seu precário es- 
tado de saúde não lhe permitira maior ilustração. 

Tenho uma especial simpatia por esta figurinha da 
corte que os achaques trouxeram em bolandas. Não 
sei bem dizer porquê. O Infantinho sofreu muito; so- 
freu sempre. Devia de ser uma boa alma. Não há nada 
como o sofrimento para inspirar boas acções e purificar 
os espíritos. 

Sempre que passo por São João dos Bemcasados 
recordo-me do hóspede dos Lafões e julgo ouvir atra- 
vés do ruído que sobe da rua, o plangente gemer da 
sua viola. 



(i) Gaveta de Lisboa de 9 de Setembro de 1732. 

(2) Idem de i3 de Junho de 1716. Na quarta-feira seguinte 
foi a Rainha a São Roque oferecer o recémnascido ao glorioso 
São Francisco Xavier. A Gaveta de Lisboa de 7 de Abril de 1736 
diz que foi sepultado em São Vicente. 

(3) Tomo VIII, pág. 480 v.° e 481. 



— 4H — 



De 1742 a 1745 residiram neste solar arrabaldino 
o Conde de Unhão, D. José Xavier, a Marquesa D. Ma- 
ria José Francisca Xavier Baltasar da Gama, seus filhos 
D. Bárbara, D. Vasco, D. José, e D. Eugenia, D. Bar- 
bara de Figueiredo, nove familiares, dezassete criados, 
oito escravos e o padre capelão Manuel Esteves Teles. 



Outra figura que eu invoco ao passar por estes sí- 
tios é a do César, polvilheiro, envolto num manto que 
lhe cobria o hábito de burel de penitente, com um enorme 
barrete debaixo do braço, «tão limpo como balança de 
confeiteiro», e uma vara de pau santo, polido, na mão. 
Vagueava de olhos baixos e sem dar razão a qualquer 
elogio por que era vadio acabado. Deixava que o to- 
massem por santo. Mal anoitecia desatava a tocar o 
sino desta ermida ou de outras, amotinava o mulherio, 
aterrava as crianças. O César que tinha sido polvi- 
Iheiro, tratante de cavalos e cavaleiro de toiros a par 
do aFava Seca», do «Almeirãozinho», do «Corcunda» 
ou do «Gaieta» andara fugido não sei porque malefí- 
cios e aparecera então, aí por 1777, arvorado em mila- 
greiro e penitente. Um dia foram lhe à mão e acaba- 
ram-lhe com a imposturice. 

São João dos Bemcasados teve de perder esta figura 
bairrista (i). 



( i) Teatro de Manuel de Figueiredo, tomo xiv, notas, pág. 366 
a 368. 



— 455 — 



A «mulher do cavalo branco» foi outra visão deste 
pedaço do velho Campolide. Ai pelo tempo dos fran- 
ceses andava ela galopando de noite, pelos subúrbios 
menos povoados da capital, vestida toda de branco, 
montada num cavalo branco e seguida por dois preti- 
nhos também vestidos de branco. Os filhos de Agar, 
à guisa de pagens, empunhavam archotes acesos, nas 
noites escuras, j Era uma visão fantástica! O povo 
aterrava-se e fugia, os boatos mais inverosímeis cor- 
riam tanto como ela, e a polícia, Novion, Lannes e Ju- 
not, chegaram a preocupar-se com a alma do outro 
mundo que andava a cavalo. 

Uma vez o Marquesinho de Fronteira, que isto conta 
nas suas Memórias (vol. i.", pág. 828 a 329), ia de 
carruagem com as tias, pelo Arco do Carvalhão, quando 
o fantasma surgiu. O cocheiro, mal a avistou, meteu 
a carruagem a toda a brida para a ribeira de Alcân- 
tara e gritou para dentro, aterrado : 

— ;A mulher do cavalo branco! 

A imaginosa criatura que assim se entretinha, era 
D. Margarida da Cunha, irmã da Marquesa de Alorna. 
Soube-se depois. A polícia acabou por prendé-la e 
Junot encerrou-a num convento. Quando o Fronteira 
a foi encontrar mais tarde, na grade de Cheias, acom- 
panhando a irmã viúva do Marquês que morrera, depois 
da retirada da Rússia, em Hoenigsbergs, de saudade^ 
de frio e de fome, não lhe encontrou vestígios das ex- 
centricidades que a tinham notabilizado. 



^4^6 — 



A casa de São João dos Bemcasados passou, depois, 
naturalmente por herança, a outra figura primacial do 
seu tempo, a Aires de Sá e Melo, Secretário de Estado 
do tempo de Pombal, possuidor de numerosos empre- 
gos e de não menos abundantes honrarias, o qual é 
era sobrinho-neto de D. Violante Engrácia de Sá, mu- 
lher do alcaide-mór de Alfaiates, Manuel de Sousa de 
Almeida (pág. 449, in Jine). Em 1766 já a casa era 
dele, estando avaliada para o efeito da décima, em 
7003í)000 réis de rendimento anual, juntamente com os 
terrenos que lhe pertenciam (i). 

De 1765 até 1785, esteve habitando a casa D. Joana 
Perpétua de Bragança, irmã do Duque de Lafões D. Pe- 
dro Henriques de Bragança Sousa Tavares Mascare- 
nhas da Silva e neta, como êle, do Infante D. Miguel, 
filho legitimado de El-Rei D. Pedro II e da francesa 
Ana Armanda Duverger(2). 

Com ela morou, de 1771 a 1778 pelo menos, sua 
sobrinha D.Ana Rita Quitéria. Nessa época D. Joana 
Perpétua tinha, entre a basta criadagem, um moço de 
cozinha, chamado José do Telhado. Em 1782 mora- 
vam ali também, D. Francisco de Sousa e Silva Me- 
neses e uma filha, o armeiro-mor D. José Francisco da 
Costa e o Duque de Lafões. Este, em 1779 e em 1783 
também lá é dado como residente. 



( 1 ) Livro da Superintendência da Decima de Santa Isabel, 
do ano de 1766. 

(2) Róis dos Confessades da Fraguesia de Santa Isabel. 



— 4^7 



D. Joana Perpétua, nascera em 1 1 de Novembro 
de lyiS numa segunda-feira (i), e fora baptisada com 
singular pompa a 25 de Dezembro seguinte, pelo Car- 
dial da Cunha, no palácio de seu pai, servindo de pa- 
drinho El-Rei e assistindo toda a corte (2). João V pre- 
senteou a afilhada por ocasião da crisma, em 1719, com 
um fio de pérolas de três pingentes, avaliado em trinta 
mil cruzados. Prenda verdadeiramente real (3). 

Em 20 de Setembro de 1738, casou, no palácio dos 
Marqueses de Arronches, ao Carmo, com D. Luiz José 
de Castro Noronha Ataíde e Sousa, quarto Marquês de 
Cascais e décimo Conde de Monsanto. O casamento 
foi motivo de festas esplendorosas que não resisto à 
tentação de descrever por alto. 

Foi madrinha a mãe do noivo e padrinhos seus tios, 
o Marquês de Marialva e o Conde da Ponte. Fizeram 
de «braceiros», da noiva, o Duque de Lafões, e da 
madrinha, Nuno da Silva Teles. Caudatários, foram 
o, depois Duque, D. João Carlos de Bragança e 
D. Pedro de Noronha, senhor de Vila Verde. Recebeu 
os noivos, o pároco do Sacramento, na presença de 
toda a corte, que os acompanhou depois, em carrua- 
gens de gala, até o palácio do Couto de São Mateus, 
em cuja igreja se achava exposto o Santíssimo. Can- 
taram-se as vésperas de São Mateus, padroeiro e pro- 
tector da casa dos Marqueses e depois, no palácio, numa 
sala, de-certo lindamente ornamentada, serviu-se um 
lutich, como hoje diríamos, ou um púcaro de água, como 



(i) Gaveta de Lisboa de 16 de Novembro de iji5. 
(i) Idem de 27 do mesmo mês e ano. 
(3) Idem de 4 de Maio de 17 19. 



- 4^8 — 

era então. Houve doces, frutas, bebidas delicadas, 
água gelada e muita animação. 

No dia seguinte realizou-se um extraordinário ban- 
quete para cavalheiros e senhoras, diz a Gaveta, com 
três mesas diferentes, j Cada mesa tinha três cobertas 
de cozinha, com uma totalidade de quinhentos e vinte 
pratos ! Isto sem contar com as delicadezas da copa. 

Como se tão estupenda comezaina não bastasse, 
houve ainda uma quarta coberta só de doces, frutas e 
geleias nevadas. 

O leitor fará ideia desta monstruosidade se eu lhe 
disser que para refrescar tais mimos de doçaria se gas- 
taram quarenta arrobas de gelo. j Uma barbaridade ( i ) ! 

Passemos adiante. 

El-Rei, talvez como brinde de noivado, concedeu 
a D. Joana Perpétua as honras de duquesa, por carta 
régia da mesma data do casamento, indo a agraciada 
recebê-las ao paço em 26 do mesmo mês. Mais tarde 
teve também o tratamento de sobrinha (2). 



Em 14 de Março de 1745, faleceu, na quinta da 
Aremanha, onde então residia, o Marquês de Cascais, 
cheio de moléstias e de dívidas. Recolheu a viúva à 
corte, e logo a 27 do mesmo mês, com uma rapidez 



(i) Gaveta de Lisboa de 25 de Setembro de i738, pág. 468. 
Numa das Academias Literárias da época debateu-se o seguinte 
problema: ^A qual dos dois monarcas pertencia maior glória 
neste casamento, se a D. Pedro II por ser progenitor da noiva, se 
a D. João V por ser a causa dele ? Defendeu a primeira parte Al- 
berto José de Passos, e a segunda Frei João de S. Tomás — Códice 
127 da Colecção Pombalina da Biblioteca Nacional, pág. 76-84. 

(2) Gabinete Histórico, vol. vii, pág. 146 e segs. 



— 4^9 — 

que bem demonstra a fúria dos credores, principiou o 
leilão de todo o recheio do seu palácio do Couto de 
São Mateus. Carruagens, bestas, mobílias e alfaias 
tudo foi apregoado (i). 

Falava-se em que ia então residir para o palácio o 
infante D. Manuel, mas aos credores agradou-lhes cer- 
tamente mais a notícia de que certo negociante oferecia 
por êle seis mil cruzados de renda. Só um deles, que 
era D. João de La Cueva, era credor de setenta mil 
cruzados (2). 

Onde residiu então D. Joana de Bragança, não sei. 
Em 1769 morava no palacete de São João dos Bemca- 
sados com um estado de vinte criados. A parte rústica 
andava arrendada a um tal António Carvalho Ribeiri- 
nho e a renda do palácio era de 528ííooo réis anuais (3). 



Em um interessantíssimo documento, consultado 
pelo falecido escritor Alberto Pimentel, no copioso ar- 
quivo da casa do Marquês de Valada, subscrito por 
D. Joana Perpétua e da sua própria letra, acha-se o 
seguinte período referente a uns papéis da testamentá- 
ria do Duque, seu irmão, e que diziam respeito à exis- 
tência de uma filha natural do mesmo : 

«Estes dois papeis achei em uma gaveta de um es- 
critório que estava na quinta da Torrebella e muitos 



(i) Mercúrio de Lisboa de 27 de Março de 1745, pág. 328. 

(2) Idetíi, pág. 332 v." 

(3) Livros da Superintendência da Decima de São Sebastião 
da Pedreira^ ano respectivo — Em 1780 a renda baixara a 400^000 
réis. 



ánnos os conservei juntos em uma papeleira que na 
ocasião do incêndio desta casa de S. João dos Bemca- 
sados^ deitaram da janella abaixo e se fez em pedaços 
espaliiando-se os muitos papeis que nella estavam e 
como foi em noite tenebrosa perderam-se alguns e entre 
elles o segundo papel que era em meia folha escrito», 
etc.(i). 

Houve pois um incêndio no palacete de Aires de 
Sá e incêndio violento, acrescido com a circunstância de 
se ter ateado em uma noite tenebrosa chegando a aii- 
rar-se os móveis pela janela abaixo, como se vê do 
documento transcrito. Vamos a vêr se se apura a data 
do sinistro. 

O documento acima está assinado por D. Joana 
Perpétua em data de i de Junho de 1783, na casa de 
São João dos Bemcasados (2). Temos já, pois, uma 
referência, e importante, visto que a casa estando já 
nesse tempo em estado de habitar-se, depois do vio- 
lento fogo, marca para dois ou três anos atrás, pelo 
menos, a data do acontecimento. Havia mister de fa- 
zer obras e tudo isso levava tempo. 

Ora, no cartório do convento do Rato, que existia 
na Delegacia do Tesouro do distrito de Lisboa (3), estava 
um documento do qual se concluía ter ido para lá reco- 
lhida em 28 de Agosto de 1780, D.Joana Perpétua (4). 

Julgo não ser desconsertado ligar os dois factos e a 
ser assim o incêndio tinha-se dado nesse mês e ano, 



(i) As amantes de D.João V, por Alberto Pimentel, pág. 214. 

(2) Idem, pág. 219. 

(3) Todos os cartórios conventuais que estavam nesta re- 
partição do Estado, foram totalmente destruídos pelo incêndio 
das Encomendais Postais, ocorrido em 2 de Maio de 1919. 

(4) Citado Cartório — Caixa n.° 10. 



— 4^1 — 

obrigando a viúva do Marquês de Cascais a recolher-se 
ao vizinho mosteiro. Nada mais natural nem mais pos- 
sível. 

Em 20 de Agosto de 1785, falecia D. Joana no pa- 
lacete de São João dos Bemcasados sendo sepultada no 
dia seguinte no convento de Santa Catarina de Ribamar. 
A corte tomou luto dois meses e houve sincero pezar. 
Era uma senhora bastante culta e uma figura saliente 
do seu tempo. 

A sua correspondência com seu irmão D. João Car- 
los, segundo Duque de Lafões, exilado na Áustria, feita 
em forma de diário, e' uma colecção de altíssimo valor; 
dizem. 

Relata miiidamente todos os sucessos notáveis da 
corte de El-Rei D. José durante anos seguidos. Tentei 
manuseá-la e lê-la, mas os esforços que fiz nesse sentido 
resultaram infrutíferos (1). 

j Que fonte copiosíssima de notícias não estará ali 
represada ! 



Durante a estadia aqui de D. Joana Perpétua, ou- 
tros dois hóspedes da real família se vieram curar aos 
ares lavados de São João dos Bemcasados. Quem o 
diz é a fidalga inquilma numa das cartas preciosas 
escritas a seu irmão, e quem mo disse foi o ilustre 
professor e meu erudito amigo D. Tomaz de Melo 



(i) Esta colecção de documentos acha-se em poder da família 
do sr. D, Caetano de Bragança, no Palácio do Grilo. Em Março 
de 1917, no jornal O Dia, transcrevem-se excertos de duas cartas 
de D. Joana Perpétua a seu irmão D. João Carlos, cedidas àquele 
diário pelo sr. D. Caetano. Não interessam a São João dos Bem- 
casados. 



— 4*52 — 

Breyner, Conde de Mafra, a quem D. Caetano de Bra- 
gança a mostrou. Os «reais meninos», expressão da 
carta, vieram tratar-se da tosse convulsa. D. Joana 
Perpétua noticia as melhoras dos príncipes e refere o 
quadro encantador de uma merenda na quinta que 
muito os divertira, principalmente — é de prever — por- 
que ela mandara vir os «pretos da Rabicha» que can- 
taram modinhas à viola e dansaram o lundum. 

Deviam de ser, talvez, os doentinhos, os filhos de 
D. Maria I: — o príncipe D. José, D. João, depois 
D. João VI e a infanta D. Mariana Vitória. 

Numa carta do Duque para a irmã dá-se uma 
curiosa notícia também. D. Pedro, escrevendo de 
Viena de Áustria, conta que num sarau, em sua casa, 
se apresentara um menino-prodígio, tocando piano. E 
diz-lhe o nome. Era Mozart. 



Aires de Sá e Melo, o proprietário da casa cujo 
destino vamos apurar, antigo Embaixador em Madrid 
e Ministro Plenipotenciário em Nápoles, Conselheiro 
da Fazenda e Secretário de Estado da Guerra e dos 
Negócios Estranjeiros, Fidalgo da Casa de Sua Mages- 
tade. Cavaleiro do Hábito de Cristo e Familiar do Santo 
Ofício, morreu em lo de Maio de 1784, sucedendo-lhe 
na casa seu filho, João Rodrigues de Sá e Melo que 
foi o primeiro Visconde e primeiro Conde do Anadia, 
vila de que era donatário. Houvera-o do seu casa- 
mento com D. Maria Antónia de Sá Pereira, filha de 
Manuel de Sá Pereira, senhor de Mangualde e de nu- 
merosos morgados. 

João Rodrigues de Sá habitou o palacete de São 
João dos Bemcasados em 1790, por exemplo, tendo 



— 463 — 

estado a casa devoluta em 1786, 1787 e 1788(1). Ca- 
sou o primeiro titular da Anadia com D. Maria Antó- 
nia de Carvalho Cortez de Vasconcelos da qual não 
houve geração, passando o título, por isso, para seu 
tio materno José António de Sá Pereira, primeiro vis- 
conde de Alverca, e deste para sua filha, D. Maria 
Luiza de Sá Pereira, casada com seu tio Manuel de 
Sá Pais do Amaral de Almeida Quifel Barberini, os 
quais foram segundos Viscondes de Alverca e terceiros 
Condes da Anadia. O quarto Conde, filho destes, 
foi José Maria de Sá Pereira do Amaral Almeida Qui- 
Barberini, o popular, boémio e fidalgo Conde da Ana- 
dia, falecido na flor da vida depois de uma irrequieta 
mocidade, deixando três filhos ; Manuel, o quinto Conde, 
que tinha casado com D. Maria da Graça de Barros 
Lima, falecido em Lisboa em 22 de Outubro de 1902, 
deixando quatro filhos, um dos quais, o mais velho, é o 
actual sexto Conde, José Maria de Sá Pais do Amaral ; 
José, Visconde de Alverca, pai do actual quinto Vis- 
conde de Alverca e de uma senhora D. Filipa; e Carlos, 
primeiro Visconde e primeiro Conde de Alferrarede, 
também já falecido em 4 de Agosto de 1909, na casa 
de São João dos Bemcasados, deixando viúva a sr.^ Con- 
dessa D. Maria da Luz de Barros Lima, e uma filha 
D. Maria da Assunção, actual Condessa de Calhariz. 

Tais foram os donos da antiga residência dos se- 
nhores da Casa da Cavalaria de São Pedro do Sul. 

O Palácio pertence hoje à sr.* Condessa de Alfer- 
rarede, que nele reside no segundo pavimento da parte 
que torneja para a rua das Amoreiras. 



(i) Livro da Decima — Superintendência de Santa Isabel — 
anos respectivos. 



464 — 



o palácio de São João dos Bemcasados foi habi- 
tado pelos Anadias desde 1789 a 1793. Em 1794 passa 
a residir lá a Condessa de Vimieiro (D. Teresa Josefa 
de Melo Breyner) e aí se demora ate' 1797. Em parte 
da casa, moraram também os Seabras. Vejo mencio- 
nado como morador Lucas de Seabra da Silva em vá- 
rios anos desde 1796 a 1809, e seu irmão José Maria 
de Seabra e família, de 1818 a 1824. Os Anadias vol- 
taram a residir em São João dos Bemcasados de 1802 
a 1804. De 1798 a 1819 residiu em parte da casa o 
Ministro Napolitano, por sinal que logo no primeiro ano 
se realizou ali o leilão das alfaias do Marquês de Oyra, 
embaixador espanhol que fora na nossa corte (i). 

Cumulativamente outros inquilinos teve: o Marechal 
de Campo José António Mangas, em i8o3; Avril, ge- 
neral francês de infantaria, em 1808(2); o Visconde de 
Alverca proprietário, então, do palácio, em 1812 ; a Con- 
dessa da Anadia, viúva, e Matias José Dias Azedo, de 
1814 a 1817 ; em 1818 o Conde de Wansen e suíis filhas 
Frederica e Henriqueta; ainda em 1819 as duas Con- 
dessas da Anadia (3); e em 181 1, no primeiro andar, 



(1) Gajeta de Lisboa de 1798. A Gaveta de 20 de Janeiro de 
1797, anunciava a venda de carruagens, móveis, cristais e louças 
do Ministro Napolitano, nesta rua. i Seria outra a casa e teria ele 
mudado depois para o Palácio ? i Seria a residência do antigo 
ministro ? 

(2) Calendrier de Lisbonne pour 1808 — Almanaque da época. 

(3) Na tradição familiar dos Anadia.s v r-e o quadro bucólico- 
-cortezão destas duas fidalgas, passando horas às janelas do pa- 
lácio, conversando com quem passava no caminho arrabaldino, 
sempre decoradas com os hábitos da Malta. Quando era o Nún- 
cio quem cruzava o subúrbio, prolongava-se o colóquio. Guar- 



— 465 — 

uns generais ingleses e Pedro Inácio de Gouveia, ofi- 
cial maior da Secretaria da Intendência da Polícia, que 
também trazia a quinta de renda, e no segundo pavi- 
mento o Tesoureiro das Tropas, Matias José de An- 
drade e o Coronel Caetano António de Almeida (i). 

Como se vê o palácio estava dividido em quatro 
moradias. 

Em 1821 andavam obras na casa em que então re- 
sidia a terceira Condessa, obras que se repetiram em 
i83o(2). 

Em 1822 residia lá Pedro Alexandrino Cavroé ; de 
1825 a i83o, o Conde Manuel de Sá Pais do Amaral 
e o Bailio Bernardo Pais do Amaral; de i83o a i83i 
o Conselheiro Diogo Vieira Tovar e José Maria de Sea- 
bra ; de i83o a 1834, o Desembargador José Pedro de 
Quintela ; de i833 a 1834, a Condessa da Louzá, viúva ; 
em 1842, o Visconde de Molelos ; em 1848, a Viscon- 
dessa de Magé e Lourenço Correia Manuel de Aboim 
que ainda ai vejo dado como morador em i853 e 
1854 (3). 

Por várias vezes apareceram nas Gavetas aniáncios 
de arrendamento do palácio e de leilões lá realizados, 
como o da Gaveta de 3i de Março de 1801, que anun- 
cia um, dos trastes de um cavalheiro inglês que lá re- 
sidia. 

O Periódico dos Pobres de ig de Setembro de 
1834 noticia arrendar-se parte da quinta, assim como 



dou-se, assim, a memória da Condessa D. Maria Joana {Informa- 
ção gedtilissima da sr.^ Condessa de Alferrarede e do sr. Conde 
de Mafra). 

( I ) Livros da Decima — Superintendência de Santa Isabel — 
Ano de 18 1 1. 

■ (2) Idem — Anos de i82i-i83o. 
(3) Róis dos Confessados da Freguesia de Santa Isabel — 
anos referidos. 

voL. IV 3o 



— 466 — 

outro anúncio da Crónica Constitucional {nJ^ 20) áç 17 
de Agosto do ano anterior. Já a Gaveta de 8 de Feve- 
reiro de i8i5 anunciava também o arrendamento do 
palácio. 

Um dos inquilinos do antigo solar arrabaldino de 
Lisboa é o sr. Conde de Mafra, o douto professor 
D. Tomaz de Meio Breyner, meu ilustre e erudito 
amigo (i). 

Na parte da casa, à esquerda do portão principal, 
onde antigamente eram a Biblioteca e o Teatro, a que 
adiante me referirei, residem hoje os srs. Condes de 
Calhariz, filha e genro da ilustre proprietária. 



A capela moderna, feita com restos da antiga, está 
hoje nesta parte da casa com entrada pelo átrio que a 
serve e sem aspecto exterior. 

Iluminam-na duas janelas que dão para o poente. 
O altar-mór de madeira marmoreada a verde e doi- 
rado, tem um retábulo (fim do século xviii) represen- 
tando um casamento místico onde figuram os esposos 
trocando os anéis esponsalícios, o celebrante de casula 
e um acólito com a salva das alianças. 

É frouxa pintura. Aos lados, em mísulas, um São 
Pedro de Alcântara, de mármore, e uma Senhora do 
Monte do Carmo, de madeira, estofada. 

Nas paredes laterais, sob dois quadros, pinturas 
em tela, representando um, São Jerónimo, e outro uma 
Virgem, estão dois nichos quadrangulares, cheios de 
relíquias trazidas de Itália pelos Anadias diplomatas. 

No da esquerda vê-se um crucificado; no da direita, 
uma Senhora das Dores. 

No coro está uma tela emoldurada, do retábulo, 



— 467 — 

talvez, de um altar da antiga capela, representando São 
João Baptista condenando Herodes por estar mal ca- 
sado. Uma imagem de São João Baptista está também 
no altar-mór, mas é do fim do século xviii, como o re- 
tábulo. Das velhas imagens de António Simões, não 
há o menor vestígio. 



CAPITULO XX 



Sumário : Um artigo de Bulhão Pato, sobre a «Casa Anadia» — 
Preciosidades que lá se continham — Quadros de Vieira Por- 
tuense e de Sequeira — A baixela de prata e as jóias — As festas 
em casa do Conde de Anadia — Os habituais convivas — Apre- 
ciação que Bulhão Pato fez do popular Conde de Anadia — 
Um raro exemplar de faiança — O ,teatrinho do Palácio — O 
Palácio Real de Campo de Ourique — A rua de São João dos 
Bemcasados — A Joaninha Italiana — A rua do Portal de 
São João — A questão dos Polvoristas — A Fábrica da rua 
Formosa — São intimados a sair de lá os Polvoristas — 
Marca-se-lhe local para a Fábrica em São João dos Bem- 
casados — Resistem e conseguem vencer o Senado da Câ- 
mara — Duas terríveis explosões de pólvora em 1576 e 1745 
— Casos extraordinários que então se deram — A Torre 
da Pólvora e as casas da Pólvora — A casa dos Laguares — O 
Arco do Carvalhão — Diz-se quem era este Carvalhão — Ghe- 
ga-se à Cru:; das Almas — Onde era, e o que era a Cruz de 
São João dos Bemcasados — O portão n.° 221 da rua das Amo- 
reiras — Estabelece-se uma hipótese aceitável — O brazão' 
dos Rebelos e o portal sobre que êle assentava — De quem 
eram as casas que tinham a cruz — A ermida da Cruz das 
Almas — Diz-se quem foi o fundador — Descrevese o inte- 
rior — Um lindo rodapé de azulejos do Rato — Descrevem-se 
as alegorias da composição — Um Batalhão Nacional aquar- 
telado neste sítio — O Instituto Branco Rodrigues — A casa 
de Junot l 



Bulhão Pato, no n.° 46 da revista literária Os Se- 
rões, publicou um delicioso e evocador artigo subordi- 
nado ao titulo A Casa Anadia. Ningue'm dirá que o 
escrevia um octogenário. ] Que frescura de frase ! \ Que 



— 470 — 

colorido de linguagem ! j Dir-se-ia o estilara a pena ro- 
manesca de um rapaz de vinte anos ! 

Por esse artigo, preciosíssimo, algumas notícias se 
colhem do que foi esse lar fidalgo do qual escreve o 
poeta : 

— Passei ontem por Li. j Porias, janelas^ indo fe- 
chado! /O que aquilo foi! 

Tinha razão. Pato caçara, na quinta, galinholas, sa- 
boreara os alperches sumarentos do pomar, provara os 
vinhos da cave e gostara a mesa e a conversa dos Ana- 
dias. Era, realmente, para ter saudades. 



Na casa Anadia havia notáveis obras de arte. O 
avô de José Anadia era um artista. No seu palacete, 
entre muitas pinturas nacionais e estranjeiras que o en- 
cantaram, tanto como o encantara o dono da casa, linha 
visto o austero Raczynski, dois quadros de Vieira Por- 
tuense : Vénus e o Amor e A Condessa de Atouguia 
armando os filhos cavaleiros. Do grande Sequeira 
também lá existiam pinturas. 

O quadro Martim de Freitas, considerado obra 
mediocre por Raczynski, ainda lá está na escada prin- 
cipal, no segundo patamar. O «retrato de senhora», 
levou outro rumo. 

Vénus e o Amor, fazendo frente a outra tela (talvez 
Vénus e Marte) também de Vieira Portuense, encon- 
tram-se no mesmo patamar. Raczynski não se refere 
a este quando trata das obras de arte da casa da Con- 
dessa da Anadia. 

Numa das salas da senhora Condessa de Alferra- 
rede conserva-se ainda o quadro olandês (pintura em 
tábua) a que o mesmo crítico se referiu. O quadro «a 



— 471 — 

Condessa de Atouguia armando os filhos cavaleiros, 
ficou para outro ramo da família. 

Em obras de prata, possuia a Condessa D. Maria 
Luiza dois vasos que, na opinião do mesmo severo cri- 
tico, eram notáveis espécimes das obras de ourivesaria 
de «Cinquecenlo», e uma soberba peça batida pelas 
extraordinárias mãos de Cellini que foi vendida em 
Londres, para partiliias por morte do Conde D. José, 
pela bonita quantia de vinte contos. Consta que depois 
o comprador a revendeu por mais do dobro. 

Depois das jóias da coroa não havia em Portugal 
outras que se avantajassem às desta casa. Dois bri- 
lhantes de uns brincos antigos que tinham sido da irmã 
do Conde, D. Maria das Dores, foram vendidos por 
dois contos de réis. 

No palácio de São João dos Bemcasados não se de- 
ram festas de estrondo, bailes ruidosos como os do 
Viana, do Carvalhal, do Penafiel ou do Farrobo. As 
festas que ali se deram revestiram sempre um carácter 
íntimo, magníficos jantares, pequenas reuniões de con- 
versa que eram adoráveis. 

Dou a palavra a Bulhão Pato : 

«Os jantares sempre primorosos, nos dias festivos 
tornavam-se banquetes, onde o mais ilustre discípulo 
do Mata tinha rasgos de Napoleão nas baterias de co- 
zinha. 

«iQue mesa! Os centros antigos do mais fino la- 
vor ; soberbos candelabros, cristais de Boémia e Ve- 
neza, loiças em que os padrões do oriente se mediam 
com os exemplares relativamente modernos das fabri- 
cas da Europa. 

«O velho mordomo em pé, atraz da cadeira do 
conde, imóvel, dirigia com os olhos os criados. E no 
meio de tal grandeza e rigor no serviço, uma inlimi- 



— 472 — 

dade familiar, um á vontade que dispunha deliciosa 
mente o animo de todos os convivas. Nada de hirto e 
convencional. 

«Vinhos francezes de primeira ordem. 

«Da velha cave saia o Douro e Madeira, como ra- 
ros provam hoje : Corgo, Sercial, Pallido, Terran, 
Treas, Verdelho, Malvasia das propriedades do conde 
de Carvalhal. 

«Aos jantares e serões frequentes vinham os irmãos 
da condessa, que eram numerosos, e uma irmã, D. Car- 
lota, casada ao tempo com D. Simão Anadia e, por 
morte deste, em segundas núpcias, com o marquez de 
Oldoini, ministro de Itália em Portugal ; também, 
como a irmã, gentilissima senhora. 

«O mais velho dos irmãos, marquez de Fronteira e 
de Alorna, bello homem na estatura e no porte, mu- 
sico de talento e um mestre ao piano. Que trechos 
soberbos dos grandes autores nos deu n'aquelles deli- 
ciosos serões ! 

«Os Íntimos eram Simão Aranha e Luiz Aranha 
com sua mulher, D. Isabel da Gamara, irmã mais nova 
do conde de Carvalhal, a minha querida Isabel, criança 
que trouxe ao coUo e senhora exemplar de virtude 
como esposa e mãe, cujo perfil grego revelava os dotes 
da sua alma de eleição. 

«Deixou uma filha em tudo exemplar condigno de 
tal mãe. 

«D. Manuel de Almeida (Lapa), General Bezerra, 
José Palha, José de Avellar, Domingos Martins Peres 
e eu, compunham o circulo limitado d'aquellas encan- 
tadoras reuniões. 

«Quasi todos esses cairam, há muito, na terra do 
esquecimento. 

«Aqui está porque passando homem pela casa Ana- 



— 473 — 

dia, pintada agora de côr de rosa flamante se me afi- 
gurou triste e negra . . . como a tumba» ! 



Da avó de José Anadia, dizia o solitário do Monte 
de Caparica : «... estou a vê-la na sua berlinda de 
esmalte amarello, puchada a duas muares de Alter do 
Chão. Vivera nas primeiras cidades da Europa, e largo 
tempo em Roma. Muito inteligente, devotada ás letras 
e ás artes, primorosa no trato e, como a marquesa de 
Alorna, de sangue peninsular e vivo». 

Dela disse também Raczynski : 

«E impossivel ter maior bondade. . . Não conheço 
ninguém que a não estime e diga bem d'ella». 

Com referência à fidalga boémia em que viveu o- 
popular Conde de Anadia, são interessantes as refe 
rências de Bulhão Pato : 

«Arranjaram-lhe reputação — falsa e empeçonhada 
da malidicencia com que se baba a inveja macilenta e 
mordaz. Diziam, por menospreso, que frequentava o 
Retiro dos Pacatos, o Papagaio, o Perna de Pau e o 
Colete Encarnado. Frequentava, tinha esse bom gosto, 
como o tem agora quanto ahi ha de mais escolhido na 
inteligência e na educação — que lá vai para comer o 
peixe frito ao ar livre, a alface perfumada de pimpi- 
nella, criada nos alfôbres mimosos e regados pela nora 
gemente, beber o copo tirado do pichei espumante e 
sem confeição, gostar a açorda de coentros e de espi- 
nafres, improvisada á ultima hora por um assador de 
boa mão para adubar apetitosos bocados ; tudo isso 



— 474 — 

nos espairecidos e graciosos retiros das hortas de Lis- 
boa. 

«Acudam-lhe, emquanto é tempo, que vão desapa- 
recer os deliciosos retiros : basta ser coisa nacional para 
darem cabo delia. 

«Conde da Anadia, estivesse onde estivesse, na feira 
de Agualva ou na de Sacavém, falando cigano com o 
seu compadre Botas, era sempre um gentil-homem. 

E mais adiante : 

«O conde de Anadia era alto, elegante, rosto de 
colorido ardente, beiços vermelhos, olhos cor de avelã, 
portuguezes e de viva scintilação. 

«Inteligente, e, comquanto lhe faltasse cultura lite- 
rária possuia gosto nativo. Em tudo o denunciava : na 
simplicidade do trajo, na escolha de uma jóia antiga, 
no anel, na corrente, nos sinetes do soberbo relógio, 
nos seus trens governados por António Simão, um dos 
aurigas mais afamados de Lisboa». 

Tal era o conde apreciado pelo cintilante espirito 
justiceiro do poeta da Torre de Caparica. 



Mais duas notas ainda. 

No belo livro de José Queiroz, A Cerâmica Por- 
tuguesa^ cita-se um esplêndido exemplar de faiança — 
bastante raro — datado de 1741, que existia numa das 
salas deste palácio (i). 

Houve aqui em tempos (princípios do século xix) 



(i) Cit. obra., pág. 3o. Está hoje no Palácio de Mangualde. 



— 47^ — 

um teatrinho particular dos poucos que nesta data exis- 
tiam em Lisboa. Mencionam-no Balby(i) e Perestrelo 
da Câmara (2). Ficava, como já disse, na parte oci- 
dental do Palácio. 

Deixando a moradia, por tantos títulos notável e 
recordando o infantinho D. Carlos, D. Joana de Bra- 
gança e esta linhagem ilustre dos Anadias, digo como 
Bulhão Pato, olhando a fachada agora pintada de ama- 
relo : 

j O que aquilo foi ! 



Quando, depois do terremoto, se procurou logar para 
a edificação do projectado Palácio Real, foi este sítio 
o preferido, pelo menos por Manuel da Maia e Carlos 
Mardel. O decreto de 2 de Julho de 1769 diz, preci- 
samente, quanto à demarcação (de que por muito tempo 
se conservaram os «marcos») do terreno escolhido, que 
este ia, pela banda do nascente desde o mosteir^o do 
Rato até São Bento da Saúde; pelo sul desde o prin- 
cipio da calçada de S. Bento caminhando por ela acima 
até o largo do Senhor Jesus da Boa-Morte ; pelo poente, 
desde o dito largo do Senhor Jesus da Boa-Morte, 
caminhando pela rua que dele sai, até ao arma\em 
onde se enxuga a pólvora ; e pelo norte, desde os Ar- 
cos das Aguas Livres e sitio onde estão os Arcos que 
cortafn a estrada que vai pelo Arco do Carvalhão para 
a quintado Sargento-Môr, até ao dito largo de S. João 
dos Bemcasados. O decreto mandava também abrir 
ruas e arruá-las para que se pudessem edificar casas. 



(i) Essai Statistique dii Royaume du Portugal, Paris 1822. 
(2j Descripção de Lisboa em i83g, por Paulo Perestrelo da 
Câmara, 



— 476 - 
Outro documento, do mesmo ano, diz o seguinte : 

a Tenho resoluto que o palácio da minha residência 
seja edificado na elevação de Terreno superior ao 
Tejo e a cidade de Lisboa que fa\ entre o largo de 
S. João dos Bemcasados e o caminho que vai do Se- 
nhor Jesus da Boa-Morte para o Rato : de?narcando-se 
no rufno do norte pelo largo, da mesma quinta de 
S. João dos Bemcasados até os Arcos das Aguas-IJ- 
vres, na parte em que por eles desce a estrada que vai 
para a quinta do Sargento-Mór e se temiina na Ri- 
beira de Alcântara : no do poente pela mestna ribeira 
descendo do ponto onde se termina a sobredita estrada 
té ao fim da quinta do Loureiro : no do sul, pela es- 
trada e Rua que se descobrir em linha recta da sobre- 
dita ribeira para N. S.^ dos Pra^^eres, ficando ao Jiorte 
dela as terras de Bartolomeu Domingues, e quinta cha- 
mada do Bahuto até á outra rua nova que também 
manda demarcar para sair por linha recta ao dito 
Aqueduto das Aguas Livre, : e no rumo do nascente 
pela ultima rua acima indicada. O Dr. Majiuel José da 
Gania e Oliveira, de\embargador da casa da Suplica- 
ção proceda, com os engenheiros Elias Sebastião Pope 
e Carlos Mardel a avaliação das propriedades parti- 
culares para indemnizar em dinheiro de contado ou 
em padrões de juro á escolha» {i). 

As demarcações estão feitas com clareza que dis- 
pensa maiores referências topográficas modernas. O 
terreno demarcado era vastíssimo, certamente para tra- 
çado e plantação de jardins, parque, tapada, etc. 

O risco para o palácio foi feito pelo arquitecto João 



(i) A avaliação fèz-se. Volume i do l-iepertorio das Leis Ex- 
travagantes, pág 83 



— 477 — 

Antinori em casa de quem, em Roma, Cirilo Volckmar 
Machado o viu. 

Este Antinori foi casado com uma portuguesa e vi- 
veu algum tempo em Lisboa, tendo sido empregado na 
Casa do Risco como ajudante de Eugénio dos Santos. 
Era contrário ao Marquês de Pombal, razão porque 
foi obrigado a fugir de Portugal. Para o palácio houve 
outro risco feito por Mardel(i). Este ou o do italiano 
esteve muito tempo na Sala do Risco. Di-lo Ratton 
nas suas Recordações. 

E é o que sei sobre o projectado palácio. 



A rua de São João dos Bemcasados que vinha da 
rua «dos Pousos» (depois de Campo de Ourique) até 
a das Aguas Livres», devia de ter sido aberta depois de 
1755 pondo em comunicação os dois bairros. A planta 
levantada em lySõ, a que tenho feito constantes refe- 
rências, mostra naquele ponto um pátio ou beco sem 
saída, para serventia da ermida e do palácio. Vejo, 
ainda hoje, junto ao embasamento das dependências da 
casa dos Anadias, que seguem o alinhamento da rua, 
vestígios de degraus. 

Noutra planta da freguesia de Santa Isabel, elabo- 
rada pelo sargento-mor José Monteiro de Carvalho (2) 
já aparece a rua delineada e aberta, assim como em 
outra, que possuo, datada de 1785(3). 



(i) Diccionario de Engenheiros e Architectos, por Sousa Vi- 
terbo, i.° vol, pág. 42. 

(2) Plantas existentes na Torre do Tombo de que possuo 
cópia. 

(3) Oferecida pelo saudoso Visconde de Castilho, em 1908. 



- 478 - 

O local, em 1742, tinha apenas cinco fogos. O ter- 
remoto trouxe-lhe maior população. Em 1756 já os 
fogos são quarenta e seis, quando no ano anterior eram 
onze. No final do século (1796) mencionam-se nos 
Róis, cinquenta e um. 

Os Litros da Decima de 1762, que são os primeiros 
da riquíssima colecção do Arquivo do Tribunal de 
Contas, dão-nos noticias de algumas moradias dignas 
de menção nesta recente artéria. 

Do lado da casa dos Condes e para lá da ermida, 
tinham a sua residência o Desembargador Jansen Mol- 
ler e o Principal Moura, em 1764 e anos seguintes (i). 

Os Róis dos Confessados também são palreiros. 

Com o seu auxilio vou dar aqui a nota de alguns 
moradores notáveis. Já alguém, com espírito, chamou 
a esta minha obra arqueologia do ijiqiiilinato. \ Pa- 
ciência 1 Já agora tem de ser (2). 

De 1770 a 1778, as famílias do Arcebispo de La- 
cedemónia e do Principal Moura. 

De 1786 a 1788 o Desembargador Francisco Xavier 
da Silva e Moura. 

De 1749 a 1762, a família Andrade Corvo, é dada 
aqui como residente; Monsenhor Pestana, de 1753 a 
1762; João Baptista Maigre, de 1780 a 1801 ; e José 
da Cunha Tavares, de 1780 a 1787. 

De 1784 a 1791 José Xavier Carneiro Zagalo e Melo 
e sua mulher D. Teresa Maria Ana de Lacerda e fa- 
mília. Noutro pomo diz-se que a residência desta gente 
era ao Portal de São João, do lado direito subindo. 



(1) Livros da Decima — Superintendência de Santa Isabel—' 
Anos respectivos. 

(2) Foi o meu camarada Norberto de Araújo num seu artigo 
apreciativo, publicado no Diário de Lisboa quando do apareci- 
mento do segundo volume desta obra. 



-479 — 

Já em 1745 residia aqui a família Zagalo. A Ga- 
:{eía de i5 de Novembro desse ano, noticia ter falecido 
na quinta dos Bemcasados, de uma dilatada doença, em 
16 do mês anterior, D. Luiza de Oliveira e Quinhones 
mulher do Desembargador Rodrigo de Oliveira Zagalo, 
Fidalgo da Casa, Cavaleiro de Cristo, e Procurador da 
Fazenda Real. 

Vejo ainda dados aqui como moradores, as famílias 
Metzner e Cosmelli, em 181 1 ; de 181 1 a 1824, o co- 
ronel, depois brigadeiro, Cristóvam da Costa Ataíde 
e Teive ; e em 1820 e Desembargador José Pedro 
Quintela e a família Carpinetti. Esta vivia aqui já há 
tempo. 

Fronteira à casa dos Anadias, abriu em i83o, a sua 
afamada loja de bebidas a «Joaninha Italiana», conhe- 
cida hospedeira lisboeta (i). 

Em 1806, mudou-se de Buenos Aires para aqui o 
Cole'gio da Imaculada Conceição», onde se ensinavam 
além dos estudos comuns, dansa, esgrima, música e 
picaria (2). 

Em 1804 tinha aqui a oficina do Armazém de Ma- 
teriais da Fábrica da Seda, onde vinham a beneficiar 
os tecidos da Fábrica, o Mestre Manuel da Silva (3). 

Em i852 houve, aqui, também, uma Fábrica de 
Tinturaria (4). 



(i) Diário do Governo de 12 de Maio de i83o. 

(2) Gaveta de Lisboa de i de Fevereiro de 1806. 

(3) Livro 3j4 de Entrada e Sahida de Materiaes, da «Co- 
lecção da Junta da Administração das Fábricas do Reino»^ na 
Torre do Tombo. 

(4) Sinopse da Camará Municipal de Lisboa — i852, pág.i 18. 



-48o — 



Um Roteiro dos Correios dos primeiros anos do 
século XIX, cita a travessa cio Padrão a São João dos 
Bemcasados. 

Ignoro que «Padrão» e que «travessa» sejam estes. 

Em 1740 já existia um caminho de São João dos 
Bemcasados, por sinal que, a 10 de Junho desse ano, 
uns malandrins assaltaram de madrugada uma padeira 
que vinha para a cidade, e depois de lhe roubarem 
tudo — o pão que trazia, o dinheiro, a besta que ela 
conduzia, e o ceirão — deram-lhe com um pau na ca- 
beça deixando-a como morta (i). 

Ora esse caminho, não estando ao que parece ainda 
aberta a actual rua, devia de ser o troço actual da rua das 
Amoreiras desde o palácio Anadia à Crií:{ das Almas, 
que depois foi também chamado no cartapácio da De- 
cima, Rua do Portal de São João dos Bemcasados e 
mais tarde rma do Portal das Aguas lÀvres. 

Por ela vamos seguir agora (2). 



Em i653 o Senado da Câmara andou preocupado 
com uma grave questão, a extinção dos armazéns e 
fábricas de pólvora dentro da cidade, e muito principal- 
mente cerca dos sítios mais habitados. 



(i) Anno Noticioso e Histórico — Manuscrito y-5-io da Bi- 
blioteca Nacional. 

(2) O edital de 3 de Fevereiro de 1874, chamou Rua das Amo- 
reiras à rua dos Arcos das Águas Livres e à rua Direita de São 
João dos Bemcasados. 



— 48i — 

Os polvoristas Lucrécia Antunes, João Mateus e 
Simão Mateus deram-lhe água pela barba. A sua fá- 
brica e armazém ficavam na rua Formosa, em pleno 
Bairro Alto. Indistintamente fabricavam-na ali ou em 
Penha-Longa e Barcarena de onde a traziam a-fim-de 
a vender a particulares, não a arrecadando na «Torre 
da Pólvora» como a lei preceituava (i). 

Em i3 de Fevereiro desse ano foram intimados, pelo 
Senado, a não fabricar pólvora nas suas casas da rua 
Formosa, arbitrando-se-lhes graves penas no caso de de- 
sobediência (2) ; mas como eles reclamassem, invocando 
os prejuízos que tal lei lhe causava, foi ordenado 
que o Tesoureiro do Senado lhes desse (a cada um) 
2oíií>ooo réis de indemnização (3). 

O sítio marcado pelo Senado para estabelecimento 
dos polvoristas, fora este de São João dos Bemcasados. 

A consulta de 3 de Março do mesmo ano de i653 
declara ser esta a melhor parte que para este mister é 
necessário. Para tal fim, fora escolhido, um ca\al de- 
fronte de S. João dos Bemcasados que foi de Rodrigo 
Esteves já defunto Q cujo rendimento era recebido pelo 



(i) Elementos para a Historia do Município de Lisboa, por 
E. Freire de Oliveira, tomo v, pág. 398-404. 

A Torre da Pólvora (diz Damião de Góis na Chronica de 
D. Manuel^ parte iv, cap. 85) foi mandada fazer por este monarca 
e ficava ao pé do Cais do Carvão onde havia o postigo do mesmo 
nome, segundo Cristóvão Roiz de Oliveira. O poeta da Descrtp- 
ção Métrica de Lisboa, em 1626, diz : 

Aqui está a Torre da Pólvora 
que tem por titulo e empreza 
este lugar é terrível 
por umas latinas letras. 

(2) Elementos para a Historia do Municipio de Lisboa, citado 
tomo e páginas. 

(3) Idem, idem. 

VOL. IV 3i 



- 4^2 — 

Hospital Real, por dívidas. Reunia iodas as condições 
precisas. Estava fora do povoado e tinha muito sol 
para se enxugar a pólvora. 

Outro casal, onde vivia, ao tempo, um lavrador 
chamado o Pombo, também a Câmara o indicara para 
o mesmo fim. Tinha sido do Cónego Dr. António Ta- 
vares de Távora e os seus rendimentos estavam se- 
questrados para a Fazenda Real. O sítio era excelente 
e ficava afastado de comunicações urbanas. Tinha um 
grande poço de água, e sol não lhe faltava. 

Tudor isto era assim,' mas os polvoristas estavam 
teimosos e não saíam da rua Formosa, a-pesar-de inti- 
mados pelo escrivão da Câmara, Francisco Lopes Ri- 
beiro. 

Foram-lhe apreendidas as suas ferramentas, certo 
dia. Parecia pois que o Senado conseguira impor de- 
finitivamente a sua autoridade, mas o decreto de 2 de 
Abril mandou-os de novo recolher às suas casas, res- 
tituindo-se-lhe, ainda por cima, tudo quanto lhe fora 
tomado (i). 

Manuel Mateus, Lucrécia Antunes e Simão Mateus, 
morreram na rua Formosa, contentes, naturalmente, 
da pirraça feita à Câmara, respectivamente em 8 de 
Janeiro de 1641, 27 de Julho de 1754 e i3 de Janeiro 
de 1676 (2). 

Em Julho de i636 ardeu a oficina de Manuel Ma- 
teus que a mudou para outro local, e João Mateus ins- 
talou-se em Barcarena com um moinho e uma oficina, 



(i) Citados Elementos — Consulta de 2 de Abril de 1659, 
tomo V, pág. 424. Os polvoristas, no ano seguinte, andaram com 
pouca sorte. Foi-lhes penhorada a quinta de Penha Longa por 
causa de um alcance feito por António da Maia, na Tesouraria da 
freguesia da Madalena. 

(2) Livro dos Óbitos da Freguesia das Mercês — Anos respec- 
tivos. 



— 483 — 

na quinta que o Senado lhe deu por adminrstração 
assim como Sebastião Mateus, com três moinhos, Si- 
mão Mateus com um, além de oficinas em Penha 
Longa. Manuel tinha três moinhos também no mesmo 
local. Em lugar, porém, de levarem a pólvora à Torre 
para refinar, refinavam-na em suas casas, pelo que a 
Câmara propôs a El-Rei se lhe marcasse a pena de 
quinhentos cruzados e o perdimento da mercadoria de 
que eles faziam estanque, em sua consulta de 12 de 
Agosto de i655 (1). 

Na véspera de São João, desse ano, um foguete pe- 
gou fogo na rua Formosa à oficina dos Mateus, deu-se 
uma explosão e o sítio foi alarmado. A capela dos Pa- 
dres Teatinos abriu. fendas, as casas de D. Pedro de 
Almeida, na calçada do Combro, arruinaram-se em 
parte e houve prejuízos também nas ruas Formosa e 
dos Poiais de São Bento. 

Os moradores do local reclamaram. A Câmara, em 
face da resistência insolente de João Mateus, o mais 
bravo dos polvoristas, reclama por seu turno. Nada, 
pprém, conseguiu. O Casal do Pombo, ficou deserto 
e João Mateus não foi para Junto de seus irmãos em 
Barcarena (2). 



A cidade continuava, pois, a estar em perigo immi- 
nente de alguma explosão terrível como a de 1576 em 
que explodiram cerca 44.000 quilogramas de pólvora, 
nas Terracenas de Santos, matando e ferindo muita 
gente, demolindo prédios, danificando as ruas próximas 
e apavorando a cidade. Essa explosão foi em dia de 



(i) Citados Elementos, tomo vii, pág, xLvii-t 
(2) Jdem^ pág. 47 a 5o. 



Santa Luzia, em Dezembro desse ano(i). A de 1745 
não foi menor. Deu-se no Boqueirão da Ribeira, na 
casa da Venda da Pólvora, junto ao Tribunal das Sete 
Casas. Deu-se um estrondo formidável. Foi no dia 20 
de Fevereiro. 

As portas da Sé rebentaram, e houve vinte e oito 
mortos e oitenta e seis feridos, tendo-se destruído e 
avariado cinquenta e seis prédios (2). 

Tanto neste como no primeiro cataclismo deram-se 
factos extraordinários. Quando foi da explosão de iSyõ, 
houve madeiramentos que caíram no rio muito distantes 
da margem. Na Anunciada deslocaram-se as grades 
de ferro do coro das freiras, e dizem ter-se ouvido em 
Santarém o medonho estampido (3). No de 1743 foi 
cair um cadáver dentro de um navio inglês que estava 
ao largo (?), acharam-se em Xabregas duas cabeças de 
homem, e um ferido foi projectado com a cama onde 
estava deitado, até às «Portas do Mar», endoidecendo 
com a comoção sofrida. D. João V deu várias provi- 
dências depois do sinistro, mandando tocar o sino, cha- 
mado «a Garrida» e dizer muitas missas (4). 

A lei de 9 de Julho de 1764, proibiu de novo a venda 
de pólvora em casas particulares (5), tendo-se publicado 
em 1802 e 1810 outras leis sobre polvoristas (6). 



(i) No Livro dos Óbitos de Saníos-o- Velho, que serviu em 
1576, lê-se o seguinte registo: «Aos dezoito de Dezembro de 1576, 

faleceo Aerberto Jacome framengo e mercador na rua do 

guarda mor foy no dia de Santa Lujia no Terremoto da pólvora». 

(2) Gaveta de Lisboa de 23 de Fevereiro de 1745 e Gabinete 
Histórico, vol. IX, pág. 36o-36i. 

(3) A Ribeira de Lisboa, de Júlio de Castilho, pág. 610-612 e 
Memorias de El- Rei D. Sebastião, tomo iv, pág. 83 e segs. 

(4) Manuscrito 8-9-2 da Biblioteca Nacional. 
(3) Gabmete Histórico, vol. xii, pág 355. 

(6) Reportório das Leis Extravagantes, vol. i, pág. 429, e vo- 
lume II, pág. 166. 



— 485 — 



A Câmara andou sempre em sobressalto com estes 
artífices. A «Torre da Pólvora» que segundo Damião 
de Góis fora mandada fazer por D. xManuel junto ao 
postigo do Carvão^ na parte debaixo da rua das Portas 
da Cruz, estava no século xvii, já afogada em casas 
que em redor se tinham construído. 

Da parte de cima ficava uma atafona, e as instala- 
ções não ofereciam segurança, salvo a torre propria- 
mente dita. 

A Câmara propôs que se levantasse à roda um muro 
alto, se proibisse que na vizinhança se deitasse fogo 
de artificio e que os polvoristas fossem coagidos a mu- 
dar as suas oficinas para sítios não povoados (i). 

Já em 1610 a Câmara pensara em mudar a «Casa 
da Pólvora» para Alcântara, junto aos Fornos da Cal, 
mas tal mudança só se fez em 1670(2), ao que parece, 
embora haja referências, anteriormente, a uma Torre 
Pólvora, junto ao baluarte de Alcântara. 

Em 1728 sobre as ruínas da Torre da Pólvora ou 
achegada a elas, edificou o holandês António Cremer 
(edificador também de uma linda e original casa nos 
campos de Azeitão — quinta de Nossa Senhora da Con- 
ceição) uma nova fábrica de pólvora que veio a no- 
mear um arruamento do bairro. Parte do material 
veio da Holanda. O edifício cobria-se de telha preta, 
holandesa, e, por muitos anos, na estrada, estiveram 
cinco mós de pedra, afora outras quatro, arrumadas à 
parede da oficina, todas com mais de dez palmos de 



(1) Citados Elementos, tomo v, pág. 353-35 '>. 

(2) Idem, tomo 11, pág. 263 — Decretos de 28 de Maio de 1670 
e 18 de Junho do mesmo ano. 



-486 — 

diâmetro, causando engulhos ao Coronel Figueiredo 
que menciona o empecilho para o trânsito, imprecando, 
a propósito, tôJas as obstruções das ruas da capital. 

Cremer montou, depois, uma sucursal em Barcarena 
que veio a ser a oticina principal desta indiistria e que 
ainda hoje existe (i). A. da Ribeira de Alcântara, cujo 
funcionamento esteve interrompido pelo cismo de 1735, 
foi dirigida pelo Tenente General Bartolomeu da Costa 
(1782) e depois (1790) pelo Brigadeiro Raposo. Foi 
Bartolomeu da Costa quem, no dizer do Coronel Fran- 
cisco Coelho de F"igueiredo, aboliu a pólvora bombar- 
deira e deu grande incremento a esta fabricação. O 
mesmo memorialista cita a devoção dos polvoristas 
pelo templo da Madre de Deus, onde iam todos os sá- 
bados, da rua de São Bento onde então moravam, en- 
cerrados em seges das quais a mais apontada em cavalo 
arrogante e asseio da «caixa» era a do polvorista Luiz 
de Roboredo. A romaria semanal era ao meio dia. 
Quando davam as doze badaladas, preguntava-se, no 
arredor da Madre de Deus : 

— ^Já passou o Polvorista? 

Ao Brigadeiro Raposo, já nosso conhecido como in- 
ventor de louça, sucederam outros directores. Em i833 
foi proposta a extinção da casa da Pólvora em Alcân- 
tara, mas a ideia não foi por diante e continuou a fun- 
cionar, acabando em nossos dias (2). 



(1) António Cremer foi Comissário Geral do Almoxarifado 
e Pagador das Tropas holandesas ao serviço de Portugal. Fez 
vários melhoramentos na Fabrica, como o da instalação de qua- 
tro moinhos de galgas, importados de Namur. 

(2) Dos fundos da Fábrica de Barcarena saíram os dinheiros 
necessários para a construção do dique, telheiros e barracões que, 
no primeiro quartel do século passado, se fizeram no Arsenal de 
Marinha. 



-487 - 

Recentemente foi condenada à morte pela picareta, 
para a abertura de um novo arruamento. 

E voltemos ao ponto interrompido. 

A outra torre, na Lapa da Moura^ começou a er- 
guer-se em 1671 e parece que estava conciuida em 1693, 
fazendo-se todavia a mudança em 1698. 

A Torre da Pólvora, das Portas da Cruz, ficou a 
chamar-se a Velha. Em 1Õ78 deitaram-se abaixo as 
paredes do pátio que a cercavam para resguardo(i). 

Em 1701, houve ideia de se fazer em São Paulo, 
ao sopé do Monte de Santa Catarina, uma Casa da 
Pólvoj^a. A Câmara alviírou-a, e a obra chegou a fa- 
zer-se. Dizia o Senado que estava fora dos riscos da 
guerra, i E dos outros ? Não percebo muito bem como 
isso fosse (2). Verdade seja que lá estão hoje as ofi- 
cinas da Companhia do Gaz, a-pesar também de não 
se entender cabalmente. 



Sigamos agora pela ma do Portal de São JoãOy 
hoje «das Amoreiras. O palácio Anadia, estrangula-a 
durante alguns metros (3). Depois abre-se a nova arté- 
ria ladeada por prédios banais, à esquerda do alinha- 
mento da rua, e à direita, encolhidos em jardins defen- 
didos por quesilentas grades de ferro. Algumas edi- 
ficações vistosas. 

Do lado poente esteve durante muitos anos o «Es- 

(i) Citados Elementos, tomo viii, pág. 3o5. 

(2) Idem, tomo x, pág. 94-96. 

(3) O relatório do sr. António Emídio Abrantes, engenheiro 
da Câmara, de que foi dado conhecimento público em Julho de 
1982, consigna a necessidade urgente do alargamento deste cor- 
redor, demolindo-se parte do palácio Anadia. 



— 488 — 

tabelecimento Hortícola» de Marcolino Teixeira Mar- 
ques. Agora um Campo de jogos desportivos, atrai ai 
ao domingo, milhares de pessoas. 



No topo dela, tornejando para a estrada de Cam- 
polide, fica uma casa pintada de côr de rosa que alber- 
gou, durante anos, uma escola oficial do sexo feminino. 
Era a n." i3, se não estou em erro. E das casas mais 
antigas do sítio. Pertencia, já em 1742, a um Fran- 
cisco Luiz Velho de Laguar e linha larga quinta ati- 
nente, como o indica a planta de lySõ. Passou de- 
pois ao Dr. José Amaro da Cunha Laguar, então cor- 
regedor do Crime da Rua Nova (de lyõS a 1759) o 
qual era sobrinho do corregedor que foi do Porto, Pe- 
dro Velho de Laguar (i). Este também aqui morou de 
1742 a 1748. 

De 1809 a 1819, pelo menos, morou nelas D. Josefa 
Peregrina Roncon de Laguar (talvez filha do Correge- 
dor da Rua Nova) que além dessa possuía, no sítio, 
mais propriedades (2). Depois a casa veio parar as 
mãos de um tal Castro, conhecido pelo «Castro dos trens 
do Lagoia(3), rival do famoso segeiro «Assembleia». 

A esquerda, neste entroncamento, desce para a ri- 



(1) Anos de 1817 a 1818 dos Livros da Decitna — Superin- 
tendência de Santa Isabel. 

(2) Informação do sr. António César Mena Júnior. 

(3) Memorial de Ministros — Manuscrito da Biblioteca Nacio- 
nal G-3-45, pág. 3i2. Por decreto de i6 de Outubro de 1676 foi 
nomeado Superintendente da Décima das freguesias de Bemfica, 
Oeiras, Barcarena e Carnaxide. Foi um dos magistrados encar- 
regados do processo dos Távoras [Gabinete Histórico, vol. xiv, 
pág. 6). 



^ 489 - 

beira de Alcântara, a antiga estrada do Sargento-mor, 
chamada depois, do arco do Carvalhão. 

O sargento-mor era o nosso conhecido Domingos 
do Amaral Valente, e a estrada tomava de-certo esse 
nome por ir ter direita, sob a encosta dos Prazeres, à 
sua quinta, na ribeira, que ficava aquém de \'ila Pouca. 

Tudo isso se percebe muito bem na planta de José 
Monteiro de Carvalho. 

Com este nome sonoro — «Arco do Carvalhão» — 
meiia-se medo às crianças. Era uma espécie de «pa- 
pão» no meado do século xviii. Di-lo o Coronel Fran- 
cisco Coelho de Figueiredo (i). 

O Carvalhão que deu nome ao arco do aqueduto e 
à estrada (hoje rua) que sob êle passa, é Sebastião José 
de Carvalho e Melo, grosso proprietário deste local. 

Eram dele não só as terras que ficavam encravadas 
entre a estrada de Campolide e a continuação da rua 
das Amoreiras até à circunvalação, como também as 
que da rua do Arco descaíam para o vale de Alcân- 
tara e as que dele ficavam para àquem. 

Ignoro se ainda, como antigamente, as casas da 
estrada e da rua das Amoreiras pagam foro à casa 
Pombal. No cunhal da que, para ambas, faz frente, à 
esquina, defronte da casa dos Laguares, está encravada, 
uma pedra em que se lê : Foreiras a Sebastião José de 
Carvalho e Mello. Anno de 1J42. 

Na parte do Cunhal que vira para a rua das Amo- 
reiras existe um lindo relójio de Sol, numa pedra de- 
licadamente ornamentada (2). 



(i) O Teatro, de Manuel de Figueiredo, vol. xix, pág. 354. 

(2) Essas casas tinham sido de D. Mariana Emília Cambiasse. 
Passaram à posse do falecido capitalista Manuel Maria de Antas 
Barbosa. Pertencem desde 1920, por compra, ao sr. Francisco 
Frick, representante e herdeiro dos Fricks, grandes proprietários 
deste antigo subúrbio. 



— 490 — 



Chegamos à Cru:{ das Almas, i Que cruz seria 
esia ? 

No já citado Roteiro da Agua Livre e Agua de 
Moyitemór e mais Fontes junto a ela, etc, feito em 
1618 por Pêro Nunes Tinoco e redigido, mais tarde, 
por seu filho João Nunes Tinoco, estudando-se o tra- 
jecto da água e as diferença de nível a vencer, fala-se 
por mais de uma vez na cruz de São João dos Bemca- 
sados: . . . as casas que têm a Cru^ e ainda: . . .Junto 
à Crui de São João dos Bemcasados, etc. 

Ora a Cru^ das Almas deve ser uma reminiscência 
desse monumento desaparecido, i Esta cruz seria acaso 
um velho cruzeiro ? 

Do dizer do manuscrito conclui-se que a cruz per- 
tencia a umas casas, i Que casas seriam ? 

Nos pilares do portão n.° 170 da rua das Amoreiras 
vêem-se gravadas na pedra, em um, uma águia, ou 
coisa que o valha, recolhida numa oval, e em outro uma 
cruz tendo na base à data de 162Ó dentro de idêntica 
oval. 

l Seria esta a Cruz ? 

Vem-me agora à memória o antigo padrão desco- 
berto na parada do quartel de artilharia (ao topo dela) 
que entesta, como e' sabido, com a estrada de Campo- 
lide, no ponto fronteiro ao sítio hoje chamado 6'n/{ 
das Almas. Esse padrão, que hoje está no Carmo, 
como já se disse atrás, é constituído por uma pedra 
de Armas (dos Rebêlos, sem a mínima dúvida) na qual 
há vestígios, na espessura do plinto, do troço inicial 
de um fuste cilíndrico que bem poderia ser resto de 
uma cruz. Quando foi descoberto encontraram-se, jun- 
tamente, troços de cantaria de um portal, sobre o qual 



^491 — 

o escudo estaria colocado, visto que no reverso se en* 
contra, dentro de uma moldura, a seguinte inscrição; 

LOUVADO SEJA O SANTÍSSIMO SACRAMENTO 
ANO DE 1626 

Temos pois, salvo melhor opinião, um portal so- 
brepujado de uma pedra de armas coroada por uma 
cruz, i Ora não está tudo isto a explicar o nome da 
rua do Portal do São João ? Acresce ainda que a data 
da inscrição do escudo confere com a da cruz gravada 
no pilar, já referido : 1Õ26. 

As casas que tinham a^icruz, deveriam ser estas a 
que aludo. 

Parece-me haver em tudo isto uma estreita ligação. 
A consulta dos títulos das propriedades vizinhas faci- 
litaria muito a solução deste problema. 

l Que Rebêlos seriam estes, que fizeram erguer um 
portal com as suas armas, sobrepujadas de cruz, à en- 
trada de São João dos Bemcasados ? 

l Como iria parar o portal (talvez destruído em 1756) 
para o outro lado da rua, no topo da quinta do Guarda- 
-mór ? 

Tudo perguntas a que, por ora, não sei responder. 

As casas, a que pertence o portão de pilares orna- 
mentados, foram como a vizinha ermida da Cruz das 
Almas, da viúva do capitalista Manuel Maria d'Antas 
Barbosa (1). Pertenciam ainda há pouco ao sr. Fran- 
cisco Frick. Têm os números 164 a 170, da rua das 
Amoreiras. 



(i) Falecido no Estoril em aS de Janeiro de 1909. O féretro 
esteve depositado nesta ermida. 



492 — 



Já no meado do século xviii os livros paroquiais de 
São Sebastião da Pedreira falam na quinta do Rebelo 
(1750 a 1757), no Páteo do Rebelo (i753) e na Tra- 
vessa do Rebelo {ijbg). Anteriormente a estas datas, 
vejo apenas citado o Casal de São João dos Bemca- 
sados na posse de José' Rebelo Falhares (pai e filho). 

Gomo se vê, esta designação ia até à «Cruz das 
Almas» e «Arco do Carvalhão», antes que estes nomes 
a substituíssem meado o século. 

Como o «Padrão» tinha a data de 1626, há que pro- 
curar predomínio aqui dos Rebelos nessa data, ou an- 
teriormente. 

Ora os Rebêlús Palhares foi gente que veio para 
Lisboa no fim do primeiro terço do século xvii e que 
aqui proliferou abundantemente, com grande número 
de casamentos entre primos, o que me deu água pela 
barba para lhes fazer o quadro genealógico, tanto mais 
que os seus nomes próprios se repetem aflitivamente. 

Gabriel Ferreira Rebelo e seu irmão, ao que pa- 
rece Sebastião Ferreira Rebelo, eram ambos merca- 
dores, o primeiro de retroz, e o segundo não sei de 
quê. A loja do Gabriel era à Madalena, mas o beirão 
(era de Ferreirim, bispado de Lamego) tinha uma quinta 
em São Sebastião da Pedreira, freguesia onde morreu 
em 5 de Outubro de 1673, assim como sua mulher 
D. Ana Barbosa de Palhares, em i5 de Julho de 1669 (i). 

Gabriel Ferreira Rebelo foi Familiar do Santo Ofí- 
cio por carta de 12 de Janeiro de 1644, por onde se 
concluiu que nesse ano já morava em Lisboa. A mu- 



(1) Livro dos Óbitos da Freguesia de S. Sebastião da Pe- 
dreira. 



— 493 — 

lher nascera cá. O sogro, Baltasar Barbosa de Palha 
res, viera de Sanfins de onde era natural, e cá casara, 
em São Paulo, com Ana Verde, filha de Aymão Verde 
e de Catarina Aymáo, ele da Alia Alemanha e ela de 
Anveres, mercadores pela certa (i). 

l Teria sido o mercador de retroz o edificador da 
casa, com o portal brazonado ao alto? Se o foi, edi- 
ficou-a de-certo muito novo, a não ser que em 1675 
tivesse mais de oitenta anos, o que e' possível. 

Herdou a «casa do Portal» e o casal, seu filho José 
Rebelo Falhares que casou com Brígida Maria Re- 
belo. Deste passou para o neto, também José Rebelo 
Falhares que nasceu nela, e residia no Bairro-Alto 
quando foi feito Familiar do Santo Ofício, em i5 de 
Junho de i665(2). Em 1691 era ele o dono da pro- 
priedade. 

Para quem passou depois é que eu ignoro. 

Em São Sebastião da Pedreira havia outra quinta 
que foi, no século xviii, dos Rebêlos Palhares, mas essa 
fora cabeça de um morgado instituído por António da 
Rocha Cardoso, morgado de que fora herdeira sua so- 
brinha Maria da Rocha, casada com o Desembargador 
Feliciano Dourado. Destes foi filha e herdeira D. Ana 
Lourenço Justiniana Dourado que veio a casar com um 
viúvo, Francisco Rebelo, Escrivão da Fazenda da Câ- 
mara e Provedor da Junta do Comércio que era neto 
materno de Sebastião Ferreira Rebelo, irmão do Ga- 
briel, mercador de retroz (3). Destes nasceram vários, 



(i) Habilitação para Familiar do Santo Oficio de Gabriel 
Ferreira Rebelo — Carta de 12 de Janeiro de 1644. 

(2) Idem de José Rebelo Palhares — Processo 8-1 53 — Carta 
de i5 de Junho de 1695. 

(3) Nobiliários de Manso de Lima e Rangel de Macedo, na 
Biblioteca Nacional, e títulos do Palácio que foi dos Barros Gar- 



— 494 — 

entre eles José Félix Rebelo, marido de D. Antónia 
Inácia Rebelo Falhares (outra parenta), pai de Belchior 
Félix Rebelo. Este casou com uma rica herdeira, Ma- 
ria Engrácia Soares, de origem brasileira, e teve larga 
descendência. Uma das suas seis filhas, Maria da 
Conceição Rebelo veio a casar, no fim do século xviii, 
com outro parente, João Rafael Veloso Rebelo Pallia- 
ré-s (2), herdeiro de outra quinta próxima, cerca da «do 
Bahuto» que já vejo apontada nos Róis de Santos 0- 
]^elho em 1671, como quinta do Veloso. Dela era pro- 
prietário no fim desse século, Xavier da Costa Ve- 
loso (2). 

João Rafael, era neto do nosso conhecido Vasco 
Lourenço Veloso, administrador d.i Fábrica das Sedas 
em lySo, filho de uma D. Maria Joaquina de Falhares, 
e bisneto, possivelmente, do Xavier da Costa Ve- 
loso (3). 

Eis o que pude apurar quanto aos Rebêlos, cujo 
brazão apareceu na parada do antigo quartel de Arti- 
lharia e que lá está no Museu do Carmo (4). 



dosos na rua Direita da Calçada do Gombro, junto às Convertidas 
e esquinando para a travessa das Chagas, que me foram cedidos 
pelo meu amigo sr. Júlio Pires. Esta casa foi de Maria Engrácia 
Soares, mulher de Belchior Félix Rebelo e pertencera anterior- 
mente aos Condes de Sandomil. 

(i) Citados «Títulos» da casa dos Barros Cardosos. 

(2) Xavier da Costa Veloso, morava aqui, em 1742, com sua 
mulher D. Grácia Correia, seu filho Estêvão Xavier e três criados 
[Róis dos Confessados da Freguesia de Santa Isabel). 

(3) Róis dos Conf''ssados da Freguesia de Santos o-Velhoe 
Livro 2." de Decretos e Avisos da Direcção da Fabrica das Sedas, 
na Torre do Tombo. 

Xavier da Costa Veloso, aparece-me num registo da chan- 
celaria de D. João V {Livro 122, fl. 78) a fazer um contrato com 
a Câmara da \^idigueira em 10 de Abril de 1734 

(4) Em 1773-1774 viviam no Palácio dos Rebêlos, da travessa 
da Queimada, Francisco António Rebelo Pulhares e uma sua filha, 



— 495 — 

O sítio da Cru:{ das Almas aparece-nos pela pri- 
meira vez citado em 1719, no registo de óbito de uma 
Inez, filha de Manuel de Sequeira e de Catarina Maria, 
feito na freguesia de São José. Noutros, em 1730 e 
1732, surge-me a designação ao Canto das Almas. A 
não ser que a referência seja a outro local — à Cruz 
de Santa Marta, talvez — temos que assentar que esta 
denominação topográfica, só se fixou muito mais tarde, 
tanto mais que a «cruz do Padrão» não pertencia à pa- 
róquia de São José. O que é certo, também, é que em 
1731, o bispo de Lamego D. Nuno Alvares Pereira de 
Melo, faleceu à oCruz das Almas» em 8 de Março 
deste ano, e já se sabe que os Cadavais tinham aqui 
casa e propriedades rústicas (i) e que foi um Cadaval 
o fundador da ermida de que já vamos falar. 

A primeira vez que o local aparece firmado nos 
Róis dos Confessados de São Mamede é em 1812. Os 
Róis de São Sebastião da Pedreira perderam-se. Em 
1789 vejo uma citação isolada ao sítio, indicando-se a 
moradia, onde ainda estava cinco anos depois, do bispo 
de Pinhel e dos Reverendos Francisco Lopes Tavares 
e Sebastião José Saraiva (2). 

Fronteira à ermida, esquinando para a rua do Por- 
tal, hoje das Amoreiras fica, como atrás disse, a casa 
dos Laguares. O Dr. José Amaro da Cunha Laguar 
era o senhorio útil, em 1807, dos terrenos do Arco do 
Carvalhão foreiros a Geraldo Wenceslau Braamcamp 
de Almeida Castelo-Branco(3). 



José Félix Rebelo e sua mulher, Belchior Félix Rebelo e Maria 
Catarina Palhares. 

(i) Gabinete Histórico, de Frei Cláudio da Conceição, vol. ix, 
pág. 39. 

(2) Róis dos Confessados da Freguesia de S. Mamede. 

(3) Arquivo da Misericórdia, por Vítor Ribeiro, pág. 12. Es- 
critura de arrendamento de 5 de Novembro de 1807. 



— 49^ — 

A cruz que deu nome ao local era, evidentemente, 
a do Portal que sobrepujava o brasão dos Rebêlos. 



A ermida, que ainda tem culto, foi fundada em 1756 
pelo Inquisidor D. Nuno Alvares Pereira de Melo, filho 
do terceiro Duque de Cadaval, como já ficou dito no 
capítulo anterior. Foi dedicada a Santo António e a 
Nossa Senhora da Conceição. O Padre Luís Cardoso, 
no seu dicionário manuscrito, colocaa, fortalecendo a 
opinião acima expressa, ao portal de São João dos 
Bemcasados. 

E de simples arquitectura : frontaria em bico, por- 
tão e janelão de coro, gradeado. 

Sobre a porta está uma inscrição que diz: Dedicada 
á Imaculada Conceição Mana Santissima, em carac- 
teres romanos. 

Interiormente tem mais alguma coisa que ver, e prin- 
cipalmente o rodapé, lindíssimo, de azulejos do Rato, 
a três cores, verde, amarelo e azul, repetindo quatro 
das alegorias que se vêem nos da capela de Nossa Se- 
nhora de Monserrate. 

Dentro de uma moldura oval, sustentada por dois 
anjos do topo da qual pendem duas grinaldas seguras 
em pilastras que ladeiam apainelados (dois de cada lado 
do corpo da ermida e outros dois ladeando o altar na 
capela-mór) é que estão as composições alegóricas, 
todas a tinta azul. As grinaldas, pilastras e apainelados 
misturam as três cores. 

O tecto da capela é estucado a cores. Ao meio tem, 
sob uma coroa real, duas letras (M e A) enlaçadas em 
monograma, tudo doirado. Em roda, diferentes alego- 
rias ao sacrifício da missa. 



( 4Ç,G « ) 




A capela da Cruz das Almas e o prédio do cunhal 



^497 — 

A capela-mór é separada do corpo da ermida por 
uma leia de madeira. No altar está uma imagem de 
Cristo crucificado, sofrível escultura em marfim, entre 
uma Santa Tere:{a e um São Domingos. Ao fundo 
um retábulo mau de Nossa Senhora da Conceição. 

Sobre a pedra de ara está uma cabeça de Cristo, 
coroada de espinhos, dentro de uma maquineta. 

A ermida tem um coro, um púlpito e uma sacristia 
pequena. Pertence também ao sr. Francisco Frick e 
é seu capelão o Padre Joaquim Marques Sequeira. E 
está dito tudo. 



A casa 164 a 170 da rua das Amoreiras, exterior- 
mente desfigurada, devia, anteriormente, ligar-se com 
a da esquina e com a ermida. Por amabilidade do 
sr. Francisco Frick visitei-a em 7 de Julho deste ano 
(igSo). Além dos jardins, talhados à antiga, com ter- 
raços, bancos azulejados, etc, tem, como vestígio mais 
notável de outro tempo, a cozinha toda revestida de 
azulejos-padrão do século xviii com a particularidade 
de se figurarem, sobre a pintura geral, em três panos 
da parede, ao alto, a cor de vinho, várias peças de 
caça e de capoeira, tais como galinhas, coelhos, patos, 
cabritos, e ainda pernas e cabeças de porco. E a pri- 
meira vez que observo tal técnica. Nas cozinhas dos 
palácios de Santo Antão do Tojal e do Correio-Mór 
em Loures vêem-se essas figurações mas sobre fundo 
branco e não sobre o padrão de coces, como aqui. No 
quarto pano da parede, há, mas aqui embutido, um 
quadro a azul, representando uma cozinha setecentista, 
vendo-se vários utensílios de cozinha, pratos com co- 
mida, etc. 

Um cozinheiro, trajado caracteristicamente com o 

VOL. IV 33 



— 498 — 

clássico barrete da época, compõe um prato onde fumega 
não sei que iguaria, e uma «preta» escama vários pei- 
xes. Ao alto pendem enchidos e résteas de cebolas. 

Este painel tem o seu maior interesse no facto de 
representar tipos nacionais e não as eternas cenas de 
caçadas e de corte. 



Defronte desta casa ^- resto do Casal dos Rebêlos 
— fica o palacete onde há dezena e meio de anos está 
instalada a «Casa de Saúde das Amoreiras» do Dr. Go- 
mes de Amorim recentemente falecido. A rua segue 
depois, ladeada de boas moradias, até o declive da 
calçada dos Mestres. Estes «Mestres» eram os das 
Aguas Livres. 

* 

Na Cruz das Almas (li algures e agora não me re- 
cordo onde) esteve aquartelado em i833, o 3.° batalhão 
da Guarda Nacional. 



Seguindo a antiga «estrada de Campolide» temos, 
à esquerda, o Instituto de Cegos Branco Rodrigues, be- 
nemérita instituição, modelar no seu género, agora a 
cargo da Misericórdia de Lisboa ; e depois, à direita, 
tornejando para a Circunvalação, um grande casarão 
pintado de vermelho com quatro ou cinco andares. De 
há muito que ouvia chamar a essa casa, a Casa de Ju- 
not. Consultei até sobre o assunto o sr. Pinto de Car- 
valho (Tinop), profundo conhecedor da época das inva- 
sões francesas e de tudo quanto se relacione com a 
estada em Portugal do famigerado general napoleónico, 



— 499 — 

e disse-me Sua Ex.'* ter já ouvido fazer-se idêntica re- 
ferência, cuja autenticidade nunca pudera apurar. 

A-final decifrou-se o enigma. Junot nunca aí resi- 
diu e a lenda formou-se da adulteração do nome do 
primitivo proprietário do edifício, o francês Joaquim 
Pedro Genioux, com casa de negócio na calçada de 
São Francisco, como se vê dos Livros do Lançamento 
da Decima de 1828 e de uma lápide de pedra que lá 
está aposta no prédio. O Rol dos Confessados con- 
firma o caso, chamando àquela propriedade, indife- 
rentemente, Casa do Jiinò^ do Ginô^ ou do Jenú, no 
alto de Campolide, à esquina de Entremuros, desde 
1822 a i832. Em 1822 diz mesmo: Casa de Joaquim 
Pedro Jenu. 

Está pois desfeita a lenda. 

F^oi aqui, neste casarão do Genioux, frequentador 
dos bailes do Marechal Lannes, segundo a segura afir- 
mação do sr. Pinto de Carvalho (Tinop) que Saldanha 
teve o seu quartel-general em 1839(1). 

Em Campolide também morava o General Pam- 
plona, Conde de Subserra, em 1828. Foi na sua casa 
deste bairro que se deu a memorável festa e o célebre 
baile, num barracão armado na quinta atinente, a que 
assistiram o Marquês de Chaves e todos os heróis da 
época (2). 

Na rua Direita de Campolide, em Setembro de 33, 
no n.° 29, esteve instalado um hospital de sangue, di- 
rigido pelo deputado António Teixeira Salgueiro (3). 



(i) Memorias do Marquês de Fronteira, vol. iii, pág. 11 e 23. 

(2) Idem, vol. i, pág. 3oi e 362. 

(3) Crónica Constitucional de 5 de Setembro de i833. 



CAPITULO XXI 



Sumário : O antigo caminho da Circunvalação e a travessa de São 
Francisco Xavier — Como era o local ao tempo do terremoto 
— A quinta do Noviciado da Cotovia — Sua história — Cria- 
ção da Penitenciária — Referem-se os engenheiros que dirigi- 
ram a obra— Sua conclusão — Algumas considerações acerca 
desse regime penal — O desenvolvimento da cidade perante 
a Penitenciária — Um quartel moderno — Prossegue-se o pas- 
seio pela Circunvalação — A quinta dos Duques de Aveiro, 
depois do Seabra — Um incêndio no Palácio — Como se for- 
maram as terras do Seabra — A casa e quinta do Malheiro — 
Hospeda-se lá o Infante D. Carlos — Quem eram estes Ma- 
lheiros —Dá-se notícia do palacete — O que resta dele — A 
estrada de Campolide — As propriedades antigas e o moderno 
bairro — O Asilo de São Patrício — A casa e quinta da Torre 
de Estêvão Pinto de Morais Sarmento — Algumas notícias 
sobre a sua família — Como foi parar às mãos do poeta João 
de Lemos — Compra-a o Padre Radmaker para instalação do 
Colégio de Campolide — Notícias biográficas deste clérigo^ 
Uma anedota do Marquês de Penalva — Como se fundou o 
Colégio de Campolide — Obras, aumentos e desenvolvi- 
mento da instituição — Expulsão dos padres — O destino do 
edifício — O moderno bairro de Campolide. 

Da antiga estrada da circunvalação, já pouco res- 
tará daqui a dois ou três anos. Dia a dia demolem-se 
os muros que a ladeavam, fazem-se novos alinhamentos 
e surgem espaçosas avenidas, como por exemplo, a do 
Marquês de Ft^onteira, que se espalma entre Entre- 
muros e Palhavã, e a do Duque de Afila entre este 
local e o Arco do Cego. 

E um nunca acabar de apoteoses ao ressurgimento 
urbano. 



— 5o2 — 

Empunhando o gancho do gandaeiro, veremos se 
alguma coisa notável se nos depara entre os entulhos 
das demolições. 



O troço da estrada que vai, da de Campolide, para 
cima da Cruz das Almas, até São Sebastião da Pe- 
dreira, chamava-se, começado ainda o século xix, a tra- 
vessa de São Francisco Xavier. Assim aparece no- 
meada na planta do engenheiro Duarte José Fava, 
levantada no ano de 1807. 

Tal travessa delineada e executada no terceiro quar- 
tel do século xviii, afastava-se bastante do traçado do 
antigo caminho ali existente antes de 1765. Em 1884 
vejo chamar-se-lhe rua, nos Róis dos Confessados. 

A primitiva estrada, muito sinuosa, partindo aliás 
do mesmo ponto, deixava à esquerda a quinta e casas 
dos Jesuítas (de que Já falamos) e seguia depois, fican- 
do-lhe à direita uma faixa de terreno pertencente aos 
Congregados do Oratório. Descia seguidamente, mis- 
turando-se com um caminho que subia para Campolide, 
em continuação da azinhaga da Torrinha, caminho este 
que era murado e que seguia, entre a quinta de Gas- 
par José dos Reis, à esquerda, e a. de Estêvão Pinto, 
à direita. Isto em 1760 e tantos. 

Depois, retomando a sua independência, seguia para, 
o termo, ficando-lhe, à esquerda, as casas e muros da 
quinta do Poceiro (à qual se seguia a do Rabeqiiinha) 
e, seguidamente, a quinta e palácio dos Duques de 
Aveiro e a propriedade de Manuel Gomes de Ca?npos, e, 
à direita, as terras do Poceiro (fronteiras à quinta do 
mesmo nome) e a quinta e casas nobres do Malheiros, 
indo terminar defronte da igreja de São Sebastião. 

A travessa de São Francisco Xavier, cortou a 



- 5o3 — 

direito até cerca do palácio dos Duques, desde Entre- 
muros, atravessando, por isso, a quinta dos Jesuítas, a 
azinhaga da Torrinha e as terras do Poceiro. A pro- 
priedade dos Padres da Companhia ficou-lhe, pois, à 
direita. Vejamos do seu destino. 



Proscritos, por Pombal, os regulares da Compa- 
nhia de Jesus, passou a quinta a ser administrada pelo 
Juízo da Inconfidência, que a alugou a diferentes : — ao 
Desembargador Domingos Lobato Quintteiro, em 1762 ; 
ao opulento proprietário Gaspar José dos Reis, em 
1766, etc.(i). Depois de 1770 passou a propriedade 
à posse da «Junta de Administração do Colégio dos 
Nobres», a cujo património pertencia por doação Pom- 
balina, começando a ser explorada por conta dos do- 
nos. O seu rendimento era importante, pois o moi- 
nho e as muitas azenhas de três rodas cada uma, que 
possuía, produziam grande quantidade de farinhas que 
era fornecida às numerosas padeiras da freguesia de 
São Sebastião da Pedreira (2). 

Ao começar o século xix, o Colégio dos Nobres 
alienou-a, vendendo-a a José de Seabra da Silva, mi- 
nistro, embaixador, político, e financeiro do tempo de 



(i) Livros do Lançamento e Arruamento da Decima — Anos 
de 1765 a 1766 — Superintendência de São Sebastião da Pedreira 
(Arquivo do Tribunal de Contas). 

(2) Diz o Padre Luís Cardoso, no seu Dicionário Manuscrito, 
vol. II, pág. 932 : 

«... um moinho e muitas azenhas de trez rodas cada uma 
em que se fazem as muitas farinhas para as padeiras cozerem pão 
porque o mais trato tem que muita parte das mulheres desta fre- 
guezia he amassarem pão para irem vender fora desta freguesia». 



— 5o4 — 

Pombal e de D. Maria I, tão notável pela sua desgraça 
como pela sua Fortuna. Em i8o5 já a quinta estava 
absorvida pelo famoso Seabra e englobada no seu do- 
mínio(i). 

Chegado o ano de 184 1, sem até aí nada haver digno 
de menção, aparece no Diário anunciada a venda da 
propriedade constante de terras de semeadura, olival, 
horta, pomar, dois poços, etc, mencionando-se a sua 
serventia pela azinhaga da Torrinha (2). Ignoro se se 
alugou ou não. Em iSyS estava ainda disponível e o 
Governo expropriou parte dela (a que ficava para além 
da travessa) a-fim-de ali construir uma Cadeia Geral e 
Penitenciária, tendo também utilizado, por compra, 
terrenos do Colégio de Campolide. 

Tal foi o estravagante destino da linda quinta de 
recreio dos noviços da Companhia. No local onde me- 
ditaram o pintor Domingos da Cunha e os irmãos Lou- 
renço Lombardo, António de Azevedo e tantos outros, 
na residência alegre e hospitaleira do Viso-Rei Fernão 
Teles de Meneses, ergue-se, hoje, essa terrível Peni- 
tenciária. A clausura facultativa sucedeu a clausura 
obrigatória, j Fatal destino das coisas ! 



Foi em 1867, no ministério presidido por Joaquim 
António de Aguiar e por proposta do, então, Ministro 
da Justiça, Barjona de Freitas que foi promulgada a 
lei de I de Julho abolindo a pena de morte e as penas 
perpétuas, e substituindo-as pela prisão celular, com 



(i) Citados Livros da Decima. 

(2) Diários do Governo n.*" 9Õ e i8ó de 24 de Abril e 9 de 
Agosto de 1841. 



— 5o5 — 

separação de preso a preso, e pelo degredo como pena 
complementar. 

Para tal lei ser executada foi o Governo autorizado 
a mandar construir uma Cadeia-Penitenciária, no dis- 
trito de Lisboa, por decreto de 24 de Abril de 1873. 

Escolhidas as terras do Seabra, entre o reservatório 
do Pombal e a estrada da Circunvalação, pôs-se mão 
na projectada obra, fazendo-se as necessárias expro- 
priações em 4 de Novembro de 1873. 

Apresentaram-se e estudaram-se três planos ; o pri- 
meiro do engenheiro Joaquim Júlio Pereira de Carva- 
lho, moldado no plano da cadeia de Ma^as^ em Paris ; 
o segundo do engenheiro Luiz Vítor Lecoq, inspirado 
no da prisão de Pettonville projectada pelo engenheiro 
inglês J. Jebb, e o terceiro de Ricardo Júlio Ferraz, 
elaborado, depois da viagem deste engenheiro à Bél- 
gica e à Inglaterra, no outono desse ano. Foi este o 
que se executou, inspirado no das prisões de Birmin- 
gham e de Leeds, embora o segundo também tivesse 
sido aprovado pela Junta Consultiva das Obras Pú- 
blicas. Como, porém, o engenheiro Lecoq deixasse 
a direcção dos trabalhos e lhe sucedesse Ricardo 
Júlio Ferraz, veio a executar-se o plano deste enge- 
nheiro. 

Vov portaria de 10 de Julho de 1874, passaram as 
obras da Penitenciária a constituir uma direcção espe- 
cial ficando à frente dela este funcionário, mas sendo, 
em 1877, exonerado a seu pedido foi substituído pro- 
visoriamente pelo engenheiro Eça, passando as obras 
para a Direcção Geral do Ministério. Ao engenheiro 
Eça sucedeu outro, de nome Garção, que novamente 
ficou encarregado da superintendência dos trabalhos 
desligados outra vez da Direcção Geral. 

A este seguiu-se Jaime Larcher em 1878 e depois o 
chefe de secção Joaquim Pedro Xavier da Silva, aca- 



— 6o6 — 

bando as obras por ficar definitivamente sob a tutela 
da Direcção Geral do respectivo Ministério. 



O edifício é vastíssimo e compõe-se da prisão pro- 
priamente dita, edifício da Administração, habitações 
de empregados, hospital, capela, cozinha e gasómetros. 
As habitações formam um edifício isolado, cuja fron- 
taria constitui a fachada principal da Penitenciária. O 
corpo central e a prisão constituem um edifício de forma 
estrelada cujo centro é ocupado por uma rotunda, onde 
é a capela, e donde partem as seis alas destinadas ao 
serviço da prisão. 

O corpo central dá ingresso à Rotunda e constitui 
uma sétima ala cujo eixo é perpendicular à fachada 
principal. 

Lavanderias, casas de banho, serviços clínicos e 
hospitalares, de administração e de detenção provisó- 
ria, acumulam-se no corpo central. Os subterrâneos 
da rotunda e da parte das seis alas são destinados ao 
serviço doméstico. Tanto no topo das alas como entre 
elas estão distribuídos os passeios dos presos, dispostos 
em forma de leque. Uma muralha de oito metros de 
altura fecha o recinto, havendo exteriormente outra 
com quatro metros, formando as duas um caminho de 
ronda. 

Descrever minuciosamente o edifício seria fastidioso 
e ocuparia algumas páginas sem mais interesse, tanto 
mais que tal descrição se acha bastante vulgarizada. 

Por isso, passo adiante. 



— 5o7 — 



Uma das condições a que obedeceu a escolha deste 
local para edificação da Penitenciária, foi a de ficar 
arredado da cidade, longe dos arruamentos, fora, enfim, 
do tumultuar da vida urbana. Com o andar dos "tem- 
pos veio, pore'm, a cidade até ela, e a Casa do Silêncio 
acha-se agora ameçada no seu isolamento, e arriscada, 
daqui a alguns anos, a ficar encravada em pleno burgo 
moderno. 

Na sua frente, todo esse vasto trato de terreno, vai 
desaparecer em breve. A rua Castilho, prolongando-se, 
irá terminar numa meia laranja em frente daquele trá- 
gico portão, onde bem se podia escrever o letreiro que 
Dante fantasiou sobre a porta do Inferno. Pelos oli- 
vais e terras de semeadura avançam os alveneis e os 
cavouqueiros ; as árvores caem abatidas perante a inva- 
são ; as colinas verdejantes demolem-se e enchem-se os 
graciosos vales com os entulhos das demolições e, em 
vez de searas, ir-se-ão, em breve, semear alicerces de 
cantaria bruta. 

A Penitenciária assiste indiferente, ouriçada de ven- 
tiladores, coroada de torreões, recortada de ameias, a 
este caminhar impávido da cidade porque, a-pesar-do 
seu aspecto ridículo de castelo de papelão onde, a todo 
o momento, esperamos ver passar uma fila de cordei- 
rinho e de pastores, postos em movimento por oculta 
manivela, há-de servir fatalmente de barreira formidá- 
vel ao desenvolvimento urbano. Os edificadores des- 
falecerão perante tal vizinhança, mil vezes mais triste 
e opressora do que a de um cemitério onde repousam 
os mortos. 

Muito se tem escrito sobre esse regime penal, so- 
bre as desvantagens do enclausuramento impiedoso a 



— õo8 — 

que ali são sujeitos os delinquentes. Eu sou aberta- 
mente contrário a tal regime que longe de corrigir e 
de regenerar, deprime, enlouquece, tuberculiza e mata. 

Antes mil vezes a Forca, 

Entra ali um homem, sai de lá um frangalho mo- 
ral, vitima do isolamento da inacção e da continência. 

A cidade que teve força de arrasar o Passeio Pú- 
blico, que arrostou com o ridículo da horta dos Tripas^ 
que conseguiu vencer as mil peias judiciais da quesi- 
lenta questão do Casal Monf Almeida, deve encora- 
jar-se a meter ombros a uma benemeVita empresa : 
demolir a Penitenciária de Campolide. 

Ao topo do futuro Parque, onde deveria assentar um 
palácio de festas e de exposições, não pode nem deve 
ficar aquele monstro. 



A seguir à Penitenciária fica agora o quartel de Me- 
tralhadoras n." I da guarnição de Lisboa. Aestrate'gia 
das revoluções faz deste ponto de Lisboa um ninho de 
aquartelamentos. 

Nestes terrenos projectou-se em 1917 a construção 
de um edifício onde se instalassem a Escola de Belas 
Artes, o Museu de Arte Contemporânea e o Conselho 
de Arte e Arqueologia, pessimamente abrigados no 
velho casarão de São Francisco. A Biblioteca alargaria 
então as suas instalações. Ficou tudo em projecto. 

O que não sofre dúvida e' que a vida oficial e co- 
mercial da cidade se vai deslocando para o norte. 

Nesta hora em que escrevo vem na Imprensa a no- 
tícia de ler sido comprado o palacete Serôdio., na Ro- 
tunda, para, nos seus terrenos, se construir um Palace- 
-Hotel. 



— 5o9 — 

A seguir é o palacete do sr. Henrique de Mendonça. 
A porta entre o seu jardim e a Penitenciária, que ser- 
via os terrenos da família Amaral, foi feita na brecha 
abefta no muro por Paiva Couceiro no dia 4 de Outu- 
bro de 1910, para assestar uma das suas peças contra 
a Rotunda. 



Passada a quinta e terras do Poceiro (que foram 
mais tarde do Principal Deão Azevedo, depois dos seus 
herdeiros e mais tarde de um tal Carlos Joaquim, 
vindo finalmente parar às mãos do Seabra) avultava à 
esquerda, o palácio, com seus belos Jardins e magnifica 
quinta que fora do Duque de Aveiro. Extinta a casa 
ducal, depois da misteriosa tentativa de 1759, passou 
a propriedade para um tal António Vaz Coimbra e 
depois (em 1767) para José de Seabra da Silva, irmão 
de Lucas de Seabra da Silva, duas figuras ce'lebres da 
época (i). 

José' de Seabra parece ter tido a ideia de formar 
à roda do seu grandioso palácio um dos mais extensos 
domínios de que havia memória às abas de Lisboa o 
qual sob o nome de Terras do Seabra, chegou quási 
intacto a nossos dias (2). 

Em 1770 vê-mo-lo adquirir uma propriedade cons- 
tituída por bens de capela, a qual era administrada 



(i) Citados Livros da Decima — Diferentes anos (Arquivo do 
Tribunal de Contas). 

(2) O Dr. Almeida Silvano, no seu livro O Grande Marque^ 
de Pombal, diz, a pág. 248, que foi Sebastião José quem arran- 
jou (?) a José de Seabra a mercê da casa e quinta de Entremuros 
e por último o seu vantajoso casamento com a herdeira dos Cou- 
tinhos de Coimbra. 



— 5io — 

pelos religiosos do convento da Estrela e que pegava 
com a quinta do Noviciado; em 1786 compra a quinta 
da Rabequinha e, ao começar o século xix, ei-lo já de 
posse da propriedade dos jesuítas, e da'quinta e casas de 
Carlos Joaquim (antiga quinta do Poceiró) que tinham 
sido dos herdeiros do Principal Azevedo, como já ficou 
apontado(i). 

José de Seabra tinha todas estas propriedades por 
sua conta e habitava no palácio Aveiro. Apenas no 
segundo semestre de 1779 vejo alugar-se a velha mo- 
radia ducal ao Marquês de Niza que, por sinal, pagava 
de renda 25oíí)00o réis (2). Em i8o5 José de Seabra 
habitava-a e com êle quadro criados, quatro parelhas 
e quatro cavalos de sela. Em 182 1, estava ausente em 
França, e em 1882 devoluto, pois o visconde residia 
então ná sua casa de Entremuros. Em i833, diz o Li- 
vro da Decitiia, ocupavam-no «as tropas» (3). 

José de Seabra casara com uma senhora fidalga, 
D. Ana Felícia Coutinho de Sousa Tavares da Horta 
Amado e Cerveira, e desse casamento nascera o pri- 
meiro Visconde da Baía, Manuel Maria da Piedade. 

Do casamento deste com D. Ana Isabel de Salda- 
nha Oliveira e Daun, quarta filha dos Condes de Rio 
Maior, veio ao mundo o segundo visconde João Maria 
da Piedade. José de Seabra falecera em i3 de Março 
de i8i3 com oitenta e um anos de idade (4). 

Meado o século xix, o vasto domínio dos Seabras 
desmembrou-se, vindo entretanto a maior parte dele 
parar às mãos do falecido capitalista José Maria Eu- 



(i) Citados Livros da Decima — Anos respectivos. 

(2) Ident — Ano de 1779 

(3) Idem — Anos de i8o5, 1821, iSSa e i833. 

(4) Resenha dos Titulares, por Sanches de Baena e Silveira 
Pinto, vol I. 



— 5ii — 

génio de Almeida. Passou então a chamar-se o Casal 
Mont' Almeida. O resto, já o sabe o leitor. 



Esta casa e quinta dos Aveiros serviu, por várias 
vezes, no século xvii, de alojamento a notáveis perso- 
nagens. Vejamos. 

Em 22 de Janeiro de 1668 chegou a Lisboa o Conde 
de Sandwich, Vice-Almirante de Inglaterra, vindo de 
Madrid a assentar as pazes com que o povo tanto im- 
portunava El-Rei(i). Para aqui veio aposentar-se com 
luzido cortejo à frente do qual não faltava o rapazio 
que alternava vivas e pa^es. 

A audiência régia realizou-se a 24, e a 23 foi ao con- 
vento da Esperança beijar a mão à Rainha. 

A 23 de Novembro desse mesmo ano chegou o em- 
baixador de Castela. Desembarcou no cais de S. Paulo 
e veio também alojar-se no palácio Aveiro. Aqui es- 
teve, esperando pelo parto da Rainha para fazer a en- 
trada solene, mas como esse acontecimento se demo- 
rasse até 6 de Janeiro seguinte, só em 12 de Fevereiro 
realizou a entrada e a audiência (2). 

Este palácio dos Aveiros ficou bastante arruinado 
com o terremoto. O Conde de Aranda, Embaixador 
de Espanha na nossa corte que viera substituir, em 
1756, o de Peralada, seu antecessor, vítima do desastre 
na casa dos Meneses, à Cruz de Pau (palácio de A 



(i) O povo costumava, nas ruas, sempre que via El-Rei ou o 
Infante, prorromper em gritos pedindo a paz. Di-lo o autor mis- 
terioso das Monstruosidades do Tempo e da Fortuna. 

(2) Monstruosidades do Tempo e da Fortuna, pág. 5i, 66 e 71. 



— 5l2 — 

Luta ao Calhariz), viu-se coagido a construir, na quinta, 
uma barraca para habitar. Dias depois, como se a 
ruína não bastasse, pegou fogo no solar arrabaldino dos 
Duques. 

Um dos quartos que escapara ao incêndio passou 
depois a ser ocupado por uns criados do Embaixador 
e certo dia, a-pesar-de, aparentemente, não mostrar pe- 
rigo, desmoronou-se, e os servos foram salvos a custo 
ficando mal feridos com o desabamento. O Conde de 
Aranda, nada contente com isto tudo e custando-lhe a 
respirar o ambiente de pavor que ainda envolvia Lis- 
boa, mal se desampenhou da sua principal missão, que 
era dar os pêsames a El-Rei e oferecer os auxílios do 
seu soberano, partiu para Castela. Veio substituí-lo, 
outro grande de Espanha, o Conde de Macedo e Ta- 
boada que se instalou numa barraca nesta mesma quinta, 
enquanto outra, de maiores acomodações, se ia cons- 
truindo(i). 



Em seguida à propriedade dos Duques, ficavam as 
de Manuel Gomes de Campos — umas casas nobres e 
dez casas abarracadas com vasto terreno atinente. Isto 
do lado esquerdo da travessa de São Francisco Xavier. 

Do lado direito assentava o palácio dos Leites Pa- 
checos Malheiros, circundado por terras de semeadura, 
hortas, olivais, pomar, etc. 

Dou a palavra ao Padre Urbano José de Melo Pinto 



(i) O Terremoto do i.° de Novembro de ij55 em Portugal e 
um estudo demográfico^ por Francisco Luij Pereira de Sousa, vo- 
lume III — Lisboa, i(j28, pág. 727, transcrição do curioso manus- 
crito do Padre Manuel Portal. 



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da Silva, prior de São Sebastião da Pedreira e infor- 
mador de seu colega Luiz Cardoso, em 1708 : 

«■Neste fnesmo sitio da parte da mão esquerda está 
uma grandiosa quinta que he de Jerónimo Leite de 
Vasconcelos Pacheco Malheiro com um notável portal 
por onde se entra em um grande corredor que pai pa- 
rar em um grande pateo, adonde tem casas nobres, 
com uma vistosa varanday>^ etc.(i). 

Jerónimo Pacheco Malheiro, dono do palacete, era 
filho de António Leite Pacheco Malheiro e de D.^ Vio- 
lante Engrácia de Sá, possuidores de vinte e quatro mil 
cruzados de renda, ela de Leça do Bailio e ele de Lis- 
boa, e donos também de outro palácio a Santo An- 
tónio da Sé (largo do Malheiro) que António Leite 
comprara em 171 1 à Condessa da Feira (2). Seu avô 
fora Diogo Leite Pacheco de Macedo, fidalgo de Santa- 
rém, e sua avó D. Ana Maria de Melo, tudo sangue 
limpo. Casara Jerónimo Malheiro com D. JVIaria Te- 
resa Josefa de Portugal, filha de João Sanches de Baena 
e de D.' Violante Antónia de Portugal, neta materna 
de Diniz de Melo e Castro, Conde das Galveias (3). ■ 

O abastado casal não chegou a residir nesta quinta 
arrabaldina, onde ai por 1734 a 1736, tinha havido um 
hóspede ilustre, nada menos do que o asmático infan- 
tinho D. Carlos, a que já largamente me referi num 



(i) Dicionário Manuscrito, Já citado, vol. ii--Tôrre do Tombo. 

(2) Elementos para a Historiado Municipio de Lisboa, vol. vii, 
pág. 119. 

(3) Habilitações para familiares do Santo Oficio — 24-6776 
m-1.929 de Aniónios; 7-118 de Jerónimos; e 5-i3i de Diogos 
(Torre do Tombo). 

VOL. IV 33 



- 5i4 - 

dos capítulos passados. Ignoro a época exacta da es- 
tada aqui do débil Infante. 

Por esse tempo, diz o meu informador, era nume- 
meroso o concurso de gente grada a este local e não 
raro se viam os coches reais no amplo páteo do Ma- 
lheiro (i). Aí por 1758 residiu no palácio o conhecido 
Principal Lázaro Leitão Aranha, e, em 1765, Luiz José 
Leite Pacheco Malheiro, filho de Jerónimo Pacheco 
Malheiro. A casa pertencia então ao seu irmão Antó- 
nio Manuel que era o primogénito e herdeiro, e que foi, 
como seu pai e avós, familiar do Santo Ofício (2). 

António Manuel viveu nesta casa por várias vezes 
mas não seguidamente, tendo falecido entre os anos de 
1806 a iSio. Em 1769 morou aqui o capitão de ca- 
valos João de Sousa Meneses (3). 

Nos anos de 1785 a 1788, esteve, por exemplo, ar- 
rendado o palacete ao Contador do Erário Sebastião 
Francisco Betâmio, por 55oírooo réis. Nos anos de 
1779 e 1790 esteve devoluto. A quinta esteve também 
arrendada a diferentes. Em i8o5 lavrava-a um tal An- 
tónio José Alves, ao tempo que o senhorio habitava as 
casas nobres com cinco criados e uma parelha, e em 
1812 alugava-a António de Oliveira (4). 

Em 1812, habitavam-nas os herdeiros de António 
Manuel Pacheco Malheiro. 

Em 1834, a casa e quinta, eram de Francisco Teles 
de Melo e de sua mulher D. Mariana Guilhermina de 



(i) Dicionário do Padre Luiz Cardoso, já citado, 
(a) Livros da Decima — Superintendência de São Sebastião 
da Pedreira — Anos citados. 

(3) Livro dos Óbitos da Freguesia de São Sebastião da Pe- 
dreira — Óbito de sua mulher D.Josefa Evangelista da Silva e 
Macedo, em 28 de Junho de 1769. 

(4) Citados Livros da Decima — Anos citados. 



— 5i5 - 

Almeida Malheiros. Trazia-as de renda José Ferreira 
Lage(i). 

As casas estavam então arruinadíssimas, assim como 
as dependências entre as quais vejo mencionar-se um 
mirante, em 1820, ocupado por um açougue. 

Da parte nobre da residência estavam de pé os 
portais. O resto tinha-se desmoronado, tornando-a 
inhabitável (2). Assim se conservou ao abandono de 
então para cá, e assim se conserva ainda. Aqui há 
quinze anos, pouco mais ou menos, fui ao velho pátio 
ver dois brazões de armas reais que me tinham denun- 
ciado ali existir, a-fim-de os adquirir para o Museu do 
Carmo, caso tivessem algum valor. Não o tinham, a 
não ser como recordação histórica, por terem sido dos 
antigos armazéns reais do Jardim do Tabaco. Ocupava 
então os restos do palacete Malheiros um carpinteiro 
de carros. Aquilo nem já era sombra do que fora. 

Com os trabalhos de plantação do futuro Parque, 
em cujo âmbito se inclui, perto da nova Avenida António 
Augusto de Aguiar, vai, em breve, ser arrazada aquela 
ruinaria. Voltei lá outra vez, por isso, a 23 de Feve- 
reiro de 1922 e pude, graças à minha falta de jeito, 
tirar dois péssimos desenhos do desmantelado palacete, 
mais tão fiéis quanto possível. Aqui os dou ao leitor. 



Voltemos agora novamente ao ponto de partida. 
Seguindo pela estrada de Campolide, que se ini- 
ciava na Ct'u\ das Almas, ficava à direita um terreno 



(i) Periódico dos Pobres de 20 de Novembro de 1834. 
(2) Citados Livros da Decima — Anos 1820 e i832. 



— 5i6 — 

de forma triangular |que era, ao tempo do terremoto, 
de um tal Francisco da Costa e que pegava com as 
propriedades do já referido Gaspar José dos Reis. Do 
lado oposto, ficavam terras de semeadura, conhecidas 
pelas terras do Zambiijo, depois as propriedades de 
Francisco Fernandes, onde hoje assenta o moderno 
bairro de Campolide e a seguir as tendas do Vintétn. 

Em perto de cento e sessenta anos, dezenas de vezes 
mudaram de proprietários aqueles troços de terreno. 

Onde acabam as terras do Zambujo inicia se hoje 
a rua do General Taborda, restando apenas, embora 
restauradas e disfarçadas em prédio moderno, as casas 
de Francisco Fernandes, em frente à bica de Campo- 
lido (i). As ruas Vítor Bastos, Soares dos Reis, D. Car- 
los Mascarenhas, Marquês de Fronteira e outras, corta- 
ram, até ás fortificações, a rústica encosta que descai 
violentamente sobre o vale de Alcântara. 



Seguindo ainda a estrada, passado o último arrua- 
mento do bairro novo, ergue-se, à esquerda, o grande 
edifício que foi das Irmãiinhas dos Pobres^ sob a in- 
vocação de São Patrício. Estas Irmã\inhas eram as 
do velho casarão de São Patrício, que fora palácio do 
Viso-Rei D. Garcia de Noronha, ali a S. Mamede-o- 
-Velho. Fôra-lhe cedido em 1884 com obrigação de ali 
manterem o culto. A nova construção de Campolide 
fêz-se de esmolas, angariadas de porta em porta pelas 



(1) Esta bica recebia a água de uma mina do monte de Es- 
têvão Pinto (Colégio de Campolide). Agora recebe-a do Alto da 
Atalaia (Veloso de Andrade — Memoria sobre Chafari^es^ eíc, 
pág. 3o). 



-5i7- 

religiosas. Nâo houve dinheiro para fazê-la melhor; 
o essencial era haver casa para as três centenas de ve- 
lhos que lá se acolhiam, feia, sim, mas útil e agasa- 
lhada. 

Em 19 de Março de todos os anos patenteava-se ao 
pijblico o edifício. Nunca lá fui. Na cerca havia uma 
estátua de São José acolhida numa moita de rosas. 
Digo havia porque não sei se a demoliram, o que e' o 
mais provável. 

Não conheci a capela do Asilo-Colégio de São Pa- 
trício, profanada em 6 de Maio de 1912, por ocasião 
de uma sessão comemorativa do aniversário da laiciza- 
ção deste Instituto de Caridade, mas dizem-me que nada 
tinha de notável. 

As irmã^inhas abandonaram o edifício em 18 de 
Janeiro de 1911. Existiam então ali i52 homens e i33 
mulheres. 

Aqui há anos, certo jornalista foi visitar o Asilo e 
pensou que seria interessante ouvir os velhos acerca 
das vicissitudes passadas daquela instituição. Encetou 
por isso conversa com uma das asiladas e a certa altura 
inquiriu : 

^E a respeito de liberdade? 

— j Há liberdade de mais, meu senhor ! \ Olhe que 
isto da muita liberdade também faz mal 1 

E abaixando a voz, rematou : 

— i Que isto de eles saírem a passear quando as 
mulheres saem, olhe que é perigoso! 

; O que a gente pensa aos oitenta anos. Santo Deus ! 



(i) Citados Livros da Decima — Ano de 1766. 



— 5il 



Continuando pela estrada, fica-nos, à direita, o portão 
nobre do Casal de Campolide onde se conservam ainda 
uns fornos de cal que já lá existiam em 1766 e que 
pertenciam então ao Dr. Francisco Eusébio Joaquim 
Bele'm(i). Depois surge-nos à direita uma calçada em- 
pinada. Era a travessa de Estêvão Pinto. 

Subindo-a, e deixando à direita um portão com um 
nicho vazio, talvez da casa do Dr. Belém, segue-se uma 
casa antiga, tornejando para um beco sem saída, restos 
do tal caminho em continuação da azinhaga da Torri- 
nha ; e depois, virando à direita, eis-nos no extinto Co- 
légio de Campolide. A calçada continua em direcção 
do Alto da Atalaia. 

Aqui era a quinta da Torre., propriedade em lyôS 
de Estêvão Pinto de Morais Sarmento, criado parti- 
cular de El-Rei D. José' e seu guarda-jóias. Foi êle 
quem deu o nome à travessa. 

As casas eram nobres e tinham pegada uma capela 
da invocação de Nossa Senhora da Penha, com sua 
torre de sinos onde, por esse tempo, se faziam notáveis 
festividades, muito concorridas pelos moradores das 
cercanias (i). A festa anual do Santo Nome de Maria 
era a 10 de Setembro (2). 

Estêvão Pinto, que em 1766 era Secretário do De- 
sembargo do Paço e Oficial Maior da Secretaria de 
Estado e da Rainha, vivia aí nesse ano (3). Casara 



(i) Dicionário do Padre Luiz Cardoso — Freguesia de São 
Sebastião da Pedreira. 

(2) Diário Eclesiástico para 181 5. 

(3) Livros da Decima, já mencionados. 



— 5i9 — 

com D. Teresa Mongiardino(i). Por sua morte pas- 
sou a casa a seu filho mais velho Pedro Caetano Pinto 
de Morais Sarmento que foi Escrivão dos Registos das 
Mercês. Desta família pouco pude apurar. 

Um irmão deste Pedro Caetano, chamado João 
Gualberio, era bacharel e fora Escrivão da Mesa do 
Sal antes de passar à América como ouvidor do Sa- 
bará. 

Quis a desgraça que ele perecesse no naufrágio 
ocorrido na viagem, deixando órfão Estêvão Pinto de 
Morais Sarmento, soldado do regimento de Peniche e 
empenhados os réditos do edifício de que era proprie- 
tário. Recolheu-se o órfão a casa de seu tio Pedro 
Caetano. Como em lygS fosse mandado para fora do 
reino o regimento a que pertencia, requereu Estêvão 
Pinto a El-Rei pedindo-lhe fosse entregue o rendimento 
do oficio. El-Rei atendeu-o(2). 

Em i832 este Estêvão Pinto residia em Campolide 
em umas casas do Dr. Inácio Francisco Silveira da 
Mota (3). 



(i) Esta senhora fez dívidas no valor de dezassete mil cru- 
zados, hipotecando a sua quinta, o que levou o filho a pedir à 
Direcção da Fábrica das Sedas, onde servira o avô materno, para 
a dívida ser paga pelo Cofre do Novo Imposto (Livro g28-2.° de 
Representações e Consultas, pág. yS v.°). 

Conforme um anúncio na Gajeta de 3 de Junho de 1S12, os 
bens de D Teresa Mongiardino foram penhorados neste ano 
requerimento da Irmandade do Santíssimo da freguesia da Encar- 
nação. De outro anúncio no Diário do Governo de i835, ve-se 
que outro Estêvão Pinto, neto deste, deixou uma filha, D. Maria 
Isabel, e um filho, David Pinto de Morais Sarmento, o qual rece- 
beu a parte da herança que competia à irmã, por desistência 
desta. 

(2) Processo do Desembargo do Paço (Estremadura) — 16S8- 
-14 da colecção existente na Torre do Tombo. 

(3) Citados Livros da Decima — Ano de iS32. Estêvão Pinto 



— 520 — 

Em i832, morava na quinta da Torre o Marquês 
de Pombal, pagando de renda 3ooíí)0oo réis; e em i833 
já a propriedade pertencia a um tal Nicolau de Abreu 
Castelo Branco (i). 

No Diário do Govêriio de 6 de Junho de 1837, apa- 
rece o seguinte anúncio, com o n.° i3: 

aQuem quiser comprar as casas e quinta da Ton^e, 
na Travessa de Estevam Pinto, achará com quem tra- 
tar na Travessa da condessa do Rio «.° /». 

Os demais proprietários que teve a propriedade, 
não sei. Em i858 era dono dela o poeta João de Le- 
mos, tão notável, no seu tempo, pelos versos que com- 
punha como pelas suas ideias miguelistas, expostas e 
coordenadas em numerosos folhetos de combate e ar- 
tigos publicados na imprensa. 

Foi a êle que o benemérito e conhecido Padre Car- 
los Radmaker, comprou nesse ano esta quinta e casas 
nobres para ali fundar o Colégio de Campolide. 



l Quem não conheceu em Lisboa o Padre Radma- 
ker ? 

Era um erudito, um fluente e elegante orador sa- 
grado, um conversador interessantíssimo, muito aceito 
e querido em todos os salões elegantes e piedosos da 



de Morais Sarmento, foi moço da Real Câmara em 17126 depois 
Guarda-Jóias de El-Rei D. João V. Foi êle quem encomendou 
para França a célebre Baixela Germain (Inspecção ao Imposto de 
Licenças, pág. 88). 

(i) Citados Livros da Decima — Ano de i833. 



— 521 — 

capital. E agora me lembro de uma anedota a propósito 
do assunto. Contou-a a meu pai, muita vez, o velho 
Marquês de Penalva cujos ditos de espírito chegaram 
a ter voga. 

O Marquês estava então adoentado e abatido. Uma 
vez seguia por São Roque e eis senão quando encontra 
Radmaker. Penalva, católico fervoroso, fez menção 
de ajoelhar beijando a mão do virtuoso clérigo que ao 
vê-lo assim desmudado lhe disse, depois de alguns mo- 
mentos de conversa : 

— V. Ex.* está abatido, sr. Marquês. ; Permita 
V. Ex." que eu lhe lembre a necessidade de se ir dis- 
pondo para dar as suas contas a Deus ! 

— Estou doente, estou, disse o Marquês entre cho- 
cado e surprêzo. 

Ficou um instante pensativo e despediu-se. 
Quando Radmaker se ia já a afastar, tornou-lhe o 
velho fidalgo : 

— l Faz-me um favor Padre Radmaker ? 

— Pois não, retorquiu imediatamente o interpelado. 
— 'l O meu bom amigo . . . onde nasceu ? 

— Em Lisboa, respondeu, admiradíssimo da pre- 
gunta, Radmaker. 

— j Ah 1 ; Ainda bem ! Agora vou mais aliviado. . . 
i Ninguém é profeta na sua terra ! . . . 

E seguiu, sorridente. 

O Padre Radmaker era efectivamente lisboeta. Seu 
pai, o Conselheiro José Basílio Radmaker, Ministro 
Plenipotenciário junto do Governo Sardo em 1828, re- 
sidira por muito tempo em Lisboa. Radmaker, depois 
de estudar até os dezoito anos em Turim, no Colégio 
dos Nobres, foi para o noviciado da Companhia em 
Chieri e, em 1848, veio com seu pai para Portugal. 

Aqui estudou teologia e tomou ordens de presbítero 
em i85i. 



— 522 



Em 1854, o Padre Isley, Vice -Presidente do Semi- 
nário dos Inglesinhos, fundara na rua dos Cardais um 
colégio para meninos pobres. Em i855 sucedeu-lhe 
Radmaker na direcção da casa e logo pensou em man- 
dá-la para sitio mais apropriado. Assim a escola pas- 
sou para o largo da Páscoa, depois para a rua de Bue- 
nos-Aires e, a seguir, para a travessa do Moinho de 
Vento. 

A-pesar-destas melhorias não estava ainda rea- 
lizada a aspiração do clérigo, e, em i858, comprou a 
João de Lemos a quinta da Torre e as casas arruinadas 
onde o poeta miguelista morara alguns anos. 

O colégio de meninos pobres transformou-se num 
instituto de meninos ricos. 

Procedeu-se imediatamente grandes reparações no 
velho edificio, do qual pouco ou nada se aproveitou. A 
pequena capela de Nossa Senhora da Penha transfor- 
mou-se numa igreja, para a qual foi lançada a primeira 
pedra em 8 de Dezembro de 1879. 

A consagração realizou-se cinco anos depois. 

O edifício do Colégio, que se chamava de Maria 
Santíssima Imaculada^ é vastíssimo, cheio de luz e de 
ar. Do alto da sua torre disfruta-se uma surpreendente 
panorama. 

Os alunos, aparte os estudos e os exercícios reli- 
giosos, tinham um magnífico ginásio, campo de Jogos 
desportivos e larga quinta de recreio, Aí foram edu- 
cadas entre outras muitas pessoas em evidência, D. Au- 
gusto Eduardo Nunes, arcebispo de Évora e orador 
sagrado de primeiro plano, e o poeta e dramaturgo 
D. João da Câmara, o bondoso e sonhador D. João. 

Todos os anos se realizava ali a grande solenidade 



~ 523 — 

da distribuição dos prémios aos alunos. O último di- 
rector foi o Padre Luiz Gonzaga Cabral. 

Com o advento da República extinguiu-se o Colégio. 
O enorme edifício fechou as suas noventa e quatro ja- 
nelas da fachada principal e ficou abandonado, entre- 
gue à guarda de alguns polícias. 



O professor Borges Graínha na sua Histoire du 
College de Campolide et la Résidence des Jesuiies à 
Lisbonne, tradução de um texto latino escrito por vá- 
rios jesuítas, deixou-nos miúda documentação acerca 
deste edifício e desta instituição. 

A casa foi comprada a João de Lemos, por quatro 
contos de re'is. O Padre Martim Rodrigues encarre. 
gou-se dos trabalhos das primeiras obras de adaptação, 
começando o edifício a ser habitado em dia de São Luiz 
Gonzaga desse ano. 

O noviciado começou em fins de 1869, tendo o Pa- 
dre Radmaker aplicado às obras todos os bens da sua 
herança materna, computados em doze contos de réis. 

Em i85o o noviciado passou para o convento do 
Barro, em Torres Vedras, separando-se a administra- 
ção das duas casas no ano seguinte. 

Em 1861, pensou-se em comprar o convento bene- 
ditino de Tibães, vindo finalmente a adquirir-se o Co- 
légio de São Fiel em i863. Os jesuítas, em 1864, esta- 
beleceram a sua residência no Convento do Sacramento, 
a Alcântara, conseguido a diligências de Radmaker. 

De 1860 a 1870 fizeram-se várias obras em Cam- 
polide : — murou-se a quinta, fêz-se um novo dormitório^ 
restaurou-se e adornou-se a capela, acrescentou-se ao 
edifício um corpo com dois andares, adquiriram-se 



— 524 — 

livros, estabeleceu-se uma enfermaria, fizeram-se refei- 
tórios separados, construíu-se um hangar na cerca para 
recreio no inverno, pôs-se um relógio na torre, plan- 
tou-se um pomar, etc. 

Eram constantes e avultadas as esmolas, e por isso 
as obras não paravam. Em iSyS organizou-se o Ga- 
binete de Física, compraram-se móveis e livros e pros- 
seguiram as obras de aumento no edifício. A igreja 
enriquecia-se de objectos de culto. Em 1874 vendeu-se 
ao Governo parte da quinta para a construção da Pe- 
nitenciária, por i.ioSíítooo réis e o Cole'gio passou então 
às mãos de uma Sociedade de católicos ingleses. A 
bandeira inglesa passou a hastear-se, por esse motivo, 
no edifício, nos dias santos e feriados. 

De 1874 a 1880 as principais obras foram: o au- 
mento da Biblioteca e do Gabinete de Física, a cons- 
trução de uma galeria no Parque, obras na igreja, le- 
vantamento de um muro contra a Penitenciária, cons- 
trução de mais um dormitório, de um depósito de água, 
com bomba, de um refeitório novo e de retretes, e com- 
pra de vários livros no leilão Castelo-Melhor. Em fins 
de 1879 foi lançada a primeira pedra para a nova igreja. 

O Centenário de Camões, em ib8o, foi brilhante- 
mente festejado no Colégio. Nesse ano outra festa se 
realizou em 19 de Outubro, a inauguração da capela 
dos colegiais. Esta capela tinha o tecto de estuque com 
dourados, o altar imitando mármore e alguns quadros 
com imagens. A obra da igreja continuava e as esmolas 
também. De 1881 a 1882, aumentou-se a galeria do 
Parque, construíu-se um tanque e fizeram-se melhora- 
mentos no Gabinete de Física. Para o templo em cons- 
trução vieram de Itália seis imagens de madeira, uma 
das quais — a de Santo Inácio — não agradou, pelo que 
foi enviada para a igreja da Covilhã, mandando-se vir 
outra de Marselha. Compraram-se ainda dez sinos de 



- 525 — 

bronze e vários ornamentos. Em i883 fizeram-se pin- 
turas na igreja, a imitar mármore e a claro-escuro, 
realizou-se a benção dos sinos, comprou-se um jazigo 
nos Prazeres, e mandaram-se vir, de França, livros 
para a Biblioteca. 

Em 3o de Abril de 1884 realizou-se a inauguração 
e a consagração da igreja com a assistência do Patriarca 
D. José III. Radmaker pregou. Em 4 de Maio nova 
festividade a que assistiu o Núncio Vanutelli. Houve 
missa de pontifical e à tarde Te-Deum cantado pelo 
Arcebispo de Miiilene. 

O Reitor era então o Padre F^rancisco Sturzo, pe- 
ritissimo em obter esmolas. Em 18 de Setembro de 
1884 passou a reitor o Padre Joaquim Campo Santo. 

As obras continuaram. Alterou-se o muro do Par- 
que, fizeram-se pesquizas de água, organizou-se outra 
enfermaria especial para doenças contagiosas, cons- 
truíu-se a torre circular para observações astronómi- 
cas, compraram-se mais livros, nivelou-se o terreiro 
em frente do edifício, construiu-se outro depósito de 
água, fêz-se a escada da torre, galerias de esgotos, 
construíu-se um forno, etc. A irregularidade do edifí- 
cio, resultante dos sucessivos acrescentamentos foi re- 
mediada, levando-se a cabo a nova fachada de três 
andares com cinquenta e dois metros de comprido, ca- 
torze de largo e dezasseis de alto até à igreja, ficando 
as aulas em baixo, o Museu da História Natural e o 
Gabinete de Física no segundo pavimento e os dormi- 
tórios e quartos no terceiro. Em 1891 estava a grande 
obra quási concluída. 

O Núncio Vanutelli foi um dos grandes amigos do 
Colégio, nunca faltando às suas festas e aos comuns 
exercícios espirituais. Outras bemfeitoras foram a 
sr.^ D. Maria Joaquina Bertrand que muito ajudou esta 
obra com importantes donativos e com uma pensão 



— 526 — 

anual, e a Marquesa de Monfalim e Terena que ofere- 
ceu aos padres quantiosas importâncias, dando-lhes tam- 
bém jóias, um órgão, tapeies, vitrais, vestidos para as 
imagens, uma espada de prata para a Senhora das 
Dores, etc. Para a capela compraram os padres, ban- 
cos, lustres de vidro, as imagens de São Joaquim e 
Sant'Ana e no fim de 1888 abriram-na ao culto. 

Em 1892 e 1893, alargou-se o refeitório para tre- 
zentos alunos, passaram os serviços de lavagem de rou- 
pas a ser feitos por homens, enriqueceu-se o Museu de 
História Natural e acabaram-se com as representações 
que os colegiais costumavam fazer pelo Entrudo. As 
obras não pararam. Junto aos dormitórios que ocupa- 
vam todo o último andar, fêz-se o vestiário e adquiri- 
ram-se novas peças para o Museu onde um espanhol 
embalsamava os animais. No Parque, fizeram-se outros 
cobertos, abriu-se uma cisterna, construíram-se lava- 
douros, cocheiras, quartos de criados, casas para os 
motores, etc. 

Em 1898 os alunos Já chegavam a trezentos e trinta 
e cinco. Nesse ano, felizmente, apareceu uma nascente 
que deu água para todo o Colégio, tendo-se aberto um 
poço, com seis metros de largo e vinte e nove de fundo, 
junto à Penitenciária. 

Em 1899 já o edifício estava acabado, todo ilumi- 
nado a luz eléctrica e abastecido de água. 

Pouco depois começava o movimento liberal a inten- 
sificar-se e a vida escolar a tornar-se mais difícil. A 
campanha contra os jesuítas e contra as ordens religio- 
sas acendia-se cada vez mais. Isto, junto ao mau re- 
sultado dos exames, deu lugar a que, em 1902, a fre- 
quência baixasse para duzentos e cinquenta alunos. 

A-pesar-de tudo prosseguiam os melhoramentos : 
galerias com terraços no Parque, uma nova sala para 
receber a família dos internos, uma outra cozinha 



— 527 — 

maior, mais vestiários, modificações no refeitório, etc. 
Compraram-se mais livros para a Biblioteca e para- 
mentos para a igreja, etc. 

De Abril de 1902 a Maio de igo5, construíu-se uma 
casa independente para serviço dos padres, um balneá- 
rio com vinte e nove banheiras, embeleza-se o Parque, 
fazem-se plantações, cascatas, lagos; acaba-se a torre 
de quarenta metros, compra-se perto uma casa para 
moradia dos empregados e renova-se a capela interior, 
consagrando-se à Virgem, cuja imagem, de mármore, 
se põe no pórtico do edifício. 

De Maio de igoS a Setembro de 1906, acabava-se a 
Biblioteca. No tecto via-se um quadro com a Virgem 
e três retratos — Camões, o Padre António Vieira e um 
aluno do Colégio oferecendo à imagem a sua inteligên- 
cia e o seu coração. 

As estantes subiram até à sanca. Neste período a 
capela do corredor foi profanada para a instalação de 
um refeitório dos alunos mais velhos, e construíu-se 
outra na Enfermaria para os doentes ouvirem missa. 
Fêz-se contrato com a Companhia para fornecer água 
para o depósito do Parque, e procedeu-se a várias plan- 
tações nos seus terrenos. 

As escadarias acabaram-se em princípios de 1907, 
ano em que se construiu a clarabóia e se restaurou a 
enfermaria elevando-se-lhe o tecto. Aumentou-se a co- 
zinha, construiu-se um pombal, comprou-se a quinta do 
Vai de Rosal (Almada), puseram se várias estátuas da 
Virgem no recreio e a do Coração de Jesus, na ca- 
pela doméstica. 

De Agosto de 1907 a Setembro de 1908, reforma- 
ram-se as capoeiras, fizeram-se novos pavimentos nas 
enfermarias, construíu-se outro terraço no Parque e 
procedeu-se a outros melhoramentos nas cozinhas e nas 
canalizações. De então até o final, ainda se transfor- 



— 528 — 

mou o pátio em jardim, ornameniou-se o Museu, fize- 
ram-se espoeiras e novas escadas de serviço, a-pesar- 
-dos padres confessarem ser precário o estado finan- 
ceiro do Colégio. 

Quando das festas do 5o. " aniversário dêsie estabe- 
lecimento, cunhou-se uma medalha comemorativa. Mo- 
delou-a um antigo aluno. 

Eis o que diz, sucintamente extratada, o texto latino 
da História do Colégio, traduzido em francês, pelo 
falecido professor Borges Graínha. 

l Foi um pouco fastidioso, não é verdade ? Mas é 
história e convém arquivar. 



Em 1916, foi feita a cessão do vasto edifício, a 
título precário, com todas as suas dependências, à «Co- 
missão de Hospitalização da Cruzada das Mulheres 
Portuguesas» para ai fundar e manter um Hospital de 
Sangue (i). Em 192 1 foi declarada sem valor a ce- 
dência que se tinha feito desta mesma casa à «Inspec- 
ção dos Serviços de Protecção a Menores» voltando à 
posse da «Comissão Jurisdicional das Extintas Congre- 
gações Religiosas (2). A primeira cedência ainda deu, 
pelo menos, a ceremónia da inauguração do Hospital, 
em I de Dezembro de 1917, a que assistiu o Presi- 
dente da República. Esta nem isso. 

Actualmente o vasto edifício do Padre Radmaker 
e' um quartel. Está ali instalada uma das unidades mi- 
litares da Guarnição de Lisboa: — Caçadores 5. 



(t) Diário do Governo de 3 de Outubro de 1916. 
(2) Diário de Noticias de 1 5 de Novembro de 1921. 



5^9 — 



O sílio de Campolide — outrora tão dilatado — às 
abas de Lisboa, tinha, em 1742, apenas dez fogos. 

Resumia-se entãO;, na parte incluída na área da pa- 
róquia de Santa Isabel, ao pedaço de estrada que ia da 
Cruz das Almas à Gircunvalaçao. Só de i8o5 por 
diante é que as listas paroquiais o classificam de es- 
trada. O resto pertencia a São Sebastião da Pedreira. 

A cortina de muro desde a Cruz das Almas ao cha- 
fariz de Campolide foi feita no tempo em que era pre- 
sidente do Senado o Conde de Oeiras, filho do Marquês 
de Pombal (i). Este chafariz ou bica recebia água de 
uma mina na direcção do monte da quinta de Estêvão 
Pinto (2). Nesse troço da estrada morou, de 1757 a 
1758, o Desembargador Manuel José de Faria e Sousa, 
e em 1766, D. José de Sousa, Deão da Sé de Braga, 
perto de uma casa a que então chamavam, não sei por- 
quê, 3i Parreirinha{?>). 

O portão, que tem um nicho na parte superior, e 
se encontra à entrada da travessa de Estêvão Pinto, 
à direita, era o do Casal das Grades^ que foi de D. Ma- 
ria Inácia Braamcamp, bem como a casa que faz es- 
quina, do mesmo lado, para a rua de Campolide. A^ 
casa hoje do pintor Roque Gameiro, era de Duarte 
Ferreira Pinto (4). 



(i) Códice 646 da Colecção Pombalina da Biblioteca Nacio- 
nal, pág. 279 a 286 v." 

(2) Diário Eclesiástico para i8i5 (10 de Setembro), pág. Sj. 

(3) Rol dos Confessados da Freguesia de Santa Isabel— Anos 
citados. 

(4) Informações do meu consócio e amigo sr. António César 
Mena Júnior, a quem devo muitas outras que aqui são aproveitadas 
sobre o sítio, moderno, de Campolide. 

VOL. IV 34 



— 53o — 

A parte que pertencia a São Sebastião da Pedreira, 
era a mais vasta e povoada de quintas. Gomo os 
Róis desta freguesia se perderam, pouco posso adiantar 
quanto aos seus moradores e proprietários. Apenas 
sei, por referências dos registos de óbitos, que eram 
frequentes por aqui es assaltos e os crimes. Os fale- 
cidos por motivo de estocadas, facadas, tiros, desas- 
tres, são frequentes. Sítios isolados e apartados de- 
viam de ser. 

Em 1616, morre um Duarte de Pavia, aqui morador, 
única pessoa de qualidade que encontrei nomeada nos 
livros (i). 

Outra indicação que lá vi foi a de que um tal Diogo 
Correia era o dono da quinta do Rabequinha em 
1753(2). 

Mais nada. 



O populoso bairro moderno que continua descendo 
até o vale, é composto de ruas e casaria sem carácter, 
tudo em estilo aMestre de Obras». 

Na rua Soares dos Reis^ fica a oficina cerâmica de 
Mestre José Baudoin, figura simpática e pitoresca de 
industrial popular que teima, até nos reclamos, cha- 
mar-se Mesteié. O nome engola a categoria. As faian- 
ças de Campolide, são bonitas e vendem-se. 

Na rua de Carlos Mascarenhas moram três grandes 
figuras do nosso tempo: o grande arqueólogo Leite de 
Vasconcelos, o sábio camonianista Dr. José Maria Ro- 
drigues e o filólogo sr. José Joaquim Nunes (3). Com 



(i) Livro dos Óbitos da Freguesia de São Sebastião da Pe- 
dreira—Ano citado. 

(2) Idem. 

(3) Este faleceu em Julho do ano corrente (1932). 



— 53i — 

a residência do Dr. Augusto de Castro, nesta mesma 
rua, actualmente nosso Ministro em Roma, são quatro 
os académicos que dignificam a serventia. No mesmo 
arruamento está o atelier do escultor Maximiano Alves. 

Outro artista, o pintor Frederico Aires, tem o seu, 
na rua Marquês de Fronteira. 

Em Campolide, reside tambe'm o pintor Roque Ga- 
meiro, na Travessa de Estêvão Pinto. 

O novo bairro, tem um Cinema (na rua Leandro 
Braga) e uma associação recreativa e desportiva [Cam- 
polide- Club). 

O progresso chega a toda a parte. 



CAPITULO XXII 



Sumario: Uma vista de olhos sobre o Vale de Alcântara — A er- 
mida da Senhora Sant'Ana da quinta de Sebastião José de 
Carvalho — A devoção e o engenho do ermitão cego José 
Soares de Oliveira — Um manto oferecido por D. João VI — 
O Asilo de Espie Miranda — O novíssimo bairro de Campo- 
lide e as suas barracas — Inauguração de uma nova capela 
e de uma escola — Percorre-se o Vale de Alcântara desde 
o «Casal do Grilo» à Pimenteira — As «quintas do Inferno» 
e odo Sargento-Mór» e do oCabrinha» — Uma paragem a 
propósito dos «Cabrinhas» e de D. PVancisco Manuel de Melo 
— Divaga-se sobre as fortificações de Lisboa — Os planos de 
Francisco de Olanda — Projectos do Marquês de Castelo Ro- 
drigo em 1625 e do de Montalvão em 1646 — D. João IV or- 
dena à Câmara o início das obras — Schomberg encurta a 
linha defensiva da capital — Continuam as obras — Providên- 
cias em 1701 — Os engenheiros pombalinos pensam de novo 
na fortificação — Os redutos da Atalaia e de Campolide — 
Evoca-se o ataque das tropas realistas a Lisboa, em i833 — 
A luta no bosque de Palhavã — Episódios do cerco — Os ge- 
nerais do exército liberal — É levantado o cerco e Saldanha 
cumpre a sua promessa — O fim da luta fratricida — Consi- 
derações gerais sobre o desenvolvimento da cidade — Acaba 
a obra. 

Convido o leitor a descansar num dos bancos do 
vasto terreiro subjacente ao antigo Colégio de Campo- 
lide e a lançar os olhos sobre o verdejante vale. 

Lá em baixo rumoreja, com as águas das últimas 
chuvas, a, habitualmente seca, ribeira de Alcântara, 
recortam-se os casais murados de pedra solta pelas 
encostas povoadas de oliveiras melancólicas; além 
avulta a moita de eucaliptus do Casal do Brito onde 



— 534 — 

morreu Possidónio da Silva, esse prestante cidadão 
que foi o benemérito fundador do Museu do Carmo; 
ao fundo espalmam-se, por sob a quinta da Mineira, o 
Ferro de Engoinar e a Rabicha, as duas hortas que 
lembram as patuscadas da boémia, o gemer da gui- 
tarra indolente nas merendas domingueiras, a estroi- 
nice alegre e fidalga de há cinquenta anos ; e, para lá 
dos arcos do Aqueduto das Aguas Livres, que poisam 
no valle os seus pegões colossais, sorri, entre um 
amontoado de casaria que se desmorona aos poucos, 
a ermida da Senhora de Sant'Ana, sobre um adro 
semi-circular onde outrora acampavam os romeiros da 
devota imagem. 

Este templozinho merece algumas palavras. 



Poucos anos depois do terremoto pertencia esta 
ermidinha às casas e quinta de Sebastião José de Car- 
valho e Melo, primeiro Marquês de Pombal. Di-lo o 
Padre Luiz Cardoso, no seu citadíssimo Dicionário 
Manuscrito. Sebastião José era grande proprietário 
por estas bandas. As terras do Carvalhão vinham 
desde o alto dos Sete Moinhos e descaíam para a ri- 
beira, tomando ainda parte da encosta contrária, ocu- 
pando a linha de cumeada desde a «Cruz das Almas» 
ao referido alto. 

Houve tempo em que no dia da festa da Senhora 
e no primeiro domingo do Advento, se povoava este 
recanto arrabaldino de numerosos romeiros (i). A er- 



(i) A Gaveta de 19 de Julho de 1796, anunciava para 7, 8 e 
9 de Agosto desse ano, as festas com Feira Franca, na Senhora de 
Sant'Ana, 



— 535 — 

midinha engalanava-se toda, fazia-se um esboço de 
feira ; comia-se, bebia-se e cumpriam-se promessas 
atestadas por alguns ingénuos quadrinhos que ornamen- 
tavam o templo. Tudo acabou e quem perdeu foi a 
casa da Senhora. Entrou a arruínar-se e se não é tê-la 
amparado um dia a devoção de um ermitão, vinha tudo 
abaixo. 

José' Soares de Oliveira se chamava o devoto da 
Senhora de Sant'Ana, falecido há anos. Foi para ali 
cuidar da ermida em 1894, se não estou em erro, e 
nunca a força de vontade e a devoção fizeram maiores 
prodígios. José Soares de Oliveira foi a reprodução 
exacta dos ingénuos e lendários ermitões de que nos 
falam as crónicas vetustas. Dedicou-se de alma e co- 
ração à obra que constituía o seu único pensamento. 
Tudo quanto não fosse a ermida e o seu culto, era 
nada para êle. 

Quando êle ali assentou arraiais a ermida estava a 
cair. Faltava-lhe metade do telhado e havia lá dentro 
cobras e rataria a monte. Pôs mãos à obra, cuidou, 
limpou, e alindou; fêz-se pedreiro, carpinteiro e pintor, 
e dois anos depois, como o atesta uma lápide, posta ao 
alto da fachada, em 3o de Abril de 1896, concluiu os 
seus trabalhos de restauração (i). ^ Com que dinheiro? 
— preguntar-me-ão. Com as suas economias. Soares 
de Oliveira levou para lá 328í!íooo e lá os deixou em 
argamassa, em madeira e em tintas, j E foi isto em 
nossos dias ! 

Pois a fortuna, que às vezes tão propícia se mostra 
aos maus, foi adversa para com o bondoso ermitão, 
j Pouco depois de concluída a obra em que pusera todo 
o oiro da sua bolsa e do seu coração, cegou ! 



(i) A lápide diz: Restauração desta capella em 3o de abril de 
i8g6 por José Soares de Oliveira. 



— 536 — 

Era lícito supor que ferido por tal calamidade, de- 
sistisse o ermitão de cuidar da sua amada capelinha, 
mas não. Soares de Oliveira continuou, paciente e 
resignado, a velar pelo desamparado templo. Fez os 
bancos para os devotos, a grade que separa a nave da 
capela-mór, o confessionário e, inclusivamente, foi ele 
quem construiu um aparelho da sua invenção para pro- 
dução de acetilene, sem perigo de explodir, a-fim-de 
iluminar a ermida nas sextas-feiras à noite quando, 
envergando a sua batina preta, fazia a ceremónia da 
Via-Sacra muito concorrida pelo povo das proximi- 
dades. 

Foi ele quem fez tudo. Os seus 328íí)ooo réis ope- 
raram milagres, e foi ainda com eles que comprou o 
órgão que êle mesmo tocava sentidamente sem saber 
uma nota de música. A escola que funcionava no pre- 
diozinho pegado fora fundada por êle. A mulher era 
a professora, mas a má-sina que o perseguia, levou-a a 
morrer no hospital depois de lhe ter dado muitos des- 
gostos. Falecida a mulher, contratou uma professora, 
mas pouco tempo passado teve de a despedir por não 
se portar como devia. Tudo conjurado contra o pobre 
cego. 

; Engenho sublime ! O ermitão-cego, afora o que já 
referi, ainda dotou o povo do Vale com um relójio, 
feito por êle, já se vê, porque êle era tudo ali. O re- 
lójio era de uma primitividade encantadora. Duas cai- 
xas de lata, soldadas uma a outra, de onde a água, que 
continham, ia caindo num prato que se abaixava com 
o peso do líquido de quarto em quarto de hora. Um 
grande mostrador acusava, com um único ponteiro, 
mercê de uma roda dentada, as horas, com uma pre- 
cisão absoluta, j E era por esta simples clepsidra que 
o povo se regulava ! 

Um dia o cego adoeceu. Desamparado totalmente 



— 537 — 

de recursos, recolheu, por esmola, ao hospital da Or- 
dem Terceira de São Francisco entregando a capela, 
bem como o colégio e a catequese à professora D. Emí- 
lia Gaspar. Depois morreu, j Ah como lhe devia ser 
doloroso na última hora pensar no abandono a que fica- 
ria votada a ermida que tanto amara! 

Hoje ninguém fala dele. A ermidinha está nova- 
mente arruinada, fendidas as cantarias, esboroadas as 
paredes. 

Nunca mais se fez a Vía-Saa^a às sextas-feiras, nem 
se acendeu a luz de acetilene, nem se ouviu o órgão 
melancólico. Aquilo está morto como ele. 



A ermida tem no altar a imagem da Senhora. O 
arco da capela-mór, fendido e periclitante, tem ao alto 
uma inscrição que não consegui decifrar. Nada tem 
de notável a não ser, dentro de uma arca, um manto 
de Nossa Senhora, de seda branca bordada a oiro, 
que lhe foi oferecido, dizem, por El-Rei D. João VI. 
A ermida pertence actualmente à freguesia de São Se- 
bastião da Pedreira. 

Tudo isto é pouquíssimo, mas não consegui apurar 
mais nada. 



À sombra do Aqueduto fica ainda o edifício do 
Asilo de Espie Miranda, na quinta da Mineira, fun- 
dado em 24 de Agosto de 1900, e que sustenta vinte e 
sete velhinhos. Os asilados foram prejudicados recen- 
temente com o desenvolvimento do bairro vizinho, esse 
indisciplinado e pitoresco «Novo Campolide» todo feito 



— 538 — 

de casas de adobe, barracas de tabiques e zincos, sem 
plano, sem alinhamento, à mercê das necessidades ur- 
gentes dos alfacinhas sem casa, a galgar pela encosta 
poente do vale. 

A nascente que dava água para o Asilo, e lhe re- 
frescava a horta, foi desviada pelos moradores, em su- 
cessivas aberturas de poços. E neste bairro que se 
encontra a famosa taboleta do Barbeiro Semi Ferro 
Viário digna rival daqueles Letreiros Célebres colec- 
cionados em 1806, por um Taful de Luneta (i). 

Perto fica o outro bairro — chamado da Liberdade 
ou das Minhocas — perto do apeadeiro do Rêgo. Tanto 
um como outro nasceram, como os seus antepassados 
de 1755, da crise de habitação urbana. Os motivos da 
crise é que foram diferentes. A variedade, a indisci- 
plina e a miséria, são as suas características. A en- 
trada de Lisboa estes dois bairros são desagradabilís- 
simo cenário (2). 



(1) Vide o meu trabalho Letreiros célebres incluído no vo- 
lume Relação de vários casos notáveis e curiosos, etc, — Coimbra, 
1925. 

(2) O Diário de Noticias de 28 de Dezembro de 193 1 trazia 
uma notícia bem feita, tocante, sincera. Transcrevo-a aqui por- 
que diz respeito a este bairro simpático, não pela sua beleza, mas 
pela sua pobreza : 

"No bairro da Liberdade, para lá de Campolide, à beira do 
Aqueduto das Aguas Livres, mora uma gente que dá gosto vê-la, 
de simples e de honrada que é. A fantasia de quem nunca andou 
por aquele sítio, emprestou-lhe famas indevidas, tenebrosas, de 
miséria negra e de vileza turva, que não tem. É um bairro sim- 
pático esse bairro da Liberdade. É pitoresco, É amável. É bom. 

«Ainda ontem bem claramente o mostrou, a quantos lá foram 
para assistir às cerimónias da benção de uma capela nova, e à 
festa da inauguração de um edifício escolar anexo, com duas alas, 
para ensino primário de sua população infantil. É graciosa e ma- 
neirinha essa construção, Fica bem no coração daquele bairro 



539 



Fronteira à ermida de Sant'Ana fica o antigo Casal 
dos Grilos e depois a Qiiintinha que deu o seu nome 
à calçada que vai juntar-se com a dos Mestres, em 
frente às velhas barreiras de Campolide. Para lá, na 
encosta, as terras de Sebastião José, depois chamadas 



simples. Ergue-se a capela a meio, com sua torre. Para a direita, 
e para a esquerda, ficam as instalações escolares, aulas para a 
pequenada, duzentas e cinquenta crianças, meninas deste lado, pe- 
tizes daquele. . . 

«Melhoramento que se deve à iniciativa do Albergue de São 
Sebastião da Pedreire, recebeu-o com alegria toda aquela gente. 

«E assim, foram pela população do bairro acolhidas com ter- 
nura e carinho, as altas personalidades oficiais e eclesiásticas que 
para esse fim ali foram. 

«Ás nove horas da manhã benzeu a capela o sr. Arcebispo de 
Mitilene. Disse missa, ouvida com devoção e deferência por assis- 
tência numerosa. Deu comunhão a crianças e adultos. 

«Depois, à tarde, às i5 horas, houve na escola uma sessão 
solene inaugural. O mesmo prelado presidiu, tendo junto de si, 
na mesa de honra o prior da freguesia de São Sebastião da Pe- 
dreira, e os srs. Zuzarte de Mendonça, dr. Silva Passos, da Junta 
Geral de Saiide, e o regedor António Gomes, como representante 
do sr. governador civil. 

«Fizeram-se discursos cativantes. Falou o sr. Fernando Ama- 
ral, presidente da assembleia geral do referido Albergue ; o sr. Pinto 
de Araújo ; o rev. Maurício, assistente oclesiástico da capela ; o 
rev. Pereira, prior da freguesia ; Raul Eduardo, do grupo local e 
recreativo «26 de Maio» ; o regedor Gomes; o dr. Silva Passos, 
e por fim o sr. arcebispo, numa bela oração, rematada pela sua 
benção. 

«E todo o acto decorreu num ambiente de solicitude e cari- 
nho, para timbre do Bairro da Liberdade, o completo desmentido 
àqueles que o julgam um sítio esconso e torvo da capital, e não 
lugar onde vive uma gente simples, trabalhadora e agradável, que 
dá gosto vê-la». 



— 540 — 

do Braamcamp (i) e, para baixo ainda, seguindo pela 
Ribeira, a quinta do Inferno que foi de Luiz Anastácio 
da Fonseca e onde havia uma ermida de Nossa Se- 
nhora da Conceição (2). Mais para o sul avista-se a 
quinta da Pimenteira, notabilizada pela sua água, e 
depois a do Sargento-Mór, com a sua ermida dedi- 
cada a Nossa Senhora da Piedade (3). 

Continuando a descer a Ribeira iríamos ter á quinta 
do Cabrinha que foi de D. F^rancisco Manuel de Melo 
e onde se diz ter morrido o erudito e elegante autor da 
Carta de guia de casados{â^. Na carta 28.* da pri- 
meira série das suas Cartas Familiares, diz ele : 

«... se V.S. quiser que domingo muito por bem 
nos vamos ao campo, e a huma quintinha que eu lá 
tenho, chegue-se V. S. por aqui, faremos romaria até 
Alcântara». 

Deve esta carta ter sido escrita em 1661. 

Da «Torrei) foi êle transferido em i65o; em 4 de 
Abril desse ano já estava no Castelo, como se conclui 
da carta 75.*, da segunda Ceniiíria. 



(i) Gerardo Wenceslau Braamcamp de Almeida Castelo 
Branco era o senhor do domínio directo das terras do Carvalhão, 

(2) Em 16 de Setembro de 182 1 houve um incêndio nas casas 
desta quinta, de que já se tem falado por várias vezes nesta obra. 
Distinguiu-se nos salvamentos um soldado dos Voluntários Reais 
de Milícias, chamado Miguel José, a quem a Direcção da Fábrica 
das Sedas, à qual a propriedade pertencia, premiou (LiVro ^."-92/ 
de Decretos e Avisos da Direcção, pág. 49 v.", 55 v.°, 56, 56 v.' 
e 57). 

(3) O Sargento-Mór era o nosso conhecido Domingos do 
Amaral Valente. A Memória Paroquial (Padre Luiz Cardoso) 
chama a esta ermida «de Santo António». 

{4) Nos Livros de Óbitos de Santos-o- Velho, faltam aqueles 
que respeitam ao ano em que este escritor morreu. 



— 54* — 

Em 1812 já se chamava «do Cabrinha», di-lo um 
mapa-plania desse ano da colecção do meu amigo Je- 
suíno Artur Ganhado (i). Em i3 de Março de 1849 
foi vendida, por D. Ana Rita Botelho de Groot, a Joa- 
quim José dos Anjos que, em 27 de Setembro de 1873, 
a vendeu a uma Companhia de Estamparia e Tintura- 
ria que hoje a possui juntamente com a quinta da Lam- 
parina, comprada em 4 de Agosto de 1882 a José das 
Neves e Silva e a sua mulher D. Adelaide Guilhermina 
das Neves e Silva, O domínio directo pertencia aos 
Meios, tendo passado, em i863, do Conde de São Lou- 
renço a seu filho o Marquês de Sabugosa e deste para 
D. Jorge José de Melo, Conde do Cartaxo que o ven- 
deu à Companhia, por 800.T000 réis por escritura feita 
nas notas do tabelião Tavares de Carvalho, em 8 de 
Junho de 1907. 

Se continuássemos descendo a Ribeira iríamos ter 
à vetustíssima Oría-Naina, a avoenga remota da Al- 
cântara actuai, a Fonte que à divindade «Navia» con- 
sagraram os habitantes da Alis-Ubho. 



(i) Esta alcunha de Cabrinha, aplicada aos desta família, man- 
teve-se pelos séculos fora. D. Francisco de Melo Manuel da Câ- 
mara, que foi Governador do Maranhão de 1806 a 1809, teve a 
mesma alcunha. Era descendente do autor das Epanáforas. A 
livraria, vendida por seu filho D. João de Melo Manuel da Câ- 
mara, primeiro Conde da Silva, ao Estado, foi conhecida pela «Li- 
vraria do Cabrinha». O Governador do Maranhão era, dizem, 
muito moreno. A um trisavô seu, Antão Rodrigues da Câmara, 
instituidor de um morgado na Ribeira Grande (S. Miguel) também 
chamavam o Cabrinha. Ao que consta a mãe deste Cabrinha (Ma- 
ria Rodrigues) era preta, e daqui o amulatado da família. Ao pró- 
prio Antão Rodrigues chamavam, igualmente, o «mulato». 

O pintor jesuíta, Domingos da Cunha, era conhecido também 
pelo Cabrinha «por suas achinadas feições e pálidas cores». O 
achinado refere-se a traços fisionómicos chinas e a palidez está 
de-certo pelo terroso-amulatado da pele {D. Francisco Manuel de 
Melo — Esboço Biográfico, pág. 5, 6^ 265 e 2G6). 



— 542 — 

É bom que a loquela se seque junto da secular 
fonte, j Senão onde iríamos parar ! 

Olhemos agora de novo para a vertente norte e 
poente de Campolide onde alastravam as terras do 
Casal do Frick ; depois para as eminências do nascente. 
Lá está uma ruína notável, afogada em ílorescências 
campesinas, que vai merecer o meu reparo. E o forte 
de Campolide ou de Falhava, um dos poucos vestígios 
das fortificações lisboetas do século xvii. 



Depois da cerca goda ou moura, do muralhão de 
D. Deniz, e da cerca Fernandina, estudadas minuciosa 
e proficientemente pelo engenheiro sr. Vieira da Silva, 
a primeira notícia que se oferece dar ao leitor sobre a 
defesa militar urbana, é a do plano, como todos os 
dele, imaginoso, do pintor-poeta Francisco de Olanda, 
contido na sua «Memória» — como diríamos hoje — 
intitulada Da Fábrica que falece á cidade de Lisboa. 

D. Manuel mandara-o a Itália estudar o assunto o 
que não o impediu de dizer : — Nunca se aproveitaram 
de mim por culpa do tempo. Antes de morrer quis 
deixar essas lembranças do seu mérito e das suas ideas. 
Quanto às fortificações de Lisboa diz : — E consyrando 
quão descofnposta está Lisboa de fortaleza e quão de- 
sarmada do que lhe muito ifnporta... Isto no Prólogo. 
No Capítulo III em que trata especialmente Do Cas- 
telo e Bastiães e Muros [que convém a Lisboa^ lembra 
fazer-se um novo forte no sítio da velha Alcáçova, me- 
tendo dentro dele os montes de São Gens e da Graça, 
cercar-se a cidade de novos muros e portas ou repa- 
rarem-se os antigos, tudo à maneira de Itália, com te- 
jolo cozido e pouca cal «que resiste muito mais às bom- 
bardas». 



- 543 - 

Entendia também que se fortalecessem de novo São 
Gião e Belém, tanto mais que o primeiro forte não 
estava acabado e se fizessem alguns baluartes fortes do 
lado da Trafaria e da Adiça, ficando um defronte da 
Torre de Belém, onde estava a Torre Velha, e outro 
fronteiro a Santa Catarina de Ribamar que era em seu 
juízo a melhor fortaleza de Lisboa, baluartes estes todos 
razos e de tejolo. 



Foi em 1625 que pela primeira vez se pensou a sé- 
rio na fortificação da cidade. A velha cerca de D. Fer- 
nando transitara já para os domínios da arqueologia, 
afogada dentro da casaria de extra-muros. Em Junho 
desse ano, resolveu a Câmara, por ordem dos Gover- 
nadores do Reino, se fizessem trincheiras pela banda 
do mar, com paus de pinho e fachina, desde os Co- 
bertos até o Cais do Carmo; porém no princípio do 
mês seguinte o Marquês de Inojosa, traçando mais 
largo plano, pôs a Câmara em dificuldades pecuniárias 
extendendo a linha das trincheiras desde as casas do 
Marquês de Castelo Rodrigo até às do Duque de Aveiro, 
e ainda por cima com redutos nestes pontos e no Ter- 
reiro do Paço. Os vereadores que contavam com uma 
despesa de quatro mil cruzados, tirada do Cofre do 
Real de Água, viram-se obrigados a negociar um em- 
préstimo sobre as rendas da Câmara, tanto mais que o 
Marquês se propunha ainda aumentar a traça das for- 
tificações até Alcântara (i). 

As muralhas de D. Fernando tinham sido vistori- 
zadas em Março desse ano e o relatório — chamamos- 



(i) Elementos para a Historia do Município de Lisboa, t. iii, 
pág. 187 a 193. 



— 544 — 

-lhe assim — dos engenheiros e peritos, que foram Nuno 
de Mendonça, Gonçalo Pires de Carvalho, João de Frias 
Salazar e os arquitectos de El-Rei, limita-se a propor 
reparos meúdos, cônscios, como certamente estavam, da 
inutilidade militar de tais fortificações. Compor ameias, 
tapar aberturas e postigos, derrubar alpendres e casas 
encostadas aos muros, consertar parapeitos, desobe- 
truir os muros de edificações miúdas e pouco mais, 
foram as obras alvitradas pela vistoria. Viu o sobe- 
rano o relatório, e resolveu que apenas se reparassem 
os muros e as ameias, deixando para outra ocasião as 
demolições das casas e alpendres (i). 

Em 9 de Junho de i636 propôs a Câmara a D. Fi- 
lipe III que fosse ordenada nova diligência aos muros 
da cidade, por não querer, ao que parece, responsabi- 
lizar-se pelas faltas que ao depois lhe fossem assacadas, 
declarando também ao monarca castelhano que tinha 
tudo, a postos, para, de um momento para o outro, se 
fazerem as demolições indicadas na vistoria de 1625(2). 



Veio depois o i." Dezembro de 1640. Os quatro 
mil cruzados que o «Cofre do Real de Água» dera para 
as trincheiras, em cuja obra, então, superintendia Jorge 
de Melo, estavam já esgotados em Julho de 1641. A 
Câmara não linha onde ir buscar os dez mil cruzados 
necessários para a conclusão dos trabalhos de defesa da 
cidade. Os sessenta anos de dominação castelhana 
deixara-a esgotada. A muito custo os almoxarifados da 
Agua, da Carne e do Vinho, poderiam dar, dos seus 



(i) Citados Elementos, pág. 162 a 172. 
(:) Idem^ tomo iv, pág. igS e 194. 



— 545 — 

rendimentos, os dois mil cruzados que se lhe pediam (i), 
Com as ameaças de Castela, impôs-se novamente 
a todos os espíritos dirigentes, a necessidade de forti- 
ficar a capital. Em Outubro de 1645 aprestava-se em 
Cadiz a armada de Castela, e os seus terços começa- 
ram a defrontar a raia alentejana. Era preciso acudir 
a Lisboa. O Mestre de Campo General Marquês de 
Montalvão, foi nomeado por D. João IV para superin- 
tender na defesa da cidade. Fizeram-se algumas trin- 
cheiras nas praias, e a artilharia que se tirou dos na- 
vios da armada veio guarnecê-las ; mas tudo isso era 
pouco para o que necessitava fazer-se (2). 



Em 1646, ou fins de 1645, surge-nos o Memorial que 
o Marquei de Montalvão offereceu a el-rei D. João IV 
sobre o modo da defensão e conservação do reino, do- 
cumento muito interessante que se esplana em conside- 
rações políticas e económicas e se refere a tudo quanto 
diz respeito à defesa do país e mobilização das suas 
tropas, mas que, no tocante à defesa da cidade, pouco 
ou nada diz. O que se conclui dele é que o Marquês 
se contentava com os reparos já propostos em 1625 e 
até com os planos do Marquês de Inojosa que se resu- 
miam em evitar que o inimigo, porventura desembar- 
cado em Peniche, se aproximasse da capital, dando-lhe 
batalha em Torres Vedras ou na Cabeça de Monta- 



(i) Citados Elementos, pág. 431. 

(2) Idem, pág. 620. O Príncipe D.Teodósio teve um projecto 
para fortificar a cidade, tornando-a numa ilha {Vida do Príncipe 
D. Theodosio, pág. 1 10 e ui). Já no Sitio de Lisboa dõ Luiz 
Mendes de Vasconcelos se alvitra o mesmo. 

voL. IV 35 



— 546 — 

chique, pontos estes que eram já, para os engenheiros 
militares desse tempo, as linhas de defesa de Lisboa (i). 

Quando, em 1648, D. João IV suscitou ao Senado 
a necessidade da obra de fortificação, este, em seu 
assento de 3 1 de Junho desse ano, resolveu seguir o 
desenho e planta do Marquês de Montalvão, fazendo 
para isso mais um dos seus habituais empréstimos. 

Os donos das casas encostadas às muralhas da cerca, 
conforme o plano do Mestre de Campo General, seriam 
obrigados à reformação e a dar passagem livre, caso 
fosse necessário. Tudo isto dá a entender que nada 
de novo se continha no desenho do Marquês que se re- 
portava, como já disse, às providências antigas do tempo 
dos Felipes (2). 



O decreto de D. João IV de 27 de Outubro de i65i 
e os do Príncipe D. Teodósio de i5 de Fevereiro e de 
II de Março do ano seguinte dirigidos ao Senado, or- 
denando que se principiassem as obras, aplicando-se 
para elas os cinco réis na água, três no vinho e dois na 
carne, que o povo de Lisboa oferecera ao terceiro Fe- * 
lipe, e o resto dos Vinte mil cruzados que se tinham 
apartado para as trincheiras em i65o, dão-nos a enten- 
der ter-se efectuado neste ano qualquer diligência ten- 
dente a defender a capital do perigo castelhano (3). 

Efectivamente assim fora. 

Estudara-se uma novo linha de fortificações em i65o,_ 
tão grandiosa como difícil de realizar. Esse projecto 
— que era dos engenheiros João Gilot (holandês), Le- 



(i) Citados Elementos, tomo v, pág, 118 a i25 (nota). 

(2) Idem, pág. it3 a 126. 

(3) Idem, pág. 342 a 343. 



— D47 — 

gard (francês) e Cosmander, o famoso jesuíta peritís- 
simo em tais trabalhos — deveria ser executado sob a 
direcção do Marquês de Marialva. Chegaram a fazer-se 
alguns trabalhos, um dos quais foi o forte do Sacra- 
mento, onde a cinta de vales e redutos principiava, se- 
gundo o projecto, seguindo depois até N^ossa Senhora 
dos Prazeres. Arco do Carvalhão e Campolide, rema- 
tando na Crui da Pedra, onde deveria ficar o último 
dos trinta e seis baluartes (i). 

O forte do Sacramento foi fundado em uma quinta 
que, em Alcântara, possuía o Intendente Geral das 
Obras, Marquês de Marialva, e na qual residiu desde 
i635, ano em que se casara com D. Catarina Couti- 
nho. Só em 1640 passou para o seu palácio do Loreto. 

Como se sabe foi o Marquês a alma da conspiração 
de i638. ^E quere saber o leitor onde se reuniam os 
conjurados ? Ali mesmo na quinta, sob uma copada 
árvore, num local sobranceiro ao Tejo, Essa árvore 
histórica ainda lá existia, em 1862, sobre a muralha do 
velho baluarte (2). Com as obras do moderno quartel 
de marinheiros e da sua esplanada desapareceu essa 
relíquia patriótica. 

» 

Foram longas e demoradas as obras. Quando D. 
João IV^ morreu, em ó de Novembro de i656, pouco 
ou nada estava feito. A conclusão do plano urgia. 

Ninguém sabia até onde nos poderia levar a sorte 
das armas e tornava-se, pois, mister apressar a defesa 
da capital. 

D. Afonso VI, ou por outra Castelo Melhor, man- 



(i) Mappa de Portugal, pelo Padre João Baptista de Castro, 
vol. iii, pág. 8i a 83, da edição de 1763. 

(2) Archivo Pitoresco, vol. v, pág. 252 — Artigo de Vilhena 
Barbosa. 



— 548 — 

dou que se activassem os trabalhos. Por esse tempo 
chegava, porém, a Lisboa o Marechal Conde de Schom- 
berg, e posto ao corrente do plano, aprovou-o. Achava, 
o hábil general, larga em demasia a linha de defesa e 
opinava que, não sendo possível guarnecê-la eficazmente, 
se diminuísse a sua extensão aproximando-a da cidade. 

Tal opinião fora tambe'm a de Gilot que chegara a 
apresentar um plano idêntico ao de Schomberg, pro- 
pondo que a cinta fortalezada principiasse na Pampii- 
Iha, onde depois se fêz o convento de São João de Deus 
(depois quartel de infantaria 2), seguisse ao convento 
da Estrela (hospital militar), depois ao Noviciado da 
Cotovia (Escola Politécnica) e dai ao Monte de São 
Gens, vindo a fechar-se em Santa Apolónia^ apenas com 
dezasseis baluartes. 

Propôs Schomberg que se parasse na execução do 
plano de Legart e de Cosmander. Foi aceita a pro- 
posta. Apenas se tinha concluído os fortes do Sa- 
cramento e da Cru:{ da Pedra{\). 

O do Livrametito, junto ao convento das Necessi- 
dades, ficou também concluído, mas esse já fazia parte 
das fortificações do projecto de Gilot, perfilhado depois 
por Schomberg. 

A muralha que, em 1860, formava o muro da 
quinta dos Viscondes de Manique, era ainda resto das 
obras de i656. O velho reduto incompleto que o leitor 
além vê é outro vestígio dessas fortificações. 



O decreto de 10 de Fevereiro de i656, ordena ao 
Senado que acrescente, para a conclusão da obra de 



(i) O baluarte de Alcântara principiou a levantar-se em 22 de 
Dezembro de i652. Diz-se a pág. 1 14 do tomo ui do Sumario de 
Varia Historia de Ribeiro Guimarães. 



— 549 — 

defesa da cidade, a consignação de um conto de réis 
cada mês, do dinheiro dos novos impostos, que mais 
tarde (Fevereiro de 1637) também subsidiaram o pa- 
gamento aos artilheiros que o Conselho de Guerra re- 
solvera exercitar para a mesma defesa (i). 

O inverno de lõSq a 1660 destruiu, ao que parece, 
parte dos valos que se tinham feito em redor da cidade. 
Isto, e o facto do povo ser coagido a trabalhar nas ca- 
vas, deu em resultado uma reclamação do Juiz do Povo 
quanto à forma de pôr em execução as determinações ré- 
gias no tocante ao prosseguimento da obra de pouca 
ou nenhutna consideração para a defesa da cidade. 

A coacção aos trabalhos da circunvalação dava tris- 
tes resultados, pois o povo não podendo cuidar do 
amanho da sua vida achava-se desprevenido de dinheiro 
para pagar as constantes contribuições. Foi essa recla- 
mação presente a El-Rei, com uma consulta da Câ- 
mara, em 12 de Abril de 1660. A Câmara lembrava 
que os trabalhadores para as obras deviam ser esco- 
lhidos pelos róis das freguesias, não havendo distinção 
para os ricos, como já se tinha feito anteriormente, 
evitando-se assim (ó ingenuidade municipal!) as recla- 
mações do povo, e fazendo-se a obra mais depressa 
pela muita quantidade de operários que se conseguiria 
desse modo. Parece que D. Afonso VI não gostou 
muito da reclamação do Juiz, nem da consulta da Câ- 
mara. Entretanto escreveu à margem desta : 

« Tenho mandado considerar o que aponta esta con- 
sulta, e seja certo o Senado que não hei-de mandar fa- 
:{er senão o que fòr mais com'eniente à defesa desta 
corte e conservação do reinos (2). 



(4) Citados Elementos, tomo vi, pág. 14 a 19. 

(5) Idem, tomo vi, pág. ng a 161. 



55o — 



Depois disto pouco mais sei do andamento dos tra- 
balhos de fortificação. Em 1678, propôs à Câmara, em 
consulta de i de Julho desse ano, que se demolisse o 
baluarte do Terreiro do Paço que, não servindo como 
obra de defesa, tirava a vista do mar ao Terreiro, 
desfeava-o e, pior do que tudo, tornava a praia, que 
ficava fora da cortina, um lugar imundo e indigno de 
tal local. Não sei ao certo que resolução tivesse tal 
proposta, sendo contudo evidente que a demolição se 
não fêz, visto que o baluarte ainda ali ficou por largos 
anos(i). 

« 

Em 1700 duravam ainda os trabalhos na linha de 
fortificações. Em um documento datado desse ano, 
vejo mencionados uns «homejis que trabalhajii nos mu- 
ros de El-Reiy) para as bandas de Alcântara e Senhora 
dos Prazeres (2). Eram, sem dúvida, os ijltimos ar- 
rancos da obra. Daí a pouco estava tudo abandonado. 

O que ficara por concluir, nunca mais se acabou. 

Quando em 1701, interviemos, com a política fran- 
cesa, na questão da sucessão à coroa de Castela e se 
receou, por isso, um ataque a Lisboa pela esquadra 
inglesa que, se dizia vir ao nosso porto para nos obri- 
gar a pagar quinhentas mil libras que se deviam a In- 
glaterra desde o tempo de Cromwell, pensou-se que 
iam servir pela primeira vez as defesas de João Gilot 
e de Schomberg. 



(i) Citados Elementos, tomo viu, pág. 291. 
(2) Róis dos Confessados da Freguesia de Santos — Ano de 
1700. 



'— 55i — 

Puseram-se a postos os artilheiros da guarnição das 
trincheiras, aprestaram-se mantimentos, guarneceu-se 
toda a cidade de cavalaria e de infantaria, e os mar- 
queses das Minas e de Alegrete e os condes de Ata- 
laia e de Alvor, por quem foi dividida a defesa da ma- 
rinha da cidade, estiveram activos e vigilantes durante 
os dias da prevenção. Afinal a esquadra inglesa não 
apareceu e o Almirante Conde de Chaternou, coman- 
dante da esquadra francesa fundeada em Cascais, levan- 
tou ferro em 4 de Setembro. Não havia razão para 
sustos (i). 

As trincheiras da margem, que para tal efeito se 
desentulharam dos lixos da cidade, voltaram à sua 
única utilidade de vasadoiros públicos a-pesar-da proi- 
bição municipal (2). 

Bem tinha razão o Juiz do Povo, quando dizia, em 
1660, que tal obra era de pouca ou nenhuma consi- 
deração para a defesa da cidade» 



Desculpe o leitor esta divagação a que me levou o 
velho baluarte de Campolide. 

No plano da reconstrução da cidade, subscrito pelos 
engenheiros pombalinos, projectava-se a conclusão da 
linha de fortes, tal como em i65o. Tudo isso está 
muito claro na planta que o leitor já viu. 

Nada se fez como é sabido. 

O reduto da Atalaia, incluído hoje no parque do 
palácio de Palhavã, é de todos os da cinta Joonina 



(i) Citados Elementos^ tomo x, pág. 86 e 87. 

(1) Idem. 

(2) Idem. Carta do Senado de i3 de Setembro de 1701. 



— 552 — 

o que mais tem de contar, porque foi de todos o pri- 
meiro que serviu como defesa militar. E um episódio 
sangrento referirei em que êle desempenhou o seu pa- 
pel de abrigo eficaz assistindo a uma das últimas arran- 
cadas das tropas realistas em i833. j Mal diriam os 
engenheiros seiscentistas para que eslava reservado 
esse baluarte ! 

A longa caminhada evocadora está perto do seu 
termo. Servir-lhe-á de ponto final esse episódio como- 
vedor, e, para isso, transportemo-nos a Setembro desse 
ano, época em que as forças absolutistas, sob as ordens 
de Bourmont, defrontaram a cidade defendida pelo, 
então. Conde de Saldanha. 

Estas encostas que, a nossos pés, se somem até o 
vale, foram teatro desses memoráveis combates 



O conselho dos generais realistas, depois de larga 
discussão, aceitara 'finalmente a proposta do general 
Seabra, Conde da Baía. O Conde conhecia magnifi- 
camente o terreno onde ia desenrolar-se essa cena san- 
grenta. Nele assentavam as suas vastas propriedades, 
as conhecidas terras do Seabra. 

Segundo o seu parecer, as forças realistas investi- 
riam a cidade em duas colunas. Uma atacaria a en- 
trada de São Sebastião da Pedreira, e outra, entrando 
pelo bosque do palácio Louriçal em Palhavã (hoje Em- 
baixada de Espanha) alcançaria a sua quinta de onde 
eficazmente tentaria o assalto da cidade. 

Bourmont, que convidara o Conde a assistir ao 
conselho, estava confiadíssimo na vitória. 

As restantes forças atacariam de frente os fortes de 
Campolide e da Atalaia. 



— 553 — 

Quando rompeu a madrugada do dia 5, logo se ini- 
ciou o ataque. Divididos em seis colunas os onze mil 
soldados absolutistas avançaram. No Campo Pequeno 
fêz-se a divisão das duas forças que tinham de operar 
diversamente. A que investiu por Falhava destinava-se 
a ocupar o palácio e a quinta, conforme o plano. 

O reduto da Atalaia dominava as duas estradas. 
Excelentemente situado e municiado, impedia, com re- 
lativa facilidade, a comunicação entre as duas colunas. 

Dubreil comandava aquela que ia ocupar as terras 
do Seabra. 

A batalha, imediatamente começada, durou brava 
mente durante horas. Fora extraordinário o ímpeto 
dos realistas. Ao Conde da Baía, morrera-lhe o cavalo 
crivado de balas, ao tempo que o duelo entre a arti- 
lharia realista e a do reduto da Atalaia se tornava in- 
tensíssimo. 

A muito custo conseguem os soldados de Dubreil 
entrar no bosque de Falhava. Ocuparam-no por fim 
numa arrancada heróica, mas logo a seguir tiveram de 
abandoná-lo, debaixo de uma terrível fuzilaria, para de 
novo o tornaram a ocupar entre gritos de vitória. 

De parte a parte são inúmeros os actos de bravura 
e de valor pessoal, chegando a ignorar-se, durante meia 
hora, quem levaria a melhor. Todas as posições eram 
sucessivamente tomadas e perdidas pelos encarniçados 
combatentes. 

i E dizer-se que eram todos portugueses ! 

Derivou depois o mais aceso da luta para o Jardim 
do palácio, no sopé' do alto da Atalaia, ao passo que 
a terceira brigada de artilharia de montanha, ocupando 
as eminências da quinta do Malheiro, investia com o 
desmantelado reduto da quinta do S^bra. Comanda 
Barros e Vasconcelos o denodado ataque. D. Tomaz 
Mascarenhas, à frente da sua brigada, vem em so- 



— 554 — 

corro do reduto e investe contra o alto do Malheiro. 
Pouco depois caía mortalmente ferido. \ Nos jardins 
de Palhavã vai uma mortandade medonha ! 

Enchem-se de mortos e de feridos as ruas de buxo 
onde outrora passeavam os filhos de D. João V. O 
bravo regimento de caçadores 4, sob as ordens de 
Xavier, arroja-se contra o batalhão realista de La- 
mego; mas os soldados de D. Miguel resistem hero- 
icamente. 

Saldanha, acompanhado pelos Condes de Bonfim 
e de Campanhã, voava sempre ao mais aceso dos com- 
bates, animando os soldados, dando ordens e expon- 
do-se, intrépida e serenamente, às balas inimigas. Ora 
estava em Campolide ora em Palhavã, sempre activo 
e diligente. Já o Conde de Bomfim fora ferido quando 
caiu morto o cavalo em que montava o Duque da Ter- 
ceira. Os realistas visavam os chefes liberais, pois o 
próprio Imperador, no alto de Campolide junto à quinta 
da Torre, de onde assistia à batalha, estivera também 
em riscos de ser alvejado por uma bala de artilharia 
que, caindo )unto dele, matara um fachina. 

Obram-se prodígios de valor em ambos os campos. 
José Maria Lobo de Ávila, oficial de artilharia, o alfe- 
res D. Alexandre de Sousa Coutinho, o capitão José 
Maria Taborda e o sargento Alves da Encarnação, por- 
tam-se como heróis. D. Alexandre foi destes o único 
que morreu. 

O alferes Cordeiro Furtado, de caçadores, acome- 
tido por um grupo de inimigos, põe três deles fora de 
combate e cai ferido de morte. 

Saldanha viu, então, que era mister ultimar a acção. 
Redobram os esforços dos defensores da cidade e pouco 
depois os realistas eram sucessivamente repelidos da 
frente do reduto, dos jardins e do palácio, e perse- 
guidos ainda para além das linhas de defesa. 



— 555 — 

Deu-se então aquele notável cometimento, aquela 
gentileza de armas que impressionou os próprios com- 
batentes, asselvajados e transmudados em feras no ar- 
dor da batalha. Luiz de Larochejacquelin, sobrinho 
do general do mesmo nome que fora ferido no cerco 
do Porto, vendo perdidas as esperanças e desanimados 
os seus camaradas, não podendo compreender nem 
sofrer a vergonha da derrota, arroja-se contra o forte 
da Atalaia, à frente de um esquadrão que o seu he- 
roísmo fanatizara. Ficam-lhe pelo caminho os soldados. 
A metralha varre o esquadrão que a cada galão dos 
cavalos se desmantela e se desfaz. Fogem os corséis 
sem cavaleiros, espavoridos, do campo onde tudo é 
destroço e sangue. São apenas doze, dez, oito, quatro, 
dois cavaleiros que avançam. Um tiro mais, e Laro- 
chejacquelin sozinho, épico, sublime, agitando a espada, 
sem olhar para trás, segue, galopa sempre para o ba- 
luarte até que, quási junto do fosso, cai crivado de 
balas. 

] Mal empregada heroicidade ! A batalha estava 
perdida, irremediavelmente perdida. Eram dez horas 
quando os liberais deram a última carga de baioneta. 
Dirigira-a o próprio marechal. Da eminência fronteira 
ao reduto do Seabra, onde perecera o bravo D. Tomaz 
Mascarenhas, foram acossados os últimos soldados de 
D. Miguel. 

; Tinha acabado o combate ! 



No dia 14 realizou-se um novo ataque à cidade, 
mas desta vez com menor intensidade. O desanimo 
entrara nas tropas. O local escolhido para a investida 
fora a trincheira da casa do Fortç, ao alto de São João. 



~ 656 — 

Bastou o regimento do 2 de caçadores para repelir o 
ataque. 

Os soldados realistas estavam desmoralizados. Bour- 
mont e Clouet demetiam-se do comando do, já então, 
reduzido exército miguelista. 

O epilogo deste ataque realizou-se a 10 de Outu- 
bro no Campo Grande e ainda foi bem renhido e san- 
guinolento. Saldanha, prometera, porém, ao Impera- 
dor que no dia dos seus [anos seria levantado o cerco 
de Lisboa. Ora D. Pedro IV cumpria anos nesse dia 
e Saldanha não quis deixar comprometida a sua pala- 
vra(i). 

A i5 de Outubro chegaram os realistas a Santare'm. 

Tais foram os combales travados nestas verdejantes 
encostas, há cem anos. Todas as casas, dessa época, 
do alto de Campolide, apresentavam, ainda em 1840 e 
tantos, numerosos sinais das balas do exército de Bour- 
mont(2). 

jjHoje, quem o dirá ! Tudo se renovou, tudo desa- 
pareceu. Nos antigos redutos da Atalaia e do Seabra 
rebentam searas e florescem jardins modernos. Os 
caminhos, regados de tão abundante e generoso sangue, 
transformaram-se em largas avenidas, cujo macadam 
mal deixa fantasiar os sulcos das carretas de artilharia 
da brigada realista. 

O troar desses canhões fratricidas ficou apenas na 
história, pois o tempo deliu sobre a face sempre re- 
novada da natureza, todos os vestígios da luta que ini- 
ciou, às portas de Lisboa, o seu último capítulo (3). 

(i) Historia do Marechal Saldanha, por D. António da Costa, 
pág. 341 e seg. do único volume publicado. 

(2) Memorias, de Bulhão Pato. 

(3) Em i833 foi o Coronel de Engenheiros, José Feliciano da 
Silva e Costa quem dirigiu as obras improvisadas da fortiticação 
da cidade, por ordem de D, Pedro IV. Essas fortificações de 



— 557 — 



campanha constavam de 126 obras defensivas guarnecidas por 
184 bocas de fogo. Levaram menos de um mês a fazer. 

Em 1857, D. Pedro V, já Silva e Costa era general, encarre- 
gou-o de estudar um novo plano de fortificação de Lisboa e uma 
portaria de 23 de Maio de iS5g nomeou uma comissão para esse 
fim, composta do marechal José Jorge Loureiro, visconde de Sar- 
mento, Silva Costa, brigadeiros visconde de Vila Nova de Ourém 
e Augusto Xavier Palmeirim e visconde de Nossa Senhora da 
Luz, a qual se instalou em 3i desse mês e ano. Essa comissão em 
1860 estava em actividade, pensando em guarnecer a cidade de 
duas linhas de defesa; a primeira aproveitando a linha de i833 e 
a segunda, com maior âmbito cercando a cidade desde aboca do 
rio de Sacavém até Algés. O plano era semelhante ao de Anve- 
res. Em 11 de Julho de 1861 deu o seu parecer, e a lei de 1 1 de 
Setembro desse ano votou para tal obra 400.000^^000 réis. 

Os trabalhos da fortificação inauguraram-se em 3o de De- 
zembro de i863 no forte da Serra de Monsanto tendo assistido o 
Rei D. Luiz e os infantes D. Augusto a D. P'ernando. Os fortes de 
Alcântara e de Almada estiveram em obras em 1864, mas em Ou- 
tubro do ano seguinte pararam os trabalhos. 

No ano da 1866, abriu-se na Câmara-Alta um largo e elevado 
debate sobre o assunto, em que tomaram parte Sá da Bandeira, 
Fontes, Saldanha, visconde de Fonte Arada, Casal Ribeiro. Nomes 
como estes. O Tesouro estava exausto. Fontes que era o Mi- 
nistro da Fazenda disse-o a Sá da Bandeira que defendia caloro- 
samente a ideia da fortificação. O forte de Monsanto só se veio 
a acabar depois, Palmeirim era de parecer favorável à efectiva- 
ção dessa obra, que deveria seguir por Benfica, Palma, etc, em 
vista do maior alcance da artilharia, abandonando-se as defesas 
de i833. O Visconde da Luz pensava que as obras se deveriam 
iniciar por Sete-Rios e pelas Terras do Seabra {Memorias sobre 
as Fortificações' de Lisboa, por Sá da Bandeira, Lisboa, 1866). 



— 558 - 



* * 



Acabam aqui os meus apontamentos respeitantes a 
esta parte da cidade. Muito ficou por dizer; muitís- 
simo mesmo. Pontos há que ficaram imperfeitamente 
tratados e escassamente desenvolvidos, mas a indife- 
nença e estranheza de uns, a desdenhosa superioridade 
de outros e as insuperáveis peias da faha de tempo 
disponível para estas extravagâncias arqueológicas, obs- 
taram a que os completasse nas poucas vezes em que 
tal imperfeição não provinha da incompetência própria. 

Dos que me prestaram o seu auxílio e gentilmente 
me informaram ou facultaram informações de outrem 
e consulta de papéis particulares, deixo menção na de- 
vida altura deste trabalho e com ela vai agora aqui a 
expressão do meu reconhecimento. 

Ficam ainda nos meus macetes de apontamentos 
larga cópia de notícias dos velhos bairros da Boavista 
e de Santos, da Esperança, do Mocambo, da Mandra- 
goa, das Janelas Verdes, Pampulha e Alcântara, assim 
como dos mais recentes da Estrela, da Lapa, de Bue- 
nos-Aires, da Boa-Morte, Fonte Santa e Santa Isabel. 

Essas serão as bases de um seguinte trabalho em 
continuação dos presentes volumes. Todos esses locais 
estão envelhecendo, não tanto pela idade própria, senão 
pelo continuado nascer de irmãos mais novos que lhe 
põem brancas veneráveis e rugas precoces. Por isso 
mesmo, vão tendo muito que contar e, a não faltar-me 
o ânimo, serei eu o seu cicerone e o seu cronista pe- 
rante a cidade moderna que cresce sem cessar, de sul 
a norte e de nascente a poente, afogando nos seus ten- 
táculos de casaria os olivais e hortas do arrabalde. 



-559- 

Todos os dias nos jornais diários e nas revistas 
ilustradas, surgem novos projectos de avenidas, pontes, 
viadutos, arcos triunfais, palácios de exposições ; depois 
o Pôrto-Franco, o nascer de uma nova cidade, de vida 
intensa, essencialmente fabril, ouriçada de chaminés, a 
galgar os oiteiros escarpados da «outra-banda» ; depois... 
E a fantasia ala-se, em voos arrojados, sonhando o em- 
pório da rainha do ocidente, reflectindo no rio, coa- 
lhado de esquadras e de navios de mercancia, os seus 
supostos sete oiteiros recortados de corucheos e grim- 
pas historiadas. 

Tudo isto me assusta, e não porque eu seja retró- 
grado ou estupidamente aferrado à rotina e ao ramer- 
rão que tanto tempo tiveram quási improgressiva esta 
linda cidade, mas, por que muito lhe quero exacta- 
mente, receio esse civilizar apressado, com modifica- 
ções que, muita vez, o bom senso não aprova e o 
tempo não dá ocasião a joeirar. 

A hiper-civilização, sonhada pelos furiosos innova- 
dores, assemelha-se muito a uma desnacionalização 
completa, em que o fatal cosmopolitismo vencerá, num 
golpe rápido, o carácter próprio, a maneira de ser tra- 
dicional de uma população de seiscentas mil almas. 

Lisboa, a executarem-se todos esses planos entu- 
siásticos, todas essas iniciativas, belíssimas na essência, 
virá a ser certamente uma grande cidade, mas deixará 
de ser, sem a mínima dúvida, uma cidade portuguesa. 

O progres'so urbano de agora é desnacionalizador, 
iguala, cosmopolitiza. As povoações são standartizadas 
como os automóveis e as máquinas de costura, num 
tipo único que as banaliza. E é disso que tenho pena. 

Em tudo se quere conta, passo e medida. Na civi- 
lização também. Encha-se a cidade de ar, de luz, de 
conforto; esmaltem-se-lhe as praças com o verde dos 
jardins floridos ; arborize-se o contorno e o arrabalde, 



— 56o — 

as ruas e os largos, num culto de gratidão pelas som- 
bras refrescantes ; construam-se habitações com carác- 
ter, com proporções e simplicidade de linhas, apro- 
priadas ao clima e adequadas ao meio, fugindo à ple- 
tora campesina dos alpendres e de outros motivos 
rurais; tornem-se higie'nicas as que o não forem; de- 
fendam-se os panoramas como quadros de museu ; res- 
peite-sé o que é antigo, e edifique-se à moderna, crian- 
do-se estilos em vez de se copiarem manuelinos e joa- 
ninos. Mas só isso e não mais. Não dêem à capital 
uma indigestão de progresso inventado, desses destem- 
perados estranjeirismos que para aí vemos, sem graça, 
sem beleza e sem lógica. 

; Fala-se, de há muito, em arrasar Alfama ! ; Al- 
fama que e' o diche, o encanto, o deslumbramento dos 
estranjeiros que passam sem olhar pelas novas ave- 
nidas. Já alguém até falou em avenidas que cortassem 
São Miguel e Santo Estêvão, a Regueira e o Chafariz 
de Dentro ! ; Santos Deuses ! ! Avenidas em Alfama ! 
Seria o mesmo que abrochar de pe'rolas um lenço de 
ramagens. 

Todos os dias se demolem edifícios antigos, com 
estilo, com carácter, com tradição, consiruindo-se, em 
contraposição, chalets pintados às riscas, cottages que 
o nosso céu azul cobre desconfiado, prédios em estilo 
Amadora com telhados ponteagudos para a neve (1), 
caixotÕes pretenciosos, e fancarias semelhantes. 

Destruir é fácil, dizê-lo ainda mais. Quem não sabe 
construir é que não tem esse direito. Só recentemente 
é que alguns arquitectos têm mostrado que o são. 

Civilizar não é sinónimo de arrasar. A conservação 
dos monumentos e dos documentos da nossa história, 
a par do renovar incessante a que obriga o ritmo da 
vida moderna ; isso é que é civilizar na mais clara e 
elevada expressão desta palavra. 



NOTAS FINAIS 



36 



NOTAS FINAIS 

Nota 1 

(Pág. 5o a 54) 

Fábrica da Loiça 

Alguma coisa há já a acrescentar sobre os longos e difíceis 
capítulos que ei.crevi sobre esta oficina pombalina e sobre a ce- 
râmica portuguesa em geral. 

Falaremos primeiro dos púcaros. 

A página 54 apresentei a hipótese dos «púcaros da Maia» 
derivarem o seu nome das «galantes» da corte que osusavam e às 
quais chamavam Maias, levado pela evidência dos oleiros Maias, 
sendo setecentistas, não poderem nomear tais vasilhas já assim 
conhecidas muito anteriormente. 

Depois de tal ter escrito mudei de opinião. E mudei em face 
de um documento datado de 1625 em que já se menciona a tra- 
vessa da Maia, aos Anjos. Esse documento é uma escritura de 
venda que encontrei no Index das Notas dos Tabeliães de Lisboa, 
a página 60, onde se dão como moradores em tal travessa Duarte 
Vaz Henriques e sua mulher Maria da Gama. Nada mais possível 
do que já existirem ali oleiros trabalhando os pucarinhos à roda, 
dado que tal região de Lisboa desde o século xvi é nomeada como 
alfobre de oleiros. 

Na Fastigimia de Tome Pinheiro da Veiga há várias referên- 
cias a púcaros, «perçolanas» e barros de Estremôs. 

Por exemplo : 

A página 37 : —A mulher do Alcaide Gudiel, de Valladolid, tinha 
na mão um pucarinho de Estremôs. 

l — Senora (disse-lhe um português) no me hará usted 
merced de dar-me su pucarilio f 

E ela rindo-se maliciosa : 

— Perdone V. Merced, que nadie hasta aora ha bebido 
por ele. 



— 564 — 

A página 86 : — Tendo-se pedido para cantar a certa dama, disse 
que só o faria se lhe dessem um púcaro de água de Portugal. 
A página 2G4 : — O Rebelo, chocarreiro da Rainha, dissera a Ma- 
nuel Gomes de Elvas que a sua senhora gostaria de um cofre 
de tartaruga. O fidalgo mandou vir de Portugal o cofre e 
quatro pon^onalinhas^ uma cheia de almiscar, outra de vi- 
dros, outra de cocos e outra de marmeladas. 
A páginas 323, num discurso em defesa do «Amor Platónico», apu- 
raram- se as seguintes frases: 

...Não vai tnuyto de comer a mesma iguaria em hua 
po^olana fina ou em hua talavera graça. 

. . . Para ornar a casa se cobre o retrato e para afermo- 
sentar a prateleira o brinco de Estremo^. 

. . . Pega-se o brinco de Estremo:^ no beiço sequioso, mas 
não se faça dele mantimento para o baixo corpo. 

... O frio Estremo:^ para servir água, para recriar o 
olfato, e não para fartar o estômago. 

Os pucarinhos, o barro de Estremôs e as «perçolanas» viviam 
à vontade na linguagem figurada do princípio do séc. xvii. 

Nota 2 

(Pág. 54 a 68) 

Sobre azulejos, também alguma coisa ficou por dizer. 

— Os azulejos que guarnecem a sala de jantar da casa do 
Dr. José de Arruela, na travessa de André Valente, e que foram 
adquiridos num bric-a-brac da rua 16 de Outubro são dignos de 
atenção demorada. Ignora-se a sua origem. 

São quatro os painéis e ainda um vão de uma fonte orna- 
mental. Deviam de ser mais, ou maiores, porque dos restos de 
outros ou destes, fizeram-se, adicionando-lhes azulejos novos, mais 
quatro painéis pequenos e os vãos das duas janelas. O primeiro 
painel, representa um combate naval, ou entrada festiva, com sal- 
vas. As naus arvoram bandeiras listradas em barras e com uma 
cruz (amarela). Vêem-se ainda um caíque e outras embarca- 
ções menores. Em terra, à esquerda, a Torre de Belém, a que 
falta o parapeito inferior. No terraço mais alto, duas peças fazem 
fogo ; um rapaz joga o pião e outros pescam, sendo um nos bai- 
xos da Torre. Decoração polícroma. Faixa dupla: — a interior, 



_ 565 — ' 

de animais, porcos monteses, veados, elefantes, girafas, cães, etc. ; 
a exterior, de aves e flores. 

O segundo painel tem o mesmo enquadramento de animais e 
flores. Figura cenas cortesãs ao ar livre: — palácio de colunata 
clássica, e entre as figuras da corte, uma que parece a. Nina de 
Velasquez. A esquerda, um cavalo gualdrapado. Eles e elas tra- 
jados à maneira do século xivi, primeiro terço. Decoração polí- 
croma. Além de duas figuras de corte, maiores, no primeiro plano, 
vê-se também um frade (dominicano í). 

O terceiro painel figura várias cenas campestres, populares : 
homens fumando cachimbo, mulheres matando e depenando ga- 
linhas/crianças brincando no chão, sacos, utensílios agrícolas, etc. 
Ao centro, uma árvore, tendo, suspenso de um ramo, um caldei- 
rão sobre lenha ardendo. Decoração a tinta azul. 

O quarto painel figura um combate. Fundo de montanhas 
das quais surgem grupos de cavaleiros. Ao centro, um grupo de 
vinte figuras lutando. Duas bandeiras com a cruz de Cristo, sendo 
uma empunhada por um charameleiro. Um dos combatentes 
traja de corte, banda para suspender a espada, chapéu de plumas; 
outros de armadura (século xvii). No primeiro plano, fortaleza 
com barbacã e variai figuras de soldados. Uma personagem de 
trajo cortesão, chapéu de feltro e cabelo comprido sobre os 
ombros. Parece Afonso V!. Decoração polícroma. 

No vão da fonte, a representação de um jardim com ruas e 
canteiros. Figuras cortesãs e campesinas passeando. Ao centro, 
uma fonte com leões e uma figura nua ao alto. Esta liga-se com 
a bacia da fonte a valer, de mármore, embebida na parfcde. Nos 
vãos das janelas, restos de azulejos antigos (soldados escalando 
uma fortaleza, um transportando uma escada de assalto, um «anão 
de Velasquez» sentado, fumando cachimbo, etc.) e outros mo- 
dernos figurando a conquista de Lisboa, a oração de Nuno Alva- 
res Pereira em Aljubarrota, etc. Os amarelos destes falharam. 
Vê-se bem que são modernos. Alguns dos painéis antigos estão 
emendados com um ou outro azulejo moderno. 

Parecem-me todos os azulejos, obra da primeira metade do 
século XVII. O caracter da pintura é mais castelhano ou andaluz 
do que português. 

Devem de ser assuntos portugueses, pintados em Lisboa, pos- 
sivelmente, por um artista da república vizinha, i Mas serão assun- 
tos indeterminados? 

Inclino-me a crer que esta decoração cerâmica tem qualquer 
significado pessoal, como tantas que ornam salões e que se rafe- 



— 566 — 

rem a factos ligados com a família que os encomendou. Assim 
são os azulejos do salão da torre do Solar de Azevedo. Os trajos 
nada significam a maioria das vezes. Os azulejos antigos que 
estão nos vãos das janelas deviam ter pertencido aos quatro pai- 
néis que foram diminuídos para se ajustarem às paredes onde es- 
tão. 

Na capela da mesma casa há um painel de azulejos polícromos 

(i5X 12) representando um calvário. No supedàneo há uma car- 
touc/ie com legenda religiosa e a data j-i3. Ao lado do Cristo, 
veem-se Santo António e São Francisco. 

— Na rua da Rosa, n." 2o3, num prédio do século xvii que se- 
gundo^me parece era o da família Nabo, há uma guarnição de 
azulejos na escada, com substituições e emendas nalguns pontos. 
São todos a azul. No primeiro patamar acima de três ou quatro 
degraus, estão dois painéis que não eram de-certo dali (embora 
do mesmo pincel) e que deviam ser de qualquer sala. Num, vê-se 
uma caçada ao porco bravo e, noutro, uma dama de Fontange 
com um guarda-sol, de cabo torneado, na mão. A parte de cima 
dos painéis é de sanefas e borlas recortadas. Em baixo, numa fita, 
EL MKDio DIA ; em cima, restos de um zodíaco de duplo arco, onde 
ainda se lê Virgo e Tau.. (Taurus). ^ Serão azulejos castelha- 
nos i* 

A escada é toda ela interessantíssima, com azulejos de ba- 
laústres entremeados de figuras do século xvii, trajadas umas à 
moda da corte, e outras à oriental — um rapaz de turbante com 
um cesto de frutas, um preto, etc. Nos intervalos, cães, gatos, 
carneiros, macacos, uma gaiola com aves, e outras aves soltas. 

Logo ao princípio, partindo do patamar baixo, duas figuras 
de maior tamanho chamam a atenção. São dois pobres, um ho- 
mem e uma mulher, a pedir esmola, de mão estendida. 

Vale uma visita esta escada do Bairro-Alto. 

— Os azulejos do «Asilo das Cegas», na rua do Século, são 
holandeses e estão assinados 

I.VAN OORT : 
AMST : FECIT 

numa cartouche, na base da guarnição da parede que dá para 
a rua. 

Fica assim emendado o meu erro de critério quando os supuz 
da autoria de Gabriel dei Barco, a página 62. Já Castilho tinha 



— 567 — 

assinalado a origem holandesa desta guarnição a página 220 do 
volume quarto da segunda série da Lisboa Antiga. O que isto 
prova é que dei Barco seguiu o estilo dos azulejadores da Holanda, 
ou pelo menos deste. Não sei de outra guarnição cerâmica de 
composição larga de figuras, que esteja assinada. O facto de ter 
sido feita em Amsterdão ainda particulariza mais este caso. Não 
encontrei este Van Oort entre os pintores citados por Augusto 
Demin. 

— Em São Bento de Gastris (junto a Évora) existem também 
azulejos caricaturais (século xvii). Lá se vê um Cupido a surgir 
de um diabo, .uma ratoeira armada numa cabeleira feminina e 
outras travessuras, mais ou menos frescas, no dizer de Mestre Ga- 
briel Pereira. 

— O palácio dos Condes de Óbidos, como tantos em Lisboa 
é rico de revestimentos cerâmicos. Pertence, actualmente, à 
«Cruz Vermelha Portuguesa». Esteve lá a Embaixada de Espa- 
nha e o Club Inglês que hoje se instala em frente de São Roque, 
na rua de São Pedro de Alcântara. Há azulejos em quatro dos 
sete salões do andar nobre (primeiro pavimento). Num deles a 
História de Diana ; no de entrada, silhar de ornatos bem desenvol- 
vidos ; na casa de jantar, cenas de caça e de interior, jardins, etc, 
onde se observa o pormenor conhecido da cena do jogo de cartas 
com a aia de espelho empunhado a denunciar o jogo contrário, e 
o dinheiro acumulado junto da dama que está «depenando» o 
galante. Os outros três salões certamente tiveram semelhantes 
decorações. Hoje acham-se nuas de azulejos. Todos os que yi 
são do fim do século xvii. 

— Na igreja matriz da vila da Cuba, vi, em 7 de Maio de 1 93 1 , 
alguns curiosos exemplares de cerâmica de revestimento. Sobre 
a porta de entrada, um registo (loXii) polícromo com um São 
Vicente, num fundo, bem alentejano, de sobreiros. O santo tem 
na mão direita a palma e na esquerda o corvo ; dentro do templo 
há um revestimento completo de azulejos de padrão e de laçaria 
e rosas, a azul e a amarelo, com vinte e dois registos embutidos, 
figurando vários santos e cenas religiosas. No registo da parede 
do coro, contra a fachada principal, figura-se outro São Vicente 
tendo na mão direita a palma, e, na esquerda, a nau com os dois 
corvos. Os registos são todos polícromo s. 



— 568 — 

Nota 3 
(Pág. 68 a 70) 

Escultores barristas 

Francisco Coelho de Figueiredo {Teatro de Manuel de Figuei- 
redo, vol, XIV, pág. 470, 565 e 566) dá-nos notícia da aula de escul- 
tura de barro, «por formas», que existia, meado o século xvni, 
atrás de São Domingos, voltando do adro logo sobre a direita. 

Administrava a casa uma fragona muito alta com a roca na 
cinta fiando estopa. Era ela quem, muito mal encarada, punha so- 
bre o mostrador de loja as figuras que os rapazes lhe pediam : cm 
penitentes, imagens devotas para as charolas, pastores com ofe- 
rendas e extravagâncias para os presépios. À porta do estabe- 
lecimento de São Domingos, muito frequentado em vésperas de 
Natal e dos Santos de Junho, estava sempre quem vendesse quei- 
jadas cujo tamanho fazia saudades ao Figueiredo quando em velho 
passava por lá. 

Os «penitentes» de barro que se vendiam em São Domingos 
eram a tentação dos petizes, que viviam felizes, dias e dias, na 
esperança de que os pais cumprissem a promessa de lhes dar 
um. 

Mais tarde foi o nosso mercado invadido pelos bonequinhos 
de França que se vendiam na rua dos Capelistas e pelos caste- 
lhanos. A Gaveta de 16 de Agosto de 1816 anuncia a chegada a 
Lisboa de uma colecção de bonecos de barro da melhor escultura, 
o mais natural possível, tanto em caracteres como em trajos pró- 
prios com as cores mais vivas, de sorte que não deixam invejar a 
natureza. Eram figuras dansando boleros, senhoras e homens em 
trajos de passeio, toureiros matando touros, pastores e pastoras 
vestidos pobre ou ricamente, etc. Tudo isso se vendia em casa 
de Jorge Latur no Cais do Sodré. n.° 3, 2° andar, quarto n.° 6. 

Nota 4 

(Pág, 99 a 100) 

Outras oficinas cerâmicas 

Nos livros da «Junta de Administração das Fábricas», exis- 
tentes na Torre do Tombo, encontro menção de outras fábricas. 



— 569 — 

Os diplomas, respectivamente, de lo de Janeiro de 1780, 10 de 
Maio, 25 de Junho, 8 de Outubro de 1784, 6 de Abril, 14 e 23 de 
Setembro de 1785, privilegiaram as oficinas de louça de Severino 
José da Silva, no Porto; de José Rodrigues da Silva c Sousa, de 
louça branca, no Juncal; de Jerónimo Rossi, de loiça fina, em 
Gaia; de José Vieira da Rosa, de louça branca, em Kio Maior; 
de João dos Santos, em Lisboa; de João Carlos Alves, na Car- 
nota ; e a de Domingos Vandeli. 

Em 1794 (alvará de 20 de Dezembro) foi ainda privilegiada 
uma fábrica de pó de pedra, no Porto. 



Nota 5 

(Pág. 104 a 120) 

A loiça do Dr. Milagres 

Francisco Coelho de Figueiredo, conversador pitoresco e in- 
cansável, mostra-se (Teatro^ vol.xiv, pág. 546 a 55i) admirador 
entusiasta deste ceramista um tanto mágico, lembrando, sem pena, 
o tempo da loiça primitiva da Fábrica do Rato que estalava logo 
que se lhe deitava água quente, das «sopeiras» mal modeladas e 
do resto que mal podia competir com as vasilhas que os franceses 
para cá traziam da Fábrica de Viena, ao tempo do terremoto. O 
coronel recorda a loiça leve da fábrica de Mr. Robillion, em Que- 
luz, a de Belas, do Pauletti, que até ia ao fogo, e extasia-se pe- 
rante as terrinas, as manteigueiras, os pratos compridos e outras 
peças do Milagres. Coelho de Figueiredo dá ainda o informe de 
que o Doutor ceramista, ia, de uma vez, a dizer-lhe o que faltava 
para a louça da sua invenção ser perfeita, mas não chegou a 
acabar a frase. Era o processo dele. 

Noutro ponto das suas curiosas Notas (pág. 623 a 624) felici- 
ta-se também pelo aparecimento de certas vasilhas vidradas que 
tinham vindo substituir as de barro do Cartaxo e das Caldas e a 
que ele chama, picarescamente, fábricas caseiras de amoníaco. 

A viúva do Dr. Milagres, D. Ana Doroteia de Campos, reque- 
reu à direcção da Fábrica das Sedas, em 23 de Agosto de 1820, 
a pensão anual de 400^000 réis pelos serviços de seu marido, 
desde i de Julho de 1814 até 5 de Novembro de 1817, data 
em que morreu. Durante este tempo recebera 17.162^)1)300 réis e 
mais 987^727 réis referente aos utensílios de fabricação, tendo 
havido na fábrica um prejuízo total, com a sua louça, de 8.i74íií>673 



— 570 — 

réis. A matéria do requerimento da viúva do Dr. Milagres foi re- 
metida pela direcção à piedade de Sua Majestade. E Sua Majes- 
tade indeferiu o requerimento. Como se vc o parecer de PVan- 
cisco Coelho de Figueiredo tinha muitos opositores {Livro 929 de 
Representações c Consultas da Direcção da Fábrica da Seda, 
pág. 197 v.° a i«jg). 

Nota 6 
(Pág. i5o) 

Venda da Fábrica do Rato 

O terreno onde se construíra a Fábrica pertencia a esse tempo 
a um tal António Ribeiro dos Santos. Em 17S8 pagaram-se ainda 
quantias em dívida, por essa aquisição, aos seus herdeiros Ger- 
mano Ribeiro dos Santos e outros {Livro g2g de Representações 
e Consultas, pág. Sg v.» a 60 — Consulta de 14 de Abril de Í788). 

Nota 7 

Faianças do Rato 

— No convento de Santa Clara de Évora, havia uma terrina 
com o diâmetro de o",3i, de faiança imitando «china«, marcada 
com as letras D. V. R, i Seria do fabrico de Domingos Vandelli ? 

Esteve exposta em Londres na Exposição de Arte Ornamental 
Espanhola-Portuguesa, realizada, em 1881, no Museu Kensington. 

— No bric-a-brac «Armazém de Antiguidades» da rua de 
D. Pedro V, esteve há tempo à venda uma terrina, marcada T. B. R. 
O esmalte era amarelo-esverdeado, devia ser uma peça de ensaio. 

— Pratos com a figuração da estátua equestre, e de outras 
baixelas conhecidas como a da legenda na aba comparando o 
barro ao unicórnio, aparecem às vezes nas casas de antiguidades- 
Também não são excessivamente raros os pratos brazonados, a 
que na sua altura fiz referência, produzidos na Fábrica do Rato. 

Nota 8 
(Pág. 197 a 199) 

•Relógios portugueses 

Pertence ao sr. Dr. Álvaro Teixeira, um relógio que foi da 
f oiversidade de Coimbra, armado numa prancha de madeiras em- 



— Syi — 

butidas, com a legenda Sero-Sed. Serio, e a data Lisboa lyjS 
dentro de uma fita de pontas enroladas. 

Nota 9 

(Fág. 25i) 

Cemitério dos Prazeres 

A Revista Universal Lisbonense, dedica um artigo subscrito 
por Silva Túlio à reconciliação da ermida do Cemitério dos Pra- 
zeres (n.° 2, 8.° ano, 2." série de i6 de Novembro de 1848) reali- 
zada em I de Setembro de 1S48. A «reconciliação» foi feita pelo 
arcebispo de Mitilene, com assistência da Câmara Municipal e dos 
Ministros do Reino e da Justiça. Estava apenas assoalhada a er- 
mida, para servir enquanto a capela se não construía Houve missa 
de pontifical e, a seguir, um sermão ou, melhor, uma espécie 
de sermão, diz Silva Túlio. O pregador cujo nome se não men- 
ciona disse, entre outros dislates, que o Rei D. Manuel vencera os 
godos. Louvou a Câmara por ter aliciado os fiéis para aquele 
acto e concluiu com uma imagem formidável figurando a nação 
portuguesa, dentro da ermida, passando entre os vereadores a cho- 
rar, até se ir rojar no altar-mor a pedir um disparate qualquer. 



RETOQUES E ADITAMENTOS 
AOS VOLUMES ANTERIORES 



RETOQUES E ADITAMENTOS 
AO VOLUME PRIMEIRO 



O Terremoto de 1 755 

(Pág. 23) 

Depois de escrita a página referida em que se concluía que o 
cismo de 1755 ainda não estava estudado, saíram os magníficos 
trabalhos do falecido engenheiro e arqueólogo, Francisco Luiz 
Pereira de Sousa. O volume terceiro dessa obra, publicado pelos 
Serviços Geológicos, e que se intitula O Terremoto do primeiro 
de Novembro de iy55 em Portugal e um estudo demográfico, é 
trabalho capital. Saído em 1928, veio preencher essa lacuna sen- 
sível. 

A Cotovia 

(Pág. 52 a 61) 

Desde 19 16, data da saída a lume do primeiro volume desta 
obra, que me tem preocupado a origem da designação Cotovia. 
Por várias vezes se me sugerira a possibilidade de tal nome se 
filiar etimologicamente no termo Kotoubia significativo dos altos 
minaretes moiriscos. A povoação moira de baixo-Tejo, situada, 
porém, no outeiro, hoje do castelo, ao nascente da cidade mo- 
derna, longe das cumiadas dos Moinhos de Vento, deixava apenas 
para a explicação satisfatória dessa origem, a analogia do sítio 
acuminado da Cotovia com o alto minarete árabe. Datada de 19 
de Janeiro de 1924 recebi uma gentilíssima carta, subscrita pelo 
sr. Eduardo de La Torre Lisboa que, num francês elegante, me 
dava tal sugestão, citando um trecho de um artigo da Revue des 
Deux Mondes de i5 de Novembro de 1928, da autoria de Emile 
Mâle, intitulado Les injluences árabes dans l'art roman, em que se 
fazia referência à Kotoubia de Marrakech. Julgo tão possível a 
hipótese como aquela que apresentei a páginas 60 e 61 do citado 
primeiro volume desta obra. 



— 576 — 

Basílica Patriarcal 

(Pág. 81 e 82) 

No Gabinete Histórico de Frei Cláudio da Conceição (vol. vi, 
pág. /|04 e segs., e volume ix, pág. i83 e segs.) descrevem-se a 
entrada solene em Lisboa do primeiro Patriarca D. Tomaz de Al- 
meida e a separação e união das duas metrópoles, ocidental e 
oriental. 

Erário Novo 

(Pág. 1 14 a 1 15) 

O modelo de madeira do corpo central do edifício do Erário, 
está no Museu do Carmo, da Associação dos Arqueólogos Portu- 
gueses. 

A Patriarcal Queimada 

(Pág. 124 a i35) 

Da Sinopse, Annais e Arquivo municipais, algumas notas colhi 
relativas a este local. 

Havia ali em i838 um poço constantemente rodeado de en- 
tulhos que quási lhe escondiam o bocal de pedra. 

Em Maio de 1843, mandou-se fechar a casa da água onde se 
conservava a que tinha de repuxar no Passeio Público. 

Em Maio de i852, por ordem do Conde de Rio Maior, esta- 
va-se terraplanando o largo. A-pesar-disso a Junta Administra- 
tiva da Fazenda do Colégio dos Nobres continuava a vasar aqui o 
entulho das obras. A Câmara, em Setembro, protestou. De pouco 
lhe valiam os protestos. Em i856 estava ainda o largo cheio de 
montes de pedra. 

Em Setembro de i858, foi demarcado, pela Câmara, um ter- 
reno, para nele se armar o circo de uma companhia equestre. 

Não sei se tal circo, cuja instalação fora requerida ao Muni- 
cípio por Tomaz Price, chegou a funcionar e se se pode identi- 
ficar com o circo de cavalinhos da rua da Procissão de que fala 
Júlio César Machado. O que sei é que em 1839 ele desistiu do 
local, e a Câmara deu-lhe a escolher, para assentar o circo, o 
Campo de Santana ou o largo de Santo Bárbara. 

No princípio de iSSg ainda a Câmara tinha dúvidas acerca 
do direito de posse ao terreno do largo. 



- ^77 — 



Carlos Pezerat levantou uma planta do Pátio do Tejolo, Alto 
do Longo, etc, em Fevereiro desse ano. O projecto do poço feito 
pela Companhia das Aguas foi, nessa data, alterado. O reserva- 
tório que estava marcado no lado ocidental, junto da rua da Pro- 
cissão, passou para o centro do largo, projectando-se o actual 
tanque do repuxo. Foi isto em Agosto, e Carlos Pezerat e os 
engenheiros da Companhia das Águas levantaram a planta. 

O resto dos alicerces da Patriarcal e das Obras do Erário 
eram desfeitos a tiros de pólvora, pela Companhia das Aguas. 

Em Agosto de 1860, uma mulher que passava pela orla nas- 
cente do largo foi ferida por uma pedra projectada pelo tiro. A 
Câmara protestou contra o processo de destruição usado, e a 
Companhia mandou pôr uma defesa de vimes entrelaçados. 

Foi em Julho de 1860 que se começou a regularizar a praça 
para ficar o mais quadrada possível (sicj e para que o tanque 
ficasse bem ao meio. Regularizou-se também o alinhamento da 
rua do Jasmim e removeram-se vários montes de pedras para se 
poder plantar arvoredo. 

Em 1861 continuavam os trabalhos da Companhia das Águas. 
Desentulhou-se a galeria do poço central para a rua da Procis- 
são e fêz-se a obra das escadas sobre esta serventia. A planta da 
nova praça foi finalmente aprovada em sessão de 22 de Julho 
de 1861. 

Durante muito tempo esteve, em 1862, impedido o trânsito 
pela calçada do Moinho de Vento (rua de D. Pedro V) por causa 
das obras da Companhia das Águas e por ter abatido uma galeria 
subterrânea que por ali passava. 

A construção da muralha para a rua da Procissão, foi resol- 
vida em sessão de 9 de Dezembro de 1862. 

Em i863, alinharam-se vários prédios particulares em der- 
redor da praça, na rua do Jasmim, Abarracamento de Peniche, etc. 

Em i8ig tinha-se pensado fazer aqui um mercado, chegan- 
do-se a solicitar a autorização das Cortes; mas em 1840 apenas 
se resolveu que se fizesse no largo um dos mercados de porcos 
da capital. O outro era em Vale do Pereiro. 

Alto do Longo 

(Pág, i5o e i5i) 

— Houve aqui, há setenta ou oitenta anos, uma fábrica de 
fósforos que foi destruída por um incêndio. 

VOL. IV 37 



— 578 — 

— Manuel Vilas, vendia, neste local, em i833, uma traquitana 
(Anúncio da Crónica Constitucional de i833, pág. 54). 

— Nesse mesmo ano, e na mesma Crónica anuncia-se que 
aqui se vendiam, perto do Posto da Guarda da Patriarcal, púcaros 
com pomada superior parafa^er o cabelo preto (Número de 1 1 de 
Dezembro de i833) 

— No Livro de Óbitos da Freguesia das Mercês, em 20 de Ja- 
neiro de 1669 regista-se o óbito de Pedro Lomguo, na rua For- 
mosa. 

— Em 1860 o Alto do Longo era um foco de imundície. O 
Conselho de Saúde Pública oficiava em 17 de Fevereiro desse ano 
à Câmara, reclamando a necessidade da construção neste local de 
canos de despejo, por perigar a sanidade da capital com o estado 
em que o «Alto» se encontrava. 

Praça do Rio de Janeiro 

(Pág. 180 e 181) 

A casa que foi do capitalista Policarpo Pecquet Ferreira dos 
Anjos, é do risco do arquitecto-pintor Cinatti. Manuel Gomes de 
Carvalho e Silva, Tenente-General de Artilharia, Fidalgo da Casa 
Real, Cavaleiro de Cristo, Alcaide-Mor de Aveiro, Almoxarife dos 
Paços de Azeitão, Juiz das Coutadas da Serra da Arrábida, fale- 
ceu em I de Janeiro de 1755, sendo sepultado no convento das 
Francesinhas onde tinha duas filhas recolhidas {Gabinete Histó- 
rico, vol. XIII, pág. i), portanto o Tenente-General do mesmo nome 
que residiu no palácio que antecedeu a casa Ferreira dos Anjos, 
era outro, talvez filho do primeiro. O que não sofre dúvida é de 
que um Tenente-General Manuel Gomes de Carvalho e Silva ainda 
ali é dado como morador em 1780 {Róis dos Confessados da Fre- 
guesia de São Mamede). 

Este segundo Tenente-General Manuel Gomes de Carvalho 
era-o, como então se dizia, da Tenência, ou seja do Arsenal do 
Exército, como se disse depois. Foi um dos colaboradores de Bar- 
tolomeu da Costa nos progressos das fundições da artilharia e na 
perfeição do fabrico da pólvora. 

— Neste palacete, há algum tempo deshabitado, está agora 
(Setembro de igSS) a instalar-se a «Escola Superior Colonial». 



— ^79 — 

Rua da Procissão (i) 

(Pág. 187 a 190) 

A gente, às vezes, em Lisboa, ao passar por ruas banais, en- 
taladas entre prédios burgueses, sem uma nota de arte nem um 
pormenor garrido de arquitectura, mal suspeita quantas coisas 
interessantes se nos escondem dentro dessas edificações. Cruza-se 
uma rua, como a da Procissão, alinhada pela encosta desde a 
cumeada da velha Patriarcal até o bairro da jpraça das Flores, 
e nem sequer nos passa pela mente a possibilidade de, num da- 
queles prédios, haver com que distrair os olhos uma boa meia 
hora. Pois há, Aquela casa a que compete o número de polícia 
90, guarda dentro das suas paredes mestras uma surpresa. O 
aspecto nada diz: uma sobreloja, um andar nobre de sacadas e um 
outro pavimento, tendo cinco vãos de frente. Nos baixos, uma 
carvoaria e uma taberna. Havemos de confessar que os atractivos 
são pequenos; mas suba o leitor comigo ao pavimento nobre e 
terá com que pasmar. 



A frente da casa é ocupada por um salão a que correspondem 
quatro vãos, e por um gabinete. O salão pode denominar-se o 
Salão dos Poetas ; o gabinete, Gabinete da Rainha. A primeira 
quadra que está partida em três quartos por tabiques que che- 
gam à sanca, é decorada luxuosamente de estuques e pinturas. 
Estas são constituídas por seis medalhões, intervalados por mol- 
duras de estuque feitas à mão, onde deveriam existir placas de 
velas com espelhos gravados como era de uso na época. Os me- 
dalhões ovais, talvez de o^yS no maior diâmetro, contêm os re- 
tratos, a fresco, de Homero, Vergílio, Metastásio, Poppe, Voltaire 
e Camões. É uma galeria de poetas. Evidentemente são de obra 
de mais de um pincel. O retrato de Voltaire é muito razoável ; 
o de Metastásio é francamente mau. Camões é representado con- 
forme o retrato de Faria e Sousa : de armadura reluzente e coroa 
de loiros. Á pintura de alguns dos medalhões acha-se deterio- 
rada mas a restauração não deve ser complicada. O tecto desta 
sala, ainda em bom estado, é de um magnífico efeito decorativo. 



(i) Artigo do autor «A História de uma Casa» publicado no 
Diário da Tarde de 10 de Outubro de 1935. 



-580 — 

Ocupa o centro uma composição alegórica, num largo oval, figu- 
rando o carro de Apolo. Dir-se-ia, pela côr e pelo desenho, do 
pincel do fecundo Pedro Alexandrino de Carvalho. Em derredor 
vêem-se quatro medalhões acantoados, onde Cupidos róseos em- 
punham tubas, frautas pastoris e outros instrumentos músicos, 
agitam grinaldas, e desfecham setas dos arcos assassinos. Entre 
os medalhões intervaiam-se ornatos de estuque de rara elegância. 
O conjunto é admirável. 

O Gabinete da Rainha^ outra surpresa. O tecto é ornamen- 
tado por seis pinturas a fresco (paisagens, marinhas, torreões e 
ruínas) na superfície convexa que vai do friso ao plateaii central, 
relevado de finos estuques. Numa delas há uma sugestão da Torre 
de Belém. Decoram as paredes cinco medalhões do mesmo for- 
mato e tamanho dos que ornam o salão, três na parede do fundo 
e dois na que separa o gabinete do salão, ladeando a porta de pas- 
sagem. Daqueles o do meio, contém o retrato da Rainha D. Ma- 
ria I, e os laterais o do Príncipe regente (D. João VI) e o de 
outra princesa, talvez D. Mariana Vitória que veio a casar com o 
Infante D. Gabriel, de Espanha. Os que ladeiam a porta devem 
ser o Príncipe do Brasil D. José, e sua mulher e tia a Princesa 
D. Maria Benedita, fundadora do Asilo de Runa. Este gabinete 
é também um encanto de decoração. O retrato da Rainha é de 
pincel adestrado, sendo possível que os restantes medalhões 
pertençam à mesma autoria. 



^Mas como se explica esta riqueza de ornamentação naquele 
prediozinho banal da rua da Procissão ! ^Quem pintaria e deco- 
raria as duas salas? ^- A que idea obedeceu esse guarnecimento 
de retratos ovais, e essa apoteose aos grandes poetas mundiais 
que ali estão sob a protecção mitológica do carro de Apolo e dos 
Cupidos amorosos ? 

Ora aqui está uma pregunta de difícil resposta. Desde há 
muito que ouvia referir que naquele prédio morara a Princesa 
D. Maria Benedita. Uma tradição local asseverava mesmo que a 
piedosa fundadora do Asilo para Inválidos Militares tinha ali mor- 
rido. Nada, porém, até hoje se apurou, a não ser que a irmã de 
Maria I faleceu no Paço da Ajuda, com oitenta e três anos, em i8 
de Agosto de 1829, dois anos depois da inauguração da sua obra 
beneficente. Desde 1821, data em que voltou do Brasil não era 
possível ter ali residido. Só se foi anteriormente a 1807, data da 



- 58i — 

partida para o Rio de Janeiro, mas os almanaques do tempo, pelo 
menos de 1789 até esse ano, indicam como morador nesta casa o 
seu proprietário. 

Vejamos a história do prédio. Em 1783 a Junta de Fazenda 
do Colégio dos Nobres, por escritura de 25 de Fevereiro, aforou 
a um tal Aleixo Nicolau Scribot, um chão de terreno com uma 
barraca aqui neste local. Chamava-se então à rua, rua de S. João 
Baptista. Um mês depois, este Scribot que já em 1759 era pro- 
fessor de latim na Aula Régia estabelecida no Hospício do Santo 
Borja, onde depois foi o Colégio do Billingue, mais tarde um fila- 
tório de seda à milanesa, depois moradia do velho Castilho e a 
seguir o palacete do falecido Luiz Fernandes, vendeu — junta- 
mente com sua mulher D. Bernardina Teresa de Miranda — o ter- 
reno e a Barraca ao Dr. Manuel José Saturnino da Veiga, advo- 
gado em Lisboa. Foi este Veiga quem edificou o prédio e certa- 
mente quem mandou decorar interiormente, as duas salas, de 
estuques e pinturas. Por sua morte, herdou-o seu filho Vicente 
Toraaz Saturnino da Veiga que mais tarde o vendeu, com o do- 
mínio directo, a João Francisco da Cunha Bastos Gervis. Em 5 
de Julho de i853 foi à praça na Boa Hora, arrematando-o o conhe- 
cido engenheiro Mateus Valente do Couto Deniz. Por morte deste 
ficou, em meação, a sua mulher D. Luiza Cristina Pinto Valente, 
senhora que o vendeu em 1878 ao negociante Joaquim Nunes Gar- 
cia, também já falecido em 1893, ficando o prédio, como legado, 
a um seu sobrinho, Manuel Nunes Garcia que faleceu em 1905 sem 
chegar a tomar posse da propriedade. Herdou-o sua mãe D. Joana 
Nunes, sogra do negociante José Dias Sobral, e por morte dela,. 
em 14 de Maio de igiS, ficou aos filhos deste senhor aquém devo 
tão exactas informações. São os actuais proprietários. Os tabi- 
ques que dividem o Salão dos Poetas foram ali postos quando era 
inquilino da casa o Dr. Máximo Brou. Não há justificação que o 
salve do apodo de vândalo que lhe compete. 



A história da casa fica feita. O que é, por agora, difícil de 
apurar é a idea que presidiu à estranha decoração do seu andar 
nobre. Não sei de minúcias biográficas do Dr. Saturnino da Veiga. 
l Como não fa^em dano ás Musas os doutores, seria ele dotado de 
bens apolíneos que lhe sugerissem as pinturas do Salão ? i Expli- 
car-se-á por uma especial afeição à família reinante aquele con- 
gresso de príncipes e princesas no luxuoso gabinete ? 



— 582 — 

Fiquem as preguntas de pé. Do que eu estou absolutamente 
certo é de que ninguém suspeita, ao passar pela rua, da existên- 
cia, em efígie, naquele prédio, de seis poetas, dois príncipes, duas 
princesas, uma rainha, e de umJDeus mitológico que cruza o espaço 
no carro do Sol puxado por frisões. 

— A Revista Universal Lisbonense, no seu n." 3o, 8.° ano, de 3 1 
de Maio de 1849 refere um logro de que foram vítimas duas se- 
bastianistas, logro que se estendeu a muitos sectários do En- 
coberto. Foi o caso que duas mulheres moradoras desta rua 
estando a ouvir missa, convenceram-se de que ao pé delas estava 
o neto de D. João III. 

O pseudo-Encoberto que, pelo visto, era um intrujão de car- 
reira, aproveitou-se da imaginada parecença, e denunciou-se às 
criaturas como sendo o próprio rei. Nada mais foi preciso para 
que elas o hospedassem em casa e para a rua da Procissão pas- 
sasse a ter mais concorrência do que o Rossio em dia de festa. O 
«habilidoso» dava, diariamente, beija-mão aos crédulos. O pior 
foi que a notícia de D. Sebastião estar hospedado na rua da Pro- 
cissão, começou a fazer eco demasiado. Os estudantes intervie- 
ram com embaixadas galhofeiras ao vencido de Alcácer-Quibir, e 
a polícia acabou por intervir no caso. 

O falso Encoberto conseguiu, porém, escapulir-se prometendo 
à sua corte que se ia tornar invisível. E não faltou à promessa. 
Ninguém mais o viu. 

Os bens do Colégio dos Nobres 

(Pág. 281 a 283) 

Os prédios que o Colégio dos Nobres possuía no sítio da Es- 
perança e que tinham sido da casa de Aveiro, doados à instituição, 
pelo Marquês de Pombal, foram, em 186 1, vendidos pelo Governo 
à Câmara Municipal pela quantia de 4.845^600 réis, autorizado 
isto por carta de lei de 10 de Setembro desse ano. Os prédios 
eram no largo da Esperança, rua da Silva, beco do Guerra, cal- 
çada do Marquês de Abrantes e travessa de Santo António. A 
Câmara demoliu-os seguidamente para descongestionar o local 
{Arquivo Municipal de Lisboa, ano de 186 1). 



— 583 — 

Rua da Escola Politécnica 

(Pág. 38 1 e 382) 

Foi o edital de i de Setembro de 1859 que deu a denomina- 
ção de rua da Escola Politécnica à rua do Colégio dos Nobres e 
à rua da Fábrica da Seda, englobando-as naquele único nome. 

Imprensa Nacional 

(Pág. 445) 

Para a história dos progressos deste estabelecimento do Es- 
tado, devem ver os curiosos a interessante carta do Administra- 
dor Firmo Pereira Marrecos sobre o estado actual da Imprensa 
Nacional, publicada no n.° i5 do ano de 1846 na Revista Univer- 
sal Lisbonense, e datada de 24 de Agosto desse ano. 

Travessa de S. Marçal 

(Pág. 192 a 198) 

O palacete que foi do saudoso Luiz Fernandes, morto de um 
desastre em Paris, um dos mais belos e generosos espíritos que o 
Brasil deu a Portugal, conhecido, dado o seu prestígio de capita- 
lista, pelo «Menino de Oiro», |foi vendido, pouco depois, pelos 
seus herdeiros, dizem que por mil contos. O famigerado Alves 
Reis, nos tempos fartos do «Angola e Metrópolew, adquiriu-o por 
seu turno aos compradores. 

Quando da descoberta da burla, voltou às mãos dos leiloeiros 
e foi o Banco de Portugal que ficou com ele, pela quantia de qui- 
nhentos contos. 

O Governo pensou em instalar ali o Ministério de Instrução 
e chegou até a comunicá-lo à Comissão Liquidatária do Banco 
Angola e Metrópole. Veio no Diário o respectivo decreto (o 
n." 14.511 de 3i de Outubro de 1923), mas desistiu-se da idea. O 
Ministério da Instrução foi para o Campo dos Mártires da Pátria 
para o palácio que fora do Dr. Silva Amado, mais vasto e mais 
acomodado. Foi este palacete da travessa de S.Marçal comprado 
nos primeiros dias de Dezembro de 1923. Nesta residência foram 
apreendidos alguns dos massos de notas falsas de 5oo^oo. Visi- 
tei-a por ocasião dos leilões. É triste. As decorações escuras 



- 584- 

davam-lhe um ar soturno, a-pesar-das quatro frentes e do jardim 
envolvente. Era aqui, numa das salas, que Luiz Fernandes tinha 
a sua preciosa colecção de chícaras, legada ao Museu de Arte 
Antiga e que agora o enriquece, enchendo uma das salas do rez- 
-do-cháo do antigo palácio da Imperatriz. 

No último dia de Novembro do mesmo ano de igzS, reali- 
zou-se a ceremónia do descerramento da placa que mudou em 
«rua Luiz Fernandes» a «travessa de S. Marçal». A placa é de 
bronze e foi mandada executar por um grupo de amigos de Luiz 
Fernandes. O desenho foi de Raul Lino e a fundição de Teixeira 
Lopes. Esteve a Câmara representada e numerosos amigos do 
mono compareceram, tendo discursado, após o descerramento da 
placa pelo sr. Henrique de Holanda, cônsul do Brasil, os srs. Ma- 
nuel Emídio da Silva em nome dos ofertantes, Dr. Luiz Mesquita 
de Barros em nome do herdeiro de Luiz Fernandes e Dr. Daniel 
Rodrigues em nome da Câmara Municipal. O «auto» respectivo, 
que estava encerrado numa pasta de veludo com lavores de prata, 
foi assinado por todos os presentes. 



RETOQUES E ADITAMENTOS 
AO VOLUME SEGUNDO 

Praça de S. Bento 

(Pág. 68 a 72) 

Em 1926 o Município enfrentou energicamente, e a sério, a 
questão dos mercados. A Praça da Figueira, insuficiente perante 
a expansão cidadã, gerara uma série de abarracamentos e amon- 
toados de tábuas e zincos, em vários pontos, que se condecoravam 
com o pomposo nome de Mercados de Abastecimento. 

O principal deles era o de 24 de Julho de que todos nos lem- 
bramos sem saudades. 

Em Outubro desse ano começavam a demolir-se esse e o de 
S. Bento cujo destino tinha sido desvirtuado e se resumia a uma 
sucursal da Feira da Ladra. A-pesar-de todos os protestos, indi- 
vidualmente justos mas colectivamente sem força convincente, os 
proprietários dos lugares de ferro-velho tiveram que abandoná-lo. 

Em 2 de Novembro caía, a golpes de machado, a grande pal- 
meira central. Houve alguns renitentes. De nada, porém, lhes va- 



(584 a) 



0^\NJ0 CrSTODIO DO Hkixo 

E.xtri-tuiiiaiiito H»; Poi-mg»! â Águia dr Napiili-ío cí tropa TiAureza 




\'l( TDÍil A \i,C \N (■ \ I) \ THI.AS A(tM.\vS HfilTAXICA 

ri (;í 1':/\>' m) sitio dd ^'l^i !•. í hu cd.v iií \ ().sím;aví 



O Painel das Lumiiiáiias, em iSo8, no Seminário dos Meninos Órfãos 
da Rua de S. Bento 



— 585 — 

leu a teima. Na manhã de 4, os bombeiros arrazaram-lhes as lo- 
candas e o |recheio^foi posto na rua. Entre ele estava um altar 
de talha doirada que havia sido comprado no leilão do convento 
de Santa Joana, Os negociantes de antiguidades Nobre & C* L.*** 
transferiram para uns armazéns, fronteiros ao mercado, tudo 
quanto lhes enchia as barracas. 

O sítio é bom para os antiquários. Na rua de S. Bento con- 
tam-se ainda hoje seis bric-a-bracs, sem contar com o estabeleci- 
mento de venda e restauro de estampas do João Santos que fica 
acima da rua da Imprensa, do lado do nascente. 

O mercado de S. Bento serve hoje, exclusivamente, para venda 
de géneros alimentícios, e já nada faz lembrar o antigo pandemó- 
nio onde pontificava o Mano João de cuja ciência bibliográfica 
contei ao leitor. 

Rua de S- Bento 

Há que aditar alguma coisa ao que escrevi sobre esta rua. 

— Para a abertura da Avenida Pedro Álvares Cabral, ou me- 
lhor para o seu alargamento, começou a ser demolido em 14 de 
Abril de ig3o o «Teatro Joaquim de Almeida» cuja vida foi tão 
curta como a das rosas de Malherbe. O barracão de madeira, de 
palco triangular, que foi o sonho do actor Casimiro Tristão, agora 
em Cabo Verde fugido ao desabar da sua vida de artista teatral, 
desapareceu. No bocadinho de terreno que ficou livre para cons- 
trução está-se agora erguendo um prediozinho banal (Março de 
1933). O Teatro tinha sido inaugurado em 7 de Maio de 1925 com 
a peça A Severa de Júlio Dantas. 

— A edificação onde esteve um Cinema que figurava uma car- 
ruagem de caminho de ferro, com bulha de rodados, porteiros a 
fingir de revisores e tudo o mais que se julgou preciso para atrair 
o público, está hoje transformada num stand de automóveis (porta 
n.° 684) e numa igreja evangélica (porta n.» 636). 

— Latino Coelho morou num segundo andar desta rua. Di-lo 
Pinto de Carvalho, na sua saborosa prosa, num artigo do Brasil- 
-Portugal. 

— Estou convencido de que a casa onde esteve o Seminário 
do Padre Carvalho é aquela que foi depois dos Almeidas Araújos 
e Falcarreiras e veio a pertencer, mais recentemente, à família 



— 586 — 

Mayer. Anda agora anunciada para venda. Tem largo jardim 
atinente na parte posterior, e destaca-se na rua, entre o Rato e a 
embocadura da rua do Arco, pelos vidros convexos das suas ja- 
nelas. 

O Seminário da Caridade dos Órfãos festejou, como se disse, 
a restauração do reino em 1808, pondo na sua fachada um painel 
de luminárias onde o seminarista Manuel António pintou a ba- 
talha do Vimeiro. As luzes cercavam a composição do aluno do 
Padre Carvalho que assentava sobre a porta da igreja. Outro painel 
do mesmo via-se no mais alto da janela do coro. Era mais pe- 
queno e representava o Tribunal da Regência com os seus mem- 
bros sentados e por cima as armas reais. Por baixo, lia-se : Re- 
gência. Por cima, lia-se: 5Mrre.n7. Reproduz-se aqui o primeiro 
painel que foi ideado pelo Padre António Luiz de Carvalho, dese- 
nhado por Francisco de Paula e gravado por João Cardini, e que 
se encontra ilustrando e documentando o folheto in-folio com- 
posto na Impressão Régia (sem data) que se intitula : Prospecto 
do Painel das Luminárias que se pu^erão na frente da igreja do 
Seminário da Caridade dos Órfãos da Rua de S. Bento da Cidade 
de Lisboa, pela felij restauração deste Reino : no qual se repre- 
senta a Batalha do Vimeiro^ e o Anjo Custodio do Reino, exter- 
minando com espada de fogo \a Águia de Napoleão, e a Tropa 
Francesa, no ano de 1808. 

— Foi o edital de i de Setembro de iSSg, e não 8 de Setem- 
bro, como disse a pág. 112 (nota i), do, então, Governador Civil 
Alberto António de Morais Carvalho, que estendeu à antiga rua 
da Flor da Murta a designação de rua de S. Bento. Esse mesmo 
edital mudou em «beco de Santa Quitéria» o antigo «beco dos 
Mortos», nesta travessa que desemboca em S. Bento. 

— A antiga casa onde moraram os Galveias e o poeta Cor- 
reia Garção, à esquina da rua de Santo Amaro para S. Bento, 
hoje propriedade da familia Vilhena, foi recentemente restaurada 
sob a direcção do arquitecto Tertuliano de Lacerda Marques. 

— Em i852 é que se projectou a obra de calcetamento da rua 
de S. Bento e foi aprovada a proposta do Visconde da Fonte Ar- 
cada para se construir a cortina com rampa do largo das Cortes 
para a rua. Também, nesse ano, o proprietário Faustino da Gama 
ofereceu ao Município as minas da antiga cerca de S. Bento para 
lançar os sobejos dos tanques do Passeio da Estrela. 



— 587 — 

Rua do Arco (S. Mamede) 

(Pág. 114) 

Em 9 de Dezembro de igSo escreveu-me um anónimo obse- 
quioso; 

a. .. Diz V. Ex.* tratando de um quintal que pertencera ao 
Páteo do Gil na rua de S. Bento que não sabia como essa terra 
fora para a familia Apleton : a-pesar-de ser cousa de quási nula 
importância informa-se que Daniel Apleton em 187. . . casou com 
Maria de Jesus Marques a qual herdou o Páteo do Gil e anexos 
de sua tia e madrinha Eustáquia Marques, moradora na antiga 
Travessa do Pombal e filha do arrematante desses bens de Antó- 
nio Rodrigues Gil. 

a 

«Apleton é o apelido de uma nobre família católica irlandesa 
da qual um membro emigrou para Portugal no século xvii, fu- 
gindo à perseguição religiosa e dedicando-se ao comércio». 

Os Jardins Daupiás já não existem. A sr.» Viscondessa de 
Assentiz, filha do falecido floricultor Frederico Daupiás vendeu a 
propriedade. O prédio (tipo chalet) denominado Mon Repôs, per- 
tence hoje ao sr. Alfredo Anjos (P^ontalva). 

Parte do terreno foi vendido a outrem, construindo-se ali um 
prédio de rendimento (igSi) que prejudicou, por sinal, o cenográ- 
fico panorama que se avistava do topo da rua. ; Foi pena ! Os 
panoramas pertencem a todos. É um roubo que se faz à proprie- 
dade colectiva. 

(Pág. 143 a 145) 

Era aqui na rua do Arco o Teatro do Timbre onde Taborda 
representou aí por 1840 a 1842 a peça O Holandês ou pague o mal 
que não fê^. João José da Mota, tipógrafo, dono de um barracão 
à Trindade que era uma espécie de circo de cavalinhos, e que 
ele depois transformou, associado com Manuel Machado, no que 
foi o Teatro do Ginásio Dramático, convidou o saudoso artista 
que vira representar no teatrinho particular da rua do Arco, a 
inaugurar a nova Casa de Espectáculos. 

Tal inauguração foi em 16 de Maio de 1846 com a peça Pa- 
quita ou os fabricantes de moeda Jalsa. Taborda era então apren- 
diz de tipógrafo. 



— 588 — 

Em Janeiro de 1842, representaram e cantaram amadores por- 
tugueses, neste teatrinho a «Luccia de Lamermoor. 

Costa Cascais faz crítica elogiosa no número da Revista Uni- 
versal Lisbonense de i3 de Janeiro desse ano, citando os can- 
tores srs. TôrreSj Figueiredo e Lima, e o maestro regente da or- 
questra sr. Justino José Pinto. Depois da ópera houvera um baile. 

Na mesma revista, em Janeiro de 1843, noticia-se que a So- 
ciedade de Curiosos que explorava o Timbre ia melhorar e de- 
senvolver-se, alterando os estatutos e diligenciando que os papéis 
de damas só por damas fossem desempenhados. O director do 
grupo era Justino José Pinto. Para Fevereiro anunciava-se uma 
representação onde os homens fariam, pela última vez, os papéis 
de mulheres. 

Rua Nova de Santo António 

(Pág. 145 a 148) 

O académico sr. António Ferrão, no seu excelente livro A 
Primeira Invasão Francesa, publicado em 1925 diz a pág. cclvi» 
noticiando, devidamente seriados, os assaltos feitos pelos soldados 
de Junot a várias residências lisboetas ; 

«A I de Março outros franceses entraram à força no n.» 17 
da rua de Santo António da Cotovia e procuraram forçar as filhas 
dos donos da casa, cometendo outras violências, ferindo os guardas 
da polícia que acudiram, e matando à estocada um criado do 
antigo presidente do Real Erário, Luiz de Vasconcelos». 

Consultando os Róis dos Confessados da Freguesia de S. Ma- 
mede, dos anos de 1807 e 1808 entendo que a família assaltada 
devia de ser a de um tal Caetano Pereira que ali vivia com sua 
mulher Ana Maria e suas filhas Isabel Egídia e Petronilla Rosa e 
uma hóspeda Ana Águeda, a que o Rol dá Dom ; ou então a de 
Joaquina Tomásia que vivia com sua irmã Joana Teresa le suas 
filhas Maria do Carmo e Herculana do Carmo. 

— O muro que tapava o topo norte desta rua, onde se fizera 
uma das entradas da Floresta Egípcia, já não existe. Foi demo- 
lido em 193 1 e a rua avançou mais uns metros ílectindo para o 
Norte. No novo troço aberto ha três prédios concluídos e um em 
construção. Dos primeiros um é pertença do escultor João Silva^ 
artista de primeira fila, modelador animalista, admirável, que 



-589- 

ali tem agora a sua oficina de milagres; outro é do sr. Pedro de 
Brito do Rio que o construiu para sua residência. 

Palácio Alagôa 

(Pág. i6o a i66) 

Em 24 de Juniio de 1918 visitei a parte dGste palácio a que 
pertencia a capela e que tinha sido propriedade e moradia do 
sr. Dr. Magalhães Barros. Comprara-a e reformara-a. Nessa oca- 
sião vendia-se, em leilão, casa e recheio. Vi alguns tectos de estu- 
ques antigos, apreciáveis, rodapés de azulejos e pouco mais. Entre 
os azulejos notei alguns verdes, marmoreados, da Fábrica do Rato, 
guarnecendo uma das salas. A casa foi então vendida, ouvi dizer 
que por quatrocentos e cinquenta contos, ao sr. Visconde de Sa- 
cavém (José) que faleceu pouco depois. 

A capela aparte o painel do altar-mor de António Machado 
Sapeiro, onde se figura Nossa Senhora da Conceição, tem numa 
das paredes uma má pintura do século xvui em tela, com moldura 
recortada, que era o estandarte de Nossa Senhora Mãe dos Ho- 
mens. Na parte inferior li o seguinte letreiro : 

ESTE ESTENDARTE HE DA VIRQEM MARIA MAY DOS HOMENS 
DO CONVENTO DE XABREGAS DA ORDEM DO S. P. S. FRAN- 
CISCO PRIMEIRA IMAGEM QUE TEVE ESTE TITULO QUE MAN- 
DOU FAZER O S. REY D. JOÃO V. 



Sem querer, ao fixar esta legenda, vem logo à nossa ideia 
Frei João de Nossa Senhora, o gordo poeta de Xabregas que pos- 
sivelmente teria empunhado este curioso estendarte. 

O teto da capela é de estuque antigo. Tem um rodapé alto 
de azulejos do Rato (século xix), uma Virgem das Dores, imagem 
de roca, de tamanho natural, um Cristo antigo de marfim, crucifi- 
cado numa cruz com contas e remates de prata, feita recente- 
mente, no ourives Reis, do Porto, e alguns quadros. 

Voltei a visitar a capela e parte do palácio onde ora reside o 
sr. engenheiro Gabriel Ramires dos Reis e sua esposa, filha do 
grande poeta e diplomata Alberto de Oliveira, a convite deste 
senhor. O estandarte de Nossa Senhora Mãe dos Homens e o 
Cristo de marfim, já lá não estão. Foram vendidos quando do lei- 
lão, assim como os quadros a que me referi. 



— bqo ^— 

O que vi a mais nesta visita que a gentileza dos donos da casa 
tornou agradabilíssima, foi uma guarnição (silhar) de azulejos 
holandeses, num dos quartos interiores. Esses azulejos que me 
parece não serem da primitiva do palácio, mas sim ali postos por 
algum inquilino de bom gosto, como o que agora coube ern sorte 
à casa, são do tipo antigo, comum, com o desenho figurado, de 
assuntos bíblicos e naturalistas, inscrito num círculo. 

S. Mamede-o-Velho 

(Pág. i8o a 182) 

A pág. 342 do manuscrito 1.069 do «Fundo Geral» da Biblio- 
teca Nacional, existe, transcrito, o documento da instituição do 
morgado dos Manuéis. em S. Mamede-o-Velho. 

Igreja Paroquial de S. Mamede 

(Pág. 214 a2i5) 

O n.° 35 da Revista Universal Lisbonense de 1844 dá conta do 
seguinte episódio ocorrido neste templo : 

«Segunda-feira de Paschoa ocorreu na parochial egreja de 
São Mamede d'esta cidade um sucesso, que poz todo o povo, ahi 
reunido para a missa, em reboliço, e as mulheres em precipitada 
fuga : — eram septe horas da manhã. Um homem que se acabava 
de confessar, parecia engolfado na oração, levanta-se clamando : 
— não ! não hei-de ir para o inferno ! . . . não hei-de — e principia 
a rasgar e despir o fato com uma fúria verdadeiramente de alie- 
nado. Procuram cohibi-lo e apoderar-se d'elle ; foge espavorido 
e gritando; vai lançar-se por uma escada de mão acima; segu- 
ram-n'o — está phrenetico ; amarram-n'o; cobrem-n'o com uma 
manta, e levam-n'o para o hospital, não se lhe percebendo mais 
vozes do que um porfiado pedir de confissão. 

«Este infeliz, segundo se conta, era o comprador ou copeiro 
de certa casa titular». 

Este trecho de jornalismo é típico. A ortografia, a pontua- 
ção, a redacção, são bem de 1844, 



— Sgi — 

(Pág. 214) 

S. Mamede fêz-se com esmolas de dinheiro, esmolas de ma 
terial, e «benefícios» no Passeio Público, como se disse no seu 
lugar, os quais se deram nos anos de 1860 e 1861. 

De um apontamento dado em tempos peio falecido investi- 
gador sr. Joaquim Rasteiro, meu consócio da Associação dos 
Arqueólogos, consta, pela sua letra clara, que as pedras que ornam 
a custódia de prata doirada deste templo eram de umas fivelas 
que pertenceram ao Conde da Lousã. A cruz que encima o fron- 
tão, é a da demolida igreja de Santo André. Foi cedida pela Câ- 
mara Municipal em i856, como consta dos Annais, tão citados. 

O novo templo foi solenemente inaugurado em 24 de Feve- 
reiro de 1924. Arquivo aqui duas notícias sobre esse aconteci- 
mento. 

Do Diário de Noticias de 1 924 : 

A sagração da igreja de S. Mamede 

Realizou-se, ontem, a reabertura ao culto da igreja de S. Ma- 
mede, tendo a ceremónia revestido grande imponência. As 10 
horas e meia chegou o sr. Cardial Patriarca, que era acompanhado 
pelos cónegos srs. Santos, Rêgo e Pontes e beneficiados Rocha, 
Cabrita e pelo sr. Dr. Henrique Cisneiros Ferreira. Sua Eminên- 
cia dirigiu-se à casa da Junta da Freguesia, onde se esteve para- 
mentando, procedendo, depois, à bênção exterior do templo, que" 
foi seguida de todas as cerimónias litúrgicas. Pouco depois, o 
Santíssimo, que se encontrava na Casa do Despacho, foi transfe- 
rido para a capela-mor do templo. Os altares, que até ali se en- 
contravam desertos, foram ornamentados por vários grupos de 
senhoras, destapadas as imagens, que se encontravam veladas, e 
acesas as velas de cera, deixando a igreja de ser iluminada a luz 
eléctrica. 

No interior do templo haviam sido colocadas cento e cin- 
quenta cadeiras destinadas aos membros das irmandades dos SS. 
de S. Mamede e da capela de Monserraté e alunos do Colégio 
dos Inglesinhos. 

Seguiu-se a execução da missa de Bordesi por orquestra e 
vozes, sob a regência do professor sr. Fernando Cabral, tendo as 
despesas, feitas com a orquestra e cinquenta professores de canto, 



— bgi — 

corrido a cargo do sr. Conde de Fontalva. Ao Evangelho pre- 
gou o sr. Cónego Pontes. 

Toda a cera foi fornecida pela sr." D. Tomásia Garrido. 

Foi, depois, cantado o Te-Deum pelo prior José Maria da 
Silva Livramento, acolitado pelo prior da Encarnação e pelo coa- 
djutor da freguesia de Santa Isabel, servindo de mestre de cere- 
mónias Monsenhor Càncio, coadjutor de S. Mamede. Seguida- 
mente, o reverendo prior de S. Mamede fez uma brilhante alo- 
cução, patenteando o seu reconhecimento por todas as pessoas 
que o auxiliaram na obra de reconstrução do templo. Um grupo 
de catorze senhoras da freguesia, trazendo o emblema do Apos- 
tolado da Oração, andou angariando donativos para a conclusão 
das obras, tendo a quantia atingido cerca de dois contos. 

Como constasse que alguns elementos avançados, no regresso 
do projectado comício contra a carestia da vida, iriam ali empa- 
nar o brilho daquela festa com algum desacato, o comandante da 
polícia dirigiu-se para ali, sendo o serviço de manutenção da or- 
dem feito escrupulosamente por guardas da esquadra do Rato, 
não havendo a registar o menor incidente desagradável. 

Do jornal A Vo^ de 25 de Fevereiro de 1924: 

O Prior 

Eis a bela poesia em que a ilustre poetisa sr.» D. Branca Co- 
laço pôs em contraste as angústias do venerando Prior perante 
o espectáculo do incêndio e o júbilo de ver o seu templo restau- 
rado : 

Quando o furor das chamas alterosas 
tomava o Templo, em trágicos arrancos, 
quis a Hóstia salvar, com mãos piedosas; 
e a luz das labaredas pavorosas 
avermelhava os seus cabelos brancos. . . 

Hoje, ao doce calor de horas tão belas, 
espelha-se a alegria em risos francos : 
e cm torno do Prior, a luz das velas, 
é uma poeira de rútilas estrelas 
doirando suave os seus cabelos brancos... 

Branca de Gonta Colaço. 

Todos quantos visitaram o templo restaurado ficaram encan- 
tados com o seu aspecto. 

O trono do altar-mor foi substituído por um formoso retá- 
bulo do ilustre pintor Conceição e Silva, de luz suave e mística e 



-593- 

de um colorido que nos faz lembrar a arte de Tiepolo, Repre- 
senta-se nele a alma de S. Mamede aureolada pelo martírio e le- 
vada para Deus pelos anjos. 

Em lindos azulejos de tom suave são representados dife- 
rentes passos da vida do Santo Padroeiro. Em catorze painéis de 
azulejos de estilo do século xviii vemos as citações da via-sacra. 

O teto é um belo trabalho de estuque e de pintura. Merecem 
especial menção os magníficos vitrais de Ricardo Leone de uma 
bela tonalidade e de cristã inspiração no desenho, representativos 
do Calvário e de quatro doutores da Igreja. 

Eis as inscrições que se lêem perto do guarda-vento : 

ESTA IGREJA INAUGURADA EM XVIII DE AGOSTO DE MDCCLXI 
DEVORADA POR UM INCÊNDIO NA MADRUGADA DE XXVI DE MAIO 
DE MCMXXI FOI RECONSTRUÍDA POR SUBSCRIÇÃO PUBLICA NOS 
ANOS DE MCMXXI E MCMXXII. ARQUITECTO RAUL MARTINS, DI- 
RECTOR DOS TRABALHOS, CONSTRUTOR CIVIL ANTÓNIO JOSÉ 
CATALÃO. 

A outia diz : 

A RECONSTRUÇÃO DESTE TEMPLO FEITA APOZ O INCÊNDIO FOI 
DEVIDA Á INICIATIVA DE tJMA COMISSÃO DE PAROQUIANOS QUE 
TbVE POR PRESIDENTE d'hONRA SUA EMINÊNCIA O SENHOR 
CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA D. ANTÓNIO MENDES BELO 
SENDO PRIOR DA FREGUESIA O REV.° JOSÉ MARIA DA SILVA 
LIVRAMENTO QUE DA REFERIDA COMISSÃO FAZIA PARTE — 
MCMXXII. 

A fundação da igreja remonta de 1220. Foi destruída pelo 
terremoto de 1755. 

Só em 1801 se abriu ao culto novo templo. 

Aos srs. Duques de Palmela, Dr. Cisneiros Ferreira, José Luiz 
Monteiro, arquitecto, conselheiro António Vasconcelos Porto, 
Fernando de Oliveira Belo, arquitecto Raul Martins, pintor de 
vitrais Ricardo Leone, mestre de obras Catalão se deve especial 
menção. Se fôssemos enumerar quantos bem mereceram pela 
coooperação nessa obra de fé ! 

Seja-nos lícito mencionar ao menos uma ilustre e virtuosa 
senhora : D. Joana Hintze Ribeiro que se fez mendiga para a obra 
de Deus com a maior perseverança e dedicação. 

Além da cerimónia a que se refere o nosso artigo de fundo, 
houve de tarde solene Te-Deum e Bênção do Santíssimo. 
voL. IV 38 



— 594- 

— A capela de Nossa Senhora de Fátima foi aberta ao culto 
em i3 de Outubro de 1932. 

Transcrevo a notícia saída no Diário de Noticias de 12. A 
capela fora inaugurada em i3 de Maio de 1927: 

• A capela de Nossa Senhora de Fátijna na igreja 
de S. Mamede 

Na igreja de S. Mamede, em Lisboa, reabre amanhã ao culto 
de Nossa Senhora de Fátima, a capela que lhe foi consagrada» 
agora enriquecida com os painéis de azulejos representando os 
santos portugueses. 

Entre esses santos figura Nuno Alvares Pereira, cuja venera- 
ção anda intimamente ligada à de Nossa Senhora de Fátima, por 
ter sido nos mesmos terrenos da Cova da Iria, onde a Virgem tem 
agora o seu santuário, que, segundo a tradição, o vencedor de 
Aljubarrota, nas vésperas da grande batalha, impetrou aos céus 
protecção para a nossa Pátria. 

O culto de Nossa Senhora de Fátima, assim concebido, pre- 
tende, pois, ter um carácter de culto religioso nacionalista, à fei- 
ção de Nuno Alvares, o primeiro que entre nós sentiu a noção 
exacta da Pátria, pela qual se bateu, vencendo o preceito até 
então existente de que o território nacional era pertença pessoal 
e dinástica dos soberanos. 

Os santos portugueses, pintados em azulejo pelo distinto ar- 
tista António Conceição e Silva e cuja realização se deve em 
grande parte aos esforços do zeloso pároco da freguesia, Monse- 
nhor Freitas Barros, são os seguintes : 

S. Teotónio — Grão Prior de Santa Cruz, confessor, confi- 
dente e amigo dilecto de Afonso Henriques, abençoando as tro- 
pas portuguesas e o seu chefe antes do combate. 

Santa Mafalda — Filha de Sancho I, ajustada esposa do Rei 
de Castela, Henrique I, que por morte inesperada deste recolheu 
ao reino e professou no convento de Arouca, onde se celebrizou 
pelas suas virtudes, assim como noutros que também fundou. 

Santa Sancha — Filha do mesmo Rei, fundou o convento de 
Gelas e foi a protectora dos franciscanos, cuja ordem acabava de 
se formar. Gedeu-lhes o seu Paço, em Alenquer, de onde saíram 
os cinco primeiros missionários de Marrocos, e que lá acabaram 
mártires. 

Santo António de Lisboa — O taumaturgo português e um dos 
maiores santos da cristandade, no momento de embarcar para a 



- 595 - 

evangelização marroquino, e como que a ensinar-nos o caminho 
do nosso Império de Além-Mar. 

Nuno Alvares — Em Aljubarrota afastando-se dos seus com- 
panheiros, recolhe-se em oração a Nossa Senhora e implora-lhe 
a vitória para os portugueses. 

Santa Joana — A nobre filha de Afonso V, aos iS anos re- 
gente do reino, na ausência do pai e do irmão, empenhados na 
conquista de Arzila e Tânger, com tanta prudência e justiça pro- 
cedia que era a admiração dos grandes da corte. Nas suas ora- 
ções pedia com grande fervor o auxílio divino para o bom êxito 
das armas portuguesas, e teve a visão da vitória. No regresso, e 
tendo já recusado três coroas, qual. delas a mais nobre, alcançou 
não sem custo, do pai e do irmão, que a idolatravam, autorização 
para professar no convento de Aveiro. 

S. João de Deus. — Em Granada, onde exerceu o apostolado, 
por tal forma se celebrizou pela sua caridade para com os po- 
bres que um hospital por êle fundado se tornou em poucos anos, 
pelo seu zelo, o primeiro da Europa, e foi origem dessa famosa 
Congregação dos Irmãos Hospitaleiros a quem a indigência tanto 
deve. Os painéis honram o pincel do sr. Conceição e Silva. A 
forma como êle se desempenhou deste trabalho ressalta à vista 
de quem os contempla. Quer na sua composição, quer na sua 
execução, foi perfeito. Na primeira há o estudo consciencioso 
dos quadros em todos os seus pormenores, a-fim-de correspon- 
derem à verdade histórica, e na segunda nota-se o conhecimento 
completo da técnica dos nossos passados artistas, com uma maior 
correcção no desenho das figuras, sem lhes tirar a leveza dos 
antigos. 

A capela de Nossa Senhora de Fátima estará patente desde 
as 8 horas. 

— Da parte crítica deste noticiário transcrito aconselho o lei- 
tor a não se fiar demasiadamente. A lembrança do noticiarista 
em citar Tiépolo, a propósito do novo retábulo do templo, é de 
uma extravagância ilimitada. Por outro lado as anotações aos 
painéis de azulejo da capela de Nossa Senhora de Fátima, feitas 
no segundo artigo, são de uma fantasia nacionalista demasiada- 
mente exuberante, indo a ponto de se querer firmar uma tradi- 
ção que nem sequer existe. ; \ \ Nuno Alvares a rezar na Cova da 
Iria, é de uma politiquice abominável, só comparável à intenção 
de Santo António mostrando aos portugueses o Império de Alem- 
-Marl ! 1 1 



- 596 - 

— A estátua de pedra, que Castilho dizia ser de ctn^el ale- 
mão e que para este templo veio da igreja de S. João Nepomo- 
ceno, está assinada e é italiana. Na parte anterior do soco, lê-se 
o seguinte : Pietro Martire Santvs di Milano. 

A estátua está hoje no corredor que vai da nave para a sa- 
cristia, cartório, e capela de Nossa Senhora de Fátima. Com a 
mudança, depois do incêndio, ficou à vista a assinatura. 



Travessa de S. Mamede 

(Pág. 247 a 248) 

Em Setembro de igSo começaram os trabalhos do alarga- 
mento e novo alinhamento desta serventia. O corpo da igreja 
que tornejava para ela e onde era o cartório, a sacristia e a re- 
sidência paroquial, foi demolido, passando tais serviços para o 
outro corpo do edifício do lado oposto confinante com a proprie- 
dade dos herdeiros do falecido Conde de Fontalva. Foi este titu- 
lar quem cedeu à Câmara a faixa de terreno necessária para o 
alargamento. Esta construiu o muro de suporte e vedação e pa- 
vimentou o novo leito da rua, onde se assentou uma segunda 
linha de eléctricos. O bairro ficou assim melhorado na sua liga- 
ção com o de Barata Salgueiro. Já em iSSg se pensara, com me- 
nos exigências, em facilitar o acesso entre S. Mamede e Andaluz, 
ainda longe do sonho da Avenida da Liberdade. O caminho do 
Vale do Pereiro começava a ser insuficiente, e pensou-se em pro- 
longar esta travessa de S. Mamede até à cerca do antigo quartel 
de caçadores 2. Era o esboço da actual rua Rodrigo da Fon- 
seca. Consta este projecto do relatório do munícipe Júlio Má- 
ximo de Oliveira Pimentel, lido no acto da posse da nova direc- 
ção de 1860. 

Vale do Pereiro 

(Pág. 25o a 25 1) 

— Em sessão de 16 de Fevereiro de 1860, o vereador Severo 
de Carvalho propôs o alargamento da Azinhaga de Vale do Pe- 
reiro, por sinal que nessa mesma ocasião o referido munícipe 
propôs, também, que a Câmara solicitasse ao Governo a cedência 
da igreja do Carmo para ali se fazer um estabelecimento de ba- 
nhos públicos. 



- ^97 — 

— No extremo do antigo casal da Carvoeira onde estava o 
respiradouro do Túnel do Rossio, levantou-se depois um prédio 
que ficou tornejando para a rua Alexandre Herculano. 

(Pág. 257 a 263) 

O Marquês de Fronteira, nas suas Memórias (parte i) des- 
creve os episódios passados aqui à roda do quartel de Vale do 
Pereiro, sendo ele ajudante do General Sepúlveda. 

Este que fora em 1820 o ídolo do povo de Lisboa, o herói de 
24 de Agosto, três anos passados caíra no desagrado da turba. 

i As voltas que a política dá ! Morras ao traidor Sepúlveda 
gritavam-se na rua, e o bravo militar, agredido, ameaçado, se salvou 
a vida, no Terreiro do Paço, do furor dos chamados patriotas, de- 
veu-o ao General Avilez que carregou à baioneta sobre os dís- 
colos, à frente de cem milicianos. Saldanha, com as tropas 
aquarteladas no Castelo de S. Jorge, descia já, então, até à Baixa 
e arrastava outras até Vila Franca. O golpe absolutista já não 
tentava iludir ninguém. Dali até o Paço da Rainha a insurreição 
alastrava. Sepúlveda, escapo de um tiro de pistola, entre vários 
insultos veio então até Vale do Pereiro onde o regimento 16 às 
ordens do Coronel Gatinara se conservava firme, em formatura, 
defronte do quartel. A noite estava de luar. Enquanto, porém, 
o General e o honrado Gatinara entravam no quartel, o Major 
Gerardo Oliveira, aparecido de súbito, chegava à frente do regi- 
mento e dava três vivas a D. Miguel, logo correspondidos com 
entusiasmo pela tropa. Estava dada a insubordinação. O coronel 
nada pôde fazer e o [regimento vitoriando o Infante, e marchando 
em direcção ao Campo Grande, secundava o movimento do Ge- 
neral Saldanha. 

As páginas das Memórias que descrevem a Vilafrancada são 
das mais expressivas desta admirável obra. 

(Pág. 263 a 265) 

No Colégio de Luiz Maigre Restier que em 1804 estava na 
Torrinha, ensinava-se a dansar (Pinto de Carvalho — artigo na 
revista Brasil-Portugal). 

Em 1818 este Colégio estava no Pátio de D. Fradique {Ga- 
zeia de Lisboa de 29 de Setembro de 1818). 

Em 1810 estava ali outro colégio que era do Padre D. António 
da Anunciação Avelino, ou foi poj êle dirigido, juntamente com 



-598- 

outro reverendo, Joaquim José da Silva Calejo, advogado da Casa 
da Suplicação. O último morador da Torrinha foi o cidadão fran- 
cês Gustave Mathieu que ali instalara em 1887 uma oficina meta- 
lúrgica. Entre o quartel e a Torrinha, havia, nos princípios do 
século XIX, a Horta do Freixo (que me parece depois ter-se pas- 
sado a chamar dos Cyprestes), retiro arrabaldino muito concor- 
rido da estúrdia fidalga da época (João Paulo Freire — Lisboa do 
meu tempo e do meu passado, vol. 11, pág. 455). 

(Pág, 267) 

O edital de i de Setembro de 1869 reuniu, sob a designação 
de Rua de Vale do Pereiro, a antiga travessa de Lázaro Verde c 
rua do abarracamento de Vale do Pereiro. 

(Pág. 271) 

O palacete que tornejava para Santa Marta e travessa do 
Enviado de Inglaterra onde em 1806 morou o Enviado Lord Re- 
bert Fitz Gerald e depois pertenceu ao Marquês de Sá da Ban- 
deira, começou a ser demolido, em igSo, para alargamento da 
primeira serventia. O prédio por vezes era dado como fazendo 
parte da velha travessa da Natária. 

(Pág. 282) 

Era aqui um dos dois mercados de porcos que havia em Lis- 
boa. O outro era na Patriarcal Queimada (Praça do Rio de Ja- 
neiro). A disposição municipal que o estabelece é de 1840. Em 
i852, havia mesmo um recinto próprio para a venda dos suínos, 
permitido e regulamentado pela Câmara. O mercado, que per- 
tencia à firma Matos Pinto & Pinto, intensificava as suas tran- 
sacções em Outubro {Sinopse e Annais do Município). 

Rua do Salitre 

(Pág. 294 a 296) 

A «Escola Veterinária» que ocupou em tempos o antigo Hos- 
pício dos Brunos de Laveiras, não está encorporada no «Instituto 
de Agronomia e Veterinária». Desde 1910 há duas escolas inde- 
pendentes — a de «Medicina Veterinária» que funciona na rua 
Gomes Freire, e o «Instituto Superior de Agronomiax, com edi- 



— 599 — 

fício próprio na Tapada da Ajuda (informação do falecido inves- 
tigador Joaquim Rasteiro). 

No edifício dos Cartuxos estão hoje funcionando repartições 
do Estado, tendo sido tomado de arrendamento. E ali que se 
encontra a Direcção Geral de Estatística. Tem os actuais n."- 62 
e 64. 

(Pág. 3o 1 a 3o3 e 309) 

A família Botelho Moniz a quem pertenciam as casas que 
eram em 1818 propriedade de D. Ana Bárbara Moniz da Silva, 
provinha do casamento de Luiz Botelho de Sequeira, Fidalgo da 
Casa Real e Familiar do Santo Ofício (filho de Belchior Botelho 
de Sequeira, senhor do morgado de Vale de Cavalos, em Almei- 
rim, Fidalgo da Casa Real, da geração dos Botelhos, de Pêro Bo- 
telho, e de D. Luiza de São Payo, senhora do Morgado de Val- 
verde, em Óbidos) com D. Isabel Maria Moniz da Silva de Carva- 
lhosa, filha de João Moniz da Silva, senhor dos morgados da Ri- 
beira de Maia-Afonso em Dois Portos e do Campo de Sant'Ana 
em Lisboa. 

Dessa união nasceram José Botelho de Sequeira, herdeiro dos 
morgados. Fidalgo da Casa Real, e Adrião Botelho de Almeida, 
também Fidalgo da Casa. Deste foram filhos José Botelho Moniz 
da Silva ; Mariana Moniz da Silva, casada com o Dr. Carlos José 
de Mendonça Fialho; e João Anastácio Botelho de Almeida que 
foi administrador da Fábrica de Loiça do Rato. De José Botelho 
de Sequeira houve descendência ainda hoje representada pelos 
apelidos Botelhos Monizes de Sequeira, tendo um dos filhos de 
José Botelho, casado com uma segunda sobrinha do grande Ave- 
lar Brotero. Do ramo de Adrião Botelho de Almeida, há hoje 
também muitos representantes, um dos quais é o sr, Jorge Bo- 
telho Moniz. Francisco Carlos Botelho Moniz que morou num 
dos prédios da família de 1829 a 1871, era sobrinho e não fiiho 
de José Botelho da Silva (informação obsequiosa do meu amigo 
coronel Augusto Botelho da Costa Veiga, actual Director da Bi- 
blioteca Nacional de Lisboa). 

(Pg. 309) 

Sobre a família dos Bandeiras do «Arco do Bandeirau, tive 
uma espontânea e amabilíssima informação da Ex."^ Sr.* D. Maria 
José Dick Bandeira Nobre (proprietária da linda quinta do Vina- 
gre, em Colares) em 10 de Julho de 1922. O apontamento genea- 
lógico que me enviou é valioso sob muitos pontos de vista. 



— 6oo — 

Domingos Pires Bandeira, era natural de Viana do Castelo, 
filho de António Pires Bandeira e neto de Manuel Pires Bandeira» 
de Santo Estêvão da Facha. 

Veio para Lisboa muito novo, dedicou-se ao comércio e en- 
riqueceu. Foi ele quem ergueu o prédio onde morava no Salitre, 
esquina do Vale do Pereiro. Este prédio parece ter sido destruído 
por um incêndio no tempo das lutas entre liberais e absolutistas- 

Casou Domingos Pires Bandeira com D. Maria Tomázia da 
Fonseca, e veio a falecer em i8 de Novembro de 1755 na sua 
quinta de Santa Bárbara de Talaíde, freguesia de Barcarena. Teve 
um filho, também chamado Domingos Pires Bandeira, P'amiliar do 
Santo Ofício como o pai, cavaleiro de Cristo, que casou com 
D. Gerarda Monteiro de Sampaio e Castro ; e outro, de nome 
José Rodrigues Bandeira que veio a ser Familiar do Santo Ofício 
e Presidente da Junta do Comércio. Este José Rodrigues Ban- 
deira foi o que deu o nome ao «Arco do Bandeira». Nascera em 
1706 e veio a falecer a 1 1 de Janeiro de 1780, tendo sido casado 
com D. Brígida Teresa da Conceição Soiisa, filha de Custódio 
Nogueira, grande capitalista e de D Antónia de Sousa, sua mulher. 

Possuía muitas propriedades na rua da Betesga, rua Augusta 
e outros pontos. 

Quando da reedificação da cidade, após o terremoto, diz a 
tradição familiar que Pombal fora pessoalmente a casa do Ban- 
deira propor-lhe trocas do terreno na rua Augusta por outros na 
Betesga. Foi êle quem levantou o quarteirão tornejando da rua 
Augusta e rua do Oiro para o Rossio fronteiro ao actual Teatro 
Nacional, então Palácio da Inquisição, e daí a construção do «Arco» 
em correspondência com o que havia neste edifício. José Rodri- 
gues Bandeira foi condecorado com o hábito de Cristo e uma 
tença de 5oí5f)00 do antigo Pescado. Seu irmão Domingos, do ca- 
samento acima referido, teve a Domingos Pires Monteiro Ban- 
deira que nasceu na casa familiar do Salitre. Foi educado em 
Paris. 

Serviu os cargos de Escrivão da Real Câmara e Secretário 
da Mesa da Consciência e Ordens. Morreu solteiro em 29 de Maio 
pe 1800, tendo sido um dos amigos de Bocage. O morgado ins- 
tituído por seu avô passou para outro seu irmão Francisco Gon- 
çalves Pires Monteiro Bandeira. 

De José Rodrigues Bandeira — o do Arco — e de sua mulher, 
nasceu, entre outros, Custódio José Bandeira, bacharel em Direito, 
Cavaleiro de Cristo, Familiar do Santo Ofício, Tesoureiro da Mi- 
sericórdia de Lisboa, Deputado da Junta do Comércio, Juiz dos 



— 6o I — 

Direitos Reais, Almoxarife da Repartição das Águas da Vila de 
Colares, etc, o qual casou com D. Mariana Paula Bollarte Dick, 
proprietária do morgado instituído por Afonso Dick em 1712, cons- 
tituído por um prédio na rua das Portas de Santo Antão, fron- 
teiro ao dos Condes de Almada, e pela quinta do Vinagre em 
Colares, ainda hoje na posse da família. Destes foram filhos José 
Pedro Dick Bandeira que casou com D. Maria do Carmo Serrão 
Diniz (filha do Conselheiro Miguel Serrão Diniz e de D. Josefa 
de Sande) e Maria Doroteia que casou com o Desembargador 
Manuel António da Fonseca Gouveia. De José Pedro Dick Ban- 
deira e de sua mulher, nasceu e foi herdeira D. Maria José 
Dick Bandeira, casada com o Dr. António Nobre Pereira de 
Almeida, e senhora do Morgado de Afonso Dick. Destes foi 
filho José Maria Dick Bandeira Nobre casado com D. Emília de 
Abreu, pais da senhora D. Maria José Dick Bandeira Nobre, autora 
dos apontamentos que me foram enviados e que em 10 de Julho 
de 1922 ainda era a proprietária da quinta do Vinagre e do mor- 
gado de Afonso Dick. A quinta pertence a esta família desde 10 
de Julho de i63o, datando, porém, a sua fundação de i536, ano 
em que o bispo de Silves e Lamego D. Fernando Coutinho nela 
instituiu um morgado a favor dos filhos da sua filha natural 
D. Isabel Vilarinho. E a sr/ D. Maria José Dick Bandeira Nobre 
rematava o seu apontamento genealógico dizendo : que se desculpe 
algum equivoco dado nesta noticia referente a uma família mo- 
desta e a uma propriedade velha e desconhecida. 

(Pág. 3i4 a 3i8) 

O palacete Mayer, depois de ter sido clube galante como o 
«Maxim's», o «Monumental» e outros, passou em 1929 a ser a 
sede da Casa de Espanha. Primeiro adquirido pelo cidadão espa- 
nhol D. Matéo Benito Garcia, comerciante da rua da Madalena, 
para seu uso particular, este cedeu-o à Embaixada de Espanha 
sabendo que esta andava procurando em Lisboa, um edifício para 
instalação da «Casa de Espanha» dotado que tinha sido pelo Go- 
verno da Nação vizinha um crédito de 900.000 pesetas para esse 
fim. Os arrendatários, do palacete, receberam uma indemnização 
pela transacção efectuada. 

O Parque-Mayer, centro de diversões alfacinhas, com dois 
teatros, cinemas, bar's, restaurantes populares, pavilhões, jogos? 
esplanadas, moderno avatar do Tivoli da Flor da Murta, da Flo- 
resta Egípcia e do Parai^o de Lisboa, singra mais próspero do 



— 602 — 

que os seus antecessores, cuja vida foi sempre atribulada e difí- 
cil. É uma das atracções lisboetas para os naturais e para a 
província, e nos meses de verão regorgita de gente que foge ao 
calor. 

(Pág. 3i8) 

A quinta do Moreira era defendida para a travessa do mesmo 
nome (hoje rua Júlio César Machado) por um muro. O mesmo 
sucedia ao quintal fronteiro junto à Escola Veterinária. Encontro 
menção na Sinopse e nos Atinais do Município de providências que 
dão a entender a ruína dessas defesas e o estado de abandono da 
serventia. 

(Pág. 320 a 323) 

Em 1844 e 1845 morou no Salitre Joaquim António da Silva 
Quelhas e sua mulher D. Inácia da Silva Quelhas. Calculo que o 
apelido fosse tomado da rua deste nome às Trinas que, como já 
foi dito, se nomeou assim pela moradia ali de D. Francisco de 
Sousa — o Quelhas de alcunha. 

Camilo Castelo Branco, também aqui morou. Di-lo Tinop 
num artigo publicado no Brasil-Portugal. 

(Pág. 323 a 324) 

A «travessa da Horta da Cera» que fazia a ligação para Santa 
Marta e Coração de Jesus, estava em 1861 num estado lamentá- 
vel. O vereador Severo de Carvalho, em sessão de 28 de Feve- 
reiro desse ano chamou-lhe, numa proposta de vistoria, a pior de 
todas as ruas de Lisboa. 

(Pág. 328) 

O vereador Júlio Máximo de Oliveira Pimentel, em 3 de Ju- 
lho de i85g, fez à Câmara a seguinte proposta: 

«Proponho que se ttiande estudar desde já a abertura de uma 
larga rua, ou boidevard, ou lameda, que partindo do fundo do Pas- 
seio Público^ corte pela parte inferior do Salitre, e siga pelas ter- 
ras de Vale de Pereiro até S. Sebastião da Pedreira, ramifican- 
do-se para o Campo Pequeno». 

Era o primeiro esboço da Avenida da Liberdade. 



__ 6o3 — 

(Pág. 329) 

— Em 1860, no dia 25 de Setembro, às cinco horas da tarde^ 
realizou-se nesta calçada do Salitre a experiência oficial, perante 
a vereação, de um salva-vidas para ser adaptado às seges. Era 
seu inventor Diogo de Sales de Pina Manique. O sítio era óptimo 
para tal experiência dado que eram ali frequentes os atropela- 
mentos. Em 1861 em frente do Circo Price foram tantos que o 
Jornal do Comércio pediu a atenção da Câmara, e esta oficiou ao 
Governador Civil solicitando providências. Os bolieiros faziam 
no Salitre campo de corridas. 

— Quando foi da eclosão da revolução de 1820, em Lisboa, 
no dia i5 de Setembro, o iode infantaria sublevado pelo tenente 
Aurélio e que o Conde de Resende teve de comandar, proclamado, 
à força, general em chefe do movimento, desceu o Salitre, acom- 
panhado de centenares de populares. A meio da calçada encon- 
trou um impedimento. Era uma carruagem que pachorrentamente 
conduzia o Inter-Núncio, Monsenhor Cherubini que pouco antes 
substituíra Monsenhor Macchi. O prelado que era uma figura de 
um cómico inexcedível, totalmente calvo mas muito empoado? 
alto, gordo, portador sempre de um grande leque, tanto sofria de 
calor, ao ver a tropa, e ao ouvir a palavra Revolução, perdeu de 
todo a compostura. Ao tempo 'que o cocheiro e o moço da tá- 
bua fugiam espavoridos, apeou-se tremendo de medo, e pôs-se de 
joelhos no meio da rua implorando piedade. Se não fosse D. Car- 
los Mascarenhas que o socorreu e o levou até à Nunciatura, então 
no Quelhas, Monsenhor Cherubini teria morrido de pavor. 

Conta este episódio o Marquês de Fronteira nas suas admi- 
ráveis Memorias (vol. i, pág. 2o5). 

Praça do Salitre 

(Pág. 439 a 452) 

Em 6 e 7 de Outubro de 1781, sábado e domingo, com licença 
da «Real Mesa Censória», houve funções na Praça do Salitre, A 
de sábado foi um congresso do pirotecnias com fogo do ar e 
preso e um espectáculo de dansa, música e outros divertimentos 
licitou, e de gosto, para divertimento dcs Senhores Espectadores, 
como se diz no programa. A função de domingo foi um com- 
bate de toiros, precedido, às quatro horas da tarde por dansas e 



— 6o4 — 

«carrinhos novos». João Gomes Varela, acompanhado dos capi- 
nhas e criados do Marquês de Niza, toireou o cavalo doze toiros 
das manadas do Marquês, matando-os a rojão e a espada. No in- 
tervalo, enquanto o operoso Varela descansava, saiu a toirear três 
bichos um mudo que era familiar da casa do Marquês Estribeiro- 
Mor. O espectáculo acabou como principiara, por cortesias, não 
tendo faltado o indispensável Neto. 

O Intendente da Polícia quis proibir as funções, e expôs ao 
Governo os inconvenientes que eram dois — o perigo do fogo de 
artifício de que podem nascer inumeráveis desordens e o perigo 
de se juntarem, nos camarotes e trincheiras, pessoas de ambos os 
sexos e entre elas algumas de vida libertina. 

João Gomes Varela, porém, levou a sua avante. 

Não se falou no programa (transcrito na obra do académico 
António Ferrão — A /.* Invasão Francesa, pág. clix a clxi) de 
outros artistas toureiros. O Coronel Francisco Coelho de Figuei- 
redo {Teatro de Manuel de Figueiredo, pág. 366, vol. xiv) cita 
como cavaleiros tauromáquicos, o Fava Seca., o Corcunda, o Al- 
meirão^inho., o Gaieta, o César e certo homem distinto de Trás- 
-os-Montes, de'que oculta o nome como se fosse vexatório empa- 
relhá-lo com os outros que pelas alcunhas não percam. 

A exibição de fogo de artifício na Praça do Salitre ainda em 
1860 era considerada perigosa. Na sessão de 2 de Julho desse ano, 
o vereador Vaz Rans, propôs se intimasse o empresário da Praça 
a não queimar fogo nos seus espectáculos. 

Na Praça do Salitre (artigo de Carlos Alberto, no primeiro 
número do jornal taurino O Capote, transcrito por Paulo Freire 
a pág. 259 e 260 do segundo volume da sua obra Lisboa do meu 
tempo e do passado) toirearam como cavaleiros João dos Santos 
Sedvem, Manuel José de Figueiredo e António Roberto da Fonseca 
que algumas vezes era também toireiro de pé. Como matadores 
exibiram-se lá Sebastião Garcia Calabaça e Pedro Rodrigues e, 
como capinhas, João Pedro da Herra, Antão da Fonseca, Dâmaso 
de Carvalho, João Alberto — o Barbeiro — e António do Carmo 
Faria que também era matador. 

Prazo da Cotovia 

(Pág. 477 e 478) 

Em i3 de Novembro de 1860, a requerimento du Marquês de 
Castelo-Melhor fêz-se a demarcação e o tombo do Prazo da Co- 



— 6o5 — 

tovia, tendo a ela comparecido o arquitecto da cidade com a 
planta respectiva. 

Travessa do Rosário 

(Pág. 482) 

Nesta travessa, n."' 8 e 10, mora e tem o seu atelier o grande 
artista José Vital Branco Malhoa, o mais português de todos os 
pintores. 

O Mercado da Praça da Alegria 

(Pág. 485, 489 e 490) 

O avisG do Secretário de Estado, Marquês de Pombal, de 1 de 
Fevereiro de 1773 {Elementos para a História do Município de 
Lisboa, vol. XVII, pág. 398 a 401) foi que ordenou a mudança das 
vendedeiras de S. Domingos para este local. O edital de i3 de 
Março do mesmo ano, manda mudar para este sítio, as cabanas 
volantes que estavam também no sítio da Esperança. 

Chafariz da Praça da Alegria 

(Pág. 487 6488) 

Junto a este chafariz havia em 1783 um aglomerado de bar- 
racas que habitualmente servia de velhacouto de vadios e mal- 
feitores. A ordem de 24 de Janeiro desse ano mandou-as demolir. 
Outra ordem de i5 de Abril de 1785 mandou desentupir os canos, 
deste chafariz {Livro g3g-i.° do Registo de Ordens da Colecção da 
Junta da Administração dos Fábricas do Reino, pág. 34). 

Praça da Alegria 

(Pág. 484 a 496) 

— Em 1773 foram para esta praça transferidas as vendedeiras 
que estavam no Rossio e largo de S. Domingos, com as suas ca- 
banas e lugares {Elementos para a História do Município de Lis- 
boa, vol. XVII, pág 398 e 399). 

— Houve aqui uma famigerada Casa de Pasto frequentada 
pelos literatos do romantismo que se intitulava a Padeira. Aí 
acamaradaram em modestos ágapes, Herculano, Rebelo da Silva, 
Oliveira Marreca, Luiz Palmeirim, Lopes de Mendonça, Bulhão 



— 6o6 — 

Pato, Bordalo, Ricardo Guimarães, Domingos Ardisson {Brasil- 
-Porhigal, vol. iii, pág. 25o — Artigo de Tinop «Um velho tipo 
lisboeta» . . .). 

Da Sinopse, Annais q Arquivo Municipais extracto as seguin- 
tes notas : 

— Em i835 (Abril) a Feira da Ladra é mudada daqui para o 
Campo de Santana e passa a ser diária. 

— Em 1839 (Novembro) começou-se a mudar-se para este lo- 
cal o chafariz do Passeio Público. 

— Em 1840, mandaram-se demolir algumas barracas sórdidas 
que havia na praça. Estas barracas eram do professor Caldas Au- 
lete. 

— Em 1841 mencionaram-se escandalosos abusos nas bar- 
racas que se mandaram demolir no ano anterior. É de querer que 
fosse a resistência dos abarracados. O proprietário foi indemni- 
zado, em 700.^600, em 1843. 

— Em 1846, manda-se recolher o muro do quintal de Inácio 
José Fernandes que prejudicava o alinhamento da praça. 

— Em i852, estudavam-se melhoramentos nas escadas do cha- 
fariz. A casa que ali se vê com uma porta no recanto foi feita em 
1842. 

RETOQUES E ADITAMENTOS 
AO VOLUME TERCEIRO 

Fábrica da Seda 

(Pág. 263 a 265) 

A Crónica Constitucional do ano de i833, dá-nos algumas no- 
tícias sobre a vida desta Fábrica. As notícias são estas: 

— O decreto de 6 de Agosto de i833 extingue a «Direcção da 
Fábrica das Sedas e Obra das Aguas Livres», e nomeia Girão 
como único administrador {Crónica Constitucional úq ^ àe As^òslo 
dei833). 



— 6o7 — 

— O decreto de 27 do mesmo mês demitiu os Deputados da 
Junta do Comércio, Acúrcio das Neves e José Maria da Costa e Sá 
por se terem tornado indignos de se empregarem no serviço de 
Sua Majestade Fidelíssima, dado o seu criminoso comportamento 
{Crónica Constitucional de 19 de Agosto de i833). 

— No número da Crónica de 7 de Outubro, vem um anúncio 
dos Armazéns da Fábrica, na rua Bela da Rainha. Enumeremos 
os artigos que lá se vendiam: — Damascos, sarjas, tafetás, pelú- 
cias, veludos, veludilhos, setins, nobrezas, sedas para coletes, se- 
dinhas, grodenaplos, lenços, fitas de hábitos, galões de oiro e 
prata, talagarças de oiro e prata, meias, luvas, malhas, etc. 

— No número de 10 de Novembro, vem um anúncio de um 
leilão de retalhos e fazendas avariadas da Real Fábrica da Seda. 

Os grodenapes iisos^ a que me refiro a pág. 25 1, e que disse 
não saber o que fossem (no anúncio acima chamados grodena- 
ples, diz-me, numa carta, o meu amável informador sr. Eduardo 
de La Torre Lisboa deverem corresponder ao termo gros de na- 
ples que eram uma espécie de tafetás de grão pronunciado, muito 
em voga naquele tempo. 

Jogo da Pela 

(Pág. 354 a 356) 

Francisco Coelho de Figueiredo, de pág. 449 a 451 do xivvo- 
lume do Teatro, de seu irmão, nas suas confusas, atabalhoadas, 
mas curiosíssimas «Notas» pir.ta-nos algumas cenas deste jogo. 

Jogavam-no muito os nobres e os estudantes, rojando-se pelo 
chão, gritando Raia à Pela quando a viam em risco de ultrapas- 
sar o campo marcado, teimando ferozmente entre si, e diver- 
tindo os mirones sentados nos bancos que ladeavam, no compri- 
mento, o terreno do jogo. A meio dele, em cadeira de ilhargas 
forrada de azulejo, o Juiz do jogo, de capotinho, bengalinha e 
larga cabeleira para dar autoridade, levantava-se de quando em 
quando, para intervir nas discussões e sentenciar, tirando teste- 
munhas, quem tinha razão, isto é quem gafara ou não gafara. 

O jogo era «vara de visco» para os Estorninhos. Os «estorni- 
nhos» eram os estudantes de Santo Antão, vestidos como os de 
Coimbra, todos de preto, de casaca ou *à Romana*, com cabe- 



— 6o8 — 

leira ou sem ela, que enxameavam sempre no «Jogo da Pela» seu 
vizinho. Os Mestres-Jesuítas das Aulas^ cometiam ao Perfeito o 
emprego de mandar diariamente o Meirinho botar cordão (fazer a 
sua rusga) no Terreiro do Jogo ; e ele lá ia pelo Arco da Graça, 
Socorro, rua da Palma, Moiraria, Rossio, espreitar os estorninhos^ 
vestido de pano preto, com espada de ferro muito comprida e 
muito limpa, de que também se assustavam os marujos que vi- 
nham, até Santo Antão, desafiar os estudantes para rixas de pe- 
drada e de faca, 

O José do Rato 

(Pág. 358) 

O José do Rato, típico servo do tempo das Freiras Trinitá- 
rias de Campolide, não se chamava José Duarte, como me infor- 
maram ; chamava-se José Epifânio da Costa, segundo me escla- 
receu, em carta, o falecido Dr. Santos Farinha. 

Leilão da Igreja do Rato 

(Pág. 372 e SyS) 

A Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, Patrocínio e 
S. José, foi instalar-se em Santa Isabel. A imagem da Senhora 
dos Remédios, encontra-se igualmente neste templo, adquirida em 
leilão pelo sr. Luiz Miguel Purtado Júnior, irmão da referida ir- 
mandade (Informação do falecido Dr. Santos Farinha). 

Largo do Rato 

(Pág. 377 a 4o3) 

— Da data da publicação do terceiro volume desta obra até 
agora, algumas alterações se têm dado na moderna Praça do Bra- 
sil. O seu traçado continua, porém, a ser irregular. As três casas 
do princípio do século xviii que fazem frente para a rua do Rato 
e para o ante-pátio do antigo convento já se decoram com a ta- 
buleta municipal — Para demolição — mas ainda estão de pé. O pré- 
dio que se construiu na quina de Alexandre Herculano para São 
Felipe Nery é um caixote inexpressivo. Não será compensação da 
perda das pitorescas edificações de 1730. 

—Das publicações municipais Sinopse, Amiais e Arquivo cons- 



— 6õ9 — 

tam os esforços camarários para «civilizar» o local, desde i835 para 
cá, macadamizíições, construções de canos gerais, alinhamentos, 
demolições, desentulhos, etc. Em 1845 ainda o largo estava atra- 
vancado com entulhos das obras das Aguas Livres, cuja remo- 
ção deu origem a um pleito entre aquele organismo e o juiz de 
paz de S. Mamede. 

— Da Sinopse de i852 consta uma desordem formidável ha- 
vida no chafariz do Rato, na noite de 27 de Setembro, entre gri- 
lhetas, aguadeiros e soldados do Regimento de Vale do Pereiro? 
a qual obrigou a Câmara a fazer um inquérito. Em 1860 foram 
consertados os degraus do chafariz. Em tal estado estavam que 
diariamente os aguadeiros ali quebravam pernas e cabeças. Em 
18C1 (sessão de 18 de Julho) foi resolvido que o largo do Rato 
passasse a ser «praça de trens e de seges». Em 246 25 de Agosto 
de i863 tornaram a haver desordens de tristes consequências no 
chafariz. Quem as promovia eram, ainda, os soldados do Regi- 
mento de Vale do Pereiro (Caçadores 2). 

— As preciosas Memórias do Marquês de Fronteira e de Alorna 
enquadram aqui, no largo do Rato, algumas cenas citadinas do pri- 
meiro terço do século passado. Os movimentos militares dessa 
época, tão agitada, animaram por vezes o Rato onde, no palácio 
do Conde da Cunha, o General Sepúlveda teve o seu quartel ge- 
neral. 

Vésperas da Vilafrancada, vemos aqui passar as forças do 
coronel Lobo Pessanha, sair a companhia de cavalaria do Colégio 
dos Nobres, depois a revolta dos soldados do coronel, a fuga deste. 
e todos os mil episódios desse período de política indecisa e de 
facciosismo feroz. Em Julho de i833, no dia 29, passa aqui o 
dador, de volta de S. Vicente onde fora pregar no túmulo do 
pai aquele célebre papel onde se lia : — Hum filho te assassinou 
outro te vingará. Encontrando neste largo, de carruagem, a con- 
dessa da Ribeira, deu-se uma cena de corte. Apeou-se o rei, 
apeou-se a dama e rasgaram-se cumprimentos palacianos. Esse 
dia foi para D. Pedro IV um dia de visitas, recepções e cumpri- 
mentos. Correu os quartéis (Vale do Pereiro, Trindade, S. Do- 
mingos e Castelo), visitou o Quartel-General, o Comendador José 
Ferreira Pinto Basto, a mulher do Tenente-General Jorge de 
Avilez, os marqueses de Alvito e de Angeja,e ainda deu audiência 
nas Necessidades. 

VOL. IV 39 



— 6iô — 

Palácio do Marquês de Viana 

(Pág. 395 a 402) 

Sobre este palácio e a sua capela, transcrevo parte da carta 
datada de 8 de Agosto de 1922 que recebi do meu amigo, ilustre 
investigador e académico sr. Coronel Henrique de Campos Fer- 
reira de Lima: 

«Possuo um folheto assim intitulado: Sermão pregado na 
dedicação da capella da invocação de Nossa Senhora da Bonança 
contigua ao palácio dos illustrissitnos e excellentissimos Marqueses 
de Vianna no dia 14 de dezembro de 1846 pelo presbytero Carlos 
do Cenáculo — Lisboa — na Imprensa Nacional — i84j — i fo- 
lheto 8." de vinte e três páginas. O folheto é precedido de quatro 
páginas, sem numeração e sem título, assinadas — Almeida Garrett^ 

«Delas copio o que pode interessar-lhe : 

«Foram estes os pensamentos (diz Garrett, depois de várias 
considerações sobre a incredulidade, a fé, a cruz, etc.) — ou mais 
exactamente, este era o sentimento intimo da alma com que ha 
pouco, em 14 de Dezembro deste memorável anno de 1846, assisti 
á mais rara e interessante solemnidade em que ainda tomei parte, 
á dedicação de um novo templo. 

«Ha no palácio dos Marqueses de Vianna, todo o brilho da 
riqueza, toda a elegância dos artes, todo aquelle fino gosto que 
charateriza o nobre Marquez e as suas splendidas festas nos ro- 
deava : a primeira sociedade de Lisboa alli estava, assistia o Sr. Pa- 
triarcha, officiava o Sr. Arcebispo de Mythilene ; todas as grande- 
zas e todas as atracções alli se reuniam. Mas erguida sobre todas 
as pompas da egreja e da sociedade estava a Cruz de Christo, 
estava a imagem da Virgem : symbolos de fe e de esperança al- 
çados sobre todas as incertezas e agitações do século ! 

«A invocação da Virgem é a de Nossa Senhora da Bonança: 
e a capella um voto feito pelos Srs. Marquezes vendo-se em pe- 
rigo de vida na altura do cabo de Finisterre quando regressavam 
de França e Portugal em 1843, no dia 3o de Outubro, 

«N'aquelle seu palácio, ao Rato, hoje o mais elegante de Lis- 
boa, mora ha muito, com Suas Excellencias a elegância, a urbani- 
dade e a perfeita grandeza. Seus splendidos salões amiudadas 
vezes se abrem a todas as distinções sociaes sem exclusão de par- 
tido ou de opinião. Nunca se fez melhor uso do poder, da riqueza, 
da superioridade do nascimento e posição social ; nem se deu me- 



-é.i- 

Ihor documento do muito que valem reunidas, do quanto podem 
ser populares, e da benéfica influencia que são chamadas a exer- 
cer n'uma época difficil como a nossa, A criação da elegante 
capella é um remate digno do palácio e do dono d'elle. 

«Escrevo aqui o que pensei e senti n'aquel]a occasião, o que 
muitas vezes tenho ditto, que o não tome o Sr. Marquez por 
lisonja : não as sei dizer. 

«A sua festa foi completa. O Sermão — coisa mais rara que 
nenhuma hoje em Portugal — tinha razão, stylo, elevação de pen- 
samentos, e não lhe faltava uncção christan. 

"Recordarei sempre com satisfação a manhã do dia 14 de 
Dezembro de 184Õ. 

«Estas palavras de Garrett encontram-se, também, na edição 
(em dois volumes) das suas obras completas». 

— Neste palácio, ao tempo do Conde da Cunha, esteve o 
Quartel General do general Sepúlveda, em iSzS. Transcrevo os 
curiosos períodos das Memórias do Marquês de Fronteira e de 
Alorna que a ele dizem respeito j(pag. 256 a 258, vol. i) : 

«O Conde da Cunha, antigo amigo do General Sepúlveda, 
duma originalidade pouco comum, duma grosseria espantosa e 
dum mau tão pouco natural, principalmente, naquela época, na 
sociedade em que nascera, era casado com uma excelente se- 
nhora muito bem educada, irmã do actual Conde de Farrobo, e sua 
irmã D. Mafalda, em nada se parecia com êle, porque era o tipo 
da delicadeza e do bom gosto. 

«Infelizes senhoras, porque passaram, na sua primeira moci- 
dade, os momentos mais amargos que se podem imaginar. Uma 
filha única que o Conde tinha, teria então oito anos e é actual- 
mente Marquesa de Viana ; não tinha a menor educação, a-pesar 
dos esforços de sua mãe; muitas vezes, por caridade, a tirei da 
cavalariça e da cocheira, onde havia o perigo de ficar esmagada 
debaixo das patas dum cavalo ou de aprender a linguagem pouco 
senhoril dos moços de cavalariça ou dos cocheiros, A ocupação 
da pobre criança, durante o dia, era ir à cosinha ou à copa acen- 
der os cigarros que fumava o seu extravagante pai. 

«As salas do primeiro andar do palácio do Conde, que é hoje 
do Marquês de Viana, tinham sido ricamente mobiladas pelo capi- 
talista Barão de Quintela, pai da Condessa, e numa delas, via-se o 
belo retrato do famoso diplomata Luiz da Cunha, ascendente do 
nobre Conde. O ar distinto do diplomata formava um grande 
contraste com as maneiras comuns do seu neto. 



— 6l2 — 

«o quarto que ocupava o General Sepúlveda, ainda que bem 
mobilado, era muito incómodo, pela vizinhança do quarto do 
Conde, onde reinava grande confusão, desordem e gritaria, em 
todo o dia e parte da noite. 

«Para haver de tudo na reconcentrada residência do Conde 
da Cunha, instalou ali uma loja maçónica, onde se reunia a ralé 
da maçonaria portuguesa, por onde se pode fazer ideia da bela 
sociedade. O venerável da loja era o capelão do Conde, o padre 
mestre Frei Francisco das Chagas, religioso franciscano de Xabre- 
gas, gordo, baixo, e sempre de pitada constante nos dedos, com 
perto de setenta anos, caindo-lhe a todos os momentos, os óculos 
do nariz, e, em todas as caravanas, companheiro fiel do seu fidalgo, 
como ele lhe chamava. Quando o Conde passava nas suas belas 
carruagens, viamo-lo ir, uma vezes acompanhado do seu capelão, 
e, outras, da actriz do Teatro da Rua dos Condes, Maria do Carmo, 
com quem ele se distraia amiudadas vezes. 

«A bela D. Mafalda tinha muitos admiradores, com o justo 
fim de casarem com ela mas seu irmão tinha a habilidade de os 
espantar a todos. António de Meneses, que podia ser pai de 
D. Mafalda, pois que tinha sido camarada e contemporâneo de 
meu pai e tinha a sua idade, e que era primo co-irmão do Conde, 
estava o mais enamorado possível, mas o Conde deu-lhe de mão 
e foi substituído logo por D. António de Almeida, hoje Conde das 
Galveas; mas, em poucos dias, houve um duelo entre o Conde e 
D. António de Almeida, duelo ridículo em que não correu sangue 
e só produziu o rompimento do projectado casamento. 

«Aproveitou imediatamente o ensejo o contemporâneo de 
meu pai, D. António de Meneses, contratando o casamento que 
mais tarde se realizou. Excelente homem era D. António de Me- 
neses, mas um verdadeiro maricas, ainda que foi gravemente fe- 
rido em uma das batalhas da Guerra Peninsular. 

«Segundo o meu constante costume, levantava-me sempre 
cedo e fazia as minhas visitas a horas pouco usadas. Fui dar os 
parabéns de casamento ao camarada de meu pai e achei-o na 
cama. O seu quarto era verdadeiramente uma câmara de noiva; 
o cheiro de almíscar era de perturbar a cabeça, a toilete era igual 
à da senhora mais pretenciosa ; estava deitado num grande leito 
com belas cortinas de damasco amarelo, com uma touca de noite 
e um mandrião, como o de uma noiva, tudo cheio de folhos, e, 
com uma voz de velha, disse-me: Entra, meu amigo; não sou a 
mana Maria José, com quem muita gente se equivoca; sou Antó- 
nio de Meneses, este é o meu quarto. 



— 6i3 — 

«Uma tal casa e uma tal sociedade não convinham a um ge- 
neral de trinta e um anos de idade e com a importância do 
meu, e, por isso, tomou a resolução de estabelecer o seu Quartel 
General na Calçada das Necessidades, na casa que pertence hoje à 
viúva Franzini, o que muito gosto deu a todos os seus Aju- 
dantes de Campo, porque todos unanimemente detestávamos o 
mau tom e gosto do nosso patrão». 

— O sr. professor D. Tomaz de Melo Breyner, Conde de Ma- 
fra nas suas Memórias recentemente publicadas (pág. 76 e 77) 
traça admiravelmente, com piedoso realismo, o retrato da última 
Marquesa de Viana, já no período da decadência. Vêmo-la trô- 
pega e alcachinada, com uma opulenta capa de peles sobre os 
andrajos da pobreza extreme, acompanhada pela mulata Dorinda. 
Morava, então, em Pedrouços com as filhas, e frequentava a Feira 
de Belém abancando na barraca da Lima das queijadas, ela cujos 
bailes faustosos tinham marcado na alta sociedade lisboeta. 

Através da reportagem do baile da noite de 5 de Março de 
1847, publicada na Revista Universal Lisbonense, espreita-se essa 
pompa elegante e deslumbrante. Remeto para tal artigo o leitor. 

Doces 

(Pág. 405 a 482) 

— Pergaminho a citar, referindo-se à nobreza dos doces na- 
cionais, deve ser a notícia que se encontra na curiosíssima Fasti- 
gimia de Tomé Pinheiro da Veiga. A mais célebre tenda de 
doces de Valladolid era a Tenda da Portuguesa. Isto em i6o5. 
Na festa de S. João desse ano vendeu 65o cruzados de guloseimas : 
rosquillas. suplicaciones, marmeladas, confeitos, etc. E é preciso 
notar que na cidade do Pisuerga havia então io5 tendas de doça- 
rias onde se fabricavam e vendiam figones, guisados doces, tortas, 
empadas, etc. A marmelada de Lisboa, vendia-se lá a cinco e 
seis reales. A castelhana custava apenas três. Devia, pois, a 
nossa ser mais fina. Turpin (vide Fastigimia) quando acaba uma 
história diz : — Minha história acabada minha boca cheia de mar- 
melada (pág. 271). 

— As «queijadas de Sintra/, cujo preço tem aumentado na 
razão inversa do tamanho, tem uma antiguidade respeitável. Já 
em escrituras e outros documentos do século xiv se citara para 



— 6i4 — 

pagamento de foros. Um saloio erudito, que se assinou Manuel 
do Crido, numa carta dirigida ao jornal O Século, aqui há anos» 
atribui a sua origem provável aos colonos do sul da França que 
vieram para esta região, nos tempos do primeiro Sancho. 

— De uma carta que me foi escrita em 1922 (25 de Junho, pelo 
falecido orador sagrado Dr. Santos Farinha, transcrevo os se- 
guintes períodos : 

«As especialidades da Esperança (convento da) eram os pas- 
téis e as lampreias de ovos. Comi muitas por presente da última 
abadessa que presenteava minha avó. 

«As Francesinhas tinham o doce de alperches. Quando pas- 
savam fome, mandavam um cuvilhete e enviava-se em troca 600 
réis ! 

«De Cheias havia os massapães. A última vigaria in capite, 
à hora de receber o S. Viático queimou todas as receitas das 
doçarias conventuais. Sant'Ana tinha uma especialidade rarís- 
sima, esquisita e de difícil preparação: — as ferraduras de ovos ! 

«O manjar branco a que o meu amigo se refere não é de 
Cheias mas sim das cistercienses de Celas em Coimbra. Ainda 
me deliciei com êle e oferecia esta singularidade: tinham o man- 
jar branco feito com peito de galinha, e com bacalhau para o 
advento e quaresma. E ninguém descobria o sabor do ex-íiel 
amigo na alva guloseima». 

Para a bibliografia doce devo mencionar ainda a obra do 
sr. Emanuel Ribeiro O doce nunca amarelou e as referências a 
pág. 245 do encantador livrinho de Gabriel Pereira Pelos Subúr- 
bios e Vipnhanças de Lisboa. Sobre «papéis recortados para do- 
ces» foi também publicada uma nota na revista Terra Portuguesa. 

— Em 1819 vendia-se «batata da ilha« n"uma loja de confei- 
teiro defronte do palácio do Marquês de Abrantes (anúncio da 
Gazeia de 29 de Maio de 1819). 

Rato — Quinta de D. Helena 

(Pág. 435 a 440) 

Num aviso para uma medição, feito ao Mestre Joaquim José 
dos Reis, em 19 de Abril de 1787 diz-se : tia quinta de D. Helena, 
hoje de D. André (Livro (j3g do Registo de Manufacturas, a se- 



— 6i5~ 

guir a pág 26 v." na Colecção da Junta da Administração das 
Fábricas do Reino). 

— Nos terrenos cia antiga «quinta de D. Helena» pelo norte 
da actual rua Braamcamp, inaugurou-se em i de Janeiro de 1927 
o mercado denominado «Primeiro de Dezembro». 

Transcrevo a notícia de um dos grandes informadores lis- 
boetas : 

«Nos terrenos onde esteve instalada a Carpintaria Mecânica 
Portuguesa, na rua Alexandre Herculano, foi ante-ontem inaugu- 
rado o mercado «Primeiro de Dezembro». 

«Ao acto, que teve uma certa solenidade, assistiram os pre- 
sidentes e vogais da Comissão Administrativa da Câmara Muni- 
cipal de Lisboa, srs. Coronel José Vicente de Freitas, Ferreira 
Lopes, Bivar de Sousa, Baptista Gomes e Mardel Ferreira, o 
sr. Conde de Santar, Director da Praça da Figueira, e empresa 
do novo mercado com os seus respectivos representantes srs. Bo- 
telho de Gusmão e Carlos de Oliveira, etc. 

«O novo mercado encontra-se optimamente instalado numa 
área de terreno com cerca de 7.000 metros quadrados, estando 
provido de cantina, armazém para depósito, abegoaria para reco- 
lha das carroças, etc. Os géneros da venda estão divididos por 
secções, sendo grande o número de lugares marcados, pois só 
para a venda de peixe e hortaliças estão inscritas mais de 400 
pessoas. A área principal está toda empedrada e coberta por te- 
lheiros, não lhe faltando os modernos requisitos que a higiene 
aconselha. 

«Aos representantes da Câmara, depois de uma minuciosa 
visita, foi oferecido pela empresa concessionária um copo de água, 
motivo para troca de brindes entre o sr. Coronel José Vicente de 
Freitas e o gerente do mercado, sr. Carlos de Oliveira. Pelo sr. Bo- 
telho de Gusmão foi levantado um brinde à imprensa, que foi cor- 
respondido por um dos nossos colegas presentes. 

«À tarde foi distribuído um bodo a 100 pobres, constante de 
géneros de mercearia». 

Tal mercado já ali funcionava com carácter provisório, ten- 
do-se, no ano anterior, projectado transferi-lo para S. Bento. 

Em Julho de 1925 as vendedeiras deste novo núcleo abaste- 
cedor, já davam sinal de si. Quando se realizou no Coliseu dos 
Recreios a Festa da Alegria a favor das crianças da Assistência 



~6i6 — 

Pública, foram elas quem pagaram dos seus bolsinhos, os doces, 
brindes e bombons que se distribuíram à criançada. 

A ideia de um mercado neste sítio já é antiga. Em iS35 a 
Câmara projectara-o no pátio do antigo convento dos Remédios, 
adiantando o capital, sem juros a vencer, e ficando o rendimento 
metade para ela e metade para as freiras, logo que a dívida se pa- 
gasse. As religiosas porém, não aceitaram a proposta {Sinopse 
dos Principais Actos Administrativos da Câmara Municipal de 
Lisboa). 

Palácio dos Guiões 

(Pág. 444 a 434) 

Uma entrevista com o sr. Júlio da Mota Marques, publicada 
no Diário de Lisboa de 9 de Dezembro de iqSi, dá alguns porme- 
nores interessantes acerca do Colégio Luso-Britânico que esteve 
instalado neste palácio. Transcrevo-a pois aqui : 

«O sr. Júlio da Mota Marques é um antigo e distinto funcio- 
nário que passou grande parte da sua vida no estranjeiro. Hoje 
conta setenta e um anos, e, como quere que ontem o encontrás- 
semos à porta do nosso jornal, preguntámos-lhe o que fazia: 

« — Venho dos Inglesinhos onde fui assistir à festa da Pa- 
droeira. . . 

«E como os velhos têm o vício de evocar, o sr. Mota Mar- 
ques começou: 

« — Há sessenta e um anos — jlembro-me como se fosse hoje! 
— vim, com os outros alunos do Colégio Luso-Britânico, debaixo 
de forma, aos Inglesinhos assistir às festas em honra de Nossa 
Senhora da Conceição e receber a medalha e o laço azul que ali 
distribuíam. O Colégio Luso-Britânico ! Era no Palácio dos 
Guiões, na rua de S. Filipe Nery, onde mora hoje o Conde de 
Bobone. Estava sob a orientação dos Inglesinhos. O seu director 
era «Father Richard». Eram, respectivamente, professores de in- 
glês e de francês, Lewis e o avô do saudoso Luiz Derouet — dois 
homenzarrões, altos como torres. Franco ensinava latim e lati- 
nidade. E para a escrita e caligrafia (naquele tempo aprendia-se. . .) 
tínhamos Lecoing que mais tarde dirigiu o Colégio. 

«Mota Marques recorda os seus condiscípulos, quási todos já 
desaparecidos: dois irmãos seus, António da Costa Lima, que foi 
lente da Politécnica, o Conde de Figueiró, João e Eduardo Araújo, 
sobrinhos do Visconde dos Olivais, o Conde de Belmonte, os filhos 
negros do Barão de Agua-Izé. 



(6i6fl> 




— 6i7 — 

« — Hoje, restamos, eu, meus irmãos Joaquim e João, D. Nuno 
da Câmara (Belmonte) e não sei se mais algum... Depois, fui 
para a Inglaterra, completar os meus estudos, e não sei que fim 
teve o Colégio. 

«Uma evocação política: 

n — O Marechal Saldanha morava ali ao lado no Pátio do 
Geraldes. E nós conhecíamo-lo muito bem, porque era êle quem 
ia distribuir os prémios aos alunos do Colégio. 

«Recordo-me perfeitamente de o ver sair de lá, em 19 de 
Maio de 1870, à frente do seu Estado Maior e das suas tropas, 
para o golpe de Estado. Chegámos todos à janela e, como gos- 
távamos dele, aclamámo-lo. Foram os primeiros aplausos que o 
caudilho recebeu nesse pronunciamento». 



Além das erratas mencionadas no fim do volume terceiro há 
mais as seguintes : 



Pág. 


Linha 


Onde se lè : 


Deve ler-se : 


49 


34 


Fspelho 


Espelho 


54 


7 


de onde 


donde 


75 


10 


Rocio 


Rossio 


126 


4 


grude 


a grude 


141 


23 


a amálgama 


almagama 


170 


4 e 5 


as manufacturas 


às manufacturas 


292 


19 


João Maria Baptista 


Joaquim Maria Baptista 


297 


29 


(0 


(2) 


297 


3o 


(0 


(2) 


355 


21 


dos dois Evangelistas 


de dois Evangelistas 


367 


I 


escuras e tristes 


escuros e tristes 


422 


5 


alcomonia 


alcamonia 



A nota (i) que está em pág. 296 pertence à pág. 297. 



resenha das ilustrações, 
índice e erratas 



RESENHA DAS ILUSTRAÇÕES 
DESTE VOLUME 



Pág. 

O pátio de entrada do Palácio do Geraldes 280-a 

O Palácio do Geraldes, do lado do Parque, vendo-se o 

Pombal e as chaminés 288-íJ 

■ S. Pedro de Alcântara no primeiro terço do século xix, 

segundo Luiz Gonzaga Pereira 384-ír 

• Um aspecto da galeria do Aqueduto das Aguas Livres, 

segundo Luiz Gonzaga Pereira 432-a 

■ A capela da Cruz das Almas e o prédio do cunhal. . . . 496-^7 

• Os restos do Palácio dos Malheiros 5i2-a 

-O painel das Luminárias, em 1808, no Seminário dos 

Meninos Órfãos da Rua de S. Bento 5S4-ÍI 

- O Palácio dos Guiões 6iG-a 



(ndice 



CAPITULO I 



Sumário: Chegamos defronte da Fábrica do Rato e diz-se 
onde era a oficina — Toponímia da rua e seus mo- 
radores — A propósito de faianças cita-se a Cerâmica 
Portuguesa e evoca-se a figura de José Queiroz — A 
importância do seu trabalho e a sua rara intuição ar- 
tística — A moda das faianças — Uma opinião de Acúr- 
cio das Neves — O autor pára e tenta traçar o quadro 
retrospectivo da Cerâmica Nacional — E chamado a 
depor o Foral de Lisboa de i5co — Prova-se que se 
não fabricava faiança no país, nessa data — As «málle- 
gas» de Talavera, Sevilha e Valença — Inventários 
reais — O Regimento dos Oleiros de 1572 — O que di- 
zem João Brandão e Cristóvão Roiz de Oliveira, no 
Tratado da Abastança e no Sumário — Os Fornos do 
Moinho de Vento e as providências da Câmara contra 
a extracção de barro do Castelo, da calçada do Com- 
bro e da Cotovia — Os oleiros de Santa Catarina, Je- 
sus, São Bento e Janelas Verdes — Faz-se uma lista 
— Mencionam-se os locais onde se vendia a louça no 
século XVI — Documentos pintados de faianças quinhen- 
tistas — O falso «canudo» de 1589 e a falsa «Escola 
Cerâmica dos Freires de Palmela». — Um parecer que 
se não justifica quanto às peças brazonadas — Quando 
começou em Lisboa a fabricar-se faiança — O oleiro 
que veio de Talavera — Uma confusão esclarecida — 
O que se chamava «porcelana» no século xvi — O 
arco dos oleiros na recepção de Filipe II em 1619 e 
um romance de Rodrigues Lobo — O comércio da 
loiça oriental e um presente do Cardial-Rei ao Papa . . 



Pág. 



— 624 — 



CAPITULO II 

Sumário : Em que se conjectura quem seria o oleiro que 
veio de Talavera — Uma nota sobre Francisco de Matos 
— A influência oriental na nossa faiança seiscentista 
através da Holanda — O empório das porcelanas orien- 
tais e as cinquenta fábricas de Delft — Contraria-se a 
influência veneziana alvitrada por um investigador — 
Peças datadas — Os tipos da faiança portuguesa : «De- 
senho miúdo», «Tecido Oriental» ou «Estrela», «Ara- 
nhõesi», «Barôco», «Malmequer», «Bagas», «Renda», 
«Arabescos» e «Esponjado» — Citam-se várias peças 
e apontam-se as suas características pelos elementos 
decorativos apresentados — A influência das fábricas de 
Castela e da Andaluzia — As legendas e os brazões — 
O que significavam, conforme a sua localização nas 
peças — A teoria do coleccionador Dr. Luís de Oli- 
veira — As loiças das frascas conventuais eas peças de 
botica — Ligação entre a decoração destas peças e o 
azulejo — O que eram os malegueiros e donde veio este 
nome — As peças atribuídas ao século xvi — Como Jú- 
piter dando uma audiência no Olimpo destrói a conjec- 
tura das obras cerâmicas dos Freires de Palmela, cuja 
Escola não está provado ter existido 27 



CAPITULO III 

Sumário: As composições cerâmicas do século xvi que apa- 
recem datadas — A propósito do púcaro de Coimbra, 
da colecção de Mestre Gonçalves, faz-se uma digressão 
sobre púcaros — Citam-se vários trabalhos acerca de 
tal matéria — Púcaros de oiro, de prata, de vidro e de 
barro — A mania de beber água e a de comer púcaros 
— O vasto assunto dos azulejos — Enumeram-se os 
tipos dos azulejos nacionais : Rótulos e Pendurados, 
Diamantes ou Jóias, Caixilhos, Laçaria e Rosas, Ta- 
pete, Folhagens, Jarras, Painéis, Motivo isolado, Cari- 
catura e Grinaldas — Citam-se alguns pintores e as suas 
obras — Azulejos datados — Os variados assuntos tra- 
tados nos azulejos de figura — Fabricam-se azulejos no 



- 625 — 

Pôrto e no Juncal — Registos, figuras recortadas, cru- 
zes, alminhas e lápides de foro — Fica estabelecida uma 
linha genealógica e cronológica no azulejo — Os escul- 
tores barristas — Frei Pedro, escultor barrista da es- 
cola de Alcobaça, em 1676 faz umas figuras para um 
Senhor da Tábua — Interessante documentação — A 
«louça grossa das Olarias» e a «louça fina de Lisboa» 

— Um parecer do bispo do Grão-Pará — Toponímia ce- 
râmica — Em que se diz ao leitor onde era o «largo 

da Cruz do Azulejo» 49 

CAPÍTULO IV 

Sumário: Principia a fábrica do Rato a funcionar em 1767 

— As «condições» com o Mestre Tomaz Brunetto — 
Quem era o Mestre — Diz-se da sua escassa sabedoria 
e dos artífices com quem se aperfeiçoou — A «blague» 
do Contra-Mestre José Veroli que era genro de Bru- 
netto e copeiro de profissão — Gita-se o mestre Se- 
verino José da Silva — Os desmandos de Brunetto — 
O regulamento da Fábrica — A fábrica de Paulo Pau- 
lette rouba oficiais ao Rato — E pro'ibida a importação 
de loiça estranjeira — Exceptua-se a loiça oriental e, 
mais tarde, a inglesa — São expulsos Brunetto e Veroli 

— «Condições» com o novo Mestre Sebastião Inácio de 
Almeida, pintor — Severino mestre da Roda e do La- 
boratório — Obras e reformas apressadas — Abusos na 
venda da loiça — Mestre Almeida propõe-se ficar com 
a fábrica — Novo contrato em 1777 — O Mestre mode- 
lador José Baptista de Almeida — Várias providências 
para dar saída à loiça artística — O gosto, a moda e o 
luxo — A opinião de Acúrcio das Neves e o amor de 
Pombal pela fábrica — Os artistas pintores, modela- 
dores e rodeiros que trabalharam no Rato de 1767 a 
1779 — Uma lista valiosa — Comprar loiça no Rato 
para agradar a Pombal — Citam-se importantes enco- 
mendas e vendas — As baixelas brasonadas do Rato — 

As encomendas para as Companhias Privilegiadas e 

para os particulares ricos — Citam-se algumas peças 

brasonadas que hoje se conhecem — Os Inventários e 

voL. IV 40 



— 626 — 

pág. 

as listas para leiloes documentando toda a produção 
do Rato — Lista das peças fabricadas, nomes, variantes 
e preços — Algumas considerações sobre a extensa 
lista — Peças de nomes misteriosos — Alguns leilões 
em 1770 e 1771 — Um grande negócio de Veroli — Ci- 
tam-se algumas peças de excepção — Em que se diz 
a receita da «pasta» e do «vidrado» do Rato, neste pri- 
meiro período 73 



CAPITULO V 

Sumário: Relata-se a gerência do administrador Botelho de 
Almeida, de 1779 a 1816 — Quem era este sujeito — 
Lucros da Fábrica de 1779 a 1812 — Um projecto de 
José Joaquim Terrier — Citam-se outras oficinas cerâ- 
micas — Obras na Fábrica do Rato — Falta de lenha e 
de carvão em 181 1 — Artistas que trabalharam no Rato, 
neste período — Oleiros e pintores. — Os azulejos do 
Rato — Citam-se algumas obras aqui feitas — O seu 
«tipo» — As oficinas da Bica do Çapato e do Rato pro- 
duzindo o mesmo azulejo — Entra em scena o Dr. Joa- 
quim Rodrigues Milagres — Quem era o Inventor da 
nova loiça — Uma hipótese admissível — Introduz-se 
na Real Fábrica e principiam os ensaios — Favor real 
que lhe era dispensado — Primeiras questões comi a 
Direcção e excessivas despesas com o novo Invento 

— Requere Milagres se lhe trespasse a Fábrica — O 
projecto dos irmãos Raposos, sobrinhos de Bartolomeu 
da Costa — Ideia de uma outra loiça fina — Nada se 
resolve — Exames e avaliações à loiça do Dr. Milagres 

— Lucros fictícios e prejuízo real — Outro projecto 
do negociante Luís António da Costa — Botelho de 
Almeida pede a demissão de Administrador da Real 
Fábrica — Nova discussão sobre a loiça do Milagres — 
O Procurador Fiscal e o Guarda-Livros, alheiam-se da 
questão e o Doutor irrita-se e reclama para S. A. R. 

— Uma carta insultuosa e ameaçadora — Morrem o 
Botelho e o Milagres — Cessa a questão — O segredo 
do «pó de pedra» que era faiança — Diz-se a «receita» 

ao leitor 97 



— 62'7 — 



CAPITULO VI 



Pág. 



Sumário: A infeliz administração de Vandelli — Luta entre 
a Teoria e a Prática — Mestre e Administrador incom- 
patibilizados — Acusações, queixas e intrigas — A «gafe» 
dos três hemisférios — A Procuradoria Fiscal e a Di- 
recção resolvem o problema, ficando tudo na mesma 
— O negócio do azulejo; diz-se qual era e como era — 
Vários tipos de azulejo feitos na Fábrica — Vinda dos 
barros de Leiria e venda de loiça para essa região — 
O projecto de Mateus Pereira Pacheco — Um adian- 
tamento ao Mestre Paula e Oliveira — Vandelli acu- 
sa-o de novo — Devassas e inquéritos sem resultado — 
Dois projectos dos negociantes de loiça Inácio Pereira 
Guimarães e Vicente José — O combustível empregado 
na Fábrica — Ensaios com os barros de Cascais feitos 
por Salvador Luís e Silva Franco — Vêm para a fábrica 
barros de Molelos — O dr. Tomé Roiz Sobral e a sua 
acção na oficina : castigos, abusos do pessoal, preços 
e leilões — Os Armazéns da Fábrica na rua do Arsenal 
e na Rua Bela da Rainha — Perda de fornadas — É a 
Fábrica avisada de que vai vender-se — Susta-se a or- 
dem — Os ensaios felizes de Salvador Luís — Renasce 
a questão Vandelli-Paula e Oliveira — Sai Vandelli da 
Administração — Reclamação sua — Mais dois preten- 
dentes à Fábrica do Rato — Superintendência do bri- 
gadeiro Francisco Amónio Raposo, de 1823 a 1829 — 
Quesitos postos à Direcção da Fábrica das Sedas — 
Dividem-se os pareceres — Outro engenho de moer 
vidro — Encomenda para a quinta real do Rio de Ja- 
neiro, e o busto de D. João VI feito por Salvador 
Luís — Intervêm os mestres da Aula de Desenho — 
Abatimentos nas vendas e leilões — A administração 
do brigadeiro Raposo — Outro pretendente à oficina 
do Rato 117 



CAPITULO VII 

Sumário : A administração do Brigadeiro Francisco Antó- 
nio Raposo — Experiências infelizes — A Fábrica do 



' — 628 - 

Pág. 

Rato em ruína — Citam-se as suas instalações — O 
novo Administrador Teixeira Girão — Quem era este 
sujeito — As suas opiniões sobre a Fábrica — Uma 
aula de Química e outra de Desenho — Propõe-se um 
professor e um compêndio — A sua receita quanto à um 
novo «biscoito» — O estado precário da oficina — Obras 
e despesas — Citam-se alguns artífices e empregados — 
O Mestre de pintura Joaquim José Guimarães — Su- 
cede na Administração Francisco António Chaves — 
Reduções de despesas e de pessoal — Economias e 
mais economias — Vai a Fábrica à praça em i835 e 
acaba o estabelecimento — Citam.-se algumas fáljricas 
de loiça em Lisboa — As descobertas de Bartolomeu 
da Costa, de Drouet e de Brocard — José Manso Pe- 
reira faz experiências com a «Tabatinga» — As peças 
atribuídas a Bartolomeu da Gosta — O serviço de chá 
da Exposição de Cerâmica do Porto em 1882 — A 
baixela da inauguração da estátua equestre — Outra 
baixela de porcelana, alegórica — A loiça do «Ratinho» 

— Acaba o capítulo com uma transcrição da Cerâ- 
tnica Portuguesa de José Queirós 143 

CAPÍTULO VIII 

Sumário : Achamo-nos, o leitor e eu, no Jardim das Amo- 
reiras — Apontam-se as quintas em que se recortava 
aquele terreno e os caminhos que as serviam — A classe 
dos Fabricantes de Sedas — É projectado um bairro 
para ela — Escolhe-se na vizinhança da Casa da Água- 

— O primitivo plano do engenheiro Carlos Mardel — 
Sua vastidão — Retraimento da iniciativa particular 

— O "Real Colégio das Manufacturas» sonhado por 
Pombal — É ordenado o começo da obra — Afora- 
mento dos terrenos — As barracas provisórias de 1755 

— Planta-se a Praça, de amoreiras — A amoreira do 
Marquês — O abarracamento dos Carmelitas Calçados 

— Transfere-se para o Carmo a Imagem de Nossa 
Senhora em 1758 — Origem de alguns nomes das ruas 
bairristas — As travessas da Légua da Póvoa, da Lebre, 
das Bruxas, de S. Francisco Xavier, do Alto de S. Fran- 



— 629 — 

Pág. 
cisco, etc. — A Fábrica dos Pentes — Diz-se o que lá 
se fabricava e citam-se os seus mestres — A «tarta- 
ruga do Alentejo» — A Fábrica de Caixas de Cartão e 
Vernizes — Dois incêndios — Trespassa-se a Fábrica dos 
Pentes e arremata o fabrico e o contrato do marfim, 
o Erário Régio — Reivindicações operárias — Faz-se 
uma lista dos artífices — Citam-se os pintores que tra- 
balharam na Fábrica das Caixas, e enumeram-se os seus 
artefactos — As iniciativas de La Croix — O atrazo da 
indústria nacional no século xviii — A Fábrica de Cute- 
laria — Mencionam-se os Mestres e alguns artífices — 
Faz-se uma lista dos artefactos que lá se produziram 
— A Oficina de Ferragem de Cirurgia — Um mestre 
de fazer lancetas — Mencionam-se várias outras fábri- 
cas semelhantes — A Fábrica de Relójios — O génio 
irrascível de Berthet — Lista dos oficiais da oficina — 
O progresso no tempo de Durand — Os relojoeiros que 
lhe sucederam — Um relójio feito para o coleccionador 
Marquês de Marialva — Mencionam-se alguns relójios 
e alguns relojoeiros — Oficinas em Lisboa, Santarém, 
Maia e Barcelos, e na índia, Brasil e Moçambique — O 
carrilhão de Alcobaça i6i 



CAPITULO IX 

Sumário: Continua-se a matéria do capítulo antecedente — 
Uma digressão a propósito de relójios — De Frei João 
da Comenda a Cláudio Berthet — O príncipe D. Teo- 
dósio fabricante de relójios — Citam-se vários relójios 
e relojoeiros — Fábricas de Serralheria em Lisboa e 
Pernes — Os Schiappas-Pietras — Progressos destas ofi- 
cinas — Diz-se o que lá se fabricava — Encomendas im- 
portantes — Um trono-jaulaparael-reiD.José, mandado 
fazer por Pombal — Fábrica de Limas em Alcântara 
— Diz-se o que se fabricava nestas oficinas — A Fá- 
brica de Botões e a de objectos de estanho de Giulia- 
netti — Reclamações dos latoeiros — As abotoaduras 
setecentistas — Botões de estanho, casquinha e prata — 
Citam-se algumas oficinas metalúrgicas da época — A 
Fábrica de Fundição de Metais — Manufacturas pro- 



— 63o — 



Pág. 



postas para a sua importação ser proibida — Leiloa-se 
a Fábrica — Uma tapeçaria encomendada pelo Conse- 
lheiro Sobral — Outra fábrica em Estremôs — Outra 
vez a Oficina de charões, vernizes e caixas — Suas vi- 
cissitudes — A Aula de Estuque e Desenho — Seus dis- 
cípulos e'aprenJizes — Reclamação contra os estuca- 
dores, não habilitados — Uma lista de fábricas pomba- 
linas privilegiadas — Os documentos da «Junta da Admi- 
nistração das Fábricas» e a História da Indústria Por- 
tuguesa 202 

CAPÍTULO X 

Sumário : A capela de Nossa Senhora de Monserrate — Sua 
fundação — Citam- se dois alvarás régios — Faz-se a 
trasladação para a nova ermida — Algumas palavras 
sobre a Irmandade — Sua constituição e compromissos 
— Os fabricantes de largo e de estreito — Descreve-se 
o templo minuciosamente — Os seus belos azulejos — 
Obras antigas e festividades diversas — A primitiva 
Feira — A Princesa da Beira e a criação dos bichos de 
seda — O arraial e romaria dos Prazeres — Sua ori- 
gem — É transferido para Campo de Ourique e de- 
pois para as Amoreiras — Notícias sobre a romaria dos 
. Prazeres — A feira das Amoreiras — Transcreve-se uma 
descrição de Júlio César Machado —As barracas das 
figuras de sêra — Descreve-se uma — Os teatros — A 
barraca dos Dallots — Algumas notas sobre estes co- 
mediantes — Para onde passou a Feira — Modifica-se o 
bairro — Uma vista de olhos pela antiga Colónia Fa- 
bril — O registo de azulejos da rua das Amoreiras — 
Um teatro bairrista — A toponímia da rua e dos pontos 
próximos 235 



CAPITULO XI 

Sumário : De Entremuros à rua de Artilharia i — Variadas 
designações deste local — O «vasadouro» de lyiS — Um 
concerto instrumental e vocal numa «casa de pasto» — 



— 63i - 



Pág. 



Outras quintas — O Pátio do Geraldes — Descreve-se 
a casa actual e o antigo convento dos Oratorianos — A 
ermida, as imponentes chaminés, o palácio e suas de- 
pendências — Informação do Padre Manuel Portal — 
Volta-se ao Rato e à quinta de D. Elena — A invasão 
dos foragidos da cidade em lySS — Uma povoação de 
barracas — Luxo e miséria — Os que habitaram a 
quinta de D. Elena — Procissões, penitências e preces 
— O pavor dos terremotos em ij55 e 1756 — O trá- 
gico-pitore?co do local — As duas quintas dos Padres 
Quentais — Os seus moradores ilustres em 1756 — Bar- 
racas opulentas — Os oratórios e o culto — Visitas e 
embaixadas ao Cardial Patriarca aqui abarracado — 
Instalam-se na quinta a Relação Patriarcal e o Senado 
da Câmara — É vendida a casa e quinta dos Padres 
Quentais -^ Gompra-as o Desembargador Bartolomeu 
José Nunes Cardoso Geraldes de Andrade — Diz-se 
quem era o comprador e fala-se na sua família 26'i 



CAPITULO XII 

Sumário: CompÕe-se a lista dos moradores do Palácio dos 
Geraldes — Uma reclamação da proprietária da quinta 

— Continua a história da casa — As reuniões de Mi- 
guel do Canto — Mora no «Geraldes» o Marechal Du- 
que de Saldanh — Os seus serões — D. António da ' 
Costa, descreve o 19 de Maio — Os últimos inquilinos 

— Notáveis moradores de Entremuros — Os Palácios 
Balsemão, Costa e Silva e outros e a «Casa de Saúde-j 

— Mais gente notável — O leilão do Conde de Rhode 

— O Quartel de Artilharia — O achado de um brasão 

— Promete-se estudar logo o assunto — A casa e quinta 
do Guarda-mor — O casal Monte-Almeida e as quintas 
que o formaram — Os comícios da Torrinha e a «Feira 
de Agosto» — A célebre questão do Parque Eduardo VII 

— Esboça-se o seu início e desiste-se de contá-la — As 
obras do Parque, o 5 de Outubro. . . e o resto — O 
«Sebastianismo» dos lisboetas — As obras actuai?, os 
pavilhões, o lago e a «Estufa fria» — O ódio à árvore. . 381 



— 632 — 



CAPITULO XIII 

Pág. 
Sumário : Elogio da água — O que das águas de Lisboa dis- 
seram Duarte Nunes do Lião, Luís Mendes e Marinho 
de Azevedo — Propriedades milagrosas e medicinais da 
água do chafariz de El-Rei — As vozes e os rostos das 
mulheres de Lisboa — As supostas Termas e o Aque- 
duto romano — Noticiam-se as sucessivas descobertas 
do Reservatório da rua da Prata — O que há de ver- 
dade sobre a matéria — As Conservas da Água já 
aproveitadas pelos engenheiros pombalinos — A Baixa 
no tempo da dominação romana — As galerias do Ros- 
sio e do Arco do Marquês de Alegrete — O nome pri- 
mitivo do chafariz de El-Rei — Aumenta a população e 
falta a água — Os cercos de ii85 e i373 — A sede dos 
sitiados — D. João II e os chafarizes — O poço do Ros- 
sio em tempo de D. Manuel — Os projectos para a con- 
dução da água do chafariz de Andaluz — Brigas junto 
às fontes públicas — A postura das Bicas em i55i — 
Como se abastecia de água a Lisboa quinhentista — 
Relação de todos os poços e chafarizes em i552, se- 
gundo o Tratado da Magestade, Grandesfa e Abastança 
da Cidade de Lisboa, escrito por João Brandão — For- 
necem-se ao leitor indicações topográficas de todos 
esses mananciais de água 3o3 

CAPÍTULO XIV 

Sumário : Um projecto quinhentista de condução de água 

— O poeta narrador de 1626 — Os chafarizes dos Ca- 
valos e de El-Rei e a Bica do Çapato — Os vendedores 
ambulantes no século xvi — Moiros, negros e galegos 

— O projecto imaginoso de Francisco de Olanda — 
Analisa-se o desenho da Fonte dos Elefantes — A sede 
em Lisboa em i5i6 — Procissões rogativas — Diligên- 
cias para a condução da Água Livre no reinado de 
D. Sebastião — Lançamento de imposições sobre a 
carne e o vinho — A condução da água de Andaluz para 
o Rossio — Os preços da água em 161 1 — Propõe-se o 
Senado trazer a Lisboa a Água Livre — As ideias do 
primeiro Filipe a este respeito — Exames e vistorias — 



— 633 — 



Pág. 



O Roteiro da Agua Livre de Pêro Nunes Tinoco — 
Medições até o Moinho de Vento — Outros exames 
— Curiosos desenhos de Tinoco — O portal da quinta 
dos Apóstolos, o Noviciado da Cotovia e os Fornos 
da Louça — Prosseguem as diligências da Câmara — 
Gomo o monarca intruso dificultava a obra, parecendo 
patrociná-la — Visita de El-Rei à Água-Livre — Con- 
tinua o duelo entre a Câmara e o Soberano — O «papel» 
de Leonardo Turriano — Os quatro projectos do Aque- 
duto — Onde se fala no aqueduto romano e na fonte 
de Santo André — Ordena El-Rei uma nova vistoria — 
Continua o chafariz de El-Rei a dessedentar_a cidade.. 329 

CAPÍTULO XV 

Sumário: Condução da água de Cheias — Compra-a o Se- 
nado — Litígio entre a Câmara e os herdeiros do ven- 
dedor — Condução da água ao Terreiro do Paço — 
Preços da água no século xvn — Desordens nos chafari- 
zes — A fonte do Salgado — É distraída a água das 
fontes públicas da Horta-Navia, Anjos e Samaritana — 
Demandas enfadonhas — A bica dos Olhos de Agua — 
Os banhos do cirurgião Guilherme e o Enviado de 
Inglaterra — Apresenta um projecto para levar a água 
ao Bairro Alto, um António de Miranda — Malogro da 
primeira experiência — ,0 projecto de Teófilo Dupi- 
neaut — Sua demorada análise — O parecer do Síndico e 
dos Procuradores da Câmara — Onde se mostra por que 
tal projecto não foi avante — Turva-se a água do Cha- 
fariz de El-Rei — Descobrem-se-lhe duas novas nascen- 
tes — Seca o chafariz do Rossio — Um vedor de águas, 
Visiense, em Lisboa — Entaipa-se a porta da ermida da 
Água-Livre — A fraude das quartas de barro — Pos- 
tura municipal — Desavêem-se os oleiros e os aguadei- 
ros — O projecto de António Júlio de La Pomarée — 
A sede de Lisboa — Aproxima-se a obra — Repar- 
tem-se por Cláudio Gorgel e por D. João V os elogios 
devidos aos propugnadores e iniciadores da obra das 
Aguas Livres — Opinião dos vereadores e procuradores 
acerca do tributo a lançar-se — Orçamentos e cálcu- 
los '... '. 353 



— 634 — 



CAPITULO XVI 



Pág. 



Sumário: Sai o decreto mandando começar a obra — Isen- 
ta-se a Câmara do pagamento das sisas — Principiam 
os trabalhos — Os protestos do clero e o princípio da 
autoridade régia — Funda-se a primeira Sociedade de 
pedreiros construtores — Várias irregularidades — O 
prior de São Nicolau dirigindo as obras — Empréstimos 
e dívidas — Pareceres técnicos acerca da matéria dos 
canos — Abusos e reclamações — O projectado Aque- 
duto Monumental de São Pedro de Alcântara e a 
«Mãe de Agua» — Expropriações neste local — Um so- 
neto ao chafariz — O que era o Sequeiro de São Roque 

— Vicissitudes passadas da actual Alameda — A histó- 
ria de uma grade e os suicídios — Adiantam-se os tra- 
balhos das Aguas Livres — Informações do Mercúrio 
Histórico de Lisboa — Concorrência do povo à Senhora 
de Santana e a Campolide — Outras Sociedades de Pe- 
dreiros — Questões várias — Custo total da obra — Ver- 
bas extravagantes incluídas na conta do Aqueduto — 
Em que mãos esteve a administração da obra — Apon- 
tam-se os técnicos que a dirigiram 375 

CAPÍTULO XVII 

Sumário : Descrevem-se o Aqueduto e a «Casa da Água» nas 
Amoreiras — As antigas e modernas inscrições do Arco 
Grande das Amoreiras — Conclui-se a Casa da Água — 
Enumeram-se as várias galerias abastecedoras dos cha- 
farizes — Notas sobre as fontes do Bairro — A pedin- 
chice dos «sobejos» — A «Junta» tentando defender a 
água dos apetites particulares — O povo pede que se 
distribua a água por novas fontes — Medições, visto- 
rias e estudos — Começa a acentuar-se a falta de água 

— Providências municipais — Uma «partida» do Val- 
verde para acudir à seca do chafariz do Loreto — Vá- 
rias leis, editais, posturas e providências diversas sobre 
aguadeiros, chafarizes, preço da água, etc. — A Câmara 
Municipal herda o legado da Junta das Águas Livres 

— Os últimos retoques no Aqueduto — A estiagem de 



— 635 — 



Pág. 



i833 — o corte das Águas Lavres — Boatos terroristas 

— Medidas adoptadas pelo Governo — Novas estiagens 

em 1834, 1839 e 1840 — Continuação da falta de água.. 403 

CAPÍTULO XVIII 

Sumário : Ainda a falta de água — As ideas de Estevão 
Cabral em 1791 — O exército dos aguadeiros — Fran- 
cisco Sodré apresenta, em 1823, o seu fantasioso pro- 
jecto de abastecimento de água em carros de bois — 
Segundo projecto do General António Bacon — Ter- 
ceiro projecto de Francisco Martins em 1847 — Um 
dilúvio de propostas e de planos — Abrem-se concur- 
sos para o abastecimento de água — Várias leis e pro- 
vidências — Quarto projecto de Duarte Cardoso de Sá. 

— Cria-se em i855 a Companhia das Águas — Citam-se 
as dificuldades que teve de vencer — Anulação do pri- 
meiro contrato — Faz-se segundo contrato em 1867 — 
Iniciam-se os trabalhos — Traçado do canal do Al- 
viela e orçamento da obra — Sua inauguração na cerca 
dos Barbadinhos em 1880 — A célebre questão da pas- 

• sagem dos Arcos das Águas Livres — Castilho defende 
a proibição — Os suicídios e os lendários crimes de 
Diogo Alves — Fecha-se a passagem — Destino de al- 
gumas figuras de pedra dos chafarizes — Apontamento 
final sobre a falta de água — Comissões, estudos, de- ■ 
cretos e questões — ^Resolver-se-á o problema ? 423 

CAPÍTULO XIX 

Sumário : São João dos Bemcasados — Refere-se a história da 
fundação da ermida de Nossa Senhora da Boa Sen- 
tença — A promessa de um soldado de Alcácer-Quibir 

— As nove invocações de Nossa Senhora — Funda-se 
a ermida do Cabeço do Alperche — A imagem de São 
João Baptista — Em que se procura a razão do nome 
de São João dos Bemcasados — Pede-se auxílio a Diogo 
de Paiva de Andrade e a D. Francisco Manuel de Melo — 
O «assento» da Câmara de i385 contra a barriguice de 
casados — A quem pertencia a capela no século xviii 



— 636- 



Pág. 



— Dois esboços topográficos — É demolido o templo- 
zinho — A casa nobre dos Anadias — Serve de hospe- 
dagem ao infantinho D. Carlos — Notas biográficas 
deste príncipe — Frequentes visitas régias a São João 
dos Bemcasados — Invocam-se as figuras do «César pol- 
vilheiro» e da «Mulher do cavalo branco» — Passa a 
casa ao Secretário de Estado Aires de Sá e Melo — 
Reside lá D. Joana Perpétua de Bragança — Notas bio- 
gráficas desta fidalga — O seu sumptuoso e festejado 
casamento — As dívidas do Marquês de Cascais — Arde 
o palacete de São João dos Bemcasados em 1780 — 
Hospeda-se D.Joana Perpétua no convento do Rato — 
Morre em 1785 — A sua notável correspondência com 
D. João Carlos de Bragança — Precioso repositório de 
notícias do tempo — Outros hóspedes reais em São 
João dos Bemcasados — Algumas palavras sobre os 
Anadias — Alojam-se no palacete um general francês 
em 1808 e os generais ingleses em 181 1 — Obras em 
1821 e i83o — Outros moradores — A moderna ca- 
pela da casa Anadia — Enumeram-se os seus quadros e 
imagens 441 

CAPÍTULO XX 

Sumário : Um artigo de Bulhão Pato, sobre a «Casa Ana- 
dia« — Preciosidades que lá se continham — Quadros 
de Vieira Portuense e de Sequeira — A baixela de prata 
e as jóias — As festas em casa do Conde de Anadia — Os 
habituais convivas — Apreciação que Bulhão Pato fez 
do popular Conde de Anadia — Um raro exemplar de 
faiança — O teatrinho do Palácio — O Palácio Real de 
Campo de Ourique — A rua de São João dos Bemca- 
sados— A Joaninha Italiana — A rua do Portal de São 
João — A questão dos Polvoristas — A Fábrica da rua 
Formosa — São intimados a sair de lá os Polvoristas — 
Marca-se-lhe local para a Fábrica em São João dos 
Bemcasados — Resistem econseguem vencer o Senado 
da Câmara — Duas terríveis explosões de pólvora em 
1576 e 1745 — Casos extraordinários que então se deram 

— A Torre da Pólvora e as casas da Pólvora — A casa 



— 637 — 

Pãg. 

dos Laguares — O Arco do Carvalhão — Diz-se quem 
era este Carvalhão — Ghega-se à Crwf das Almas — 
Onde era, e o que era a Cruz de São João dos Bemca- 
sados — O portão n.° 221 da rua das Amoreiras — Esta- 
belece-se uma hipótese aceitável — O brasão dos Re- 
belos e o portal sobre que ele assentava — De quem 
eram as casas que tinham a cruz — A ermida da Cruz 
das Almas — Diz-se quem foi o fundador — Descre- 
ve-se o interior — Um lindo rodapé de azulejos do Rato 

— Descrevem-se as alegorias da composição — Um 
Batalhão Nacional aquartelado neste sítio — O Instituto 
Branco Rodrigues — A casa deJwwí! 469 

CAPÍTULO XXI 

Sumário : O antigo caminho da Circunvalação e a travessa 
de São Francisco Xavier — Como era o local ao tempo 
do terremoto — A quinta do Noviciado da Cotovia — 
Sua [história — Criação da Penitenciária — Referem-se 
os engenheiros que dirigiram a obra — Sua conclusão — 
Algumas considerações acerca desse regime penal — 
O desenvolvimento da cidade perante a Penitenciária 

— Um quartel moderno — Prossegue-se o passeio pela 
Circunvalação — A quinta dos Duques de Aveiro, de- 
pois do Seabra — Um incêndio no Palácio — Como se 
formaram as terras do Seabra — A casa e quinta do " 
Malheiro — Hospeda-se lá o Infante D. Carlos — Quem 
eram estes Malheiros —Dá-se notícia do palacete— O 
que resta dele — A estrada de Campolide — As proprie- 
dades antigas e o moderno bairro — O Asilo de São 
Patrício — A casa e quinta da Torre de Estêvão Pinto 
de Morais Sarmento — Algumas notícias sobre a sua 
família — Como foi parar às mãos do poeta João de 
Lemos — Compra-a o Padre Radmaker para instalação 
do Colégio de Campolide — Notícias biográficas deste 
clérigo— Uma anedota do Marquês de Penalva — Como 
se fundou o Colégio de Campolide — Obras, aumentos 

e desenvolvimento da instituição — Expulsão dos pa- 
dres — O destino do edifício — O moderno bairro de 
Campolide 5oi 



— 638 — 
CAPÍTULO *XXII 

Páb. 
Sumário: Uma vista de olhos sobre o Vale de Alcântara — 
A ermida da Senhora Sant'Ana da quinta de Sebastião 
José de Carvalho — A devoção e o engenho do ermitão 
cego José Soares de Oliveira — Um manto oferecido 
por D. João VI — O Asilo de Espie Miranda — O no- 
víssimo bairro de Campolide e as suas barracas — Inau- 
guração de uma nova capela e de uma escola — Per- 
corre-se o Vale de Alcântara desde o «Casal do Grilo» 
à Pimenteira — As «quintas do Inferno» e «do Sargento- 
-Mór» e do «Cabrinha» — Uma paragem a propósito 
dos «Cabrinhas» e de D.Francisco Manuel de Melo — 
Divaga-se sobre as fortificações de Lisboa — Os planos 
de Francisco de Olandn — Projectos do Marquês de 
Castelo Rodrigo em 1625 e do de Montalvão em 1646 — 
D. João IV ordena à Câmara o início das obras — 
Schomberg encurta a linha defensiva da capital — Con- 
tinuam as obras — Providências em 1701 — Os enge- 
nheiros pombalinos pensam de novo na fortificação — 
Os redutos da Atalaia e de Campolide — Evoca-se o 
ataque das tropas realistas a Lisboa, em i833 — A luta 
no bosque de Palhavã — Episódios do cerco — Os ge- 
nerais do exército liberal — E levantado o cerco e Sal- 
danha cumpre a sua promessa — O fim da luta fratri- 
cida — Considerações gerais sobre o desenvolvimento 
da cidade — Acaba a obra 533 

Notas finais 563 

Retoques e aditamentos ao volume primeiro SyS 

Retoques e aditamentos ao volume segundo . 584 

Retoques e aditamentos ao volume terceiro 606 

Resenha das ilustrações deste volume G21 







ERRATAS 




Pág- 


Linha 


Onde se lê: 




Deve ler-se : 


4 


I 1 


estave 




estava 


28 


20 


séquito, ou ele só 
rou-se 


demo- 


séquito, ou êle só, de- 
morou-se 


40 


16 


espelhante 




espelhenta 


57 


29 


caractizaram 




caracterizaram 


73 


9 


estrangeira 




estranjeira 


79 


18 


Justamente 




Justamante 


1 10 


5 


coçtesãs 




cortesãs 


114 


12 


ela 




êle 


114 


i5 


e de argila 




e argila 


120 


23 


valorizarr 




valorizar 


122 


3 


Atacaram seu cré 


dito 


Atacaram seu crédito 


i5o 


'7 


mencionaa 




menciona 


i53 


22 


serenissimo 




seriíssimo 


20 5 


34 


alvarás 




alvarás 


209 


4 


farça 




farsa 


211 


25 


Gulianetti 




Giulianetti 


232 


27 


Uheco 




Nheco 


239 


27 


ediculo 




èdiculo 


240 


6 


alisare 




alisar 


243 


24 


seu 




sua 


257 


I 


atravessado 




atravancado 


262 


I e 2 


revia 




se via 


267 


4 


telha 




talha 


279 


5 


Abadines 




Abadim 


293 


2t 


Valucci Manson 




Valucci, Manson 


299 


II 


50^000 réis, 




500.3)000 réis 


325 


14 


Fonte do Frol 




Fonte da Frol 


353 


5 


destraída 




distraída 


354 


5 


até trese desde, 




até trese, desde 


38 1 


»7 


pasando 




passando 


387 


4 


Academia de Belas 


Artes 


Escola de Belas Artes 


4i3 


12 


a legaram 




alegaram 



Pig. 


Linha 


Onde SC lê: 


465 


2Q 


gedtilissima 


482 


24 


1754 


482 


26 


Julho 


5o6 


l3 


perpendiculor 


5l2 


12 


desampenhou 


528 


2 


espoeiras 



— 640 — 

IJeve ler-se: 

gentilíssima 

1654 

Junho 

prependicular 

desempenhou 

capoeiras 

A páginas 384, o segundo parágrafo é quási ininieligível Onde 
se lê ; por cansa da Junta das Aguas Livres lhes não querer pa- 
gar, por cheios, os vãos dos arcos da Ribeira de Alcântara com o 
fundamento de não por terem mais dos trinta palmos estipulados 
no referido contrato, deve ler-se por causa da Junta das Aguas Li- 
vres, lhes não querer pagar, por cheios, os vãos dos arcos da Ri- 
beira de Alcântara, com o fundamento de terem mais dos trinta 
palmos estipulados no referido contrato, etc. 



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hiatos Sequeira, Gustavo de 
Depois do terremoto 









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